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MISSÃO DA UNIVERSIDADE

Queridos jovens estudantes!
O que é que pode e deve dizer o Papa no encontro com a universidade da sua cidade? Reflectindo sobre esta questão, pareceu-me que a mesma incluísse outras duas, cujo esclarecimento por si mesmo havia de levar à resposta. Com efeito, é necessário interrogar-se: Qual é a natureza e a missão do Papado? E ainda: Qual é a natureza e a missão da universidade? Não quero aqui demorar-vos, a vós e a mim, com prolongadas indagações sobre a natureza do Papado. Uma breve menção é suficiente. O Papa é primariamente Bispo de Roma e como tal, em virtude da sucessão do Apóstolo Pedro, detém uma responsabilidade episcopal por toda a Igreja Católica. A palavra "bispo" - episkopos, cujo significado imediato é o de "sentinela", já no Novo Testamento se fundiu com o conceito bíblico de Pastor: é alguém que olha o conjunto de um ponto de observação mais elevado, cuidando do recto caminho e da coesão da totalidade. Neste sentido, tal designação da sua missão aponta antes de mais para o interior da comunidade crente. O Bispo o Pastor é o homem que tem cuidado desta comunidade; é aquele que a conserva unida, mantendo-a no caminho para Deus, que foi indicado, segundo a fé cristã, por Jesus e não somente indicado: Ele mesmo é, para nós, o caminho. Mas, esta comunidade da qual o Bispo se ocupa seja ela grande ou pequena vive no mundo; as suas condições, o seu caminho, o seu exemplo e a sua palavra influem, inevitavelmente, sobre o resto da comunidade humana inteira. Quanto maior ela for, mais a sua condição salutar ou então uma eventual degradação se repercute no conjunto da humanidade. Salta hoje aos nossos olhos, com grande clareza, como as condições das religiões e como a situação da Igreja as suas crises e as suas renovações influem no conjunto da humanidade. Assim o Papa, precisamente como Pastor da sua comunidade, foi-se tornando cada vez mais também uma voz da razão ética da humanidade. Porém, aqui levanta-se imediatamente uma objecção, ou seja, que o Papa, de facto, não falaria verdadeiramente com base na razão ética, mas tiraria as suas conclusões da fé e, por isso, não poderia pretender a validade das mesmas para quantos não partilham desta fé. Havemos ainda de voltar a este tema, deixando-o por agora porque se levanta aqui a questão absolutamente fundamental: O que é a razão? Como pode uma afirmação sobretudo uma norma moral demonstrar-se "razoável"? Aqui gostaria, brevemente apenas, de relevar que John Rawls, embora negando às doutrinas religiosas compreensivas o carácter da razão "pública", todavia vê na sua razão "não pública" pelo menos uma razão que não poderia, em nome de uma racionalidade secularizadamente insensível, ser simplesmente desconhecida por aqueles que a defendem. Para além do mais, ele vê um critério desta razoabilidade no facto de tais doutrinas derivarem de uma tradição responsável e motivada, tendo sido durante um longo período desenvolvidas argumentações suficientemente boas em defesa da respectiva doutrina. Nesta afirmação, parece-me importante o reconhecimento de que a experiência e a demonstração ao longo das gerações a base histórica da sabedoria humana constituem também um sinal da sua razoabilidade e do seu significado duradouro. Diante duma razão não histórica que procura autoconstruir-se somente numa racionalidade não histórica, a sabedoria da humanidade como tal a sabedoria das grandes tradições religiosas deve ser valorizada como realidade que não se pode impunemente lançar para o cesto da história das ideias. Voltemos à pergunta inicial. O Papa fala como representante de uma comunidade crente, na qual, durante os séculos da sua existência, amadureceu uma determinada sabedoria da vida; fala como representante de uma comunidade que guarda em si um tesouro de conhecimento e de experiência ética, que se revela importante para toda a humanidade: neste sentido, fala como representante de uma razão ética. Mas agora devemos interrogar-nos: O que é a universidade? Qual é a sua missão? É uma questão colossal, à qual mais uma vez me é possível tentar responder, em estilo quase telegráfico, com algumas observações. Penso que se possa afirmar que a verdadeira e íntima origem da universidade esteja na sede de conhecimento, que é própria do homem. Este quer saber o que é tudo aquilo que o circunda. Quer a verdade. Neste sentido, podemos ver o questionar-se de Sócrates como o impulso do qual nasceu a universidade ocidental. Penso, por exemplo para mencionar somente um texto na disputa com Eutifrone, que diante de Sócrates defende a religião mítica e a sua devoção. A isto, Sócrates contrapõe a pergunta: "Tu acreditas que entre os deuses exista realmente uma guerra recíproca e terríveis inimizades e combates... Teremos nós, Eutifrone, de afirmar que tudo isto é verdade?" (6 b-c). Nesta pergunta, aparentemente pouco devota mas que, em Sócrates, derivava de uma religiosidade mais profunda e mais pura, ou seja, da busca do Deus verdadeiramente divino , os cristãos dos primeiros séculos reconheceram-se a si mesmos e ao seu caminho. Acolheram a sua fé não de forma positivista, ou como a via de fuga de desejos não realizados; compreenderam-na como uma diluição da neblina da religião mitológica para deixar espaço à descoberta daquele Deus que é Razão criadora e, ao mesmo tempo, Razão-Amor. Por isso, o interrogar-se da razão sobre o Deus maior e também sobre a verdadeira natureza e o autêntico sentido do ser humano era, para eles, não uma forma problemática de falta de religiosidade, mas fazia parte da essência do seu modo de ser religiosos. Por conseguinte, eles não tinham necessidade de diluir ou abandonar o questionar-se socrático, mas podiam, aliás deviam, acolhê-lo e reconhecer como parte da sua própria identidade a árdua busca da razão para alcançar o conhecimento da verdade inteira. Assim podia, aliás devia, no âmbito da fé cristã, no mundo cristão, nascer a universidade. É necessário dar mais um passo. O homem quer conhecer; quer a verdade. Esta é primariamente algo que diz respeito ao ver, ao compreender, à theoría, como a denomina a tradição grega. Mas, a verdade nunca é apenas teórica. Agostinho, ao estabelecer uma correlação entre as Bem-Aventuranças do Sermão da Montanha e os dons do Espírito mencionados no capítulo 11 de Isaías, notou uma reciprocidade entre "scientia" e "tristitia": o simples saber disse deixa-nos tristes. E realmente quem se limita a ver e apreender tudo aquilo que acontece no mundo, acaba por ficar triste. Mas, verdade significa mais do que saber: o conhecimento da verdade tem como finalidade o conhecimento do bem. Este é também o sentido do questionar-se socrático: Qual é o bem que nos torna verdadeiros? A verdade torna-nos bons, e a bondade é verdadeira: tal é o optimismo que vive na fé cristã, porque a esta foi concedida a visão do Logos, da Razão criadora que, na encarnação de Deus, se revelou conjuntamente como o Bem, como a própria Bondade. Na teologia medieval, houve uma disputa profunda sobre a relação entre teoria e prática, sobre a justa relação entre conhecer e agir uma disputa que não cabe aqui desenvolver. Com efeito, a universidade medieval com as suas quatro Faculdades apresenta esta correlação. Comecemos pela Faculdade que, segundo a compreensão da época, era a quarta: a de Medicina. Não obstante fosse considerada mais como "arte" do que como ciência, todavia a sua inserção no cosmos da universitas significava claramente que estava colocada no âmbito da racionalidade, que a arte de curar se encontrava sob a guia da razão, subtraindo-se ao âmbito da magia. Curar é uma missão que exige sempre mais do que a simples razão, mas por isso mesmo precisa da conexão entre saber e poder, tem necessidade de pertencer ao campo da ratio. Inevitavelmente levanta-se a questão da relação entre prática e teoria, entre conhecimento e agir, na Faculdade de Jurisprudência. Trata-se de atribuir a justa forma à liberdade humana, que é sempre liberdade na comunhão recíproca: o direito é o pressuposto da liberdade, e não o seu antagonista. Mas aqui levanta-se a questão: Como se individualizam os critérios de justiça que tornam possível uma liberdade vivida em conjunto e favorecem o ser bom do homem? Nesta altura, impõe-se dar um salto ao presente: É a questão do modo como se pode encontrar uma normativa jurídica que constitua um ordenamento da liberdade, da dignidade humana e dos direitos do homem. É a questão que nos ocupa hoje nos processos democráticos de formação da opinião e que, ao mesmo tempo, nos angustia porque problemática para o porvir da humanidade. Na minha opinião, Jürgen Habermas exprime um vasto consenso do pensamento contemporâneo, quando afirma que a legitimidade de uma carta constitucional, como pressuposto da legalidade, derivaria de duas fontes: da participação política igualitária de todos os cidadãos e da forma razoável como são resolvidos os contrastes políticos. A propósito da referida "forma razoável", observa ele que a mesma não pode ser somente uma luta por maiorias aritméticas, mas há-de caracterizar-se como um "processo de argumentação sensível à verdade" (wahrheitssensibles Argumentationsverfahren). É uma afirmação correcta, mas muito difícil de transformar em prática política. Os representantes daquele público "processo de argumentação" são predominantemente como sabemos os partidos enquanto responsáveis pela formação da vontade política. Com efeito, estes terão infalivelmente em vista sobretudo a consecução de maiorias e, por conseguinte, olharão de maneira quase inevitável pelos interesses que prometem satisfazer; mas, tais interesses muitas vezes são particulares e não favorecem verdadeiramente a comunidade. A sensibilidade pela verdade acaba incessantemente subjugada à sensibilidade pelos interesses. Julgo significativo o facto de que Habermas fale da sensibilidade pela verdade como de um elemento necessário no processo de argumentação política, voltando assim a inserir o conceito de verdade no debate filosófico e político. Mas, então, torna-se inevitável a pergunta de Pilatos: O que é a verdade? E como a reconhecemos? Se para isso se remete para a "razão pública", como faz Rawls, segue-se necessariamente a questão: O que é razoável? Como é que uma razão se demonstra verdadeira? De qualquer maneira, sobre esta base torna-se evidente que, na busca do direito da liberdade, da verdade da justa convivência, devem ser ouvidas outras instâncias diversas dos partidos e grupos de interesse, sem com isto querer minimamente contestar a importância destes. Voltamos assim à estrutura da universidade medieval. Ao lado da Faculdade de Jurisprudência, havia as Faculdades de Filosofia e de Teologia, às quais estava confiada a investigação sobre o ser homem na sua totalidade e, consequentemente, a missão de conservar viva a sensibilidade pela verdade. Poder-se-ia mesmo afirmar que o sentido permanente e autêntico das duas Faculdades é este: serem guardiães da sensibilidade pela verdade, não permitirem que o homem seja afastado da busca da verdade. Mas como é que elas podem corresponder a esta missão? Trata-se aqui de uma questão pela qual é necessário lutar incessantemente sem nunca estar posta e resolvida de maneira definitiva. Estando assim as coisas, nem sequer eu posso oferecer propriamente uma resposta, mas simplesmente um convite para continuarem a caminhar com esta interrogação a caminhar com os grandes que, ao longo de toda a história, lutaram e procuraram com as suas respostas e com a sua inquietude pela verdade, que remete continuamente para além de cada uma das respostas individuais. Teologia e filosofia formam nisto um par de gémeos peculiar, não podendo nenhuma das duas desligar-se totalmente da outra e, todavia, cada uma deve conservar a própria tarefa e identidade. É mérito histórico de S. Tomás de Aquino face às diferentes respostas dos Padres, em virtude do seu contexto histórico ter evidenciado a autonomia da filosofia e, juntamente com ela, o direito e a responsabilidade própria da razão de se interrogar com base nas suas forças. Diferenciando-se das filosofias neoplatónicas, onde religião e filosofia se encontravam inseparavelmente entrelaçadas, os Padres tinham apresentado a fé cristã como a verdadeira filosofia, ressaltando ainda que esta fé corresponde às exigências da razão na sua busca da verdade; que a fé é o "sim" à verdade, comparativamente às religiões míticas que se tinham tornado uma simples rotina. Sucessivamente, porém, na época do nascimento da universidade, no Ocidente já não existiam aquelas religiões mas somente o cristianismo, e assim era necessário ressaltar novamente a responsabilidade própria da razão, de modo que não fosse absorvida pela fé. S. Tomás interveio num momento privilegiado: pela primeira vez, os escritos filosóficos de Aristóteles tornaram-se acessíveis na sua integridade; estavam presentes as filosofias hebraicas e árabes enquanto específicas apropriações e prolongamentos da filosofia grega. Assim o cristianismo, num novo diálogo com a razão dos outros que ia encontrando, teve que lutar em favor da sua própria razoabilidade. Designada "Faculdade dos Artistas", a Faculdade de Filosofia, que até então tinha sido somente propedêutica à teologia, tornou-se agora uma verdadeira e própria Faculdade, um parceiro autónomo da teologia e da fé nela reflectida. Não é possível aqui demorarmo-nos sobre o fascinante confronto que daí resultou. Diria que a ideia de S. Tomás acerca da relação entre filosofia e teologia poderia ser expressa pela fórmula encontrada pelo Concílio de Calcedónia para a cristologia: filosofia e teologia devem relacionar-se entre si "sem confusão e sem separação". "Sem confusão" significa que cada uma delas deve conservar a própria identidade. A filosofia deve permanecer verdadeiramente uma busca da razão na própria liberdade e na própria responsabilidade; deve ver os seus limites e, precisamente deste modo, também a sua grandeza e vastidão. A teologia deve continuar a beber num tesouro de conhecimento que não foi inventado por ela, que sempre a supera e que, não podendo jamais ser totalmente esgotado mediante a reflexão, por isso mesmo leva o pensamento a começar sempre de novo. Mas, a par do dado "sem confusão", vigora também o dado "sem separação": a filosofia não recomeça cada vez do ponto zero do sujeito individual que pensa, mas vive no grande diálogo da sabedoria histórica, que ela, crítica e ao mesmo tempo docilmente, acolhe e desenvolve sempre de novo; mas também não deve fechar-se diante daquilo que as religiões e, de modo particular, a fé cristã receberam e transmitiram à humanidade como indicação do caminho. Várias coisas, ditas por teólogos ao longo da história ou mesmo traduzidas na prática pelas autoridades eclesiais, foram demonstradas como falsas pela história, e hoje confundem-nos. Mas, simultaneamente, é verdade que a história dos santos, a história do humanismo desenvolvido sobre a base da fé cristã demonstra a verdade desta fé no seu núcleo essencial, tornando-a desta forma também um paradigma para a razão pública. Sem dúvida, muito do que dizem a teologia e a fé só pode ser assumido no âmbito da fé e, portanto, não pode apresentar-se como exigência para aqueles a quem esta fé permanece inacessível. Ao mesmo tempo, porém, resta verdadeiro que a mensagem da fé cristã nunca é somente uma "comprehensive religious doctrine", no sentido de Rawls, mas uma força purificadora para a própria razão, que a ajuda a ser cada vez mais ela mesma. Com base na sua origem, a mensagem cristã deveria ser sempre um encorajamento à verdade e, consequentemente, uma força contra a pressão do poder e dos interesses. Pois bem, até agora falei somente da universidade medieval, procurando contudo deixar transparecer a natureza permanente da universidade e da sua missão. Nos tempos modernos, abriram-se novas dimensões do saber, que, na universidade, são valorizadas sobretudo em dois grandes âmbitos: em primeiro lugar, nas ciências naturais, que se desenvolveram com fundamento na conexão de experiência com a pressuposta racionalidade da matéria; em segundo lugar, nas ciências históricas e humanistas, nas quais o homem, perscrutando o espelho da sua história e esclarecendo as dimensões da sua natureza, procura compreender-se melhor a si mesmo. Neste desenvolvimento, abriu-se à humanidade não apenas uma medida imensa de saber e poder; mas aumentaram também o conhecimento e o reconhecimento dos direitos e da dignidade do homem, e disto podemos apenas sentir-nos gratos. No entanto, o caminho do homem jamais pode dizer-se completo, e o perigo de cair na desumanidade nunca está esconjurado de todo: como se vê no panorama da história actual! O perigo do mundo ocidental para falar somente dele é que o homem hoje, precisamente à vista da grandeza do seu saber e do seu poder, desista diante da questão da verdade; significando isto ao mesmo tempo que, no fim de contas, a razão cede face à pressão dos interesses e à atracção da utilidade, obrigada a reconhecê-la como critério derradeiro. Dito do ponto de vista da estrutura da universidade: existe o perigo de que a filosofia, deixando de se sentir à altura da sua autêntica missão, se degrade em positivismo; que a teologia, com a sua mensagem dirigida à razão, seja confinada na esfera privada de um grupo mais ou menos numeroso. Mas, se a razão ciosa da sua presumida pureza se torna surda à grande mensagem que lhe chega da fé cristã e da sua sabedoria, seca como uma árvore cujas raízes já não chegam às águas que lhes dão vida. Perde a coragem pela verdade; e deste modo não fica maior, mas menor. Aplicado à nossa cultura europeia, isto significa: se ela quiser autoconstruir-se unicamente com base no círculo das suas próprias argumentações e naquilo que de momento a convence e preocupada com a sua laicidade se separa das raízes de que vive, então não se torna mais razoável nem mais pura, mas desagrega-se e fragmenta-se. Assim, volto ao ponto de partida. O que é que o Papa tem a fazer ou a dizer na universidade? Seguramente, não deve procurar impor de modo autoritário aos outros a fé, a qual pode ser dada somente em liberdade. Para além do seu ministério de Pastor na Igreja e com base na natureza intrínseca deste ministério pastoral, é sua missão manter desperta a sensibilidade pela verdade; convidar sempre de novo a razão a pôr-se à procura da verdade, do bem, de Deus e, neste caminho, estimulá-la a entrever as luzes úteis que foram surgindo ao longo da história da fé cristã e, assim, sentir Jesus Cristo como a Luz que ilumina a história e ajuda a encontrar o caminho rumo ao futuro.
Vaticano, 17 de Janeiro de 2008. BENEDICTUS XVI
DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVIPARA O ENCONTRO NA UNIVERSIDADE DE ROMA"LA SAPIENZA"
O texto que o Papa Bento XVI teria lido durante a visita à Universidade de Roma "La Sapienza", prevista para o dia 17 de Janeiro, depois anulada em 15 de Janeiro de 2008:Magnífico Reitor Excelentíssimas Autoridades políticas e civis Ilustres professores e pessoal técnico-administrativo

A coragem de se interrogar acerca da verdade

"Graça e paz vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo" (Fl 1, 2).
1. Com estas palavras de São Paulo e em nome do Pontifício Conselho para os Leigos, saúdo com profunda cordialidade todos vós caríssimos amigos que participais nestes dias no oitavo Foro Internacional dos Jovens sobre o tema: "Os jovens e a universidade: testemunhar Cristo no ambiente universitário". (...) (...)
3. Durante este Foro colocaremos no centro da nossa reflexão a universidade, uma instituição de grande importância para a vida do homem e da sociedade. Porque universidade significa cultura, e a cultura é uma componente indispensável de uma vida plenamente humana. João Paulo II afirma com vigor que "o homem vive uma vida verdadeiramente humana graças à cultura. A vida humana é cultura no sentido também de que o homem se distingue e se diferencia através dela de tudo o que existe no mundo visível: o homem não pode existir fora da cultura [...]. A cultura é aquilo pelo qual o homem, enquanto homem, se torna mais homem, "é" mais, tem mais acesso ao ser" (1). E as universidades são verdadeiras "geradoras" de cultura nas suas várias expressões, lugares de grande irradiação da cultura. Deve-se a isto a sua insubstituível função. Contudo, no nosso tempo registra-se para a cultura uma crise grave e difundida. Muitos falam de uma humanidade que se encontra numa encruzilhada e não faltam análises críticas. Menciono uma, que me parece particularmente apropriada: "[A humanidade de hoje] navega no "pluralismo sem fronteiras", exposta a todos os ventos, disposta a vender-se a quem oferece menos. Nunca a diversidade foi uma culpa tão assustadora como neste período de tolerância" (Pasolini). Do fascínio do "futuro luminoso" à atracção do vazio [...]. Depois do cavalo vermelho da revolução [marxista-comunista], seguido do cavalo negro da repressão, triunfará o cavalo cinzento do nihilismo. O círculo está fechado. A revolução violenta deu os seus frutos. A exaltação da mentira revelou o seu verdadeiro rosto. A utopia não se verificou, como qualquer ideologia, no seu contrário. Mas também noutro binário o comboio terminou a sua corrida: o iluminismo apagou-se e o racionalismo perdeu a razão. Viajando em direcções contrárias chegaram à mesma estação, ao nihilismo"(2). É o retrato de uma cultura esvaziada de valores, secularizada, que encerra hermeticamente o homem na imanência e o sufoca. Gabriel Marcel dizia que sem o mistério a vida torna-se irrespirável. E hoje experimentamos isto de mil maneiras. Eis onde afunda as suas raízes a crise do homem pós-moderno. Felizmente, este quadro de sombras é atenuado por muitos sinais que deixam entrever um renascimento de valores espirituais na cultura de hoje e isto deve ajudar-nos sobretudo a nós cristãos a não nos deixarmos tentar pelo pessimismo, a sermos como nunca portadores de esperança. 4. A crise da cultura reflecte-se necessária e fortemente na universidade, a qual está a viver um período de profundas transformações e procura uma nova identidade um processo delicado e complexo que fazemos votos por que desemboque num crescimento. Falaremos muito da crise da universidade durante o nosso Foro. Muitos afirmam que "a crise da universidade não é, em primeiro lugar, de tipo organizativo e institucional, mas espiritual e cultural. [Que], por outras palavras, é a universidade que está em crise enquanto instituição educativa e cultural, como lugar de produção do saber quer teórico quer prático"(3). Um dado de facto que tem consequências concretas, que os professores e os estudantes conhecem bem. Uma em particular suscita preocupação. Na universidade já não se fala do homem, já não se formula a pergunta acerca do homem, não se dedica espaço para se interrogar criticamente sobre a própria identidade de pessoas. Uma aceleração sem precedentes do progresso científico, a multiplicação das especialidades com a consequente fragmentação do saber, a parcialidade contraditória das respostas oferecidas pela ciência moderna geram desorientação existencial e cultural entre os jovens e não só entre os jovens. O pensamento frágil, que se difunde rapidamente proclamando os dogmas da dúvida, do cepticismo e do relativismo radicais, produz personalidades frágeis, homens e mulheres que desistem da procura da verdade. Aumenta a diferença entre ética e pesquisa científica, aumenta o risco que a ciência, em vez de ser aliada do homem, se transforme numa ameaça para toda a humanidade. Na era da globalização as leis do mercado são válidas também para a universidade e, sobretudo, não poupam a investigação científica da qual se tornam, com frequência, factor determinante. E ela, ao produzir o saber, é cada vez mais condicionada pelas exigências do mercado, com todos os resultados ocasionais. O primeiro de todos é a transformação do homem de sujeito responsável em objecto irrelevante de manipulações de todos os tipos. Os sintomas da grave crise na qual a universidade se debate são evidentes. Mas como sair desta situação? Dado que não viemos aqui só para recriminar, é uma pergunta que devemos fazer. É opinião partilhada que se existe uma saída, ela consiste na redescoberta da dimensão sapiencial do conhecimento e da ciência. O Concílio Vaticano II diz: "A nossa época, mais do que nos séculos passados, precisa deste saber, para que todas as novas descobertas se tornem mais humanas. De facto, o futuro do mundo está em perigo, a não ser que sejam suscitados homens mais sábios"(4). Por conseguinte, há necessidade de muitos homens e mulheres, de muitos jovens que tenham a coragem de se interrogar acerca da verdade (também acerca da última e absoluta) e acerca do sentido (também do último e definitivo!). É necessário redescobrir a vocação originária da universidade, como "diaconia do pensamento", "diaconia da verdade" e "diaconia do saber". 5. Depois de ter aprofundado a situação da universidade dos nossos dias, que tracei apenas em linhas gerais, o Foro procederá a uma análise da condição dos jovens no ambiente universitário. Como se situam os jovens dos diversos Países e continentes num mundo tão complexo? Que significa para eles o tempo dos estudos? Que sentido dão, sobretudo como cristãos, a este importante período da própria vida?
(...) Há vários anos, ao falar a este propósito aos universitários de Roma, o Papa disse: "À formação científica... é necessário acrescentar uma profunda formação moral e cristã, que seja intimamente vivida e que realize uma síntese cada vez mais harmoniosa entre fé e razão, entre fé e cultura, entre fé e vida. Unir ao mesmo tempo dedicação, pesquisa científica rigorosa e testemunho de uma vida cristã autêntica: eis o compromisso entusiasmante de todos os estudantes universitários"(5). Condição fundamental deste processo educativo, e de qualquer processo educativo, é a visão integral da pessoa.
(...)
Outro objectivo prioritário na vida dos estudantes cristãos deve ser o restabelecimento da harmonia entre a própria fé e a própria razão. Fé e razão não são inimigas, mas duas grandes aliadas que concorrem para a mesma meta, como explica minuciosamente João Paulo II na Fides et ratio, um vademecum, neste sentido, verdadeiramente precioso. Um provérbio antigo diz: fides quaerens intellectum et intellectus quaerens fidem (a fé procura a razão e a razão procura a fé). E o Cardeal Joseph Ratzinger escreve que "a fé fala à nossa razão porque dá voz à verdade. Sob este ponto de vista uma fé sem razão não é autêntica fé cristã"(7). Como é importante, nos nossos dias, recuperar a noção do bom senso da fé! Quanta necessidade há no nosso mundo da audácia de uma razão aberta ao mistério!
(...)
"Considero verdadeiramente que nós temos necessidade de uma espécie de revolução da fé em sentido múltiplo. Antes de mais, precisamos dela para reencontrar a ousadia de ir contra as opiniões comuns [...]. Por isso devemos ter a coragem de nos pormos a caminho, mesmo contra aquilo que é visto como "normalidade" para o homem do final do século XX, e de redescobrir a fé na sua simplicidade"(9).
Leia todo o discurso aqui.
PONTIFÍCIO CONSELHO PARA OS LEIGOS
VIII FORO DOS JOVENS
31 de Março de 2004

O desejo da verdade pertence à própria natureza do homem

Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal?

 Basta um simples olhar pela história antiga para ver com toda a clareza como surgiram simultaneamente, em diversas partes da terra animadas por culturas diferentes, as questões fundamentais que caracterizam o percurso da existência humana: Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que é que existirá depois desta vida?

Estas perguntas encontram-se nos escritos sagrados de Israel, mas aparecem também nos Vedas e no Avestá; achamo-las tanto nos escritos de Confúcio e Lao-Tze, como na pregação de Tirtankara e de Buda; e assomam ainda quer nos poemas de Homero e nas tragédias de Eurípides e Sófocles, quer nos tratados filosóficos de Platão e Aristóteles. São questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração do homem: da resposta a tais perguntas depende efectivamente a orientação que se imprime à existência.
(...)

Recurso que o homem possui para progredir no conhecimento da verdade

3. Variados são os recursos que o homem possui para progredir no conhecimento da verdade, tornando assim cada vez mais humana a sua existência. De entre eles sobressai a filosofia, cujo contributo específico é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a resposta: constitui, pois, uma das tarefas mais nobres da humanidade.

O termo filosofia significa, segundo a etimologia grega, « amor à sabedoria ». Efectivamente a filosofia nasceu e começou a desenvolver-se quando o homem principiou a interrogar-se sobre o porquê das coisas e o seu fim. Ela demonstra, de diferentes modos e formas, que o desejo da verdade pertence à própria natureza do homem. Interrogar-se sobre o porquê das coisas é uma propriedade natural da sua razão, embora as respostas, que esta aos poucos vai dando, se integrem num horizonte que evidencia a complementaridade das diferentes culturas onde o homem vive.

A incidência que a filosofia teve na formação e desenvolvimento das culturas

 A grande incidência que a filosofia teve na formação e desenvolvimento das culturas do Ocidente não deve fazer-nos esquecer a influência que a mesma exerceu também nos modos de conceber a existência presentes no Oriente. Na realidade, cada povo possui a sua própria sabedoria natural, que tende, como autêntica riqueza das culturas, a exprimir-se e a maturar em formas propriamente filosóficas. Prova da verdade de tudo isto é a existência duma forma basilar de conhecimento filosófico, que perdura até aos nossos dias e que se pode constatar nos próprios postulados em que as várias legislações nacionais e internacionais se inspiram para regular a vida social.

 4. Deve-se assinalar, porém, que, por detrás dum único termo, se escondem significados diferentes. Por isso, é necessária uma explicitação preliminar. Impelido pelo desejo de descobrir a verdade última da existência, o homem procura adquirir aqueles conhecimentos universais que lhe permitam uma melhor compreensão de si mesmo e progredir na sua realização.

Os conhecimentos fundamentais nascem da maravilha que nele suscita a contemplação da criação: o ser humano enche-se de encanto ao descobrir-se incluído no mundo e relacionado com outros seres semelhantes, com quem partilha o destino. Parte daqui o caminho que o levará, depois, à descoberta de horizontes de conhecimentos sempre novos. Sem tal assombro, o homem tornar-se-ia repetitivo e, pouco a pouco, incapaz de uma existência verdadeiramente pessoal.

A capacidade reflexiva própria do intelecto humano permite elaborar, através da actividade filosófica, uma forma de pensamento rigoroso, e assim construir, com coerência lógica entre as afirmações e coesão orgânica dos conteúdos, um conhecimento sistemático. Graças a tal processo, alcançaram-se, em contextos culturais diversos e em diferentes épocas históricas, resultados que levaram à elaboração de verdadeiros sistemas de pensamento.

Historicamente isto gerou muitas vezes a tentação de identificar uma única corrente com o pensamento filosófico inteiro. Mas, nestes casos, é claro que entra em jogo uma certa «soberba filosófica », que pretende arvorar em leitura universal a própria perspectiva e visão imperfeita. Na realidade, cada sistema filosófico, sempre no respeito da sua integridade e livre de qualquer instrumentalização, deve reconhecer a prioridade do pensar filosófico de que teve origem e ao qual deve coerentemente servir.

Princípios de não-contradição, finalidade, causalidade

Neste sentido, é possível, não obstante a mudança dos tempos e os progressos do saber, reconhecer um núcleo de conhecimentos filosóficos, cuja presença é constante na história do pensamento. Pense-se, só como exemplo, nos princípios de não-contradição, finalidade, causalidade, e ainda na concepção da pessoa como sujeito livre e inteligente, e na sua capacidade de conhecer Deus, a verdade, o bem; pense-se, além disso, em algumas normas morais fundamentais que geralmente são aceites por todos. Estes e outros temas indicam que, para além das correntes de pensamento, existe um conjunto de conhecimentos, nos quais é possível ver uma espécie de património espiritual da humanidade.

É como se nos encontrássemos perante uma filosofia implícita, em virtude da qual cada um sente que possui estes princípios, embora de forma genérica e não reflectida. Estes conhecimentos, precisamente porque partilhados em certa medida por todos, deveriam constituir uma espécie de ponto de referência para as diversas escolas filosóficas. Quando a razão consegue intuir e formular os princípios primeiros e universais do ser, e deles deduzir correcta e coerentemente conclusões de ordem lógica e deontológica, então pode-se considerar uma razão recta, ou, como era chamada pelos antigos, orthòs logos, recta ratio.
João Paulo II

E o Verbo se fez carne

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito. Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. (...)
[O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem. Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade. (...)
Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça. Pois a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou."
(Jo. 1,1-18)

As duas asas





A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio.


Joao Paulo II
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