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SERMÃO SOBRE A QUARESMA - S. LEÃO MAGNO

Sermão sobre a Quaresma São Leão Magno
Evangelho: S. Mateus 4, 1-11 Há muitas batalhas dentro de nós: a carne contra o espírito, o espírito contra a carne. Se, na luta, são os desejos da carne que prevalecem, o espírito será vergonhosamente rebaixado de sua dignidade própria e isto será uma grande infelicidade, de rei que deveria ser, torna-se escravo. Se, ao contrário, o espírito se submete ao seu Senhor, põe sua alegria naquilo que vem do céu, despreza os atrativos das volúpias terrestres e impede o pecado de reinar sobre o seu corpo mortal, a razão manterá o cetro que lhe é devido de pleno direito, nenhuma ilusão dos maus espíritos poderá derrubar seus muros; porque o homem só tem paz verdadeira e a verdadeira liberdade quando a carne é regida pelo espírito, seu juiz, e o espírito governado por Deus, seu mestre. É, sem dúvida, uma preparação que deve ser feita em todos os tempos: impedir, por uma vigilância constante, a aproximação dos espertíssimos inimigos. Mas é preciso aperfeiçoar essa vigilância com ainda mais cuidado, e organizá-la com maior zelo, nesta época do ano, quando nossos pérfidos inimigos redobram também a astúcia de suas manobras. Eles sabem muito bem que esses são os dias da santa Quaresma e que passamos a Quaresma castigando todas as molezas, apagando todas as negligências do passado; usam então de todo o poder de sua malícia para induzir em alguma impureza aqueles que querem celebrar a santa Páscoa do Senhor; mudar para ocasião de pecado o que deveria ser uma fonte de perdão. Meus caros irmãos, entramos na Quaresma, isto é, em uma fidelidade maior ao serviço do Senhor. É como se entrássemos em um combate de santidade. Então preparemos nossas almas para o combate das tentações e saibamos que quanto mais zelosos formos por nossa salvação, mais violentamente seremos atacados por nossos adversários. Mas aquele que habita em nós é mais forte do que aquele que está contra nós. Nossa força vem d’Aquele em quem pomos nossa confiança. Pois se o Senhor se deixou tentar pelo tentador foi para que tivéssemos, com a força de seu socorro, o ensinamento de seu exemplo. Acabaste de ouvi-lo. Ele venceu seu adversário com as palavras da lei, não pelo poder de sua força: a honra devida a sua humanidade será maior, maior também a punição de seu adversário se Ele triunfa sobre o inimigo do gênero humano não como Deus, mas como homem. Assim, Ele combateu para que combatêssemos como Ele; Ele venceu para que também nós vencêssemos da mesma forma. Pois, meus caríssimos irmãos, não há atos de virtude sem a experiência das tentações, a fé sem a provação, o combate sem um inimigo, a vitória sem uma batalha. A vida se passa no meio das emboscadas, no meio dos combates. Se não quisermos ser surpreendidos, é preciso vigiar; se quisermos vencer, é preciso lutar. Eis porque Salomão, que era sábio, diz: Meu filho, quando entras para o serviço do Senhor, prepara a tua alma para a tentação (Eclo. 2,1). Cheio da sabedoria de Deus, sabia que não há fervor sem combate laborioso; prevendo o perigo desses combates, anunciou-os de antemão para que, advertidos dos ataques do tentador, estivéssemos preparados para aparar seus golpes.

SERMÃO DA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Sermão de quarta-feira de Cinzas
Padre António Vieira
Em Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses, Ano de 1670.
Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris (1).
(1) Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás de converter.
I. O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade? A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso.
Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar.
Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento.
E que duas coisas enigmáticas são estas?
Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter.
— Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.
O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem-no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança.
Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer.
Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó.
Vamos, para maior exemplo e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder-vos-ão os epitáfios, que só as distinguem: Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, e este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente.
De sorte que para eu crer que hei de ser pó, não é necessário fé, nem entendimento, basta a vista.
Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es?
Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário?
É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó: Pulvis es?
Argumento à Igreja com a mesma Igreja: Memento homo.
A Igreja diz-me, e supõe que sou homem: logo não sou pó.
O homem é uma substância vivente, sensitiva, racional.
O pó vive? Não.
Pois como é pó o vivente?
O pó sente? Não.
Pois como é pó o sensitivo?
O pó entende e discorre? Não.
Pois como é pó o racional?
Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou pó: Quia pulvis es?
Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida. Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso. [ ...]
[...]
Em que cuidamos, e em que não cuidamos?
Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós, não se acabe com este dia a memória da morte.
Resolução, resolução uma vez, que sem resolução nada se faz.
E para que esta resolução dure e não seja como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora.
De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não dará uma hora à triste alma?
(23) Disse: Agora começo (Sl 76,11). Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta quaresma.
Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e connosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida.
E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora.
Primeiro: quanto tenho vivido?
Segundo: como vivi?
Terceiro: quanto posso viver?
Quarto: como é bem que viva?
Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo!
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VERDADEIRA LIBERDADE É CONTRÁRIA A EU ABSOLUTO

Por Inma Álvarez
CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009 (ZENIT.org).- A verdadeira liberdade não pode proceder da absolutização do eu, porque isso é contrário à verdade sobre o homem: assim explicou Bento XVI a seminaristas de Roma ao visitar na sexta-feira passada o Seminário Maior. O Papa quis fazer com os futuros sacerdotes romanos uma lectio divina sobre a passagem da Carta de São Paulo aos Gálatas, na qual explica o conceito cristão de liberdade, muito afastado do derivado do Iluminismo e do pensamento moderno. «A liberdade, em todas as épocas, foi um grande sonho da humanidade, desde os primórdios, mas particularmente na época moderna», explicou Bento XVI aos seminaristas. São Paulo opõe a liberdade à carne, e explica que a verdadeira liberdade consiste em «colocar-se ao serviço uns dos outros». «Para Paulo – esclarece o Papa – a carne é expressão da absolutização do eu, do eu que quer ser tudo e tomar tudo para si. O eu absoluto, que não depende de nada nem de ninguém, parece possuir realmente, em definitivo, a liberdade. Sou livre se não dependo de ninguém, se posso fazer tudo o que quero.» Contudo, essa absolutização do eu «é degradação do homem, não é conquista da liberdade: a libertinagem não é liberdade, é sim o fracasso da liberdade», acrescentou. Por que esta absolutização do eu não é a verdadeira liberdade? O Papa explicou que esta concepção se baseia em duas mentiras: por um lado, que o homem é autônomo, e por outro, que Deus é «um tirano», e não um Deus de amor. Com relação à primeira mentira, o Papa explicou que «reduzir-se à carne, aparentemente elevando-se ao nível de divindade, introduz na mentira. Porque na realidade não é assim: o homem não é um absoluto, de forma que possa isolar-se e comportar-se só segundo sua própria vontade. Isso vai contra a verdade do nosso ser». «Nossa verdade é que, antes de tudo, somos criaturas, criaturas de Deus, e vivemos em relação com o Criador. Somos seres relacionados, e só aceitando esta relacionalidade nossa entramos na verdade; de outra maneira caímos na mentira e nela, ao final, nos destruímos», afirmou. Com relação à segunda mentira, explicou que «no período do Iluminismo, sobretudo ao ateísmo, isso parecia como uma dependência da qual era necessário libertar-se. Na realidade, contudo, seria uma dependência fatal só se este Deus Criador fosse um tirano, não um Ser bom, só se fosse como os tiranos humanos são». «Se, pelo contrário, este Criador nos ama e nossa dependência supõe estar no espaço de seu amor, neste caso precisamente a dependência é liberdade – acrescentou. Daí deriva antes de tudo a verdade sobre nós mesmos, que é ao mesmo tempo, um convite à caridade.» Por isso, para o cristianismo, «ver Deus, orientar-se a Deus, conhecer Deus, conhecer a vontade de Deus, inserir-se na vontade, ou seja, no amor de Deus, é entrar cada vez mais no espaço da verdade». Esta mesma liberdade leva à relação com os demais, explicou o pontífice. «Em outras palavras, liberdade humana é, por um lado, estar na alegria e no espaço grande do amor de Deus, mas implica também ser uma só coisa com o outro e para o outro.» «Não há liberdade contra o outro. Se eu me absolutizo, converto-me em inimigo do outro, já não podemos conviver mais sobre a terra e toda a vida se converte em crueldade, em fracasso – acrescentou o Papa. Só aceitando o outro, aceitando também a aparente limitaçào que supõe para a minha liberdade o respeito à liberdade do outro, só inserindo-me na rede de dependências que nos torna, finalmente, uma só família humana, eu estarei a caminho rumo à liberdade comum.» Esta liberdade baseada na verdade sobre o homem, afirma o Papa, é crucial para edificar uma ordem social justa. «Se não há uma verdade comum do homem como aparece na visão de Deus, só resta um positivismo e se tem a impressão de algo imposto de maneira inclusive violenta.» «Servir uns a outros se converte em instrumento da liberdade, e aqui podemos incluir toda uma filosofia da política segundo a Doutrina Social da Igreja, a qual nos ajuda a encontrar esta ordem comum que dá a cada um seu lugar na vida comum da humanidade.» «A primeira realidade que deve ser respeitada é, portanto, a verdade: a liberdade contra a verdade não é liberdade», conluiu.
Liberdade na Igreja
O Papa se centrou depois na questão da liberdade na Igreja, que, se for verdadeira «conduz à comunhão». Comparando com a situação da comunidade dos Gálatas à qual Paulo escreve, o Papa explicou que quando a comunidade não está «no caminho da comunhão com Cristo, mas na lei exterior da ‘carne’, emergem naturalmente também as polêmicas», as quais «nascem onde a fé degenera em intelectualismo e a humanidade é substituída pela arrogância de ser melhor que o outro». «Vemos bem que hoje também há coisas parecidas onde, ao invés de inserir-se na comunhão com Cristo, no Corpo de Cristo que é a Igreja, cada um quer ser superior ao outro e com arrogância intelectual quer fazer acreditar que ele é melhor.» Assim, prosseguiu o Papa, «nascem as polêmicas que são destrutivas, nasce uma caricatura da Igreja, que deveria ser uma só alma e um só coração». A solução, explicou a seguir, é «não pensar em ser superior ao outro, mas encontrar-nos na humildade de Cristo, encontrar-nos na humildade de Maria, entrar na obediência da fé. Precisamente assim se abre realmente, também para nós, o grande espaço da verdade e da liberdade no amor».
Fonte: Zenit

A ESMOLA E A JUSTIÇA

JOÃO PAULO II AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 28 de Março de 1979
A «esmola» e a «justiça»
1. Paenitemini et date eleemosynam (Cfr. Mc. 1, 15 e Lc. 12, 33) A palavra «esmola» não gostamos hoje de a ouvir. Encontra-mos nela alguma coisa de humilhante. Esta palavra parece supor um sistema social em que reina a injustiça, a desigual distribuição dos bens, um sistema que deveria ser mudado com reformas adequadas. E se tais reformas não fossem realizadas, delinear-se-ia no horizonte da vida social a necessidade de mudanças radicais, sobretudo no campo das relações entre os homens. A mesma convicção encontramo-la nos Profetas do Antigo Testamento, a que muitas vezes recorre a liturgia no tempo da Quaresma. Os Profetas consideram este problema a nível religioso: não há verdadeira conversão a Deus, não pode haver «religião» autêntica sem reparar injúrias e injustiças nas relações entre os homens, na vida social. E mesmo neste contexto, exortam os Profetas à esmola. Não usam sequer a palavra «esmola», que aliás em hebraico é «sedaqah», isto é precisamente «justiça». Pedem auxílio para aqueles que sofrem injustiça e para os necessitados: não tanto em virtude da misericórdia, quanto preferentemente em virtude do dever da caridade activa. Sabeis qual é o jejum que eu aprecio?... É romper as ligaduras da iniquidade, desatar os nós do jugo, deixar ir livres os oprimidos e quebrar toda a espécie de jugo; é repartir o próprio pão com o esfomeado, dar abrigo aos infelizes sem abrigo, vestir o nu e não desprezar o teu irmão (Is. 58, 6-7). A palavra grega «esmola» encontra-se nos livros tardios da Bíblia, e a prática da esmola é prova de religiosidade autêntica. Jesus faz da esmola uma condição da entrada no Seu reino (Cfr. Lc. 12, 32-33) e da verdadeira perfeição (Mc. 10, 21 e paral). Por outro lado, quando Judas — diante da mulher que ungia os pés de Jesus — pronunciou a frase: Porque não se vendeu este perfume por 300 denários e não se deram aos pobres? (Jo. 12, 5), Cristo defendeu a mulher respondendo: Pobres, sempre os tereis convosco, mas a mim nem sempre me tereis (Jo. 12, 8). Uma e outra frase oferecem motivo para longa reflexão.
2. Que significa a palavra «esmola»? A palavra grega «eleemosyne» provém de «eleos» que significa compaixão e misericórdia; inicialmente indicava a atitude do homem misericordioso e, em seguida, todas as obras de caridade para com os necessitados. Esta palavra, transformada, ficou em quase todas as línguas europeias. Em francês: «aumône»; espanhol: «limosna»; português: «esmola»; alemão: «almosen»; e inglês: «alms». Até o termo polaco «jalmuzna» é a transformação da palavra grega. Devemos agora distinguir o significado objectivo deste termo, do significado que lhe damos na nossa consciência social. Como resulta do que já dissemos, ao termo esmola» atribuímos muitas vezes, na nossa consciência social, um significado negativo. Diversas as circunstâncias que para isso contribuíram e ainda hoje contribuem. Pelo contrário, o termo «esmola» em si mesmo, como ajuda a quem dela precisa, como fazer participar os outros dos próprios bens, não desperta nada de tais associações desfavoráveis. Podemos não estar de acordo com quem dá a esmola, pelo modo como a dá. Podemos também não concordar com quem estende a mão pedindo esmola, se não se esforça por ganhar a vida por si mesmo. Podemos não aprovar a sociedade, o sistema social, em que haja necessidade de esmola. Todavia, o facto mesmo de prestar auxílio a quem precisa, o facto de repartir com os outros os próprios bens deve merecer respeito. Vemos quanto, na interpretação das expressões linguísticas, é necessário libertarmo-nos da influência das várias circunstâncias acidentais: circunstâncias muitas vezes impróprias, que pesam sobre o significado fundamental. Estas circunstâncias são aliás positivas às vezes, em si mesmas (por exemplo, no nosso caso: a aspiração a uma sociedade justa, em que não haja necessidade de esmola, por nela reinar a justa distribuição dos bens). Quando o Senhor Jesus fala de esmola, quando pede que a demos, sempre o faz no sentido de prestarmos auxílio a quem dele precisa, de repartirmos os próprios bens com os necessitados, isto é, no sentido simples e essencial, que não nos permite duvidar do valor do acto designado pelo termo «esmola», pelo contrário nos leva a que o aprovemos; como acto bom, como expressão de amor para com o próximo e como acto salvífico. Além disso, num momento de especial relevo, pronuncia Cristo estas palavras significativas: Pobres, sempre os tereis convosco (Jo. 12, 8). Com tais palavras não pretende dizer que as mudanças das estruturas sociais e económicas nada valham e que não se hajam de tentar caminhos diversos para eliminar a injustiça, a humilhação, a miséria e a fome. Só quer dizer que no homem haverá sempre necessidades, a que não se poderá prover senão com a ajuda ao necessitado e com levar a que os outros participem dos bens meus ... De que ajuda se trata? De que participação? Acaso só de «esmola» entendida sob forma de dinheiro, de socorro material?
3. Certamente Cristo não tira a esmola do nosso campo visual. Pensa também na esmola pecuniária, material, mas pensa a Seu modo. Mais eloquente que qualquer outro é, a este propósito, o exemplo da viúva pobre, que deitava no tesouro do templo alguns trocos: do ponto de vista material, era oferta que dificilmente se poderia comparar com as ofertas que davam os outros. Todavia Cristo disse: essa viúva ... deitou tudo o que tinha para viver (Lc. 21, 3-4). Conta portanto sobretudo o valor interior do que se dá: a disponibilidade para repartir tudo, a prontidão para nos darmos a nós mesmos. Recordemos aqui São Paulo: Ainda que distribua todos os meus bens em esmolas ..., se não tiver caridade, de nada me aproveita (1 Cor. 13, 3). Também Santo Agostinho escreve sabiamente a este propósito: «Se estendes a mão para dar, mas no coração não tens misericórdia, nada fizeste; se, pelo contrário, no coração tens misericórdia, mesmo que nada tenhas para dar com a mão, Deus aceita a tua esmola» (Santo Agostinho, Enarrat. in Ps., CXXV, 5) . Tocamos assim o núcleo central do problema. Na Sagrada Escritura e segundo as categorias evangélicas, «esmola» significa, primeiro que tudo, dom interior. Significa a atitude de abertura «para o outro». Precisamente esta atitude é factor indispensável da «metánoia», isto é, da conversão, do mesmo modo que são também indispensáveis a oração e o jejum. Na verdade, bem se exprime Santo Agostinho: «Como são ouvidas depressa as orações de quem pratica o bem! Esta é a justiça do homem na vida presente: o jejum, a esmola, e a oração» (Santo Agostinho, Enarrat. in Ps., XLII, b): a oração, como abertura para Deus; o jejum, como expressão do domínio de si próprio mesmo em privar-se dalguma coisa, em dizer «não» a si mesmo; e, por fim, a esmola, como abertura «para os outros». Este quadro descreve-o claramente o Evangelho quando nos fala da penitência, da «metánoia». Só com uma atitude totalizante — nas relações com Deus, consigo mesmo e com o próximo — atinge o homem a conversão e permanece no estado de conversão. A «esmola» assim entendida tem um significado, em certo sentido, decisivo para tal conversão. Para disso nos convencermos, basta recordar a imagem do Juízo final que nos deu Cristo: «Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber; era peregrino e recebestes-me; estava nu e destes-me de vestir; adoeci e visitastes-me; estive na prisão e fostes ter comigo». Então, os justos responder-lhe-ão: «Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?». E o Rei dir-lhes-á em resposta: «Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt. 25, 35-40). E os Padres da Igreja dirão depois com São Pedro Crisólogo: «A mão do pobre é o gazofilácio de Cristo, porque tudo o que o pobre recebe é Cristo que o recebe» (São Pedro Crisólogo, Sermo VIII), e com São Gregório de Nazianzo: «O Senhor de todas as coisas quer a misericórdia, não o sacrifício; e nós damo-la por meio dos pobres» (São Gregório Nazianzo, De pauperum aurore, XI). Portanto, esta abertura para os outros, que se exprime com o «auxílio», com o «repartir» a comida, o copo de água, a palavra amável, o conforto, a visita, o tempo precioso, etc., este dom interior oferecido ao outro homem chega directamente a Cristo, directamente a Deus. Decide do encontro com Ele. É a conversão. No Evangelho, e mesmo em toda a Sagrada Escritura, pode-mos encontrar muitos textos que o vêm confirmar. A «esmola» entendida segundo o Evangelho, segundo o ensinamento de Cristo, tem na nossa conversão a Deus um significado definitivo, decisivo. Se falta a esmola, a nossa vida não chega ainda plenamente a Deus.
4. No ciclo das nossas reflexões quaresmais, será necessário retomar este tema. Hoje, antes de concluir, detenhamo-nos ainda um momento no verdadeiro significado da «esmola». E facílimo, de facto, falsificar-lhe o significado, como já notámos no princípio. Jesus dava também recomendações a respeito da atitude superficial, «exterior», da esmola (Cfr. Mt. 6, 24; Lc. 11, 41) Este problema está sempre vivo. Se nos damos conta do significado essencial que a «esmola» tem para a nossa conversão a Deus e para toda a vida cristã, devemos evitar, à viva força, tudo quanto falsifica o sentido da esmola, da misericórdia, das obras de caridade: tudo o que pode deformar a imagem delas em nós mesmos. Neste campo, é importantíssimo cultivar a sensibilidade interior para com as necessidades reais do próximo, para saber em que o devemos ajudar, como proceder para não o ferir e como comportar-nos para aquilo que damos, que levamos à sua vida, ser um dom autêntico, dom não agravado pelo sentido ordinário negativo da palavra «esmola». Vemos portanto o campo de trabalho, como é amplo e ao mesmo tempo profundo. a abrir-se diante de nós, se queremos pôr em prática o conselho: Paenitemini et date eleemosynam (Cfr. Mc. 1, 15 e Lc.12, 33). É campo de trabalho não só para a Quaresma, mas para todos os dias. Para toda a vida.
Fonte: Vatican.va

O JEJUM E O DESENVOLVIMENTO DA PESSOA

JOÃO PAULO II AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 21 de Março de 1979
O jejum penitencial e o desenvolvimento da pessoa
1. Ordenai um jejum (Jl. 1, 14). São as palavras que ouvimos na primeira leitura de Quarta-feira de Cinzas. Escreveu-as o Profeta Joel, e a Igreja, em conformidade com elas, estabelece a prática da Quaresma, ordenando o jejum. Hoje a prática da Quaresma, definida por Paulo VI na Constituição «Poenitemini», está notavelmente mitigada em comparação com o que era antigamente. Nesta matéria o Papa deixou muito à decisão das Conferências Episcopais de cada país, às quais, por conseguinte, toca a missão de adaptar as exigências do jejum às circunstâncias em que se encontram as respectivas sociedades. Recordou também que a essência da penitência quaresmal é constituída não só pelo jejum, mas também pela oração e pela esmola (obra de misericórdia). É necessário pois decidir segundo as circunstâncias, uma vez que o jejum pode mesmo ser «substituído» por obras de misericórdia e pela oração. A finalidade deste período especial na vida da Igreja é, sempre e em toda a parte, a penitência, isto é, a conversão para Deus. A penitência, de facto, entendida como conversão, isto é «metánoia», forma um conjunto que a tradição do Povo de Deus já na Antiga Aliança, e em seguida o próprio Cristo, ligaram em certo modo à oração, à esmola e ao jejum.
Porquê o jejum?
Neste momento vêm-nos talvez à lembrança as palavras com que Jesus respondeu aos discípulos de João Baptista quando o interrogavam: por que não jejuam os teus discípulos? Jesus respondeu: Porventura podem os companheiros do esposo estar tristes enquanto o esposo está com eles? Dias hão-de vir em que lhes tirarão o esposo e então jejuarão (Mt 9, 15). Na verdade, o tempo da Quaresma recorda-nos que o esposo nos foi tirado. Tirado, detido, preso, esbofeteado, flagelado, coroado de espinhos e crucificado ... O jejum no tempo da Quaresma é a expressão da nossa solidariedade com Cristo. Tal foi o significado da Quaresma através dos séculos e assim hoje se mantém. «O meu amor foi crucificado e já não há em mim a chama que deseja as coisas materiais», como escreve o Bispo de Antioquia, Inácio, na carta aos Romanos (Santo Inácio de Antioquia, Ad Romanos, VII, 2).
2. Porquê o jejum? A esta pergunta é preciso dar uma resposta mais extensa e profunda, para que fique clara a relação à «metánoia», isto é, aquela transformação espiritual, que aproxima o homem de Deus. Esforcemo-nos portanto por concentrar-nos não só na prática da abstenção do alimento ou das bebidas — isto de facto significa «jejum» no sentido ordinário — mas no significado mais profundo desta prática que, aliás, pode e deve às vezes ser «substituída» por alguma outra. O alimento e as bebidas são indispensáveis para o homem viver, disso se serve e deve servir-se, mas não lhe é lícito abusar seja da forma que for. A tradicional abstenção do alimento e das bebidas tem como finalidade introduzir na existência do homem não só o equilíbrio necessário, mas também o desprendimento daquilo que poderia definir-se «atitude consumística». Tal atitude tornou-se nos nossos tempos uma das características da civilização e em particular da civilização ocidental. A atitude consumística! O homem orientado para os bens materiais, múltiplos bens materiais, muitas vezes abusa deles. Não se trata aqui unicamente do alimento e das bebidas. Quando o homem está orientado exclusivamente para a posse e o uso dos bens materiais, isto é, das coisas, então também toda a civilização é medida segundo a quantidade e qualidade das coisas que se encontra capaz de fornecer ao homem e não se mede com a medida adequada ao homem. Esta civilização fornece de facto, os bens materiais não só para que sirvam ao homem a exercer as actividades criativas e úteis, mas cada vez mais ... a satisfazer os sentidos, a excitação que disso deriva, o prazer momentâneo e a multiplicidade de sensações cada vez maior. Ouve-se às vezes dizer que o aumento excessivo dos meios audiovisuais nos países ricos nem sempre ajuda o desenvolvimento da inteligência, particularmente nas crianças; pelo contrário, às vezes contribui para lhes deter o desenvolvimento. A criança vive só de sensações, procura sensações sempre novas ... E torna-se assim, sem se dar conta, escrava desta paixão actual. Saciando-se de sensações, fica muitas vezes intelectualmente passiva; a inteligência não se abre à busca da verdade; a vontade fica presa ao hábito, a que não sabe opor-se. Disto resulta que o homem contemporâneo deve jejuar, isto é, abster-se não só do alimento ou das bebidas, mas de muitos outros meios de consumo, como de estimular e satisfazer os sentidos. Jejuar significa abster-se, renunciar a alguma coisa.
3. Porque renunciar a alguma coisa? Porque privarmo-nos dela? Já em parte respondemos a esta pergunta. Não será todavia completa a resposta, se não nos dermos conta de o homem ser ele próprio, também por conseguir privar-se dalguma coisa, capaz de dizer a si mesmo «não». O homem é ser composto de corpo e alma. Alguns escritores contemporâneos apresentam esta estrutura composta do homem sob a forma de estratos, e falam, como exemplo, de estratos exteriores na superfície da nossa personalidade, contrapondo-os aos estratos em profundidade. A nossa vida parece estar dividida nestes estratos e desenvolve-se através deles. Enquanto os estratos superficiais estão ligados à nossa sensualidade, os estratos profundos são expressão da espiritualidade do homem, isto é, da vontade consciente, da reflexão, da consciência e da capacidade de viver os valores superiores. Esta imagem da estrutura da personalidade humana pode servir para se compreender o significado do jejum para o homem. Não se trata aqui somente do significado religioso, mas dum significado que se exprime através da chamada «organização» do homem com sujeito-pessoa. O homem desenvolve-se regularmente, quando os estratos mais profundos da sua personalidade encontram suficiente expressão, quando o âmbito dos seus interesses e das suas aspirações não se limita só aos estratos exteriores e superficiais, ligados com a sensualidade humana. Para facilitar este desenvolvimento, devemos por vezes desapegar-nos conscientemente do que serve para satisfazer a sensualidade, quer dizer, daqueles estratos exteriores superficiais. Devemos portanto renunciar a tudo quanto os «alimenta».
Eis, em breves palavras, a interpretação do jejum dos dias de hoje. A renúncia às sensações, aos estímulos, aos prazeres e ainda ao alimento ou às bebidas, não é fim de si mesma. Deve apenas, por assim dizer, preparar o caminho para conteúdos mais profundos, de que «se alimenta» o homem interior. Tal renúncia, tal mortificação deve servir para criar no homem as condições para poder viver os valores superiores, de que ele está, a seu modo, «faminto». Eis o significado «pleno» do jejum na linguagem de hoje. Todavia, quando lemos os autores cristãos da antiguidade ou os Padres da Igreja, encontramos neles a mesma verdade, muitas vezes expressa com linguagem tão «actual» que nos surpreende. Diz, por exemplo, São Pedro Crisólogo: «O jejum é paz do corpo, força dos espíritos e vigor das almas» (São Pedro Crisólogo, Sermo VII: de ieiunio 3), e ainda: «O jejum é o leme da vida humana e governa todo o navio do nosso corpo» (São Pedro Crisólogo, Sermo VII: de ieiunio 1). E Santo Ambrósio responde assim às possíveis objecções contra o jejum: «A carne, pela sua condição mortal, tem algumas concupiscências suas próprias: a respeito delas foi-te concedido o direito de as enfrear. A tua carne está-te sujeita (...): Não sigas as solicitações ilícitas, mas refreia-as algum tanto, mesmo no que diz respeito às coisas lícitas. De facto, quem não se abstém de nenhuma das coisas lícitas, está também perto das ilícitas» (Santo Ambrósio, Sermo de utilitate ieiunii III. V. VII). Até escritores, que não pertencem ao cristianismo, declaram a mesma verdade. Esta é de alcance universal. Faz parte da sabedoria universal da vida.
4. É-nos agora certamente mais fácil compreender porque unem Cristo Senhor e a Igreja o apelo ao jejum com a penitência, isto é, com a conversão. Para nos convertermos a Deus, é necessário descobrirmos em nós mesmos aquilo que nos torna sensíveis a quanto pertence a Deus, portanto: os conteúdos espirituais, os valores superiores, que falam à nossa inteligência, à nossa consciência e ao nosso «coração» (segundo a linguagem bíblica). Para nos abrirmos a estes conteúdos espirituais e a estes valores, é preciso desapegarmo-nos de tudo quanto serve apenas ao consumismo, à satisfação dos sentidos. Na abertura da nossa personalidade humana para Deus, o jejum entendido quer no modo «tradicional» quer no «actual» — deve acompanhar ao mesmo passo a oração porque esta dirige-nos directamente para Ele. Por outro lado, o jejum, isto é a mortificação dos sentidos e o domínio do corpo conferem à oração maior eficácia que o homem descobre em si mesmo. Descobre, de facto, que é «diverso», que é mais «senhor de si mesmo» e que se tornou interiormente livre. E disso se dá conta pois a conversão e o encontro com Deus, por meio da oração, frutificam nele. Destas nossas reflexões de hoje resulta claro que o jejum não é só o «resíduo» duma prática religiosa dos séculos passados, mas é também indispensável ao homem de hoje, aos cristãos do nosso tempo. É necessário reflectir profundamente sobre este tema, precisamente durante o período da Quaresma.
Fonte: Vatican.va

A ORAÇÃO É O CAMINHO DO VERBO QUE TUDO ABRAÇA

JOÃO PAULO II AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 14 de Março de 1979
A oração é o caminho do Verbo que tudo abraça
1. Durante a Quaresma muitas vezes chegam aos nossos ouvidos as palavras «oração, jejum e esmola», que já tive de recordar na Quarta-feira de Cinzas. Estamos habituados a pensar nelas como em obras piedosas e boas, que todo o cristão deve realizar sobretudo neste período. Tal modo de pensar é exacto, mas não completo. A oração, a esmola e o jejum precisam de mais profunda compreensão, se queremos inserir estes actos mais profundamente na nossa vida, e não considerá-los simplesmente como práticas passageiras, que só exigem de nós algo de momentâneo, ou só momentaneamente nos privam dalguma coisa. Com este modo de pensar não chegamos ainda ao verdadeiro sentido e à verdadeira força que a oração, o jejum e a esmola têm no processo da conversão a Deus e da nossa maturação espiritual: uma anda ao mesmo passo que a outra. Chegamos à maturidade espiritual convertendo-nos a Deus, e a conversão realiza-se por meio do jejum e da esmola, devidamente entendidos. Convém talvez dizer já que não se trata aqui só de «práticas» momentâneas, mas de atitudes constantes, que imprimem na nossa conversão a Deus, forma duradoira. A Quaresma, como tempo litúrgico, dura só 40 dias ao ano: mas para Deus devemos tender sempre; isto significa que é preciso convertermo-nos continuamente. A Quaresma deve deixar marca forte e indelével na nossa vida. Há-de renovar em nós a consciência da nossa união com Jesus Cristo, que nos faz ver a necessidade da conversão e nos indica os caminhos para a realizarmos. A oração, o jejum e a esmola são precisamente os caminhos que nos foram indicados por Cristo. Nas meditações que irão seguir-se, procuraremos entrever quão profundamente penetram estes caminhos no homem: o que para ele significam. O cristão deve compreender o verdadeiro sentido destes caminhos, se os quer seguir.
O Caminho da Oração
2. Primeiro, portanto, o caminho da oração. Digo «primeiro», porque desejo falar deste antes dos outros. Mas, ao dizer «primeiro», quero hoje acrescentar que, na obra total da nossa conversão — isto é, da nossa maturação espiritual — a oração não está isolada dos outros dois caminhos que a Igreja define com o termo evangélico «jejum e esmola». Talvez o caminho da oração nos seja mais familiar. Talvez compreendamos com mais facilidade que sem ela não é possível convertermo-nos a Deus, permanecermos em união com ele naquela comunhão que nos leva à maturação espiritual. Não duvido que entre vós, que agora me ouvis, muitíssimos haja que tenham experiência própria de oração, que tenham conhecimento dos vários aspectos dela e possam torná-los conhecidos também às outras pessoas. De facto, aprendemos a orar, orando. O Senhor Jesus ensinou-nos a orar, primeiro que tudo orando ele próprio: ... e passou a noite em oração (Lc. 4, 23. 2); outro dia, como escreve São Mateus, subiu ao monte, sozinho, para orar. E, chegada a noite, ainda Ele estava só lá em cima (Mt. 14, 23). Antes da sua Paixão e Morte, foi ao monte das Oliveiras e animou os Apóstolos a que orassem; Ele mesmo, ajoelhando-se, pôs-se a orar. Invadido pela angústia, orava mais intensamente (Cfr. Lc. 22, 39-46). Só uma vez — rogado pelos discípulos Senhor, ensina-nos a orar (Lc. 11, 1). — lhes comunicou o mais simples e mais profundo conteúdo de oração: o «Pai nosso».
Quando oramos, somos discípulos de Cristo
Sendo impossível resumir num breve discurso tudo o que se pode dizer ou foi escrito sobre o assunto da oração, queria eu hoje realçar uma coisa apenas. Nós todos, quando oramos, somos discípulos de Cristo, não porque repetimos as palavras que Ele uma vez nos ensinou — palavras sublimes, conteúdo completo da oração. Somos discípulos de Cristo, mesmo quando não usamos essas palavras. Somos seus discípulos já, só porque ora-mos: «Escuta o Mestre que ora; aprende tu a orar. Para isto, de facto, orou Ele, para nos ensinar a orar», afirma Santo Agostinho (Sto. Agostinho, Enarrationes in Ps., 56, 5) E um autor contemporâneo escreve: «Uma vez que o termo do caminho da oração se perde em Deus, e ninguém conhece o caminho senão Aquele que vem de Deus, Jesus Cristo — é necessário (...) fixarmos os olhos n'Ele só. É o caminho, a verdade e a vida. Só Ele percorreu o caminho nas duas direcções. É preciso meter-mos a nossa mão na sua e partirmos» (Y. Raguin, Chemins de la contemplation, Desclée de Brouwer, 1969, pág. 179). Orar significa falar com Deus. Atrever-me-ia a dizer mais: orar significa encontrarmo-nos naquele Único eterno Verbo, por meio de quem fala o Pai, Verbo que fala ao Pai. Este Verbo fez-se carne, para nos ser mais fácil encontrarmo-nos n'Ele, mesmo com a nossa palavra humana de oração. Pode esta palavra às vezes ser muito imperfeita, poderá até mesmo faltar-nos de todo. Mas a incapacidade das nossas palavras humanas completa-se continuamente no Verbo que se fez carne para falar ao Pai com a plenitude daquela união mística que forma com Ele cada homem que ora; que todos quantos oram, formam com Ele. Nesta particular união com o Verbo está a grandeza da oração, a sua dignidade, e em certo modo, a sua definição.
É preciso sobretudo compreender bem a grandeza fundamental e a dignidade da oração. Oração de cada homem. E ainda de toda a Igreja orante. A Igreja, em certo modo, chega tão longe como a oração: até onde haja um homem que ore.
Grandeza, dignidade e definição da oração
3. É preciso orarmos baseando-nos neste conceito essencial da oração. Quando os discípulos pediram ao Senhor Jesus «ensina-nos a orar», Ele respondeu pronunciando as palavras da oração Pai nosso, criando assim um modelo concreto e ao mesmo tempo universal. De facto, tudo quanto se pode e deve dizer ao Pai, está incluído naqueles sete pedidos, que todos sabemos de cor. Há neles tal simplicidade, que até uma criança os aprende, e simultaneamente tal profundidade, que se pode consumar uma vida inteira a meditar o sentido de cada um. Não é porventura assim? Não nos fala cada um deles, um após outro, do que é essencial para a nossa existência, voltada completamente para Deus, para o Pai? Não nos fala do «pão de cada dia», do «perdão das nossas ofensas assim como nós as perdoamos», e juntamente de «não cairmos em tentação» e de «ficarmos livres do mal»? Quando Cristo, satisfazendo o pedido dos discípulos «ensina-nos a orar», pronuncia as palavras da sua oração, ensina não só as palavras, mas ensina também que no nosso colóquio com o Pai deve haver sinceridade total e plena abertura. A oração deve abraçar tudo o que faz parte da nossa vida. Não pode ser alguma coisa de suplementar ou marginal. Tudo deve encontrar nela a própria voz. Mesmo tudo o que nos pesa; aquilo de que nos envergonhamos; aquilo que por sua natureza nos separa de Deus. Exactamente, sobretudo isto. É a oração que sempre, em primeiro lugar e essencialmente, abate a barreira entre nós e Deus, barreira que o pecado e o mal podem ter levantado. Por meio da oração, toda a gente deve encontrar a sua referência justa: quer dizer, a referência a Deus: o meu mundo interior e também o mundo objectivo, aquele em que vivemos e tal como o conhecemos. Se nos voltamos para Deus, tudo em nós se dirige para Ele. A oração é exactamente a expressão de nos dirigirmos para Deus; isto é, ao mesmo tempo, a nossa contínua conversão: o nosso caminho.
Diz a Sagrada Escritura: Assim como a chuva e a neve / descem do céu e já não voltam lá / sem terem regado / e fecundado a terra, / e sem a terem feito germinar / dando o grão ao semeador / e o pão para comer; / o mesmo sucede com a palavra / que sai da minha boca: / não volta a mim sem produzir o seu efeito, / sem executar a minha vontade / e ter cumprido a missão que lhe dei (Is. 55, 10-11. 3). A oração é o caminho do Verbo que tudo abraça. Caminho do Verbo eterno que atravessa a profundidade de tantos corações; que reconduz ao Pai tudo quanto n'Ele tem a sua origem. A oração é o sacrifício dos nossos lábios (Cfr. Heb. 13, 15). É, como escreve Santo Inácio de Antioquia, «água viva que murmura dentro de nós e diz: vem para o Pai» (Cfr. Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos, VII, 2).
Com a minha Bênção Apostólica.
Fonte: Vatican.va

QUARESMA: O QUE SIGNIFICA?

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REENCONTRA-SE NA VERDADE E NA LIBERDADE INTERIOR

JOÃO PAULO II AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 1979
Penitência e reencontro da verdade interior
1. Encontramo-nos hoje no primeiro dia da Quaresma, Quarta-feira de Cinzas. Neste dia, iniciando o período de quarenta dias de preparação para a Páscoa, a Igreja impõe-nos as cinzas sobre a nossa cabeça e convida-nos à penitência. A palavra «penitência» aparece em muitas páginas da Sagrada Escritura, ressoa na boca de muitos Profetas e, por fim, de modo particularmente eloquente, na boca do próprio Jesus Cristo: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus (Mt. 3, 2. 2). Pode dizer-se que Cristo introduziu a tradição do jejum de quarenta dias no ano litúrgico da Igreja, porque Ele próprio jejuou durante quarenta dias e quarenta noites (Mt. 4, 2) antes de começar a ensinar. Com este jejum de quarenta dias, a Igreja é, em certo sentido, chamada todos os anos a seguir o seu Mestre e Senhor, se quer pregar eficazmente o seu Evangelho. O primeiro dia da Quaresma — precisamente hoje — deve testemunhar de modo particular que a Igreja aceita este chamamento de Cristo e deseja responder-lhe. 2. Penitência, em sentido evangélico significa sobretudo «conversão». Sob este aspecto é muito significativo o trecho do Evangelho de Quarta-feira de Cinzas. Jesus fala do cumprimento dos actos de penitência, conhecidos e praticados pelos seus contemporâneos, pelo povo da Antiga Aliança. Ao mesmo tempo, porém, submete a crítica o modo puramente «exterior» do cumprimento destes actos: esmola, jejum e oração, porque este modo é contrário à finalidade própria dos mesmos actos. Fim dos actos de penitência é o mais profundo voltarmo-nos para o próprio Deus, para nos podermos encontrar com Ele no íntimo do nosso ser humano, no segredo do coração. Quando, pois deres esmola, não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas ... a fim de serem louvados pelos homens ...; que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e teu Pai, que vê o oculto, premiar-te-á. Quando orardes, não sejais como os hipócritas ... para serem vistos pelos homens ..., mas ... entra no teu quarto, e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, recompensar-te-á. E, quando jejuardes, não mostreis um ar sombrio, como os hipócritas ..., (mas) ... perfuma a cabeça e lava o rosto, para que o teu jejum não seja conhecido pelos homens, mas de teu Pai, que está presente no oculto; e teu Pai, que vê no oculto, recompensar-te-á (Mt. 6, 2-6). Por conseguinte, o primeiro e principal significado da penitência é interior, espiritual. O principal esforço da penitência consiste «em entrar em si mesmo», no mais profundo do próprio ser, entrar nesta dimensão da própria humanidade em que, em certo sentido, nos espera Deus. O homem «exterior» deve — diria — ceder, em cada um de nós, ao homem «interior» e, em certo sentido, «deixar-lhe o lugar». Na vida corrente, o homem não vive bastante «interiormente». Jesus Cristo indica de modo claro que também os actos de devoção e de penitência (como o jejum, a esmola e a oração), que pela sua finalidade religiosa são principalmente «interiores», podem ceder ao «exteriorismo» corrente, e portanto podem ser falsificados. Pelo contrário, a penitência, como conversão a Deus, requer sobretudo que o homem rejeite as aparências, saiba libertar-se da falsidade e reencontrar-se em toda a sua verdade interior. Mesmo um olhar rápido e sumário, sobre o divino fulgor da verdade interior do homem é já um bom êxito. É necessário, porém, consolidar este bom êxito mediante um trabalho sistemático sobre nós mesmos. Este trabalho é chamado «ascese» (assim já o haviam denominado os Gregos dos tempos das origens do cristianismo). Ascese quer dizer esforço interior para não nos deixarmos raptar nem impelir pelas diversas correntes «exteriores», de modo a mantermo-nos sempre nós mesmos e a conservarmos a dignidade da própria humanidade. Mas o Senhor Jesus chama-nos a fazer ainda alguma coisa mais. Quando diz «entra no teu quarto e fecha a porta», indica um esforço ascético do espírito humano, que não deve terminar no próprio homem. Aquele fechar-se é, ao mesmo tempo, a mais profunda abertura do coração humano. É indispensável para nos encontrarmos com o Pai, e por isso deve ser empreendido. «O teu Pai, que vê o oculto, recompensar-te-á». Aqui trata-se de readquirir a simplicidade do pensamento, da vontade e do coração, que é indispensável para nos encontrarmos no próprio «eu» interior com Deus. E Deus espera isto, para se aproximar do homem interiormente recolhido e ao mesmo tempo aberto à Sua palavra e ao Seu amor! Deus deseja comunicar-se à alma assim disposta. Deseja dar-lhe a verdade e o amor, que têm n'Ele a verdadeira fonte. 3. Assim, a corrente principal da Quaresma deve passar pelo homem interior, pelos corações e pelas consciências. É nisto que consiste o esforço essencial da penitência. Neste esforço, a vontade humana de nos convertermos a Deus é investida pela graça preveniente de conversão e, ao mesmo tempo, de perdão e de libertação espiritual. A penitência não é só um esforço, um peso, mas também uma alegria. Por vezes é uma grande alegria do espírito humano, alegria que outras fontes não podem suscitar. Parece que o homem contemporâneo perdeu, em certa medida, o gosto desta alegria. Perdeu, além disso, o profundo sentido daquele esforço espiritual que permite encontrarmo-nos a nós mesmos em toda a verdade do próprio íntimo. Para isto concorrem muitas causas e circunstâncias que é difícil analisar nos limites desta conversação. A nossa civilização — sobretudo no ocidente —, intimamente ligada ao progresso da ciência e da técnica, entrevê a necessidade do esforço intelectual e físico; mas perdeu notavelmente o sentido do esforço do espírito, cujo fruto é o homem visto nas suas dimensões interiores. No fim de contas o homem que vive nas correntes desta civilização muito frequentemente perde a própria dimensão; perde o sentido interior da própria humanidade. A este homem torna-se estranho quer o esforço que conduz ao fruto há pouco mencionado, quer a alegria que dele provém: - a grande alegria do reencontro e do encontro,
- a alegria da Conversão (metánoia),
- a alegria da Penitência. A severa liturgia da Quarta-feira de Cinzas e, em seguida, todo o período da Quaresma é — como preparação para a Páscoa — um chamamento sistemático a esta alegria: à alegria que frutifica do esforço por nos reencontrarmos a nós mesmos em paciência: Pela vossa constância é que salvareis as vossas almas (Lc. 21, 19).
Ninguém tenha medo de entregar-se a este esforço.
Fonte: Vatican.va

O JEJUM CONFERE UNIDADE DE CORPO E ALMA À PESSOA

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA BENTO XVI PARA A QUARESMA DE 2009
"Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome" (Mt 4, 1-2)
Queridos irmãos e irmãs!
No início da Quaresma, que constitui um caminho de treino espiritual mais intenso, a Liturgia propõe-nos três práticas penitenciais muito queridas à tradição bíblica e cristã – a oração, a esmola, o jejum – a fim de nos predispormos para celebrar melhor a Páscoa e deste modo fazer experiência do poder de Deus que, como ouviremos na Vigília pascal, «derrota o mal, lava as culpas, restitui a inocência aos pecadores, a alegria aos aflitos. Dissipa o ódio, domina a insensibilidade dos poderosos, promove a concórdia e a paz» (Hino pascal). Na habitual Mensagem quaresmal, gostaria de reflectir este ano em particular sobre o valor e o sentido do jejum. De facto a Quaresma traz à mente os quarenta dias de jejum vividos pelo Senhor no deserto antes de empreender a sua missão pública. Lemos no Evangelho: «O Espírito conduziu Jesus ao deserto a fim de ser tentado pelo demónio. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome» (Mt 4, 1-2). Como Moisés antes de receber as Tábuas da Lei (cf. Êx 34, 28), como Elias antes de encontrar o Senhor no monte Oreb (cf. 1 Rs 19, 8), assim Jesus rezando e jejuando se preparou para a sua missão, cujo início foi um duro confronto com o tentador. Podemos perguntar que valor e que sentido tem para nós, cristãos, privar-nos de algo que seria em si bom e útil para o nosso sustento. As Sagradas Escrituras e toda a tradição cristã ensinam que o jejum é de grande ajuda para evitar o pecado e tudo o que a ele induz. Por isto, na história da salvação é frequente o convite a jejuar. Já nas primeiras páginas da Sagrada Escritura o Senhor comanda que o homem se abstenha de comer o fruto proibido: «Podes comer o fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás» (Gn 2, 16-17). Comentando a ordem divina, São Basílio observa que «o jejum foi ordenado no Paraíso», e «o primeiro mandamento neste sentido foi dado a Adão». Portanto, ele conclui: «O “não comas” e, portanto, a lei do jejum e da abstinência» (cf. Sermo de jejunio: PG 31, 163, 98). Dado que todos estamos estorpecidos pelo pecado e pelas suas consequências, o jejum é-nos oferecido como um meio para restabelecer a amizade com o Senhor. Assim fez Esdras antes da viagem de regresso do exílio à Terra Prometida, convidando o povo reunido a jejuar «para nos humilhar – diz – diante do nosso Deus» (8, 21). O Omnipotente ouviu a sua prece e garantiu os seus favores e a sua protecção. O mesmo fizeram os habitantes de Ninive que, sensíveis ao apelo de Jonas ao arrependimento, proclamaram, como testemunho da sua sinceridade, um jejum dizendo: «Quem sabe se Deus não Se arrependerá, e acalmará o ardor da Sua ira, de modo que não pereçamos?» (3, 9). Também então Deus viu as suas obras e os poupou. No Novo Testamento, Jesus ressalta a razão profunda do jejum, condenando a atitude dos fariseus, os quais observaram escrupulosamente as prescrições impostas pela lei, mas o seu coração estava distante de Deus. O verdadeiro jejum, repete também noutras partes o Mestre divino, é antes cumprir a vontade do Pai celeste, o qual «vê no oculto, recompensar-te-á» (Mt 6, 18). Ele próprio dá o exemplo respondendo a satanás, no final dos 40 dias transcorridos no deserto, que «nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4). O verdadeiro jejum finaliza-se portanto a comer o «verdadeiro alimento», que é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34). Portanto, se Adão desobedeceu ao mandamento do Senhor «de não comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal», com o jejum o crente deseja submeter-se humildemente a Deus, confiando na sua bondade e misericórdia. Encontramos a prática do jejum muito presente na primeira comunidade cristã (cf. Act 13, 3; 14, 22; 27, 21; 2 Cor 6, 5). Também os Padres da Igreja falam da força do jejum, capaz de impedir o pecado, de reprimir os desejos do «velho Adão», e de abrir no coração do crente o caminho para Deus. O jejum é também uma prática frequente e recomendada pelos santos de todas as épocas. Escreve São Pedro Crisólogo: «O jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum, portanto quem reza jejue. Quem jejua tenha misericórdia. Quem, ao pedir, deseja ser atendido, atenda quem a ele se dirige. Quem quer encontrar aberto em seu benefício o coração de Deus não feche o seu a quem o suplica» (Sermo 43; PL 52, 320.332). Nos nossos dias, a prática do jejum parece ter perdido um pouco do seu valor espiritual e ter adquirido antes, numa cultura marcada pela busca da satisfação material, o valor de uma medida terapêutica para a cura do próprio corpo. Jejuar sem dúvida é bom para o bem-estar, mas para os crentes é em primeiro lugar uma «terapia» para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus. Na Constituição apostólica Paenitemini de 1966, o Servo de Deus Paulo VI reconhecia a necessidade de colocar o jejum no contexto da chamada de cada cristão a «não viver mais para si mesmo, mas para aquele que o amou e se entregou a si por ele, e... também a viver pelos irmãos» (Cf. Cap. I). A Quaresma poderia ser uma ocasião oportuna para retomar as normas contidas na citada Constituição apostólica, valorizando o significado autêntico e perene desta antiga prática penitencial, que pode ajudar-nos a mortificar o nosso egoísmo e a abrir o coração ao amor de Deus e do próximo, primeiro e máximo mandamento da nova Lei e compêndio de todo o Evangelho (cf. Mt 22, 34-40). A prática fiel do jejum contribui ainda para conferir unidade à pessoa, corpo e alma, ajudando-a a evitar o pecado e a crescer na intimidade com o Senhor. Santo Agostinho, que conhecia bem as próprias inclinações negativas e as definia «nó complicado e emaranhado» (Confissões, II, 10.18), no seu tratado A utilidade do jejum, escrevia: «Certamente é um suplício que me inflijo, mas para que Ele me perdoe; castigo-me por mim mesmo para que Ele me ajude, para aprazer aos seus olhos, para alcançar o agrado da sua doçura» (Sermo 400, 3, 3: PL 40, 708). Privar-se do sustento material que alimenta o corpo facilita uma ulterior disposição para ouvir Cristo e para se alimentar da sua palavra de salvação. Com o jejum e com a oração permitimos que Ele venha saciar a fome mais profunda que vivemos no nosso íntimo: a fome e a sede de Deus. Ao mesmo tempo, o jejum ajuda-nos a tomar consciência da situação na qual vivem tantos irmãos nossos. Na sua Primeira Carta São João admoesta: «Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como estará nele o amor de Deus?» (3, 17). Jejuar voluntariamente ajuda-nos a cultivar o estilo do Bom Samaritano, que se inclina e socorre o irmão que sofre (cf. Enc. Deus caritas est, 15). Escolhendo livremente privar-nos de algo para ajudar os outros, mostramos concretamente que o próximo em dificuldade não nos é indiferente. Precisamente para manter viva esta atitude de acolhimento e de atenção para com os irmãos, encorajo as paróquias e todas as outras comunidades a intensificar na Quaresma a prática do jejum pessoal e comunitário, cultivando de igual modo a escuta da Palavra de Deus, a oração e a esmola. Foi este, desde o início o estilo da comunidade cristã, na qual eram feitas colectas especiais (cf. 2 Cor 8-9; Rm 15, 25-27), e os irmãos eram convidados a dar aos pobres quanto, graças ao jejum, tinham poupado (cf. Didascalia Ap., V, 20, 18). Também hoje esta prática deve ser redescoberta e encorajada, sobretudo durante o tempo litúrgico quaresmal. De quanto disse sobressai com grande clareza que o jejum representa uma prática ascética importante, uma arma espiritual para lutar contra qualquer eventual apego desordenado a nós mesmos. Privar-se voluntariamente do prazer dos alimentos e de outros bens materiais, ajuda o discípulo de Cristo a controlar os apetites da natureza fragilizada pela culpa da origem, cujos efeitos negativos atingem toda a personalidade humana. Exorta oportunamente um antigo hino litúrgico quaresmal: «Utamur ergo parcius, / verbis, cibis et potibus, / somno, iocis et arcitius / perstemus in custodia – Usemos de modo mais sóbrio palavras, alimentos, bebidas, sono e jogos, e permaneçamos mais atentamente vigilantes». Queridos irmãos e irmãos, considerando bem, o jejum tem como sua finalidade última ajudar cada um de nós, como escrevia o Servo de Deus Papa João Paulo II, a fazer dom total de si a Deus (cf. Enc. Veritatis splendor, 21). A Quaresma seja portanto valorizada em cada família e em cada comunidade cristã para afastar tudo o que distrai o espírito e para intensificar o que alimenta a alma abrindo-a ao amor de Deus e do próximo. Penso em particular num maior compromisso na oração, na lectio divina, no recurso ao Sacramento da Reconciliação e na participação activa na Eucaristia, sobretudo na Santa Missa dominical. Com esta disposição interior entremos no clima penitencial da Quaresma. Acompanhe-nos a Bem-Aventurada Virgem Maria, Causa nostrae laetitiae, e ampare-nos no esforço de libertar o nosso coração da escravidão do pecado para o tornar cada vez mais «tabernáculo vivo de Deus». Com estes votos, ao garantir a minha oração para que cada crente e comunidade eclesial percorra um proveitoso itinerário quaresmal, concedo de coração a todos a Bênção Apostólica.
Vaticano, 11 de Dezembro de 2008.
Fonte: Vatican.va

O HOMEM É UM SER QUE PROCURA

O homem é um ser que procura. Toda a sua história o confirma. Também a vida de cada um de nós o testemunha. Muitos são os campos em que o homem procura, torna a procurar e por fim encontra; às vezes, depois de ter encontrado, começa de novo a procurar. Em todos estes campos em que o homem se revela como ser que procura, um há, o mais profundo de todos o que penetra mais intimamente na humanidade mesma do ser humano. E é o mais unido ao sentido de toda a vida humana.
O homem é o ser que procura a Deus. Diversos são os caminhos desta busca. Múltipla é a história das almas humanas, exactamente ao percorrerem estes caminhos. Às vezes os caminhos parecem muito simples e curtos. Outras vezes são difíceis, complicados e longos. Às vezes o homem chega facilmente ao seu "heureka", "encontrei". Outras vezes luta com as dificuldades, como se não pudesse penetrar em si mesmo e no mundo, e sobretudo como se não pudesse compreender o mal que há no mundo. É sabido que, até no contexto da Natividade, mostrou este mal o seu aspecto ameaçador. Não poucos são os homens que descreveram a busca que fizeram de Deus, pelos caminhos da própria vida. Mais numerosos ainda são aqueles que se calam, considerando, como o próprio mistério mais profundo e mais íntimo, tudo o que viveram percorrendo estes caminhos: o que experimentaram, como procuraram, como perderam a orientação e como a. encontraram de novo.
E, até depois de O encontrar, continua a procurá-Lo. E se O procura com sinceridade, já O encontrou; como, num célebre fragmento de Pascal, Jesus diz ao homem: "Consola-te, tu não me procurarias, se não Me tivesses já encontrado" (B. Pascal. Pensées, 553: Les mystère de Jésus). Esta é a verdade sobre o homem. Não é possível falsificá-la. Também não é possível destruí-la. Deve ser deixada ao homem porque ela é o que o define. Que dizer do ateísmo diante desta verdade? Muitas coisas é necessário dizer, mais do que se pode encerrar no enquadramento deste meu breve discurso. Ao menos uma coisa não pode deixar de ser dita: é indispensável aplicar um critério, isto é, o critério da liberdade do espírito humano. Não está de acordo com este critério — critério fundamental — o ateísmo, quer quando nega "a priori" que o homem seja o ser que procura a Deus, quer quando mutila em vários modos tal procura na vida social, pública e cultural. Esta atitude é contrária aos direitos fundamentais do homem.
PAPA JOÃO PAULO II AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 27 de Dezembro de 1978

AS VIRTUDES CARDEAIS: PRUDÊNCIA

Na linha do Papa Luciani
1. Ninguém poderia imaginar que a audiência geral do Santo Padre João Paulo I da quarta-feira, 27 de setembro, seria a última. A sua morte depois de trinta e três dias de pontificado deixou o mundo surpreso e invadido por um profundo pesar. Ele, que suscitou uma alegria tão grande na Igreja e inundou os corações dos homens com uma enorme esperança, consumou e levou a cabo a sua missão num tempo muito breve. Na sua morte fizeram-se realidade as palavras tão repetidas no Evangelho: Estai também vós preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que menos pensardes (Mt 24, 44). João Paulo I estava sempre vigilante e a chamada do Senhor não o apanhou de surpresa. Respondeu-lhe com a mesma alegria e emoção com que havia aceitado a eleição à Sé de São Pedro no dia 26 de agosto.
Na plenitude da caridade
2. Hoje, passadas quatro semanas desde aquela audiência, pela primeira vez apresenta-se diante de vós João Paulo II, que deseja saudar-vos e falar-vos. Propomo-nos dar continuidade aos temas já iniciados por João Paulo I. Recordemos que ele havia falado das três virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade, concluindo com a caridade. Esta virtude, que foi o seu último ensinamento, é aqui na terra a maior das virtudes, como nos ensina São Paulo (cfr. 1 Cor 13, 13); é a virtude que vai além da vida e da morte. Pois quando termina o tempo da fé e da esperança, o amor permanece. João Paulo I já passou pelo tempo da fé, da esperança e da caridade – que se manifestou tão magnificamente nesta terra e cuja plenitude só será revelada na eternidade.
O homem prudente
3. Cabe-nos hoje falar de outra virtude, porque vi nos apontamentos do falecido Pontífice que não tinha só a intenção de falar das três virtudes teologais, mas também das quatro virtudes chamadas cardeais. João Paulo I queria falar das “sete lâmpadas” da vida cristã, como as chamava o Papa João XXIII.
Pois bem, quero seguir hoje o programa traçado pelo Papa desaparecido e falar brevemente da virtude da prudência. Devemos profundo reconhecimento e gratidão aos antigos, que nos já nos disseram muitas coisas sobre essa virtude. Até certo ponto, ensinaram-nos que o valor de um homem deve ser medido pelo metro do bem moral quer realiza na sua vida.
Isto é precisamente o que situa no primeiro lugar a virtude da prudência. O homem prudente, que se esforça por realizar tudo aquilo que é verdadeiramente bom, esforça-se por medir tudo – toda situação e todo o seu agir – pelo metro do bem moral. Por isso, ao contrário do que freqüentemente se pensa, prudente não é aquele que sabe “virar-se bem” na vida e tirar dela o maior proveito, mas aquele que consegue edificar toda sua vida segundo a voz da consciência reta e as exigências da justa moral.
Assim, a prudência vem a ser a chave para a realização da tarefa fundamental que cada um de nós recebeu de Deus: a perfeição do próprio homem. Deus deu a cada um de nós a sua humanidade. É necessário que respondamos como se deve a essa tarefa.
O cristão prudente
4. O cristão, porém, tem o direito e o dever de contemplar a virtude da prudência também sob outra perspectiva. Esta virtude é no homem como que a imagem e a semelhança da providência do próprio Deus dentro das dimensões do homem concreto. Porque o homem – sabemo-lo pelo livro do Gênesis – foi criado à imagem e semelhança de Deus. E Deus realiza o seu plano na história da criação e, sobretudo, na história da humanidade.
O objetivo deste desígnio é o bem último do universo, como ensina São Tomás. E esse mesmo desígnio converte-se, no âmbito da história da humanidade, muito simplesmente no desígnio da salvação, que nos abarca a todos nós. No ponto central da sua realização, encontra-se Jesus Cristo, no qual se manifestaram o amor eterno e a solicitude do próprio Deus, do Pai, pela salvação do homem. Esta é ao mesmo tempo a manifestação plena da providência divina.
Por conseguinte, o homem, que é a imagem de Deus, deve ser – como novamente nos ensina São Tomás –, em certo sentido, a providência. Mas na medida da sua própria vida. O homem pode tomar parte nesta grande caminhada de todas as criaturas para o objetivo, que é o bem da criação. E, expressando-nos mais na linguagem da fé, o homem deve tomar parte neste desígnio divino da salvação, deve caminhar para a salvação, e ajudar os outros a salvar-se. Ajudando os outros, salva-se a si próprio.
Exame de consciência
5. Peço aos que me escutam que repensem agora a sua vida sob esta luz. Sou prudente? Vivo conseqüente e responsavelmente? O programa que cumpro da minha vida realiza o autêntico bem? Serve para a salvação que Cristo e a Igreja querem para nós? Se é um estudante ou uma estudante, um filho ou uma filha, quem hoje me escuta, que contemple a essa luz os seus deveres de estudo, as leituras, os interesses, as diversões, o ambiente dos amigos e das amigas. Se é um pai ou uma mãe de família quem me ouve, pense por um momento nos seus deveres conjugais e de pai ou mãe. Se é um ministro ou um estadista, olhe para o conjunto dos seus deveres e responsabilidades: busca o verdadeiro bem da sociedade, da nação, da humanidade, ou apenas interesses particulares e parciais? Se quem me escuta é um jornalista ou um publicitário, um homem que exerce influência sobre a opinião pública, reflita sobre o valor e a finalidade desta influência.
Pedir ao Espírito Santo o dom de conselho
6. Também eu que vos falo, eu, o Papa, o que devo fazer para atuar prudentemente? Vêm-me ao pensamento agora as cartas de Albino Luciani quando era patriarca de Veneza, a São Bernardo llustrissimi Signori (“Ilustríssimos Senhores”) de Albino Luciani, em que este escreve “cartas” a diversos personagens históricos e as suas “respostas” (N. do E.).>. Na sua resposta ao cardeal Luciani, o abade de Claraval, doutor da Igreja, recorda com muita ênfase que quem governa deve ser “prudente”. O que deve, pois, fazer o novo Papa para atuar prudentemente?Não há duvida de que deve fazer muito neste sentido. Deve aprender sempre e meditar incessantemente sobre os problemas. Mas, além disso, o que pode fazer? Deve orar e procurar obter do Espírito Santo o dom de conselho. E todos os que quiserem que o novo Papa seja um Pastor prudente da Igreja, implorem o dom de conselho para ele e também para si próprios, confiando na especial intercessão da Mãe do Bom Conselho. Porque devemos desejar que todos os homens se comportem prudentemente e que aqueles que detêm o poder atuem com verdadeira prudência. Para que a Igreja – prudentemente, fortalecendo-se com os dons do Espírito Santo, e em particular com o dom de conselho –, participe eficazmente deste grande caminho rumo ao bem de todos e mostre a cada um a via para a salvação eterna.
JOÃO PAULO II AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 25 de Outubro de 1978

O PRINCÍPIO DO SER HUMANO

Por Jérôme Lejeune Quando um ser humano passa a existir? É esta a questão que o renomado Prof. Lejeune responde neste breve artigo, valendo-se para isso da sua vasta experiência no campo da pediatria e da genética. A CÉLULA ORIGINAL E O GRAVADOR A transmissão da vida é um fato paradoxal. Por um lado, sabemos com certeza que o laço que une os pais aos filhos é material, já que o novo ser surgirá do encontro de duas células, o óvulo da mãe e o espermatozóide do pai. Mas, por outro, sabemos com igual certeza que nenhuma das moléculas, nenhum dos átomos que constituem a célula originária tem a menor possibilidade de ser transmitido, tal qual é, à geração seguinte. Torna-se óbvio, portanto, que o que se transmite não é a matéria dos pais, mas uma determinada modificação desta; ou, mais exatamente, uma forma. Mesmo sem evocarmos o complexo mecanismo das macromoléculas codificadas que são os vetores da herança, este paradoxo desaparece se observarmos que é comum a todos os processos de reprodução, naturais ou inventados. Uma estátua, por exemplo, requer um substrato material, de bronze, mármore ou barro. Durante a reprodução, existe em cada instante uma contigüidade de matéria entre a estátua e o molde, ou entre o molde e a réplica. O que se reproduz, porém, não é o material, que pode variar segundo a vontade do fundidor, mas exatamente a forma dada à matéria pelo gênio do escultor. A reprodução dos seres vivos é, certamente, muito mais delicada que a de uma forma inanimada, mas segue o mesmo caminho, como no-lo demonstra um exemplo corrente. Na fita cassette é possível gravar, por meio de minúsculas modificações de imantação, uma série de sinais que correspondem, por exemplo, à execução de uma sinfonia. Essa fita, colocada num aparelho, reproduzirá a sinfonia, embora nem o gravador nem a fita contenham os instrumentos ou mesmo a partitura. É de uma maneira semelhante que se reproduz o organismo vivo. A fita de gravação é incrivelmente tênue, pois está representada pela molécula de DNA, cuja pequenez confunde a inteligência. Para fazermos uma idéia, se se reunisse num mesmo ponto o conjunto das moléculas de DNA que especificassem todas e cada uma das qualidades físicas dos seis bilhões de homens que existem neste planeta, essa quantidade de matéria caberia facilmente dentro de um dedal. A célula original do ser humano é semelhante ao gravador com a fita. Mal o mecanismo se põe em funcionamento, a vida humana desenvolve-se de acordo com o seu próprio programa, e se o nosso organismo é efetivamente um aglomerado de matéria animado por uma natureza humana, isso se deve a esta informação primitiva, e somente a ela. O fato de o ser humano dever desenvolver-se no seio do organismo materno durante os seus nove primeiros meses não modifica em nada este fato. Para a mais estrita análise biológica, o princípio do ser remonta à fecundação, e toda a existência, desde as primeiras divisões celulares até à morte, não é senão a ampliação do tema originário. A VERDADEIRA HISTÓRIA DO PEQUENO POLEGAR A primeira célula que se divide ativamente, esse primeiro conglomerado celular em incessante organização, a pequena mórula que vai aninhar-se na parede uterina – será já um ser humano diferente da sua mãe? Sim. Não somente a sua individualidade genética já está estabelecida, como acabamos de ver, mas este minúsculo embrião, no sexto ou sétimo dia da sua vida, com um tamanho de um milímetro e meio apenas, é já capaz de presidir ao seu próprio destino. É ele, e somente ele, quem por uma mensagem química estimula o funcionamento do corpo amarelo do ovário e suspende o ciclo menstrual da sua mãe. Obriga assim a mãe a protegê-lo; faz já dela o que quer, e continuará a fazê-lo daí por diante. Quinze dias após a suspensão das regras, quer dizer, na idade real de um mês (já que a fecundação não pode ocorrer senão no 15º dia do ciclo), o ser humano mede quatro milímetros e meio. O seu minúsculo coração palpita já há uma semana, e estão esboçados os seus braços, pés, cabeça e cérebro. Sessenta dias depois, mede, da cabeça às nádegas, uns três centímetros. Caberia, dobrado, numa casca de noz. No interior de um punho fechado seria invisível, e este punho poderia esmagá-lo, num descuido, sem sequer o perceber. Mas abri a mão, e vereis que está quase terminado: mãos, pés, cabeça, órgãos, tudo está no seu lugar e só tem que desenvolver-se. Olhai mais de perto, e podereis ler-lhe as linhas da mão e dizer-lhe a sina. E mais de perto ainda, com um microscópio comum, podereis decifrar as suas impressões digitais. Ali está tudo o que é necessário para estabelecer a sua carteira de identidade. O sexo parece ainda mal definido, mas olhai muito de perto a glândula genital: evolui já como um testículo, se é um menino, ou como um ovário, se é uma menina. O incrível Pequeno Polegar, o homem mais pequeno que o polegar, existe realmente; não o da lenda, mas aquele que foi cada um de nós. Mas após dois meses funciona já o sistema nervoso? Sim. Se lhe roçarmos o lábio superior com um cabelo, o feto mexe os braços, o corpo e a cabeça com um movimento de fuga. Aos três meses, se lhe tocarmos o lábio superior, volta a cabeça, pestaneja, franze as sobrancelhas, aperta os punhos e os lábios; depois sorri, abre a boca e consola-se com um trago de líquido amniótico. Às vezes, nada vigorosamente na sua bolsa amniótica e revira-se num segundo! Aos quatro meses, mexe-se com tanta vivacidade que a mãe sente os seus movimentos. Graças à ausência quase total de gravidade na sua cápsula de cosmonauta, dá numerosas voltas, atos que demorará anos a realizar de novo ao ar livre. Aos cinco meses, agarra fortemente o minúsculo bastonete que se lhe põe na mão e começa a chupar o polegar esperando a libertação. É verdade que a maior parte das crianças nasce aos nove meses. Mas está já perfeitamente desenvolvida aos cinco. A cada dia a ciência nos descobre um pouco mais acerca desta maravilha da existência oculta, deste mundo formigante de vida dos homens minúsculos, mais encantador ainda que o dos contos de fadas. Pois os contos foram inventados com base nesta história verdadeira, e se as aventuras do Pequeno Polegar encantaram sempre a infância, é porque todas as crianças, e todos os adultos em que elas se converteram, foram um dia um Pequeno Polegar no seio de sua mãe. QUANDO ESTÁ TERMINADO O HOMEM? Resta ver a qualidade mais especificamente humana, aquela que distingue o homem de todos os animais, a inteligência. Quando aparece? Aos seis dias, aos seis meses, aos seis anos ou mais tarde? Responder com uma só palavra não teria sentido algum; mas podemos, sim, distinguir as etapas do órgão da inteligência, que é acessível à observação. O cérebro está no seu lugar passados dois meses, mas serão necessários os nove meses completos para que se constituam totalmente os seus dez milhões de células. Na criança que nasce, está então acabado o cérebro? Não. As inúmeras conexões que unem cada célula, por milhares de contactos, a todas as outras, não se estabelecerão totalmente senão aos seis ou sete anos de idade – o que corresponde à idade da razão. E esta complicada teia de circuitos não poderá desenvolver a sua plena potência senão quando o seu mecanismo químico e elétrico estiver suficientemente rodado, isto é, aos quinze ou dezesseis anos, idade da plenitude da inteligência abstrata. Isto é tão certo que, passada essa idade, os especialistas em psicometria começam a preocupar-se com os estudantes, já que o inevitável envelhecimento começa aos vinte. E que dizer das inexplicáveis modificações que, em cada dia, o próprio exercício do pensamento necessariamente acarreta? Quantas destas minúsculas retificações químicas ou anatômicas nesta imensa rede pensante são necessárias para definir finalmente o caráter, a experiência, ou o prêmio de consolação que nos outorga o tempo passado? Quanto tempo é necessário para fazer um homem? Napoleão dizia que são precisos vinte anos. Um filósofo diria: pelo menos uma vida inteira... e depois a eternidade, acrescenta o cristão, unindo-se desta forma ao tempo do biólogo. Através do longo rodeio de uma paciente observação, o médico volta a descobrir uma verdade evidente que a linguagem comum reconheceu sempre: o homem nunca está terminado. Terminado o Pequeno Polegar que se faz criança de peito? Terminado o escolar que se faz adulto? E o próprio adulto estará terminado, quando persiste ainda no seu próprio devir? Dizer que um homem está “terminado” não é a condenação mais grave? Quando recebe o golpe de graça, não se diz que o “acabaram”? Só se pode julgar aquilo que já se realizou, com base nas provas produzidas; e o julgamento conduz à sanção: recompensa ou castigo, conforme o exija a justiça. Mas quem pode arrogar-se o direito de julgar a própria inocência? Condenar um feto pelo futuro, é deixar de ver que o homem está já aí, e que só lhe falta acordar. No coma profundo ou sob anestesia geral, o acidentado não pensa; está inerte e insensível. Por que motivo, durante esta suspensão de toda a atividade mental, a sua vida é sagrada? Porque esperamos o seu despertar. Pretender que o sono da existência obscura no seio da mãe não é o sono de um homem é um erro de método. Pois se todos os raciocínios não podem comover, se toda a biologia moderna parece insuficiente, se até se rejeitassem átomos e moléculas, e se mesmo tudo isso não pudesse convencer-nos, um só fato o poderia. Basta que esperemos algum tempo. Isso que tomais por uma mórula informe dir-vos-á um dia o que era, convertendo-se, como vós mesmos, num homem. E a experiência é fiel. Nada de parecido aconteceria se tivéssemos predito um acontecimento semelhante a propósito de uma célula de um tumor ou mesmo de um óvulo de chimpanzé.
Fonte: Editora Quadrante

AS CIÊNCIAS NATURAIS E SUAS LIMITAÇÕES

Por Joaquim Blessmann Ao contrário do que pensam muitas pessoas, também pesquisadores, nenhum conhecimento científico é definitivo. Basta conhecer um pouco de História da Ciência para perceber que teorias que pareciam estar mais que provadas em outros tempos, são completamente ridículas para o homem moderno. A respeito do conceito do tempo, comentou Santo Agostinho: “O que é o tempo? Se ninguém me fizer esta pergunta, eu sei o que o tempo é. Mas se eu desejar explicar a quem me fizer a pergunta, eu não sei mais respondê-la”. Cremos que com relação ao conceito de ciência pode-se fazer comentário análogo. É difícil defini-la, e muitos livros foram escritos sobre esse tema. Inicialmente, vejamos o que apresenta o dicionário Houaiss: “Ciência: Cada um dos ramos particulares e específicos do conhecimento, caracterizados por sua natureza empírica, lógica e sistemática, baseada em provas, princípios, argumentações ou demonstrações que garantam ou legitimem a sua validade”. Entre os diversos livros que procuram definir ou ao menos explicar o que seja ciência, vejamos o que diz Chalmers 1. Ele começa o Prefácio da 1ª edição (1976) informando que seu livro pretende ser uma introdução simples, clara e elementar das opiniões modernas sobre a natureza da ciência. E apresenta diversas dessas “opiniões” (que, a rigor, partem de um pré-conceito), em um crescendo de complexidade, terminando com sua própria visão do que seja ciência. Limitar-nos-emos a algumas das considerações iniciais de Chalmers 2: “Em uma concepção do senso comum do que seja conhecimento científico poder-se-ia dizer que conhecimento científico é conhecimento confiável porque é conhecimento provado objetivamente, sendo as teorias científicas derivadas de maneira rigorosa a partir de dados obtidos por observação e experimento”. A CIÊNCIA NÃO É VERDADE De um modo já mais rigoroso, Chalmers considera que conhecimento científico não é conhecimento comprovado, mas sim que é provavelmente verdadeiro, pois, “por maior que seja, o número de observações ou experimentos é sempre limitado. Em virtude desta limitação, as conclusões devem ser consideradas não como certeza absoluta, mas como provavelmente verdadeiras” 3. Vejamos, como um exemplo das muitas manifestações dos cientistas, o que escreveram Hawking e Medinow 4: Qualquer teoria física é sempre provisória, no sentido de ser apenas uma hipótese: nunca é possível prová-la. Não importa quantas vezes os resultados dos experimentos estejam de acordo com alguma teoria, você nunca poderá ter certeza de que, na próxima vez, o resultado não a contradirá. Por outro lado, você pode desacreditar uma teoria encontrando uma única observação que seja discordante de suas previsões. Do mesmo ponto de vista é o matemático Stewart 5: Nunca se pode ter certeza de que uma teoria é absolutamente correta, ainda que ela resista a um milhão de testes experimentais; pois – quem sabe? – poderá fracassar no milionésimo primeiro. Assim, às vésperas do 3º milênio d.C., os cientistas começam a abandonar a busca da verdade [...]. Estamos aprendendo, de maneira penosamente lenta, a não nos levar demasiado a sério. Cremos que a concepção de teoria científica apresentada por Tomás de Aquino em sua Suma Teológica é mais correta e encaixa-se nas considerações de Stewart. Ela deixa bem claro que a realidade física, o fenômeno observado, é uma coisa; e outra coisa são as teorias científicas que tentam explicá-lo: “Uma teoria deve salvar as aparências sensíveis [ou seja, deve estar de acordo com o que aparece aos sentidos, com a realidade física]. Isto, entretanto, não constitui uma prova suficiente e decisiva, porque talvez pudéssemos salvar as aparências sensíveis com uma teoria diferente e mais simples”. Com o que Hawking está plenamente de acordo, ao dizer: “Não peço a uma teoria que corresponda à realidade, porque não sei o que ela é [...]. Apenas peço que uma teoria preveja os resultados de experiências” 6. Em outras palavras: uma teoria científica não pretende corresponder à realidade, mas apenas explicá-la. Exemplifiquemos: – A teoria do contínuo, na engenharia. Admite-se que a matéria seja contínua, sem falhas, fissuras, vazios, poros, espaços entre cristais ou moléculas. É mais do que evidente que isso não corresponde à realidade. Mas as teorias baseadas neste postulado explicam satisfatoriamente o comportamento dos materiais e facilitam enormemente os cálculos, quer se trate de uma ponte, torre, barragem ou outra estrutura qualquer, quer se trate do movimento e das forças existentes nos líquidos e nos gases, tais como: sustentação de um avião, bolas com “efeito” (futebol, tênis, pingue-pongue) e mesmo no movimento do sangue nas veias e artérias, etc. – Isaac Newton, em sua lei da gravitação universal: “Tudo se passa como se a matéria atraísse a matéria na razão direta das massas e na razão inversa dos quadrados das distâncias”. Não afirma, categórico: “a matéria atrai a matéria...”, mas, modestamente, sugere que “tudo se passa como se...”. – Owen Gingerich, astrônomo de Harvard: “Os átomos, como os imaginamos, não podem ser comprovados de um modo absoluto. O máximo que podemos dizer é que o universo age como se fosse feito de átomos”. Novamente um modesto “como se”, indicando que se pretende apenas explicar a realidade, sem a pretensão de afirmar que é assim e que não pode ser diferente. – O mesmo vale para o mundo psíquico: uma teoria pode explicar o comportamento humano, mas nada assegura que ela indique a razão real deste comportamento. Penso nas teorias de Freud, Adler, Jung e tantos outros; teorias estas conflitantes entre si. Cada autor rejeita explicações diferentes da sua, que, no seu entender, exprime perfeitamente as razões do comportamento humano. A concepção de Tomás de Aquino, em que se baseia um princípio fundamental do pensamento científico da atualidade (“em ciência nada é definitivo”), encontra corroboração pacífica no mundo científico. Por exemplo, encontramos o seguinte em Morris: “Hoje em dia escreve-se muito sobre o caráter bizarro e supostamente paradoxal da mecânica quântica [...]. Os físicos que usam a mecânica quântica em seu trabalho não têm que se preocupar com seu sentido. A teoria funciona, e funciona muito bem. Mas, se quisermos saber precisamente o que a mecânica quântica nos diz sobre a natureza da realidade [o grifo é nosso] depararemos com problemas que nunca foram resolvidos, ou que, pelo menos, estão sujeitos a interpretações diferentes” 7. Em resumo, uma teoria científica não quer ser a realidade, mas apenas explicá-la, como muito bem expõe o mesmo autor 8: “É a imaginação criativa que amplia nossa compreensão, descobrindo ligações entre fenômenos aparentemente não relacionados e formando teorias lógicas e coerentes para explicá-los” [o grifo é nosso]. Especificamente, Morris cita a teoria das cordas de dez dimensões (nove no espaço e uma no tempo). Essa teoria pode ter coerência matemática – e é isto que se exige de uma teoria científica – mas não há garantia de que as entidades teóricas correspondam a alguma coisa que exista na realidade 9. Uma teoria deve ter pelo menos uma prova do que ela afirma, além de uma proposição lógica, coerente. Se não houver prova, não passa de uma hipótese, que pode ser um passo inicial para uma futura teoria caso venha a ser confirmada por observações e / ou experimentos. Pode-se ainda falar de uma simples proposta, quando se trata de uma idéia arrojada e ainda sem uma estrutura suficiente para ser uma hipótese. Pode ser, por assim dizer, um lampejo que aparece na mente de um cientista, como fruto, em geral, de muita meditação e outro tanto de genialidade. A rigor, pode-se dizer que quando uma teoria é completamente comprovada, sem sombra de dúvida, deixa de ser uma teoria: é um fato. A Terra esférica (aproximadamente), por exemplo. A prova definitiva foi obtida pelas fotografias tiradas do espaço por astronautas. Comentando este ponto, Thuillier conclui que “as teorias só se tornam verdadeiramente verdadeiras quando não são mais teorias”. Vejamos o que escreveu: “Os cientistas utilizam os fatos, i.e., certo número de observações e de resultados experimentais [...]. Seu desejo é produzir teorias válidas para uma infinidade de fenômenos. Mas, na prática, nunca podem estar certos de que reuniram todos os «fatos» úteis; e as teorias mais bem comprovadas continuam, por isso mesmo, precárias e frágeis [...]. Ao apresentar os «fatos» como uma espécie de prova maciça da verdade da ciência, dão a esta última uma publicidade exagerada 10. “A afirmação de que a Terra é esférica (ou quase esférica) teve de início o estatuto de teoria: foi a partir da reflexão e da especulação que os sábios antigos chegaram a esta idéia. Depois, a teoria foi confirmada brilhantemente. Todos já vimos, em nossa época, fotografias que mostram literalmente a esfericidade (ou a quase esfericidade) de nosso planeta. Mas este é o paradoxo: não se trata mais de uma teoria! Para nós, é um fato, [...] nos lembra (este resultado) que as teorias só se tornam completamente verdadeiras quando não são mais teorias...” Aí está, em nosso entender, umas das razões da condenação de Galileu pela Inquisição: deu como certo o que na época não deveria passar de uma hipótese. Não tinha prova alguma do que defendia, como ardoroso divulgador do trabalho de Copérnico. O seu maior mérito esteve em refutar brilhantemente as objeções ao heliocentrismo. A rotação da Terra em torno de seu eixo, no tempo de Galileu, não passava de uma hipótese, e Galileu não conseguiu provar esta rotação. A prova que apresentou, das marés, estava completamente errada, e só contribuiu para que sua “teoria” fosse fortemente combatida, inclusive pela maioria dos astrônomos de sua época. É verdade que acenou para os ventos alísios como prova desta rotação, mas não conseguiu quantificar este fenômeno que, de fato, está ligado à rotação de nosso planeta. A primeira prova de que a Terra gira em torno de seu eixo foi obtida por Foucault, em 1851, com o pêndulo que fixou na cúpula do Panteão de Paris. Dizem que se Galileu tivesse observado por mais tempo o movimento pendular de um candelabro numa igreja (quando constatou que o período era sempre o mesmo, independentemente da amplitude de oscilação), teria conseguido a prova que tão ansiosamente procurava. Ben-Dov, físico e Professor da História da Ciência e de Filosofia da Ciência, exprime muito bem o que se pode esperar da ciência hoje em dia: “Diante dos sucessos obtidos pela física desde o século XVII, muitos viam na ciência um método que permitia desvelar a verdade última da realidade, os que consideravam que a validade de uma teoria física decorre do fato de todos concordarem em reconhecer que ela fornece uma descrição «verdadeira» da natureza [...]. “Este «realismo científico» animou a ciência até o século XIX [...]. No século XIX certas teorias científicas vieram substituir outras que não eram, contudo, menos científicas: a teoria do calórico (natureza fluida do calor) foi abandonada em proveito da teoria mecânica do calor, e a teoria ondulatória da luz destronou a teoria corpuscular. Assim uma vez que o método científico não garante que uma teoria forneça uma descrição realista da natureza, surgiu a necessidade de indagar sobre o tipo de saber gerado pela ciência, uma vez que ela não é um saber sobre a realidade. “No final do século XIX, muitos pensadores, como Ernst Mach, afirmaram que o papel da ciência não é descrever a realidade [...]. A física deve se limitar unicamente a descobrir modelos matemáticos que expliquem dados experimentais” 11 [os grifos são nossos]. Como o leitor deve ter percebido, estas conclusões estão perfeitamente de acordo com o que apresentou Tomás de Aquino em sua Suma Teológica. E, mais adiante, afirma Ben-Dov: “A partir do século XVII a mecânica de Newton foi vista como o emblema de uma teoria «verdadeira», de uma teoria que proporcionava uma descrição genuína do mundo real. É verdade que o século XIX havia fornecido exemplos de teorias perfeitamente científicas – como a teoria do calórico ou a teoria corpuscular da luz – às quais havia sido necessário finalmente renunciar, e já se podia supor que os saberes adquiridos da física não são jamais definitivos” 12 [o grifo é nosso]. Vamos insistir nestas considerações sobre as limitações das teorias científicas. Assim, como mais um exemplo, apresentaremos as ponderações que a respeito faz Thuillier: “A própria noção de teoria implica a incerteza. Mesmo uma teoria eficaz (no sentido em que o foi e ainda é a teoria newtoniana da gravitação) não é necessariamente uma teoria verdadeira [...]. “Uma boa teoria não é uma teoria definitivamente irrefutável e absolutamente verdadeira: é uma teoria coerente e que possui uma certa eficácia nas condições vigentes. O mal-entendido começa quando divulgadores ardorosos (às vezes os próprios cientistas) empreendem uma glorificação excessiva da certeza e da objetividade do saber experimental. E quando esquecem, entre outras coisas, que alguns dos famosos fatos podem ser explicados por várias teorias diferentes...” 13 [os grifos são nossos]. E, mais adiante, prossegue: “Não é raro o fornecimento de «provas» experimentais se revele extremamente delicado. O próprio Darwin sabia do que estava tratando: ele não afirmava que sua teoria estivesse «comprovada», contentando-se em dizer que ela tornava inteligível grande número de «fatos» (o que é muito diferente...)” 14. AS NOVAS TEORIAS Um outro ponto que desejamos salientar é sobre a aceitação de novas teorias. Elas sempre foram contestadas e só pouco a pouco foram ganhando adeptos. Vejamos o que diz a respeito Freeman Dyson, matemático, físico e Professor Emérito do “Institute for Advanced Studies”, em Princeton (2000, p.315): “O dever profissional de todo cientista diante de uma teoria nova e instigante é tentar refutá-la. É assim que a ciência funciona e se mantém honesta. Toda nova teoria deve lutar por sua existência contra críticas veementes e, muitas vezes, acerbas. Na maioria das vezes, acaba-se descobrindo que a nova teoria é incorreta e as críticas são absolutamente necessárias para tirá-las do caminho e dar lugar a teorias melhores. A rara teoria que sobrevive às críticas sai reforçada e melhorada e vai se incorporando gradualmente ao conjunto crescente de conhecimentos científicos” 15. Eis alguns exemplos: – No século XIX a teoria do eletromagnetismo de Hermann von Helmholtz tinha muito mais adeptos entre os cientistas que a de Maxwell. E, no final, esta foi plenamente adotada. – Einstein nunca aceitou os conceitos de Niels Bohr relativos à teoria quântica, amplamente usados em nossos dias. – O mesmo Einstein chegou a apresentar uma “prova” teórica de que os buracos negros não podiam existir. Atualmente sua existência é, pode-se dizer, ponto pacífico. – Por outro lado, as teorias da relatividade especial e da relatividade geral de Einstein inicialmente foram muito contestadas. E só tiveram uma aceitação geral quando foram comprovadas por observações e experimentos. – A própria existência dos átomos, quando lançada a teoria atômica por Dalton, no início do século XIX, foi considerada por muitos físicos apenas como “uma ficção útil, sem nenhuma base concreta na realidade” 16. Vejamos como se manifestaram alguns “entendidos” no assunto: Em 1837, o químico Jean Baptiste Dumas: “Se eu pudesse, apagaria a palavra átomo da ciência, pois estou convencido de que ela ultrapassa a experiência”. Sainte-Claire Deville, na segunda metade do século XIX: “Não admito nem a lei de Avogadro [pertinente à teoria atômica] nem os átomos, nem as moléculas; recuso-me a crer naquilo que não posso ver nem imaginar. E na Inglaterra, Edmund J. Mills, em 1871 declarou o seguinte: “Os átomos são ainda mais inacreditáveis do que era o flogístico, esse fluido imaginário graças ao qual Stahl pretendia explicar a combustão” 17. Na verdade, os átomos não passam de criação de nossas mentes. E o que serão, na realidade, o que conceituamos como elétrons, neutrinos, prótons e nêutrons? E os quarks que formam nêutrons e prótons? Talvez nem sejam partículas, mas nodos de ondas (de que tipo? com que propriedades?) ou de energia; ou algo que até agora a mente humana não conseguiu imaginar (e talvez nunca o consiga). De um modo análogo, o que constitui a luz: partículas (fotons) ou ondas? Ora ela se comporta como partícula, ora como onda. Talvez, na realidade, não seja nenhuma das duas coisas. Como comentam Hawking e Mlodinow 18, ondas e partículas “são conceitos de autoria humana, não necessariamente conceitos que a natureza é obrigada a respeitar, fazendo com que todos os fenômenos caiam numa categoria ou outra”. Outro exemplo. Em 1915, Alfred Wegener, meteorologista alemão, publicou As origens dos continentes e oceanos, em que tratava da deriva dos continentes: eles podem se deslocar tanto horizontal como verticalmente. Wegener pacientemente coletou informações que se transformaram em argumentos a favor de sua teoria. Apresentou informações biológicas, geodésicas, geológicas, paleontológicas, paleoclimáticas, etc. Apesar de tudo, sua teoria foi duramente atacada por geólogos e geofísicos. Além de não aceitarem suas provas, seus opositores justificavam sua posição alegando que não havia força conhecida capaz de mover continentes. Além disso, ele não era geólogo profissional: era um amador. Wegener morreu em 1930 e sua teoria, em face da até agressiva contestação, caiu no esquecimento. Somente na década de 1950, com novos instrumentos, capazes de medir campos magnéticos muitíssimo fracos de antigas formações rochosas, é que foi comprovada e aceita por muitos a deriva dos continentes. E a prova final apareceu em 1962, com a teoria do geólogo da Universidade de Princeton, Harry S. Hess, sobre o movimento do solo marinho. Esta teoria foi confirmada no ano seguinte, com as medições do magnetismo das rochas do leito do oceano feitas pelos oceanógrafos britânicos Frederick J. Vine e Drummond H. Mathews. Algo que faz pensar sobre a confiabilidade da ciência é o que comenta Thuillier 19 a respeito da teoria de Wegener: “Hoje em dia é fácil declarar que as peças de defesa de Wegener eram «insuficientes» e que só depois, com a teoria das placas tectônicas, os pesquisadores foram «racionalmente» persuadidos. Mas a partir de que momento os fatos podem e devem ser considerados como concludentes? Na realidade, as preferências pessoais influenciaram: havia aqueles que eram «a favor» e aqueles que eram «contra», sem qualquer critério absoluto para servir de base”. O fato de a propagação da luz não ser instantânea foi combatido durante muito tempo. Eis uma das “provas” (que com os conhecimentos atuais parece ridícula) de sua instantaneidade: “Quando fechamos os olhos e os abrimos para o céu estrelado a luz estelar atinge imediatamente os nossos olhos, o que prova a sua instantaneidade”. Até pessoas de alto nível intelectual, tais como Johannes Kepler e René Descartes consideravam que a luz se propagava instantaneamente. Em 1960, com os estudos de Edward Lorenz, foram lançados os fundamentos de um novo ramo da ciência, a chamada Ciência do Caos. A maioria dos cientistas com alguma ligação com os temas nela tratados julgou-a insensata e nada científica. “Idéias superficiais podem ser assimiladas; idéias que exigem reorganização da imagem que se faz do mundo provocam hostilidade”, escreveu a respeito Gleick 20. E a mesma hostilidade, inclusive por um grande número de astrônomos, provocou a teoria do heliocentrismo. Esta teoria, sem dúvida alguma, foi a causadora de uma imagem totalmente nova do universo, tanto do ponto de vista religioso como filosófico e astronômico. Lembremos que, de acordo com um criterioso estudo, entre 1543 (lançamento do livro de Copérnico) e 1600, apenas dez astrônomos foram encontrados que aceitavam a teoria de Copérnico como correspondendo à realidade física; para os demais que a aceitavam, não passava de uma hipótese útil para cálculos e previsões. Concluindo, podemos dizer que é muito fácil (e muito comum!) criticar concepções do passado com os conhecimentos atuais (muitas vezes também profundamente alterados no decorrer do tempo; lembremos que em ciência nada é definitivo). Para sermos corretos em nossas avaliações e críticas, devemos integrar-nos, de corpo e alma, aos conhecimentos, costumes e “bom senso” da época e região que estamos estudando. Lembramos que Aristarco de Samos, no século III a.C, já havia lançado a teoria heliocêntrica, mas as fortes objeções que sofreu fizeram-na cair no esquecimento, até que Nicolaus Copérnico relançou-a, mais elaborada, no século XVI. Como muito bem comenta Ben-Dov: “Esta aparente cegueira em relação ao que hoje consideramos a «verdade», é perfeitamente compreensível [...]. No contexto da física antiga a hipótese do movimento da Terra conduzia a complicações inúteis. A hipótese da Terra imóvel no centro do universo era, portanto, justificada [...]. Além disso, ela havia dado origem a uma astronomia bastante sofisticada, desenvolvida pelos gregos e seus sucessores, que tinham conseguido descrever o movimento dos planetas com boa precisão” 21. Afinal, o que se espera das teorias científicas é que elas expliquem os fenômenos e permitam prever os resultados de futuros experimentos e observações. REFERÊNCIAS (1) A. F. Chalmers, O que é ciência afinal?, Brasiliense, São Paulo, 2000. (2) Idem, pág. 23. (3) Idem, pág. 41. (4) Stephen Hawking & Leonard Mlodinow, Uma nova história do tempo, Ediouro, Rio de Janeiro, 2005, pág. 23. (5) Ian Stewart, Será que Deus joga dados?, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1991, pág. 190. (6) Stephen Hawking & Roger Penros, A natureza do espaço e do tempo, GRADIVA, Lisboa, 1996, pág. 137. (7) Richard Morris, O que sabemos sobre o universo, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2001, pág. 187. (8) Idem, pág. 179. (9) cf. Idem, pág. 208. (10) Pierre Thuillier, De Arquimedes a Einstein, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1998, pág. 9. (11) Yoav Ben-Dov, Convite à Física, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1996, págs. 102-103. (11) Idem, pág. 128. (13) Pierre Thuillier, op. cit., pág. 9. (14) Idem, pág. 12. (15) Freeman Dyson, Infinito em todas as direções, Companhia das Letras, São Paulo, 2000, pág. 14. (16) Richard Morris, op. cit., pág. 174. (17) Pierre Thuillier, op. cit., pág. 175. (18) Stephen Hawking & Leonard Mlodinow, op. cit., pág. 82. (19) Pierre Thuillier, op. cit., pág. 12. (20) J. Gleick, Caos: A criação de uma nova ciência, Editora Campus, Rio de Janeiro, 1989, pág. 34. (21) Yoav Ben-Dov, op. cit., pág. 19. Fonte: Editora Quadrante

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