A congregação para o Clero dispõe no seu site uma ótima página sobre ética e moral, com artigos e documentos interessantes sobre temas atuais.
A ABOLIÇÃO DA VERDADE
Por Francisco Faus (Congregação para o Clero)
Democracia para “quase todos”
No nosso tempo, no mundo inteiro, estão num primeiro plano do debate político e dos comentários da mídia as questões controvertidas sobre a o valor da vida humana (desde a concepção até a morte natural), sobre a bioética na perspectiva dos atuais progressos da Ciência, sobre o significado da sexualidade e da família, etc.
Nos países democráticos, é reconhecido a todos – pessoas singulares ou entidades –, o direito de manifestar livremente a sua opinião, de sugerir soluções e de apresentá-las na mídia, ou por meio de representantes do povo, de projetos de lei, etc. É uma decorrência lógica dos princípios de liberdade e pluralismo, que são considerados essenciais para uma autêntica democracia.
Neste sentido, nem políticos nem mídia se atreveriam a negar ou restringir, por exemplo, o direito de o movimento gay expor e defender as suas reivindicações; nem o direito de ONGS ou movimentos ecológicos reivindicar, por exemplo, o reconhecimento de que os animais possuam os mesmos direitos que os seres humanos. Cada opinião é respeitada, por princípio, e aceita para debate civilizado, exceto... Sim, há uma exceção: a Igreja Católica. Quando a Igreja se manifesta sobre essas questões debatidas na atualidade, levanta-se imediatamente um clamor, que ecoa em grande parte da mídia, contra o seu direito de opinar, falar, sugerir, propor. Parece que só em relação à Igreja a liberdade e o pluralismo ideológico e político deixam de ter vigência.
Dirão que é porque a Igreja é “dogmática”. Mas a Igreja não manda no país, nem tem poder algum para fazê-lo numa sociedade civil laica, que ela não só aceita de bom grado mas defende como tal (se alguém ignora isso, ignora os ensinamentos da Igreja desde o Concílio Vaticano II). Mas a Igreja, que reúne em si um grupo amplamente majoritário de brasileiros, simplesmente acha, e com toda a razão, que a sua voz pode ser ouvida pelo menos com um respeito análogo ao que se presta a opiniões minoritárias, por vezes bem singulares, de grupos numericamente insignificantes.
Ora, a realidade é que, sem tréguas, uma gritaria desrespeitosa – e com freqüência ofensiva – pretende silenciar, abafar, excluir do debate essa voz. Esse processo de exclusão, de abolição, procede por quatro degraus, que coincidem num progressivo “banimento da verdade”, degraus que analisaremos brevemente a seguir.
ALGUMAS CONCEPÇÕES CONTRADITÓRIAS EM RELAÇÃO À IGREJA
Pe. Crispim Guimarães
(...)
Quando se noticia que no mundo muita gente está morrendo de AIDS porque a Igreja não permite usar preservativos, é uma hipocrisia.
Raciocinem comigo. Antes do uso da camisinha, desaconselhado pela Igreja, ela ensina que o sexo deve ser fruto da maturidade psicológica e espiritual e que se plenifica no matrimônio. Ora, se alguém faz uso da camisinha, significa que já tem relações sexuais, portanto já desobedece a doutrina. Como dizer que não se usa camisinha porque obedece a Igreja, obedeceria se vivesse a castidade! Dizem também que homossexuais contraem HIV porque a Igreja proíbe o uso do preservativo, é bom saber que antes disso, ela alerta que esta prática não condiz com sua doutrina. Se obedecessem a doutrina, não teriam essas relações? Já perceberam que alguém está apelando através de concepções contraditórias?
(...)
Alguém pode dizer que a Igreja é contra o sexo, não! É tão a favor, que se depois do casamento não houver a relação sexual, o casamento é nulo
OS FIÉIS DA MODERNIDADE
"Nós, os intelectuais, formamo-nos basicamente no universo marxista, de esquerda, entendendo a democracia como alguma coisa insuperável.
Mas, insisto, para Bento XVI e João Paulo II as demandas modernas não necessariamente implicam em sucesso na vida ou melhoria das pessoas. Para eles, a modernidade não é um pilar, nem um ponto de partida obrigatório, mas um momento complexo na história da humanidade. Um momento que vem se desgastando. Achamos que é melhor distribuir camisinha para nossos filhos do que enfrentar a família que está em desequilíbrio, onde as pessoas já não mais cuidam das pessoas. Também continuamos a acreditar que a felicidade é a coisa mais importante da vida, a felicidade imediata, o gozo. Somos os fiéis da modernidade."
(Luiz Felipe Pondé)
UM ATEU GARANTE DEUS EXISTE
Antony Flew e Deus
A descoberta de provas da existência de Deus reconforta o fiel inquieto com a questão. Porém, não imaginava que um dos mais importantes e atuantes filósofos ateus do século XX pudesse, no fim das contas, colaborar com os crentes de forma tão impressionante.
Em Um Ateu Garante: Deus Existe, Antony Flew revela que há três fenômenos essenciais que fundamentam a convicção na existência de Deus. Primeiro, as leis da natureza; segundo, a vida com sua organização teleológica; terceiro, a existência do universo. São fenômenos que só podem ser explicados à luz de uma Inteligência que explica tanto sua própria existência, como a existência do mundo, conclui Flew.
Flew não se concentra na explicação científica do modus operandi desses fenômenos, tarefa a cargo dos biólogos, físicos e astrônomos. A pergunta de Flew é de ordem filosófica: como é possível ter surgido a vida, as leis da natureza e o universo com suas perfeitas leis e simetrias? Essa é uma questão cuja solução não reside nas descobertas da biologia ou da cosmologia, embora alguns cientistas se esforcem para tanto. Estas ciências podem nos explicar o funcionamento (modus operandi) dos fenômenos, mas jamais podem explicar como eles vieram a ser. E esta é a questão relevante para que possamos tomar uma posição em relação a existência ou não de Deus. Com efeito, foi este caminho que levou Flew a se convencer que Deus existe, abandonando forçosamente o seu cinqüentenário ateísmo.
A conclusão de Flew, todavia, não implicou a sua aceitação de alguma religião, sem mesmo, a priori, concluiu que Cristo seria Deus encarnado. No entanto, não deixa de exaltar o cristianismo.
“Na verdade, eu acho que o cristianismo é a religião que mais claramente merece ser honrada e respeitada, quer seja verdade ou não sua afirmação de que é uma revelação divina. Não há nada como a combinação da figura carismática de Jesus com o intelectual de primeira classe que foi São Paulo. Praticamente todo o argumento sobre o conteúdo da religião foi produzido por São Paulo, que tinha um raciocínio filosófico brilhante e era capaz de falar e escrever em todas as línguas relevantes" (p. 169).
Ao concluir que Deus existe, Flew encerrou sua jornada na justificação filosófica da existência de um ser onipotente que criou a vida e o universo. Nada além disso. Porém, no fim do livro há um sensacional apêndice (apêndice B) em que o filósofo apresenta uma entrevista que fez com o bispo N. T. Wright sobre o tema. O bispo apresenta uma justificativa tão consistente de que Jesus Cristo foi a mais desconcertante “revelação histórica” do próprio Deus que as últimas palavras de Flew na obra fornecem um sinal interessante.
“Estou muito impressionado com a abordagem do bispo Wright, que é absolutamente nova. Ele apresenta o argumento do cristianismo como algo novo, e isso é de enorme importância, principalmente para o Reino Unido, onde a religião cristã praticamente desapareceu. É uma explicação absolutamente maravilhosa, absolutamente radical e muito poderosa.” (p. 191)
Flew afirma que tudo é possível à onipotência, mas não sei as mais recentes posições do autor sobre o tema da revelação divina, todavia, após a entrevista com Wright, me pergunto francamente como ele pode ainda não aceitar que Deus um dia esteve aqui, em pessoa, e depois tenha ressuscitado. Bem, acho que em breve ele se dará conta.
Fonte: Blog Austriaco
O PRIMADO DO LOGOS
Fonte: RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. SP: Editora Herder, 1970
Cap. IV - "Creio em Deus" – Hoje
1. O primado do Logos
Fé cristã em Deus conota primeiramente a opção pelo Logos em confronto com a matéria pura. Dizer: "Creio que [112] Deus existe" inclui, na opção, a aceitação do Logos, isto é, do pensamento, da liberdade, do amor, não apenas no fim, mas também no início; que ele é a força original e envolvente de todo o ser. Em outras palavras: a fé denota uma escolha da idéia de que pensamento e sentido não são meros produtos ocasionais e secundários do ser, mas, antes de todo o ser, é produto do pensamento e até, em sua estrutura mais íntima, é pensamento. E neste sentido a fé significa, especificamente, uma opção pela verdade, pois, para a fé, o próprio ser é verdade, compreensibilidade, sentido, tudo isto não representando um mero produto acessório do ser, surgido alhures, sem poder ter uma importância estruturadora, normativa para a totalidade do real.
Nessa opção pela estrutura espiritual do ser, que se origina do sentido e da razão, está incluída, ao mesmo tempo, a fé na criação. Porquanto essa fé nada mais é do que a convicção de que o espírito objetivo, cuja presença constatamos em todas as coisas e ao qual até aprendemos a compreender, em medida crescente, como sendo as coisas, é imagem e expressão do espírito subjetivo; e a estrutura ideal possuída pelo ser, possível de ser conhecida, é expressão de um protopensamento criador, através do qual as coisas existem.
Digamo-lo mais exatamente: na antiga expressão pitagórica do Deus que pratica geometria, exprime-se a opinião da estrutura matemática do ser, a qual ensina a conceber o ser como pensamento, como estruturado racionalmente; revela-se o pensamento de que também a matéria não é puro non-sens a furtar-se à compreensão, mas portadora, também ela, da verdade e da compreensibilidade, que torna possível uma compreensão racional. Essa hipótese tornou-se particularmente densa em nossa época, graças à pesquisa da constituição matemática da matéria, da sua racionabilidade e aplicabilidade matemática. Certa feita Einstein declarou, a respeito das leis da natureza, que nelas "se revela uma razão tão sobranceira, [113] que todo o racional da inteligência humana e da ordem humana não passa de insignificante reflexo". O que, sem dúvida, quer dizer que todo o nosso pensamento, de fato, é mero refletir sobre o que já foi pensado. Nosso pensamento somente pode tentar, de modo pobre, reproduzir aquele "ser-pensado" que são as coisas, encontrando ali a verdade. A compreensão matemática encontrou aqui, como que através da matemática do cosmos, o "Deus dos filósofos" – aliás com toda a sua problemática, que se trai, quando Einstein recusa continuamente o conceito pessoal de Deus como sendo "antropomorfo", catalogando-o como "religião do medo" e "religião moral", à qual contrapõe a "religiosidade cósmica" como a única condizente, que, para ele, se concretiza "na admiração extasiada da harmonia das leis da natureza" em uma "fé profunda na inteligência do edifício dos universos" e no "anseio pelo desvendamento de um, mesmo que seja, medíocre reflexo da razão que se revela neste mundo".
Eis, diante de nós, o problema inteiro da fé em Deus: de um lado, percebe-se a transparência do ser que, como "ser-pensado", aponta para um pensamento, mas, simultaneamente, encontramos a impossibilidade de relacionar esse pensar do ser com o homem. Torna-se visível a barreira erguida por um conceito de pessoa estreito e não suficientemente refletido, a dificultar a equiparação do Deus da fé com o Deus dos filósofos.
Antes de tentar avançar, acrescento uma segunda declaração semelhante, de um cientista. James Jeans disse certa vez: "Averiguamos que o universo apresenta vestígios de uma [114] força planificadora e controladora, que tem algo de comum com o nosso próprio espírito individual. Enquanto o avanço hodierno nos permite ver, não se trata de sentimento, moral ou capacidade estética, mas da tendência de pensar de um modo que, na falta de termo melhor, denominamos geometria". Tornamos a encontrar fenômeno idêntico: o matemático descobre a matemática do cosmos, o "ser-pensado" das coisas. E nada mais. Descobre apenas o Deus dos filósofos.
Mas, será de admirar um tal fato? O matemático que considera o mundo matematicamente, pode encontrar no cosmos outra coisa que não a matemática? Não deveríamos perguntá-lo, se jamais contemplou o mundo de outra maneira senão matematicamente? Pergunto; por exemplo, se ele nunca viu uma pereira em flor e nunca se admirou de que o processo da fecundação, numa espécie de balé entre abelha e árvore, não se realiza de outro modo senão mediante a flor, incluindo aí o milagre plenamente inútil da sua beleza, que, de novo, somente pode ser entendido pela participação e pelo empenho do que já é belo sem nós? Se Jeans pensa que algo assim ainda não foi descoberto naquele espírito, poder-se-á responder-lhe serenamente: também jamais será nem pode ser descoberto pela física, porque ela, em seu questionamento, abstrai, naturalmente, do sentimento estético e da atitude moral, interrogando a natureza com mentalidade puramente matemática e, conseqüentemente, podendo enxergar exclusivamente o lado matemático da natureza. A resposta depende sempre da pergunta. Ora, o homem à procura de uma visão global, será antes obrigado a dizer: sem dúvida, deparamos com matemática objetivada no mundo. Mas muito menos deixamos de encontrar no mundo o milagre inaudito e inexplicável da beleza, [115] ou melhor: no mundo existem processos, que se apresentam ao espírito inquiridor do homem sob a forma do belo, obrigando-o a reconhecer que o matemático realizador desses processos desenvolveu sua fantasia criativa em proporção inaudita.
Resumamos as observações enfileiradas de modo esquemático e fragmentário: mundo é espírito objetivo; apresenta-se-nos em uma estrutura espiritual, isto é, oferece-se como reflexível e compreensível, à nossa mente. Daí se segue o próximo passo. Dizer: Credo in Deum – "creio em Deus" exprime a convicção de que o espírito objetivo é resultado de espírito subjetivo, podendo subsistir exclusivamente como sua forma derivada. Expresso de outra maneira: o "ser-pensado" (como o constatamos na estrutura do mundo) não é possível sem o pensar.
Quiçá seja ainda útil esclarecer e garantir esta afirmação, entrosando-a – novamente, apenas em traços gerais – em uma espécie de autocrítica da razão. Após vinte e cinco séculos de pensamento filosófico já não nos é mais possível falar simplesmente e despreocupadamente do assunto, como se muitos outros antes de nós não tivessem tentado a mesma coisa, fracassando em seu intento. Além disto, se olharmos para o montão de ruínas de hipóteses, de agudeza mental esbanjada sem resultado e de lógica desengrenada que a história apresenta, ameaça abandonar-nos a coragem de encontrar algo da verdade propriamente dita e oculta, que ultrapassa o imediato. Contudo, a impossibilidade não é tão imensa como à primeira vista poderia parecer. Pois, apesar da quase inumerável multiplicidade de caminhos filosóficos contraditórios, apresentam-se, em última análise, apenas umas poucas possibilidades básicas para explicar o mistério do ser. Poderíamos formular assim a pergunta, na qual, afinal, tudo está incluído: Na multiplicidade dos seres individuais, onde identificar, vamos dizer, a matéria comum do ser – qual é o ser único [116] que se encontra atrás de todas as coisas existentes, as quais "são"? As múltiplas respostas, apresentadas no correr da história, podem reduzir-se a duas possibilidades fundamentais. A primeira soaria mais ou menos assim: tudo o que encontramos é, afinal de contas, matéria; ela é o único elemento que sobra como realidade comprovável; portanto ela representa o ser propriamente dito da existência – eis o caminho materialista. A outra possibilidade aponta para rumo oposto: quem observar a matéria até o fim, descobrirá ser ela "ser-pensado", pensamento objetivado. Portanto, a matéria não pode ser o último elemento. Antes dela, encontra-se o pensar, a idéia; todo o ser é, finalmente, um "ser-pensado", tendo de ser reduzido a espírito como protorealidade – eis o caminho idealista.
Para julgar tais hipóteses, urge perguntar mais exatamente: Que é matéria? E que é espírito? Muito resumidamente, poderíamos dizer: Chamamos "matéria" a um ser que não é autoconsciente de ser, que, portanto, "é", mas não se compreende a si mesmo. Por conseguinte, a redução de todo ser à matéria como forma original da realidade afirma que o começo e o fundamento de todo ser são constituídos por aquela forma de ser que não se compreende a si mesma; e isto significa ainda que o compreender do ser surge apenas como produto secundário e por acaso, no correr da evolução. Com isto consegue-se, ao mesmo tempo, a definição de espírito – que deve ser descrito como o ser que se compreende a si mesmo, como ser que está em si mesmo. De acordo com isto, a solução idealista da problemática do ser apresenta a imagem de uma única consciência. A unidade do ser consiste na identidade da consciência única, da qual os inúmeros seres são outros tantos momentos.
A fé cristã não coincide, sem mais, nem com uma nem com outra das duas soluções. Certamente, também a fé dirá: ser é um "ser-pensado". Até a matéria aponta para além de si, [117] para o pensar como o elemento anterior e mais original. Mas, em oposição ao idealismo que descreve todo ser como momentos de uma consciência única e envolvente, a fé cristã dirá: o ser é um "ser-pensado" – contudo, não de forma tal que permaneça exclusivamente como pensamento e o halo da independência se traia ao observador atento como simples aparência. A fé cristã conota, antes, que as coisas são "ser-pensado", originado de uma consciência criadora, de uma criativa liberdade e que aquela consciência criadora, a sustentar tudo, colocou o pensado dentro da liberdade do ser próprio e independente. Nisto a fé cristã ultrapassa qualquer idealismo puro. Enquanto este declara – como há pouco o constatamos – todo o real como conteúdo de uma única consciência, para a doutrina cristã o sustentador é uma liberdade criadora, que coloca o pensado, sempre de novo, na corrente da liberdade do próprio ser, de modo que, por um lado, ele é um "ser-pensado" de uma consciência e, contudo, por outro lado, é verdadeira ipseidade (é ele mesmo).
Com isto se desnuvia o cerne do conceito de criação: o modelo, de cujo enfoque se deve compreender a criação, não é o artífice, mas o espírito criador, o pensar criativo. Simultaneamente, torna-se evidente que a idéia de liberdade é a característica da fé cristã em Deus, em oposição a qualquer espécie de monismo. A fé coloca no começo de todo o ser, não uma consciência qualquer, mas uma liberdade criadora que torna a criar liberdades. Neste sentido, poder-se-ia denominar, em grau supremo, a fé cristã como uma filosofia da liberdade. Para a fé, a explicação do real em conjunto não está em uma consciência que abrange tudo nem em uma única materialidade; pelo contrário, à frente da fé encontra-se uma liberdade que pensa e, pensando, cria liberdades, transformando assim a liberdade em forma estrutural de todo o ser.
DEZ TESES CONTRA BABEL
LUIZ FELIPE PONDÉ
1. REACIONÁRIO é um termo comum em assembléias e bares. Visa tornar a vítima inelegível para jantares inteligentes, aniquilando a sua vida acadêmica. Pensamento, sensibilidade e ceticismo são termos mais afeitos à crítica que supera os vícios da medrosa utopia moderna. Paralisado diante do que desconhece, o medo moderno prefere reduzir essa atitude a seus fantasmas infantis: fogueiras da inquisição, fé cega e obscurantismo medieval.
Erra, como todo preconceituoso, pois a discussão se dá estritamente no campo da razão e da defesa do comércio livre de idéias. A atitude conservadora -que não é uma defesa irracional do passado- significa o cuidado com nossa história cognitiva, emocional e intelectual contra a tendência totalitária do irracionalismo moderno, que detesta a realidade e decide modificá-la à luz da teoria que melhor apetece às suas pequenas manias inconfessáveis.
2. Esse irracionalismo fracassado delira com um mundo a partir de teorias de gabinete e suas reconstituições abstratas da realidade. O homem utilitarista de mercado, a metafísica marxista, o radical progressista, a asfixia burocrática, o gozo instrumental, a álgebra psicopolítica, todos estrangulam a experiência humana.
3. O pensamento religioso é mais sábio do que os ídolos dos últimos 200 anos que criaram fórmulas de perfectibilidade para nossa risível Babel. Filosofia, ciência e religião devem fundamentar a formação dos mais jovens. A relação entre razão e infelicidade é empírica, a relação entre razão e felicidade é ideal. Contrariamente ao pensamento mágico que se crê científico, reconhecer a sabedoria da religião nada tem a ver com a contradição moderna entre razão e fé, pois tal oposição já é fruto de má filosofia.
4. A natureza humana não é passível de redução a abstrações e deve ser olhada com respeito e temor: somos agressivos, banalmente interesseiros, às vezes santos. A “educação” -engenharias pedagógicas de última geração- nunca conseguirá “inventar” o homem ético abstrato. Contra o sonho da publicidade psicossocial, razão e emoção não fundam valor. Nem se deduz avanço a partir dos clichês da crítica social. Crítica e virtude não são necessariamente irmãs gêmeas.
Formação é um conceito mais sofisticado do que os manuais de felicidade social podem ensinar. A conduta humana é em muito fruto de processos que transcendem a especulação racional e deitam raízes no passado ancestral. Prudência, delicadeza e tremor devem nos guiar na formação.
5. O “puritano” moderno ama o homem abstrato e detesta a multiplicidade intratável que sangra. Facilmente ele se torna um pregador sem a contrapartida da piedade, que apenas aqueles que se sabem maus podem, talvez, contemplar.
6. Para além do mapa astral e do acúmulo do capital, um problema estrutural do humano é o orgulho desmedido e reativo contra sua evidente condição de sombra, silenciosamente contemplada no espelho e nos hospitais ao longo da banalidade das horas. Responsabilizar prioritariamente o contexto pela desgraça humana é uma mentira científica e tagarela.
7. Todo governo é opressor. O que impede que sua forma invisível esmague o indivíduo são as instâncias intermediárias de poder entre ele e o Estado, que jamais deve ser um agente moralizador. O pior Estado é aquele que cria valores. A importância da Idade Média, entre outras coisas, está na falta de uniformidade das instâncias de poder, mas o irracionalismo moderno só conhece a Idade Média dos iluministas e do cinema. A democracia corre o risco de se alimentar de mediocridade em nome da igualdade e da eficácia.
8. Mudanças pontuais e prudentes contra a agonia humana são bem-vindas, mas não a partir de teorias sociais ou psicológicas gerais. Nossa perigosa espécie acumulou ao longo dos milênios um delicado equilíbrio contra o risco contínuo de autodestruição. Não podemos crer nas engenharias psicossociais de almas afoitas em fundar um paraíso para seres com tão grande vocação para a mentira como nós.
9. Um traço cognitivo moderno é seu hábito metafísico inconsciente. Por exemplo, não existe tal coisa denominada “A liberdade”, mas apenas lugares onde o governo, a mídia e as outras pessoas não podem entrar quando são indesejáveis.
10. Mais do que idéias, e contra o narcisismo dos vivos, o que nos humaniza é o convívio com os mortos e com os que ainda não nasceram.
LUIZ FELIPE PONDÉ, 47, filósofo e teólogo, é professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e da da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado). É autor, entre outras obras, de “O Homem Insuficiente”.
Publicado na Folha de São Paulo de 20/03/2007.
UMA AUTÊNTICA CULTURA HUMANIZA O HOMEM
DISCURSO DO SANTO PADRE NO ENCONTRO COM EMINENTES
PERSONALIDADES DA CULTURA
Rio de Janeiro, 1° de Julho de 1980
1. Sinto-me feliz por poder encontrar-me convosco, eminentes personalidades da cultura da Nação Brasileira. A cada um de vós desejo saudar cordialmente, manifestar o meu sincero apreço e o meu profundo respeito. Vós bem sabeis quanto e por que razões a Igreja estima e promove, naquilo que lhe compete, toda autêntica forma de cultura e busca manter comunhão e diálogo com ela.
O lugar de encontro entre a Igreja e a cultura é o mundo, e nesse o homem, que é um “ser-no-mundo”, sujeito de desenvolvimento, para uma e para outra, mediante a palavra e a graça de Deus por parte da Igreja, e mediante o próprio homem, com todos os seus recursos espirituais e materiais, por parte de cultura.
A verdadeira cultura é humanização, enquanto que a não-cultura e as falsas culturas são desumanizantes. Por isso mesmo na escolha da cultura o homem empenha o seu destino.
A humanização, ou seja o desenvolvimento do homem, efetua-se em todos os campos da realidade na qual o homem está situado e se situa: na sua espiritualidade e corporalidade, no universo, na sociedade inumana e divina. Trata-se de um desenvolvimento harmónico, no qual todos os setores dos quais faz parte o ser homem ligam se uns com os outros: a cultura não diz respeito nem unicamente ao espírito nem unicamente ao corpo, como nem unicamente à individualidade ou à sociabilidade ou à universidade. A redução ad unum dá sempre lugar a culturas desumanizantes, nas quais o homem é espiritualizado ou é materializado, é dissociado ou é despersonalizado. A cultura deve cultivar o homem e cada homem na extensão de um humanismo integral e pleno, no qual todo o homem e todos os homens são promovidos na plenitude de cada dimensão inumana. A cultura tem o fim essencial de promover o ser do homem e de proporcionar-lhe os bens necessários ao desenvolvimento de seu ser individual e social.
2. Todas as várias formas da promoção cultural radicam-se na cultura animi, segundo a expressão de Cícero - a cultura do pensar e do amar, pela qual o homem se eleva à sua suprema dignidade, que é a do pensamento, e se exterioriza na sua mais sublime doação, que é a do amor.
A autêntica cultura animi é cultura da liberdade, que emana das profundezas do espírito, da lucidez do pensamento e do generoso desinteresse do amor. Fora da liberdade não pode haver cultura. A Verdadeira cultura de um povo, a sua plena humanização, não se podem desenvolver em um regime de coerção: “A cultura - diz a Constituição conciliar Gaudium et Spes, (G. S., 59) - emanando da natureza racional e social do homem, tem uma incessante necessidade da justa liberdade para se desenvolver e deve-se-lhe reconhecer a legítima possibilidade de exercício autônomo segundo os próprios princípios”.
A cultura não deve sofrer nenhuma coerção por parte do poder, quer político quer econômico, mas ser ajudada por um e por outro em todas as formas de iniciativa pública e privada conformes com o verdadeiro humanismo, com a tradição e com o espírito autêntico de cada povo.
A cultura que nasce livre deve ademais difundir-se em um regime de liberdade. O homem culto tem o dever de propor sua cultura, mas não a pode impor A imposição contradiz a cultura, porque contradiz aquele processo de livre assimilação pessoal por parte do pensamento e do amor, que é peculiar à cultura do espírito. Uma cultura imposta não somente contrasta com a liberdade do homem, mas põe obstáculo ao processo formativo da própria cultura, que na sua complexidade, desde a ciência até a forma de vestir-se, nasce da colaboração de todos os homens.
A Igreja reivindica em favor da cultura, e portento em favor do homem, tanto no processo do desenvolvimento cultural quanto no ato de sua propagação, uma liberdade análoga àquela que na Declaração conciliar Dignitatis Humanae reclama para a liberdade religiosa, fundada essencialmente sobre a dignidade da pessoa inumana, e conhecida seja por meio da palavra de Dieus seja através da razão (cf. Dignitatis Humanae, 2).
Ao mesmo tempo em que respeita a liberdade, a cultura deve promovê-la, isto é deve buscar aparelhá-la com as virtudes e hábitos que contribuem para formar o que Santo Agostinho chamava a libertas maior, isto é, a liberdade no seu pleno desenvolvimento, a liberdade em um estado moralmente adulto, capaz de opções autônomas diante das tentações provenientes de qualquer forma de amor desordenado de si mesmo. A cultura plena compreende a formação moral, a educação para as virtudes da vide individual, social e religiosa. “Não há dúvida - dizia em meu recente discurso à UNESCO - que o fato cultural primário e fundamental é homem espiritualmente maduro, isto é o homem plenamente educado, o homem capaz de educar-se a si mesmo e de educar os outros. Não há dúvida tampouco de que a dimensão primeira e fundamental da cultura é a sadia moralidade: a cultura moral” (João Paulo II, Discurso à Unesco, 2 de junho de 1980).
3. A cultura, cultivo do homem em todas suas faculdades e expressões, não é somente promoção do pensar e do agir, mas é também formação da consciência. Por causa da educação imperfeita ou nula da consciência, o puro conhecimento pode der origem a um humanismo orgulhoso puramente terrestre, a ação e o prazer podem originar pseudo-culturas de um produtivismo incontrolado, em benefício do poderio nacional ou do consumismo privado, tendo como consequência infaustos perigos de guerra e gravíssimas crises econômicas.
A promoção do conhecimento é indispensável, mas é insuficiente quando não é acompanhada pela cultura moral.
A cultura animi deve promover juntamente a instrução e a educação, deve instruir o homem no conhecimento da realidade, mas ao mesmo tempo educá-lo para ser homem na totalidade do seu ser e de suas relações. Ora o homem não pode ser plenamente o que é, não pode realizar totalmente sua humanidade, se não vive a transcendência de seu próprio ser sobre o mundo e sua relação com Deus. A elevação do homem pertence não somente a promoção de sua humanidade, mas também a abertura de sua humanidade a Deus.
Fazer cultura é dar ao homem, a cada homem e à comunidade dos homens, dimensão inumana e divina, é oferecer e comunicar ao homem aquela humanidade e aquela divindade que emanam do Homem perfeito, do Redentor do homem, Jesus Cristo.
Na obra da cultura Deus fez aliança com o homem, tornou-se ele mesmo operador cultural para o desenvolvimento do homem. “Dei agricultura estis”, exclama São Paulo: “Vós sois cultura de Deus” (1Cor 3,9).
Não tenhais medo, Senhores, abri as portas do vosso espírito, da vossa sociedade, das vossas instituições culturais, à ação de Deus, que é amigo do homem e opera no homem e pelo homem, para que este cresça na sua humanidade e na sua divindade, no seu ser e na sua realeza sobre o mundo.
Na aliança que, através da cultura inumana, se estabeleceu entre Deus e o homem, este deve imitar a Deus no seu infinito amor.
A obra cultural é obra de amor, obra que procede daquele amor social, cuja necessidade apontei em minha primeira encíclica “Redemptor Hominis” (cf. R. H., 16). Há carência de amor social quando, por falsa de estima para com os outros, não se respeita a pluralidade das culturas legítimas, mas se quer impor a própria cultura, que não é nem única nem exclusiva, a populações economicamente e politicamente mais débeis. Recordemos o que diz o Concílio: “Numerosos países economicamente pobres, mas ricos de sabedoria, poderão prestar ajuda aos outros quanto a este ponto”(Gaudium et Spes, 15).
4. A unidade cultural de um País geograficamente vasto como o vosso, e no qual se amalgamaram numerosas tradições e vários processos históricos, não nasce de uma uniformação da cultura, mas de uma pluralidade unificada pelo respeito mútuo, pelo reconhecimento das peculiaridades culturais, pelo diálogo que enriquece, a uns com os valores e as experiências dos outros.
JOÃO PAULO II E A LIBERDADE RELIGIOSA E DE EXPRESSÃO
"A liberdade religiosa, que está na base de todas as outras liberdades e se encontra inseparavelmente ligado a elas todas por causa da verdadeira dignidade que tem a pessoa humana." (1978)
"Um exame realista leva, infelizmente, a reconhecer que, no nosso tempo, as imensas potencialidades dos mass media são usadas, muito freqüentemente, contra o homem, e que a cultura dominante não atende ao encontro com a fé, quer nos países onde é permitida a livre circulação de idéias, quer onde a liberdade de expressão é confundida com a licenciosidade irresponsável." (1984)
"Nenhuma liberdade, nem sequer a liberdade de expressão, é absoluta: com efeito, ela encontra o seu limite no dever de respeitar a dignidade e a legítima liberdade do próximo. Nada, por mais fascinante que seja, pode ser escrito, realizado e transmitido em prejuízo da verdade: penso aqui não apenas na verdade dos factos que vós apresentais, mas inclusive na "verdade acerca do homem", na dignidade da pessoa humana em todas as suas dimensões." (2000)
FÉ E O AGIR MORAL ESTÃO UNIDOS
23 de Janeiro de 1998
Nos dias de hoje, infelizmente, para muitos é fácil cair num relativismo moral e numa falta de identidade de que sofrem tantos jovens, vítimas de esquemas culturais vazios de sentido ou de algum tipo de ideologia, que não oferece normas morais altas e precisas. Esse relativismo moral gera egoísmo, divisão, marginalização, discriminação, medo e desconfiança para com os outros. Mais ainda, quando um jovem vive «ao seu modo», idealiza o estrangeiro, deixa-se seduzir pelo materialismo desenfreado, perde as próprias raízes e aspira à evasão. Por isso, o vazio que estes comportamentos produzem explica muitos males que ameaçam a juventude: o álcool, a sexualidade mal vivida, o uso de drogas, a prostituição que se esconde sob diversas razões — cujas causas nem sempre são só pessoais —, as motivações fundadas no gosto ou nas atitudes egoístas, o oportunismo, a falta de um projecto sério de vida, no qual não há lugar para o matrimónio estável, além da rejeição de toda a autoridade legítima, o anelo da evasão e da emigração, fugindo do compromisso e da responsabilidade para se refugiar num mundo falso, cuja base é a alienação e o desarraigamento.
Diante desta situação, o jovem cristão que deseja manter «puro o seu caminho», firme na sua fé, sabe que é chamado e escolhido por Cristo para viver na autêntica liberdade dos filhos de Deus, que inclui não poucos desafios. Por isso, acolhendo a graça que recebe dos Sacramentos, sabe que deve dar testemunho de Cristo com o seu esforço constante por levar uma vida recta e fiel a Ele.
A fé e o agir moral estão unidos. Com efeito, o dom recebido conduz-nos a uma conversão permanente, para imitarmos Cristo e recebermos as promessas divinas. Os cristãos, ao respeitarem os valores fundamentais que configuram uma vida límpida, chegam às vezes a sofrer, inclusive de modo heróico, a marginalização ou a perseguição, uma vez que essa opção moral é oposta aos comportamentos do mundo. Este testemunho da cruz de Cristo na vida quotidiana é também uma semente segura e fecunda de novos cristãos. Uma vida plenamente humana e comprometida com Cristo tem esse preço de generosidade e entrega.
Queridos jovens, o testemunho cristão, a «vida digna» aos olhos de Deus tem esse preço. Se não estiverdes dispostos a pagá-lo, vereis o vazio existencial e a falta de um projecto de vida digno e responsavelmente assumido com todas as suas consequências. A Igreja tem o dever de dar uma formação moral, cívica e religiosa, que ajude os jovens cubanos a crescerem nos valores humanos e cristãos, sem medo e com a perseverança de uma obra educativa que necessita de tempo, dos meios e das instituições que são próprios dessa semeadura de virtude e espiritualidade para o bem da Igreja e da Nação.
«Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» (Mc 10, 17). No Evangelho que escutámos, um jovem pergunta a Jesus o que deve «fazer», e o Mestre, cheio de amor, responde-lhe como deve «ser». Este jovem presume ter cumprido as normas, e Jesus responde-lhe que o necessário é deixar tudo e segui-l'O. Isto dá radicalidade e autenticidade aos valores e permite ao jovem realizar-se como pessoa e como cristão. A chave dessa realização está na fidelidade, exposta por São Paulo na primeira leitura, como uma característica da nossa identidade cristã.
Eis aí o caminho da fidelidade traçado por São Paulo: «Sede diligentes... amai-vos uns aos outros... Alegres na esperança... exercendo a hospitalidade... Bendizei... Tende entre vós os mesmos sentimentos... Acomodai-vos às coisas humildes... Não queirais ser sábios aos vossos próprios olhos... Não torneis a ninguém mal por mal... Não te deixes vencer pelo mal; mas vence antes o mal com o bem» (Rm 12, 9-21). Queridos jovens, quer sejais crentes ou não, acolhei o apelo a serdes virtuosos. Isto quer dizer que deveis ser fortes a partir de dentro, grandes de ânimo, ricos nos melhores sentimentos, corajosos na verdade, audazes na liberdade, constantes na responsabilidade, generosos no amor, invencíveis na esperança. A felicidade é alcançada com o sacrifício. Não busqueis fora o que podeis encontrar dentro. Não espereis dos outros o que sois capazes e chamados a ser e a fazer. Não deixeis para amanhã a construção duma sociedade nova, onde os sonhos mais nobres não se frustrem e onde possais ser os protagonistas da vossa história.
Recordai que a pessoa humana e o respeito pela mesma são o caminho de um mundo novo. O mundo e o homem asfixiam-se se não se abrem a Jesus Cristo. Abri-Lhe o coração e empreendei assim uma vida nova, que esteja em conformidade com Deus e responda às legítimas aspirações que tendes de verdade, de bondade e de beleza! Que Cuba eduque os seus jovens na virtude e na liberdade, para que possa ter um futuro de autêntico desenvolvimento humano integral, num ambiente de paz duradoura!
RELATIVISMO MORAL E ABORTO
por Percival Puggina *
Não por acaso, Paul Johnson abre seu extraordinário Tempos Modernos com um capítulo sobre o relativismo moral. Trata-se de tema central do século. Johnson adota como ponto de partida para suas reflexões a meticulosidade que marcou o trabalho de Einstein na Teoria da Relatividade. Como se sabe, a comprovação foi alcançada com medições astronômicas feitas durante o eclipse de 29/05/1919. Naquela noite, enquanto a Física era erguida a novos degraus, muitos filósofos deslizavam pelo corrimão, extraindo do fato mais do que ele podia fornecer. Se tempo e espaço são relativos alardearam , não há mais verdades nem certezas; não há mais certo nem errado. Era o clarim de alvorada para o relativismo moral. E era o avesso de tudo pelo que Einstein se empenhara. Sua contrariedade diante da apropriação indébita da relatividade pelo relativismo foi tanta, registra Paul Johnson, que o grande homem da ciência arquejou: soubesse disso teria preferido ser relojoeiro!
Uma coisa é reconhecer a incerteza que caracteriza certas áreas e etapas do conhecimento. Outra é armar barraca nos porões da dúvida sobre tudo e todos. No entanto, a moral relativista alonga os cílios, requebra os quadris e se faz sedutora pela completa liberalidade que disponibiliza. Eu acho, tu achas, ele acha e ninguém tem nada com isso, tá sabendo, mano? E a mente, por esse caminho, vai virando uma pipoqueira de dúvidas confortáveis. Se tudo é incerto e relativo, não há valores permanentes, limites determináveis nem proibições admissíveis. Família já era, postes fazem xixi nos cachorros e alunos espancam professores.
Vá que seja, estou exagerando um nadinha porque os relativistas têm lá suas convicções. Poucas, mas têm. Uma delas, por exemplo, afirma que os totalitarismos se fundam sobre certezas que não admitem contestação. Estão corretos. É fato histórico. Mas então nem tudo é tão incerto? Existem algumas certezas? Tipo assim: o Inter venceu o Gre-Nal? Os totalitarismos são uma grande droga? Assino embaixo.
Testemos outro acordo: o fato de que só o aborto consegue ceifar mais vidas humanas do que o comunismo entra, também, nessa galeria dos nossos consensos? Suspeito que não. Os militantes do ceticismo olham para um feto com 10 semanas de gestação – cabeça, tronco, membros, coraçãozinho pulsante, pezinhos de um centímetro – e sugerem tratar-se de “coisa”. Coisa expurgável, como muco nasal, ou extraível, como cálculo biliar. Percebeu o paradoxo, leitor? Esse duvidar a tal ponto dos próprios olhos ou é um problema oftalmológico (uma catarata da Razão), ou é o máximo em matéria de fé! Fé na própria dúvida, a despeito de toda evidência.
Os relativistas escamoteiam o fato de que suas incertezas também determinam uma “moralidade”. E é uma “moralidade” pimpona, cheia de si, do topo de cujos saltos altos exerce sua militância materialista, antiteísta e anticatólica. Atenção, porém! Nada há de novo ou moderninho nesse combate à moral contida nos Dez Mandamentos e no Direito Natural. O Estado ateu, o apartheid que transforma em subcidadãos os que têm fé, o direito sem referências morais e o materialismo como religião são as unhas e os dentes de sistemas que patrocinaram e patrocinam os grandes horrores dos últimos cem anos. É tudo coisa já testada. E reprovada. Seu alvo são as virtudes e os valores inerentes à tradição judaico-cristã, arrimo dos princípios da dignidade da pessoa humana, do bem comum, da solidariedade, do zelo prioritário pelos mais carentes e de todos os grandes fundamentos da Justiça.
O PAPA É CHAMADO A FALAR SOBRE A VERDADE DO HOMEM
Por Lucetta Scaraffia (L'Osservatore Romano)
Certamente a característica da missão de Bento XVI é a verdade. É-o para tudo, inclusive para o problema da AIDS e dos preservativos, um tema preocupante que poder-se-ia imaginar facilmente foi abordado durante a sua viagem à África. No meio das polémicas suscitadas pelas suas palavras, um dos mais prestigiosos jornais europeus, o britânico "Daily Telegraph", teve a coragem de escrever que, sobre o tema dos preservativos, o Papa tem razão. "Certamente a sida lê-se no artigo apresenta o tema da fragilidade humana e sob este ponto de vista todos devemos interrogar-nos sobre o modo de aliviar os sofrimentos. Mas o Papa é chamado a falar sobre a verdade do homem. É a sua função: ai dele se não o fizesse".
O problema da AIDS apresentou-se imediatamente, desde quando a doença se manifestou nos Estados Unidos nos primeiros anos 80, não só sob o ponto de vista médico, mas também cultural: a explosão da epidemia surpreendeu uma sociedade que acreditava ter derrotado todas as doenças infecciosas, e desde o início tocou um âmbito, o das relações sexuais, que há pouco tinha sido "libertado" pela revolução sexual. Com uma doença que punha em discussão o "progresso" alcançado e que se difundia rapidamente graças também à onda de cosmopolitismo que se estava a realizar com os novos e velozes meios de transportes.
Ficou imediatamente claro que tal patologia era fruto de uma modernidade avançada e de uma profunda transformação dos costumes, e que talvez a luta para a prevenir tivesse que considerar também estes aspectos. Ao contrário, no mundo ocidental, as campanhas de prevenção foram baseadas exclusivamente no uso dos preservativos, dando por certa a obrigação de não exercer alguma interferência nos comportamentos das pessoas. O "progresso" não deveria ser colocado em discussão; nem na África, onde era evidente e onde até agora é evidente, se os dados da Organização Mundial da Saúde sobre a difusão da AIDS fossem lidos com honestidade que apenas a distribuição de preservativos não pode conter a epidemia.
Na África, o preservativo não é usado de maneira "perfeita" o único que garante 96% de defesa contra a infecção mas de modo "típico", isto é, com uma utilização não continuada nem apropriada, que oferece 87% de defesa, e além disso dá uma segurança que pode ser perigosa no relacionamento com os outros: como se sabe, a sida não é transmitida só através da relação sexual, mas também por via hemática, portanto basta um arranhão, um pouco de sangue, para abrir a possibilidade de contágio. Também é preciso lembrar, como está escrito nas caixas dos preservativos nas instruções pormenorizadas sobre o seu uso, que se podem danificar facilmente com o calor são de látex! e se forem tocados com mãos ásperas, como as de quem faz trabalhos pesados. Mas as indústrias farmacêuticas, tão exactas ao assinalar estes perigos, depois são as mesmas que apoiam a lenda segundo a qual a difusão dos preservativos pode salvar a população africana da epidemia: e pode-se facilmente imaginar que cada ideia para difundir o seu uso é recebida com verdadeiro júbilo pelos seus departamentos comerciais.
O único país da África que obteve bons resultados na luta contra a epidemia foi Uganda, com o método abc, no qual a significa abstinência (abstinence), b fidelidade (being faithful) e c preservativo (condom), um método decerto não totalmente em conformidade com as indicações da Igreja. Até a revista "Science" reconheceu em 2004 que a parte de bom êxito do programa foi a mudança de comportamento sexual, com uma redução de 60% das pessoas que declaravam ter tido várias relações sexuais, e o aumento da percentagem dos jovens de 15 a 19 anos que se abstiveram do sexo, e escreveu: "Estes dados sugerem que a redução do número de partners sexuais e a abstinência entre os jovens não casados, ao contrário do uso do preservativo, foram factores relevantes na redução da incidência do hiv".
Muitos países ocidentais não querem reconhecer a verdade das palavras pronunciadas por Bento XVI, quer por motivos económicos os preservativos custam, enquanto a abstinência e a fidelidade são obviamente gratuitos quer porque temem que dar razão à Igreja sobre um ponto central do comportamento sexual possa significar um passo atrás na fruição do sexo puramente hedonista e recreativo, que é considerada uma importante conquista da nossa época. O preservativo é exaltado além das suas efectivas capacidades de deter a AIDS porque permite à modernidade continuar a crer em si mesma e nos seus princípios, e porque parece restabelecer o controle da situação sem nada mudar. É precisamente porque tocam este ponto nevrálgico, esta mentira ideológica, que as palavras do Papa foram tão criticadas. Mas Bento XVI, que o sabia muito bem, permaneceu fiel à sua missão, a de dizer a verdade.
AOS 4 ANOS DA MORTE DE JOÃO PAULO II
“Guardião do depósito da fé”
Publicamos texto do Rogito que recorda a vida e as obras mais importantes do falecido Pontífice.
Na luz de Cristo ressuscitado dos mortos, a 2 de Abril do ano do Senhor de 2005, às 21: 37 horas da noite, quando o dia de sábado chegava ao fim, e já tínhamos entrado no dia do Senhor, Oitava de Páscoa e Domingo da Divina Misericórdia, o amado Pastor da Igreja, João Paulo II, passou deste mundo para o Pai. Toda a Igreja em oração acompanhou o seu trânsito, especialmente os jovens.
João Paulo II foi o 264º Papa. A sua memória permanece no coração da Igreja e da humanidade inteira.
Karol Wojtyla, eleito Papa a 16 de Outubro de 1978, nasceu em Wadowice, cidade a 50 quilómetros de Cracóvia, a 18 de Maio de 1920 e foi baptizado dois dias depois na Igreja paroquial pelo sacerdote Francisco Zak.
Aos nove anos recebeu a Primeira Comunhão e aos 18 o sacramento da Confirmação. Interrompidos os estudos, porque as forças de ocupação nazistas tinham fechado a Universidade, trabalhou numa mina e, em seguida, na fábrica Solvay.
A partir de 1942, sentindo-se chamado ao sacerdócio, frequentou os cursos de formação do seminário clandestino de Cracóvia. A 1 de Novembro de 1946 recebeu a ordenação sacerdotal das mãos do Cardeal Adam Sapieha. Depois foi enviado para Roma, onde obteve a licenciatura e o doutoramento em teologia, com a tese que tinha por título Doctrina de fide apud Sanctum Ioannem a Cruce.
Regressou depois à Polónia, onde desempenhou alguns cargos pastorais e ensinou as sagradas disciplinas. A 4 de Julho de 1958, o Papa Pio XII nomeou-o Bispo Auxiliar de Cracóvia. E Paulo VI, em 1964, destinou-o à mesma sede como Arcebispo. Como tal interveio no Concílio Vaticano II. Paulo VI criou-o Cardeal a 26 de Junho de 1967.
No Conclave foi eleito Papa pelos Cardeais a 16 de Outubro de 1978 e assumiu o nome de João Paulo II. A 22 de Outubro, Dia do Senhor, iniciou solenemente o seu ministério Petrino.
O pontificado de João Paulo II foi um dos mais longos da história da Igreja. Nesse período, sob vários aspectos, verificaram-se muitas mudanças. Conta-se a queda de certos regimes, para a qual ele mesmo contribuiu. A fim de anunciar o Evangelho realizou muitas viagens, em várias nações.
João Paulo II exerceu o ministério Petrino com incansável espírito missionário, dedicando todas as suas energias impelido pela sollicitudo omnium ecclesiarum e pela caridade aberta à humanidade inteira. Mais do que qualquer Predecessor encontrou o Povo de Deus e os Responsáveis das Nações, nas Celebrações, nas Audiências gerais e especiais e nas Visitas pastorais.
O seu amor pelos jovens estimulou-o a iniciar as Jornadas Mundiais da Juventude, convocando milhões de jovens em várias partes do mundo.
Promoveu com sucesso o diálogo com os judeus e com os representantes das outras religiões, convocando-os por vezes em encontros de oração pela paz, especialmente em Assis. Alargou notavelmente o Colégio dos Cardeais, criando 231 (mais um in pectore). Convocou 15 Assembleias do Sínodo dos Bispos, 7 gerais ordinárias e 8 especiais. Erigiu numerosas Dioceses e Circunscrições, em particular no leste europeu.
Reformou os Códigos de Direito Canónico Ocidental e Oriental, criou novas Instituições e reorganizou a Cúria Romana.
Como “sacerdos magnus” exerceu o ministério litúrgico na Diocese de Roma e em todo o mundo, em plena fidelidade ao Concílio Vaticano II. Promoveu de maneira exemplar a vida e a espiritualidade litúrgica e a oração contemplativa, especialmente a adoração eucarística e a oração do Santo Rosário (cf. Carta apost. Rosarium Virginis Mariae).
Sob a sua guia a Igreja aproximou-se do terceiro milénio e celebrou o Grande Jubileu do Ano 2000, segundo as orientações indicadas com a Carta apostólica Tertio millennio adveniente.
Depois, a Igreja aproximou-se da nova era, recebendo para ela novas indicações na Carta apostólica Novo millennio ineunte, na qual se mostrava aos fiéis o caminho do tempo futuro. Com o Ano da Redenção, o Ano Mariano e o Ano da Eucaristia, promoveu a renovação espiritual da Igreja. Deu um extraordinário impulso às canonizações e beatificações, para mostrar inumeráveis exemplos da santidade de hoje, que servissem de estímulo aos homens do nosso tempo. Proclamou Doutora da Igreja Santa Teresa do Menino Jesus.
O magistério doutrinal de João Paulo II é muito rico. Guardião do depósito da fé, ele dedicou-se com sabedoria e coragem à promoção da doutrina católica, teológica, moral e espiritual, e a contrastar durante todo o seu Pontificado tendências contrárias à genuína tradição da Igreja.
Entre os documentos principais contam-se 14 Encíclicas, 15 Exortações apostólicas, 11 Constituições apostólicas, 45 Cartas apostólicas, além das Catequeses propostas nas Audiências gerais e das alocuções pronunciadas em todas as partes do mundo. Com o seu ensinamento João Paulo II confirmou e iluminou o Povo de Deus com a doutrina teológica (sobretudo nas primeiras três grandes Encíclicas Redemptor hominis, Dives in misericordia, Dominum et vivificantem), antropológica e social (Encíclicas Laborem exercens, Sollicitudo rei socialis, Centesimus annus), moral (Encíclicas Veritatis splendor, Evangelium vitae), ecuménica (Encíclica Ut unum sint), missiológica (Encíclica Redemptionis missio), mariológica (Encíclica Redemptoris Mater). Promulgou o Catecismo da Igreja Católica, à luz da Tradição, autorizadamente interpretada pelo Concílio Vaticano II.
O seu magistério culminou na Encíclica Ecclesia de Eucharistia e na Carta apostólica Mane nobiscum Domine, durante o Ano da Eucaristia.
João Paulo II deixou a todos um testemunho admirável de piedade, de vida santa e de paternidade universal.
A LIBERDADE RELIGIOSA: UMA DAS FACES DO PRISMA UNITÁRIO DA LIBERDADE
Atualmente vemos o esforço da mídia em tenta calar a Igreja no que diz respeito à sua liberdade de expressar e de anunciar a Fé que recebeu de Cristo.
Segue abaixo uma lição magistral de Joao Paulo II sobre o sentido da verdadeira liberdade religiosa e o papel do Estado:
"É oportuno mencionar ainda o problema da liberdade religiosa. Sabeis que a Igreja não pede privilégio algum ao poder civil; com uma clareza que, desde o Concílio, sobressai ainda melhor que no passado, definiu uma posição global segundo a qual a liberdade religiosa não é senão uma das faces do prisma unitário da liberdade: esta é elemento constitutivo essencial de uma sociedade autenticamente moderna e democrática. Por conseguinte, nenhum Estado pode pretender beneficiar de uma estima positiva e, com mais forte razão, ser considerado merecedor pelo único facto de parecer conceder a liberdade religiosa, quando de facto a isola de um contexto geral de liberdade; e um Estado não pode definir-se "democrático" se de qualquer modo põe obstáculos à liberdade religiosa não só no que diz respeito ao exercício da prática do culto, mas ainda à participação num pé de igualdade nas actividades escolares e educativas, como também nas iniciativas sociais, nas quais a vida do homem moderno se articula cada vez mais. A história, mesmo a mais recente, atesta que os responsáveis civis preocupados com o bem do seu povo não têm nada a temer da Igreja; pelo contrário, respeitando-lhe as actividades, proporcionam ao próprio povo um enriquecimento, porque utilizam um meio certo de melhoramento e de elevação."
Discurso do Papa João Paulo II aos participantes da Conferência da União Interparlamentar
18 de setembro de 1982
NECESSIDADE DE FORMAÇÃO DA PESSOA HUMANA
"Num tempo de mudanças muitas vezes radicais, em que as experiências do passado parecem ser irrelevantes, aumenta a necessidade de uma sólida formação da pessoa. Também isto, é um âmbito que exige a maior colaboração possível, para que as responsabilidades primárias dos pais encontrem apoios adequados. A formação intelectual e a educação moral dos jovens são dois caminhos fundamentais através dos quais, nos anos decisivos do crescimento, cada um pode confrontar-se consigo mesmo, alargar os horizontes da mente e preparar-se para enfrentar a realidade da vida.
O homem vive uma existência autenticamente humana graças à cultura. É mediante a cultura que o homem se torna mais homem, tem acesso de modo mais intenso ao “ser” que lhe é próprio. Por outro lado, para uma visão sábia, é evidente que o homem conta como homem mais pelo que é do que pelo que possui. O valor humano da pessoa está em relação directa e fundamental com o ser, e não com o ter. Precisamente por isso, uma Nação que se preocupa com o seu futuro favorece o progresso da escola num clima sadio de liberdade, e não poupa esforços para melhorar a qualidade, em estreita relação com as famílias e com todas as componentes sociais, como de facto se verifica na maior parte dos Países europeus.
Não é menos importante, para a formação da pessoa, o clima moral que predomina nas relações sociais e que actualmente encontra uma expressão maciça e condicionante nos meios de comunicação: eis o desafio que chama em causa todas as pessoas e famílias, mas que interpela a título peculiar quem tem maiores responsabilidades políticas e institucionais. A Igreja, por seu lado, não se cansará de desempenhar, também neste campo, aquela missão educativa que pertence à sua própria natureza.
O carácter realmente humanista de um corpo social manifesta-se particularmente na atenção que ele consegue manifestar aos seus membros mais débeis. Olhando para o caminho percorrido pela Itália durante estes quase sessenta anos depois das ruínas da segunda guerra mundial, não podemos deixar de nos admirar pelos enormes progressos realizados rumo a uma sociedade na qual sejam garantidas a todos condições de vida aceitáveis. Mas é de igual modo inevitável reconhecer a grave crise ocupacional que ainda persiste, sobretudo juvenil, e numerosas pobrezas, misérias e marginalizações, antigas e novas, que afligem numerosas pessoas e famílias italianas ou imigradas neste País. Por conseguinte, é grande a necessidade de uma solidariedade espontânea e radical, à qual a Igreja se empenha de todos os modos em dar de coração o seu contributo. Contudo, esta solidariedade não pode deixar de contar sobretudo com a constante solicitude das Instituições públicas. "
Discurso do Papa João Paulo II ao Parlamento da República Italiana
Quinta-feira, 14 de novembro de 2002
SÍNDROME PERSECUTÓRIA
Dom Aloísio Roque Oppermann
23 de Março de 2009
Sejamos realistas. Os nossos temíveis perseguidores se apresentam como “corajosos”; e atacando-nos impiedosamente querem “demonstrar a hipocrisia da Igreja”...Mas esses mesmos destemidos amantes da verdade jamais pronunciam uma palavra contra os judeus, contra os muçulmanos, contra os líderes espíritas, contra as igrejas evangélicas e outros grupos. Será que eles não cometem faltas? Ou será que, por terem medo de suas reações, só falam mal dos católicos, porque estes se comportam como Jesus “manso cordeiro levado ao matadouro” (Is 53,7)? Aos Jabour, aos Petry, às Martins, aos Paiva, sobra coragem quando atacam a Igreja. Mas se tornam muito cordiais, e interessados no bem comum, quando se trata de ocultar os erros de grupos fora da Igreja Católica. Tais escritores e líderes estão despertando, irresponsavelmente, o ódio na opinião pública. A história nos conta de que forma terminam tais campanhas de atiçar os ódios contra algum grupo social.
Vejamos como terminou a campanha dos iluministas contra “trono e altar”. Milhões de seres humanos foram trucidados na revolução francesa. O mesmo se diga do socialismo intolerante, que tomou como objeto de seu ódio toda a classe dos proprietários, mesmo que fosse dona de um pequeno sítio. O resultado não se fez esperar. Foram mortos, em nome da justiça, mais de 60 milhões de seres humanos na Rússia, e outros tantos na China. Não esqueçamos os judeus, durante séculos considerados os culpados de todos os males. Tudo terminou no genocídio de 6 milhões, pelo nazismo. Na história do cristianismo convém lembrar a campanha do império romano contra os cristãos. Estes optaram em “ser fiéis até o fim” (Mt 10, 22). O resultado foram centenas de milhares de mártires. Não esqueçamos a inglória revolução espanhola, na qual foram eliminados, de forma cruel, milhares de Padres, dezenas de milhares de Religiosas, foram destruídas igrejas e conventos. Aqui no Brasil, como conseqüência do desprezo e da raiva indômita contra a Igreja, haverá uma opinião pública contundente contra ela. O resultado disso é inevitável. Todos ao “matar-vos julgarão prestar um sacrifício a Deus” (Jo 16, 2). Muito em breve a Igreja no Brasil terá muitos mártires. (Se for necessário, pretendo explicar, futuramente, a “psicologia” dos nossos perseguidores).
TORNAR DEUS PRESENTE NESTE MUNDO E ABRIR AOS HOMENS O ACESSO A DEUS
"No nosso tempo em que a fé, em vastas zonas da terra, corre o perigo de apagar-se como uma chama que já não recebe alimento, a prioridade que está acima de todas é tornar Deus presente neste mundo e abrir aos homens o acesso a Deus. Não a um deus qualquer, mas àquele Deus que falou no Sinai; àquele Deus cujo rosto reconhecemos no amor levado até ao extremo (cf. Jo 13, 1) em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. O verdadeiro problema neste momento da nossa história é que Deus possa desaparecer do horizonte dos homens e que, com o apagar-se da luz vinda de Deus, a humanidade seja surpreendida pela falta de orientação, cujos efeitos destrutivos se manifestam cada vez mais."
10 de março de 2009
ADÃO E CRISTO : DO PECADO À LIBERDADE
Catequese do Papa Bento XVI na Audiência geral de quarta-feira, 3 de dezembro de 2008.
Adão e Cristo: do pecado (original) à liberdade
Queridos irmãos e irmãs!
Detemo-nos na catequese de hoje sobre as relações entre Adão e Cristo, traçadas por São Paulo na conhecida página da Carta aos Romanos (5, 12-21), na qual ele entrega à Igreja as orientações essenciais da doutrina sobre o pecado original. Na realidade, já na primeira Carta aos Coríntios, tratando da fé na ressurreição, Paulo tinha introduzido o confronto entre o progenitor e Cristo: "Assim como todos morrem em Adão, assim também, em Cristo, todos serão vivificados... O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente: o último Adão é um espírito vivificante" (1 Cor 15, 22.45). Com Rm 5, 12-21 o confronto entre Cristo e Adão torna-se mais articulado e iluminador: Paulo repercorre a história da salvação de Adão até à Lei e dela até Cristo. No centro do cenário não se encontra tanto Adão com as consequências do pecado sobre a humanidade, quanto Jesus Cristo e a graça que, através d'Ele, foi derramada em abundância sobre a humanidade. A repetição do "muito mais" relativo a Cristo ressalta como o dom recebido n'Ele supera, em grande medida, o pecado de Adão e as consequências causadas sobre a humanidade, de modo que Paulo pode chegar à conclusão: "Onde, porém, abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm 5, 20). Portanto, o confronto que Paulo traça entre Adão e Cristo põe em realce a inferioridade do primeiro homem em relação à prevalência do segundo.
Por outro lado, é precisamente para pôr em ressalto o dom incomensurável da graça, em Cristo, que Paulo menciona o pecado de Adão: dir-se-ia que se não tivesse sido para demonstrar a centralidade da graça, ele não teria demorado a tratar o pecado que, "por causa de um só homem, entrou no mundo e, com o pecado, a morte" (Rm 5, 12). Por isso, se na fé da Igreja maturou a consciência do dogma do pecado original foi porque ele está relacionado inseparavelmente com o outro dogma, o da salvação e da liberdade em Cristo. A consequência disto é que nunca deveríamos tratar o pecado de Adão e da humanidade separando-os do contexto salvífico, isto é, sem os incluir no horizonte da justificação em Cristo.
Mas como homens de hoje devemos perguntar-nos: o que é este pecado original? O que ensina São Paulo, o que ensina a Igreja? Ainda hoje se pode afirmar esta doutrina? Muitos pensam que, à luz da história da evolução, já não haveria lugar para a doutrina de um primeiro pecado, que depois se teria difundido em toda a história da humanidade. E, por conseguinte, também a questão da Redenção e do Redentor perderia o seu fundamento. Portanto, existe ou não o pecado original? Para poder responder devemos distinguir dois aspectos da doutrina sobre o pecado original. Existe um aspecto empírico, isto é, realidade concreta, visível, diria tangível para todos. E um aspecto mistérico, relativo ao fundamento ontológico deste facto. O dado empírico é que existe uma contradição no nosso ser. Por um lado, cada homem sabe que deve fazer o bem e intimamente até o quer fazer. Mas, ao mesmo tempo, sente também o outro impulso para fazer o contrário, para seguir o caminho do egoísmo, da violência, para fazer só o que lhe apraz, mesmo sabendo que assim age contra o bem, contra Deus e contra o próximo. São Paulo na sua Carta aos Romanos expressou esta contradição no nosso ser assim: "Quero o bem, que está ao meu alcance, mas realizá-lo não. Efectivamente, o bem que quero, não o faço, mas o mal que não quero é que pratico" (7, 18-19). Esta contradição interior do nosso ser não é uma teoria. Cada um de nós a vive todos os dias. E sobretudo vemos sempre em nossa volta a prevalência desta segunda vontade. É suficiente pensar nas notícias quotidianas sobre injustiças, violência, mentira, luxúria. Vemo-lo todos os dias: é uma realidade.
Como consequência deste poder do mal nas nossas almas, desenvolveu-se na história um rio impuro, que envevena a geografia da história humana. O grande pensador francês Blaise Pascal falou de uma "segunda natureza", que se sobrepõe à nossa natureza originária, boa. Esta "segunda natureza" faz sobressair o mal como normal para o homem. Assim também a expressão habitual: "Isto é humano" pode querer dizer: este homem é bom, realmente age como deveria agir um homem. Mas "isto é humano" também pode significar falsidade: o mal é normal, é humano. O mal parece ter-se tornado uma segunda natureza. Esta contradição do ser humano, da nossa história deve provocar, e provoca também hoje, o desejo de redenção. E, na realidade, o desejo que o mundo seja mudado e a promessa que será criado um mundo de justiça, de paz, de bem, está presente em toda a parte: na política, por exemplo, todos falam desta necessidade de mudar o mundo, de criar um mundo mais justo. É precisamente esta a expressão do desejo que haja uma libertação da contradição que experimentamos em nós próprios.
Por conseguinte, o facto do poder do mal no coração humano e na história humana é inegável. A questão é: como se explica este mal? Na história do pensamento, prescindindo da fé cristã, existe um modelo principal de explicação, com diversas variações. Este modelo diz: o próprio ser é contraditório, tem em si quer o bem quer o mal. Na antiguidade esta ideia incluía a opinião que existiam dois princípios igualmente originários: um princípio bom e um princípio mau. Este dualismo seria insuperável; os dois princípios estão no mesmo nível, por isso haverá sempre, desde a origem do ser, esta contradição. A contradição do nosso ser, portanto, reflectiria apenas, por assim dizer, a contrariedade dos dois princípios divinos. Na versão evolucionista, ateia, do mundo volta de maneira nova a mesma visão. Mesmo se, nesta concepção, a visão do ser é monista, supõe-se que o ser como tal desde o início tenha em si o mal e o bem. O próprio ser não é simplesmente bom, mas aberto ao bem e ao mal. O mal é igualmente originário como o bem. E a história humana desenvolveria apenas o modelo já presente em toda a evolução precedente. Aquilo a que os cristãos chamam pecado original na realidade seria apenas o carácter misto do ser, uma mistura de bem e de mal que, segundo esta teoria, pertenceria à própria capacidade do ser. No fundo, trata-se de uma visão desesperada: se assim é, o mal é invencível. No final conta unicamente o próprio interesse. E cada progresso deveria ser necessariamente pago com um rio de mal e quem quisesse servir o progresso deveria aceitar pagar este preço. No fundo, a política é delineada precisamente sobre estas premissas: e vemos os seus efeitos. Este pensamento moderno pode, no final, criar tristeza e cinismo.
E assim perguntamos de novo: o que diz a fé, testemunhada por São Paulo? Como primeiro ponto, ela confirma o facto da competição entre as duas naturezas, o facto deste mal cuja sombra pesa sobre toda a criação. Ouvimos o capítulo 7 da Carta aos Romanos, poderíamos acrescentar o capítulo 8. O mal simplesmente existe. Como explicação, em contraste com os dualismos e os monismos que consideramos brevemente e que achamos desoladores, a fé diz-nos: existem dois mistérios de luz e um mistério de trevas, que contudo está envolvido pelos mistérios de luz. O primeiro mistério de luz é este: a fé diz-nos que não existem dois princípios, um bom e um mau, mas há um só princípio, o Deus criador, e este princípio é bom, só bom, sem sombra de mal. E por isso também o ser não é uma mistura de bem e mal; o ser como tal é bom e por isso é bom ser, é bom viver. É esta a boa nova da fé: há apenas uma fonte boa, o Criador. E por isso viver é um bem, é bom ser um homem, uma mulher, a vida é boa. Depois segue-se um mistério de escuridão, de trevas. O mal não provém da fonte do próprio ser, não tem a mesma origem. O mal vem de uma liberdade criada, de uma liberdade abusada.
Como foi possível, como aconteceu? Isto permanece obscuro. O mal não é lógico. Só Deus e o bem são lógicos, são luz. O mal permanece misterioso. Apresentámo-lo com grandes imagens, como faz o capítulo 3 do Génesis, com aquela visão das duas árvores, da serpente, do homem pecador. Uma grande imagem que nos faz adivinhar, mas não pode explicar quanto é em si mesmo ilógico. Podemos adivinhar, não explicar; nem sequer o podemos contar como um facto ao lado do outro, porque é uma realidade mais profunda. Permanece um mistério de escuridão, de trevas. Mas acrescenta-se imediatamente um mistério de luz. O mal vem de uma fonte subordinada. Deus com a sua luz é mais forte. E por isso o mal pode ser superado. Portanto a criatura, o homem, é curável. As visões dualistas, também o monismo do evolucionismo, não podem dizer que o homem é curável; mas se o mal só vem de uma fonte subordinada, é uma verdade que o homem é curável. E o livro da Sabedoria diz: "São salutares as criaturas do mundo" (1, 14 vulg). E finalmente, último aspecto, o homem não é só curável, de facto está curado. Deus introduziu a cura. Entrou pessoalmente na história. Opôs à fonte permanente do mal uma fonte de bem puro. Cristo crucificado e ressuscitado, novo Adão, opõe ao rio impuro do mal um rio de luz. E este rio está presente na história: vejamos os santos, os grandes santos mas também os santos humildes, os simples fiéis. Vemos que o rio de luz que provém de Cristo está presente, é forte.
Irmãos e irmãs, é tempo de Advento. Na linguagem da Igreja a palavra Advento tem dois significados: presença e expectativa. Presença: a luz está presente, Cristo é o novo Adão, está connosco e no meio de nós. Já resplandece a luz e devemos abrir os olhos do coração para ver a luz e para nos introduzirmos no rio da luz. Estar sobretudo gratos pelo facto de que o próprio Deus entrou na história como nova fonte de bem. Mas Advento significa também expectativa. A noite escura do mal ainda é forte. E por isso rezemos no Advento com o antigo povo de Deus: "Rorate caeli desuper". E rezemos com insistência: vem Jesus, dá força à luz e ao bem; vem onde dominam a mentira, a ignorância de Deus, a violência, a injustiça, vem, Senhor Jesus, dá força ao bem no mundo e ajuda-nos a ser portadores da tua luz, artífices da paz, testemunhas da verdade. Vem Senhor Jesus!
POR QUE A IGREJA CATÓLICA TEM SIDO TÃO DURAMENTE ATACADA?
Por Marcos Monteiro Grillo
Que a Igreja Católica, nos últimos anos, tem sofrido uma série de ataques, isso não é novidade alguma. Especialmente por causa da defesa dos princípios e valores morais cristãos, a Igreja tem sido acusada de “ultrapassada”, “retrógrada”, “insensível”, “obtusa” etc. Não obstante, nas últimas semanas temos visto a Igreja Católica no Brasil ser alvo de impropérios ainda mais furiosos... Leia mais
BUENOS AIRES, 24 Mar. 09 / 10:25 am (ACI).- O Consórcio de Médicos Católicos de Buenos Aires, aderiu-se às palavras do Papa Bento XVI sobre a epidemia do HIV-AIDS e indicou que as campanhas a favor do uso do preservativo “induzem a engano” porque “ocultam informação e não colabora à prevenção”. Leia mais
NÃO NOS DEIXEMOS IMPRESSIONAR POR DISCURSOS ENGANOSOS
Card. Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo
Artigo publicado em O SÃO PAULO, ed. De 24.03.2009
"Não nos deixemos impressionar por discursos enganosos. Não dá para justificar o aborto a partir da Bíblia, sem forçar interpretação da Escritura. E a decisão sobre a vida e a morte de seres humanos não pode ser deixada à iniciativa e decisão privada, nem deve depender da lógica da vantagem ou da comodidade individual. É dever do Estado proteger as pessoas e garantir a defesa e o respeito à sua vida. Não se pode privatizar esta responsabilidade! Da parte do Estado seria uma atitude cínica descarregar na conta da mulher, ou de outra pessoa, uma responsabilidade tão grande! E seria muito arriscado, pois quem levaria sempre a pior seriam os doentes, indefesos e incapazes de resistir à vontade dos mais fortes."
A IGREJA E O DESAFIO DA SECULARIZAÇÃO
Sábado, 8 de Março de 2008
(...)
Com efeito, hoje mais que nunca a abertura recíproca entre as culturas é um terreno privilegiado para o diálogo entre homens e mulheres comprometidos na busca de um humanismo genuíno, para além das divergências que os separam. A secularização, que se apresenta nas culturas como um delineamento do mundo e da humanidade sem referência à Transcendência, impregna todos os aspectos da vida quotidiana e desenvolve uma mentalidade em que Deus se tornou total ou parcialmente ausente da existência e da consciência do homem. Esta secularização não é apenas uma ameaça externa para os fiéis, mas já se manifesta há muito tempo no seio da própria Igreja. Desnatura a partir de dentro e em profundidade a fé cristã e, por conseguinte, o estilo de vida e o comportamento quotidiano dos fiéis. Eles vivem no mundo e são muitas vezes marcados, se não condicionados, pela cultura da imagem que impõe modelos e impulsos contraditórios, na negação prática de Deus: já não há necessidade de Deus, nem de pensar nele e de voltar para Ele. Além disso, a mentalidade hedonista e consumista predominante favorece, tanto nos fiéis como nos pastores, uma deriva na superficialidade e um egocentrismo que prejudica a vida eclesial.
A "morte de Deus", anunciada nos séculos passados por muitos intelectuais, cede o lugar a um estéril culto do indivíduo. Neste contexto cultural, há o risco de cair numa atrofia espiritual e num vazio do coração, às vezes caracterizados por formas sucedâneas de pertença religiosa e de vago espiritualismo. Revela-se mais urgente que nunca reagir a semelhantes derivas mediante a evocação dos valores mais excelsos da existência, que dão sentido à vida e podem saciar a inquietação do coração humano em busca da felicidade: a dignidade da pessoa humana e a sua liberdade, a igualdade entre todos os homens, o sentido da vida e da morte e daquilo que nos espera depois da conclusão da existência terrena. Nesta perspectiva o meu predecessor, o Servo de Deus João Paulo II, consciente das mudanças radicais e rápidas das sociedades, solicitou com insistência a urgência de encontrar o homem no campo da cultura para lhe transmitir a Mensagem evangélica. Precisamente por este motivo, instituiu o Pontifício Conselho para a Cultura, para dar um renovado impulso à acção da Igreja, em vista de levar o Evangelho ao encontro da pluralidade das culturas nas várias partes do mundo (cf. Carta ao Card. Casaroli, em: AAS LXXIV, 6, págs. 683-688). A sensibilidade intelectual e a caridade pastoral do Papa João Paulo II levaram-no a pôr em evidência o facto de que a revolução industrial e as descobertas científicas permitiram responder a interrogações que antes eram em parte satisfeitas unicamente pela religião. Como consequência, o homem contemporâneo tem frequentemente a impressão de não precisar de ninguém para compreender, explicar e dominar o universo; ele sente-se o centro de tudo, a medida de tudo.
Mais recentemente a globalização, por intermédio das novas tecnologias da informação, não raramente teve como êxito também a difusão em todas as culturas de numerosos componentes materialistas e individualistas do Ocidente. A fórmula "Etsi Deus non daretur" torna-se cada vez mais um estilo de vida que haure a sua origem de uma espécie de "soberba" da razão de resto, uma realidade criada e amada por Deus que se considera suficiente a si mesma e se fecha à contemplação e à busca de uma Verdade que a ultrapassa. A luz da razão exaltada, mas na realidade depauperada pelo Iluminismo substitui-se radicalmente à luz da fé, à luz de Deus (cf. Bento XVI, Alocução preparada para o encontro com a Universidade de Roma "La Sapienza", 17 de Janeiro de 2008). Por isso, são enormes os desafios que a missão da Igreja deve enfrentar neste âmbito. Por isso, o compromisso do Pontifício Conselho para a Cultura revela-se mais importante que nunca em vista de um diálogo fecundo entre a ciência e a fé. Trata-se de um confronto muito esperado pela Igreja, mas inclusivamente pela comunidade científica, e encorajo-vos a continuá-lo. Nele, a fé supõe a razão e a perfeição, enquanto a razão, iluminada pela fé, encontra a força para se elevar ao conhecimento de Deus e das realidades espirituais.
Neste sentido, a secularização não favorece a finalidade última da ciência, que está ao serviço do homem, "imago Dei". Que este diálogo continue, na distinção das características específicas da ciência e da fé. Com efeito, cada uma delas dispõe dos seus próprios métodos, âmbitos, objectos de investigação, finalidades e limites, e deve respeitar e reconhecer à outra a legítima possibilidade de exercício autónomo, em conformidade com os princípios que lhe são próprios (cf. Gaudium et spes, 36); então, ambas são chamadas a servir o homem e a humanidade, favorecendo o desenvolvimento e o crescimento integral de cada um e de todos.
Exorto sobretudo os Pastores da grei de Deus, a uma missão incansável e generosa para enfrentar, nos campos do diálogo e do encontro com as culturas, do anúncio do Evangelho e do testemunho, o preocupante fenómeno da secularização, que debilita a pessoa impedindo o seu anseio inato pela Verdade na sua integridade. Assim, graças ao serviço prestado de modo particular pelo vosso Conselho, que os discípulos de Cristo possam continuar a anunciá-lo no âmago das culturas, porque Ele é a luz que ilumina a razão, o homem e o mundo. Também a nós se apresenta a admoestação que tinha sido dirigida pelo anjo à Igreja presente em Éfeso: "Conheço as tuas obras, as tuas fadigas e a tua constância... No entanto, tenho uma coisa contra ti: abandonaste o teu amor primitivo" (Ap 2, 2.4). Façamos nosso o brado do Espírito e da Igreja: "Vem!" (Ap 22, 17), e deixemos que o nosso coração seja imbuído pela resposta do Senhor: "Sim, virei brevemente!" (Ap 22, 20). Ele é a nossa esperança, a luz para o nosso caminho, a força para anunciar a salvação com coragem apostólica, chegando até ao coração de todas as culturas. Deus vos assista no cumprimento da vossa árdua mas exaltante missão!
COMO ENCONTRAR O SENTIDO DA EXISTENCIA?
"De facto, o homem, quer na sua interioridade quer na sua exterioridade, não pode ser plenamente compreendido se o não reconhecermos aberto à transcendência.
Privado da sua referência a Deus, o homem não pode responder às perguntas fundamentais que agitam e agitarão sempre o seu coração em relação ao fim e, por conseguinte, ao sentido pleno da sua existência. Consequentemente, nem sequer é possível inserir na sociedade aqueles valores éticos, os únicos que podem garantir uma convivência digna do homem. O destino do homem sem a sua referência a Deus só pode ser a desolação da angústia que conduz ao desespero. Só em referência ao Deus-Amor, que se revelou em Jesus Cristo, o homem pode encontrar o sentido da sua existência e viver na esperança, mesmo se na experiência dos males que ferem a sua existência pessoal e a sociedade na qual vive. A esperança faz com que o homem não se feche num niilismo paralisante e estéril, mas se abra ao compromisso generoso que Deus confiou ao homem ao criá-lo à sua imagem e semelhança, uma tarefa que confere a cada homem a maior dignidade, mas também uma enorme responsabilidade. "
FILOSOFIA ALÉM DO ILUMINISMO E DO RELATIVISMO
Por Agência Zenit
"Penso, portanto, que seja não só necessário mas também possível superar o impasse que nos vê oprimidos entre o universalismo moderno e a «insustentável leveza» do relativismo pós-moderno."
(...)
No debate sobre temas que despedaçam a consciência das nações e do mundo inteiro (por exemplo, sobre os temas da eutanásia, do aborto, da política econômica, etc), nós, cristãos, não podemos apoiar nossos argumentos a partir da autoridade do Evangelho, já que nos encontramos discutindo com pessoas (e são a maioria) que não reconhecem esta autoridade.
Devemos fundar racionalmente nossos argumentos. A tradição cristã, neste sentido, ensinou que a filosofia está «ao serviço» da teologia (philosophia ancilla theologiae). E se trata de um serviço prestado em duas frentes: por um lado, a teologia descobre algumas verdades que facilitam a acolhida do Evangelho; por outro lado, a filosofia desmascara alguns erros que impedem a acolhida do Evangelho.
Por outra parte, nós nos sentimos convidados por nossa própria fé a exercitar até o final a razão: um axioma teológico clássico diz: «A graça não destrói a natureza, mas a supõe»; em nosso campo isto pode ser traduzido assim: «A fé não destrói a razão, mas a supõe».
A fé não substitui a razão, mas a completa e a eleva: portanto, é necessário que haja algo a completar e elevar: uma atividade racional que a fé não substitui. Feita esta distinção metodológica, é agora possível sublinhar que para a ética é necessário pôr-se à escuta das grandes tradições religiosas e, em nosso caso, do cristianismo."
GRANDES PENSADORES: CARD. JOHN HENRY NEWMAN
Fonte: Enciclopédia Católica
Ainda que somente há alguns anos que sou católico, sei entretanto que o problema "por que sou católico" é muito diferente do problema "por que me converti ao catolicismo". Tantas coisas motivaram minha conversão e tantas outras continuam surgindo depois... Todas elas são colocadas em evidência somente quando a primeira nos dá o empurrão que conduz à própria conversão. Todas são também tão numerosas e tão diferentes umas das outras, que, no fim, o motivo originário e primordial pode chegar a nos parecer quase insignificante e secundário.
Cardeal Diácono de São George em Velabro, autor sagrado, filósofo, homem de letras, líder do Movimento Tractariano, e o mais ilustre converso inglês à Igreja. Nascido na Cidade de Londres, em 21 de fevereiro de 1801, o mais velho de seis irmãos, três homens e três mulheres; morreu em Edgbaston, Birmingham, em 11 de agosto de 1890. Houveram certas discussões sobre sua ascendência com respeito a seu lado paterno. Seu pai foi John Newman, um banqueiro, sua mãe Jemima Fourdrinier, de uma família Hugonote estabelecida em Londres como cinzeladores e fabricantes de papel. Sabe-se que o sobrenome era escrito "Newmann"; está claro que muitos judeus, ingleses ou estrangeiros, o levaram, e a insinuação era que o cardeal era de ascendência judaica. Mas não encontraram nenhuma evidência documentaria para confirmar tal idéia. Sua linhagem francesa é inegável. Recebeu de sua mãe seu treinamento religioso, um Calvinismo modificado; e provavelmente ajudou à "concisão lúcida" de suas palavras quando tratava de temas abstrusos. Seu irmão Francis William, também escritor, mas carente de elegância literária, separou-se da Igreja Inglesa para aderir-se ao Deísmo; Charles Robert, o segundo irmão, era bastante errático e professava o ateísmo. Uma das irmãs, Mary, morreu jovem; Jemina tem um lugar na biografia do cardeal durante a crise de sua carreira anglicana; e estamos em dívida com uma filha de Harriet, Anne Mozley, pelas "Cartas e Correspondência" de 1845, que contêm uma seqüela das próprias mãos do cardeal Newman da clássica "Apologia" desde o dia em que foi completada, a "Apologia" será sempre a principal autoridade dos primeiros pensamentos de Newman, e de seu conceito sobre o grande ressurgimento religioso, conhecido como Movimento de Oxford, do qual foi o guia o filósofo e o mártir.
Sua imensa correspondência, da qual a maior parte permanece sem ser publicada, não pode mudar essencialmente nossa estiva para quem, ainda que sutil ao grau de marginar o refinamento, foi também impulsivo e aberto com seus amigos, assim como enérgico em suas posições com o público. De tudo o que conhecemos dele, podemos deduzir que a grandeza de Newman consistia na união de originalidade, que chegava a uma genialidade de primeira classe, e um caráter de grande profundidade espiritual, manifestadas em uma linguagem de perfeita harmonia e ritmo, em uma energia que tão freqüentemente criou seitas ou Igrejas, e em uma personalidade não menos arrebatadora quanto sensível. Entre as estrelas literárias de seu tempo Newman se distingue pelo puro resplendor cristão que brilha em sua vida e escritos. Ele é o inglês da era que manteve o antigo credo com uma sabedoria que só os teólogos possuem, com uma força shakespeariana de estilo, e um fervor próprio dos santos. É esta combinação única a que o eleva sobre os pregadores católicos de vinitate mundi, como Thackeray, e que o outorga um lugar aparte de Tnnyson e Browning. Em comparação a ele Keble é uma luz de sexta magnitude; Pusey, um professor devoto, Lidon, um menos eloqüente Lacordaire. Newman ocupa no século XIX uma posição semelhante à do Bispo Butler no XVIII. Se Butler é o paládio cristão contra o deísmo, então Newman é o apologista católico em uma época de agnosticismo, rodeada pelas teorias da evolução. Ele é, alem disso, um poeta, e seu "Sonho de Gerontio" ("Dreams of Gerontius") avantaja cem vezes mais o verso meditativo dos poetas modernos por seu claro-escuro de símbolos e cenas dramáticas do mundo visto atrás do véu. Foi educado desde sua infância em deleitar-se com a leitura da Bíblia, mas carecia de convicções religiosas formadas até que completou quinze anos. Costumava desejar que os contos das mil e uma noites fossem verdadeiros; sua mente discorria com influências desconhecidas; pensava que a vida era possivelmente um sonho, que ele era um anjo, e que seus amigos anjos o estariam enganando com a aparência de um mundo material. Era "muito supersticioso" e tinha medo do escuro.
Aos quinze anos se "converteu", ainda que não praticasse muito os Evangelhos; das obras da escola de Calvino, obteve suas idéias dogmáticas definitivas, enquanto descansava "no pensamento de dois e somente dois absolutos e luminosos seres evidentes a todas as luzes, eu mesmo e meu Criador". Em outras palavras, a personalidade se converteu na verdade primeira de sua filosofia; sem se importar com a lei, a razão ou a experiência dos sentidos. Daqui em diante, Newman foi um místico cristão, e como tal permaneceu. Dos escritos de Thomas Scott de Aston Sandford, "a quem, humanamente falando", disse, "Quase devo a minha alma" , aprendeu a doutrina da Trindade, apoiando cada frase do Credo Atanasiano com textos da Escritura. Os aforismos de Scott estiveram constantemente presentes em seus lábios por anos, "Santidade antes que paz", e "O crescimento é a única evidência da vida". A obra "Serious Call" de Law teve nos jovens uma influência católica ou céptica; nasceu para ser missionário; pensava que era o desejo de Deus que guiasse uma só vida; apaixonado pelas citações dos Padres dadas na "História da Igreja" de Milner, e lendo, em Newton sobre as profecias, sentiu-se convencido de que o papa era o Anticristo. Atendeu a escola em Ealing, próximo de Londres desde os sete anos. Sempre pensativo, tímido e afetivo, não participava dos jogos de "homens", começou a exercitar sua pena prontamente, leu as Novelas Waverley, imitava a Gibbon e Jonson, matriculou-se no Colégio Trindade (Trinity College) de Oxford, em dezembro de 1816, e em 1818 ganhou uma bolsa de 60 libras por nove anos. Em 1819 o banco de seu pai suspendeu os pagamentos, mas logo descarregou suas obrigações por completo. Trabalhando muito duro por seu título, Newman perdeu a saúde e conseguiu em 1821 somente honras de terceira classe. Mas seus dons não podiam ser ocultados. Oriel era então a primeira em reputação e intelectualmente falando entre as Universidades de Oxford, e foi eleito tutor em Oriel em 12 de abril de 19]822. Sentiu que este foi "o ponto de quebra de sua vida, e de todos os dias, o mais memorável" . Em 1821 tinha renunciado à intenção de estudar para advogado, e decidiu tomar ordens. Como tutor de Oriel, considerava quer tinha uma cura de almas; foi ordenado em 13 de junho de 1824; e por sugestão de Pusey converteu-se em tenente padre de São Clemente; em Oxford, onde permaneceu dois anos em atividades paroquiais. E aqui os pontos de vista nos quais tinha sido educado o decepcionaram, o Calvinismo não era uma chave para o fenômeno do ser humano como aparecem no mundo. Não funcionariam. Escreveu artigos de Cícero, etc., e seu primeiro "Ensaio sobre Milagres" ("Essay on Miracles"), que toma uma posição estritamente protestante, busca prejudicar àqueles afastados da Escritura. Mas também caiu sob a influência de Whateley, logo Arcebispo Anglicano de Dublin, que, em 1825, o fez seu vice-presidente em St. Mary - Hall. Whateley o estimulou através de discussões, o ensinou a noção do cristianismo como organismo social e soberano diferente do estado, mas o conduziu na direção das idéias "liberais" e lógica nominalista. Newman contribuiu em tal tema no livro de Whateley, alguma vez famoso. De Hawkins, cujo voto decisivo o fez reitor de Oriel, Newman obteve as doutrinas católicas da tradição e regeneração batismal, assim como certa precisão de termos que muito depois, deram origem ao mal-entendido de kingsley dos métodos de Newman ao escrever. De outro clérigo de Oxford aprendeu a crer na sucessão apostólica. E a "Analogia" de Butler, que leu em 1823, foi um marco em suas opiniões religiosas.
Provavelmente não seja muito dizer que seu livro profundo se converteu no guia da vida de Newman, e deu origem não somente ao "Ensaio sobre o Desenvolvimento" ("Essay on Development") mas também ao "Gramática de Assentimento" ("Grammar of Assent"). Em particular ofereceu um conjunto de ética e consciência de rejeição que confirmaram suas primeiras crenças em um doador de leis e um juiz intimamente presentes na alma. Em outra linha sugeria ao sistema sacramental, ou a "Economia", de que os Alexandrinos Clemente e São Atanásio são expoentes. Em resumo, neste período formativo as fontes onde Newman derivou seus princípios assim como suas doutrinas eram anglicanas e gregas, não romanas ou germanas. Seu calvinismo se derrubou, ao tempo que se retirou da Sociedade Bíblica. Estava crescendo ardentemente anti-erastiano; e Whateley viu os elementos de seu novo partido na Igreja reunindo ao que Oriel tinha escolhido como sua promessa intelectual, mas quem Oxford conhecera como crítico e antagonista da "Marcha da Mente" ("March of Mind"). Sua universidade em 1828 o fez Vigário de St. Mary (que era também a igreja da universidade), e em seu púlpito brindou os "Sermões Paroquiais" ("Parochial Sermons"), sem eloqüência ou postura, já que não tinha oferendas populares, mas com uma maravilhosa seriedade e uma sabedoria da natureza humana rara vez igualada. Quando foram publicados, foi dito que eles "superam todos os demais sermões fora do mercado assim como as histórias de Scott superam qualquer outra história". Não eram discutíveis; e a teologia católica tinha muito pouco que objetar-lhes. Se estilo castigado, fertilidade de ilustração, e sua curta mas aguda energia, não perderam nada com a passagem dos anos. Em tom são severos e freqüentemente melancólicos, como a manifestação de um espírito solitário.
Embora afável e até compassivo, o caráter peculiar de Newman incluía uma profunda reserva. Não tinha sua composição - como ele mesmo afirma - um grama de alegria. Sempre foi o intelectual de Oxford, não democrata, desconfiado dos movimentos populares, mas habilmente interessado em estudos políticos como sustentando as fortunas da Igreja. Esta disposição foi intensificada por sua amizade com Keble, cujo "Ano Cristão" ("Christian Year") foi publicado em 1827, e com R. Hurrel Froude, homem de pensamento impetuoso e de prática de auto-negação. Em 1832 discutiu com Dr, Hawkins, quem não toleraria a idéia pastoral que Newman tanto apreciava de seu trabalho universitário. Renunciou a sua tutoria, empreendeu uma longa viagem ao redor do Mediterrâneo com Froude, e voltou a Oxford, onde em 14 de julho de 1833, Keble pregou o sermão do tribunal sobre "Apostasia Nacional". Aquele dia, o aniversário da Revolução Francesa, deu origem ao Movimento de Oxford. A viagem de Newman à costa do Norte da África, Itália, Grécia Ocidental, e Sicília (Dezembro de 1832 - Julho de 1833) foi um episódio romântico, do qual seus diários preservaram os incidentes e a cor. Em Roma viu a Wiseman na Universidade Inglesa; a cidade, como mãe da religião de sua terra nativa, o embruxou de tal maneira que nunca se esqueceu dela. Sentiu-se chamado para uma grande missão; e quando a febre o acometeu em Leonforte em Sicília (onde estava errando só) gritou, "Não devo morrer, não pequei contra a luz". No Cabo Ortegal, em 11 de dezembro de 1832 tinha composto o primeiro de uma série de poemas, denso, apaixonado, e original que profetizava que a Igreja reinaria como no princípio. Acalmado no Estreito de Bonifácio, buscou guia através de ternos versos, "Guia, Luz Bondosa", imerecidamente atesourado por todo aquele de raízes Anglo-falantes. Foram chamados a canção caminhante do hóspede tractariano. Mas durante as primeiras etapas daquela travessia não esteve claro, inclusive para o próprio líder em que direção se moviam - longe da revolução certamente.
A reforma estava no ar, dos bispados irlandeses tinham sido suprimidos; a separação do estado podia não estar longe. Havia necessidade de resistência aos inimigos sem, e de uma Segunda, mas católica, reforma desde dentro. A Igreja primitiva devia de alguma maneira se restaurada na Inglaterra. Outros se reuniam em comitê e enviavam uma direção a Canterbury; Newman começou os "Tratados para os Tempos" ("Tracts for the Times"), como nos diz com um sorriso, "de sua própria cabeça". Para ele Aquiles sempre pareceu mais que o anfitrião dos Achans. Tomou seu lema da Ilíada: "Saberão agora a diferença". Aquiles desceu à batalha, combateu por oito anos, ganhou vitória sobre vitória, mas foi vencido por suas próprias armas quando o "Tratado 90" apareceu, e se retirou a sua tenda em Littlemore, um campeão quebrado. Entretanto, tinha feito uma obra duradoura, maior que o de Laud e capaz de derrubar o de Cranmer ao final. Tinha ressuscitado os padres, trazidos para aliviar o sistema sacramental, asfaltado o caminho de um surpreendente restabelecimento de um ritual longamente esquecido, e tendo dado ao clérigo um assentimento entre milhares no momento quando os princípios erastianos estavam na véspera do triunfo. "Foi pouco depois de 1830", disse Pattison severamente, "que os tratados desolaram a vida de Oxford". A posição de Newman era designada a Via Media. A Igreja inglesa, manteve, já os leigos à altura de Roma e Gênova. Era católica em origem, doutrina, anatematizava como heresias os peculiares princípios, quer seja Calvino ou Lutero, não se podia mais que protestar contra as "Corrupções Romanas", que eram excrescências da verdade primitiva. Daqui que a Inglaterra defendeu aos Padres, cujo ensinamento entregou o livro de Oração; apelava à antigüidade, e sua norma era a Igreja indivisível. "Charles", dizia Newman, "é o rei, Laud o prelado, Oxford a cidade sagrada, deste princípio". O estudo patrístico se converteu em ordem do dia. O primeiro volume de Newman, "Os Arianos do século IV", é um indigesto, mas valioso e característico tratado, totalmente Alexandrino em tom, discutindo credos e seitas na linha da "Economia". Como história fracassa; a forma é confusa. O estilo contrasta com sua posterior intensidade e frontalidade de expressão. Mas como pensador Newman nunca viajou muito além dos Arianos" (publicado em 1833). Implica uma filosofia mística controlada pelos dogmas cristãos, enquanto a Igreja a difunde. Na "Apologia" encontramos esta chave a seu desenvolvimento mental brindada por Newman, não sem desenhar. Diz, Entendi...que o mundo exterior, físico e histórico, era a manifestação para nossos sentidos de realidades maiores que elas mesmas. A natureza era uma parábola, a Escritura era uma alegoria; a literatura pagã, a filosofia, e mitologia, adequadamente entendidas eram uma preparação para o Evangelho. Os poetas gregos e sábios eram em um sentido profetas. Houve uma "dispensa" dos gentios assim como dos judeus. Ambos tinham aparentemente vindo a nada; desde e através de cada um a doutrina evangélica se fez manifesta. Deste modo foi concedido espaço para a antecipação de revelações mais profundas, de verdades que permanecem ainda sob o véu das letras. A Santa Igreja "permanecerá depois de tudo como símbolo daqueles feitos celestiais que encherão a eternidade. Seus mistérios são a expressão em linguagem humana de verdades que não são equivalentes à mente humana" ("Apol". Ed. 1895, p.27) Tal era o ensinamento que "chegou como música" a seu ouvido espiritual, de Atenas e Alexandria. A vida de Newman esteve dedicada, primeiro a aplicar este magnífico esquema à Igreja da Inglaterra; e logo, quando viu que não cabia em dimensões tão estreitas, à Igreja do centro, a Roma. Mas suas amplas implicações, inclusive sua desenvolvida visão não ingressaram. Entretanto, substituiu um princípio dinâmico e progressivo por um meramente estático. Mas supunha-se que a posição anglicana confiaria no Quod ubique de Vincent de Lerins, admitindo nenhum desenvolvimento real; seus autores sagrados atacam a Boussuet contra as "variações" do catolicismo. De 1833 a 1839 o líder Tractariano manteve esta linha de defesa sem dúvida. Logo, desfez-se e a Via Media desapareceu. Enquanto isso, Oxford viu-se sacudindo como a Florença dos Médici por um novo Savonarola, que fez discípulos por todas as partes; quem enardeceu aos conservadores quando Hampden, um sócio de um colégio de Oxford, sujeitou verdades cristãs à influência dissolve do nominalismo; e quem multiplicou livros e escritos sobre todas as posturas religiosas de uma vez. "O Ofício Profético" era uma apologia formal do tipo Laudiano; o confuso, mas formoso "Tratado sobre a Justificação" ("Treatise on Justification") fez um esforço "por mostrar que existe pouca diferença, mas o que é verbal nas múltiplas posturas, encontradas quer seja entre os autores sagrados católicos ou protestantes" neste tam. Döllinger o chamou "a maior obras mestra em teologia que a Inglaterra produziu em cem anos" e contem a verdadeira resposta ao puritanismo. Os "Sermões Universitários" ("University Sermons"), profundos como seu tema, apontam a determinar os poderes e limites da razão, os métodos de revelação, as possibilidades de uma teologia real.
Newman escreveu tanto que quase perde sua mão. Entre uma multidão de admiradores, um quiçá, Hurrel Froude, pôde conhecê-lo em semelhantes termos de pensamento, e Froude faleceu em Dartington em 1836. O pioneiro caminhou seu rumo sozinho. Foi um mal líder de partido, sendo responsável por repentinas resoluções pessoais que terminaram em catástrofes. Mas desde 1839, quando governou em Oxford sem rival algum, estava já vacilante. Em sua própria linguagem, tinha visto um fantasma -a sombra de Roma, cobrindo seu compromisso anglicano. Dois nomes estão associados com uma mudança transcendental: Wiseman e Ward. A "Apologia" faz completa justiça a Wiseman; apenas menciona a Ward (veja Movimento de Oxford). Aqueles que estavam observando podem ter predito uma colisão entre os Tractarianos e a Inglaterra protestante. Isto ocorreu por ocasião do "Tract 90", em si mesmo o menos interessante de todas as publicações de Newman. O tratado estava orientado a prevenir críticas contra Roma ao distinguir as corrupções, contra as quais se dirigiam os trinta e nove artigos, das doutrinas de Trento que estas não atacavam. Uma furiosa e universal agitação foi a conseqüência (Fev. 1841), Newman foi denunciado como traidor, um Guy Fawkes em Oxford; a Universidade interveio com torpeza acadêmica e chamou ao tratado "uma evasão". Dr. Bagot, Bispo de Oxford, o censurou levemente, mas ordenou que cessasse de escrever tratados.
Durante três anos esparramaram-se condenas da parte dos bispos por todos os lados. Para uma mente constituída como a de Newman, imbuída com idéias inacianas do episcopado, e sem a intenção de se dar conta de que elas não valem no estabelecimento inglês, este foi um juízo ex-cathedra contra ele. Deteve seus tratados, renunciou a seu editorial de "The Bristish Critic", abandonou St. Mary , e se retirou em Littlemore em comunhão leiga. Nada é mais claro que isso, se tivesse sido mantido em silêncio, teria ganhado. "Tract 90" não vai tão longe como muitos intentos anglicanos de reconciliação desde então. Os bispos não sonhavam com obrigá-lo à submissão. Mas tinha perdido a fé em si mesmo. Lendo a história da Igreja viu que o Via Media não era algo novo. Tinha sido refúgio dos Seminaristas, sem os quais o Arianismo não tivesse florescido. Fez a fortuna dos Monofisistas, graças a quem a Igreja de Alexandria que tinha se fundido na heresia e caído vítima das legiões de Mohammed. A analogia que Newman tinha observado com consternação estava reforçada por outro lado através de Wiseman, escrevendo sobre os donatistas em "The Dublin Review". Wiseman citou a Santo Agostinho, "Securus judicat orbis terrarum" , que pode ser interpretado "o consentimento católico é o juiz da controvérsia". Nem algo antigo estudado em livros, nem a descoberta sucessão do bispos, mas a Igreja vivente agora irrompia sobre ele como única peremptória e infalível. Sempre foi e sempre será. Nicea, Éfeso e Caledônia levam assim o testemunho a Roma.
Devemos acrescentar o grotesco assunto do bispado de Jerusalém, o fruto de uma aliança com Prússia Luterana, e a teoria anglicana foi refutada com fatos. Desde 1841 Newman estava em seu leito de morte no que respeita à igreja anglicana. Ele e alguns amigos viveram juntos em Littlemore em retiro monástico, sob uma dura regra que não ajudava a sua saúde. Em fevereiro de 1843, se retratou de suas fortes palavras contra Roma, em Setembro deteve esse ritmo de vida. Com grande trabalho compôs o "Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã" ("Essay on the Development of Christian Doctrine"), em que as aparentes variações ao dogma, antigamente objetados contra a Igreja Católica, estavam explicadas em uma teoria da evolução, curiosamente antecipando-se em certos pontos ao trabalho de Darwin. Tem muito mais passagens originais, mas mantém um fragmento. Em 9 de outubro de 1845, durante um período de agitada ação em oxford, Newman foi recebido na Igreja pelo padre dominicano, Passionista italiano, três dias logo que Renan tinha rompido com São Suplício e o Catolicismo. O evento, ainda que longo em prospecto, irritou e angustiou a seus concidadãos que não o perdoaram até muitos anos depois. Sentiu-se sua importância, se desconhece as causas. Daí uma alienação que só o magnífico candor da própria delineação de Newman na "Apologia" poderia satisfazer completamente. Sua conversão divide uma vida quase noventa anos em partes iguais -a primeira mais dramática e sua perspectiva determinada; a Segunda até aqui a contamos imperfeitamente, mas passou um quarto de século sob luz maligna, sob suspeita de um lado e outro, seus planos frustrados, suas motivações tergiversadas. Chamado por Wiseman a Oscott, próximo a Brimingham, em 1846, viajou em outubro a Roma, e foi ordenado sacerdote pelo Cardeal Fransoni. O papa aprovou seu esquema para estabelecer na Inglaterra o oratório de São Edgbaston, onde ainda permanece a comunidade.
Em 1859 acrescentou-se uma grande escola. A espaçosa igreja renascentista, consagrada em 1909, é em comemoração dos quarenta anos que Newman viveu ali. Após seu "Sermões para Diferentes Congregações" ("Sermons to Mixed Congregations"), que excedem em vigor e ironia sobre suas próprias publicações. Sempre se sentiu "paucorum homimum, sum", sua afabilidade não era para a multidão. Como católico iniciou-se com bastante entusiasmo. Seus "Discursos sobre Dificuldades Anglicanas" ("Lectures on Anglican Difficulties") foram ouvidos em Londres por grandes audiências; "Perda e Ganhos" ("Loss and Gain"), ainda que não seja uma grande história, tem muitos comentários alegres e toques pessoais; "Calista" lembra sua viagem pelo Mediterrâneo; o sermão no sínodo de Oscott titulado "A Segunda Primavera" ("The Second Spring") tem uma estranha e delicada beleza. Diz-se que Macaulay o sabia de coração. "Quando Newman decidiu unir-se à Igreja de Roma" observa R. H. Hutton, "sua genialidade floresceu com uma força e liberdade como nunca floreceu na comunhão anglicana". Além disso, "em ironia, em humor, em eloqüência, em força imaginativa, os escritos posteriores, e como podemos chamá-la, porção emancipada de sua carreira, excedendo de longe os escritos de seu aprendizado teológico". Mas a literatura Católica também ganhou uma voz persuasiva e uma clássica dignidade da que até hoje não há outro exemplo. Sua própria secessão, precedida pela de Ward (Conflitos internos da pior classe em Oxford) , e seguida por muitos outros, tinham alarmados aos ingleses. Em 1850 ocorreu a "Agressão Papal ". pela qual o país se dividiu em sedes católicas, e um cardeal romano anunciou da Porta Flaminiam seu compromisso para governar Wesminster. A nação se ficou louca pela emoção. Newman entregou no Intercâmbio de Milho, em Birmingham, seus discursos sobre a posição dos Católicos (era rara vez oportuno nos títulos de seus livros), e, para o assombro de Geoge Eliot, foi revelado como mestre do humor, engenhoso, divertido e desdenhoso da grande tradição protestante. Um apóstata sacerdote italiano, Achilli, estava arengando contra a Igreja. Notificado por Wiseman, o Orador deu os particulares da carreira infame deste homem e Achilli trouxe um carregamento de calúnias. Newman, com enormes gastos, reuniu evidência que justificava a acusação que tinha feito. Mas um jurado anti papa o condenou a pagar uma multa de 100 libras; após a apelação o veredicto foi anulado; e "The Times" admitiu que tinha havido um erro judicial quando Newman foi declarado culpável. Os católicos de todo o mundo o apoiaram. Seus agradecimentos se encontram na dedicação de suas "Lectures" de Dublin. Mas sempre recordava que devia esse juízo à participação e descuido de Wiseman.
Ainda o esperavam muitas mais dificuldades. os anos entre 1851 e 1870 o trouxeram desastres a uma série de nobres projetos com os que buscava servir à religião e à cultura. Na Irlanda os bispos foram obrigados, logo de rejeitar as universidades "Sem Deus" em 1847, a assumir uma universidade própria. Não tinham nem homens, nem idéias; o Estado não sancionaria títulos conferidos por um organismo privado; entretanto, podia-se fazer a tentativa; e Newman foi nomeado reitor em novembro de 1851. Passaram três anos como um sonho; em 1854 prestou juramento. mas tinha em mente em 1852 dirigir a Irlanda a idéia da universidade, com a grandeza e a liberalidade de Oxford, se devemos crer em Pattison. As "Lectures" terminam abruptamente, deram-lhe menos satisfação que qualquer outra obra sua; inclusive, em conjunto com suas brilhantes obras pequenas na "University Magazine", e as dissertações acadêmicas para as diferentes universidades, exibem uma posição de pensamento, uma urbanidade de estilo, e um nível de inteligência superlativo. Elas são a melhor defesa das teorias educacionais católicas em qualquer idioma; um crítico talvez as descreveria como as Via Media entre um obscurantismo que pisoteia os direitos do conhecimento e livre pensamento que não escutará os direitos da revelação. Incidentemente, defendiam o ensino dos clássicos contra o grupo de Franceses Puritanos conduzidos pelo Abbé de Gaume. Isto é quase tudo o que Newman conseguiu durante os sete anos de sua campanha na Irlanda. Somente alguns estudantes nativos ou ingleses assistiram à casa em St. Stephen Green. Os bispos estavam divididos, e o arcebispo MacHale opôs um severo non possumus aos planos do reitor.
Enquanto à administração, as dificuldades se multiplicaram; e apesar de Newman ganhar a amizade do Arcebispo Cullen e o Bispo Moriarty, não eram sempre tratado com consideração. Foi-lhe prometido o status de bispo titular, mas por motivos que nunca conheceu esta promessa nunca se cumpriu. Seu sentimento para a Irlanda era cálido e generoso, mas em novembro de 1858, retirou-se dou reitorado. Seus trabalhos e inquietudes foram-lhe retiradas. Outra grande empresa, à que o Cardeal Wiseman o convidava foi de igual maneira um fracasso - a revisão da Bíblia Católica em Inglês. Newman tinha escolhido um conjunto de pessoas para o trabalho e tinham começado a acumular materiais, mas alguns interesses de pequenos publicitários foram escutados pelo Cardeal Wiseman, cujas intenções eram boas, mas efêmeras e permitiu-lhes arruinar esta magnifica oportunidade. Como escritor de inglês em prosa Newman aparece como a perfeita personificação de Oxford, derivando de Cicero a arte lúcida e calmada da exposição, das tragédias gregas um pensativo refinamento, dos Padres uma preferência pelo ensinamento pessoal sobre o científico, de Shakespeare, Hooker e aquela velha escola o uso do idioma. Não quis aprender o alemão; não conhecia Goethe, nem Hegel; tomou alguns princípios de Coleridge, provavelmente indiretamente, e, nunca foi além de Aristóteles em suas vistas gerais à educação. Da estreiteza puritana de seus primeiros vinte anos foi entregue quando descobriu a Igreja como algo essencial para o cristianismo. Logo aumentou essa concepção até que se converteu à Igreja Católica, Apostólica e Romana. Entretanto, não fez nenhuma tentativa de ampliar as bases educativas de Oxford, em 1830, em que manteve sua posição, apesar de sua contínua leitura e estudo. A teologia escolástica, exceto em seu lado Alxandrino, a manteve sem tocá-la; não há nada nelas em suas "Lectures" ou em seu "Gammar of Assent".
Escreveu energicamente contra a iluminação pouco profunda de Brougham; não imprimiu nenhuma palavra de Darwin, ou Huxley, ou inclusive Colenso. Lamentou a queda de Döllinger, mas não podia consentir a idéia alemã pela qual, como de fato foi aplicada, o juízo privado dos historiadores rejeitavam os dogmas da Igreja. Consciência para ele era a revelação interna de Deus, o catolicismo é a revelação externa e objetiva. Esta força de duas dimensões opunha-se ao agnóstico, ao racionalista, ao simples mundano. Mas parece Ter pensado que os homens são demasiadamente prematuros para empreender uma reconciliação positiva entre fé e ciência, ou quem tentou através de uma vasta síntese curar os conflitos modernos com Roma. Deixou-lhe tal obrigação às seguintes gerações; e ainda que pelo princípio do desenvolvimento e a filosofia do assentimento concreto proporcionando espaço para isso, não contribuiu para seu cumprimento em detalhe.
Provavelmente seja recordado como o Bispo Católico Butler, que estendeu a "Analogia" desenhada desde a experiência da Igreja histórica, provando estar de acordo com a natureza das coisas, não obstante transcendendo grandemente com o esquema visível através de sua mensagem, instituições e propósito, que são igualmente sobrenaturais.
Fonte: Veritatis
Assinar:
Postagens (Atom)
