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COMBATER E VENCER O MAL DENTRO DE NÓS PARA CONSTRUIR A PAZ

Como a comunidade cristã e a humanidade inteira têm necessidade de saborear plenamente a riqueza e o poder da paz de Cristo!
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A paz é em primeiro lugar dom de Deus e, por conseguinte, a sua força está na oração. Porém, trata-se de um dom confiado ao compromisso humano. Também a energia necessária para o pôr em prática pode ser alcançada através da oração.
Portanto, é fundamental cultivar uma autêntica vida de oração para assegurar o progresso social na paz. Uma vez mais, a história do monaquismo ensina-nos que um grande crescimento de civilização se prepara mediante a escuta quotidiana da Palavra de Deus, que impele os fiéis a um esforço pessoal e comunitário de luta contra todas as formas de egoísmo e de injustiça.
Somente aprendendo, com a graça de Cristo, a combater e a vencer o mal dentro de nós e nos relacionamentos com o próximo, podemos tornar-nos construtores de paz e de progresso civil. A Virgem Maria, Rainha da Paz, ajude todos os cristãos nas diversas vocações e situações de vida, a ser testemunhas da paz, que Cristo nos concedeu e nos legou como missão exigente a cumprir em toda a parte.
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É NECESSÁRIO PROCURAR EM CONJUNTO SOLUÇÕES PARA A CRISE NO MUNDO DO TRABALHO

Caros irmãos e irmãs
"Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria e até aos confins do mundo" (Act 1, 8). Com estas palavras Jesus despede-se dos Apóstolos, como ouvimos na primeira Leitura. Imediatamente depois, o autor sagrado acrescenta que "se elevou à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos" (Act 1, 9). É o mistério da Ascensão, que no dia de hoje celebramos solenemente. Mas que tencionam comunicar-nos a Bíblia e a liturgia, dizendo que Jesus "foi elevado"? Compreende-se o sentido desta expressão, não a partir de um único texto, nem sequer de um só livro do Novo Testamento, mas na escuta atenta de toda a Sagrada Escritura. Com efeito, o uso do verbo "elevar" é de origem veterotestamentária, e refere-se à tomada de posse da realeza. Portanto, a Ascensão de Cristo significa a tomada de posse do Filho do homem crucificado e ressuscitado na realeza de Deus sobre o mundo.
Porém, existe um sentido mais profundo, imperceptível imediatamente. Na página dos Actos dos Apóstolos afirma-se em primeiro lugar que Jesus "se elevou" (v. 9) e depois acrescenta-se que "foi arrebatado" (v. 11). O acontecimento é descrito não como uma viagem para o alto, mas sim como uma acção do poder de Deus, que introduz Jesus no espaço da proximidade divina. A presença da nuvem, que "o subtraiu aos seus olhos" (v. 9), evoca uma antiquíssima imagem da teologia veterotestamentária, e insere a narração da Ascensão na história de Deus com Israel, da nuvem do Sinai e acima da tenda da aliança do deserto, até à nuvem luminosa sobre o mundo da Transfiguração. Em última análise, apresentar o Senhor envolvido na nuvem evoca o mesmo mistério expresso pelo simbolismo do "sentar à direita de Deus. Em Cristo, que subiu ao céu, o ser humano entrou de modo inaudito e novo na intimidade de Deus; o homem já encontra para sempre espaço em Deus. O "céu", esta palavra céu, não indica um lugar acima das estrelas, mas algo muito mais ousado e sublime: indica o próprio Cristo, a Pessoa divina que acolhe plenamente e para sempre a humanidade, Aquele em quem Deus e o homem estão para sempre inseparavelmente unidos. O céu é o ser do homem em Deus. E nós aproximamo-nos do céu, aliás, entramos no céu, na medida em que nos aproximamos de Jesus e entramos em comunhão com Ele. Portanto, a hodierna solenidade da Ascensão convida-nos a uma profunda comunhão com Cristo morto e ressuscitado, invisivelmente presente na vida de cada um de nós.
Nesta perspectiva compreendemos por que motivo o evangelista Marcos afirma que, depois da Ascensão, os discípulos voltaram para Jerusalém "repletos de alegria" (24, 52). A causa da sua alegria está no facto de que aquilo que tinha acontecido não era na verdade uma separação, uma ausência permanente do Senhor: aliás, eles já tinham a certeza de que o Crucificado-Ressuscitado estava vivo, e nele as portas de Deus, as portas da vida eterna, foram abertas para sempre à humanidade. Por outras palavras, a sua Ascensão não comportava a sua ausência temporária do mundo, mas principalmente inaugurava a nova, definitiva e insuprimível forma da sua presença, em virtude da sua participação no poder régio de Deus. Caberá precisamente a eles, aos discípulos que se tornaram intrépidos graças ao poder do Espírito Santo, tornar perceptível a sua presença mediante o testemunho, a pregação e o compromisso missionário. A solenidade da Ascensão do Senhor deveria encher-nos também a nós de serenidade e de entusiasmo, precisamente como aconteceu com os Apóstolos que, do Monte das Oliveiras, voltaram a partir "repletos de alegria". Como eles, também nós aceitando o convite dos "dois homens em trajes resplandecentes", não devemos permanecer a fixar o céu mas, sob a guia do Espírito Santo, temos que ir a toda a parte e proclamar o anúncio salvífico da morte e ressurreição de Cristo. Acompanham-nos e são-nos de conforto as suas próprias palavras, com as quais se encerra o Evangelho segundo São Mateus. "E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo" (Mt 28, 20). Caros irmãos e irmãs, a índole histórica do mistério da Ressurreição e da Ascensão de Cristo ajuda-nos a reconhecer e a compreender a condição transcendente da Igreja, que não nasceu e não vive para suprir à ausência do seu Senhor "desaparecido", mas sobretudo encontra a razão do seu ser e da sua missão na presença permanente embora invisível de Jesus, uma presença que actua através do poder do seu Espírito. Com outros termos, poderíamos dizer que a Igreja não desempenha a função de preparar a vinda de um Jesus "ausente" mas, ao contrário, vive e age para proclamar a sua "presença gloriosa" de maneira histórica e existencial. Desde o dia da Ascensão, cada comunidade cristã progride no seu itinerário terreno rumo ao cumprimento das promessas messiânicas, alimentada pela Palavra de Deus alimentada pelo Corpo e Sangue do seu Senhor. Esta é a condição da Igreja recorda o Concílio Vaticano ii enquanto "continua o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, anunciando a cruz e a morte do Senhor até que Ele venha" (Lumen gentium, 8).
Irmãos e irmãs desta querida comunidade diocesana, a solenidade do dia de hoje exorta-nos a consolidar a nossa fé na presença real de Jesus na história; sem Ele, nada podemos realizar de eficaz na nossa vida e no nosso apostolado. Como recorda o Apóstolo Paulo na segunda Leitura, Ele "a uns, constituiu Apóstolos, a outros, Profetas, a outros, Evangelistas, Pastores e Doutores, para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério para a edificação do Corpo de Cristo" (Ef 4, 11-12), ou seja a Igreja. E isto, para alcançar "a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus" (Ef 4, 13), dado que a vocação comum de todos é formar "um só corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança no chamamento que recebestes" (Ef 4, 4). É nesta perspectiva que se insere esta minha visita hodierna que, como o vosso Pastor recordou, tem como finalidade encorajar-vos a "construir, fundar e reedificar" constantemente a vossa comunidade diocesana sobre Cristo. Como? É o próprio Sãto Bento que no-lo indica, recomendando na sua Regra a nada antepor a Cristo: "Christo nihil omnino praeponere" (llxii, 11).
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Prezados irmãos e irmãs, sentimos ressoar nesta nossa celebração o apelo de São Bento a conservar o coração fixo em Cristo, a nada antepor a Ele. Isto não nos distrai mas, pelo contrário, impele-nos ainda mais a comprometer-nos na construção de uma sociedade em que a solidariedade seja manifestada por sinais concretos. Mas como? A espiritualidade beneditina, que vós conheceis bem, propõe um programa evangélico resumido neste mote: ora et labora et lege, a oração, o trabalho e a cultura. Antes de tudo, a oração, que constitui a herança mais bonita legada por São Bento aos monges, mas inclusive à vossa Igreja particular: ao vosso Clero, em grande parte formado no Seminário diocesano, durante séculos hospedado na Abadia de Montecassino, aos seminaristas, às numerosas pessoas educadas nas escolas e nos "recreadores" beneditinos, e nas vossas paróquias, enfim a todos vós que viveis nesta terra. Elevando o olhar de todas as aldeias e lugares da diocese, podeis admirar aquela evocação constante ao céu que é o mosteiro de Montecassino, ao qual subis todos os anos em procissão na vigília de Pentecostes. A oração, para a qual todas as manhãs o sino de São Bento com os seus repiques graves convida os monges, é a vereda silenciosa que nos conduz directamente ao Coração de Deus; é o respiro da alma que nos restitui a paz nas tempestades da vida. Além disso, na escola de São Bento, os monges cultivaram sempre um amor especial pela Palavra de Deus na lectio divina, que hoje se tornou património comum de muitas pessoas. Sei que a vossa Igreja diocesana, fazendo suas as indicações da Conferência Episcopal Italiana, dedica grande atenção ao aprofundamento bíblico e, além disso, inaugurou um itinerário de estudo das Sagradas Escrituras, este ano dedicado ao evangelista Marcos, e que continuará no próximo quadriénio para depois terminar, se Deus quiser, com uma peregrinação à Terra Santa. Possa a escuta atenta da Palavra divina alimentar a vossa oração e tornar-vos profetas de verdade e de amor num compromisso conjunto de evangelização e de promoção humana.
Outro ponto fulcral da espiritualidade beneditina é o trabalho. Humanizar o mundo do trabalho é típico da alma do monaquismo, e este é também o esforço da vossa comunidade, que procura estar ao lado dos numerosos trabalhadores da grande indústria presente em Cassino e das empresas a ela ligadas. Sei como é crítica a situação de muitos operários. Exprimo a minha solidariedade a quantos vivem numa precariedade preocupadora, nos trabalhadores em regime de lay-off ou até demitidos. A ferida do desemprego que aflige este território induza os responsáveis do Estado, os empresários e quantos têm a possibilidade a procurar, com a contribuição de todos, soluções válidas para a crise do emprego, criando novos postos de trabalho para a salvaguarda das famílias. A este propósito, como deixar de recordar que hoje a família tem necessidade urgente de ser melhor tutelada, dado que está fortemente ameaçada nas próprias raízes da sua instituição? Além disso, penso nos jovens que têm dificuldade de encontrar uma actividade de trabalho digna, que lhes permita construir uma família. Gostaria de lhes dizer: queridos amigos, não desanimeis, a Igreja não vos abandona! Sei que 25 jovens da vossa Diocese participaram na passada Jornada Mundial da Juventude em Sydney: valorizando esta extraordinária experiência espiritual, sede fermento evangélico no meio dos vossos amigos e coetâneos; com a força do Espírito Santo, sede os novos missionários nesta terra de São Bento!
Enfim, também a atenção ao mundo da cultura e da educação pertence à vossa tradição. O célebre Arquivo e a Biblioteca de Montecassino reúnem inúmeros testemunhos do compromisso de homens e mulheres que meditaram e investigaram como melhorar a vida espiritual e material do homem. Na vossa Abadia toca-se com a mão o "quaerere Deum", ou seja, o facto de que a cultura europeia foi a busca de Deus e a disponibilidade à sua escuta. E isto é válido inclusive na nossa época. Sei que vós estais a trabalhar com este mesmo espírito na Universidade e nas escolas, para que se tornem laboratórios de conhecimento, de investigação e de paixão para o futuro das novas gerações. Sei também que, em preparação para esta minha visita, recentemente realizastes um congresso sobre o tema da educação, para estimular em todos a profunda determinação a transmitir aos jovens os valores irrenunciáveis do nosso património humano e cristão. No hodierno esforço cultural, que visa criar um novo humanismo, fiéis à tradição beneditina, vós tendes justamente a intenção de salientar também a atenção ao homem frágil, débil, às pessoas portadoras de deficiência e aos imigrantes. E estou-vos grato por me terdes oferecido a possibilidade de inaugurar no dia de hoje a "Casa da Caridade", onde se edifica com os factos uma cultura atenta à vida. Estimados irmãos e irmãs, não é difícil compreender que esta vossa comunidade, esta porção de Igreja que vive nos arredores de Montecassino, é herdeira e depositária da missão imbuída do espírito de São Bento de proclamar que na nossa vida ninguém e nada deve ser anteposto a Jesus; a missão de construir, em nome de Cristo, uma nova humanidade caracterizada pela hospitalidade e pela assistência aos mais frágeis. Que vos ajude e vos acompanhe o vosso santo Patriarca, com a sua irmã Santa Escolástica, e vos protejam os santos Padroeiros e principalmente Maria, Mãe da Igreja e Estrela da nossa esperança. Amém!

A PRIMAZIA DE CRISTO

Giovanni Maria Vian
Bento XVI voltou a Montecassino, onde tinha ido tantas vezes antes da eleição à Sé de Pedro, para repetir que nada se deve antepor ao amor de Cristo: nihil amori Christi praeponere, segundo a bela e essencial expressão da Regra beneditina que o novo Papa recordou para explicar a escolha do nome assumido como Romano Pontífice. Um nome bem-ditoso e pacífico que há mais de noventa anos não era usado nas sucessões papais, e que desta forma era explicado sobretudo em referência à primazia absoluta de Cristo.
Esta primazia não é um conceito abstracto nem sequer uma ideologia, mas a consequência de um encontro como afirma o Papa na sua primeira encíclica na vida quotidiana do cristão. De Joseph Ratzinger, como na de todos os fiéis, segundo um "programa" declarado com clareza no início do seu pontificado: isto é, o "de não fazer a minha vontade, de não perseguir as minhas ideias, mas de me pôr à escuta, com toda a Igreja, da Palavra e da vontade do Senhor e deixar-me guiar por Ele". Através da busca de Deus, aquele quarere Deum ensinado pelo pai do monaquismo ocidental e que Bento XVI em Paris, no memorável discurso pronunciado no Collège des Bernardins, indicou como origem da cultura maturada no continente europeu.
O programa beneditino de nada antepor a Cristo realiza-se todos os dias com gestos concretos. E neste ritmo do dia repetiu o Papa a vida monástica tem um valor exemplar para cada fiel, seja homem ou mulher. Antes de tudo, no espaço reservado à oração, "caminho silencioso" que conduz a Deus, e portanto autêntico "respiro da alma".
Depois vem o trabalho, realidade sempre difícil e que neste tempo de crise mundial com frequência se reveste de preocupação e de angústia para indivíduos e famílias, enlaçando-se com a questão da imigração. E ainda, a cultura, que não diz respeito a âmbitos circunscritos, mas significa também e sobretudo educação das novas gerações e responsabilidade em relação a elas. Estes são temas que preocupam os bispos italianos e que não por acaso estão presentes hoje nas palavras do cardeal presidente da conferência episcopal.
Voltar a Montecassino foi assim para Bento XVI uma nova ocasião para recordar a atenção sobre as prioridades da vida. E para invocar mais uma vez a paz aliás, o dom da paz e o compromisso para a realizar de um lugar pacífico e de civilização que foi inutilmente destruído pela barbárie da guerra moderna, aquela assustadora tragédia na qual a Europa começou a afundar há setenta anos. Também por isto Paulo vi, precisamente de Montecassino, proclamou São Bento padroeiro do velho continente, resumindo na cruz, no arado e no livro a obra secular dos seus monges. Para ressaltar a responsabilidade dos cristãos que visivelmente devem testemunhar a profundidade e a eficácia das suas raízes. Também na Europa, no contexto global e na busca racional do bem comum.

TRÁFICO DE SERES HUMANOS: OFENSA À DIGNIDADE

O arcebispo Marchetto convida a combatê-lo lutando contra a pobreza
Por Roberta Sciamplicotti
ROMA, quinta-feira, 21 de maio de 2009 (ZENIT.org).- O tráfico de seres humanos é “uma tremenda ofensa à dignidade humana”, considera o arcebispo Agostino Marchetto. O secretário do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes interveio ontem, em Roma, na Conferência da Associação Comunidade Papa João XXIII: “Com a dignidade não se brinca”. O prelado destacou que este fenômeno é “um dos mais vergonhosos de nossa época” e constatou com quanta frequência “a pobreza e a falta de oportunidades e de coesão social” levam as pessoas a buscarem um futuro melhor apesar dos riscos, “tornando-as extremamente vulneráveis a este tráfico”. Atualmente, vários fatores contribuem para a sua difusão, segundo o arcebispo, que citou “a ausência de normas específicas em alguns países, a ignorância de seus direitos por parte das vítimas, a estrutura sócio-cultural e os conflitos armados”. Também destacou as “restrições atuais que os migrantes encontram para ter acesso legal aos países desenvolvidos”. O dicastério do qual é secretário, recordou Dom Marchetto, tem entre seus objetivos vigiar a questão das vítimas do tráfico de seres humanos, que considera “uma das categorias de escravidão dos tempos modernos”.
Um problema de difícil solução
Dom Marchetto reconheceu que “não existem soluções fáceis” e afirmou que “enfrentar estes particulares abusos dos direitos humanos requer uma aproximação coerente e integral”. Devem se considerar “não apenas os interesses das vítimas, mas também o justo castigo para os que se beneficiam dessa atividade e a introdução de medidas preventivas, em primeiro lugar para aumentar a conscientização e a sensibilidade e também para enfrentar as causas deste fenômeno”, opinou. Para o prelado, esse enfoque também deve promover a integração das vítimas na sociedade que as acolhe, “em particular dos que colaboram com a autoridade contra os traficantes”. Esta promoção inclui assistência à saúde e atenção psicossocial, soluções para a moradia, permissões de residência e possibilidades de emprego”. Ao mesmo tempo, o bispo pediu levar em conta “o retorno aos países de origem, que acompanha a proposta de microcréditos e/ou de empréstimos, assegurando assim que as vítimas não voltem ao mesmo meio perigoso sem recursos”. O prelado também propôs a introdução de “medidas para a criação de sistemas de indenização que possam ser financiados com os lucros e bens confiscados aos traficantes, obtidos com a atividade criminosa”.
Um fenômeno de muitas faces
O tráfico de seres humanos, recordou, é um “problema pluridimensional, com frequência ligado à imigração, que vai além da indústria do sexo e inclui também trabalhos forçados de homens, mulheres e crianças em vários setores industriais, entre eles a construção, a restauração e a hotelaria, a agricultura e o serviço doméstico. “Uma parte do trabalho forçado está ligado à discriminação e à pobreza, aos costumes locais, à falta de terras e ao analfabetismo da vítima; outra parte está relacionada ao trabalho flexível e barato, que com frequência facilita os baixos preços, o que torna isso atrativo para os empregadores.” O prelado denunciou que a comunidade internacional adotou em 2000 um Protocolo para prevenir, reprimir e castigar o tráfico de seres humanos, sobretudo de mulheres e crianças, cuja aplicação foi muito variada em cada nação. Ainda que muitos países consintam com as vítimas de exploração sexual consequente do tráfico de seres humanos permanecerem o período necessário para levar a cabo investigações contra os traficantes, uma vez terminados os processos judiciais, em geral são repatriadas “com ou sem um correspondente ‘pacote’ de apoio”, denunciou. E acrescentou: “Só em poucos países existem medidas para garantir a proteção destas vítimas, oferecendo-lhes a possibilidade de permanecer na sociedade que as acolhe e de integrar-se, ao menos sob certas condições”.

A FÉ É DADA PELA GRAÇA

" “Penso, seguindo Agostinho, que fé é dada pela Graça, não acho que existam fórmulas”, disse por e-mail o médico e filósofo Luiz Filipe Pondé com exclusividade à IHU On-Line. E assinala: “Acredito ser essencial que resistamos às bobagens modernas que transformaram tudo em auto-ajuda”.
Pondé leciona no Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências da Religião e do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e é professor e pesquisador convidado em Mística Medieval da Universidade de Marburg, Alemanha. Graduado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia e em Filosofia Pura pela USP, é mestre em História da Filosofia Contemporânea pela USP e em Filosofia Contemporânea pela Université de Paris VIII, França. Doutor em Filosofia Moderna pela USP e pós-doutor pela Universidade de Tel Aviv, Israel, escreveu O Homem Insuficiente. São Paulo: EDUSP, 2001; Crítica e Profecia, Filosofia da Religião em Dostoiévski. São Paulo: Editora 34, 2003 e Conhecimento na Desgraça. Ensaio de Epistemologia Pascaliana. São Paulo: EDUSP, 2004. No livro No limiar do mistério. Mística e religião. São Paulo: Paulinas, 2004, organizado por Faustino Teixeira, Pondé publicou o artigo O método de Deus. Na edição 133 da IHU On-Line, de 21-03-2005, cujo tema de capa foi Delicadezas do mistério. A mística hoje, Pondé concedeu com exclusividade a entrevista A mística judaica. Sua contribuição mais recente à IHU On-Line aconteceu com a entrevista Parricídio, niilismo e morte da tradição, quando falou sobre Dostoiévski, na edição 195, de 11-09-2006. " Entrevista com Luiz Felipe Pondé: A fé é dada pela Graça
Cristão no século XXI
Um dos motivos para ser cristão hoje seria recuperar a sabedoria da tradição cristã anterior às manias e aos dogmas modernos. Ser cristão pode significar muitas coisas. Interessa-me especificamente o modo como o pensamento cristão se constituiu como crítica do dogma humanista da perfectibilidade. Acho a reflexão sobre o orgulho central na economia psíquica humana. Acredito ser essencial que resistamos as bobagens modernas que transformaram tudo em auto-ajuda.
“Só se guarda aquilo que se dá”Penso que a obsessão pela”'esperança” atrapalha a condição cristã. Sei o quanto isso pode soar estranho para uma sensibilidade que prefere pensar mais na ressurreição como “promessa” a ser cobrada. Não penso na segunda vinda de Cristo. Quanto a argumentos em favor da crença, prefiro pensar na sofisticação do olhar cristão sobre a natureza humana. Penso, seguindo Agostinho, que fé é dada pela Graça, não acho que existam fórmulas. Quanto ao Deus Trino, a idéia de Um Deus que encarna e sofre uma dor infinita por amor a maior de todas as idéias éticas; acho risível quando o cristianismo busca seus fundamentos de reflexão ética no humanismo marxista ou qualquer “novidade” de 200 anos. A idéia da Paixão de Deus na cruz parece-me imbatível. Para além das manias exageradas do “gozo pela dor”, a chave é perceber que só se guarda aquilo que se dá.
Olhar crítico
Não me interessa o modismo ambiental e o panteísmo naturalista. Com isso, não quero desqualificar a preocupação sincera com a natureza, mas acho uma prisão “salvar” o cristianismo fazendo de Francisco de Assis um ambientalista medieval; acho que um olhar crítico sobre os excessos da sociedade do progresso e da autonomia racional e volitiva pode ser muito mais interessante.
Saber a estrutura do átomo não muda nossa condição metafísica
Acho que há compatibilidade entre os discursos de fé e razão. A “crença” na ciência é um modo novo de crendice. Nada nela nos permite acreditar nela como sistema de orientação no mundo ou de valores. Saber a estrutura do átomo, para além dos modismos quânticos (esse panteísmo requentado), em nada muda nossa condição metafísica.
Paulo de Tarso e o cristianismo
Paulo é uma fonte fortemente primária - não há cristianismo sem ele. Acho que ele seja o grande primeiro filósofo do cristianismo. A continuidade do debate interno ao judaísmo se dá nele, tratando-se de uma peça central na relação entre questões que afetam ambas as religiões e pode ser pedra de toque de um diálogo filosófico entre as duas religiões.
Desafios do cristianismo
Eu acrescentaria que uma função importante é resistir à dogmática moderna, oferecer um pouco de inércia construtiva à fúria narcísica moderna (coisa que, na minha opinião, nem toda a teologia cristã entende isso, transformando-se em torcida uniformizada da modernidade, mas enfim, como dizia Heine sobre muitos teólogos cristãos, “só se é traído pelos seus”). Penso que o cristianismo, como outras grandes tradições têm o papel e possibilidade (por serem pré-modernas) de nos ajudar a superar esse impasse e delírio que caímos nos últimos 300 anos: idolatria da ciência, obsessão pela felicidade, enfim, trazer a crítica a nós, babelianos.

A CULPA É ESSENCIAL PARA A HUMANIZAÇÃO

Por Luiz Felipe Pondé (Folha de São Paulo)
A culpa me encanta. Os olhos vidrados de dor, a alma torturada pela terrível verdade sobre si mesma.
A literatura está cheia de exemplos nos quais o herói ou a heroína chora de desespero pela consciência de sua responsabilidade no mal do mundo. Entre os vários erros cometidos pela cultura moderna, um deles é tentar negar que a culpa seja um instrumento essencial de humanização. Não existe experiência moral sem culpa. Nelson Rodrigues dizia: "Tire a imortalidade do homem e ele cai de quatro". Eu diria, seguindo sua maravilhosa intuição: tire a culpa e o homem cai de quatro.
Hoje eu gostaria de oferecer ao leitor um comentário sobre uma peça literária clássica na qual a culpa aparece em toda sua beleza. Ao contrário do que falam os especialistas em desumanizar o homem (afirmando que o estão libertando), a experiência da culpa é que tira o homem da banalidade do mal e o devolve à ação transformadora de si mesmo e do mundo à sua volta.
Dostoiévski é um clássico. Não vou entrar no debate de se podemos ou não falar de clássicos, no sentido de um conjunto de autores mais importantes para formar um ser humano. Dostoiévski e Shakespeare são melhores do que quase tudo o que a humanidade produziu em literatura. Quem nega isso, o faz por ignorância. Diante da mera ignorância, afirma-se uma teoria relativista qualquer para soar chique e esconder sua banalidade.
Enfim, lemos um clássico para saber quem somos. Enquanto você lê o livro, o livro lê você. É com esse espírito que proponho a leitura do conto "Sonho de um Homem Ridículo", de Dostoiévski, uma pérola da literatura moral. Voltando ao Nelson Rodrigues, eu diria que esse conto é o tipo de obra que você deve ler de joelhos.
Nelson disse isso especificamente sobre sua peça "Senhora dos Afogados" -em cartaz atualmente em São Paulo: é uma peça a que devemos assistir de joelhos.
Estar de joelhos é a posição correta se quisermos pensar o humano na sua condição mais profunda: seu medo, sua insegurança, sua capacidade de amar ainda que seja um ser infinitamente efêmero diante da ordem indiferente do mundo, enfim, sua natureza de respirar o mistério.
Muitas vezes penso que chorar nos torna uma pessoa menos ridícula. As lágrimas colocam as coisas nos seus devidos lugares. Infelizmente, sistemas objetivos para produção de humildade (que muitas igrejas tentaram) apenas destroem a pessoa por meio da demanda desumana de obediência infinita. Independentemente disso, como diria o escritor francês Bernanos (século 20), "a humildade é sempre invencível".
O conto mostra um homem à beira do suicídio, como tantas outras figuras na literatura de Dostoiévski, que busca no autoaniquilamento a afirmação de sua liberdade para com um mundo horroroso. No caminho de casa, vê uma bela estrela e decide que é aquela noite a grande noite de seu suicídio. Uma menina pequena, em desespero, pede que a ajude com sua mãe doente, mas ele a empurra para o lado e segue para o seu glorioso suicídio. Chegando à casa, quando finalmente vai se matar, ele adormece e sonha. Em seu sonho, é levado a um paraíso onde as pessoas vivem sem sofrimento, sem mentira, sem agonia. De tamanha perfeição, elas nem falam, vivendo num eterno estado de torpor feliz.
O que de início será um encantamento com toda aquela beleza sem desespero logo se transformará num desespero pelo vazio que sente em si mesmo diante de tanta plenitude. Nosso homem ridículo descobre que não há amor onde não há sofrimento. Chora pela agonia do mundo (nosso mundo) e percebe que sua vida só tem sentido na medida em que é parte dessa agonia. Quando finalmente consegue trazer aqueles "perfeitos" para uma relação consigo, invejas e ódios se instalam entre os "perfeitos do segundo paraíso" por culpa de nosso herói ridículo e suicida, que passa a ser disputado como troféu. Agora, finalmente, ele os amava.
Acorda. Olha em volta. O desejo de se matar desaparecera. Vasculha o fundo da sua alma e já não é mais a mesma pessoa. O que havia mudado? O que havia mudado era que agora tinha consciência de que fora ele que destruíra aquele paraíso. Ele era a serpente. Nunca reconhecera sua face na narrativa bíblica de sua conversa com Eva. Essa descoberta o lança de volta ao desejo pelo mundo, em vez de paralisá-lo.
Levanta-se e, olhando nos seus olhos, leitor, ele afirma: vou continuar! Abre a porta e sai de casa em busca da menina.

A CONTRIBUIÇÃO POSITIVA DA RELIGIÃO PARA A SOCIEDADE CIVIL

Encontro com os chefes religiosos muçulmanos, o corpo diplomático e os reitores das universidades
Bento XVI visitou em Amã, ainda na manhã do dia 9 de Maio, o museu hachemita e a mesquita al-Hussein Bin Talal, guiado pelo Príncipe Ghazi Bin Talal. Em seguida, fora da mesquita, encontrou-se também com os chefes religiosos muçulmanos, com o corpo diplomático e com os reitores das Universidades jordanas. Após o discurso de saudação do Príncipe, o Sumo Pontífice dirigiu a todos os presentes estas palavras.

Alteza Real

Excelências
Ilustres Senhoras e Senhores
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Lugares de culto, como esta maravilhosa mesquita de Al-Hussein Bin Talal, intitulada ao venerado e saudoso Rei, elevam-se como jóias sobre a superfície da terra. Do antigo ao moderno, do sultuoso ao humilde, todos eles remetem ao divino, ao Único Transcendente, ao Omnipotente. E ao longo dos séculos, estes santuários atraíram homens e mulheres ao interior do seu espaço sagrado para fazer uma pausa, para rezar e para admitir a presença do Todo-Poderoso, assim como para reconhecer que todos nós somos suas criaturas.
Por este motivo, não podemos deixar de estar preocupados com o facto de que hoje, com insistência crescente, alguns consideram que a religião falhe na sua pretensão de ser, por sua própria natureza, edificadora de unidade e de harmonia, uma expressão de comunhão entre as pessoas e com Deus. Com efeito, alguns asseveram que a religião é necessariamente uma causa de divisão no nosso mundo; e por tal razão, afirmam que quanto menos atenção se presta à religião no sector público, melhor é. Sem dúvida, o contraste de tensões e divisões entre os seguidores de diferentes tradições religiosas, infelizmente, não pode ser negado. Todavia, não se verifica porventura também o caso que com frequência a manipulação ideológica da religião, às vezes com finalidades políticas, é o verdadeiro catalizador das tensões e das divisões, e não raro inclusive das violências na sociedade? Diante de tal situação, em que os opositores da religião procuram não simplesmente silenciar a sua voz, mas também substituí-la com a sua própria, a necessidade de que os crentes sejam fiéis aos seus princípios e aos seus credos é sentida de modo mais pungente do que nunca. Muçulmanos e cristãos, precisamente por causa da influência da nossa história conjunta, tão frequentemente assinalada por incompreensões, hoje devem comprometer-se para ser identificados e reconhecidos como adoradores de Deus, fiéis à oração, desejosos de se comportar e de viver em conformidade com as disposições do Omnipotente, misericordiosos e compassivos, coerentes ao darem o testemunho de tudo aquilo que é justo e bom, sempre reconhecidos pela origem e dignidade comuns de cada pessoa humana, que permanece no ápice do desígnio criador de Deus para o mundo e para a história.
(...)
Ilustres amigos, hoje desejo fazer menção de uma tarefa que indiquei em diversas ocasiões e que, creio firmemente, cristãos e muçulmanos podem assumir, de modo particular através do seu contributo para o ensino e bolsas de estudo, assim como para o serviço à sociedade. Tal tarefa constitui o desafio a cultivar para o bem, no contexto da fé e da verdade, a vasta potencialidade da razão humana. Com efeito, os cristãos descrevem Deus, entre outros modos, como Razão criadora, que ordena e orienta o mundo. E Deus dota-nos da capacidade de participar nesta Razão e assim de agir de acordo com o que é bom. Os muçulmanos adoram a Deus, o Criador do Céu e da Terra, que falou à humanidade. E como crentes no único Deus, sabemos que a razão humana constitui em si um dom de Deus, que se eleva ao plano mais alto quando é iluminada pela luz da verdade de Deus. Na realidade, quando a razão humana humildemente se permite ser purificada pela fé, em nada se debilita; pelo contrário, é revigorada para resistir à presunção de ir além dos seus próprios limites. Deste modo, a razão humana é reforçada no compromisso de perseguir a sua nobre finalidade de servir a humanidade, dando expressão às nossas comuns aspirações mais íntimas e ampliando em vez de manipular e limitar o debate público. Portanto, a adesão genuína à religião longe de restringir as nossas mentes alarga os horizontes da compreensão humana. Isto protege a sociedade civil dos excessos de um ego ingovernável, que tende a absolutizar o finito e a eclipsar o infinito; faz com que a liberdade seja exercida em sinergia com a verdade, e enriquece a cultura com o conhecimento daquilo que diz respeito tudo o que é verdadeiro, bom e belo.
Uma semelhante compreensão da razão, que impele continuamente a mente humana para além de si mesma na busca do Absoluto, apresenta um desafio: contém um sentido tanto de esperança como de prudência. Em conjunto, cristãos e muçulmanos são levados a procurar tudo aquilo que é justo e recto. Permaneçamos comprometidos em ultrapassar os nossos interesses particulares e em encorajar outros, de forma especial os administradores e os líderes sociais, a fazer o mesmo com a finalidade de saborear a profunda satisfação de servir o bem comum, embora com consequências pessoais. Somos recordados que precisamente porque é a nossa dignidade humana comum que dá origem aos direitos humanos universais, eles são igualmente válidos para cada homem e cada mulher, sem distinção de grupos religiosos, sociais ou étnicos aos quais pertencem. Sob este aspecto, temos que observar que o direito de liberdade religiosa vai além da questão do culto e inclui o direito especialmente das minorias de um acesso equitativo ao mercado de trabalho e outras esferas da vida civil.
Antes de vos deixar nesta manhã, gostaria de sublinhar de modo especial a presença no meio de nós de Sua Beatitude Emmanuel iii Delly, Patriarca de Bagdad, a quem saúdo muito calorosamente. A sua presença faz-nos pensar nos cidadãos do vizinho Iraque, muitos dos quais encontraram uma hospitalidade cordial aqui na Jordânia. Os esforços da comunidade internacional para promover a paz e a reconciliação, juntamente com os esforços dos líderes locais, devem continuar em vista de produzir fruto na vida dos iraquianos. Exprimo o meu apreço por todos os que apoiam os esforços destinados a aprofundar a confiança e a reconstruir as instituições e as infra-estruturas essenciais para o bem-estar daquela sociedade. Mais uma vez, peço com insistência aos diplomatas e à comunidade internacional por eles representadas, juntamente com os líderes políticos e religiosos locais, que façam tudo o que for possível para assegurar à antiga comunidade cristã daquela nobre terra o seu direito fundamental a uma coexistência pacífica com os próprios concidadãos.
Distintos amigos, faço votos por que os sentimentos por mim expressos no dia de hoje nos deixem com uma renovada esperança para o futuro. O nosso amor e dever diante do Omnipotente não se manifestam unicamente no culto, mas também no amor e na preocupação pelas crianças e pelos jovens as vossas famílias e por todos os cidadãos da Jordânia. É por eles que vos empenhais e são eles que vos estimulam a pôr no âmago das instituições, das leis e das funções da sociedade o bem de cada pessoa humana. Possa a razão, enobrecida e tornada humilde pela grandeza da verdade de Deus, continuar a plasmar as vidas e as instituições desta nação, de tal maneira que as famílias consigam florescer e todos possam viver em paz, contribuindo para a cultura e ao mesmo tempo haurindo da cultura que unifica este grande Reino! Muito obrigado!

MILITANTE SOCIALISTA ABANDONA PARTIDO APÓS LEI SOBRE ABORTO

Entrevista com a ex-senadora espanhola Mercedez Aroz
Por Patrícia Navas
BARCELONA, sexta-feira, 22 de maio de 2009 (ZENIT.org).- A veterana socialista Mercedes Aroz acaba de anunciar que abandona o partido socialista catalão, do qual foi cofundadora, por causa da proposta do governo espanhol sobre o aborto.
Para a ex-senadora, o anteprojeto aprovado no Conselho de Ministros em 14 de maio passado despenaliza o aborto e atenta contra o ser humano no primeiro estágio de sua vida.
Na seguinte entrevista concedida a Zenit, Mercedes Aroz pede uma “revisão de legislações que não garantam efetivamente o direito à vida do ser humano desde sua concepção”.
Essas legislações – assinala – “provêm do século passado, quando os conhecimentos científicos sobre o início da vida não eram tão evidentes”.
Quais foram as razões que a levaram a deixar o partido que você ajudou a fundar e no qual levava 33 anos como militante?
– Mercedes Aroz: Quando me retirei da política ativa em 2007, com a renúncia a ostentar todo cargo de representação ao finalizar meu compromisso de senadora por Barcelona, mantive a afiliação ao Partido Socialista e agora dei o passo de dar baixa do partido.
Não foi fácil, pois foram 33 anos de militância e participação ativa no projeto socialista. É uma decisão vinculada à nova regulação do aborto na Espanha, impulsionada pelo governo, que supõe sua despenalização, e que me levou a romper o último laço que me unia ao socialismo. Minha discrepância com as políticas do socialismo radical do governo e do Partido Socialista é completa, desde a ética cristã e a defesa dos direitos humanos. Escrevi uma carta ao Primeiro Secretário, com uma breve reflexão sobre esta questão, a questão do aborto como vulnerabilidade dos direitos humanos, pois à luz dos atuais conhecimentos científicos, que nos dizem que desde a concepção existe um ser humano com sua identidade genética própria que manterá por toda sua vida, o aborto atenta contra o ser humano no primeiro estágio de sua vida. É, portanto, algo mais que uma questão de consciência moral: vai contra os direitos humanos, o primeiro dos quais é o direito à vida. O ser humano deve ser protegido juridicamente, com independência da fase na qual se encontre; é uma questão de ética e de civilização. Por isso, desde uma posição progressista,é preciso defender a revisão de legislações existentes em diferentes países que provêm do século passado – quando os conhecimentos científicos não eram tão evidentes –, que não garantem efetivamente este direito do ser humano desde sua concepção. Esta garantia é imprescindível para avançar no verdadeiro progresso humano. As gerações futuras nos julgarão sobre isso.
– É difícil a atuação dos cristãos no âmbito político?
– Mercedes Aroz: Sim, sem dúvida é difícil. Porque nenhum partido responde totalmente à identidade cristã, e os políticos cristãos devem ser coerentes com os princípios e valores que guiam nossa vida e que propomos à sociedade. Isso implica, portanto, manter a autonomia com relação aos partidos, mas ao mesmo tempo, estes exigem a seus membros, e especialmente em cargos parlamentares, disciplina de voto. Por isso, o conflito pode ser importante quando estejam em jogo leis contrárias à dignidade da pessoa e dos direitos humanos, às quais é preciso opor-se. O tema da autonomia dos cristãos com relação aos partidos políticos é de grande importância. Porque, se não se mantiver, e o político cristão se submeter aos interesses do partido em questões fundamentais como as que mencionei, ele se converterá em legitimador de sua ação. Também se dá o agravante de que pode ser utilizado, com a antiga tática do “divide e vencerás”, para enfraquecer não a Igreja ou sua hierarquia, mas ao cristianismo. A submissão não é o caminho para propor valores cristãos e contribuir com os projetos da sociedade a partir da nossa própria visão do mundo. O político cristão está chamado a ser consciência crítica em sua militância e em sua ação pública quando for necessário.
– Desde sua experiência política, como é possível que tenha havido um giro tão radical nas políticas sobre sexualidade e família no Ocidente, em tão pouco tempo?
– Mercedes Aroz: Considero que este giro se inscreve na secularização das sociedades ocidentais e na evolução do pensamento contemporâneo, caracterizado pela rejeição aos imperativos e a conceitos universais, com a conseguinte perda de referências últimas. Isso significou que hoje se considere fundamental a autonomia ética e o respeito à própria consciência individual, algo que constitui sem dúvida um grande avanço no desenvolvimento de nossas sociedades. Contudo, esta mudança levou a um momento histórico no qual se manifesta uma perda de orientação pessoal, uma crise de valores morais e certo mal-estar cultural. Este é o contexto no qual o cristianismo deve desenvolver-se. Por isso, para que os valores cristãos progridam, deve-se utilizar argumentos convincentes e mostrar sua vinculação à dignidade da pessoa e aos direitos humanos. Esta é a única referência objetiva que hoje parece poder ser assumida por todos os cidadãos em nossas sociedades seculares e pluralistas. Na situação atual, o cristianismo tem um papel fundamental, pois existe o risco de que o vazio moral de nossas sociedades leve ao deterioro das tradições humanistas. A mera valorização negativa dos problemas existentes, sem incorporar o diálogo com a cultura atual e a abertura à qual nos convida o Concílio Vaticano II, não contribui para construir um futuro ético no qual os cristãos devem participar.

CRISE, SENTIDO E BUCA DE DEUS

Hoje assistimos, atônitos, a uma grave crise que atinge a civilização como tal. As expressões de tal crise, encontramo-las sob variadas formas, desde a tresloucada posição de não poucos jovens diante da vida, posição esta marcada sobretudo pelo hedonismo (procura do prazer imediato e, não raro, irresponsável), ao problema ético ou moral que afeta a instituição familiar, a sociedade civil e o Estado, na política e na economia.
A crise deve-se sobretudo à falta de sentido. Com efeito, se não se vê com certa clareza o sentido a imprimir à existência, aí então perdem-se as condições de ordenar as coisas conforme uma escala de valores e dá-se lugar à confusão, ao imediatismo e à busca egoísta de "vantagens" pessoais.
A cultura moderna foi aos poucos tirando do homem o que lhe é mais próprio: a capacidade e o desejo de contemplar o sentido das coisas. As questões últimas (Donde venho? Quem sou? Para onde vou?) foram relegadas à condição de perguntas sem sentido. O que interessa à modernidade é o domínio da natureza, a técnica. Somente o conhecimento empiricamente constatável teria lugar (cientificismo). As perguntas fundamentais da vida humana deveriam ser deixadas de lado, pois o ser em si mesmo não teria sentido algum. O homem enquanto ser de transcendência seria um absurdo.
"Ao sábio compete ordenar", já sentenciava S. Tomás de Aquino (Summa contra gentes, I,1). É próprio da virtude da sabedoria, contemplando o todo, isto é, possuindo uma cosmovisão (uma visão global sobre a existência), ordenar os meios em conformidade com os fins. Nesse sentido, o sábio por excelência é aquele que tudo sabe ordenar em conformidade com o fim último de todas as coisas. Mas é justamente a virtude da sabedoria que está sendo esquecida entre nós. Sabemos muitas coisas, é certo. Certamente o homem jamais alcançou o saber científico e técnico de nossa geração. Mas, hoje, esquecemos a sabedoria – sapientia -, que não consiste simplesmente no saber particularizado do mundo técnico-científico, mas na capacidade de contemplar o todo, perceber o seu sentido e colocar-se em conformidade com ele. A capacidade de chegar a algo de básico, de absoluto. Se não se é capaz de contemplar o todo, não se é propriamente homem, mas se recai na imediatidade simplesmente animal, instintiva e cega. "O filósofo é aquele que vê o todo" (Platão).
Contemplar o todo significa dar-se conta da inteligibilidade radical de todas as coisas. E dar-se conta da inteligibilidade radical de todas as coisas implica ultrapassar a contingência do mundo para radicar-se no fundamento último de tudo. O homem é por natureza aberto ao todo: "O homem ultrapassa infinitamente o homem" (Blaise Pascal). A abertura do homem ao infinito do ser deve levá-lo a divisar o Ser mesmo, infinitamente real, "Aquele que é" (Ex 3,14), o Deus bendito pelos séculos. É essa mesma abertura que faz com que o homem não se contente com a "mundanidade", que não tem em si mesma a razão de seu ser. A busca pelo fundamento último de tudo não pode terminar senão em Deus. O mundo e o homem não se explicam a si mesmos, mas encontram sua razão de ser n'Aquele cuja essência é o próprio ato de existir.
Foi exatamente por ter esquecido o Absoluto, Deus mesmo, para o qual o homem foi feito, que nossa sociedade, desorientada, não sabe relacionar os meios com os fins. Aliás, nem sabe mesmo o que é meio e o que é fim. A Ética, carente do fundamento último das coisas, agita-se aos sabor das ideologias quando não se vê absorvida pelo niilismo. Ultimamente, frente aos absurdos cometidos pelo homem contra o próprio homem, procura-se, é verdade, um fundamento para a Ética. Tal fundamento, na verdade, está inscrito na Lei Natural, cujo porta-voz é a consciência humana bem formada. Entretanto, nem mesmo a Lei Natural será sólida base para a Ética se seu Autor, que lhe dá sentido e consistência de modo absoluto, for esquecido.
A crise do homem de hoje, em última análise, é uma crise religiosa. Se a criatura não vive em sintonia com seu centro, o Criador, desorienta-se. Este Criador, há dois mil anos, dignou-se em sua benignidade manifestar-se visivelmente aos homens em Jesus de Nazaré. A humanidade de Cristo tornou-se, assim, o sacramento do Eterno no tempo, o instrumento por meio do qual se nos abre o caminho para Deus, em quem encontraremos repouso e resposta para nossos mais legítimos anseios, anseios estes que este mundo contingente não pode nunca satisfazer.
Mais do que nunca, os cristãos somos chamados a ser "Mensageiros do Sentido", a anunciar ao mundo a boa-nova que nos vem do alto por Jesus Cristo, a proclamar que nossa vida tem sua razão de ser, mesmo se ela é, no presente momento, assinalada pelo sofrimento, pois "Deus, sumamente bom e todo-poderoso, jamais permitiria o mal se não pudesse dele tirar um bem maior" (S. Agostinho).
Encerrando, faço minhas as palavras do teólogo italiano Bruno Forte: "De modo particular, no tempo de penúria de esperança que é a época pós-moderna, deve o discípulo ser com sua vida antecipação militante da alegria da vida eterna, vitoriosa sobre o sofrimento, sobre o mal e sobre a morte, prometida em Cristo em seu regresso ao Pai. Apesar das provas e das contradições do presente, o povo de Deus é chamado a exultar desde agora na esperança" (A essência do cristianismo, Vozes, 2003).

A ORAÇÃO DEIXADA POR BENTO XVI NO MURO OCIDENTAL

Deus de todos os tempos,
na minha visita a Jerusalém, "Cidade da Paz",
pátria espiritual comum de judeus, cristãos e muçulmanos,
apresento-vos as alegrias, as esperanças e as aspirações,
as provações, os sofrimentos e a dor
de todo o vosso povo no mundo inteiro.
Deus de Abraão, Isaac e Jacob,
ouvi o clamor dos aflitos, dos amedrontados e dos desesperados;
enviai a vossa paz sobre esta Terra Santa, sobre o Médio Oriente
e sobre toda a família humana;
estimulai os corações de todos aqueles que invocam o vosso nome,
a percorrer humildemente o caminho da justiça e da compaixão.
"O Senhor é bom para aqueles que nele confiam,
para a alma que O procura" (Lm 3, 25)!

ANATOMIA DA TRAIÇÃO

Por João César das Neves
A humanidade partilha alguns valores comuns que, em qualquer cultura, época ou tradição, definem a sua natureza. Um deles é o repúdio universal pelos traidores. Desde sempre a infidelidade foi sumamente desprezada, com delatores e apóstatas tratados com asco. Mas se os princípios da raça humana são gerais e permanentes, cada período, povo e doutrina tradu-los à sua maneira, sublinhando uns, esbatendo outros, nem sempre com o indispensável equilíbrio.
Vivemos num tempo onde a eterna abjecção pela traição anda muito omissa. A cultura contemporânea admira a liberdade e o individualismo, que deram grandes ganhos na ciência, progresso e justiça. É pois inevitável que as virtudes complementares, lealdade ou obediência, acabem silenciadas ou até menosprezadas. "Fidelidade canina" é insulto. Ainda respeitamos os superiores e cumprimos deveres na comunidade, mas admiramos o atrevimento dos rebeldes e o engenho dos espiões, raramente condenando a sua baixeza.
A traição é tanto mais tolerável quanto mais próxima e efectiva é a afronta. No que toca aos princípios abstractos apresentamo-nos tão fiéis como sempre. Todos juram respeitar a justiça, democracia, liberdade e afins. Mas descendo a coisas mais concretas, como a pátria, a traição é muito menos repudiada que em épocas passadas. O patriota é visto como tolo e o nacionalista como perigoso. Quem fizer acções gravemente opostas ao interesse nacional basta que invoque ideologia ou interesses particulares para isso ser compreensível ou até aceitável.
Se o patriotismo é relativizado, ainda é mais vaga a lealdade à comunidade, empresa, amigos. Enxovalham-se chefes, acusam-se governantes, suspeita-se de tribunais. Uma ligação, mesmo institucional, só é sustentável enquanto o interesse pessoal estiver alinhado com o grupo. Muda-se de clube sem dificuldade e abandonam-se alianças sem compromisso. Se houver problema é meramente legal, porque eticamente a carreira, sucesso e até comodidade de cada um são hoje argumentos para justificar qualquer trânsfuga. Admira-se quem denuncia os seus e desconfia-se de quem os defende. Talvez não haja mais corrupção, mas como todos pensam que há, isso é pior do que haver.
Passando a campos mais íntimos, na família a traição até deixou de ser defeito. O adultério, sempre frequente, tornou-se banal; o divórcio, antes raro, passou a recomendável. A promiscuidade e o flirt são o ideal. Nisso não se vê traição, mas mera expressão da autonomia pessoal. Quem abandona mulher ou marido e filhos está justificado porque, como o amor tinha acabado, nada mais havia a fazer. A devoção conjugal fica reduzida à condição de gasolina que se gasta após alguns quilómetros. De injúria e quebra de compromisso nem sequer se fala.
O limite encontra-se na religião, onde já nem se consegue entender como possa existir traição. Cada um é soberano nas suas relações com Deus e pode quebrá-las quando lhe apetecer. Os termos são definidos a partir das opções e condições humanas de cada um, não a partir da transcendência. É Deus e a Igreja quem se devem dar por muito satisfeitos com a nossa homenagem eventual. É comum ouvir frases como "sou católico, mas..."; raramente "sou católico, por isso...".
Existe ainda uma forma mais profunda e radical de traição. Este texto começou afirmando que a humanidade partilha alguns valores comuns que definem a sua natureza em qualquer cultura. Hoje este postulado é discutido ou rejeitado frontalmente, vivendo-se um relativismo, quer filosófico quer pragmático.
É verdade que a nossa era proclamou os direitos humanos universais e muito se esforça por os defender. Mas a sua aplicação concreta vem sujeita à maior arbitrariedade. Esses direitos aparecem compatíveis, e até justificativos de infâmias como tortura, aborto, eutanásia, guerrilha, divórcio, casamento sem casais, manipulações genéticas, pena de morte, etc. Recusar a existência de valores universais e objectivos é a suprema traição pessoal porque constitui uma deslealdade à humanidade, à sua própria natureza.

BENTO XVI DESPEDIU-SE DE ISRAEL

Bento XVI despediu-se esta Sexta-feira de Israel, concluindo uma viagem de oito dias à Terra Santa. Na cerimónia de despedida, em Telavive, Bento XVI foi acompanhado por Shimon Peres e Benjamin Netanyahu, presidente e primeiro-ministro de Israel.
O Papa passou em revista os vários momentos da sua estadia no país, reafirmando em particular a sua condenação do “terrível episódio” do Holocausto.
Referindo como “um dos momentos mais solenes” desta estadia em Israel a visita ao Memorial do Holocausto, Yad Vashem, o Papa recordou o encontro tido com alguns sobreviventes da Shoah, “profundamente emocionante” que lembrou a visita realizada há três anos ao Campo de Auschwitz, onde tantos judeus foram “brutalmente exterminados”.
“Tantos Judeus – mães, pais, irmãos, maridos, esposas, irmãos, irmãs, amigos – foram brutalmente exterminados por um regime sem Deus que propagandeava uma ideologia de anti-semitismo e de ódio. Não se deve nunca esquecer ou negar este horroroso capítulo da história. Pelo contrário, aquelas negras recordações devem fortalecer-nos na decisão de nos estreitarmos ainda mais uns aos outros como ramos da mesma oliveira, alimentada pelas mesmas raízes e unidos pelo amor fraterno”, disse.
Evocando a oliveira plantada no jardim da residência presidencial, no dia da sua chegada a Israel, Bento XVI recordou que é precisamente a imagem de uma oliveira que São Paulo usa para descrever a íntima relação entre cristãos e judeus. “Somos alimentados pelas mesmas raízes espirituais. Encontramo-nos como irmãos, irmãos que em certos períodos da nossa história tivemos uma relação tensa, mas que agora estamos firmemente empenhados em construir pontes de amizade duradoura”, apontou.
Agradecendo a calorosa hospitalidade que lhe foi reservada, Bento XVI afirmou que “vim visitar este país como um amigo dos Israelitas, exactamente como sou um amigo do povo palestiniano”. “Os amigos gostam de passar tempo na companhia um do outro, e afligem-se profundamente quando vêem o outro sofrer. Nenhum amigo dos Israelitas e dos Palestinianos pode deixar de se contristar com as contínuas tensões entre os vossos dois povos. Nenhum amigo pode deixar de chorar com os sofrimentos e as perdas de vidas humanas que ambos os povos têm sofrido nos últimos sessenta anos”, frisou.
Neste contexto, deixou um sentido “apelo a todas as populações destas terras”:
“Nunca mais derramamento de sangue!
Nunca mais combates!
Nunca mais terrorismo!
Nunca mais guerra!
Quebremos o círculo vicioso da violência!
Instaure-se, pelo contrário, uma paz duradoura baseada na justiça!
Haja uma verdadeira reconciliação que cure as feridas”.
Concretizando ainda mais o seu apelo, o Papa pediu que “seja universalmente reconhecido o direito do Estado de Israel a existir e a gozar de paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas”. E que “se reconheça igualmente que o povo palestiniano tem direito a uma pátria independente, soberana, a viver com dignidade e a viajar livremente”.
Que a solução dos dois Estados se torne uma realidade e não permaneça mero sonho”, acrescentou ainda Bento XVI, que não quis concluir o seu discurso final sem uma referência directa ao Muro construído por Israel na Cisjordânia.
“Para mim, uma das mais tristes imagens na minha visita a estas terras foi o muro. No momento de passar ao lado dele, rezava pedindo um futuro em que as populações da Terra Santa possam viver em paz e harmonia sem necessidade de tais instrumentos de segurança e separação, respeitando e confiando um no outro e renunciando a toda e qualquer forma de violência e agressão”, observou.
No final do discurso, o Papa assegurou as suas orações e as dos católicos de todo o mundo “para que prossigam os esforços para construir nesta região uma paz justa e duradoura”.

BENTO XVI NA TERRA SANTA NÃO TOMA PARTIDO E POR ISSO É CRITICADO

O papel único do pontífice, segundo o Pe. Thomas Williams, L.C.
JERUSALÉM, quinta-feira, 14 de maio de 2009 (ZENIT.org).- Bento XVI “não veio à Terra Santa para tomar partido político, nem sequer pelo seu próprio ‘partido’”, esclarece o Pe. Thomas D. Williams, L.C., teólogo americano, professor da Universidade Regina Apostolorum de Roma.
O sacerdote, que está comentando de Jerusalém a peregrinação papal para o canal de televisão americano CBSNews e para Zenit, explica: “Ele não veio somente como representante da Igreja Católica, mas verdadeiramente em nome de cada envolvido, em nome da própria humanidade”.
O Pe. Williams confessa que esta reflexão lhe foi suscitada ao ver como continuam as críticas locais diante dos fatos e palavras do Santo Padre. “Não posso ajudá-lo, mas elevo meu coração a Deus em gratidão por este amável Papa alemão. Percebi como sua missão é única neste terra partida em facções de contínuas disputas e que vão desde a terra até as minúcias doutrinais.”
“Bento XVI – explica o Pe. Williams – fala em nome dos judeus, elogiando sua herança religiosa e defendendo seu direito à segurança e autonomia. Fala em nome dos palestinos e do seu direito à soberania e à liberdade. Fala em nome dos muçulmanos, recordando-lhes o melhor de sua tradição religiosa, com suas profundas convicções e sentido culto ao único Deus. Fala pelos cristãos, em seu difícil estatuto de pequena e sofrida minoria. Em uma palavra, fala a todos e para todos.”
Segundo o Pe. Thomas, “esta é a singularidade da voz e da mensagem do Papa. (...) Paradoxalmente – esclarece –, em meio a toda a manipulação da mensagem de Bento XVI e de todas as protestas porque ele não se alinha suficientemente a nenhum grupo, vemos a grandeza e singularidade de sua presença aqui. Nenhum outro líder no mundo pode falar com a mesma autoridade moral ou imparcialidade. Sua verdadeira repugnância a exercer a política partidária é a causa de que frequentemente sua mensagem seja rejeitada e por isso é tão desesperadamente importante”.
Para ilustrar o que quer dizer, o sacerdote dá um exemplo. Um dos que levantaram as maiores críticas sobre a suposta falta de remorso do Papa pela Shoá é o rabino Ysrael Meir Lau, presidente do Memorial Yad Vashem: qualificou o discurso do Papa como “sem compaixão” pela horrível tragédia dos 6 milhões de vítimas.
“Se você assistir à cobertura televisiva do evento, verá que Lau estava á direita do Papa e parecia que tinha comido algo especialmente desagradável ao seu estômago”, indica.
Mas é que o rabino Lau não está alheio às críticas ao papado. Foi também incansável na hora de desacreditar o Papa Pio XII, inclusive quando isso signifique distorcer a verdade.
O Pe. Williams lembra que “durante as comemorações em Berlim, em 1998, do 60º aniversário da Noite dos Vidros Quebrados – o evento do dia 9 de novembro de 1938 que deu início à era das perseguições de judeus na Alemanha –, Lau, então rabino chefe de Israel, foi convidado a falar. Em seu apaixonado discurso, fez a pergunta condenatória, ‘Pio XII, onde você estava? Por que permaneceu em silêncio durante a Noite dos Vidros Quebrados?’”.
No dia seguinte, indica o Pe. Williams, dois jornais italianos mostraram esta manchete, com o subtítulo “O vergonhoso silêncio de Pio XII”. “O único problema – indica – é que Pio XII só foi eleito em março de 1939, quatro meses depois da noite dos Vidros Quebrados. Apesar disso, não vi que o rabino Lau tenha se apressado a expressar remorso por sua difamação do Papa Pio XII.” Em seu voo a Israel, o Pe. Williams teve a oportunidade de reler “a cândida autobiográfica de Bento XVI, ‘Minha vida’” e comenta: “Foi tocante, mais uma vez, ver como sua própria infância foi cruelmente interrompida pela subida ao poder de Hitler e como muitas pessoas alemãs de boa vontade foram injustamente qualificadas de nazistas. Se acreditam nas críticas a Bento XVI, qualquer um que morava na Alemanha entre 1930 e 1940 é necessariamente culpável de associação ao nazismo”.
Felizmente, acrescenta, “algumas vozes judaicas importantes estão começando a ser ouvidas em Jerusalém convidando os críticos a deixarem de lado o Papa. Por exemplo, Noah Frug, presidente do Consórcio de Organizações de Sobreviventes do Holocausto em Israel, disse que as críticas dirigidas ao pontífice eram exageradas. ‘Ele veio aqui para aproximar a Igreja do judaísmo e deveríamos considerar sua visita como positiva e importante’, disse Frug”.
O sacerdote analisa outro exemplo, as palavras que o Papa pronunciou na quarta-feira, em Belém, para expressar sua solidariedade aos palestinos e para afirmar a posição da Santa Sé de reconhecimento de dois Estados.
Dirigindo-se ao presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas alias Abu Mazen, o Bispo de Roma disse: “A Santa Sé apoia os direitos de sua população a uma soberana pátria palestina na terra dos vosso antepassados, segura e em paz com seus vizinhos, no interior de fronteiras reconhecidas internacionalmente”.
“Em teoria – acrescenta o Pe. Williams –, isso não deveria provocar desacordo, dado que a postura oficial do Estado de Israel coincide com a da Santa Sé. Israel, também afirma o direito dos palestinos a uma pátria soberana, uma vez que tal acordo possa se tornar factível sem detrimento da segurança de Israel. Certamente, aí está a dificuldade.”
O comentarista falou com pessoas de diversos ambientes e experiências, e uma coisa que todos parecem ter em comum, comenta, é o sofrimento: “Cada um tenta me contar sobre as adversidades e injustiças sofridas, pessoal ou historicamente. Cada um tem uma história de aflição para relatar. Ninguém parece recordar ter cometido nenhuma injustiça, mas somente lembra de tê-la sofrido. E não posso deixar de me perguntar, em uma terra de tanta dor e pena, uma terra cuja população se orgulha de ‘recordar’, se nesta ocasião o esquecimento poderia ser a virtude mais necessária”.
E conclui lembrando que nesta quarta-feira, em Belém, “Bento XVI instou seus ouvintes cristãos a ‘ser uma ponte de diálogo e cooperação construtiva na edificação de uma cultura de paz que substitua o presente ponto morto de temor, agressão e frustração’. É o que ele mesmo está se esforçando em ser, com sua presença, suas palavras e sua paciente decisão de pregar persistentemente a Boa Notícia”.
Por motivos maiores não podemos acompanhar desta vez a Viagem do Papa Bento XVI à Terra Santa. No entanto, para quem desejar ler ou reler algum discurso do papa ou o noticiário relacionado a sua viagem, iremos dispor alguns links interessantes abaixo. Depois, conforme o tempo, estaremos postando alguns discursos mais relevantes.
LINKS:

ANJOS E DEMÔNIOS DEMONSTRA INTERESSE PELA IGREJA

Entrevista com o Pe. John Wauck
Por Jesús Colina
ROMA, quinta-feira, 14 de maio de 2009 (ZENIT.org).- O filme “Anjos e demônios”, apesar de seus incríveis erros baseados na novela de Dan Brown, mostra o enorme interesse que a Igreja Católica suscita, considera um sacerdote que possui um dos blogs mais populares sobre “O Código Da Vinci”.
O Pe. John Wauck, da prelazia pessoal do Opus Dei, nascido em Chicago, professor de literatura e comunicação da fé na Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, estudou história da literatura na Universidade de Harvard.
Nesta entrevista concedida a Zenit, ele constata um dado irrefutável sobre este interesse pela Igreja: nunca houve tantos peregrinos em Roma como nos últimos anos.
- Você acha que Dan Brown tem alguma espécie de fixação com a Igreja?
- Pe. Wauck: Às vezes eu me pergunto o que faria Dan Brown sem a Igreja Católica. Quase tudo o que existe de interesse em suas novelas tem relação com o catolicismo. Certamente, não são os seus personagens fictícios nem os diálogos ortopédicos que atraem as pessoas. Isso explica que o principal efeito do “Código Da Vinci” não tenha sido uma diminuição da prática ou das crenças religiosas, e sim um claro aumento do turismo a Roma... e ao Louvre.
A fórmula de Dan Brown para vender livros é oferecer um coquetel de história, arte, religião e mistério; e parece que há um único lugar no mundo atual onde é capaz de encontrar todas essas coisas juntas: em Roma, na Igreja Católica.
Se a história, a beleza e os mistérios sagrados o atraem, também deve atraí-lo a Igreja. Se você se coloca na Praça de São Pedro, em Roma, a poucos metros verá uma necrópole romana, um obelisco egípcio trazido a Roma por Calígula, o túmulo de São Pedro, o lugar do atentado ao seu sucessor João Paulo II, a abóbada da Capela Sistina e a Pietà de Miguelangelo, as Estâncias de Rafael, o baldaquino de Bernini, a maior basílica do mundo e peregrinos procedentes do mundo inteiro. E não se trata de um museu; é uma realidade viva que nos coloca em contato direto com 20 séculos de história, desde a antiguidade até nossos dias. Que mais pode pedir um novelista como Dan Brown? Certamente, é difícil encontrar algo semelhante na América suburbana, onde a maioria dos seus leitores mora.
Isto é, se Dan Brown parece fascinado pela Igreja, é preciso reconhecer que não é o único: em Roma existe agora mais peregrinos que nunca. Eles vêm para ver a cidade e para ouvir Bento XVI. E seu interesse não é mera coincidência. Este ano, na Páscoa, 150 mil adultos foram recebidos na Igreja Católica no meu país, Estados Unidos.
- Você acha que a decisão do Vaticano de não permitir filmagens nas igrejas de Roma representa um trato desfavorável com relação aos produtores?
- Pe. Wauck: Moro em Roma desde os 14 anos e nunca vi uma equipe de filmagens de Hollywood em uma igreja. Como regra geral, não se fazem filmes comerciais, sejam ou não piedosos, nas igrejas de Roma. Não se poderia filmar nem sequer “Os 10 mandamentos”. Naturalmente, não haveria por que fazer uma exceção com “Anjos e Demônios”. O trato que este filme recebeu foi o mesmo que se dá a qualquer outro. O resto são historietas do departamento de marketing do filme.
- “Anjos e demônios” pressupõe uma hostilidade natural entre a fé cristã e a ciência moderna. O que você opina sobre isso?
- Pe. Wauck: É relativamente fácil advertir que grande parte da melhor arte do mundo ocidental – música, pintura, literatura, arquitetura –é produto de uma cultura cristã: foi inspirada frequentemente pela fé, quando não diretamente solicitada pela Igreja. Isso parece óbvio. Pois bem, algo similar acontece com a ciência, só que é mais difícil perceber isso.
Pense, por exemplo, nas universidades, que são uma invenção da Igreja. Pense em Copérnico, que era um clérigo católico e que dedicou seu livro sobre o heliocentrismo ao Papa. O calendário que usamos é chamado de calendário gregoriano, pois foi promulgado por um Papa, Gregório XIII, que fez os astrônomos e matemáticos mais destacados da sua época trabalharem nisso. O próprio Galileu sempre foi um católico devoto e suas duas filhas foram freiras. Um dos maiores astrônomos italianos do século XIX foi um sacerdote jesuíta, Ângelo Secchi. O pai da genética moderna, Gregor Mendel, era um monge católico. O autor da teoria do “Big Bang” foi um sacerdote belga, Georges Lemaitre.
Em definitivo, a ideia de que há certa tensão natural entre a ciência e a Igreja,entre a razão e a fé, não tem sentido. Hoje, as pessoas, quando ouvem falar de “ciência” e “Igreja”, pensam imediatamente no processo de Galileu no século XVII. Mas uma percepção mais ampla das coisas obriga a ver este caso tão complicado – frequentemente distorcido por certa propaganda anticatólica – como uma manifesta exceção. Se os críticos da Igreja sempre o trazem à tona, é por um motivo: porque é a única coisa à qual podem se referir. Ou seja, quando ouvimos falar de “ciência” e “Igreja”, deveríamos pensar em Copérnico, Secchi, Mendel e Lemaitre: são estes os casos representativos. Não o é, no entanto, o processo de Galileu.
- Há algum aspecto do livro que tenha lhe parecido interessante?
- Pe. Wauck: Sim. Há uma passagem da novela na qual o heroi, o professor Langdon, da Universidade de Harvard, encontra-se na frente da basílica de São Pedro e os pensamentos que povoam sua mente neste momento – na novela, ele é a voz da autoridade científica – parecem realmente o comercial do catolicismo.
Dá a impressão de que estamos lendo o Catecismo da Igreja Católica, ao invés da novela de Dan Brown. A passagem é esta: “Pedro é a pedra. A fé de Pedro em Deus foi tão firme, que Jesus o chamou de ‘a pedra’, o discípulo incomovível sobre cujos ombros Jesus construiria sua Igreja. Neste lugar, pensou Langdon, na colina do Vaticano, Pedro havia sido crucificado e enterrado. Os primeiros cristãos construíram um pequeno santuário sobre o seu túmulo. À medida que o cristianismo se estendeu, o santuário cresceu, passo a passo, até converter-se nesta basílica colossal. Toda a fé católica havia sido levantada, literalmente, sobre São Pedro. A pedra” (“Anjos e demônios”, cap. 118).
Não daria para fazer um anúncio publicitário gigante no Times Square, mas não está mal.
- Você não acha que com esta entrevista estamos promovendo gratuitamente o filme?
- Pe. Wauck: Quem está promovendo quem? Esta é a questão. Possivelmente, há publicidade nas duas direções, mas se consideramos o tempo, as energias e os milhões de dólares empregados na produção e promoção deste filme, eu diria que nós estamos levando a melhor parte. Isto é, que talvez Deus esteja se servindo de Hollywood para atrair a atenção de alguns sobre as riquezas da fé e da cultura católicas.
Dito isso, devo acrescentar que não tenho a intenção de gastar meu tempo e meu dinheiro vendo este filme, As resenhas do filme “O Código Da Vinci”, feito pela mesma equipe, foram suficientemente sarcásticas como para podermos economizar a visão deste.

A FABULOSA FÉ DOS ATEUS

Poucas coisas me admiram mais, neste mundo, do que a assombrosa fé dos ateus.
Eles não acreditam em Deus, mas acreditam cegamente no Acaso. Se você lhes perguntar: “Como surgiu o mundo? Como apareceu a vida? Como se processaram as coisas para que se desse algo de tão extraordinariamente complexo, preciso, ordenado e fantástico como é o organismo de um besouro ou de uma gazela? Como se produziu a maravilha extasiante de um olho: o cristalino, a córnea, a retina, a íris, o seu funcionamento harmônico em precisa conexão com o sistema nervoso, com o cérebro, com o sistema circulatório...?”, invariavelmente o ateu responderá: “Foi por Acaso”. Você pode perguntar: “Um acaso só?” Ele sorrirá com ar de suficiência e esclarecerá, como se segredasse a sabedoria aos ignorantes: “Milhões, milhões de Acasos, meu amigo, ao longo de milhões de anos”. E a palavra milhões — que não explica, sozinha, absolutamente nada — o deixará perfeitamente satisfeito, como se fosse a explicação genial, “racional” e completa de toda a questão.
No entanto, os que se têm dado ao trabalho de analisar cientificamente as possibilidades de que apenas duas dúzias desses milhões de acasos se produzissem, chegam à conclusão de que, pelo cálculo de probabilidades, essa conjunção de eventos fortuitos, perfeitamente concatenados, é tão improvável que, na prática, fica sendo impossível. Não há probabilidade alguma que consiga explicar satisfatoriamente como, do nada, possa surgir algo; ou que, da matéria inerte — numa cadeia de mirabolantes casualidades — venham a brotar a paineira, a onça, o dourado e o gavião.
E, já que falamos em bichos, talvez o leitor ache interessante uma afirmação feita por um cientista da NASA, altamente qualificado nesses assuntos. É muito mais provável — dizia este professor — que uma lagartixa, um camundongo e um pardal façam por acaso (só passeando, arrastando e deixando à toa pedacinhos de metal, areia, etc.) um computador de última geração, do que o pretenso surgimento do universo — desde as galáxias até às borboletas — sem que tenha havido como causa de tudo uma Inteligência suprema, criadora, ordenadora e providente, ou seja, sem Deus.
Só pelo raciocínio, sem necessidade de fé, grandes filósofos pagãos como Platão e Aristóteles — insuperados em muitas das suas idéias — chegaram à conclusão de que o mundo postula, racionalmente, a existência de um Criador, que é pura Inteligência e puro Poder. Qualquer cristão bem formado sabe, de fato, que não precisa da fé para chegar ao conhecimento da existência de Deus e dos seus atributos (inteligência, poder, bondade, etc.), porque, para isso, basta a razão. Aqueles que o ateu julga “crédulos”, neste ponto são muito mais racionais do que ele. Qual é a pauta da “vida boa”?
O que acabamos de considerar tem enorme importância quando se pensa na qualidade moral da nossa vida. Quando e por que podemos dizer que agimos bem ou que agimos mal? Quando se pode afirmar que fizemos o certo ou que fizemos o errado? Há, por acaso, algum princípio, algum valor seguro, alguma pauta clara que permita avaliar a bondade ou a malícia dos nossos pensamentos, palavras e ações?
Talvez alguém diga: “Sim, a pauta é a nossa consciência”. Quem diz isso está afirmando que o que fazemos de acordo com o que a nossa consciência sente é bom, e o que fazemos contra a voz íntima da consciência é errado.
A resposta parece boa —e está certa, sem dúvida, a segunda parte —, mas talvez não reparemos que dizer que é bom o que fazemos de acordo com a nossa consciência — sem mais — é uma afirmação equivalente a dizer que termos olhos é sempre o meio certo para enxergar a estrada que devemos seguir com o carro, ou com os nossos pés. De acordo com misso, se perguntarmos: “Há algo que nos permita afirmar se o dia é claro ou escuro, se perto de nós há gente ou não, se pela rua vem vindo carros, se alguém nos aponta uma arma?”, a resposta deverá ser sempre: “Sim, a nossa vista”.
Só que essa resposta, enunciada de maneira tão simplista, é uma estupidez. Todos sabemos que a vista pode ser boa ou má, sadia ou doente, nítida ou confusa, ou até cega e nula. Uma má vista pode confundir uma janela do vigésimo andar com a porta de acesso à escada do prédio e levar a pessoa de boa fé a despencar e morrer. Exatamente a mesma coisa acontece com a consciência. Em princípio, poderia e deveria enxergar o bem, o justo, o certo, mas para isso precisaria estar sadia, e não moralmente doente. Infelizmente, a consciência não é Deus, nem é uma voz pura e infalível (por exemplo, Hitler, Goering e Goebbels acreditavam firmemente que a monstruosidade de eliminar os judeus era um dever de consciência para o bem do mundo; e em consequência, enchiam de vítimas as câmaras de gás, seguindo fielmente essa sua “consciência” desvairada) . Tal como a vista, é evidente que a consciência pode estar doente, gravemente doente, e ter, então, erros fatais de avaliação e, portanto, de conduta moral.
Não nos esqueçamos de que, afinal, a consciência é um juiz, que avalia uma decisão a tomar, uma conduta, uma omissão, e diz: “Isto está certo”, “Isto não tem nada demais”, “Isto está errado”. Mas, nesta avaliação, o que é absolutamente decisivo é saber qual é o referencial, a “norma de valor” que permite julgar o certo e o errado. Por que você diz “isto está certo”? Com base em quê? Há ou não há “valores”, “verdades” morais que iluminem sem erro a nossa consciência? Há valores que permitam dizer, com lucidez e segurança: “Isto está bem, isto está mal”? Há, enfim, normas que sinalizem e balizem sem engano o caminho da vida, da “vida boa”, certa e honesta? Nesta matéria, tudo depende da posição que se adote. Se é a dos que só acreditam no Acaso, a “pauta”, a “norma” moral terá umas características (ou nenhuma, como veremos); se é a dos que sabem que existe um Deus criador e ordenador do universo, terá outras.Tudo é permitido?
Justamente pela relação que tem com este assunto, vem a propósito lembrar um bem conhecido episódio do romance de Dostoievski, Os Irmãos Karamázovi. Os três irmãos estão no centro do enredo, juntamente com um criado do pai, filho bastardo deste e, portanto, meio-irmão dos três. O intelectual da família, Ivã Karamazov, repete filosoficamente a famosa frase: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Essas palavras gravam-se na mente doentia e descrente do meio-irmão, Smerdiákov, e levam-no a assassinar, por ódio e cobiça, o pai. No final do romance, o parricida justifica-se cinicamente perante Ivã, dizendo que nada mais fez do que aplicar a filosofia deste: dado que para ele — ateu como Ivã — Deus não existia, nada o impedia, moralmente falando, de matar o pai.
E não deixava de ter a sua razão. Com efeito, se Deus não existe, se tudo apareceu por uma conjunção fortuita de acasos, se não passamos todos do resultado de muitas cegas coincidências sem sentido nem orientação, se somos apenas matéria que, por mera ciranda de casualidades, deu de ter dois braços, duas pernas, dois olhos e a capacidade de ser consciente — se as coisas são mesmo assim, então, que sentido tem falar do bem, do mal e dos valores morais? Esses pedaços de matéria pensante que seríamos nós, jogados sem nenhuma explicação nem finalidade sobre a terra, por que haveriam de ter mais lei do que a da bruta matéria sem alma, por que não se ocupariam exclusivamente, com feroz voracidade, de aproveitar-se ao máximo de tudo, e de defender-se ao máximo de tudo e de todos os que incomodassem? Sem lei nem rei
É impossível falar em bem e mal, em verdades morais que sejam normativas, em valores válidos e estáveis num mundo assim; isso seria tão absurdo como falar da rota certa de um barco que não tem rumo predeterminado, nem bússola, nem carta de navegação, e se limita a rodopiar loucamente no centro de um redemoinho. Se não se admite a existência de Deus criador, não há modo de encontrar uma base sólida, um fundamento firme para uma lei moral digna de ser tomada em consideração pela nossa consciência. E, realmente, até agora, todas as tentativas de elaborar uma ética sem Deus têm sido falhas. Quando muito, o ateu pode chegar a “fabricar” uma moral de puras convenções, de acordos passageiros e arranjos circunstanciais, mas essa “moral” não tem referenciais claros que delimitem a fronteira entre o bem e o mal; então, torna-se uma farsa e, no meio dessa comédia, a consciência não passa de uma bailarina esquizofrênica. Não pode ser séria a consciência que dança como um urso domesticado, conforme o pandeiro que, a cada momento, tocam as eventuais conveniências e os arranjos interesseiros.
Deste modo, sendo tudo relativo, chega-se a aberrações como as que o nosso século vem contemplando: hoje o racismo é um mal abominável — e é mesmo, aos olhos de Deus —, mas já foi julgado um bem gloriosíssimo em vários países, em pleno século XX (veja-se o Terceiro Reich, a África do Sul e parte sensível da população da América do Norte); hoje, matar crianças não-nascidas e acabar com velhos e doentes incômodos (eutanásia) é considerado um bem, um avanço das sociedades “progressistas”, mas, durante milênios, foi julgado um assassinato covarde e vil. Se Deus não existe, tudo fica no ar, tudo é relativo: vale qualquer coisa, ou seja, impera o caos. No epicentro do caos, que espécie de consciência terá a possibilidade de julgar?
Pensando nisto, talvez Riobaldo, o jagunço protagonista de Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, tenha tanta razão como Ivã Karamazov. O nosso sertanejo diz, a certa altura: “Se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma”. Sábio Riobaldo! Sim. O que se pode fazer, se nada tem sentido, se nada tem valor, se nada vale nada, se nada leva a nada? Assim não se pode viver. Ciência ou conto de fadas?
No meio desta barafunda, o curioso é que o descrente, depois de ter minado as bases da moral, não se resigna a viver sem moral. Gosta de falar da sua “consciência” e da sua “moralidade”; adora ser considerado “honesto”, “correto”, “cumpridor do dever” e “ilibado”. Indigna-se de ser chamado corrupto. Como conseguir isso “nas areias movediças de um relativismo total”, onde “tudo é convencional, tudo é negociável”? (João Paulo II: Encíclica Evangelium vitæ, n. 20). A solução, para o materialista ateu ou agnóstico— ou para o seu equivalente, o cristão sem fé nem convicções — é relativamente simples. Ou, por outra, as soluções são simples, porque, no mínimo, são duas.
A primeira consiste em tergiversar, em esvaziar de sentido e de conteúdo os valores morais autênticos (os que o crente vê contidos na lei de Deus: a justiça, o amor, a sinceridade, a fraternidade...) e embutir neles um novo sentido deturpado. A bela palavra, porém, continua a ser mantida e valorizada, pelo seu magnetismo e o seu prestígio moral. “Amor”, por exemplo, que bela palavra! Tem ainda muito prestígio? Então, conserva-se e até se apresenta como sagrada e intocável; mas muda-se-lhe o sentido: emprega-se agora exclusivamente para designar o sexo descomprometido, egoísta e animalizado. A mesma coisa se faz com os “derivados” do amor e, assim, ao adultério chama-se “namoro”; à garota de programa e à prostituta cara “namoradas”; à licenciosidade, “liberdade”. E a palavra “família”, libertada da sua “ridícula” acepção “convencional” (pai, mãe e filhos) passa a aplicar-se a um rancho abagunçado de mulher com o seu “namorado” de turno, mais três ou quatro ex-maridos — os tios —, e vários filhos, que já são incapazes de identificar o seu próprio pai; ou, então, de pares ou “casais” das mais variadas espécies, gêneros e combinações.
O segundo expediente do materialista consiste em fazer moral na base de afirmações gratuitas, autênticos “dogmas de fé” proclamados com o aprumo de quem possui o carisma de infalibilidade.
Temos que agüentar tais afirmações, monotonamente repetidas, por exemplo, na questão do aborto. Com incansável perseverança, um punhado de deputados federais, adeptos de uma ideologia política relativista, laicista e atéia, proclama, com a solenidade de quem define um dogma, que a lei deveria permitir o aborto até aos três meses, ou seis, ou nove meses de gravidez, pois até esse limite de tempo o feto não é ainda ser humano. Novidade? Não, velharia. Mas afirmada e repisada com majestosa empáfia. Caso perguntemos as “razões”, o fundamento racional para esse conceito e essa lei, a resposta será o silêncio, simplesmente um “porque sim”, “porque estamos de acordo em afirmar isso”, uma vez que não há razão nenhuma — filosófica, antropológica, biológica, etc. —, que permita dizer que somos seres humanos noventa dias depois de sermos concebidos e não o somos aos oitenta e nove dias. Por que não noventa e um ou cento e três? Ninguém sabe responder. A moral relativista só é capaz de “convenções” — “é assim porque convencionamos que assim fosse”— , nunca de “convicções” e, menos ainda, de “verdades”. À falta de verdade racional, precisa de inventar o dogma laicista, a “fé irracional”.
Isto é o que faz o descrente e os seus congêneres. Pratica constantemente o que ele acusa os cristãos de fazer: — “Vocês querem impor crenças, convicções de sua fé à legislação de um país laico, não-confessional. Isto é intolerável!”.
Ora, o que se dá no caso do aborto — e em muitos outros — é exatamente o contrário. Os abortistas descrentes querem impor-nos um ato de fé, muito mais violento que os que eles dizem que a Inquisição requeria: “Creio que só somos homens a partir do terceiro, sexto, sétimo ou nono mês, creio sem prova nenhuma, sem ciência nenhuma, sem razão nenhuma”. Pelo contrário, os que acreditam em Deus são os que, neste caso, em vez de invocarem a fé, apelam apenas para a razão e para a ciência. Porque, cientificamente, está mais do que provado que, desde o primeiro momento da concepção, já existe um ser humano pleno e em marcha, em desenvolvimento, exatamente o mesmo ser humano — geneticamente, biologicamente — que será aos cinco anos, ou aos quinze, ou aos sessenta. Um dos maiores geneticistas modernos, o professor francês Jerôme Lejeune, descobridor da etiologia da síndrome de Down, foi convidado certa vez como perito por um tribunal americano que julgava um crime de aborto: as razões científicas que apresentou em favor do caráter humano do feto foram de tal ordem que reduziu ao silêncio os que as contraditavam. Como vemos, quando os crentes combatem o aborto, estão sendo racionais, e, quando os ateus o defendem, estão fazendo e pretendendo impor — mais uma vez — um incrível ato de fé. Saindo para a luz
Mas saber que Deus existe, poder olhar o mundo e a vida a partir dessa certeza, é como sairmos à luz do dia, após termos vagueado, errantes, por um labirinto de sombras que jamais conduzirá à parte nenhuma.
Luz solar para a vida é, com efeito, contemplarmo-nos a nós mesmos como aquilo que realmente somos: obra de Deus, feitura de Deus, seus filhos.
Deus criador, certamente, não fez o mundo de maneira impensada, como que por um descuido; seria absurdo só imaginar isso. Deus criou o mundo e, dentro dele, o homem, agindo como quem é: a suma Sabedoria, o supremo Amor.
Isto significa, para já, que o homem não só não é fruto do acaso, como é o fruto de um pensamento e de um querer divinos. Para expressá-lo com a nossa linguagem comum: o homem — como, de resto, toda a criação — é um projeto idealizado por Deus. Desde sempre, esteve na mente de Deus o modelo ideal do ser humano e, ao mesmo tempo, a idéia exata daquilo que é a verdade e o bem do homem, daquilo que o pode levar à plenitude e à felicidade. Essa idéia do bem do homem, concebida pela Sabedoria de Deus, é precisamente a lei moral, que a teologia cristã chama lei eterna (porque existe eternamente em Deus e é válida eternamente, para todos os seres humanos).
Santo Tomás, concisamente, resume a questão dizendo que a lei eterna — norma moral suprema para a consciência do homem — é “a razão da divina Sabedoria que conduz tudo ao devido fim” (Suma Teológica, I-II, quest. 93, art. 1). O que equivale a dizer: a Sabedoria divina “sabe”; a Sabedoria divina conhece a razão por que isto e não aquilo é um bem para o homem. Em suma, só Deus conhece perfeitamente o que o homem é e aquilo que o conduz à sua realização.
Essa idéia, esse plano sobre o homem, Deus o descortina nos mandamentos da sua lei: fundamentalmente, nos Dez Mandamentos. É exatamente isso que a Encíclica Veritatis splendor de João Paulo II recorda com limpidez: “Deus, que é o único bom (cf. Mt 19,17), conhece perfeitamente o que é bom para o homem, e, devido ao seu mesmo amor, o propõe nos mandamentos” (n. 35).
Nesta última frase aparece uma expressão interessante: “propõe”. Isto quer dizer que os mandamentos “mandam”, certamente, mas não nos são “impostos” à força por Deus. O ser humano foi criado livre; não é pura matéria, cegamente submetida a umas leis físicas às quais não se pode subtrair. Dotado por Deus de uma alma espiritual e imortal — imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26) —, o homem é chamado a atingir o seu fim de modo consciente e voluntário, livremente. E é a sua consciência que, conhecendo a lei que lhe propõe o bem, deve julgar se — em conformidade com essa lei — as suas escolhas e as suas ações estão certas ou erradas.
“Na intimidade da consciência — lê-se na Constituição Gaudium et spes do Concílio Vaticano II —, o homem descobre uma lei. Ele não a dá a si mesmo. Mas a ela deve obedecer. Chamando-o sempre a amar e a fazer o bem e evitar o mal, no momento oportuno a voz dessa lei soa-lhe nos ouvidos do coração: faze isto, evita aquilo [...]. Obedecer a ela é a própria dignidade do homem, que será julgado de acordo com essa lei” (n. 16).
Já desde os primórdios do Cristianismo, o ensinamento moral apresentava a decisão livre de obedecer “à voz dessa lei” como absolutamente determinante do significado e do bom termo da existência. A Didaqué ou Doutrina dos doze Apóstolos, um escrito cristão do século I, começa assim: “Há dois caminhos: um da vida e outro da morte. A diferença entre ambos é grande”. O caminho da vida — explica — consiste em amar a Deus e o próximo e observar todos os outros mandamentos. Pelo contrário, quem despreza os mandamentos e se entrega às paixões, hipocrisias, orgulho, adultério, rapinagens, etc., esse envereda pelo caminho da morte. “Filho, fica longe de tudo isso”, exorta o autor anônimo desse antiquíssimo escrito (itens I e II).
Se o homem observar, com fé e amor, a santa lei de Deus, andará na verdade (Jo 3,4) e viverá (Lc 10,28). Se optar pela falsa lei do egoísmo e da conveniência, perderá a vida (Mt 16,25-26). O “não” positivo que permite dizer “sim”
Não sei se reparou, mas cada proibição da lei de Deus, quando bem entendida, é o não imprescindível para poder dizer um sim amoroso e feliz. Se Deus nos proíbe que odiemos, e nos manda dizer não ao ódio, é para que possamos dizer um sim total ao amor, para que fiquemos liberados para o amor sem fim. Se Deus nos diz: “Não pecarás contra a castidade”, “Não cometerás adultério”, é para que, dizendo não ao sexo egoísta, possamos dizer sim ao amor profundo e fiel, vivido com a alma e com o corpo, dentro do matrimônio santo, generoso e fecundo. Dizer não à devassidão e à impureza é “afirmar jubilosamente” — como dizia São Josemaria Escrivá — que a castidade é própria de enamorados que sabem entregar-se e aprendem a dar-se, iluminando o mundo com o seu “dom” sorridente...
Este é um dos preciosos ensinamentos da Encíclica Evangelium vitæ de João Paulo II, que assenta a defesa da vida — contra os crimes do aborto e da eutanásia — sobre as bases firmes do preceito negativo: “Não matarás”. Vale a pena transcrever alguns trechos:
“Os mandamentos de Deus ensinam-nos o caminho da vida. Os preceitos morais negativos, isto é, aqueles que declaram moralmente inaceitável a escolha de determinada ação, têm um valor absoluto para a liberdade humana: valem sempre e em todas as circunstâncias sem exceção. Indicam que a escolha de determinado comportamento é radicalmente incompatível com o amor de Deus e com a dignidade da pessoa humana, criada à sua imagem […].
“Já neste sentido, os preceitos morais negativos têm uma função positiva importantíssima: o «não» que exigem incondicionalmente aponta o limite intransponível abaixo do qual o homem livre não pode descer, e simultaneamente indica o mínimo que ele deve respeitar e do qual deve partir para pronunciar inumeráveis «sins», capazes de cobrir progressivamente todo o horizonte do bem, em cada um dos seus âmbitos” (n. 75).
Este é o magnífico panorama que a lei divina desvenda à consciência moral. Estando, como estamos, tão propensos a saltar fora do caminho, a afundar no egoísmo, a errar e perder-nos, é natural que o fato de descobrir essas verdades nos mova a elevar a Deus um cântico de agradecimento por ter inscrito nos nossos corações, e ter-nos ensinado tão claramente, pela Revelação divina, o caminho santo da lei: Quanto amo, Senhor, a vossa lei; durante o dia todo eu a medito...; os vossos mandamentos são a verdade; a vossa palavra é um facho que ilumina os meus passos, é uma luz no meu caminho; correrei pelo caminho dos vossos mandamentos, porque sois Vós que dilatais o meu coração (Sl 119,32.97.105.151). (Adaptação de um texto do livro de F. Faus: A voz da consciência)
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