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RELATIVISMO CONTEMPORÂNEO

"O relativismo contemporâneo mortifica a razão, porque de facto chega a afirmar que o ser humano não pode conhecer com certeza nada que esteja para além da ciência positiva. Mas hoje e sempre, o homem sedento de significado e cumprimento, continua a procurar as respostas para as questões profundas que não deixa de se colocar".
(Bento XVI)

"POR QUE NÃO AGORA?": A CONVERSÃO DE AGOSTINHO

"Mas logo que esta profunda reflexão tirou da profundeza de minha alma, e expôs toda minha miséria à vista de meu coração, caiu sobre mim enorme tormenta, trazendo copiosa torrente de lágrimas. E para dar-lhe toda vazão com seus gemidos, afastei-me de Alípio; a solidão parecia-me mais adequada e me afastei o mais longe possível, para que sua presença não me fosse embaraçosa. Tal era o estado em que encontrava, e Alípio percebeu-o, pois lhe disse alguma coisa com um timbre de voz embargado de lágrimas que me denunciou.
Alípio, atônito, continuou no lugar em que estávamos sentados; mas eu, não sei como, me retirei para a sombra de uma figueira, e dei vazão às lágrimas; e dois rios brotaram de meus olhos, sacrifício agradável a teu coração. E embora não com estes termos, mas com o mesmo sentido, muitas coisas te disse como esta: E tu, Senhor, até quando? Até quando, Senhor, hás de estar irritado! Esquece-te de minhas iniqüidades passadas! Sentia-me ainda preso a elas, e gemia, e lamentava: “Até quando? Até quando direi amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora às minhas torpezas?”
Assim falava, e chorava oprimido pela mais amarga dor do meu coração. Mas eis que, de repente, ouço da casa vizinha uma voz, de menino ou menina, não sei, que cantava e repetia muitas vezes: “Toma e lê, toma e lê”.
E logo, mudando de semblante, comecei a buscar, com toda a atenção em minhas lembranças se porventura esta cantiga fazia parte de um jogo que as crianças costumassem cantarolar; mas não me lembrava de tê-la ouvido antes. Reprimindo o ímpeto das lágrimas, levantei-me. Uma só interpretação me ocorreu: a vontade divina mandava-me abrir o livro e ler o primeiro capitulo que encontrasse.
Tinha ouvido dizer que Antão, assistindo por acaso a uma leitura do Evangelho, tomara para si esta advertência: “Vai, vende tudo o que tens, dá-lo aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me” – e que esse oráculo decidira imediatamente sua conversão.
Depressa voltei para o lugar onde Alípio estava sentado, e onde eu deixara o livro do Apóstolo ao me levantar. Peguei-o, abri-o, e li em silêncio o primeiro capítulo que me caiu sob os olhos: “Não caminheis em glutonarias e embriaguez, não nos prazeres impuros do leito e em leviandades, não em contendas e rixas; mas revesti-vos de nosso Senhor Jesus Cristo, e não cuideis de satisfazer os desejos da carne”.
Não quis ler mais, nem era necessário. Quando cheguei ao fim da frase, uma espécie de luz de certeza se insinuou em meu coração, dissipando todas as trevas de dúvida.
Então, marcando com o dedo, ou não sei com que, fechei o livro, e com o rosto já tranqüilo, revelei a Alípio o que se passara. Ele, por sua vez, me revelou o que acontecera com ele, e que eu ignorava. Pediu para ver o que eu tinha lido; mostrei-lhe, ele prosseguiu a leitura. Eu ignorava o texto seguinte, que era este: Recebei ao fraco na fé, palavras que aplicou a si mesmo, e mo revelou. Fortificado por essa advertência, firmou-se nessa resolução e santo propósito, bem de acordo com seus costumes, nos quais já há muito tempo tomara grande vantagem sobre mim.
Fomos depois à procura de minha mãe, que ao saber do sucedido, ficou radiante. Contamo-lhe como o caso se passara; ela exultou, triunfante e bendizendo a ti, que és poderoso para dar-nos mais do que pedimos ou entendemos, porque via que lhe havias concedido, a meu respeito, muito mais do que constantemente te pedia com tristes gemidos e lágrimas.
De tal forma me converteste a ti, que já não procurava esposa, nem abrigava esperança alguma deste mundo, mas estava já naquela “regra de fé” em que há tantos anos me havias mostrado à minha mãe. E assim converteste seu pranto em alegria, muito mais fecunda do que havia desejado, e muito mais preciosa e pura do que a que podia esperar dos netos nascidos de minha carne. "
Agostinho, L. VIII, 12

A LUTA INTERIOR DE AGOSTINHO

Então, em meio àquela luta interior que eu travava violentamente contra mim mesmo no recesso do meu coração, perturbado no rosto e no espírito, volto-me para Alípio exclamando: “Que tanto nos aflige? O que significa isto que ouviste? Levantam-se os ignorantes e arrebatam o céu, e nós, com todo nosso saber insensato, nos revolvemos na carne e no sangue! Acaso temos vergonha de segui-los porque se nos adiantaram, e não temos vergonha de não os seguir?”
Foi mais ou menos o que eu lhe disse, e dele me afastei sob forte emoção. Alípio me olhava atônito em silêncio. Eu não falava como de costume, e muito mais que as palavras, minha fronte, minhas fazes, meus olhos, minha cor e o tom de minha voz denunciavam meu estado de espírito.
Nossa casa tinha um pequeno jardim, que usávamos, assim como o restante da casa, que nosso hóspede não habitava. Para ali me levara a tormenta de meu coração, onde ninguém pudesse interferir no ardente combate que eu travava comigo mesmo, até que se resolvesse o assunto conforme tu sabias e eu ignorava. Mas eu delirava para reencontrar a razão, e morria para reviver; conhecia meu mal, mas desconhecia o bem que depois haveria de sobrevir.
Retirei-me, pois, para o jardim, e Alípio seguiu-me passo a passo; mas, apesar de sua presença, eu não estava menos só. E como haveria ele de me deixar naquele estado? Sentamo-nos o mais longe possível da casa. Eu tremia pela violenta indignação, me enraivecia por não poder seguir teu agrado e aliança, ó meu Deus, aliança pela qual clamavam todos os meus ossos, que te elevavam louvores até o céu. E para ir a ti não há necessidade de navios nem de carros, nem mesmo de dar aqueles poucos passos que separavam a casa do jardim onde estávamos. Não somente ir, mas chegar junto de ti, nada mais é do que querer ir, mas com querer enérgico e pleno, e não com vontade tíbia, que se dispersa em todos os sentidos, e se agita incerta, dividida, ora levantando-se, ora voltando a cair.
Enfim, naquela angustiante hesitação, fazia mil gestos, como soem fazer os homens que querem e não podem, ou porque não têm membros, ou porque os têm atados em cadeias, debilitados pela fraqueza ou paralisados de qualquer outro modo. Se puxei os cabelos, se feri a fronte, se apertei os joelhos entre os dedos entrelaçados, eu o fiz porque quis. Poderia porém querer fazê-lo e não o fazer, se a flexibilidade de meus membros não me obedecesse. Portanto, fiz muitas coisas, nas quais o querer não era o mesmo que o poder.
Contudo, eu não fazia aquilo que desejava acima de tudo o mais, e que eu poderia fazer desde que o quisesse, porque se o tivesse efetivamente querido, bastava que o quisesse sinceramente; nisto o poder é o mesmo que o querer, e querer já seria agir.
Contudo não o fazia, e meu corpo obedecia mais facilmente ao mais leve comando de minha alma, movendo os membros segundo sua vontade, do que a própria alma obedecer a si mesma para realizar seu grande desejo com a vontade.
Santo Agostinho em “Confissões” L. VIII, 8

NO HOMEM INTERIOR HABITA A VERDADE

Por Daniel Machado
Quem teve a oportunidade de ler a obra de Santo Agostinho intitulada “confissões”, sabe do valor imensurável da obra tanto do ponto de vista literário, mas também do ponto de vista espiritual.
A primeira vez que li as confissões, ainda nas primeiras linhas da obra, me perguntei “como tal pessoa consegue colocar em palavras aquilo que não consigo expressar sobre mim mesmo, mas que corresponde à minha mais profunda verdade?”.
Descobri mais tarde que Santo Agostinho usou como matéria prima não só a sua história e a sede de encontrar a Deus, mas talvez o grande segredo de Agostinho, fruto de uma vida de busca, foi a descoberta do Deus que habita no homem interior.
Vemos nas páginas desta obra um homem de intimidade e liberdade. Somente um homem intimo de Deus e com uma profunda liberdade, alguém que de fato experimentou o amor e a misericórdia, poderia nos deixar tamanho presente.
Esta é a principal e mais importante descoberta de Santo Agostinho, o homem interior. Trata-se de um movimento para dentro de si, de intimidade e busca da verdade que, com maestria, ele exterioriza em sua autobiografia, e não apenas como fatos históricos, de alguém que conta a sua história de salvação pessoal, mas como descoberta de uma intimidade com Deus de dentro para fora. Santo Agostinho descobriu que somente na descoberta deste homem interior poderia haver o encontro com Deus e a liberdade que o evangelho nos promete.
Santo Agostinho passou um bom tempo de sua vida preocupado com a origem e o problema do mal, a sua adesão a Maniqueísmo quando ainda pagão foi justamente por achar que tinha encontrado a resposta para tal problema, no entanto na sua descoberta de Deus e deste homem interior, passa a se preocupar com as coisas da alma, “Deum et animam scire cupio. Nihil aliud” - quero conhecer a Deus e a alma. Nada mais!
A alma é então intimidade, lugar de encontro, lugar onde Deus está e o homem está. Traduzindo para a nossa vida, talvez a maior dificuldade do homem de hoje seja mesmo a viagem a esta dimensão da alma, a procura deste homem interior. Santo Agostinho vai dizer “Noli foras ire, in teipsum redi: in interiore homine habitat veritas” - Não procure fora. Entra em ti mesmo: no homem interior habita a verdade.
Veja que para Agostinho a descoberta do homem interior, da capacidade que o homem tem de entrar em si mesmo, faz com que o homem seja livre. Certamente não é fácil entrar neste homem interior e ali descobrir a verdade, o homem moderno sobretudo tem uma dificuldade enorme de se recolher, de penetrar em si mesmo. Santo Agostinho nos dá uma chave para adentrar nesta realidade interior do homem, que é o amor, non intratur in veritatem, nisi per caritatem – só se entra na verdade, pela caridade, pelo amor.
A grande descoberta de Santo Agostinho é também um apelo para os dias de hoje. Não precisamos andar muito para descobrir que os homens estão a procura, eles tem sede, querem algo que preencha o interior. A sede de religiosidade, as superstições, a busca de novas doutrinas e filosofias, as literaturas de auto-ajuda, a busca por um prazer momentâneo, enfim, o homem de hoje é um poço de procura e uma carência de encontro.
Vivemos o drama da fragmentação do homem, enxergamos apenas o exterior. Fomos acostumados e educados a procurar fora, nas coisas exteriores a nossa felicidade. A modernidade criou as nossas necessidade, para alguém ser feliz precisa ter, possuir, consumir, aproveitar, e cada vez mais vemos o homem vazio de si mesmo e de Deus.
Para quem quer abandonar a superficialidade da contemporaneidade deve aprender de Santo Agostinho a ser um homem interior em meio aos apelos exteriores que querem nos arrastar para o pecado.
Todos te consultam sobre o que querem. Servo fiel é aquele que não espera ouvir de ti o que desejaria ouvir, mas antes deseja aquilo que ouve de ti.
Tarde te amei, ó beleza antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora!”
Este trecho das confissões resume o segredo de Santo Agostinho.
“No homem interior habita a verdade”

FAMÌLIA

A família, meu amigo, é a base fundamental da sociedade; é o refúgio das virtudes acossadas pelas paixões dos que vagamundeiam de escolho em escolho; é a arca santa que alveja no dorso empolado das tormentas do coração e do espírito. “Sem a família, qual seria o destino da mulher?” pergunta Legouvé. - Sem família o que seria o homem? Só a família pode moralizar o rico e o pobre. Pela família e na família se organiza não só a vida material, que nutre o corpo, senão que a fecundíssima vida do coração que ama, da inteligência que se desenvolve, do carácter que se acrisola com o devotar-se, e de toda essa existência íntima que se desentranha em aspirações ao bem e ao belo.”
Camilo Castelo Branco In Doze casamentos felizes

A ORIGINALIDADE DA METAFÍSICA TOMÁSICA DO "ESSE" SEGUNDO ÉTIENNE GILSON

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

A genialidade de Tomás de Aquino no campo da metafísica foi ressaltada, entre outros, por Étienne Gilson em sua grande publicação L’être et l’essence.[1] Em síntese, Gilson destaca o passo metafísico que Santo Tomás, iluminado pela noção de criação, dá para além de Aristóteles e da metafísica grega em geral, ultrapassando o nível de inteligibilidade da substância ou da essência, e alcançando um nível ulterior, o nível radical da inteligibilidade, o do esse entendido como ato de existir.

Aristóteles, em sua inquisição sobre o ser, chegou à ousia (substância) como suprema instância de inteligibilidade do real. A metafísica aristotélica é a ciência do ser enquanto ser. Quando Aristóteles trata de saber o que é o ser, ele diz que o ser se diz de muitas maneiras, mas sempre em relação a uma e mesma realidade fundamental, que é a ousia. O modo de ser fundamental é o da substância, pois que todos os demais modos de ser se resolvem nela. Tudo que é, ou é substância ou está relacionado fundamentalmente com a substância: “On nommera certaines choses des «êtres» parce qu’elles-mêmes sont des substances (ousia), d’autres parce qu’elles sont des propriétés de quelques substances, d’autres encore parce qu’elles engendrent quelque substance ou la détruisent.”[2] A metafísica para Aristóteles é, então, em última análise, destaca Gilson, a ciência que trata da substância : “C’est donc sur l’ousia, sur ses principes e sur ses causes, que devra porter la science de l’être”.[3]

Em Aristóteles, a metafísica padece, contudo, de certa ambigüidade, apesar de sua unidade estar garantida, de alguma maneira, pela unidade da substância. Tratando fundamentalmente da substância, a metafísica recebe três nomes: a) ciência do ser enquanto ser, vale dizer, ciência daquilo que diz respeito ao ser como tal (ens commune) e de tudo o que se lhe segue – e o ser, fundamentalmente, é a substância; b) filosofia primeira, isto é, ciência que trata dos primeiros princípios do ser, que são, em última análise, os princípios da substância; c) ciência teológica, enquanto investiga as causas da substância e as encontra, fundamentalmente, nos seres – substâncias - eminentemente inteligíveis, isto é, os seres imateriais, separados ou divinos. Assim entendida, a metafísica aristotélica, embora seja uma ciência una em virtude da unidade da substância, não deixa de carecer de uma unidade mais fundamental, pois que bem se vê que ela está ordenada tanto ao que há de comum entre os seres (como ciência do ser enquanto ser e ciência dos primeiros princípios), de um lado, quanto aos seres singulares, às substâncias separadas (como ciência teológica), de outro. Qual seria, pois, a última instância da unidade da metafísica? Ou, entre essas “duas” metafísicas, qual se deveria escolher? Aristóteles não resolveu a questão, diz Gilson.[4]

Santo Tomás, a partir da noção de criação que recebeu do cristianismo, operou uma profunda transformação na noção de metafísica. A última instância de inteligibilidade do real não é, para Santo Tomás, a substância ou a essência, mas o esse – entendido como ato de existir -, sem o qual nenhuma substância ou essência existiria. Aristóteles não chegou a indagar para além da substância, uma vez que a noção de criação lhe era estranha. A existência mesma – como ato supremo de perfeição – não foi tematizada pelo filósofo grego, pois que não lhe causava problema a questão da origem do universo; o relevo de sua indagação ordenava-se às substâncias que constituíam um universo ordenado que ele cria existir desde todo o sempre e cuja origem, pelo fato mesmo de o filósofo se adstringir ao mundo das substâncias, não podia ser-lhe, de modo algum, objeto de questionamento.[5] Santo Tomás, ao contrário, movendo-se no plano radical da origem do ser pela iluminação do conceito de criação, chega a Deus, segundo os recursos mesmos da razão natural, como o Existente, não simplesmente como uma substância ou essência. Nele não há composição alguma, nem mesmo a de essência e existência, composição esta que o Aquinate afirma a respeito de todo ente que não é o Ipsum Esse Subsistens. [6] Aliás, a essência do Deus de Tomás é seu próprio ato de existir; ele é purus actus essendi, e, como Ipsum Esse Subsistens, individualiza-se e se distingue de tudo o mais que possa existir. Ora, o Existente, encerrando em si mesmo toda a perfeição do ser, não pode ser senão um: “Comment, en effet, serait-t-il l’exister pur e sans mélange aucun de puissance, s’il existait, hors de lui, quelque chose de réel qu’il pût être, et pourtant il ne fût pas, ou que ne fût pas lui ?”[7] Mas como explicar que outros entes existam – e de fato existem - , se o Existente encerra toda a perfeição do existir, ou melhor, se o Existente é toda a perfeição do existir? Santo Tomás diz que todo ente que não é o Existente existe na medida em que participa do Puro Ato de Existir. Assim, os entes recebem do Ser subsistente o seu ato de existir, de modo que, em vez de serem o seu ser (esse), o têm. Por isso diz Gilson: “[...] il faut admettre une différence radicale entre ce qui est l’exister même, et ce que l’a. »[8]

Desse modo, Santo Tomás alcançou um nível mais radical – o nível radicalíssimo, pode-se dizer – da inteligibilidade do real. Fora do esseactus essendi - só há o nada. E sem o esse, nenhuma substância ou essência existiria ou seria posta fora do nada. Em relação aos entes que não são o Ser mesmo, há real composição de essência e existência. Se a forma lhes é verdadeiramente um ato, como ensinou Aristóteles, ela o é dentro de uma ordem precisa: a ordem da substancialidade. Mas, como Santo Tomás viu para além da ordem da substancialidade, o ato último é o ato de existir, que, propriamente, não faz da substância uma substância, mas a faz existir.[9] Assim, o Doutor Comum podia afirmar sem pestanejar: “hoc quod dico esse est inter omnia perfectissimum... hoc quod dico esse est actualitas omnium actuum... hoc est perfectio omnium perfectionum”.[10]

No domínio metafísico da “causa do ser” (teologia), Aristóteles não podia alcançar uma causa absolutamente primeira. A filosofia grega como tal desconhecia uma causa absolutamente primeira, e com Aristóteles não era diferente. Os entes divinos e separados eram causas, sem dúvida, e de modo especial o Primeiro Motor Imóvel, mas havia uma franja do ser que lhes escapava. Num universo como o de Aristóteles, em que o Primeiro Motor Imóvel não é criador, a matéria é também, a seu modo, causa primeira.

Gilson destaca que, ao atingir o ser como ato de existir, Santo Tomás alcançou a unidade derradeira que faltava ainda à metafísica aristotélica. Como se notou acima, Aristóteles não havia decidido qual a direção seria a fundamental e determinante em sua metafísica, pelo que ela padecia de certa ambigüidade. Ao atingir, porém, o ser como ato, como perfeição última, o Aquinate esteve em condições de afirmar que a metafísica está toda orientada para o Existente. Santo Tomás mantém, assegura Gilson, os dois pontos de vista da metafísica, mas os coloca em uma ordem de subordinação hierárquica, de modo que a ordem do “ser enquanto ser”, enquanto ordem do nível ontológico da substancialidade, está subordinada à ordem da causa do “ser enquanto ser”, enquanto ordem do nível ontológico superior, o da existência. Tal subordinação conduz o pensamento, em última instância, a Deus, o Existente. A metafísica, assim, está toda ordenada para o Ato Puro de Existir.[11]


[1] GILSON, Étienne. L’être et l’essence. 3.ed. Paris: J. Vrin, 2000.

[2] GILSON, L'être et l'essence, p. 91.

[3] GILSON, L'être et l'essence, p. 91.

[4] “Entre ces deux metaphisiques, il semblerait qu’on fût tenu de choisir. On ne voit pourtant pas qu’Aristote l’ait fait […]” (GILSON, p. 84).

[5] “Aristote n’a pas su que le monde n’a pas toujours existé, mais c’est que, identifiant l’être à la substance, il n’avait en effet aucune raison de poser un tel problème » (GILSON, L'être et l'essence, p. 99).

[6] Santo Tomás ensina que nos entes materiais há dupla composição: a composição de matéria e forma e a de essência (id quod est) e existência (id quo est); já os entes imateriais, embora sejam privados da composição de matéria e forma, neles há composição de essência e de existência. Só Deus, Ipsum Esse Subsistens, carece de toda composição e é absolutamente simples.

[7] GILSON, L'être et l'essence, p. 116.

[8] GILSON, L'être et l'essence, p. 116.

[9] “La forme est l’acte ultime dans l’ordre de la substantialité. Si l’esse doit s’y ajouter, ce ne sera pas pour en faire une substance, mais pour faire que cette substance existe » (GILSON, L'être et l'essence, p. 104).

[10] SANTO TOMÁS. Questiones disputatae De potentia, q. VII, a. 2, ad 9.

[11] “Pour interpréter correctement la doctrine de saint Thomas, il importe de garder présente à la pensée cette dualité de plans, tous deux indispensable mais hiérarchiquement ordonnées. On peut dire en effet que tout sa doctrine de l’être porte la marque de cette distinction fundamentale entre l’ordre de l’« être en tant qu’être », qui est celui de la substance, et l’ordre de la cause de cet « être en tant qu’être », que est celui de la existence et, si l’on poursuit le problème jusqu’à son terme, conduit la pensée jusqu’à Dieu » (GILSON, L'être et l'essence, p. 90).
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