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CRISTÃOS E "CRISTIANITAS"

Entrevista com Rémi Brague de Gianni Valente
Rémi Brague, professor de filosofia árabe da Sorbonne e também da Universidade Ludwig-Maximilian, de Munique, sempre gostou de usar as palavras de maneira criativa. Mas talvez não pensasse que um de seus geniais neologismos, escondido nas páginas de um livro escrito já há doze anos, pudesse fotografar com eficácia desarmante os termos da relação entre a fé cristã e a civilização ocidental hoje tão debatidos, mesmo dentro da Igreja.
O livro Europe. La voie romaine - traduzido em quinze línguas, hoje já quase um clássico - foi escrito por Brague em 1992 para documentar de um ângulo original e moderno a contribuição de Roma e da “romanidade” para o florescimento da civilização européia. Mas, naquelas páginas, quase en passant, o professor introduziu também a distinção que existe entre cristãos e “cristianistas”...
Professor, comecemos desse ponto. O senhor define os cristãos como aqueles que acreditam em Cristo. Já os “cristianistas” são aqueles que exaltam e defendem o cristianismo, a civilização cristã...
RÉMI BRAGUE: A palavra “cristianista” talvez não seja muito bonita. Mas não me desagrada tê-la proposto. Antes de mais nada, porque é divertida. E depois porque impele as pessoas a refletirem sobre o que queremos realmente. É claro que aqueles que defendem o valor do cristianismo e seu papel positivo na história me são mais simpáticos do que aqueles que o negam. Eu não pretendo certamente desencorajá-los. Até gostaria que fossem mais numerosos na França. E isso não porque sejam “aliados objetivos”. Mas somente porque o que dizem é verdade. Portanto, obrigado aos “cristianistas”. Eu só gostaria de lembrar a eles que o cristianismo não se interessa por si mesmo. Ele se interessa por Cristo. E o próprio Cristo não se interessa por seu eu: Ele se interessa por Deus, que chama de um modo único, “Pai”. E pelo homem, ao qual propõe um novo acesso a Deus.
Numa determinada valorização do cristianismo segundo uma interpretação ideológico-cultural, não se reapresenta a abordagem já manifestada nos tempos da Action Française?
BRAGUE: A Action Française, depois da Primeira Guerra Mundial, conseguiu atrair cristãos autênticos e inteligentes: Bernanos, por exemplo. Mas a inspiração última do movimento era meramente nacionalista. A França havia sido plasmada pela Igreja. Por isso, eles se diziam católicos, pois queriam ser cem por cento franceses. Seu principal pensador, Charles Maurras, era um discípulo de Auguste Comte; admirava a clareza grega e a ordem romana. Declarava-se ateu, mas católico. A Igreja, para ele, era uma garantia contra “o veneno judeu do Evangelho”. No fundo, era uma idolatria, em seu aspecto pior: pôr Deus a serviço do culto de si mesmo. Quer se trate do indivíduo, quer da nação, a substância não muda. E sempre é preciso sacrificar algo vivo aos ídolos, como a juventude européia, massacrada em Verdun ou em outros lugares.
Há quem reprove na Igreja uma fraqueza ao sustentar certos conteúdos de verdade. Qual é a imagem de Igreja que agrada a eles?
BRAGUE: Para essa gente, a Igreja deve “defender certos valores”, e não pode transigir sobre as regras morais. Mas eles mesmos as seguem? Nem sempre... Eles querem uma organização com uma linha firme, com um “número um” bem estabelecido. No final, eu me pergunto se não sonham com uma Igreja feita nos moldes do Partido Comunista da União Soviética.
Discutem-se muito as raízes cristãs da Europa e, mais em geral, da civilização ocidental. Como o senhor julga a leitura que fazem dessa relação?
BRAGUE: O cristianismo não tem nada de ocidental. Veio do Oriente. Nossos avós se tornaram cristãos. Aderiram a uma religião que no início era estrangeira para eles. As raízes? Que imagem estranha... Por que considerar-se como uma planta? Na gíria francesa, “plantar-se” significa enganar-se, ou cometer um erro... Se querem raízes a todo o custo, então digamos como Platão: nós somos árvores plantadas ao contrário, nossas raízes não estão na terra, mas no céu. Nós somos enraizados naquilo que, como o céu, não pode ser agarrado, foge a qualquer posse. Não se podem fincar bandeiras numa nuvem. E nós somos também animais móveis. O cristianismo não está reservado aos europeus. É missionário. Acredita que qualquer homem tenha o direito de conhecer a mensagem cristã, que todo homem merece se tornar cristão.
O senhor, em seus estudos e em seus livros, descreveu a relação inegável entre o cristianismo e a civilização européia. Como ela aconteceu, de verdade?
BRAGUE: A civilização da Europa cristã foi construída por gente cujo objetivo não era de forma alguma construir uma “civilização cristã”. Nós a devemos a pessoas que acreditavam em Cristo, não a pessoas que acreditavam no cristianismo. Pensem no papa Gregório Magno. O que ele criou - por exemplo, o canto gregoriano - desafiou os séculos. Ora, ele imaginava que o fim do mundo fosse iminente. E, portanto, não teria havido nenhuma “civilização cristã”, por falta de tempo. Ele queria apenas pôr um pouco de ordem no mundo, antes de deixá-lo. Como quando arrumamos a casa antes de sair de férias. Cristo não veio para construir uma civilização, mas para salvar os homens de todas as civilizações. A chamada “civilização cristã” nada mais é que o conjunto dos efeitos colaterais que a fé em Cristo produziu sobre as civilizações que se encontravam em seu caminho. Quando se acredita na Sua ressurreição, e na possibilidade da ressurreição de cada homem nEle, vê-se tudo de maneira diferente e se age em conseqüência disso, em todos os campos. Mas é preciso muito tempo para se dar conta e para realizar isso nos fatos. Por isso, talvez, nós estejamos apenas no início do cristianismo.
O senhor, para descrever o caminho da civilização européia, usou uma fórmula original, a da “secundaridade”. O que pretendia sugerir com essa expressão?
BRAGUE: A expressão talvez seja mal arranjada, mas não encontrei uma melhor do que essa. Em meu livro Europe. La voie romaine, eu a integro com outras fórmulas, como a da “cultura de inserção”, em oposição às “culturas de digestão”. Pretendo dizer apenas que o Novo Testamento vem depois do Antigo Testamento, e os romanos depois dos gregos. Isso não apenas no que diz respeito ao tempo, mas também no sentido de que aqueles que vinham depois percebiam sua dependência com relação ao que os precedia, que constituía um modelo. Os romanos fizeram coisas boas e ruins, como aconteceu a todas as civilizações. Mas é preciso atestar que eles se reconheceram culturalmente inferiores em relação aos gregos, e compreenderam que sua tarefa histórica era também difundir uma cultura que não era a deles. Ser “secundários” significa saber que o que se transmite não provém de si mesmos, e que só é possuído de maneira frágil e provisória. Isso implica, entre outras coisas, que nenhuma construção histórica tem nada de definitivo. Deve ser sempre revista, corrigida, reformada.
Alguns denunciam o “estilo de vida obsceno” do Ocidente, propondo as verdades cristãs como antídoto ao niilismo e ao relativismo que o adoecem. Como o se­nhor julga esses raciocínios?
BRAGUE: Contêm uma parte de verdade. Se fossem totalmente falsos, ninguém os levaria em consideração. É verdade que estamos doentes. E os sintomas mais alarmantes podem ser chamados “relativismo” e “niilismo”. Claro, eles têm algo de bom: tornam impossível a intolerância. Não é possível nem morrer nem matar em nome de algo em que só se acredita relativamente, ou no qual não se acredita absolutamente. O problema é que o niilismo não permite nem viver. Rousseau já o tinha visto bem: o ateísmo não mata os homens, mas impede que eles nasçam. Mas não há necessidade de cristianismo para combater o relativismo ou o niilismo. No fundo, não há mesmo necessidade de combatê-los: eles se anulam por si sós, como uma planta parasita que acaba por sufocar a árvore da qual vive, seguindo-a na morte. O cristianismo seria o antídoto a esses venenos? Eu poria duas questões. Uma de princípio. A outra puramente pragmática.
xplique-se, professor.
BRAGUE: Antes de mais nada, temos o direito de fazer da fé um instrumento? Eu me pergunto também se é sempre justo falar de cristianismo. O sufixo pode ser percebido, erradamente, como designante de uma teoria, como outros “ismos”: liberalismo, marxismo, etc. Santo Agostinho diz em algum lugar: o que existe de cristão entre os cristãos é Cristo. Ser cristãos é estar em contato com uma pessoa. Ora, não se pode transformar uma pessoa num instrumento. A minha segunda pergunta é simples: se utilizar a fé como instrumento é permitido, é, por isso, factível? Funciona assim? Eu diria que sim. Mas não como certos fundamentalistas americanos, que quantificam os efeitos positivos da religião sobre a produtividade dos executivos! Já escrevi sobre isso em meu livro: a fé só produz efeitos quando continua a ser fé, e não cálculo.
No debate sobre as raízes cristãs da Europa, o que o impressionou?
BRAGUE: No debate sobre a citação das raízes cristãs da Europa, eu gostaria de não dar razão nem aos “cristianistas” nem a seus adversários. Comecemos de seus adversários. Eu diria a eles: se querem fazer história, então é preciso chamar as coisas pelo nome, e dizer que as duas religiões que marcaram a Europa são o judaísmo e o cristianismo, e nenhuma outra. Por que limitar-se a falar de herança religiosa e humanista? Um professor de história não se contentaria com essa definição e escreveria em vermelho, na margem: “Vago demais, seja preciso!”. O que me aborrece é o estado de ânimo que nisso se manifesta, ou seja, o impulso tipicamente ideológico de negar a realidade e reescrever o passado. E negar a realidade leva necessariamente a destruí-la. Ao mesmo tempo, eu diria aos “cristianistas”: não é porque o passado foi o que foi que o futuro deva necessariamente se assemelhar a ele. A pergunta justa a se pôr é se a nossa civilização ainda tem o desejo de viver e de agir. E se, mais que cercá-la de barreiras de toda espécie, não seria melhor que lhe fosse doado novamente esse desejo. Para isso, é preciso beber da própria fonte da vida, da Vida eterna.
Santo Agostinho, a quem lhe perguntava por que Jesus ressuscitado não se manifestou também aos inimigos, de modo a eliminar qualquer dúvida quanto à realidade de Sua ressurreição, respondia que, para Jesus, “era mais importante ensinar a humildade a seus amigos que desafiar com a verdade a seus inimigos”. O que sugeriria hoje Agosti­nho a quem fala do testemunho cristão em termos de desafio?
BRAGUE: Não nos enganemos sobre o que quer o Deus de Jesus Cristo. Não é o que nós, nós queremos. O que Ele quer não é esmagar seus inimigos. Mas libertá-los do que os torna seus inimigos, ou seja, uma falsa imagem dEle, a de um tirano ao qual é preciso submeter-se. Ele, sendo livre, só se interessa pela nossa liberdade. Procura curá-la. Seu problema é montar um dispositivo que permita ver curada a liberdade ferida dos homens, de forma tal a poderem escolher a vida livremente, contra todas as tentações de morte que carregam por dentro. Os teólogos chamam a esse dispositivo “economia da salvação”. Dela fazem parte as Alianças, a Igreja, os sacramentos, e assim por diante. O papel das civilizações é indispensável, mas não é o mesmo. E também seus meios são diferentes. Elas devem exercer uma certa coação, física ou social. Já a fé pode apenas exercer uma atração sobre a liberdade, pela majestade de seu objeto. Talvez se pudesse voltar ao que os papas diziam aos imperadores do Ocidente, a respeito da reforma gregoriana, no século XI: não compete a vocês a salvação das almas, contentem-se em realizar seu ofício da melhor maneira possível. Façam reinar a paz.
Fonte: Revista 30 dias

NÃO HÁ NADA A COLOCAR NO LUGAR DO CRISTIANISMO

NTREVISTA
" De acordo com o filósofo e historiador francês Rémi Brague, “Não há nada a colocar no lugar do cristianismo. Ele está longe de ter esgotado suas possibilidades”. A afirmação foi feita em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Brague leciona na Universidade Paris I, Sorbonne, na França. É autor de Europe, la voie romaine, Paris: Critérion, 1992 e A Sabedoria do Mundo. Lisboa: Edições Piaget, 2002, entre outros. No ano passado publicou o livro La Loi de Dieu. Histoire philosophique d’une alliance. Paris: Gallimard, 2005. Ele concedeu uma entrevista publicada na 175ª edição da IHU On-Line, de 10 de abril de 2006. " ENTREVISTA COM REMI BRAGUE: É um absurdo o homem querer criar algo que o ultrapassasse
IHU On-Line - O que é a pós-modernidade? Podemos dizer que o homem do século XXI é pós-humano? Por quê?
Remi Brague - “Pós-moderno” e as palavras que dela derivaram datam de alguns decênios atrás. Cada um as atrai para si e dá-lhes o sentido que deseja. Uma observação somente: o fato de se definir por sua situação depois de alguma coisa é uma atitude tipicamente moderna. Ser “moderno”, quer dizer no fundo crer que se está situado depois de um tempo irrevogavelmente ultrapassado, aquele que chamamos Idade Média. Falar do que é pós-moderno, isto é, depois dos Tempos Modernos, é, de uma certa maneira, mostrar que somos fiéis a esse gesto fundamental da modernidade, e então que ainda não saímos dela. A forma mais conseqüente de ser pós-moderno seria talvez renunciar a crer que o que vem depois é melhor do que o que tínhamos antes. A idéia da pós-humanidade quanto a seu conteúdo não tem muito a ver com a idéia de pós-modernidade. Começou-se a utilizar esse termo faz alguns anos somente, em particular a partir do livro de Fukuyama, Our Posthuman Future (2002). Mas Julian Huxley, o irmão do autor de Brave New World, que foi o primeiro diretor da Unesco, falava desde 1957 de “transumanismo”. O termo pós-humanidade é uma aplicação a mais dessa mania que quer a todo custo se colocar depois... Eu não sei muito se a expressão tem um sentido um pouco coerente. Situa-se ali em baixo das tentativas, sonhos e pesadelos, para refazer o homem a partir do controle presente ou futuro do genoma humano.
IHU On-Line - Como é possível compreender os aspectos positivos e negativos do conceito de pós-humano?
Remi Brague - “Passar além do humano” (transumanar) era já a forma como Dante, no início do Paraíso, caracterizava o dom mais alto da graça divina. O autor diz também que nós não somos mais do que as larvas de onde sairão angélicas borboletas. O que tem de muito positivo é a ambição. Nós não estamos mais no mundo grego: o pecado não é a hybris, a desmedida. Trata-se antes da falta de ambição, o fato de se contentar com pouco, de querer se satisfazer com outra coisa e não com a santidade. Releiamos a esse respeito os Padres da Igreja: eles nos lembrarão a nobreza da natureza humana, certamente recaída sobre o primeiro Adão, mas liberada pelo segundo Adão, o Cristo. O negativo é não ver nada mais depois do humano do que seres que teriam muito mais daquilo que o homem decaído tem: mais orgulho, um cérebro maior, um poder maior sobre a natureza, uma vida mais longa.
IHU On-Line - Podemos aproximar o conceito de pós-humano ao além-do-homem nietzschiano, responsável pela construção de sua vida como obra de arte, sem amarras religiosas e metafísicas?
Remi Brague - A era moderna, a partir do início de século XVII, abriu-se sobre o sonho de uma dominação da natureza pelo homem, de um “reino do homem” (Francis Bacon) tornado “mestre e possuidor da natureza” (Descartes). Nietzsche, no final do século XIX, teve o mérito de reconhecer que “o homem é algo que deve ser ultrapassado” (Zarathustra). Para o humanismo moderno é uma constatação de fracasso. Entretanto, é interessante que o fracasso seja medido quanto ao próprio projeto moderno, com relação ao qual o homem se sente insuficiente. Conserva-se o modelo da dominação para pensar a relação do homem com a natureza, mas o homem, tal como ele é, não seria ainda capaz de assumir essa dominação.
Fazer de sua vida uma obra de arte? Isso soa bem. Só que depende da concepção de arte que se tenha. Plotino falava de “esculpir sua própria estátua”. Isso quer dizer: eu sou o único que posso trabalhar para me transformar; mas essa estátua não deve representar-me, ela deve representar os deuses. A arte moderna rompeu bastante cedo com sua origem religiosa: celebrar o divino, torná-lo visível. Desde o início do século XIX, ela abandonou a idéia de belo em proveito do “interessante”. Atualmente, ela me parece quase totalmente obsessionada pela sede de originalidade. Queremos verdadeiramente que nossa vida seja parecida com certas obras contemporâneas?
IHU On-Line - O senhor recusa a idéia de que o homem pode criar uma transcendência, pois uma transcendência criada, ou horizontal, não é uma transcendência. O que o senhor quer dizer, exatamente, com isso? O pós-humano é aquele sujeito que cria suas próprias transcendências e deixa Deus de lado?
Remi Brague - Na verdade, eu não rechaço nada. Não se pode rechaçar o que é real ou, ao menos, possível. Eu só queria fazer notar o absurdo da idéia segundo a qual o homem poderia criar alguma coisa que o ultrapassasse. Isso seria como sair por si mesmo das areias movediças, puxando os seus próprios cabelos como o barão Münchhausen pretendia fazer. Da transcendência não podemos constatar mais do que a existência. Um sujeito que pudesse criar suas próprias transcendências seria também capaz de destruí-las e de substituí-las por outras. Seria ele que transcenderia todas as suas pretendidas “transcendências”.
IHU On-Line - Em entrevista concedida à nossa revista, em abril deste ano, o senhor afirma que tanto o cristianismo quanto a modernidade estão em crise. O que está sendo erigido em seus lugares?
Remi Brague - É fato que as grandes Igrejas cristãs perdem a sua influência. Isso favorece o surgimento de uma religiosidade irracional. Por sua parte, a modenidade não se leva a si mesma suficientemente a sério. Somente os inocentes continuam acreditando num “progresso” automático para o bem, que seria paralelo aos avanços da ciência e da técnica, que são reais. As pessoas que pensam não acreditam mais nisso. Não defendemos mais o projeto pelas razões positivas, mas pelo medo das conseqüências do seu fracasso. É por isso que nós falamos com o maior cuidado do espectro do “obscurantismo” para poder continuar acreditando nas “luzes”. Não há nada a colocar no lugar do cristianismo. Ele está longe de ter esgotado suas possibilidades. Eu acredito mesmo que elas são infinitas, no sentido próprio desse adjetivo.
IHU On-Line - “O papel do cristianismo e dos cristãos nos próximos anos é simplesmente fazer de modo que haja próximos anos”, disse o senhor nessa mesma entrevista. Como a sociedade pós-humana pode agir para que esses próximos anos existam?
Remi Brague - Entenda-se bem, se o cristianismo e os cristãos desaparecessem, isso não impediria o tempo de passar. Eu queria simplesmente dizer que, estando o destino da humanidade mais e mais nas suas mãos, o problema de saber por que continuar a aventura humana vai ser colocado mais nitidamente. Com base em que legitimar a existência do homem? Isso quer dizer bem concretamente: por que continuar a ter filhos, quer dizer, a chamar a existência, sem evidentemente poder perguntar-lhes a sua opinião, se não podemos garantir a esses seres que serão felizes? Que se continue a gerar filhos como sempre se fez ou que sejam fabricados graças a alguma máquina aperfeiçoada, o problema é o mesmo.Para que o ser tenha o direito de reproduzir-se, é necessário que seja de uma bondade intrínseca, tão imensa que ele valha infinitamente mais do que o nada. A bíblia, e depois dela o cristianismo, confessam que o mundo é, apesar de todas as aparências, bom, porque é a criação de um Deus generoso. O cristianismo tem como primeiro papel afirmar que a vida presente é boa porque ela desemboca na vida eterna.
IHU On-Line - Como fica a ética num mundo pós-humano? É possível ainda pensar numa ética nesse contexto?
Remi Brague - A ética define o campo intermediário entre a razão teórica (digamos para simplificar: a faculdade que é capaz da matemática) e tudo o que diz respeito à nossa animalidade. É por esse campo intermediário que a razão pode influenciar nossa ação e não deixá-la à mercê dos instintos, dos desejos, das paixões. Se ele desaparecer, obteríamos o que C. S. Lewis chamava a “abolição do homem”: ficariam, de um lado, os anjos ou os computadores, do outro lado, os animais. Se um tal mundo fosse possível, a ética não poderia simplesmente existir, já que, no mundo subumano, existem pedras, plantas e animais. Um mundo pós-humano seria um mundo pós-ético.
IHU On-Line - A pós-modernidade seria uma exacerbação existencialista, falando do pressuposto da existência antes da essência?
Remi Brague - Melhor seria esquecer de uma vez esse slogan de Sartre, “a existência precede a essência”, que não é apenas mais do que um contra-senso sobre Heidegger. Parece-me em todo o caso que a genealogia da pós-modernidade é mais complexa.
IHU On-Line - De que maneira a liberdade e o determinismo podem ser relidos a partir do pós-humano ?
Remi Brague - Eles se conjugam de uma maneira perversa. O pós-humano poderia significar que o homem hoje é totalmente “livre”, mas que ele é livre de “determinar” como ele quiser as gerações futuras. Elas viveriam, então, numa total ausência de liberdade e não seriam mais do que a realização de um plano ou de um projeto exterior a elas. O mais horrível é que a liberdade dos planejadores não seria, segundo a concepção tradicional de liberdade, o poder de escolher o bem. Essa liberdade que alcança a sua pureza máxima na ética. Mas a “liberdade” dos planejadores seria pura vontade de poder, pura embriaguez de criar sem medidas. Desejaríamos nós ser o produto desse tipo de coisas? Isso seria realizar o pesadelo dos gnósticos dos primeiros séculos da era cristã: serem as criaturas prisioneiras de um operário cruel.
Fonte: Revista IHU

CRISE DO JORNALISMO: SUBSTITUIR VERDADE POR LUCRO

Um comunicador analisa a situação à luz de uma mensagem do Papa
Por Carmen Elena
ROMA, segunda-feira, 27 de abril de 2009 (ZENIT.org).- Nos últimos meses, «na imprensa, a notícia é precisamente a crise da imprensa», considera o professor Diego Contreras, decano da faculdade de comunicação social da Pontifícia Universidade da Santa Cruz em Roma. O docente apresentou sua palestra «O jornalismo online: repensar a indústria da mídia ou repensar a profissão?», durante o congresso «Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade», que se realizou em 23 de abril na Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. Neste evento acadêmico, jornalistas e teóricos da comunicação se reuniram para analisar a mensagem do Papa Bento XVI durante as XLIII Jornada Mundial das Comunicações Sociais, que foi publicada em 23 de janeiro passado e cujo tema central foi o das novas formas de comunicação entre os pertencentes à chamada «geração digital», os nascidos nesta nova era da comunicação.
A crise do jornalismo na era digital
Contreras assegurou que a primeira crise que a internet traz ao jornalismo é a econômica, devido à ausência cada vez mais notória de avisos publicitários nos meios impressos. «Nas últimas décadas, não se buscou um modelo empresarial específico, mas se tratou a informação como qualquer produto de consumo», assegurou. «Também muitas empresas jornalísticas estão cotadas na bolsa e pretendem maximizar os lucros, buscam a qualquer custo a rentabilidade a curto prazo», assinalou o professor. A segunda crise, disse, está «determinada pela influência da internet», que não só modificou a informação jornalística, «mas todos os conteúdos de mídia». Assinalou como os novos meios de comunicação mudaram os hábitos de consumo de informação das novas gerações: «O público entre os 18 e 34 anos se informa através de canais alternativos à imprensa tradicional, como as redes sociais, os blogs, os sites portais ‘agregadores’ de informação.» A imprensa reagiu a este desafio criando edições digitais. Contudo, a maneira de financiá-las é um tema ainda não resolvido, reconheceu o docente. «Por enquanto, a versão tradicional dos jornais continua produzindo uma utilidade dez vezes superior à da visão digital – assinalou o professor Contreras. Contudo, enquanto os ingressos da mídia tradicional decrescem, os dos meios digitais não crescem com a mesma rapidez.»
Substituir verdade por lucro
Outra crise, precedente à aparição da internet, é a da identidade da profissão jornalística e que em muitos casos «substituiu a verdade com os lucros, a equanimidade com os interesses partidistas, a razão com o servilismo». Reconheceu que a revolução digital agrega a esta crise um novo dado: «os cidadãos comuns hoje têm mais poder que nunca para produzir e distribuir informações». Parece, constatou, que as pessoas «já não têm necessidade da imprensa como antes, porque estão disponíveis muitos outros canais de informação». Para enfrentar esta situação, muitos jornais abriram canais de participação ao público, recuperando a expressão de «jornalismo cívico». «Este intento é fruto de boas intenções, mas às vezes parece só uma operação de marketing dirigida a aumentar o número de visitadores do site do jornal», assegurou o docente. Assim, o jornalismo de hoje enfrentou o de ontem com novos pontos de comparação: «o analógico (a edição impressa) contra o digital; o gratuito contra o serviço pago, o profissional contra o cívico». Assinalou como no antigo modelo de jornalismo, «a informação era escassa, custosa, institucional, orientada ao consumo». Também «a distribuição era unidirecional e era pouca a participação do público». Enquanto agora «a informação é abundante, gratuita ou barata, pessoal, participativa, a distribuição vai de muitos a muitos e o público se converteu em um usuário ativo». Por isso, assegurou que é «imprescindível encontrar uma saída econômica sustentável para as empresas que fazem jornalismo. Mas também as redações deverão sofrer uma re-estruturação profunda». Contreras concluiu sua intervenção dizendo que é possível que as empresas editoriais encontrem novas maneiras de sustentar-se e de adaptar-se aos novos desafios, mas esclareceu que «a sociedade não tem necessidade de um determinado tipo de jornal, mas de uma informação profissional e confiável sobre os eventos que merecem ser conhecidos quando ajudem a viver e a melhorar a sociedade na qual vivemos». «Mudarão e estarão mudando costumes, formas, suportes e linguagens, mas a razão de ser do jornalismo continuará sendo a mesma», assinalou.

PROFESSORES DE RELIGIÃO, EXEMPLOS DE LAICIDADE POSTIVA

Discurso aos professores da Itália
CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 27 de abril de 2009 (ZENIT.org).- Bento XVI apresentou o trabalho dos professores de religião nas escolas públicas ou privadas como um exemplo do «espírito positivo de laicidade». Ele refletiu sobre a vocação destes homens e mulheres que dão sua vida para transmitir nas escolas os fundamentos da fé cristã, ao receber os participantes do encontro de professores de religião católica da Itália, que aconteceu em Roma nos dias 23 e 24 de abril, com o tema: «Não me envergonho do Evangelho» (Romanos 1, 16). Por uma cultura ao serviço do homem». «Longe de ser uma interferência ou uma limitação da liberdade, vossa presença é um valioso exemplo desse espírito positivo de laicidade que permite promover uma convivência civil construtiva, fundada no respeito recíproco e no diálogo leal, valores dos quais um país sempre tem necessidade», disse o Papa em seu discurso. No encontro, celebrado na Sala Paulo VI do Vaticano, o bispo de Roma se deteve a analisar a relação particular que muitas vezes se cria entre o professor de religião e alguns alunos. «É significativo que os jovens se mantenham em contato com ele também depois dos cursos», constatou. «O elevadíssimo número de quem escolhe esta matéria é também sinal do valor insubstituível que reveste no caminho formativo e um índice dos elevados níveis de qualidade que alcançaram», acrescentou. Esta matéria, disse, não só oferece conhecimento úteis, «favorece a reflexão sobre o sentido profundo da existência». «Isso é possível porque este ensino põe no centro a pessoa humana e sua inviolável dignidade, deixando-se iluminar pela experiência única de Jesus de Nazaré, de quem busca investigar sua identidade, que não deixa de interrogar os homens dsde há dois mil anos», sublinhou. «Graças ao ensino da religião católica, a escola e a sociedade se enriquecem com verdadeiros laboratórios de cultura e de humanidade, nos quais, decifrando a contribuição significativa do cristianismo, capacita-se a pessoa para descobrir o bem e para crescer na responsabilidade», afirmou. Para isso, o Papa explicou que o professor de religião não só deve estar devidamente capacitado a nível humano, cultural e pedagógico, mas antes de tudo tem a vocação «de deixar transluzir que o Deus do qual falais nas salas constitui a referência essencial de vossa vida». O Papa se despediu desejando aos professores «que o Senhor vos dê a alegria de não envergonhar-vos nunca de seu Evangelho, a graça para vivê-lo, a paixão para compartilhar e cultivar a novidade que emana dele para a vida do mundo».
Fonte: Zenit

REALIDADES DA IGREJA DO BRASIL

Com a experiência de consultor da Sagrada Congregação para o Clero, Padre PauloRicardo, em uma entrevista, expõe sua visão sobre realidades da Igreja no Brasil:
(...)
REPORTER: Em seu site, o senhor afirma que a Igreja Católica no Brasil sofre de “AIDS Espiritual”. Por quê?
Padre Paulo Ricardo: Para entendermos a “AIDS espiritual”, precisamos entender a AIDS física. Ela é uma deficiência que torna o corpo incapaz de “soar o alarme” e dizer que tem algum elemento agressor em nosso corpo, o qual está nos fazendo mal. O sistema imunológico trata o vírus como amigo, e “chama” aquilo que lhe faz mal de amigo. A Igreja no Brasil está doente por causa de uma mania chamada “politicamente correto”, ou seja, nós não queremos chamar o mal de mal. Por exemplo, nós já não queremos dizer que o homossexualismo é algo que precisa ser curado porque isso não é “politicamente correto”. Todo mundo fica com medo de ser processado pelo “movimento gay”; e isso intimida a todos. Nós vivemos numa época em que os maus têm uma arrogância, um destemor, mas nós, que estamos lutando para o bem, somos tímidos. Com isso, é claro que a maldade só poderia crescer como uma “AIDS Espiritual”, mas antes de irmos contra ela, precisamos dar-lhe o nome correto, por mais feio que seja, e identificar essas dificuldades.
REPORTER: A AIDS física não tem cura. E a “AIDS espiritual” tem? Como combatê-la?
Padre Paulo Ricardo: Ela tem cura sim, mas é necessário que a pessoa tenha um amor pela verdade maior do que pela harmonia, pela paz. Atualmente, nós não somos amantes da paz como Jesus nos pede: “Bem-aventurados aqueles que promovem a paz”. Ao contrário, nós somos irenistas, ou seja, queremos colocar “panos quentes” em tudo. É necessário que nosso amor pela verdade seja maior do que pela tranqüilidade. A pessoa que ama a verdade, abraça-a mesmo que ela doa. Jesus disse que a verdade nos libertará, mas Ele não disse que promovê-la seria prazeroso. Quando eu me encontro com a minha verdade de pecador, isto pode ser extremamente doloroso, mas é uma dor que redime, que salva, porque atrás dela há uma ressurreição.Nós, cristãos, não somos masoquistas, não gostamos de sofrer, mas, às vezes, existe algo mais valioso do que a tranqüilidade que estamos vivendo. Na verdade, isso é uma crise de valores, uma crise axiológica, ou seja, uma crise em que os valores estão fora de lugar, e não são os mesmos de antes. Nós colocamos como supremo valor a nossa tranqüilidade e o nosso bem-estar.
REPORTER: Há erros doutrinários que assolam o Brasil hoje?
Padre Paulo Ricardo: O mais trágico, hoje, na Igreja do Brasil é que nós estamos deixando Jesus de lado. Não que a Igreja Católica em si O esteja deixando de lado, mas existem pessoas e tendências dentro dela que estão fazendo isso. Por exemplo, com essa coisa do “pluralismo religioso”, do “macro-ecumenismo”, Jesus se tornou um grande incômodo. E não sou eu que digo isso, quem diz isso é o Papa Bento XVI num livro, que ele escreveu quando ainda era sacerdote, no final da década de 60, chamado “Introdução ao Cristianismo”. Nesta obra, ele diz que Jesus se tornou um grande incômodo porque, - se querem unir as religiões -, Jesus é aquele que nos divide em cristãos e não-cristãos.
Fica muito mais fácil pregar essa beleza de que Deus é Pai, é maravilhoso e deixar Jesus de lado, com o pretexto de que Ele está nos incomodando e nos dividindo. Eu conheço padres que são capazes de falar horas a respeito de Deus sem pronunciar a palavra Jesus, porque Ele está sendo, aos poucos, inconscientemente, deixado de lado por eles.
REPORTER: Então Jesus incomoda mais do que Deus?
Padre Paulo Ricardo: Sim, porque um Deus que não se fez carne é um Deus que eu posso mais facilmente manipular. Mas um Deus que se fez carne, que tem uma história que eu não posso negar, este não dá para eu manipular, por isso Ele incomoda. Só para se ter uma idéia, existem livros publicados aqui no Brasil com os seguintes títulos: “Jesus, símbolo de Deus”. Pense bem! Quer dizer, para muitos, Jesus não é Deus, Ele é só símbolo de Deus. Outro livro: “A Metáfora do Deus Encarnado”. Para quem não entendeu a palavra metáfora, ela está dizendo que o fato de que Deus se encarnou e se fez homem, é somente uma comparação, é poesia, e que, de fato, Deus não se encarnou. Só a partir dos títulos desses dois livros, você já imagina que tipo de coisa está sendo publicada no Brasil e utilizada em faculdades teológicas “à luz do dia”, sem ninguém dizer nada.Uma Igreja que não se levanta para absurdos como esses, não é uma Igreja que “sofre de AIDS”? Nós precisamos chamar o mal de mal e a heresia de heresia!
REPORTER: Quais livros o senhor indica a quem deseja se aprofundar nesses assuntos?
Padre Paulo Ricardo: Os livros, de uma forma geral, do professor Felipe Aquino são extraordinários e conhecidos entre nós. Outros, que eu posso citar, são os livros do Santo Padre Bento XVI, e outros dois que, infelizmente, são pouco publicados aqui no Brasil: “A fé em crise” e “O sal da terra”. São entrevistas que fazem uma radiografia da crise da Igreja nos tempos atuais. Eles fazem um diagnóstico preciso e extraordinário daquilo que a Igreja vive atualmente. Existe uma série de tentativas da grande mídia internacional de lançar uma “cortina de fumaça” entre os fiéis e a figura de Jesus para impedí-los de ter um contato direto com o Jesus dos Evangelhos. A teologia liberal impede os cristãos de entrar em contato com Cristo, porque, segundo ela, Ele não fez milagres, não multiplicou pães, não curou leprosos, nem ressuscitou. Coisas absurdas assim são ditas em faculdades de Teologia. Mas o Sumo Pontífice, atento às necessidades do mundo moderno, vai lançar um livro, no primeiro semestre deste ano de 2007, sobre Jesus Cristo, cujo título vai ser “Jesus de Nazaré, do batismo no Jordão até a transfiguração”. Bento XVI é o maior teólogo vivo da atualidade. Sem dúvida nenhuma, este livro nos dará acesso ao Jesus dos Evangelhos.
(...)
REPORTER: João Paulo II nomeou o senhor, em 2002, como consultor da Sagrada Congregação do Clero em assuntos de Catequese. Qual é a sua missão nesse sentido?
Padre Paulo Ricardo: Trata-se do Conselho Internacional de Catequese. São sete pessoas do mundo inteiro escolhidas pela Santa Sé para aconselhar o Vaticano em termos de catequese. Em 1992, a Igreja Católica publicou o Catecismo da Igreja Católica. Em 2002, foi convocado um Congresso Internacional de Catequese no Vaticano, onde estavam presentes vários cardeais especialistas em catequese do mundo inteiro, inclusive o então cardeal Ratzinger.Fui convidado a fazer uma preleção a respeito da situação da catequese no Brasil. Uma das coisas que eu disse, e que repito agora, é que a catequese no Brasil precisa mudar, porque, infelizmente, muitas pessoas ligadas à mentalidade da “Teologia da Libertação” quiseram fazer da catequese um instrumento de transformação social. Para essas pessoas, a finalidade dela [catequese] não é instruir o cristão na fé, mas lhe transmitir valores sociais para implantar o socialismo. As crianças e jovens que chegam à recepção dos sacramentos não têm a mínima idéia do que seja a fé verdadeira e as principais doutrinas da Igreja, porque a catequese brasileira está obcecada com a transformação social. O problema é que a catequese foi criada para fazer bons cristãos, mas esses senhores de tendências marxistas têm “na agenda deles” que o importante é transformar a sociedade e trazê-la mais próxima do socialismo. Assim, “vende-se” a catequese para esse tipo de finalidade, que não é a finalidade da própria natureza da obra catequética.

GALILEU E VATICANO: CASO NUNCA ARQUIVADO

Revelações de um novo livro
Por Mercedes de la Torre
ROMA, sexta-feira, 24 de abril de 2009 (ZENIT.org).- Neste ano dedicado à Astronomia, está à venda na Itália o livro «Galileu e o Vaticano», de Mariano Artigas e de Melchor Sánchez de Toca (editora Marcianum Press). O texto percorre a obra da comissão de estudo do caso Galileu Galilei, promovida por João Paulo II de 3 de julho de 1981 a 31 de outubro de 1992, ano do 350º aniversário da morte de Galileu. O cardeal Paul Poupard, presidente emérito do Conselho Pontifício para a Cultura, coordenou as investigações desde o princípio até o final. O trabalho multidisciplinar foi levado a cabo por especialistas que trabalharam sobre quatro linhas diferentes, e respondia a uma orientação sugerida pelo Concílio Vaticano II, concluindo com um importante discurso de João Paulo II. O cardeal Poupard explicou sua experiência sobre este caso em declarações a Zenit: «O Papa João Paulo II tinha a preocupação de esclarecer uma imagem frequentemente má da Igreja na opinião pública, já que para muitos crentes a Igreja seria a inimiga da ciência». «À medida que se foi adiantando nos estudos, em minha tarefa pela parte cultural, compreendeu melhor como se manipulou tudo isso, sobretudo por parte do Iluminismo, convertendo-se em uma arma contra a Igreja», comentou. «É muito difícil ir contra as pseudoevidências – afirma o cardeal Poupard – e isto comprovei à medida que trabalhava neste campo. No final, tive de coordenar um pouco os demais trabalhos de exegetas, historiadores, cientistas e outros.» O prólogo ao texto é obra do presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, o arcebispo Gianfranco Ravasi, que confiou a Zenit o interesse que a Igreja tem em desmistificar o caso Galileu do ponto de vista cultural. «O princípio fundamental – afirma Dom Ravasi – é o de conseguir, como já dizia João Paulo II, purificar a memória, eliminando os erros que se podem reconhecer também por parte da comunidade eclesial e, sobre essa base já purificada, poder construir um futuro diferente de diálogo, que considero que é fundamental, porque agora temos adiante muitos desafios, e estes com frequência se enfrentam só em chave polêmica, e não com um verdadeiro e autêntico diálogo.» Efetivamente – acrescenta –, é necessário dizer que Galileu era um grande crente, e que disse coisas muito importantes do ponto de vista da teologia, do método teológico, do método exegético. Precisamente sobre esta base, surpreende um pouco que ainda se utilize precisamente Galileu como uma espécie de bandeira contra a fé». «Na realidade, seu caso estudado corretamente pode ser julgado evidentemente de forma negativa, e pode ser por isso considerado como uma lembrança do passado que deve ser apagada – acrescenta Dom Ravasi. Por outro lado, contudo, é necessário reconhecer que o Galileu de hoje em diante pode converter-se em um apelo constante para um diálogo melhor e mais fecundo entre ciência e fé, ele que foi vítima.» Nisso, a obra pode ser de grande atualidade, conclui Dom Ravasi, porque é uma «história da comissão criada por João Paulo II partindo de documentos de arquivo inéditos. Uma história completa e exaustiva a partir de textos originais». Um dos autores de «Galileu e o Vaticano», Dom Melchor Sánchez De Toca e Alameda, subsecretário do Conselho Pontifício para a Cultura, explicou a Zenit que «na realidade, o caso de Galileu nunca foi abandonado. Sempre esteve aberto». «O que João Paulo II quis fazer – explicou – foi convidar a Igreja a ver este caso, e sobretudo convidar toda a comunidade científica e a Igreja a eliminar os obstáculos do passado, os obstáculos que continuam fazendo de Galileu uma espécie de ícone, um mito, que a consciência de muita gente vê como o símbolo de uma contradição entre a ciência e a religião.» «Creio que o melhor resumo pode ser encontrado na atitude e nas palavras de João Paulo II em seu discurso de 31 de outubro de 1992, quando concluiu os trabalhos desta comissão que ele mesmo havia constituído.» «A Igreja reconheceu os erros do passado, os erros dos juízes de Galileu – admitiu. É necessário deixar de olhar o passado para olhar o futuro. O tribunal da história não pode estar sempre aberto em sessão permanente.»
Fonte: Zenit

BENTO XVI DENUNCIA COBIÇA COMO RAIZ DA CRISE ATUAL

Neste tratado sobre "conflito entre vícios e virtudes", Autperto contrapõe à cupiditas (a avidez) o contemptus mundi (o desprezo do mundo), que se torna uma figura importante na espiritualidade dos monges. Este desprezo do mundo não é um desprezo da criação, da beleza e da bondade da criação e do Criador, mas um desprezo da falsa visão do mundo que nos foi apresentada e insinuada precisamente pela avidez. Ela incute em nós que "ter" seria o máximo valor do nosso ser, do nosso viver no mundo aparentando ser importantes. Deste modo falsifica a criação do mundo e destrói o mundo. Autperto observa depois que a avidez de lucro dos ricos e dos poderosos na sociedade do seu tempo existe também no interior das almas dos monges e portanto escreve um tratado intitulado De cupiditate, no qual, com o apóstolo Paulo, denuncia desde o início a avidez como raiz de todos os males. Escreve: "Do solo da terra diversos espinhos agudos surgem de várias raízes; no coração do homem, ao contrário, as picadas de todos os vícios provêm de uma só raiz, a avidez" (De cupiditate 1: CCCM 27b, p. 963). Realce, este, que à luz da actual crise económica mundial, revela toda a sua actualidade. Vemos precisamente que esta crise nasceu desta raiz da avidez. Ambrósio imagina a objecção que os ricos e os poderosos poderiam aduzir dizendo: mas nós não somos monges, para nós certas exigências ascéticas não são válidas. E ele responde: "É verdade o que dizeis, mas também para vós, na maneira da vossa categoria e segundo a medida das vossas forças, é válido o caminho rípido e estreito, porque o Senhor propôs só duas portas e dois caminhos (ou seja, a porta estreita e a larga, o caminho rípido e o cómodo); não indicou uma terceira porta e um terceiro caminho" (L.C., p. 978). Ele vê claramente que os modos de viver são muito diversos. Mas também para o homem neste mundo, inclusive para o rico, é válido o dever de combater contra a avidez, contra a vontade de possuir, sobressair, contra o conceito falso de liberdade como faculdade de dispor de tudo segundo o próprio arbítrio. Também o rico deve encontrar o caminho autêntico da verdade, do amor e assim da via recta. Portanto, Autperto, como prudente pastor de almas, sabe depois dizer, no final da sua pregação penitencial, uma palavra de conforto: "Não falei contra os ávidos, mas contra a avidez, não contra a natureza, mas contra o vício" (L.C., p. 981).
PAPA BENTO XVI AUDIÊNCIA GERAL Praça de São Pedro
Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

AMAR A HUMANIDADE, DESPREZAR O PORÓXIMO

Diário de Notícias,
Por João César das Neves
Acaba de sair a edição portuguesa de um dos livros mais reveladores do nosso tempo. Publicado em 1988, Intellectuals, de Paul Johnson, não perdeu relevância e dramatismo nos 20 anos que o separam da sua tradução (Intelectuais, Guerra & Paz, Lisboa, 2009). A obra consta apenas de doze pequenas biografias, mas a breve colecção inclui algumas das principais figuras dos últimos 200 anos e alguns dos maiores safados, crápulas e bandidos que se pode imaginar. Notável é que as personagens são as mesmas em ambos os casos. Johnson mostra à evidência como os intelectuais que inspiraram o mundo contemporâneo foram terríveis patifes na sua vida privada.
A lista é impressionante. Jean-Jacques Rousseau, Karl Marx, Bertrand Russell e Jean-Paul Sartre, entre outros, aparecem culpados dos comportamentos mais infames, enganando mulheres, desprezando filhos, aldrabando amigos, roubando, seduzindo, manipulando tudo e todos. O elemento comum é um paroxismo de egoísmo e arrogância. Estes onze homens e uma mulher vivem totalmente autocentrados, usando escandalosa e vergonhosamente os outros para proveito próprio.
Qual a relevância destas informações e mexeriquices? Todos sabemos que os génios costumam ser exóticos e inconvenientes, e todos os desculpamos pela sua grandeza. É razoável perdoar-lhes os pecadilhos pelas maravilhas que fazem. Que importa a vida pessoal de Mozart ou Edison, de Newton ou Rembrant ao lado da herança majestosa que deixaram? Mesmo entre os nomes referidos, a análise económica de Marx ou os teoremas de Russell não sofrem pelo mau carácter dos seus autores. Será Johnson um oportunista, denegrindo grandes nomes com acusações mesquinhas?
O que o autor capta nestes doze casos é algo muito diferente. Estas pessoas não foram escolhidas pelas realizações científicas ou artísticas, mesmo quando as tiveram, mas pela influência intelectual. Foi como inspiradores morais, oráculos políticos, reformadores sociais que estes nomes pontificaram, e ainda pontificam, acima dos demais. Num tempo sem fé, Tolstoi, Shelley, Ibsen ou Brecht, além dos já referidos, foram venerados como sumo sacerdotes de um mundo mais elevado e perfeito, luminárias do homem novo. Os outros, Hemingway, Edmund Wilson, Victor Gollancz e Lilliam Hellman marcaram a moda e arbitraram o gosto na sua geração, enquanto todos se enredavam numa degradação ética e humana quase repelente. Ou eram incoerentes com as suas ideias ou estas escondiam horrores inconfessáveis. Em qualquer dos casos tais observações biográficas são muito relevantes para a interpretação da obra.
A razão profunda da contradição é, ela mesma, decisiva. Todos estes pensadores colocaram uma ideia abstracta acima da vida real daqueles que os rodeavam. A sua teoria, o seu génio, eram superiores a parentes, amigos, honestidade, honradez, decoro, simples decência. Esta é a origem do crime. E da obra. Em todos os relatos surge sucessivamente um mesmo tema: o amor à humanidade. É notável como todos estes grandes autores estão apaixonados pelo género humano. Mas o ideal abstracto acompanha um profundo desprezo pelas pessoas concretas que os rodeiam. Amam a humanidade e abominam a gente.
Um caso exemplar é Rousseau, profeta inspirador da cultura moderna. A listade trafulhices, indignidades e oportunismos da personagem é infinda. Mas um caso é bem simbólico. Entre muitos temas, o filósofo francês debruçou-se em vários das suas obras sobre a importância decisiva da educação das crianças, apresentando visões inovadoras, sobretudo no tratado Émile, ou De l'éducation (1762), considerado um dos grandes textos primitivos sobre o tema. Vale a pena saber que ele abandonou na miséria os filhos que teve das suas múltiplas amantes, nunca assumindo a responsabilidade por qualquer deles.
Vivemos num tempo que colocou ideais acima das pessoas. Aliás, aqueles que desprezam as críticas deste livro pela admiração da obra dos visados são eles mesmos vítimas do mesmo vício intelectual: a terrível tentação de amar uma ideia mais que o próximo.
João César das Neves

O HOMEM PLENO ESTRUTURA SUA VIDA SOBRE PRINCÍPIOS ÉTICOS

"A afetividade deve ser acompanhada de uma racionalidade responsável, que só pode nascer de uma verdadeira espiritualidade. O homem pleno estrutura sua vida sobre princípios éticos que são superiores ao desejo imediato. Ser pai e ser mãe é uma coisa maravilhosa, mas deve ter um lastro espiritual. Caso contrário, não se resistirá aos ídolos modernos do consumismo, do sexismo desenfreado e da violência.
(...)
O homem é capaz de superar a si mesmo. Conheci no Brasil e na Europa crianças que nasceram de mãe solteira, tiveram seus sofrimentos – e não poucos –, mas foram apoiadas. Mas, justamente porque esse é um problema tão grande e complexo, não quero propor uma solução simplória. O aborto é um colapso do ser humano. A pílula é uma solução simplória. O que não se deve é dizer: "Vamos tomar pílulas para não ter filhos". Dessa forma as pessoas querem resolver um problema profundamente humano com um martelo ou com fogo e faca. Essa pílula do dia seguinte também é, normalmente, uma matança de um ser concebido. Deve-se promover a paternidade responsável. O problema é que querem ter o prazer, mas nenhum dever. Em muitas escolas se ensina que sexo é para usar. Sexo é aberto para uma profunda responsabilidade para com o outro e para com a vida. Pode e deve ser fonte de felicidade. O egoísmo do sexo não só degrada e esvazia a pessoa como ameaça a existência de um povo. Não se quer ter dois ou três filhos. Eventualmente se quer um. E é sabido que, abaixo de 2,2 filhos por casal, se caminha para a morte da humanidade.
(...)
O aborto é um problema emocional, humano, muito maior que a maior pobreza. Tantas mulheres que cometeram esse ato continuam sofrendo depois de décadas, e esse sofrimento não se curará facilmente. A sociedade pode, deve dar sua contribuição para que elas não precisem chegar a isso. Se os países investissem mais na família, economizariam centenas de milhões de dólares em outros setores. Não precisariam, por exemplo, manter tantas prisões com gente estragada pela sociedade, pela vida. Muita gente que, por não ter um dia as mínimas condições de viver, de se formar, caiu no banditismo. Diversos países descobriram, por exemplo, que é melhor destinar diretamente às mães uma parte do dinheiro que seria gasto com a construção de creches. Assim elas podem ficar em casa e educar seus filhos.
(...)
Houve uma mudança cultural no mundo. Há cinqüenta anos, uma pessoa que aprendia a ser carpinteiro não mudava de profissão. O indivíduo era feliz de ter chegado a esse pequeno porto para amarrar sua barca. Hoje, o sujeito estuda medicina, mas é capaz de mudar para biologia, para pesquisa pura. Por um lado isso é bom, mas gera outros problemas. A questão é que, com a multiplicação de ofertas a que o homem se acostumou, ele perdeu o hábito de fazer uma opção para sempre. Os motivos podem ser mais profundos, claro. Mas o fato é que antigamente, quando alguém se casava e chegava o momento da crise, não era fácil descasar-se. Hoje muita gente já nem se comove com a ruína do casamento. O que se perde nesse processo não são apenas os valores eternos, mas a capacidade de a pessoa se autoquestionar. O próprio homem se tornou, ao mesmo tempo, sujeito e objeto de consumo. "

CAMISINHA - O USO DE PRESERVATIVOS E A IGREJA CATÓLICA

Caríssimos irmãos e irmãs : hoje gostaria de ter com vocês uma conversa amigável. Somos uma família. Uma família mais unida do que julgam aqueles que não nos conhecem. E na família há esses momentos gostosos de conversa depois do almoço, na varanda, no quintal ou na sala tomando um cafezinho. Desejaria, agora, se vocês me permitissem, entrar no seu lar, sentar-me ao lado de vocês e, num cálido ambiente familiar, ir falando daquilo que me preocupa e que penso ser motivo de preocupação e de perplexidade para vocês, como fazem os irmãos entre si, os pais com os filhos, os filhos com os pais e os amigos de verdade. É provável que esse nosso encontro se prolongue por um certo. É bom que seja assim. Deste modo, tudo o que gostaria de lhes comunicar, penso, ficará claro e, provavelmente, a partir dessa nossa conversa, vocês sairão mais esclarecidos e se sentirão mais fortalecidos para abordar esse tema com os seus filhos, vizinhos, amigos e irmãos na fé. Ultimamente, têm aparecido nos jornais, revistas e televisão – inclusive num programa de grande audiência – ataques à nossa grande família que é a Igreja, chamando-a de “retrógrada” e “medieval”, e tratando o Cardeal Alfonso López Trujillo, que trabalha no Vaticano como Presidente do Pontifício Conselho para a Família, de uma maneira afrontosa. Culpam-no, erradamente, de não ter apresentado nenhuma pesquisa sobre a ineficácia dos preservativos. Também por esta razão, vi-me obrigado a citar bastantes pesquisas sobre esta matéria. Trabalhos estes que também são do conhecimento de Dom Alfonso. Os questionamentos Alguns meios de comunicação questionam: como é possível que a Igreja não recomende o uso dos preservativos ? Não é este o método mais eficaz para deter o avanço dessa doença que está se convertendo numa verdadeira epidemia endêmica de âmbito planetário ? “A Igreja nega o óbvio”, apregoa a manchete de um importante jornal paulistano ... Talvez nós, que amamos a Igreja, nos sintamos constrangidos quando o Ministério da Saúde, ou a Organização Mundial da Saúde ( OMS ), expressa opiniões semelhantes. Vamos, por isso, raciocinar juntos num âmbito familiar . Muitos de nós já enviamos a diferentes jornais artigos e cartas que tentavam esclarecer o problema. Mas ou não os publicam ou os publicam fracionados ou incluídos num contexto que os desfigura. E é por isso que sinto necessidade de abrir o coração e falar agora, sem entraves, à nossa querida família cristã. Esta é a razão de ser desta carta familiar. Num clima sereno, sem polêmicas, irei deixando fluir os meus pensamentos, procurando que prevaleça o bom senso e a ponderação. A OMS parte de um fato: os costumes atuais não seguem as normas tradicionais, em que as relações sexuais estão destinadas a consumar um amor estável dentro do matrimônio onde, como fruto desse amor, hão de vir os filhos, criados e educados dentro desse âmbito familiar. Isto, porventura, poderia ser considerado como o “ideal” mas – argumenta-se – não podemos viver de “idealismos” , mas de realidades. E a realidade é bem diferente. Os jovens começam a ter relações sexuais antes do matrimônio; muitos não se cansam, e mantêm relações eventuais e transitórias; as moças jovens com freqüência deixam-se levar pelos seus impulsos e sentimentos, não se vive a fidelidade conjugal ... Há, enfim, em não poucos ambientes, um clima de permissividade ou até de promiscuidade, bem diferente de um eventual e teórico “ideal”. E é preciso encarar essa realidade, deixando de lado certos princípios, que estão sendo ultrapassados pelo progresso das ciências e das descobertas dos fármacos anticoncepcionais e dos preservativos. A verdade é que a Igreja está fora da realidade. Continua-se argumentando: Qual é o método mais seguro, barato e de fácil divulgação ? O preservativo. Mas o preservativo não tem falhas ? Alguns representantes do Ministério da Saúde e da OMS dizem taxativamente que não. Outros, contudo, admitem que elas existem, mas argumentam deste modo: admitamos que os preservativos tenham 10% de ineficácia, mas este risco é muito maior tenham 10% de ineficácia, mas este risco é muito maior quando eles não são usados; então o risco é de 100 % . É por esta razão que recomendamos o preservativo. Um cientista, num importante jornal do Rio de Janeiro, alega que as vacinas contra o sarampo e a pólio também não imunizam 100 % . E nem por isso se pensa na possibilidade de não usá-las ou de fazer campanhas chamando a atenção para isso, sob pena de incentivar a rejeição das vacinas que praticamente erradicaram aquelas doenças. Estes argumentos parecem tão contundentes que não poucos católicos ficam perplexos. Talvez não cheguem a contradizer abertamente a posição da Igreja, mas ficam com dúvidas ou acuados ou, pelo menos, fragilizados. Esclarecimentos necessários Devemos, contudo, ponderar que a Igreja – a única instituição duas vezes milenar – tem razões muito sérias para recomendar que não se usem os preservativos. Falando-lhes como um irmão – preocupado como estou – que se deteve a estudar esse assunto em profundidade, a fim trazer-lhes um posicionamento seguro a respeito destes questionamentos, quero dizer-lhes que a argumentação antes apresentada – que compara as falhas do preservativo com as das vacinas do sarampo, ou da pólio, por exemplo – não é consistente, por duas razões: a primeira, porque os vírus da pólio e do sarampo não se podem evitar: atacam em qualquer momento, transmitem-se pelo ar que se respira, pela água que se bebe, pelo alimento que se come ou pelo contato habitual do relacionamento social ... A Aids, não: transmite-se fundamentalmente pelas relações sexuais. E ninguém é obrigado a praticá-las com uma pessoa que não se conhece em profundidade, da mesma maneira que se é obrigado a comer, a beber, a respirar ou a relacionar-se socialmente ... A segunda, porque, no caso dos preservativos, a propaganda recomenda o uso como se as relações promíscuas fossem “normais”, inócuas, inevitáveis, ou até recomendáveis. Essa é a feição que têm as propagandas que às vezes aparecem: “aproveite o carnaval, mas use ‘camisinha’”. Aceita-se um pressuposto inadequado – a promiscuidade – e inclusive incentiva-se a mesma : “não se iniba, divirta-se, mas – cuidado! – use ‘camisinha’”. A propaganda, em geral, não faz nenhuma advertência, não entra em sutilezas, simplesmente incita a usar a “camisinha”, fomentando o que este uso traz consigo: uma relação eventual e insegura. É um meio que, sem dúvida, convida ao desregramento sexual. Desregramento sexual. Desregramento sexual este que traz consigo muitos inconvenientes: o enfraquecimento da saúde e da força da vontade, a perda de um comportamento social e profissionalmente correto, a falta de respeito à pessoa humana e, sobretudo, a infidelidade conjugal e a gravidez precoce, da qual não poucas vezes deriva o aborto. A mentalidade permissivista pode aceitar-se teoricamente, porém, quando na prática nos afetam pessoalmente, é bem diferente. Pode-se defender o “sexo livre”, mas ninguém aceita que a sua esposa, ou o seu marido, tenha relações com um terceiro. Pode-se, intelectualmente, ser favorável às relações sexuais pré-matrimoniais, mas ninguém gosta de que uma filha de quinze anos fique grávida, ou que um filho de quatorze anos seja pai. O fim bom não justifica utilizar meios perversos. Quem aceitaria montar uma escola para ensinar aos pivetes de rua a roubar sem matar ? Alguém alegaria que o fim é excelente: evitar muitas mortes. Mas os meios utilizados são péssimos. Evitar o pior não justifica consentir no que é mau. Evitar a Aids é ótimo mas fomentar a promiscuidade é péssimo. Não estaremos utilizando um inibidor para a Aids – o preservativo – que, em última análise, pode se tornar causa desta mesma doença ? Descuida-se a educação dos adolescentes para a efetividade e a vida sexual sadias, lamenta-se o uso precoce do sexo e a gravidez das adolescentes e, de repente, “a toque de caixa”, põe-se nas mãos dos menores um pacote de preservativos como que dizendo: “fique bem à vontade, a ‘camisinha’ garante”. É igual a querer pagar um incêndio com gasolina! E depois chamam de irresponsável a quem dá um grito de alerta. O “slogan” da “camisinha” que foi anunciado num conhecido programa de televisão é este: “Pecado é não usar camisinha”. É difícil inventar uma tão ardilosa falácia. “Pecado é não usar ‘camisinha’” , mas não é pecado trair a esposa, usando camisinha; não é pecado o desregramento sexual porque se usa “camisinha”; não é pecado deflorar uma menina porque se usa “camisinha”; não é pecado perverter menores incitando-os a usar “camisinha”; não é pecado desfigurar a imagem do Brasil, que tem tantos valores, apresentando-o como o país da libertinagem, das mulheres fáceis, das bacanais de carnaval ... Se uma campanha gastou tempo para inventar esta “sutileza”, o que poderemos esperar no desenvolvimento da mesma campanha? A Igreja simplesmente aconselha a ter um comportamento decente – porque, não o esqueçamos, a questão consiste em ser simplesmente decente – e deixa a liberdade para que as pessoas tomem a atitude que desejarem: não faz campanha . Não tem milhões para fazer propaganda. Não pressiona a opinião pública dessa maneira. Mas tem que suportar o peso fabuloso que representa para a opinião pública programas de televisão caríssimos. Nós perguntaríamos : quem realmente comete o pecado ? Por que esse interesse em denegrir a imagem da Igreja ? Não será por medo de que a atitude transparente dEla desperte a consciência dos cidadãos? Será necessário gastar milhões para tentar convencê-los : “Não, não há pecado quando se usa ‘camisinha’”. A Igreja não pretende admiração. A Igreja o que pretende é respeito. As ações que facilitam a propagação de uma doença são eticamente reprováveis. E os atos que desumanizam o sentido da sexualidade são igualmente reprováveis. João Paulo II assim se expressou: “ o uso dos preservativos acaba estimulando, queiramos ou não, uma prática desenfreada do sexo”. Podemos inibir-nos às vezes, queridos irmãos e irmãs, mas é preciso ter a coragem de dizer as verdades aos filhos, à sociedade e ao Estado; não existe sociedade estável sem família bem constituída; não há família bem constituída sem fidelidade conjugal; e não há fidelidade conjugal sem a educação da afetividade e do sexo, sem autocontrole. E quando não há autocontrole, o que fazer ? A OMS e o Ministério da Saúde advertem: Não é para se preocupar: use a “camisinha” ! A “camisinha” soluciona todos os problemas ... Perguntamos: a “camisinha” protege das crises conjugais, do sexo prematuro tão perturbador para tantos menores de idade, da delinqüência juvenil e das conseqüências naturais da desestruturação do lar ? Sabemos muito bem que a questão não consiste em curar os efeitos; é preciso suprimir as causas. Não se soluciona o problema profilático da água colocando um filtro em cada torneira, mas purificando a água na fonte, no reservatório. Não se encontra o remédio na “camisinha”, mas na mudança de atitude: um verdadeiro trabalho educativo no qual a Família, o Estado e a Igreja têm que envidar os mais vigorosos esforços. Não, não é com preservativos que se solucionarão os problemas do desregramento sexual, mas com um trabalho profundo que venha a colocar no lugar que merece o valor da vida, do amor, do sexo, do matrimônio e da família. E é nessa empreitada que está metida a Igreja. A Igreja não nega o óbvio. A Igreja reconhece o óbvio – a realidade – mas esforça-se por superá-la. Talvez seja a única entidade, em nível mundial, que tem a coragem de chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome. E talvez seja por essa razão que é tão duramente criticada: a luz alegra os olhos sadios e fere os que estão doentes. O fundamento da posição da Igreja Mas, caríssimos amigos e amigas, voltemos a um ponto concreto destas nossas reflexões. Há quem diga: que tem a ver a Igreja com a eficácia técnica e profilática dos preservativos ? E nós poderíamos responder com toda a certeza: em realidade ela não tem nada que ver com isso, como não tem nada que ver com a eficácia da estreptomicina, enquanto o assunto estiver no âmbito científico. A Igreja defenderia a mesma opinião de sempre, ainda que os preservativos fossem absolutamente seguros. Com efeito, o fundamento da posição da Igreja é muito mais profundo: a mesma natureza humana. O eminente descobridor do HIV, Luc Montagnier, não se recusou a comprometer-se a fundo ao indicar como deveriam ser as campanhas contra a Aids: “são necessárias campanhas contra práticas sexuais contrárias à natureza biológica do homem. E, sobretudo, há que educar a juventude contra o risco da promiscuidade e o vagabundeio sexual” ( Luc Montagnier. “AIDS Natureza do Vírus”, em Atas da IV Reunião Internacional da AIDS, 1989, p. 52 ). Note-se que não é o Padre que fala no confessionário, mas o cientista-descobridor do HIV. A lei natural determina que existe um vínculo inseparável entre a relação sexual e a transmissão da vida. Romper artificialmente essa união – como acontece no suo do preservativo – representa uma grave infração dessa mesma lei natural. A Igreja reafirmou este princípio em repetidos documentos. Apresento aqui apenas um texto da Humanae Vitae, do Papa Paulo VI: “A doutrina da Igreja está fundamentada sobre a conexão inseparável que Deus quis e que o homem não pode alterar por sua iniciativa, entre os dois significados do ato conjugal: o significado unitivo e significado procriador” ( nº 12 ) A mesma Encíclica esclarece: “É de excluir, como o Ministério da Igreja repetidamente declarou, a esterilização direta, tanto perpétua como temporária, e tanto do homem como da mulher; é, ainda, de excluir toda ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento das suas conseqüências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação” ( nº 14 ). Não se pode mudar a ordem natural em função de uma solução imediatista e inadequada que, além de não solucionar o problema da proliferação da AIDS, propicia e incentiva a uma prática desregrada do sexo. Se a Igreja não tem porque dar um diagnóstico técnico sobre a eficácia do preservativo, contudo – como qualquer pai ou qualquer mãe – muito se importa quando se pretende enganar os seus filhos com afirmações pouco transparentes ou falaciosas. Nos artigos que têm aparecido recentemente nos jornais, infectologistas afirmam que “não conhecem qualquer estudo confirmando que o vírus da Aids passa pelos poros da camisinha”. Uma afirmação como esta só tem duas explicações: ou, por um lado, há um desconhecimento das múltiplas pesquisas verificativas existentes neste sentido ( ignorância que não se pode desculpar num verdadeiro cientista); ou, por outro, existe má fé: ocultam-se dados importantes para não tirar força a uma campanha que envolve milhões de reais, alimenta a próspera “indústria do sexo” e enriquece os laboratórios. A eficácia dos preservativos Com efeito, existem numerosos trabalhos que demonstram a ineficácia dos preservativos. A nossa conversa familiar está-se prolongando demais. Não a quero tornar mais cansativa e pesada, com uma repetição enfadonha de dezenas de pesquisas existentes nesta matéria. Por isso, pediria o seu consentimento para citar apenas alguns exemplos. “A Food and Drug Administration ( FDA ) – entidade do governo dos Estados Unidos encarregada de aprovar medicamentos, próteses, aditivos alimentares, etc. – estudou 430 marcas com 102 mil preservativos; 165 fabricados nos EUA com 38 mil preservativos e 265 marcas estrangeiras com 64 mil preservativos. O resultado da pesquisa verificou que 12% das marcas estadunidenses e 21% das estrangeiras não tinham um nível suficiente de qualidade” ( CDC . “Preservativos for prevention of sexually transmitted diseases”. MMWR. N. 37, 1988, pp. 133-134, cit. por Ernesto Aguilar – Alvarer Bay, “Campanas que matan”, ISTMO, México – DF., Março-Abril 2003, p. 35 ). “Aceitando essa taxa de defeitos, a probabilidade de falha no caso do preservativo seria de 20,8 % anuais se mantivessem relações uma vez por semana, e de 41,6% se fossem duas vezes por semana”. ( F. Guillén , I. Aguinaga, “Efectividad de los preservativos em la prevención de la infección por HIV em casais de pessoas soropositivas”. Méd. Clin. N. 105, 1995, p. 542, cit. Por Ernesto Aguilar, loc. Cit . ) . “Em 1992 o doutor Ronald F. Carey, pesquisador da FDA, introduziu microesferas de poliestireno do diâmetro do HIV em preservativos que tinham superado positivamente o teste da FDA e os submeteu a variações de pressões similares às que se produzem numa relação sexual: um terço deles perdeu entre 0,4 e 1,6 nanolitros. Numa relação sexual de dois minutos, com um preservativo que perde um nanolitro por segundo, passariam 12 mil vírus de HIV” ( Cit. Por Ernesto Aguilar Alvarez Bay, loc. Cit. ). Como se observa, a porosidade do látex pode permitir a passagem de milhares de vírus da Aids, com toda a sua carga mortífera, apenas numa breve relação. Este vírus é 450 vezes menor que o espermatozóide. O Centro de Controle de Doenças de Atlanta ( EEUU ), o que mais informações possui na luta contra a Aids, reconhece que “o uso apropriado dos preservativos em cada ato sexual pode reduzir, mas não eliminar, o risco de doenças de transmissão sexual”, e acrescenta: “a abstinência e a relação sexual com um ( a ) parceiro ( a ) mutuamente fiel e não infectado ( a ) são as únicas estratégias preventivamente totalmente eficazes”. Nestes mesmos termos, a OMS, paradoxalmente, em algum momento já afirmou que “só a abstinência ou a fidelidade recíproca perdurável entre os parceiros sexuais não infectados, elimina completamente o risco de infecção do vírus HIV” ( OMS. , 20 de janeiro de 1992, nº 17 ). Se tornássemos a ler, novamente, esta última frase, pareceria estarmos escutando um aconselhamento da Igreja. Mas não, é a própria OMS que o afirma. Criticando a Igreja, essa organização está, sem perceber, contestando afirmações feitas por ela mesma. Uma fonte da Internet subscreve: Em maio de 2003, um estudo realizado na França pelo “Instituto da Saúde e da Pesquisa Médica” põe os cabelos em pé, ao indicar que a metade dos preservativos usados se rompe ou se utiliza mal: há, portanto, segundo esse estudo, somente uns 50 % de eficácia prática dos preservativos. A eficácia teórica, realizada no laboratório em condições ideais, é bem diferente da eficácia alcançada no uso dos preservativos. Esta mesma fonte acrescenta: “Toda sociedade se fundamenta na confiança que os cidadãos têm nos responsáveis políticos, escolhidos democraticamente nas urnas, por isso mesmo, não há nada mais decepcionante que a queda dessa confiança. Confiamos em que os responsáveis políticos haverão tomado nota destes importantes estudos que se acabam de citar, para agir em conseqüência, já que não se pode brincar com a saúde dos cidadãos” ( José Javier Ávila Martinez piensaunpouco.com . ) Não se poderia aplicar esse apelo a algumas autoridades brasileiras e a certos meios de comunicação social ? Por que culpar o Cardeal López Trujillo das suas afirmações e não ao Instituto de Saúde e da Pesquisa Médica da França ? Aliás, ao me referir ao Cardeal Lopez Trujillo, acrescentarei a resposta que ele mesmo deu à BBC de Londres depois das suas declarações tão mal interpretadas, dizendo que o senhor Cardeal não apresentava provas científicas para as suas declarações. Assim se expressa Dom Alfonso: “Há muitos estudos publicados que fazem surgir dúvidas fundamentadas no que diz respeito à “segurança” do uso do preservativo. Jacques Suaudeau, doutor em Medicina, que seguiu de perto o debate e problema da Aids na África, tem um importante artigo em nosso “Lexicon” cheio de anotações bibliográficas acerca do tema. Nós recebemos também notícias de um relatório de grupos que representam 10 mil médicos que acusam o Center for Disease Control ( CDC ) nos Estados Unidos de ocultar a pesquisa do próprio governo, a qual mostrava a “ineficácia dos preservativos para prevenir a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis”. Este informe do Catholic Family and Human Rights Institute ( um grupo em Nova York que controla os temas da ONU em relação à família e à vida ) manifesta além disso que a rejeição do CDC de reconhecer este fato “contribuiu para propagar a epidemia de doenças sexualmente transmissíveis”. Infelizmente, do equívoco da BBC se fez eco uma muito conhecida revista brasileira e aquele programa de televisão de tão grande audiência a que me referi antes. Não é só a imatura superficialidade de ambas as reportagens o que me causa espanto, mas a irresponsabilidade com que se acusa, sem provas ( aí sim é que não apresentam provas ! ), uma autoridade da Igreja digna de crédito. Poderíamos prosseguir citando dúzias de pesquisas até esgotar a sua paciência, queridos irmãos e irmãs. Depois de tudo o que foi dito, perguntamos: como é possível que um pesquisador, professor de uma renomada Universidade do Rio de Janeiro, possa afirmar que “não existe qualquer estudo mostrando que a “camisinha é ineficaz na prevenção da Aids”? Como se explica que as críticas dirigidas a quem desaconselha o uso do preservativo e propõe uma educação afetiva e sexual mais de acordo com a natureza humana tenham como uma única destinatária a Igreja Católica ? O descobridor do HIV, o Centro de Controle de Doenças de Atlanta, o “Instituto da Saúde e da Pesquisa Médica da França” não falam fundamentando-se numa norma religiosa mas, pelo contrário, baseando-se nos resultados orientados por um estudo científico sério e consciencioso. Então, como é possível dizer que a “Igreja nega o óbvio”? Não seria melhor asseverar que a Igreja afirma o que toda pessoa com um mínimo de informação e de consciência ética também afirmaria, seja esta hindu, budista, maometana, cristã ou espírita; quer seja parte do povo comum do Brasil, quer integre um governo que diz querer representar os sentimentos desse povo ? Volto a insistir em algo fundamental: a Igreja não rejeita o uso de preservativos somente porque estes não são eficazes. Continuaria afirmando o mesmo se estes fossem 100% perfeitos, em todo momento e em todas as circunstâncias. Mas, levando em conta as falhas da “camisinha”, é natural que, como faria qualquer mãe responsável, advirta aos seus filhos dos riscos que correm. Há momentos em que calar-se representa uma grave omissão. Por que faz isso o Ministério da Saúde ? Como já afirmamos em outro momento, não é transparente uma propaganda de difusão indiscriminada do uso do preservativo sem chamar a atenção sobre os seus perigos. Se todo laboratório tem a obrigação legal de indicar na bula dos remédios os efeitos colaterais do mesmo, e os fabricantes de cigarros alertar, em cada maço, as doenças que o fumo provoca, o Ministério da Saúde tem também a obrigação de prevenir a população a respeito do risco no uso dos preservativos. Coisa que ele sistematicamente não faz: fala-se sempre de “sexo seguro”. A atitude da Igreja dissemina a aids ? A Igreja não está impedindo o combate à AIDS, pelo fato de não concordar com o uso da “camisinha”. Quem afirmar o contrário está difundindo uma inverdade insidiosa que muitos aceitam passivamente sem ulteriores verificações. Como uma pequena mostra disto que acabo de afirmar, copio um artigo de ISTMO, uma conhecida e prestigiosa revista cultural mexicana – não de uma revista religiosa – escrita por um especialista na matéria e não por um moralista. “Se analisarmos a Aids na África, devemos pensar que a influência da Igreja Católica se circunscreve a 15,6 % da sua população total. Alguém se atreveria a afirmar que a Aids prejudica em maior medida os católicos do que os muçulmanos ou animistas? Não seria possível fazer isto, já que diversas estatísticas demonstram que a comunidade católica sofre em medida bem menor a praga da Aids: é lógico que o ensinamento em favor da monogamia e da castidade tenham os seus efeitos positivos em ambiente de promiscuidade generalizada. “Então entre que grupos humanos a atitude da Igreja poderia contribuir para disseminar Aids ? Entre os católicos sem prática religiosa, nem vivência dos seus princípios morais ? Seria sensato supor que quem é infiel à sua esposa virá a respeitar a orientação da Igreja que desaconselha o uso do preservativo ? Nestas condições correria, por acaso, o risco de contaminar-se para ser fiel às orientações de uma religião que não pratica ? Seria um absurdo. Evidentemente que quem não tem escrúpulos de ter relações com uma mulher fácil ou uma prostituta, nem se apresentará a questão da licitude moral do preservativo. Portanto, acusar a Igreja Católica na difusão da Aids por esse motivo é, mais do que um absurdo, uma manobra para negar-se a reconhecer a realidade contrária: sem a moral católica a sociedade seria mais promíscua e, em conseqüência, a Aids, estaria muito mais estendida” ( Ernesto Aquilez – Alvarez Bay. “Istmo”. México, DF, Março a Abril de 2003, p. 38 ) The Wall Street Journal, em 14 de outubro último, fez constar que 25% dos doentes da Aids no mundo são atendidos por instituições católicas. E, igualmente, afirmou que os estudos científicos – um deles a cargo do Serviço de Saúde dos Estados Unidos e outro de responsabilidade da Universidade de Harvard – coincidiam em alertar sobre os decepcionantes resultados da prevenção da Aids baseados no preservativo. Menciona-se o caso de Uganda que, em 1991, contava com uma taxa de infecção de 20%, enquanto que, no ano de 2002, tinha descido aos 6%, em virtude de uma política sanitária centrada na fidelidade e na abstinência, não no preservativo ( grifo nosso ) ( à diferença de Botsuana e Zimbábue, que ainda ocupam os primeiros lugares nos contágios ) ( Aciprensa. Madrid, 22 de outubro 2003, p. 3 ). Chama a atenção que estes fatos sejam sistematicamente silenciados. Por baixo das realidades verdadeiramente científicas desliza uma correnteza estranha e anticientífica que silencia estas realidades positivas. A agência LifeSite e a agência ACI , por exemplo, denunciaram recentemente que a maioria dos informes sobre a Aids na África ignoram sempre os êxitos conseguidos em Uganda, por haver apostado na sua política sanitária, na promoção da abstinência sexual, da fidelidade e da castidade. Muitas autoridades, incluindo o Secretário de Estado norte-americano Colin Powell, louvaram e reconheceram o êxito de Uganda em reduzir a taxa de infecção uns 50% desde 1992. Inclusive a CNN informou que, no ano 2000, foi o país “com maior sucesso na luta contra a Aids”. No entanto, a LifeSite adverte que por uma razão desconhecida “o êxito de Uganda poucas vezes é mencionado” ( VII Congresso Nacional sobre el SIDA, maio de 2003, Bilbao, Espanha ). Questiono-me sobre se essas razões, desconhecidas e estranhas, são as que fazem alguns cientistas brasileiros dizerem que “desconhecem a existência de pesquisas sobre falhas nos preservativos” e os levam a formular críticas maldosas dizendo que a Igreja “desconhece a realidade” e “nega o óbvio”. O jornal espanhol La Gaceta de los Negócios ( 16/12/02 ) comenta nesse sentido: “os patrocinadores do preservativo como principal instrumento de prevenção da Aids, em lugar de aceitar esta evidência – o grande sucesso de Uganda – se obstinam nas políticas de extensão do uso do preservativo, que leva inevitavelmente consigo o implícito convite à promiscuidade sexual sob a mentirosa promessa do ‘sexo seguro’. O resultado é o que temos diante dos olhos. Há loucos dispostos a tudo antes de propor o domínio sobre as paixões”. A afirmação está feita por um jornal comercial, não por um boletim paroquial. O governo Bush procura, agora, incorporar um treinamento de abstinência ao Programa Internacional Americano para a AIDS. Este plano questiona a efetiva prevenção da Aids por preservativos. ( LifeSite Daily News Lsn@lifesite.net ) . Há evidentes realidades de que o chamado “sexo seguro” não tem contido a expansão da doença. Por exemplo, conduzida por Nelson Mandela, a África do Sul abraçou firmemente a estratégia do “sexo seguro”, e o uso de preservativo aumentou. Mas a África do Sul continua a liderar mundialmente os casos de infecção por Aids com 11,4 % de sua população atualmente infestada. Há notícias de Mercury News de Miami de que a Fundação Bill e Melinda Gates gastarão US$ 28 milhões para estudar o potencial dos preservativos no controle da natalidade e no combate à Aids na África. Porém, as mesmas notícias do Mercury News acautelam que : “As bases científicas para a prevenção da Aids através de preservativos são mais teóricas que clinicamente provadas” ( LifeSite Daily News Lsn@lifesite.net ) . Insistimos: não entendemos como, depois de tantos questionamentos de tão alto nível, algum professor universitário brasileiro ou algum representante do Ministério da Saúde afirmem, sem fazer nenhuma ressalva, “ a segurança absoluta dos preservativos”. Perguntamos reiteradamente: é ignorância ou uma versão nova da “conspiração do silêncio” ? A solícita preocupação da Igreja com a Aids Não podemos deixar de notar que a Igreja preocupa-se extraordinariamente com a Aids. Mais ainda, é uma das entidades que, de uma maneira mais efetiva, luta contra a Aids. O Cardeal Cláudio Humes, chefe da delegação da Santa Sé na ONU, em 22 de setembro de 2003, também proclamou que “ a Santa Sé, graças as suas instituições no mundo inteiro, provê 25% da atenção total que se dá às vítimas do HIV/Aids, e assim ela se situa entre os principais atores nessa matéria, particularmente entre os mais assíduos e melhores provedores de atenção às vítimas ( “Intervenção de Sua Eminência Cardeal Cláudio Hummes, Chefe da Delegação da Santa Sé na Reunião Plenária de Alto Nível da Assembléia Geral Dedicada ao Segmento dos Resultados do Vigésimo Sexto Período Extraordinário de Sessões”. ONU, Nova York, 22 de setembro de 2003. ). A Igreja no Brasil já assumiu o serviço de prevenção do HIV e da assistência a soro-positivos e, sem preconceitos, acolhe, acompanha e defende o direito à assistência médica e gratuita daquelas e daqueles que foram infectados pero vírus da Aids. Faz também um trabalho de prevenção pela conscientização dos valores evangélicos, sendo presença misericordiosa e promovendo a vida como bem maior ( Cf. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil , nº 123 – Doc. 71, 2003 ) . Evidentemente, ninguém dedicaria tamanho esforço para atender solicitamente e curar, na medido do possível, os doentes da Aids, e, ao mesmo tempo, estivesse facilitando a propagação da mesma doença de uma maneira irresponsável, como maldosamente já disse ultimamente algum meio de comunicação. Em todas as questões é preciso olhar, de diferentes ângulos, para todas as facetas de um problema a fim de obter a respeito dele um diagnóstico equilibrado e certeiro. Este critério não é certamente o que seguem os que estão criticando a Igreja agora por desaconselhar o uso do preservativo. O programa de distribuição de preservativos Capítulo à parte constitui o programa de distribuição de preservativos iniciado pelos Ministérios da Saúde e da Educação. Pretendem entregar cerca de 235 milhões de preservativos, por ano, para 2 milhões e meio de estudantes das escolas fundamentais. Volto a repetir o que já disse em outro lugar. No âmbito de uma população estudantil formada de adolescentes, o perigo de que a propaganda de distribuição de preservativos venha a ser um incentivo para a prática do sexo precoce é algo claro e evidente de per si. Porque, sob a capa de evitar uma doença, parece que, subliminarmente, se está insinuando com uma a pedagogia indireta : “Transar, não há nada demais”. “Se você sente esse impulso, por que não satisfazê-lo ? O importante – isto sim ! – é usar a “camisinha””. E isto, porventura, é o mais importante para um pai e uma mãe responsáveis ? Que pai responsável pensa: se minha filha se deita com qualquer coleguinha para se divertirem não tem importância, o que tem importância é que não se esqueçam de usar a “camisinha”? Por outro lado, sendo a educação afetiva e sexual uma tarefa que compete primordialmente aos pais, a propaganda maciça, iniludível e impositiva sobre o uso dos preservativos entre menores significa uma interferência abusiva num direito inalienável do pátrio poder. Poder-se-ia também questionar que os pais não estão preparados para oferecer uma educação afetiva e sexual aos filhos. Isto, porém, não deve levá-los à culpável omissão de relegar obrigação tão grave a uma orientação impessoal e massiva que, pelo que se observa, também não está preparada para transmiti-la. São os pais que devem, com responsabilidade própria e intransferível, ir, gradativamente, adquirindo esses conhecimentos para passá-los , na sua devida hora, aos seus filhos. Essa tarefa faz toda mãe responsável a respeito da alimentação, dos cuidados da puericultura, de higiene e dessa função tão importante como é a de discernir entre o certo e o errado, sem necessidade de fazer estudos especializados. É uma questão de interesse, de prioridades. Não se pode alienar direitos que são deveres. O Estado não pode instigar a um tipo de educação sexual sem abrir opções aos pais para que possam escolher, com liberdade, entre uma solução ou outra. Será que as autoridades públicas dão às Igrejas e outras instituições não governamentais – formadas por cidadãos brasileiros – de modo proporcional, os recursos educacionais semelhantes aos que o governo, unilateralmente, gasta em um programa milionário como a campanha dos preservativos ? Neste terreno, o caráter subsidiário do Estado na educação dos filhos deveria oferecer a estas instituições esses recursos, a fim de que os pais venham a dispor de novas perspectivas e opções. Para nós não cabe a menor dúvida de que um programa de distribuição massiva de “camisinhas” pode ser o estopim para desencadear um novo processo de perversão de menores, paradoxalmente amparado por lei. Conclusão Finalizando a nossa conversa, caríssimos irmãos e irmãs, reconheço que a minha confidência foi longa demais. Entretanto, estendi-me bem além do que desejaria, pensando em que vocês, apoiando-se nessas idéias, poderiam transmiti-las em seu primeiro lugar dentro do seu âmbito familiar e, depois, fora dele, a outros, e estes, por sua vez, a outros, em ondas sucessivas – como a pedra que cai no lago formando círculos concêntricos cada vez mais amplos – para que a verdade a respeito da Doutrina da Igreja fique no seu verdadeiro lugar e se expanda com os seus benéficos efeitos a toda pessoa e lugar. Penso que é anseio de todos nós que estas verdades não se detenham no nosso reduzido círculo, mas que se espalhem com toda a força e a ressonância de que estão dotadas. Não é minha intenção fomentar um conflito entre as autoridades governamentais, a Igreja e a instituição familiar. Pelo contrário, tento harmonizar o desejo inegável, de reconhecido valor, do Estado de evitar a propagação da AIDS, com os direitos e deveres da Igreja na transmissão de sua Doutrina e com os direitos e deveres das famílias de serem devidamente informadas e de fazerem valer as suas prerrogativas no que diz respeito à educação sexual dos seus filhos. Tomara que estas considerações de alguma forma para que se estabeleça um diálogo respeitoso, construtivo e enriquecedor entre o Estado, a Igreja e as famílias. Nós amamos a Igreja – nossa Mãe – e a nossa família – Igreja doméstica. Esse amor deve levar-nos a protegê-las dos ataques feitos, muitas vezes por ignorância e outras por intenções escusas e menos nobres. Foi por isso que a minha conversa se alongou demais: pude alargar o coração, em confidência de irmão, ou de pai, ao lado de vocês, em quem por constituírem a minha família, confio ilimitadamente. Brasília , 12 de novembro de 2003. Dom Rafael Llano Cifuentes Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio e Presidente da Comissão Família e Vida da CNBB Nota: Dom Rafael fez acompanhar esta carta da citação de inúmeras pesquisas, que não puderam ser publicadas nesta edição. As mesmas podem ser acessadas na página da CNBB, na internet: www.cnbb.org.br Carta publicada no órgão oficial da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro , O Testemunho da Fé , ano XII ( III ) – nº 306 – edição semanal nº 154 – de 21 a 27 de dezembro/2003, pp. 4-5.

AMAR A HUMANIDADE DESPREZAR O PRÓXIMO

Diário de Notícias,
João César das Neves
Acaba de sair a edição portuguesa de um dos livros mais reveladores do nosso tempo. Publicado em 1988, Intellectuals, de Paul Johnson, não perdeu relevância e dramatismo nos 20 anos que o separam da sua tradução (Intelectuais, Guerra & Paz, Lisboa, 2009).
A obra consta apenas de doze pequenas biografias, mas a breve colecção inclui algumas das principais figuras dos últimos 200 anos e alguns dos maiores safados, crápulas e bandidos que se pode imaginar. Notável é que as personagens são as mesmas em ambos os casos. Johnson mostra à evidência como os intelectuais que inspiraram o mundo contemporâneo foram terríveis patifes na sua vida privada.
A lista é impressionante. Jean-Jacques Rousseau, Karl Marx, Bertrand Russell e Jean-Paul Sartre, entre outros, aparecem culpados dos comportamentos mais infames, enganando mulheres, desprezando filhos, aldrabando amigos, roubando, seduzindo, manipulando tudo e todos. O elemento comum é um paroxismo de egoísmo e arrogância. Estes onze homens e uma mulher vivem totalmente autocentrados, usando escandalosa e vergonhosamente os outros para proveito próprio.
Qual a relevância destas informações e mexeriquices? Todos sabemos que os génios costumam ser exóticos e inconvenientes, e todos os desculpamos pela sua grandeza. É razoável perdoar-lhes os pecadilhos pelas maravilhas que fazem. Que importa a vida pessoal de Mozart ou Edison, de Newton ou Rembrant ao lado da herança majestosa que deixaram? Mesmo entre os nomes referidos, a análise económica de Marx ou os teoremas de Russell não sofrem pelo mau carácter dos seus autores. Será Johnson um oportunista, denegrindo grandes nomes com acusações mesquinhas?
O que o autor capta nestes doze casos é algo muito diferente. Estas pessoas não foram escolhidas pelas realizações científicas ou artísticas, mesmo quando as tiveram, mas pela influência intelectual. Foi como inspiradores morais, oráculos políticos, reformadores sociais que estes nomes pontificaram, e ainda pontificam, acima dos demais. Num tempo sem fé, Tolstoi, Shelley, Ibsen ou Brecht, além dos já referidos, foram venerados como sumo sacerdotes de um mundo mais elevado e perfeito, luminárias do homem novo. Os outros, Hemingway, Edmund Wilson, Victor Gollancz e Lilliam Hellman marcaram a moda e arbitraram o gosto na sua geração, enquanto todos se enredavam numa degradação ética e humana quase repelente. Ou eram incoerentes com as suas ideias ou estas escondiam horrores inconfessáveis. Em qualquer dos casos tais observações biográficas são muito relevantes para a interpretação da obra.
A razão profunda da contradição é, ela mesma, decisiva. Todos estes pensadores colocaram uma ideia abstracta acima da vida real daqueles que os rodeavam. A sua teoria, o seu génio, eram superiores a parentes, amigos, honestidade, honradez, decoro, simples decência. Esta é a origem do crime. E da obra. Em todos os relatos surge sucessivamente um mesmo tema: o amor à humanidade. É notável como todos estes grandes autores estão apaixonados pelo género humano. Mas o ideal abstracto acompanha um profundo desprezo pelas pessoas concretas que os rodeiam. Amam a humanidade e abominam a gente. Um caso exemplar é Rousseau, profeta inspirador da cultura moderna. A listade trafulhices, indignidades e oportunismos da personagem é infinda. Mas um caso é bem simbólico. Entre muitos temas, o filósofo francês debruçou-se em vários das suas obras sobre a importância decisiva da educação das crianças, apresentando visões inovadoras, sobretudo no tratado Émile, ou De l'éducation (1762), considerado um dos grandes textos primitivos sobre o tema. Vale a pena saber que ele abandonou na miséria os filhos que teve das suas múltiplas amantes, nunca assumindo a responsabilidade por qualquer deles. Vivemos num tempo que colocou ideais acima das pessoas. Aliás, aqueles que desprezam as críticas deste livro pela admiração da obra dos visados são eles mesmos vítimas do mesmo vício intelectual: a terrível tentação de amar uma ideia mais que o próximo. João César das Neves

UMA SOCIEDADE QUE SE SENTE INFELIZ POR NÃO SER FELIZ

"De acordo com a ideologia reinante, o que somos, o que temos e o que fazemos depende unicamente de nós. A felicidade humana é uma construção pessoal que exige método e esforço. O que implica, inversamente, que a infelicidade é o resultado da nossa incapacidade para sermos felizes. Haverá pensamento mais perverso?
Não creio. E, no entanto, ele é repetido, dia após dia, numa sociedade que se sente infeliz por não ser feliz..."
João Pereira Coutinho
Folha de São Paulo

A PROPOSTA DE BENTO XVI

Bento XVI, em diversas ocasiões, mostrou sua preocupação pelo destino da Europa e, por conseguinte, da civilização ocidental, cujas bases constitutivas são, como dissemos, a fé cristã e o ideal grego da vida segundo a razão. Nossa cultura atual, ao optar por uma razão que não ousa mais encarar o ser, coloca em xeque suas raízes mais profundas. Nesse sentido, vivemos uma crise de identidade, isto é, um momento agudo que exige de nós uma decisão: Que civilização queremos? Mostraremos ser fiéis às nossas raízes? Ou continuaremos a buscar uma civilização que, por se submeter totalmente a uma concepção estreita de razão, talvez pudesse ser chamada de “civilização da técnica”? Sim; a razão fechada à infinita transcendência do ser acaba por reduzir-se a uma razão técnica, operacional; uma razão que não ousa considerar sua abertura ao transcendente facilmente mostra a pretensão de tudo submeter à “domesticação” do sujeito, erigindo, assim, um mundo “feito” segundo as medidas do eu humano.
Pode-se dizer que, para sermos fiéis às nossas raízes, é preciso que nos proponhamos a alargar nossa concepção de razão, o que equivale a adotar o uso da razão que vigorou em espíritos brilhantes como Platão, Arisóteles, Plotino, Agostinho, Tomás de Aquino... Não se trata aqui de uma volta ao passado. A história segue adiante. Trata-se, antes de tudo, de mostrar fidelidade às exigências mais profundas do ser humano como tal. Fechar ao homem a abertura para a infinita transcendência do ser, querendo reduzi-lo ao mundo dos fenômenos, equivale a truncar-lhe a natureza. A fidelidade às nossas raízes greco-cristãs não se reduz a mera fidelidade histórico-cultural, mas deve ser entendida como fidelidade ao homem mesmo, cuja essência, aberta à consideração das razões do ser e do viver, mostra-se capaz de elevar-se aos píncaros da vida intelectual pelo reconhecimento da Transcendência real e, ao mesmo tempo, capaz de acolher na fé a Palavra de Salvação que a generosidade divina lhe dirige.
Em sua famosa Aula Magna na Universidade de Regensburg, em setembro de 2006, intitulada Fé, razão e universidade: recordações e reflexões [1], Bento XVI tratou de temas fundamentais para a questão da relação entre fé e razão e do futuro de nossa civilização. O Papa afirmou decididamente que a fé cristã não é alheia à razão, isto é, não pode se reduzir à irracionalidade. E sustentou que as melhores conquistas da filosofia grega em sua luta contra mito pertencem intrinsecamente à fé cristã. O encontro entre pensamento grego em sua melhor parte e a fé cristã não pode ser visto como uma simples contingência histórica, uma vez que o Deus da Bíblia é Logos, de modo que buscar exercitar a razão e procurar viver segundo seus ditames está em profunda sintonia com a fé no Deus que é Ele mesmo Inteligência absoluta. Assim, Bento XVI sentiu-se muito à vontade para citar o imperador Miguel II Paleólogo, segundo o qual não agir com a razão é agir contra a natureza de Deus. Essa afirmação é fundamental e decisiva para as questões que estamos considerando.
Ao contrário de muitos discursos teológicos que cheiram a fideísmo e de muitas filosofias voluntaristas[2] e agnósticas, Bento XVI diz claramente que a Tradição da Igreja posiciona-se do lado da razão, isto é, de uma razão capaz de dizer algo de Deus e, assim, colocar-se em sintonia com a fé. Entre o homem, criatura racional, e Deus, que é Logos, existe uma analogia. Embora as diferenças entre os dois sejam infinitamente maiores do que as semelhanças, não há separação total. Vejamos as palavras do Papa:
“[...] a fé da Igreja sempre se ateve à convicção de que entre Deus e nós, entre o seu eterno Espírito criador e nossa razão criada, existe uma verdadeira analogia, na qual, por certo – como afirma, em 1215, o IV Concílio de Latrão – as diferenças são infinitamente maiores que as semelhanças, mas não até o ponto de abolir a analogia e sua linguagem”.[3] A fé, para ser ela mesma, segundo Bento XVI, não precisa lançar fora a razão. Muito ao contrário, pertence à natureza mesma da fé cristã o conúbio com a razão, pois que agir irracionalmente é agir contra a natureza de Deus. Nesse mesmo sentido, a encíclica Spe Salvi afirma: “Sem dúvida, a razão é o grande dom de Deus ao homem, e a vitória da razão sobre a irracionalidade é também um objetivo da fé cristã” (n. 23).
Mas de que razão o Papa fala? Que razão pode, de fato, estabelecer relações amigáveis e harmoniosas com a fé? Certamente não é a razão que se tornou apenas um instrumental lógico destinado à manipulação dos fenômenos; não é a razão que, esquecendo-se de seu fundamento, fechou-se na imanência do sujeito em sua transcendência puramente lógica. Em outras palavras, não é o modelo restrito de razão que tem vigorado na modernidade, que faz das ciências empiriológicas a última palavra em termos de racionalidade, que poderá constituir um diálogo frutuoso com a fé. O Papa nota que esse modelo restrito, que fez sucesso pelas conquistas científico-técnicas, é uma síntese entre platonismo ou cartesianismo e empirismo, uma vez que professa a inteligibilidade da matéria (platonismo ou cartesianismo) e, ao mesmo tempo, fecha-se na “utilização funcional da natureza para nossas finalidades, onde só a possibilidade de controlar verdade ou falsidade através da experiência é que fornece a certeza definitiva”[4] (empirismo).
Com essa racionalidade restrita, os horizontes da vida se tornam por demais estreitos, e o próprio homem é que se vê ameaçado em sua constituição fundamental. As grandes questões humanas – De onde vim? Para onde vou? O que devo fazer? -, decisivas para o sentido da vida, simplesmente não têm lugar no âmbito de uma racionalidade que se curva sobre a própria finitude, esquecendo-se de sua abertura para a infinitude do ser. A “ciência” fica, assim, restrita ao mundo dos fenômenos, e vê como ilegítima toda tentativa de ultrapassagem, de meta-física. Mas “se a ciência no seu conjunto é apenas isto, desse modo então o próprio homem sofre uma redução”.[5] É a concepção de homem que está em jogo. Que é o homem?
O que, então, propõe Bento XVI? Não propõe com certeza uma volta ou uma rejeição da modernidade, pois que “tudo o que é válido no desenvolvimento moderno do espírito há de ser reconhecido sem reservas: todos nos sentimos agradecidos pelas grandiosas possibilidades que isso abriu ao homem e pelos progressos que foram proporcionados no campo humano”.[6]
Na verdade, Bento XVI tem em vista não uma retirada, não uma crítica negativa. Sua proposta é deveras positiva, e consiste num “alargamento do nosso conceito de razão e do seu uso”.[7] Aqui está o ponto nevrálgico de toda a problemática. Não havíamos constatado que a concepção de razão tem sofrido, já desde os fins da Idade Média, uma redução?
O Papa, na verdade, não pede uma coisa absurda. Deseja simplesmente que a razão tenha também em consideração a busca da sabedoria. A razão, segundo o Papa, não deveria nunca deixar de exercer sua dimensão sapiencial. E que é essa dimensão sapiencial? É a capacidade da razão de ousar passar dos fenômenos ao fundamento, como, aliás, já alertara o Papa João Paulo II em sua grande Encíclica Fides et Ratio. Bento XVI porpõe, assim, abertura e alargamento contra o fechamento e a estreiteza. Deseja uma ultrapassagem dessa limitação autodecretada na modernidade. Ora, essa proposta do Papa está em consonância com a vocação originária da Filosofia, que, em seus albores, entendia-se como uma verdadeira busca da sabedoria, a busca de uma visão básica do sentido das coisas, uma cosmovisão que, inclusive, portava orientações éticas.
Aliás, as ciências empiriológicas, que têm tido um grande sucesso no descobrir as leis que regem a matéria, colocam uma questão que nos convida a ir além das próprias ciências: Por que as leis da matéria apresentam uma simetria com a inteligência humana? Qual a razão da inteligibilidade mesma das leis que regem o comportamento da matéria? Tal questão levará, sem dúvida, o pensador a ver que só uma Inteligência absoluta, causa transcendental tanto da inteligência humana como da matéria, pode garantir essa simetria inteligível entre o espírito humano interrogante e a matéria com suas leis.
[1] BENTO XVI. Fé, razão e universidade. Recordações e reflexões. Santa Sé. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2006/september/documents/hf_ben-xvi_spe_20060912_university-regensburg_po.html. Acesso em março de 2009. [2] Por “filosofias voluntaristas” entendem-se os discursos filosóficos que colocam no fundamento do ser a vontade distante ou dissociada da inteligência, o que acaba por levar ao irracionalismo. [3] Ibidem. [4] Ibidem. [5] Ibidem. [6] Ibidem. [7] Ibidem.
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