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CARITAS IN VERITATE NO DEBATE FILOSÓFICO-SOCIAL

Entrevista com o filósofo Rodrigo Guerra López
Por Jaime Septién
QUERÉTARO, quarta-feira, 22 de julho de 2009 (ZENIT.org-El Observador).- A encíclica social de Bento XVI, "Caritas in veritate" aborda o âmbito de saberes como a política, a economia ou as teorias sobre a globalização para entrar em cheio no debate filosófico-social contemporâneo, explica um filósofo.
Para aproximar-nos dessas intuições do novo documento pontifício Zenit e El Observador entrevista Rodrigo Guerra López, doutor em Filosofia pela Academia Internacional do Principado de Liechtenstein, membro da Academia Pontifícia para a Vida, e diretor do Centro de Pesquisa Social Avançada (www.cisav.org).
Entre seus livros destacam-se “Voltar à pessoa” (Volver a la persona - Madri 2002); “Católicos e políticos: uma identidade em tensão” (Católicos y políticos: una identidad en tensión - Bogotá 2005) e “Como um grande movimento” (Como un gran movimiento - México 2006). Recentemente publicou em co-autoria “Vida humana e aborto” (Vida humana y aborto - México 2009).
– Como se localiza a encíclica Caritas in Veritate no debate filosófico-social contemporâneo?
– Rodrigo Guerra: A nova encíclica do Papa não pretende competir com as análises que a partir da teoria social se realizam sobre a situação que guarda o desenvolvimento no contexto do mundo globalizado. Contudo, Caritas in Veritate ingressa à discussão desde seu próprio estatuto: a Doutrina Social da Igreja. Isto significa que a sabedoria prática nascida do encontro com Cristo permite emitir um juízo sobre as condições que possibilitam o desenvolvimento e sobre as disfunções que a atual globalização possui.
Ampliando um pouco os conceitos, poderíamos dizer que o Papa Bento XVI oferece uma “teoria crítica da sociedade”, ou seja, uma revisão de alguns dos mais importantes supostos que sustentam a atual configuração do mundo global. Agora, diferentemente de outras “teorias críticas”, Bento XVI não situa o núcleo da questão na capacidade que o ser humano possui para auto-redimir-se e auto-emancipar-se.
Ao contrário, uma dimensão constitutiva do critério de juízo utilizado pelo Papa é uma antropologia precisa na qual toda a consistência do “eu” se reconhece como dom, como presente, e portanto, como abertura relacional para o Fundamento, ou seja, para Deus, que sustenta e que liberta. Desta maneira, Bento XVI insistirá em que “o homem não se desenvolva unicamente com suas próprias forças” (n. 11) mas que requer ser ajudado a partir de um horizonte maior ao que pode ter acesso por si mesmo. Horizonte que dá Cristo, ou seja, o Acontecimento que nos precede.
– Que relação tem a encíclica Cáritas in Veritate com o resto do Magistério de Bento XVI?
– Rodrigo Guerra: Cáritas in Veritate se encontra sustentada precisamente no reconhecimento do cristianismo como “Acontecimento”, e por isso, possui uma ligação estrutural com Deus caritas est, Spe salvi e em geral com a já milenar tradição eclesial que reconhece a absoluta novidade da irrupção e permanência de Cristo na história. Desta forma, a nova encíclica faz contínua referência à importância que possui “ampliar o horizonte da razão” para que sem reducionismos possamos abrir-nos à verdade em geral e eventualmente à Verdade encarnada.
Desta maneira, Caritas in Veritate não é um documento secundário no ensino do Papa, ao contrário, completa o itinerário inaugurado no discurso de Ratisbona e que continuou em numerosas intervenções sobre a necessidade de estabelecer novas relações entre a razão e a fé. Este itinerário está muito longe de ser de ordem meramente teórica, ele possui uma grande novidade e pertinência existencial e social por fundamentar-se no caráter formativo que o cristianismo possui: o cristianismo é um fato que afeta a vida e que promove realmente seu desenvolvimento com dignidade. Por isso, o Papa valentemente assinala, no número quarto da encíclica, que “o anúncio de Cristo é o primeiro e principal fator de desenvolvimento”.
– A encíclica Caritas in Veritate aposta na reorientação da globalização para que esta sirva realmente ao desenvolvimento das pessoas e dos povos: isto é realmente possível?
– Rodrigo Guerra: A história recente demonstrou que não é possível pretender construir a ordem nacional e internacional a partir de premissas puramente instrumentais no âmbito do Estado e do mercado. A globalização, tal e como hoje está definida, devora seus próprios criadores.
Por isso, é racional e razoável pensar que a via para corrigir o rumo da globalização descansa na introdução de uma lógica diferente da baseada nas leis da oferta e da demanda. Este novo raciocínio tem como eixo de sustentação a gratidão, a responsabilidade social, a redistribuição equitativa da riqueza, a capacidade para criar novas formas de empresa.
Hoje, existem experiências importantes em matéria de comércio justo, micro-financiamentos, economia solidária e de comunhão que mostram que este caminho não só é possível, mas necessário. A globalização só modificará seu perfil através de pessoas concretas que sejam capazes de remodelá-la. Para isso é necessário um novo pensamento econômico e uma nova capacidade de incidência local, nacional e global.
– A autonomia da economia não é questionada com o pensamento de Bento XVI?
– Rodrigo Guerra: Justamente, as economias que estão fracassando hoje, resistem a admitir no seio de seu próprio âmbito, orientações de ordem moral. Este é um erro epistemológico importante: o objeto da economia possui a liberdade como uma dimensão constitutiva de sua própria natureza. Por isso, uma economia autenticamente humana e autenticamente autônoma não pode ser senão essencialmente ética. É absurdo que uma teoria do valor em economia prescinda da existência de valores morais!
Os diversos tipos de valor acontecem na experiência e podem ser reconhecidos pela razão prática, que é a razão que particularmente opera na atividade econômica. Por isso, Bento XVI recupera uma potente intuição de João Paulo II: toda decisão de investimento, de produção ou de consumo possui uma iniludível dimensão moral. O fato de subordinar ou cancelar esta dimensão, por um lado, atenta contra a dignidade da pessoa – que é a principal riqueza de uma empresa e de uma nação – e, por outro, contra a própria economia.
– Que importância tem o Estado e a ação política à luz da nova encíclica?
– Rodrigo Guerra: O Papa se encontra nitidamente preocupado com os temas que configuram o Estado como “Estado social”. Também adverte que uma diminuição irresponsável das competências do Estado pode conduzir a um enfraquecimento dos direitos dos trabalhadores. Este tipo de considerações nos mostram que a compreensão católica da política não se identifica unicamente com o Estado liberal nem com a mera presença de certas elites cristãs em espaços de poder.
A ação política tem que recuperar um sentido social que nunca deveria ter perdido. “Sentido social” não só significa “políticas sociais” mais profundas e solidárias, mas levar no coração uma decidida opção preferencial pelos pobres e excluídos. Por isso, a colaboração verdadeira na organização e gestão do bem comum é medida mais em termos de desenvolvimento que de triunfo eleitoral, mais em termos de serviço aos mais fracos que de ativismo.
Quais são as causas profundas do subdesenvolvimento segundo o Papa Bento XVI?
– Rodrigo Guerra: O Papa, no número 19 de Caritas in Veritate, diz que as causas do subdesenvolvimento são fundamentalmente duas: a falta de fraternidade e a falta de pensamento. Por um lado “a sociedade cada vez mais globalizada nos faz mais próximos, mas não mais irmãos”. Enquanto não entendermos que a caridade, o perdão e a reconciliação são método para a ação política e econômica não conseguiremos avançar como pessoas e como sociedade. Desta forma, o Papa constata a ausência de autênticos pensadores capazes de gerar um novo humanismo social e político. Sem pensamento rigoroso, capaz de voltar às coisas de fato, a ação política e econômica se realiza sem sentido, sem direção, como puro ativismo que não transcende os interesses mesquinhos da busca do poder pelo poder.
– O Papa insiste na necessidade de uma nova autoridade mundial. Isto não é algo muito perigoso? Não poderíamos cair em um novo totalitarismo de escala planetária?
– Rodrigo Guerra: A Igreja é muito consciente dos riscos de uma nova ordem política, econômica e jurídica para o mundo globalizado. Contudo, não é possível dar governabilidade à globalização se não se construir bases para uma nova civilização, para uma nova Res publica mundial, que não deve ser um super-Estado totalitário, mas uma nova maneira de construir as relações internacionais a partir de uma “gramática da ação” – como dizia Wojtyla –, ou seja, a partir de um novo “Direito dos Povos” de base iuspersonalista.
– Quem está chamado a colocar em prática o ensinamento da encíclica Caritas in Veritate?
– Rodrigo Guerra: Caritas in Veritate está destinada a todos os católicos e a todos os homens de boa vontade. Contudo, como todo ensinamento corre um risco: o de reduzir seu conteúdo a indicações meramente formais ou abstratas. É fácil eludir a responsabilidade pessoal e institucional e pensar que o ensinamento do Papa é “mera inspiração” ou que está destinado “para outros”, mas não para “nós”.
Por isso, atrevo-me a assinalar algo que não me deixa de surpreender: os bispos latino-americanos no documento de "Aparecida" abordaram praticamente todos os temas nucleares da encíclica de modo providencialmente antecipado. Eles, seguindo o Papa, também reconheceram com grande força que o cristianismo é acontecimento, escola de discipulado e experiência de comunhão.
Em outras palavras, para que a encíclica possa ativar-se antes que um “plano estratégico” o que precisamos é recuperar o essencial do método cristão. Só assim, poderemos mostrar que a fé gera movimento, criatividade e compromisso solidário. Só assim voltaremos a exibir que o “sujeito” da Doutrina Social da Igreja existe e porque existe, atua.

SEM DESENVOLVIMENTO HUMANO INTEGRAL FICA DIFICIL COMBATER A CORRUPÇÃO

Entrevista com o prof. Francisco Borba, do Núcleo Fé e Cultura, da PUC-SP
Por Alexandre Ribeiro
SÃO PAULO, terça-feira, 14 de julho de 2009 (ZENIT.org).- “Sem desenvolvimento humano integral, isto é, sem instrução, solidariedade, luta pelo bem comum, fica realmente muito difícil combater a corrupção”, afirma o prof. dr. Franscisco Borba Ribeiro Neto.
Coordenador de projetos do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o prof. Francisco Borba concedeu entrevista a Zenit sobre a encíclica “Caritas in veritate”.
–A encíclica “Caritas in veritate” favorece a compreensão de um verdadeiro humanismo? Como?
–Prof. Francisco Borba: O resgate do humanismo é um ideal permanente na sociedade atual. O homem contemporâneo tem uma profunda necessidade de um modo de ser, de agir no mundo econômico, de fazer política onde ele possa ver sua humanidade refletida. Contudo, a pessoa, para descobrir sua humanidade de forma livre e positiva, precisa enfrentar seus limites existenciais – que a Igreja chama de “pecado original” – e fazer a experiência de ser amado de forma gratuita. Sem a consciência do limite e a experiência do amor, não há verdadeiro humanismo.
Mas, no mundo atual, a cultura procura eliminar a consciência do limite humano, afastando até esconder as experiências de morte e sofrimento, procurando usar a técnica como uma ferramenta que elimina a necessidade do compromisso ético e do empenho responsável da liberdade. Paralelamente, o amor fica reduzido ao sentimentalismo e ao intimismo, fechado na vida privada, quase que proibido de ter uma expressão pública verdadeira.
“Caritas in veritate” rompe esta gaiola de ilusão na qual a cultura pós-moderna encerrou o humanismo ao recolocar no centro da vida econômica, política e social a questão da ética, da liberdade e da responsabilidade humana, e ao repropor o amor gratuito que Deus dá ao mundo, particularmente através de Cristo. Sem a centralidade do amor de Cristo, do dom gratuito de Deus ao homem, a nossa sede por amor não se aplacaria jamais e nós mesmos nunca poderíamos aceitar plenamente nossa liberdade, porque aceitá-la implica em aceitar também nossos limites – e o homem, se não é amado e perdoado, tem medo de seus limites.
–Que é o desenvolvimento humano no ponto de vista da encíclica? É possível vislumbrá-lo hoje ou é um sonho difícil de alcançar?
–Prof. Francisco Borba: Na visão da encíclica, o desenvolvimento humano é um processo “integral”, isto é, “que atinge todos os homens e o homem todo”. Isso implica, em primeiro lugar, na sua universalização. Não se pode pensar num desenvolvimento integral onde existem profundas disparidades sociais entre ricos e pobres, onde existe exclusão – seja no interior de uma nação ou no cenário internacional. Mas ele também abrange “o homem todo”, isto é, todas as dimensões do viver humano: o material, o social, o afetivo, o cultural, o espiritual. Por isso, nossa sociedade frequentemente apresenta pessoas com um subdesenvolvimento humano. Sacrificaram, em nome do crescimento material, aspectos de suas vidas afetiva e espiritual, por exemplo. Por isso, a “nova síntese humanista” que o papa propõe implica também numa postura mais adequada da pessoa humana em relação a seus objetivos de vida e seu compromisso para com aqueles que sofrem.
–Comente por favor um ponto que lhe chamou a atenção de forma especial na encíclica.
–Prof. Francisco Borba: Para nós, brasileiros, o aspecto mais interessante da encíclica, do ponto de vista de suas implicações políticas, é a relação entre ética e solidariedade. Os escândalos de corrupção na vida política brasileira sempre ocupam as páginas dos jornais. Mas poucas vezes percebemos que, por traz da permanência destas condutas políticas antiéticas, existe uma sociedade que não experimentou um “desenvolvimento integral” e que, por isso, tem dificuldade de eleger políticos éticos. Não se trata do jargão “o povo não sabe votar”, mas de perceber que, sem desenvolvimento humano integral, isto é, sem instrução, solidariedade, luta pelo bem comum, fica realmente muito difícil combater a corrupção – pois o pecado está em todos nós e só uma vida solidária e uma razão capaz de analisar e discernir claramente o que é melhor podem nos ajudar a superar a inclinação para o mal que sempre tende a aparecer na sociedade. A reflexão sobre a forma como o papa articula amor, solidariedade e compromisso ético é um ponto muito interessante e importante para a vida pública brasileira.
[O Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, através de um convênio com o Observatório Van Thuân para Doutrina Social da Igreja, está publicando textos de explicação e comentários à encíclica “Caritas in veritate” no site: http://www.pucsp.br/fecultura/caritasveritate.html]

ESCLARECIMENTO DA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ SOBRE O ABORTO PROVOCADO

Esclarecimento da Congregação para a Doutrina da Fé sobre o aborto provocado
Após o artigo do arcebispo Fisichella sobre a “menina brasileira”
CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 10 de julho de 2009 (ZENIT.org).- Publicamos o esclarecimento da Congregação para a Doutrina da Fé publicada no jornal da Santa Sé, "L'Osservatore Romano", em sua edição diária em italiano de 11 de julho, sobre o artigo publicado no mesmo periódico pelo arcebispo Rino Fisichella sobre a menina brasileira que foi submetida ao aborto dos gêmeos que gestava.
* * * Esclarecimento da Congregação para a Doutrina da Fé Sobre o aborto provocado
Recentemente chegaram à Santa Sé várias cartas, inclusive da parte de altas personalidades da vida política e eclesial, que informaram sobre a confusão que se criou em vários países, sobretudo na América Latina, após a manipulação e instrumentalização de um artigo de sua excelência Dom Rino Fisichella, presidente da Academia Pontifícia para a Vida, sobre o triste caso da “menina brasileira”. Nesse artigo, publicado no "L'Osservatore Romano" a 15 de março de 2009, apresentava-se a doutrina da Igreja, levando em consideração a situação dramática desta menina, que –como se pôde constatar posteriormente– tinha sido acompanhada com toda delicadeza pastoral, em particular pelo então arcebispo de Olinda e Recife, sua excelência Dom José Cardoso Sobrinho. A esse respeito, a Congregação para a Doutrina da Fé confirma que a doutrina da Igreja sobre o aborto provocado não mudou nem pode mudar. Esta doutrina foi exposta nos números 2270-2273 do Catecismo da Igreja Católica nestes termos:
“A vida humana deve ser respeitada e protegida, de modo absoluto, a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento da sua existência, devem ser reconhecidos a todo o ser humano os direitos da pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo o ser inocente à vida (cf. Congregação para a Doutrina da Fé, instrução Donum vitae 1, 1). «Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi: antes que saísses do seio da tua mãe, Eu te consagrei» (Jr 1, 5). «Vós conhecíeis já a minha alma e nada do meu ser Vos era oculto, quando secretamente era formado, modelado nas profundidades da terra» (Sl 139, 15)”.
“A Igreja afirmou, desde o século I, a malícia moral de todo o aborto provocado. E esta doutrina não mudou. Continua invariável. O aborto directo, isto é, querido como fim ou como meio, é gravemente contrário à lei moral: «Não matarás o embrião por meio do aborto, nem farás que morra o recém-nascido» (Didaké 2, 2; cf. Epistola Pseudo Barnabae 19. 5; Epistola a Diogneto 5, 6: Tertuliano, Apologeticum, 9, 8). «Deus [...], Senhor da vida, confiou aos homens, para que estes desempenhassem dum modo digno dos mesmos homens, o nobre encargo de conservar a vida. Esta deve, pois, ser salvaguardada, com extrema solicitude, desde o primeiro momento da concepção; o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis» (Gaudium et spes, 51).
“A colaboração formal num aborto constitui falta grave. A Igreja pune com a pena canónica da excomunhão este delito contra a vida humana. «Quem procurar o aborto, seguindo-se o efeito («effectu secuto») incorre em excomunhão latae sententiae (CIC can. 1398), isto é, «pelo facto mesmo de se cometer o delito» (CIC can. 1314) e nas condições previstas pelo Direito (cf. CIC can. 1323-1324). A Igreja não pretende, deste modo, restringir o campo da misericórdia. Simplesmente, manifesta a gravidade do crime cometido, o prejuízo irreparável causado ao inocente que foi morto, aos seus pais e a toda a sociedade”.
“O inalienável direito à vida, por parte de todo o indivíduo humano inocente, é um elemento constitutivo da sociedade civil e da sua legislação: «Os direitos inalienáveis da pessoa deverão ser reconhecidos e respeitados pela sociedade civil e pela autoridade política. Os direitos do homem não dependem nem dos indivíduos, nem dos pais, nem mesmo representam uma concessão da sociedade e do Estado. Pertencem à natureza humana e são inerentes à pessoa, em razão do acto criador que lhe deu origem. Entre estes direitos fundamentais deve aplicar-se o direito à vida e à integridade física de todo ser humano, desde a concepção até à morte» (Donum vitae, 3). «Desde o momento em que uma lei positiva priva determinada categoria de seres humanos da protecção que a legislação civil deve conceder-lhes, o Estado acaba por negar a igualdade de todos perante a lei. Quando o Estado não põe a sua força ao serviço dos direitos de todos os cidadãos, em particular dos mais fracos, encontram-se ameaçados os próprios fundamentos dum «Estado de direito» [...]. Como consequência do respeito e da protecção que devem ser garantidos ao nascituro, desde o momento da sua concepção, a lei deve prever sanções penais apropriadas para toda a violação deliberada dos seus direitos» (Donum vitae, 3).
Na encíclica "Evangelium vitae", o Papa João Paulo II afirmou esta doutrina com sua autoridade de Supremo Pastor da Igreja: “com a autoridade que Cristo conferiu a Pedro e aos seus Sucessores, em comunhão com os Bispos — que de várias e repetidas formas condenaram o aborto e que, na consulta referida anteriormente, apesar de dispersos pelo mundo, afirmaram unânime consenso sobre esta doutrina — declaro que o aborto directo, isto é, querido como fim ou como meio, constitui sempre uma desordem moral grave, enquanto morte deliberada de um ser humano inocente. Tal doutrina está fundada sobre a lei natural e sobre a Palavra de Deus escrita, é transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo Magistério ordinário e universal” (n. 62).
No que se refere ao aborto provocado em algumas situações difíceis e complexas, é válido o ensinamento claro e preciso do Papa João Paulo II: “É verdade que, muitas vezes, a opção de abortar reveste para a mãe um carácter dramático e doloroso: a decisão de se desfazer do fruto concebido não é tomada por razões puramente egoístas ou de comodidade, mas porque se quereriam salvaguardar alguns bens importantes como a própria saúde ou um nível de vida digno para os outros membros da família. Às vezes, temem-se para o nascituro condições de existência tais que levam a pensar que seria melhor para ele não nascer. Mas estas e outras razões semelhantes, por mais graves e dramáticas que sejam, nunca podem justificar a supressão deliberada de um ser humano inocente”. (Evangelium vitae, 58).
Pelo que se refere ao problema de determinados tratamentos médicos para preservar a saúde da mãe, é necessário distinguir bem entre dois fatos diferentes: por um lado, uma intervenção que diretamente provoca a morte do feto, chamada em ocasiões de maneira inapropriada de aborto “terapêutico”, que nunca pode ser lícito, pois constitui o assassinato direto de um ser humano inocente; por outro lado, uma intervenção não abortiva em si mesma que pode ter, como consequência colateral, a morte do filho: “Se, por exemplo, a salvação da vida da futura mãe, independentemente de seu estado de gravidez, requerer urgentemente uma intervenção cirúrgica, ou outro tratamento terapêutico, que teria como consequência acessória, de nenhum nenhum modo querida nem pretendida, mas inevitável, a morte do feto, um ato assim já não se poderia considerar um atentado direto contra a vida inocente. Nestas condições, a operação poderia ser considerada lícita, igualmente a outras intervenções médicas similares, sempre que se trate de um bem de elevado valor –como é a vida– e que não seja possível postergá-la após o nascimento do filho, nem recorrer a outro remédio eficaz” (Pio XII, discurso “Frente à Família” e à Associação de Famílias Numerosas, 27 de novembro de 1951).
Pelo que se refere à responsabilidade dos agentes sanitários, é necessário recordar as palavras do Papa João Paulo II: “a sua profissão pede-lhes que sejam guardiães e servidores da vida humana. No actual contexto cultural e social, em que a ciência e a arte médica correm o risco de extraviar-se da sua dimensão ética originária, podem ser às vezes fortemente tentados a transformarem-se em fautores de manipulação da vida, ou mesmo até em agentes de morte. Perante tal tentação, a sua responsabilidade é hoje muito maior e encontra a sua inspiração mais profunda e o apoio mais forte precisamente na intrínseca e imprescindível dimensão ética da profissão clínica, como já reconhecia o antigo e sempre actual juramento de Hipócrates, segundo o qual é pedido a cada médico que se comprometa no respeito absoluto da vida humana e da sua sacralidade”. (Evangelium vitae, 89)
[Traduzido por Zenit]

DISTANCIAMENTO DAVERDADE, RAIZ DAS CRISES, AFIRMA ARCEBISPO BRASILEIRO

Dom Walmor de Azevedo pede “atividade educativa” em favor da verdade
Fonte: ZENIT.org
O arcebispo de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, considera que a raiz das diferentes crises que se vivem hoje é o distanciamento da verdade. Na contrapartida desse distanciamento, o prelado pede uma “intensa atividade educativa” voltada para a verdade.
Em artigo enviado hoje a Zenit, o arcebispo comenta, por exemplo, a crise da vida pública brasileira, que atinge “instituições que devem primar pela seriedade e limpidez de suas ações e funcionamentos, como o Senado”.
Os escândalos envolvendo o Senado indicam “que se está vivendo uma crise ética e moral advinda do distanciamento da verdade, de práticas que a desconsideram, de relativizações ignorantes de seu sentido e alcance, produzindo prejuízos irreparáveis e passivos danosos”.
“É indispensável o critério simples e essencial de que a pessoa se mede pela verdade. A verdade é a sua única medida. Todos estão e devem estar debaixo da verdade, da qual a existência, e cada ser recebem sentido e valor”, afirma Dom Walmor.
Segundo o arcebispo, “antes das estratégias e das lógicas de gestão, a verdade faz a vida, dando-lhe fundamento, dirigindo-a e levando-a ao seu termo. Na raiz da crise localiza-se a incompetência humana de ser - para a verdade e na verdade que é um bem constitutivo e decisivo para o ser humano e suas organizações”.
“Aí começam os comprometimentos graves, com força para derrubar as mais consistentes estratégias e princípios de gestão nas complexidades das culturas e das sociedades contemporâneas.”
A crise que o mundo vive hoje “de fundo é a da verdade”. “Essa época contemporânea está caracterizada pela explosão da ciência em função da técnica e proliferação de ideologias, absolutizando verdades parciais ou os seus aspectos”.
“As consequências estão estampadas na angústia, na indiferença ou nos delírios que se expressam nos fanatismos por ídolos ou pela excentricidade de hábitos e costumes.”
Contudo –prossegue o arcebispo–, “esses aspectos parciais da verdade não possibilitam o encontro da verdade como fonte de sentido e com força de redenção. Há uma decepção e um desencanto na raiz impossibilitando o indispensável voltar-se para a interioridade transcendente”.
“A vulgaridade e a mesquinhez de interesses e hobbies, sem grandes ideais ou projetos, vão enterrando as pessoas na apatia da falsidade e no instinto espúrio da manipulação e da posse que gestam quadros horrendos de corrupção”, assinala o arcebispo.
De acordo com Dom Walmor, a convivência sustentável só é possível quando se funda na verdade.
“As crises graves deste tempo apontam que é uma exigência inadiável uma intensa atividade educativa e um empenho por parte de todos para que a verdade seja a referência insubstituível de comportamentos individuais, na definição de prioridades, na escolha dos ordenamentos”, assinala.
De acordo com o arcebispo, “é urgente reconhecer que no tratamento das crises se tornam indispensáveis os investimentos e formação da consciência moral. É determinante que hoje ocorra uma volta à referência fundamental que possibilita obter a resposta sobre o que é bem e o que é mal”.
“Essa referência fundamental, silenciada por muitas razões, é Deus. É um risco desconsiderar esta verdade –afirma–. Desconsiderá-la é correr o risco de titubear e perder rumos. A consciência capaz de fundamentar o agir na verdade não encontrará fora de Deus a sua integridade. De Deus vem a inteireza desta integridade.”

COMUNISMO E FRATURAS IDEOLÓGICAS EXPLICAM LENDA CONTRA PIO XII

Entrevista com o diretor de L'Osservatore Romano CIDADE DO VATICANO, terça-feira 16 de junho de 2009 (ZENIT.org).- A “lenda negra” sobre o Papa Pio XII (Eugenio Pacelli), que o acusa de proximidade com o nazismo, tem duas causas, segundo o diretor de L’Osservatore Romano: a propaganda comunista e as divisões dentro da Igreja.

Giovanni Maria Vian as expôs em uma entrevista concedida a Zenit por ocasião da publicação de um livro que ele coordenou, intitulado “Em defesa de Pio XII. As razões da história” (In difesa di Pio XII. Le ragioni della storia).

O livro foi apresentado na quarta-feira passada pelo cardeal secretário de Estado, Tarcisio Bertone, e pelos historiadores Giorgio Israel (Universidade de Roma La Sapienza), Paolo Mieli (Universidade de Milão, diretor em dois períodos do jornal Il Corriere della Sera) e Roberto Pertici (Universidade de Bérgamo).

O diretor do jornal vaticano, historiador, não hesita em utilizar a expressão “lenda negra”, pois, de fato, o Papa Pacelli – que, ao morrer, em 1958, recebeu elogios unânimes pela obra desempenhada durante a 2ª Guerra Mundial – depois foi realmente “demonizado”.

Como foi possível uma mudança tão radical de sua imagem em poucos anos, mais ou menos a partir de 1963?

Propaganda comunista

Vian atribui esta campanha contra o Papa, em primeiro lugar, à propaganda comunista, que se intensificou na época da Guerra Fria.

“A linha assumida nos anos do conflito pelo Papa e pela Santa Sé, contrária os totalitarismos, mas tradicionalmente neutra, foi, na prática, favorável à aliança contra Hitler e se caracterizou por um esforço humanitário sem precedentes que salvou muitíssimas vidas humanas”, observa.

“Esta linha foi, de qualquer forma, anticomunista e por isso, já durante a guerra, o Papa começou a ser acusado pela propaganda soviética de cumplicidade com o nazismo e seus horrores.”

O historiador considera que, “ainda que Eugenio Pacelli sempre tenha sido anticomunista, nunca pensou que o nazismo pudesse ser útil para deter o comunismo, muito pelo contrário”, e o prova com dados históricos.

Em primeiro lugar, “apoiou, entre o outono de 1939 e a primavera de 1940, nos primeiros meses da guerra, a tentativa de golpe contra o regime de Hitler por parte de círculos militares alemães em contato com os britânicos”.

Em segundo lugar, Vian explica que, após o ataque da Alemanha à União Soviética, em meados de 1941, Pio XII em um primeiro momento se negou a que a Santa Sé se unisse à “cruzada” contra o comunismo – como era apresentada – e depois dedicou suas energias a superar a oposição de muitos católicos americanos à aliança dos Estados Unidos com a União Soviética contra o nazismo.

A propaganda soviética, recorda o especialista, foi recolhida eficazmente pela peça teatral Der Stellvertreter (“O vigário”), de Rolf Hochhuth, representada pela primeira vez em Berlim, no dia 20 de fevereiro de 1963, em que se apresentava o silêncio como indiferença diante do extermínio de judeus.

Já naquele então, constata Vian, denunciou-se que a obra teatral relança muitas das acusações de Mijail Markovich Scheinmann no livro Der Vatican im Zweiten Weltkrieg (“O Vaticano na 2ª Guerra Mundial”), publicado antes em russo pelo Instituto Histórico da Academia Soviética das Ciências, órgão de propaganda da ideologia comunista.

E uma nova prova da oposição de Pio XII ao nazismo é o fato de que os chefes do Terceiro Reich consideravam o Papa como um autêntico inimigo, segundo demonstram os documentos dos arquivos alemães, que não por acaso haviam sido fechados pela Alemanha comunista e que só puderam ser abertos e estudados recentemente, como mostra um artigo de Marco Ansaldo no jornal italiano La Repubblica, de 29 de março de 2007.

O livro editado por Vian recolhe um texto do jornalista e historiador Paolo Mieli, um escrito póstumo de Saul Israel, biólogo, médico e escritor judeu, artigos de Andrea Riccardi, historiador e fundador da Comunidade de S. Egídio, dos arcebispos Rino Fisichella, presidente da Academia Pontifícia para a Vida, e Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, do cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado e, por último, uma homilia e dois discursos de Bento XVI, pronunciados em memória de Pio XII.

Divisão eclesial

Mas a “lenda negra” contra Pio XII também teve promotores dentro da Igreja, por causa da divisão entre progressistas e conservadores, que se acentuou durante e depois do Concílio Vaticano II, anunciado em 1959 e clausurado em 1965, afirma o diretor.

“Seu sucessor, João XXIII – Angelo Giuseppe Roncalli –, foi logo apresentado como o ‘Papa Bom’ e, pouco a pouco, foi contraposto ao seu predecessor: pelo caráter e pelo estilo totalmente diferentes, mas também pela decisão inesperada e surpreendente de convocar um concílio.”

As críticas católicas ao Papa Pacelli haviam sido precedidas, em 1939, pelos interrogantes do filósofo católico francês Emmanuel Mounier, quem repreendeu o “silêncio” do Papa diante da agressão italiana da Albânia.

Pio XII foi criticado também por “ambientes de poloneses no exílio”, que jogavam na sua cara o silêncio frente à ocupação alemã.

Deste modo, quando, a partir dos anos 60, aguçou-se na Igreja a polarização, os católicos que se opunham aos conservadores atacavam Pio XII, dado que ele era visto como um símbolo destes últimos, alimentando ou utilizando argumentos recolhidos da “lenda negra”.

Justiça histórica

O diretor de L’Osservtore Romano sublinha que seu livro não nasce de uma tentativa de defesa prejudicial do Papa, “pois Pio XII não tem necessidade de apologistas que não ajudam a esclarecer a questão histórica”.

No que se refere aos silêncios de Pio XII, não somente diante da perseguição judaica (denunciada sem grandes alardes, mas criticada de maneira inequívoca na mensagem natalina de 1942 e no discurso aos cardeais, de 2 de junho de 1943), mas também diante de outros crimes nazistas,o historiador destaca que esta linha de comportamento buscava que não se agravasse a situação das vítimas, enquanto o pontífice se mobilizava para ajudá-las nesta situação.

“O próprio Pacelli se perguntou em várias ocasiões por esta atitude. Foi, portanto, uma opção consciente e dura para ele de buscar a salvação do maior número de vidas humanas ao invés de denunciar continuamente o mal com o risco real de que os horrores fossem maiores ainda”, explica Vian.

No livro, Paolo Mieli, de origem judaica, afirma neste sentido: “Aceitar as acusações contra Pacelli implica em levar ao banco dos supostos culpáveis, com as mesmas acusações, Roosevelt e Churchill, acusando-os de não ter pronunciado palavras mais claras contra as perseguições antissemitas”.

Recordando que membros da sua família morreram no Holocausto, Mieli disse literalmente: “Eu me oponho a responsabilizar da morte dos meus familiares uma pessoa que não tem responsabilidade”.

O livro publica também um texto inédito de Saul Israel, escrito em 1944, quando, com os demais judeus, ele havia encontrado refúgio no convento de Santo Antônio, na Via Merulana de Roma.

Seu filho, Giorgio Israel, que participou da apresentação do livro, acrescentou: “Não foi um ou outro convento ou um gesto de piedade para poucos; e ninguém pode pensar que toda esta solidariedade que as igrejas e conventos ofereceram ocorreu sem que o Papa soubesse, ou inclusive sem o seu consentimento. A lenda contra Pio XII é a mais absurda de todas as que circulam”.

Muito além da lenda negra

Vian explica, por último, que o livro que ele editou não pretende centrar-se na questão da “lenda negra”. Mais ainda, “meio século depois da morte de Pio XII (9 de outubro de 1958) e 70 aos após sua eleição (2 de março de 1939), parece criar-se um novo acordo historiográfico sobre a importância histórica da figura e do pontificado do Eugenio Pacelli”.

O objetivo do livro é sobretudo contribuir para restituir à história e à memória dos católicos um Papa e um pontificado de importância capital em muitos aspectos que, na opinião pública, continuam sendo ofuscados pela polêmica suscitada pela “lenda negra”.

SER HUMANO POSSUI SELO DA TRINDADE EM SEU GENOMA, EXPLICA PAPA

Ao falar do mistério de Deus Uno e Trino com uma palavra: “Amor”

CIDADE DO VATICANO, domingo, 7 de junho de 2009 (ZENIT.org).- Neste domingo, Bento XVI recorreu a uma analogia sugerida pela biologia para explicar que “o ser humano tem no próprio ‘genoma’ um profundo selo da Trindade, do Deus-Amor”.

Na solenidade da Santíssima Trindade, que a Igreja celebra hoje, o pontífice dedicou suas palavras do Ângelus a meditar e explicar este mistério central do cristianismo, Deus Uno e Trino, que se resume em uma palavra: “Amor”.

Ao dirigir-se aos milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, o Santo Padre explicou que, como o próprio Jesus revelou, Deus é amor “não na unidade de uma só pessoa, mas na Trindade de uma só substância”.

“É Criador e Pai misericordioso – esclareceu; é Filho unigênito, eterna Sabedoria encarnada, morto e ressuscitado por nós; por último, é Espírito Santo que move tudo, o cosmos e a história, até a plena recapitulação final.”

“Três pessoas que são um só Deus, pois o Pai é amor, o Filho é amor, o Espírito é amor. Deus é todo amor e só amor, amor puríssimo, infinito e eterno”, afirmou o Papa, falando da janela dos seus aposentos.

A Trindade, segundo Bento XVI, “não vive em uma esplêndida solidão; pelo contrário, é fonte inesgotável de vida que incessantemente se entrega e comunica”.

Para compreender melhor este mistério, o Papa convidou a observar “tanto o macrouniverso – nossa terra, os planetas, as estrelas, as galáxias – como o microuniverso – as células, os átomos, as partículas elementares”.

Em tudo o que existe, encontra-se impresso, em certo sentido, o ‘nome’ da Santíssima Trindade, pois todo o ser, até as últimas partículas, é ser em relação, e deste modo se transluz o Deus-relação; transluz-se, em última instância, o Amor criador”, disse o bispo de Roma.

Tudo procede do amor, tende ao amor e se move empurrado pelo amor, naturalmente, segundo diferentes níveis de consciência e de liberdade”, sublinhou.

A prova mais forte de que estamos feitos à imagem da Trindade é esta – esclareceu: só o amor nos faz felizes, pois vivemos em relação, e vivemos para amar e para ser amados.”

Deste modo,o Papa concluiu utilizando uma analogia sugerida pela biologia, que lhe permitiu dizer que “o ser humano tem no próprio ‘genoma’ um profundo selo da Trindade, do Deus-Amor”.

VALOR AGRAGADO DA UNIVERSIDADE CATÓLICA: HUMANISMO CRISTÃO

Segundo o arcebispo Brugues, secretário da Congregação para a Educação

Por Isabel Margarita Lecaros

SANTIAGO, sexta-feira, 5 de junho de 2009 (ZENIT.org).- O humanismo cristão não é um curso opcional para as universidades católicas, é seu valor agregado a cada disciplina, considera o secretário da Congregação para a Educação Católica, arcebispo Jean-Louis Brugues O.P., em um documento do último número da Revista Humanitas (www.humanitas.cl).

O texto, que recolhe uma conferência do prelado francês pronunciada ao visitar a Pontifícia Universidade Católica do Chile, apresenta a essência de toda universidade que se considera e qualifica como católica.

Diante da atual tendência à fragmentação e à falta de comunicação entre as disciplinas ensinadas nas escolas, o arcebispo recorda o convite de Bento XVI a “redescobrir a unidade do conhecimento”.

Aduz, a respeito disso, que “corresponde às nossas universidades despertar esta ‘razão aberta’ da qual falamos e, em consequência, abrir ao humanismo cristão todas as disciplinas ensinadas”.

“Tal humanismo não se apresenta como uma simples opção para os que lecionam ou para os estudantes, mas como uma ardente obrigação. Além disso, ninguém obriga um professor a lecionar em uma universidade católica; tampouco, ninguém obriga um jovem a matricular-se em uma universidade católica: fazê-lo corresponde a assinar um acordo de ordem moral, segundo o qual uns e outros se comprometem nesta perspectiva.”

Recordando que “a verdade não pode caminhar sem o amor”, em palavras de Bento XVI, Dom Brugues convoca as universidades para serem “um testemunho de comunidade educativa”, evitando o desmembramento das relações.

“Para um cristão, a universidade é, ao mesmo tempo, um lugar de busca e transmissão da verdade e um lugar de encontro. Neste novo humanismo, deve-se realizar uma configuração inédita das relações entre professores e estudantes.”

Exorta as universidades a serem um testemunho de fé: “em primeiro lugar, a Igreja deseja que haja dentro das universidades, sejam católicas ou públicas, centros de confissão da fé, que envolvam os que lecionam e os estudantes. Este papel pertence às diversas capelanias universitárias”.

Neste sentido, acrescenta: “A Igreja está em seu direito de esperar da parte dos responsáveis da universidade católica um testemunho pessoal de compromisso na vida eclesial. Aceitando seu cargo, um reitor e um docente aceitam participar, na universidade ou no lugar em que se encontrem, da pastoral da Igreja”.

A Igreja espera de suas universidades que estimulem o saber dar razão da cultura cristã e que a façam presente, de maneira ativa e criativa, na construção da cultura do país.”

O secretário da Congregação para a Educação conclui sua exposição recordando que em agosto de 2010 se completam 20 anos desde a promulgação da constituição apostólica Ex corde Ecclesiae, o que equivale ao espaço de uma geração.

Segundo o prelado, é então o momento de convidar as universidades das diversas regiões linguísticas a realizarem, em conjunto com a Congregação, uma atualização desse texto fundamental, alentando-as assim a desenvolverem suas ideias e propostas.

FÉ NÃO É SÓ PENSAMENTO, TAMBEM É ARTE

Papa declara: fé não é só pensamento, também é arte Intervenção na audiência geral CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 3 de junho de 2009 (ZENIT.org).- Bento XVI esclareceu esta quarta-feira um dos mal-entendidos mais difundidos atualmente no Ocidente, segundo o qual a fé é vista como algo abstrato ou inclusive ideológico.

Segundo o pontífice esclareceu na audiência geral, trata-se de uma experiência na qual participam todos os sentidos, e por este motivo precisa e produz arte em suas diferentes manifestações estéticas.

Assim explicou ao continuar com a série de grandes personagens da história da Igreja que semanalmente está propondo aos peregrinos. Nesta ocasião, o Papa dedicou-se a apresentar a figura do monge Rábano Mauro, nascido por volta do ano 780 e falecido em 856, conhecido como primus praeceptor Germaniae, primeiro mestre da Alemanha.

Este monge, como explicou o Papa, não só foi um grande filósofo e teólogo, mas ilustrava seus escritos em verso e inclusive com desenhos.

“Este método de harmonizar todas as artes, a inteligência, o coração e os sentidos, que procedia do Oriente, seria sumamente desenvolvido no Ocidente, alcançando cumes inalcançáveis nos códices da Bíblia e em outras obras de fé e de arte, que floresceram na Europa até a invenção da imprensa e inclusive depois”, explicou o Santo Padre.

“Em todo caso – esclareceu – demonstra que Rábano Mauro tinha uma consciência extraordinária da necessidade de envolver a fé na experiência, não só a mente e o coração, mas também os sentidos através desses outros aspectos do gosto estético e da sensibilidade humana que levam o homem a desfrutar da verdade com todo seu ser, ‘espírito, alma e corpo’.”

“Isto é importante”, sublinhou o bispo de Roma, “a fé não é só pensamento, toca a todo o ser”.

“Dado que Deus se fez homem em carne e osso e entrou no mundo sensível, nós temos de procurar encontrar Deus com todas as dimensões de nosso ser”, declarou.

Deste modo, continuou dizendo, “a realidade de Deus, através da fé, penetra em nosso ser e o transforma”.

O Papa, seguindo o legado de Rábano Mauro, apresentou a liturgia “como síntese de todas as dimensões de nossa percepção da realidade”, expressão completa da beleza.

O QUE A IGREJA PENSA SOBRE DEMOCRACIA

O arcebispo de Granada responde em um curso sobre ética e futuro da democracia

O arcebispo de Granada, Dom Francisco Javier Martínez Fernández, destacou o apreço da Igreja pela democracia, mas advertiu que este conceito se desvirtua quando se prescinde da fé e se baseia em ideologias.

Não obstante, segundo o arcebispo, o pensamento filosófico atual se reduziu à mera percepção racional e isolou a fé cristã, princípio último que oferece sentido à essência humana.

Dom Martínez afirmou que diante da falta deste “fator unificador”, o homem se vê obrigado a buscar uma ideologia que justifique seu comportamento e isso conduz à desvirtuação de conceitos como o da democracia.

Neste sentido, Dom Martínez destacou que o homem precisa de um único critério de verdade aplicável e propôs uma “teologia política” que conceba Deus e Jesus Cristo como princípio último da existência humana.

Esta proposta pretende acabar com a redução da religião ao âmbito privado da vida e recuperar a relação direta de Deus com o mundo como resposta ao niilismo cultural.

O arcebispo falou das relações humanas e afirmou que os conflitos derivados destas estão determinados pela defesa dos interesses de cada indivíduo.

Neste sentido, enfatizou que as “relações humanas só são humanas na medida em que são desinteressadas”.

Durante sua intervenção, Dom Martínez afirmou que “uma democracia sem valores se converte em uma ditadura” e declarou que a crise atual tem algumas raízes morais.

REZE,TRABALHE E LEIA

Proposta de Bento XVI para cultura: “reze, trabalhe... e leia” O porta-voz vaticano pede que não se descuide da importância do estudo em tempos de Internet CIDADE DO VATICANO, domingo, 31 de maio de 2009 (ZENIT.org).- Bento XVI apresentou em um lema a chave para voltar a humanizar a sociedade e a cultura: “Ora et labora et lege”: “Reze, trabalhe e leia”, constata o porta-voz da Santa Sé. O Pe. Federico Lombardi S.I., diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, pede que não se descuide da “perene atualidade” da mensagem de São Bento de Nursia, que propôs o Santo Padre ao visitar em 24 de maio a abadia de Monte Cassino, fundada pelo patriarca do monaquismo ocidental. Em sua edição do último número de Octava Dies, jornal do Centro Televisivo Vaticano, o Pe. Lombardi aprofunda nos elementos do slogan: antes de tudo a oração, que faz presente “a primazia de Deus e de Jesus Cristo na vida pessoal e comunitária. Depois o trabalho: o cansaço cotidiano que deve humanizar e espiritualizar, descobrindo e respeitando o valor e a ordem da criação. Por último, a leitura, ou seja, a cultura e a educação”. “Para dizer a verdade, todos nos lembramos desde sempre do ‘ora et labora’, mas nem todos tínhamos presente o terceiro elemento: ‘et lege’, ou seja, ‘leia, estude’. Não é casualidade que seja precisamente o Papa Bento quem nos tenha assinalado isso, um Papa em quem a síntese entre oração, serviço e cultura se apresenta não só como mensagem, mas antes ainda como testemunho pessoal”, afirma o porta-voz. O Pe. Lombardi cita o “grande discurso” ao mundo da cultura de Paris, quando o Papa mostrou como a “busca de Deus foi a força originária do crescimento da cultura europeia em suas diferentes dimensões”. “Em Monte Cassino retomou o discurso e, falando do arquivo e da biblioteca da abadia de São Bento, disse que ‘recolhem inumeráveis testemunhos do compromisso de homens e mulheres que meditaram e trataram de melhorar a vida espiritual e material do homem’. Também por este motivo, após 1.500 anos e quatro destruições de Monte Cassino continua tendo algo muito importante a nos dizer”. “Leia, estude”, conclui o porta-voz. “Não basta navegar e fazer o zapping, ou copiar e colar sem cessar. Pois deste modo não ficará nada nem para você nem para os demais”. Fonte: Zenit

O FIO CONDUTOR DA ENCÍCLICA CARITAS IN VERITATE

A encíclica Caritas in veritate chama à atenção de um mundo marcado por preocupações profundas e transformações epocais "os temas centrais que se referem à vida do homem em relação aos seus semelhantes e as grandes questões que dizem respeito às nossas sociedades". Escreveu o Presidente da República Italiana, Giorgio Napolitano, numa carta enviada ao Pontífice na quarta-feira, 15 de Julho. O Chefe do Estado diz que leu "com grande interesse" o documento papal, que "leva a sua mensagem ressalta ao âmbito de uma sociedade na qual existem nestes anos apreensão e incerteza não só pelas perspectivas e pelo futuro da economia mundial e do desenvolvimento, mas também pelas mudanças que se vão delineando nas relações humanas, no mundo do trabalho e da empresa, nas relações entre os habitantes do planeta, o meio ambiente e os recursos naturais que por muito tempo foram considerados inexauríveis".

Os votos de Napolitano são por que os temas "traçados pela encíclica e ligados por aquele fio condutor que Vossa Santidade soube tornar visível no texto de modo tão claro" constituam "um estímulo para uma reflexão que poderá ser benéfica para todos". O Presidente ressaltou, em particular, o trecho no qual o Papa realça que hoje "a questão social se tornou radicalmente uma questão antropológica". Trata-se evidencia de "um convite a uma reconsideração aprofundada e serena de muitos aspectos da vida e do funcionamento das agregações humanas, com particular referência "ao sentido da economia e das suas finalidades" e à necessidade de uma "revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento", para corrigir as suas disfunções e deturpações".

Na conclusão da carta o Chefe do Estado garante a Bento XVI a sua "mais alta consideração" e a "atenta participação no seguimento do desempenho da sua missão quotidiana e extremamente empenhativa".

Fonte: L'Osservatore Romano

INTEGRIDADE PESSOAL

"Não pode existir integridade pessoal a não ser com base na auto-disciplina, numa vida controlada e regrada, no equilibrio exato entre o ser físico, mental e espiritual." (Seleções do Reader's Digest)

CARTA ENCÍCLICA CARITAS IN VERITATE

  • CAPÍTULO I

A MENSAGEM DA POPULORUM PROGRESSIO

O DESENVOLVIMENTO HUMANO NO NOSSO TEMPO

FRATERNIDADE, DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO E SOCIEDADE CIVIL

DESENVOLVIMENTO DOS POVOS, DIREITOS E DEVERES, AMBIENTE

A COLABORAÇÃO DA FAMÍLIA HUMANA

O DESENVOLVIMENTO DOS POVOS E A TÉCNICA

CONCLUSÃO

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CARITAS IN VERITATE - SÍNTESE DA NOVA ENCÍCLICA DE BENTO XVI

Cidade do Vaticano, 07 jul (RV) - Foi apresentada nesta terça-feira, na Sala de Imprensa da Santa Sé, a nova encíclica de Bento XVI, Caritas in Veritate (Caridade na verdade). Eis uma síntese do documento: "A caridade na verdade, que Jesus testemunhou" é "a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira": assim se inicia a Caritas in Veritate, a Encíclica endereçada ao mundo católico e "a todos os homens de boa vontade". Na Introdução, o Papa recorda que "a caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja". Por outro lado, considerando "o risco de ser mal entendida e de excluí-la da vida ética", ela deve ser conjugada com a verdade. E adverte: "Um Cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de sentimentos úteis para a convivência social, mas marginais." (1-4) O progresso necessita da verdade. Sem ela – afirma o Pontífice – "a atividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade". (5) Bento XVI se detém sobre dois "critérios orientadores da ação moral" que derivam do princípio "caridade na verdade": a justiça e o bem comum. Cada cristão é chamado à verdade, também através de um "caminho institucional" que incida na vida da polis, do viver social. (6-7) A Igreja – reafirma – "não tem soluções técnicas para oferecer", mas tem, todavia, "uma missão a serviço da verdade para cumprir" a favor de "uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade e da sua vocação". (8-9) O primeiro capítulo do documento é dedicado à Mensagem da Populorum Progressio, de Paulo VI. "Sem a perspectiva de uma vida eterna – adverte o Papa – o progresso humano neste mundo fica privado de respiro". Sem Deus, o desenvolvimento é negado, "desumanizado". (10-12) Paulo VI – lê-se – reafirmou "a exigência imprescindível do Evangelho para a construção da sociedade segundo liberdade e justiça". (13) Na Encíclica Humane Vitae, Papa Montini "indica os fortes laços existentes entre a ética da vida e a ética social". Hoje também, "a Igreja propõe, com vigor, esta ligação". (14-15) O Papa explica o conceito de vocação presente na Populorum Progressio. "O desenvolvimento é vocação", uma vez que "nasce de um apelo transcendente". E é realmente "integral" – sublinha – quando "promove todos os homens e o homem todo". "A fé cristã – acrescenta – ocupa-se do desenvolvimento sem olhar a privilégios nem posições de poder", "mas contando apenas com Cristo". (16-18) O Pontífice evidencia que "as causas do subdesenvolvimento não são primariamente de ordem material". Elas estão, antes de tudo, na vontade, no pensamento e, mais ainda, "na falta de fraternidade entre os homens e entre os povos". "A sociedade cada vez mais globalizada – sublinha – torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos". É preciso, então, mobilizar-se, a fim de que a economia evolua "para metas plenamente humanas". (19-20) No segundo capítulo, o Papa entra no cerne do Desenvolvimento humano no nosso tempo. O objetivo exclusivo de lucro "sem ter como fim último o bem comum – observa – arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza". E enumera algumas distorções do desenvolvimento: uma atividade financeira "maioritariamente especulativa", os fluxos migratórios "com freqüência provocados" e sucessivamente mal geridos, e ainda "a exploração desregrada dos recursos da terra". Diante de tais problemas interligados, o Papa invoca "uma nova síntese humanista". A crise "obriga-nos a projetar de novo o nosso caminho". (21) O desenvolvimento hoje – constata o Papa − é "policêntrico". "Cresce a riqueza mundial em termos absolutos, mas aumentam as desigualdades" e nascem novas formas de pobreza. A corrupção – lamenta o Papa – está presente tanto nos países ricos como nos pobres; às vezes, grandes empresas transnacionais não respeitam os direitos dos trabalhadores. Por outro lado, "as ajudas internacionais foram, muitas vezes, desviadas das suas finalidades, por irresponsabilidades" seja dos doadores seja daqueles que fruem delas. Ao mesmo tempo – denuncia o Pontífice – "existem formas excessivas de proteção do conhecimento, por parte dos países ricos, através de uma utilização demasiado rígida do direito de propriedade intelectual, especialmente no campo da saúde". (22) Após o fim dos "blocos" – recorda-se – João Paulo II solicitara "uma revisão global do desenvolvimento", mas isso "realizou-se apenas parcialmente". Existe hoje, "uma renovada avaliação" do papel dos "poderes públicos do Estado", e é desejável uma participação da sociedade civil na política nacional e internacional. Bento XVI volta sua atenção, depois, para a deslocação de produções de baixo custo, por parte dos países ricos. "Estes processos – adverte – implicaram a redução das redes de segurança social", com "grave perigo para os direitos dos trabalhadores". A isso se acrescenta que "os cortes na despesa social, muitas vezes fomentados pelas próprias instituições financeiras internacionais, podem deixar os cidadãos impotentes diante de riscos antigos e novos". Por outro lado, acontece também de "os governos, por razões de utilidade econômica, limitarem as liberdades sindicais". O Papa recorda aos governantes, por isso, que "o primeiro capital a preservar e valorizar é o homem, a pessoa na sua integridade". (23-25) No plano cultural – prossegue – as possibilidades de interação abrem novas perspectivas de diálogo, mas existe um duplo perigo. Em primeiro lugar, um ecletismo cultural no qual as culturas são "vistas como substancialmente equivalentes". O perigo oposto é o do "nivelamento cultural", "a homogeneização dos estilos de vida". (26) Nesse contexto, o Papa volta o seu pensamento para o escândalo da fome. Falta – denuncia o Pontífice – "um sistema de instituições econômicas que seja capaz" de afrontar tal emergência. Faz votos de que se faça recurso a "novas fronteiras" nas técnicas de produção agrícola, e de uma equa reforma agrária nos países em desenvolvimento. (27) Bento XVI faz questão de sublinhar que o respeito pela vida "não pode ser de modo algum separado" do desenvolvimento dos povos. Em várias partes do mundo – adverte – continuam a ser aplicadas práticas de controle demográfico que "chegam mesmo a impor o aborto". Nos países desenvolvidos difundiu-se uma "mentalidade antinatalista que, muitas vezes, se procura transmitir a outros Estados, como se fosse um progresso cultural". Além disso – prossegue − existe "uma fundada suspeita de que, às vezes, as próprias ajudas ao desenvolvimento sejam associadas" a "políticas de saúde que realmente implicam a imposição de um forte controle dos nascimentos". Igualmente preocupantes são as "legislações que preveem a eutanásia". "Quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida – adverte – acaba por deixar de encontrar" motivações e energias "para trabalhar a serviço do verdadeiro bem do homem". (28) Outro aspecto ligado ao desenvolvimento é o direito à liberdade religiosa. As violências – escreve o Papa – "refreiam o desenvolvimento autêntico", e isso "aplica-se de modo especial ao terrorismo de índole fundamentalista". Ao mesmo tempo, a promoção do ateísmo por parte de muitos países "tira aos seus cidadãos a força moral e espiritual indispensável para se empenhar no desenvolvimento humano integral". (29) Para o desenvolvimento – prossegue – é necessária a interação dos diversos níveis do saber, harmonizados pela caridade. (30-31) O Papa faz votos, portanto, de que as opções econômicas atuais continuem "a perseguir como prioritário, o objetivo do acesso ao trabalho" para todos. Bento XVI chama a atenção para os riscos de uma economia "a curto senão mesmo curtíssimo prazo" que determina "a diminuição do nível de tutela dos direitos dos trabalhadores", no intuito de permitir que o país alcance "maior competitividade internacional". Para isso, exorta a uma correção das disfunções do modelo de desenvolvimento, como requer hoje também o "estado de saúde ecológica da Terra". E conclui acerca da globalização: "Sem a guia da caridade na verdade, este ímpeto mundial pode concorrer para criar riscos de danos até agora desconhecidos e de novas divisões". É necessário, portanto, "um compromisso inédito e criativo". (32-33) Fraternidade, Desenvolvimento econômico e Sociedade civil é o tema do terceiro capítulo da Encíclica, que se abre com um elogio da experiência do dom, frequentemente não reconhecida, "por causa de uma visão meramente produtiva e utilitarista da existência". A convicção de autonomia da economia em relação às "influências de caráter moral – sublinha o Papa – impeliu o homem a abusar dos instrumentos econômicos, até mesmo de forma destrutiva". O desenvolvimento, "se quiser ser autenticamente humano", deve, ao invés, "dar espaço ao princípio da gratuidade". (34) O que vale em particular para o mercado. "Sem formas internas de solidariedade e de confiança recíproca – adverte – o mercado não pode cumprir plenamente a própria função econômica". O mercado – reitera – "não pode contar apenas consigo mesmo", "tem de haurir energias morais de outros sujeitos" e não deve considerar os pobres como um "fardo", mas sim como um "recurso". O mercado não deve se tornar "o lugar da prepotência do forte sobre o débil". E acrescenta: a lógica mercantil deve "ter como finalidade a prossecução do bem comum, do qual se deve ocupar também e, sobretudo, a comunidade política". O Papa sublinha que o mercado não é negativo por natureza. Portanto, a ser chamado em causa é o homem, "a sua consciência moral e a sua responsabilidade". A atual crise – conclui o Papa – mostra que os "princípios tradicionais da ética social" – transparência, honestidade e responsabilidade – "não podem ser transcurados". Ao mesmo tempo, recorda que a economia não elimina o papel dos Estados e necessita de "leis justas". Retomando a Centesimus Annus, indica a "necessidade de um sistema a três sujeitos": o mercado, o Estado e a sociedade civil, e encoraja à instauração de uma "civilização da economia". São necessárias "formas econômicas solidárias". Mercado e política necessitam "de pessoas abertas ao dom recíproco". (35-39) A crise atual – observa – requer também "profundas mudanças" para a empresa. A sua gestão "não pode ter em conta unicamente os interesses dos proprietários", mas "deve preocupar-se" também com a comunidade local. O Papa refere-se aos managers que, frequentemente, "respondem só às indicações dos acionistas" e convida a evitar um uso "especulativo" dos recursos financeiros. (40-41) O capítulo se conclui com uma nova avaliação do fenômeno da globalização, que não deve ser entendida apenas como um "processo socioeconômico". "Não devemos ser vítimas dela, mas protagonistas – exorta – atuando com razoabilidade, guiados pela caridade e a verdade". À globalização é necessária "uma orientação cultural personalista e comunitária, aberta à transcendência", capaz de "corrigir as suas disfunções". Existe – acrescenta – "a possibilidade de uma grande redistribuição da riqueza", mas a difusão do bem-estar não deve ser freada "com projetos egoístas e protecionistas". (42) No quarto capítulo, a Encíclica aborda o tema do Desenvolvimento dos povos, direitos e deveres, ambiente. Nota-se – observa o Papa – "a reivindicação do direito ao supérfluo" nas sociedades opulentas, enquanto faltam alimento e água em certas regiões subdesenvolvidas. "Os direitos individuais desvinculados de um quadro de deveres" – sublinha – "enlouquecem". Direitos e deveres – precisa o Pontífice – derivam de um quadro ético. Se, pelo contrário, "encontram o seu fundamento apenas nas deliberações de uma assembléia de cidadãos", podem ser "alterados em qualquer momento". Governos e organismos internacionais não podem esquecer "a objetividade e a indisponibilidade" dos direitos. (43) A tal propósito, Bento XVI se detém sobre a "problemática ligada ao crescimento demográfico". É "errado" – afirma – "considerar o aumento da população como a primeira causa do subdesenvolvimento". O Pontífice reafirma que a sexualidade não pode ser "reduzida a um mero fato hedonista e lúdico". Nem se pode regular a sexualidade com políticas materialistas "de planificação forçada dos nascimentos". O Papa sublinha, a seguir, que "a abertura moralmente responsável à vida é uma riqueza social e econômica". Os Estados – escreve – "são chamados a instaurar políticas que promovam a centralidade da família". (44) "A economia – reafirma ainda – tem necessidade da ética para o seu correto funcionamento: não de uma ética qualquer, mas de uma ética amiga da pessoa." A própria centralidade da pessoa – afirma – deve ser o princípio-guia "nas intervenções em prol do desenvolvimento" da cooperação internacional, que devem sempre envolver os beneficiários. "Os organismos internacionais – exorta o Papa – deveriam interrogar-se sobre a real eficácia de seus aparatos burocráticos", "frequentemente muito dispendiosos". Acontece, às vezes – constata – que "os pobres sirvam para manter de pé dispendiosas organizações burocráticas". Daí o convite a uma "plena transparência" no que diz respeito aos fundos recebidos. (45-47) Os últimos parágrafos do capítulo são dedicados ao ambiente. Para o fiel, a natureza é um dom de Deus, a ser usado com responsabilidade. Nesse contexto, o Papa se detém sobre a problemática energética. "O açambarcamento dos recursos" por parte dos Estados e grupos de poder – denuncia o Pontífice – constitui "um grave impedimento ao desenvolvimento dos países pobres". A comunidade internacional deve, portanto, "encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis". "As sociedade tecnicamente avançadas – acrescenta – podem e devem diminuir o consumo energético", ao mesmo tempo em que deve "avançar a pesquisa de energias alternativas". No fundo – exorta o Papa – "é necessária uma real mudança de mentalidade que nos induza a adotar novos estilos de vida". Um estilo que hoje, em muitas partes do mundo "pende para o hedonismo e o consumismo". O problema decisivo – prossegue – "é a solidez moral da sociedade em geral". E adverte: "Se não é respeitado o direito à vida e à morte natural", a "consciência comum acaba por perder o conceito de ecologia humana" e o de "ecologia ambiental". (48-52) A colaboração da família humana é a essência do quinto capítulo, no qual Bento XVI evidencia que "o desenvolvimento dos povos depende, sobretudo, do reconhecimento que são uma só família". Por outro lado – lê-se – a religião cristã pode contribuir para o desenvolvimento, "se Deus encontrar lugar também na esfera pública". Com a "negação do direito de professar publicamente a própria religião", a política "assume um rosto oprimente e agressivo". E adverte: "No laicismo e no fundamentalismo, perde-se a possibilidade de um diálogo fecundo" entre razão e fé. Ruptura que "implica um custo muito gravoso para o desenvolvimento da humanidade". (53-56) O Papa refere-se, portanto, ao princípio da subsidiariedade, que oferece uma ajuda à pessoa "na autonomia dos corpos intermédios". A subsidiariedade – explica – "é o antídoto mais eficaz contra toda forma de assistencialismo paternalista" e é capaz de humanizar a globalização. As ajudas internacionais – constata – "podem, por vezes, manter um povo num estado de dependência", por isso devem ser concedidas com a participação da sociedade civil e não apenas dos governos. "Muitas vezes", de fato, "as ajudas serviram apenas para criar mercados marginais para os produtos" dos países em desenvolvimento. (57-58) Assim sendo, exorta os Estados ricos a "destinarem maiores cotas" do PIB para o desenvolvimento, respeitando os compromissos assumidos. E faz votos de que possa haver maior acesso à educação e ainda mais, à "formação completa da pessoa", sublinhando que, cedendo ao relativismo, nos tornamos mais pobres. Um exemplo – escreve − nos é oferecido pelo perverso fenômeno do turismo sexual. "É doloroso constatar – observa – que isto acontece, frequentemente, com o aval dos governos locais, com o silêncio dos governos de onde provêm os turistas, e com a cumplicidade de muitos agentes do setor". (59-61) A seguir, o Papa aborda o fenômeno "epocal" das migrações. "Nenhum país se pode considerar capaz de enfrentar sozinho – adverte – os problemas migratórios." Todo migrante – acrescenta – "é uma pessoa humana" que "possui direitos fundamentais inalienáveis que hão-de ser respeitados por todos em qualquer situação". O Papa pede que os trabalhadores estrangeiros não sejam considerados como mercadoria e evidencia o "nexo direito entre pobreza e desemprego". Invoca trabalho decente para todos e convida os sindicatos, separadamente da política, a voltaram sua atenção para os trabalhadores dos países onde os direitos sociais são violados. (62-64) As finanças – repete – "depois da sua má utilização que prejudicou a economia real, voltem a ser um instrumento que tenha em vista" o desenvolvimento. E acrescenta: "Os operadores das finanças devem redescobrir o fundamento ético próprio da sua atividade". O Papa pede, além disso, "uma regulamentação do setor", para garantir os sujeitos mais vulneráveis. (65-66) O último parágrafo do capítulo é dedicado pelo Papa "à urgência da reforma" da ONU e "da arquitetura econômica e financeira internacional". Urge "a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial" que respeite "coerentemente, os princípios de subsidiariedade e solidariedade". Uma Autoridade – afirma – que goze de "poder efetivo". E conclui com o apelo a se instituir "um grau superior de ordenamento internacional" para governar a globalização. (67) O sexto e último capítulo é centrado no tema do Desenvolvimento dos povos e a técnica. O Papa chama a atenção para a "pretensão prometeica" segundo a qual "a humanidade pensa que se pode recriar, valendo-se dos "prodígios" da tecnologia". A técnica – adverte – não pode ter uma "liberdade absoluta". O Papa ressalta que "o processo de globalização poderia substituir as ideologias com a técnica". (68-72) Interligados com o desenvolvimento tecnológico estão os meios de comunicação social chamados a promover "a dignidade da pessoa e dos povos". (73) Campo primeiro "da luta cultural entre o absolutismo da técnica e a responsabilidade moral do homem é o da bioética" – explica o Papa, que acrescenta: "A razão sem a fé está destinada a perder-se na ilusão da própria onipotência". A questão social torna-se "questão antropológica". A pesquisa sobre os embriões e a clonagem – lamenta o Pontífice – "promovem-se na atual cultura" que "pensa ter desvendado todos os mistérios". O Papa teme "uma sistemática planificação eugenética dos nascimentos". (74-75) Sucessivamente, reafirma que "o desenvolvimento deve incluir o crescimento espiritual além do material". E enfim, exorta a termos um "coração novo", para podermos "superar a visão materialista dos acontecimentos humanos". (76-77) Na Conclusão da Encíclica, o Papa sublinha que o desenvolvimento "necessita de cristãos com os braços levantados para Deus, em atitude de oração", de "amor e de perdão, de renúncia a si mesmos, de acolhimento do próximo, de justiça e de paz". (78-79) (AF) Fonte: Radio Vaticano

RECOMENDAÇÕES DE UM FILÓSOFO MEDIEVAL PARA DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

Celebrado em Andorra um congresso sobre Ramon Llull
ANDORRA LA VELLA, terça-feira, 26 de maio de 2009 (ZENIT.org).- O exemplo do filósofo medieval Ramon Llull (Raimundo Lúlio) pode ajudar o diálogo inter-religioso, a preservação das identidades e a solidariedade mútua nas atuais sociedades multiculturais.
Assim destacaram especialistas de diversos países no “Congresso sobre Inter-culturalidade”, celebrado em Andorra de 14 a 16 de maio, segundo informa a Zenit a diocese da sede de Urgel.
Seu bispo, Dom Joan Enric Vives, copríncipe de Andorra, inaugurou o congresso, promovido pelo Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Rimundo Lúlio, com a colaboração do governo de Andorra.
“O interesse de Ramon Llull em nossos dias radica no fato de que seu projeto missionário incluía a adoção estratégica de elementos culturais islâmicos e árabes”, destacou em sua palestra inaugural.
O beato Ramon Llull escrevia e falava em árabe, adotava fontes islâmicas, lutava para que o Ocidente cristão se interessasse pela cultura árabe e se aproximasse dela, e chegou a chamar a si mesmo de christianus arabicus e procurador dos não-cristãos, destacou o bispo.
Dom Vives destacou também a dimensão intelectual do filósofo, o único escritor do Ocidente que dirigiu no século XIII e princípios do XIV mais da metade de sua extensa obra (260 títulos) a um público árabe muçulmano, escrevendo-lhes em língua árabe.
Ao mesmo tempo, Ramon Llull desenvolveu uma intensa atividade nos centros de poder do Ocidente medieval (sobretudo Roma e Paris) e viajou ao norte da África e ao Oriente.
Para o bispo, a iniciativa de Llull foi individual e personalista, e hoje a chamaríamos de “não-governamental”, que tinha um grande alcance temporal e espacial.
Leigo casado, pai de dois filhos e depois franciscano, Ramon Llull manteve sempre, apesar de suas experiências decepcionantes, a necessidade iniludível da relação com o “outro”.
Neste sentido, Dom Vives recordou algumas simples palavras do filósofo: que “os infiéis são pessoas como nós”.
“No final de sua vida, apesar de fracassos, incompreensões, fadiga e danos pessoais, ainda alentava os intercâmbios entre cristãos e muçulmanos, como lemos no Liber de participatione christianorum et sarracenorum”, assinalou o bispo.
Nessa obra do ano 1312, Llull pede “que cristãos bem instruídos e conhecedores do árabe vão à Tunísia para mostrar a verdade da fé; e que muçulmanos bem instruídos venham ao reino da Sicília para debater com sábios cristãos sobre sua fé”.
E acrescenta: “E talvez desta maneira, se esta prática se generalizar por todas as partes, poderia conseguir-se a paz entre cristãos e sarracenos, ao invés de que os cristãos vão para destruir os sarracenos e os sarracenos, os cristãos”.
Dom Vives valorizou o trabalho do especialista em Ramon Llull, Josep Perarnau, que desmascarou a falsificação das teses de Llull realizada por Nicolau Eymerich.
Também desejou que em breve possamos chegar a vê-lo canonizado por um Papa como Bento XVI, que, segundo alguns especialistas, tem um pensamento muito próximo ao de Llull no que se refere ao diálogo inter-religioso.
O congresso abordou, através de três grandes palestras com especialistas, a repercussão da obra de Llull, por exemplo, a contribuição de seu pensamento de tipo dedutivo e de sua teoria do conhecimento e a unidade do homem à filosofia da linguagem e à informática.
Também se tratou da fé religiosa e do realismo na perspectiva de Llull e sua contribuição para o diálogo inter-religioso, especialmente entre cristãos, judeus e muçulmanos, da inter-culturalidade e do secularismo.
Está previsto que este congresso tenha continuidade com um segundo encontro na cidade brasileira de São Paulo e um terceiro na ilha de Mallorca.

LAICIDADE E ESTADO: DAR A CÉSAR O QUE É DE CESÁR...

Entrevista a Alfonso Santiago, professor de direito constitucional
Por Carmen Elena Villa (ZENIT.org).
O governo deve promover o esporte, mas não deve ser torcedor de um time, explica para ilustrar o que é a laicidade o autor de um livro recém-publicado com o título “Religião e política: suas relações no atual magistério da Igreja Católica e através da história constitucional argentina” (“Religión y política: sus relaciones en el actual magisterio de la Iglesia Católica y a través de la historia constitucional argentina”).
Como acontece no caso de um esporte nacional, o Estado pode ter um certo e limitado trato preferencial a um determinado culto religioso, por motivos históricos, culturais ou sociológicos, sempre e quando isso não signifique a proibição ou limitação dos restantes.
O autor, Alfonso Santiago, fala da sã diferenciação entre o âmbito político e religioso, assim como da contribuição recíproca que ambas as instituições podem dar-se.
Cita também, em repetidas ocasiões, textos do magistério de João Paulo II e de Bento XVI que buscam dialogar, a partir da perspectiva eclesial, com o âmbito político contemporâneo.
Também faz uma análise das principais leis e situações que têm a ver com as relações entre Igreja e Estado em seu país.
Zenit falou com Alfonso Santiago, professor de direito constitucional da Universidade Austral de Buenos Aires, sobre os desafios tanto da Igreja como do Estado nesta matéria, sem rejeitar a resposta a perguntas sobre a situação argentina.
– Há alguns anos, o papel público das religiões entrou na moda. Desde as perspectivas teológica, cultural e filosófico-política, que aborda em seu livro, como crê que devem ser entendidas as relações entre a religião e a política?
– Alfonso Santiago: Religião e política são duas realidades, duas dimensões da vida humana que acompanharam e acompanharão sempre a existência de cada pessoa e da sociedade em todo tempo e lugar. A universalidade do fenômeno político e do religioso é uma realidade histórica e empiricamente comprovável. Religião e política, com fins e expressões bem diferentes, estão chamadas a dar sentido e enriquecer a vida de cada homem e a complementar-se mutuamente.
A política tem que velar pela promoção do bem comum da comunidade. A religião, por sua vez, canaliza a profunda inclinação que o homem experimenta a Deus, para conhecê-lo, adorá-lo e viver conforme seus desígnios. Cada uma em seu âmbito, sem misturas nem indevidas interferências, ainda que aberta uma à outra, podem contribuir para a plena realização pessoal e social. Nesta matéria, o cristianismo é portador de uma original visão que se baseia no dualismo cristão (“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”) e nas relações de independência e colaboração que propõe entre a Igreja e a comunidade política.
– Na situação atual, quais são os principais desafios para a Igreja nesta matéria?
– Alfonso Santiago: Em minha opinião, e assim exponho em meu livro, os três grandes desafios que hoje em dia se apresentam à Igreja Católica em torno da relação entre religião e política são o fundamentalismo islâmico, com sua profunda confusão entre a ordem política e a religião; o laicismo extremo, com sua consideração hostil do fenômeno religioso e a tentativa de encerrá-lo unicamente na esfera privada; e a falta de participação e de coerência dos fiéis cristãos na hora de atuar na vida pública.
– De que maneira a falta de compromisso e de coerência dos cidadãos católicos em sua atuação pública afeta a credibilidade das orientações do magistério e da doutrina social da Igreja?
– Alfonso Santiago: É muito significativo o dano que os fiéis cristãos produzem quando, apesar das orientações que recebem, não se comprometem com a vida pública de seus países ou não o fazem de modo coerente com os ensinamentos da Igreja à qual pertencem. Isto, naturalmente, diminui a credibilidade desses ensinamentos: se os próprios fiéis católicos não seguem esses critérios, o que se pode esperar do resto? É um problema interno, no seio da Igreja, que deve ser assumido com firmeza, através da formação doutrinal profunda dos fiéis e das oportunas correções quando se tenha incorrido em condutas públicas que contradizem os valores e princípios da identidade cristã.
– Qual a concepção que se tem em seu país do termo “laicidade”?
– Alfonso Santiago: Laicidade significa, por um lado, uma consideração positiva do fenômeno religioso, e por outro, certa neutralidade e incompetência do Estado em matéria especificamente religiosa. Fazendo uma comparação, podemos dizer que o Estado pode e deve promover e alentar a prática esportiva, mas não lhe corresponde ser torcedor de nenhum time em concreto. Laicidade significa também que o Estado protege amplamente a liberdade religiosa tanto em sua dimensão pessoal como social, mas não impõe coativamente, através do direito, nenhuma verdade especificamente religiosa, e sim funda a ordem jurídica nas verdades morais naturais.
A laicidade do Estado proposta pela doutrina católica não se opõe, de acordo com as características próprias de cada comunidade política, ao reconhecimento e afirmação do teísmo; à consideração positiva do fenômeno religioso por parte da autoridade pública; a um certo e limitado trato preferencial que, por motivos históricos, culturais ou sociológicos possa dar-se a um determinado culto religioso, sempre e quando isso não signifique a proibição ou limitação dos restantes; à presença de determinados elementos religiosos nos espaços públicos (como a colocação de alguns símbolos religiosos em espaços ou edifícios públicos, as cerimônias religiosas por ocasião de uma festa pátria, os feriados por ocasião de determinada celebração religiosa etc.); à consideração favorável da contribuição que as comunidades religiosas e a própria religião pode fazer à vida pública etc. A sã laicidade não proíbe nem é hostil às manifestações religiosas que natural e espontaneamente se fazem presentes na vida social e política. Não as promove nem impõe juridicamente, mas tampouco as combate nem as expulsa forçadamente do cenário público.
– De que maneira a rejeição de muitos políticos a tudo que pareça provir da religião católica incide na promoção de leis e políticas públicas contrárias ao cuidado e respeito da vida humana?
– Alfonso Santiago: Algumas correntes culturais da modernidade e da pós-modernidade manifestam um tom supostamente “liberal” e “emancipador” com relação à tradição e à lei natural. Nesse sentido, a promoção de leis que deixem de lado os ensinamentos morais da Igreja teriam um valor simbólico de expressar uma suposta libertação e superação de antigas ideias opressoras, que são vistas como contrárias ao novo modo de entender a razão e a autonomia do homem. Considero que este ingrediente ideológico costuma estar presente, junto a alguns outros, em quem promove leis contrárias ao respeito absoluto intangível à vida humana, tal como propõe o Magistério da Igreja Católica.
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