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BENTO XVI A ASTRÔNOMOS: NÃO REDUZIR A CIÊNCIA A MERO CÁLCULO, MAS DESCOBRIR NA CRIAÇÃO O AMOR DE DEUS


Cidade do Vaticano, 30 out (RV) - A ciência deve abrir o horizonte da razão rumo à busca da verdade: foi o que ressaltou Bento XVI na audiência da manhã desta sexta-feira, na Sala Clementina, no Vaticano, aos participantes do Encontro promovido pelo Observatório Astronômico Vaticano – chamado Specola Vaticana – por ocasião do Ano Internacional da Astronomia.


O pontífice afirmou que na contemplação do universo, bem como das outras maravilhas da Criação, podemos reconhecer a obra de Deus-Amor. Hoje e amanhã, o Observatório Astronômico Vaticano e o Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano celebram o Ano da Astronomia com uma série de iniciativas culturais que têm a participação de astrônomos do mundo inteiro.

A saudação ao Santo Padre foi feita pelo presidente do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano, Cardeal Giovanni Lajolo.

O Ano Internacional da Astronomia, dedicado a Galileu, convida-nos a olhar o universo com espírito de admiração, comprometendo-nos a buscar a verdade: foi a exortação dirigida pelo papa aos astrônomos internacionais reunidos em Roma pela Specola Vaticana.

O papa ressaltou que em Cristo, novo Adão, reconhecemos "o verdadeiro centro do universo e da história". N'Ele, Verbo encarnado, vemos em sua totalidade a nossa grandeza de seres humanos, dotados de razão e chamados a um destino eterno – prosseguiu.

O pontífice recordou que a história do Observatório está ligada à figura de Galileu, "às controvérsias que circundaram a sua pesquisa, e à tentativa da Igreja de obter uma compreensão correta frutuosa da relação entre ciência e religião":

"Aproveito essa ocasião para expressar a minha gratidão não somente pelos oportunos estudos que esclareceram o preciso contexto histórico da condenação", mas também "pelos esforços daqueles que estão comprometidos num diálogo contínuo e numa reflexão sobre a complementaridade da fé e da razão, no serviço a uma compreensão integral do homem e de seu lugar no universo".

O papa deteve-se assim sobre a "síntese humanística do conhecimento" que inspirou os pais da ciência moderna. Uma lição sempre atual:

"Quem pode negar que a responsabilidade pelo futuro da humanidade e o respeito pela natureza" requerem, "hoje mais do que nunca", "a observação atenta, o juízo crítico, a paciência e a disciplina que são essenciais para o método científico moderno?" – perguntou-se o papa.

Mas, ao mesmo tempo, os grandes cientistas da era das descobertas nos recordam também que "o verdadeiro conhecimento está sempre voltado para a sabedoria e que, ao invés de restringir o horizonte da mente, nos convida a elevar o nosso olhar para o alto reino do espírito":

"O conhecimento, numa palavra, deve ser compreendido e perseguido" em toda a sua dimensão libertadora. É claro, pode ser reduzido a cálculo e experimentação, reconheceu o pontífice, observando que, todavia, se o conhecimento "aspira a ser sabedoria, capaz de orientar o homem", deve ser voltado para a busca da verdade última, que, embora para além das nossas capacidades, é "contudo, a chave da nossa autêntica felicidade e liberdade".

Bento XVI concluiu o seu discurso com uma exortação a todos os cientistas:

"Tenho a esperança de que a admiração e a exaltação", frutos deste Ano Internacional da Astronomia, "levem para além da contemplação das maravilhas da Criação alcançando a contemplação do Criador". Daquele Amor que "move o sol e as outras estrelas" – concluiu o Santo Padre.

O "Ano Internacional da Astronomia", declarado pela ONU para este 2009, celebra o 4º centenário das primeiras observações astronômicas feitas por Galileu Galilei.

Trata-se de uma iniciativa da União Internacional de Astronomia e da UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. A abertura oficial deste "Ano Internacional da Astronomia" teve lugar nos dias 15 e 16 de janeiro passado, na sede da Unesco, em Paris.

Trata-se também de uma iniciativa que ao longo das celebrações deste ano está envolvendo, entre outros, a Pontifícia Academia das Ciências, o Observatório Astronômico Vaticano, diversas pontifícias universidades – com simpósios, congressos, mesas-redondas, debates e apresentação de obras relacionadas ao evento. (RL)





OS CIENTISTAS PRÊMIO NOBEL NO VATICANO


Amigos,



Recebi da Pontificia Academia de Ciências do Vaticano a relação dos 24 Premios Nobel que dela fazem parte. Que outra Instituição tem tão alto grau de ciências? Como podem dizer alguns que há oposição entre a Ciência e a Fé?







From:Felipe Aquino [mailto:felipeaquinoc@uol.com.br]
Sent: domenica 25 ottobre 2009 2.40
To: academy.sciences@acdscience.va

Prof. Aquino,

We are pleased to enclose herewith the list of the living Academicians awarded of the Nobel Prize.
Yours sincerely,
The P.A.S. Secretariat

Accademici Nobel

1. ARBER Werner (Nobel in Physiology or Medicine, 1978)
2. BALTIMORE David (Nobel in Physiology or Medicine, 1975)
3. BECKER Gary S. (Nobel Prize in Economics, 1992)
4. BLOBEL Günter (Nobel Prize in Physiology or Medicine, 1999)
5. CIECHANOVER Aaron J.(Nobel in Chemistry, 2004)
6. COHEN TANNOUDJI Claude (Nobel in Physics, 1997)
7. CRUTZEN Paul J. (Nobel in Chemistry, 1995)
8. De DUVE Christian (Nobel in Physiology or Medicine, 1974)
9. EIGEN Manfred (Nobel in Chemistry, 1967)
10. HÄNSCH Theodor (Nobel in Physics, 2005)
11. KHORANA Har Gobind (Nobel in Physiology or Medicine, 1968)
12. Von KLITZING Klaus (Nobel in Physics, 1985)
13. LEVI MONTALCINI Rita (Nobel in Physiology or Medicine, 1986)
14. MOLINA Mario J. (Nobel in Chemistry, 1995)
15. MÖSSBAUER Rudolf L. (Nobel in Physics, 1961)
16. MURRAY Joseph E. (Nobel in Physiology or Medicine, 1990)
17. NIRENBERG Marshall W. (Nobel in Physiology or Medicine, 1968)
18. NOYORI Ryoji (Nobel in Chemistry, 2001)
19. PHILLIPS William D.(Nobel in Physics, 1997)
20. POLANYI John C. (Nobel in Chemistry, 1986)
21. RUBBIA Carlo (Nobel in Physics, 1984)
22. TOWNES Charles H.(Nobel in Physics, 1964)
23. YANG Chen Ning (Nobel in Physics, 1957)
24. ZEWAIL Ahmed H. (Nobel in Chemistry, 1999)


A CIDADE DE DEUS. OU SEJA, O LUGAR DA GRAÇA


O dualismo entre as duas cidades não se identifica com o conflito entre Igreja e Estado. Pelo contrário, Agostinho afirma a necessidade da ordem civil, que tem a simples finalidade de assegurar uma convivência pacífica entre interesses opostos

de Massimo Borghesi

É interessante notar como a atualidade presente de Agostinho coincide com a inatualidade da versão medieval de seu pensamento, com o ocaso definitivo do agostinismo político que deu legitimidade teórica à supremacia do poder papal sobre o imperial na controvérsia que vai do pontificado de Gregório VII ao de Bonifácio VIII. Sucessivos estudos das últimas décadas sobre a obra do bispo de Hipona, desde os de Reinhold Niebuhr até os de Étienne Gilson, Sergio Cotta e Joseph Ratzinger, para citar apenas alguns1, fazem uma reavaliação da posição agostiniana, em particular da que é expressa no De civitate Dei, unindo-a à crítica do agostinismo político medieval. Os resultados a que esses estudos chegam poderiam ser sintetizados assim: para Agostinho, o dualismo entre as duas civitates, a cidade de Deus e a cidade terrena, não se identifica com o conflito entre Igreja e Estado. “A cidade de Deus, resplandecente em seus muros adamantinos, é a meta sobrenatural de quem crê; com Santo Agostinho, torna-se atual já nesta vida. Dela são cidadãos todos os justos. O conflito deixa de ser cristãos contra romanos, Igreja contra Império, provinciais contra governo: este se transfere para o interior das consciências”2. O modelo agostiniano se diversifica, em segundo lugar, tanto da escatologia potencialmente revolucionária de Orígenes, que tende a deslegitimar a ordem e as leis do Estado, uma vez que não são conformes aos ditames evangélicos, quanto da teocracia política de Eusébio de Cesareia, que, identificando o universalismo cristão com o romano, estabelece os fundamentos ideológicos sobre os quais Bizâncio fundará seu império “cristão”3. Essa dupla distinção, de Orígenes e de Eusébio, permite, em terceiro lugar, pensar no modelo expresso no De civitate Dei como absolutamente não teocrático, e isso apesar de Agostinho dar a entender, na controvérsia donatista, em particular em sua Epístola 93, dirigida ao bispo Vicente, um possível emprego nessa direção. É esse “emprego” que explica a questão do “agostinismo político”, pela qual, como bem explica Gilson, “afirmou-se em seus sucessores uma tendência dupla e complementar. De um lado, esquecendo a grande visão apocalíptica da Jerusalém celeste, eles reduziram a cidade de Deus à Igreja, que na perspectiva agostiniana autêntica não era senão sua parte ‘peregrina’, que age no tempo para arrebanhar cidadãos para a eternidade. De outro lado, foi-se afirmando cada vez mais a tendência a confundir a cidade terrena de Agostinho – cidade mística da perdição – com a cidade temporal e política. A partir desse momento, o problema das duas cidades passou a ser o problema dos dois poderes, o espiritual, dos papas, e o temporal, dos Estados e dos príncipes”4.

Na saída para essa redução e no delineamento dos três pontos acima indicados está, como dissemos, a atualidade presente da posição agostiniana. Esta torna novamente compreensível, em todo o seu valor, o significado da civitas Dei como lugar da graça. Essa percepção se esclarece no ocaso da identificação entre natureza e graça, que Romano Guardini, em O fim da época moderna, define como a “deslealdade moderna”, a apropriação indevida de conteúdos e valores que só a presença e a ação do sobrenatural podem manter vivos e autênticos. Esclarece-se, ainda, no desaparecimento da identificação entre cidade ideal e cidade política, que marca tanto o sonho teocrático medieval quanto, num plano diferente, a utopia moderna, cujo modelo se origina, ao final da Idade Média, graças à secularização da noção de “era do Espírito”, tal como esta é afirmada na teologia da história de Joaquim de Fiore5.

Assim, a compreensão da peculiaridade agostiniana leva a reflexão sobre o cristianismo à situação que precede a Idade Média, à condição da Igreja em seus primórdios. Agostinho, como escreve Ratzinger, “praticamente tomou por base a situação da Igreja das catacumbas quando projetou sua determinação na relação entre Igreja e Estado. A Igreja ainda não parece, em nada, um elemento ativo dessa relação; a ideia de uma cristianização do Estado e do mundo decididamente não pertence aos pontos programáticos de Santo Agostinho”6. Isso não significa indiferença perante o mundo, de modo geral, e a res publica, em particular; significa, sim, que “sua doutrina das duas civitates não tem por objetivo nem eclesializar o Estado nem estatizar a Igreja, mas, em meio à ordem deste mundo, que continua e deve continuar a ser uma ordem mundana, aspira a tornar presente a nova força da fé na unidade dos homens no corpo de Cristo, como elemento de transformação, cuja forma completa será criada pelo próprio Deus, assim que esta história tiver chegado ao fim”7. Logo, Agostinho não se preocupa em elaborar uma constituição cristã do mundo, a ideia de uma “cristandade”. “Não podemos, aqui, nos deixar levar por nenhuma espécie de ilusão: todos os Estados desta terra são ‘Estados terrenos’, mesmo quando guiados por imperadores cristãos [...]. São Estados nesta terra e, portanto, ‘terrenos’, e nem podem se transformar em algo diferente. Enquanto tais, são formas de uma ordem necessária a esta época do mundo, e é justo que nos preocupemos com seu bem”8.

Fica evidente o quanto uma perspectiva como essa se impõe à atenção no mesmo momento em que o ideal que marcou o catolicismo pós-bélico, o de uma “nova cristandade”, ulterior e diferente da medieval, mostra por toda parte sinais inequívocos de consumação e deterioração. Não se trata apenas da passagem de uma versão excessivamente otimista do elemento político – da democracia enquanto naturaliter cristã – para uma versão mais pessimista; de uma perspectiva confiantemente jusnaturalista para uma marcada pela Realpolitik; de Tomás para Agostinho, visto como precursor de Maquiavel e Hobbes9. Se a atualidade de Agostinho dependesse simplesmente disso, redescobri-lo viria a coincidir com pôr em xeque a presença dos católicos na política, com o abandono de um testemunho ideal dos católicos no âmbito da esfera pública. Depois do “agostinismo político” medieval, teríamos aqui o agostinismo espiritualista como símbolo da derrocada do catolicismo político das últimas décadas. Na realidade, o retorno de Agostinho só pode ter significado efetivo e não meramente ideológico se permite uma crítica à supradeterminação do momento político, a coragem de admitir a imperfeição sem elevá-la a ideal e, ao mesmo tempo, a consciência da alteridade da civitas Dei em relação a toda e qualquer res publica. Essa divergência é impulsionada por Agostinho até o ponto de exaltar abertamente as virtudes cívicas que fizeram a grandeza de Roma: “Mostrando, mediante a opulência e a glória do Império Romano, tudo o que podem produzir as virtudes cívicas, mesmo quando separadas da verdadeira religião, Deus pretendia demonstrar que esta torna os homens cidadãos de uma outra cidade, em que a verdade é rainha, a caridade, lei, e cuja duração é eterna”. A nova cidade, produzida pela graça, que em seus habitantes vive mesclada à cidade terrena, não precisa, para mostrar-se, do naufrágio das virtudes “naturais”, ainda que isso, na realidade, seja o que acontece na maior parte das vezes.

O “retorno de Agostinho” coincide, assim, com a consciência de que nosso tempo, como aquele em que se reatualiza de muitos pontos de vista a condição do cristianismo das origens, é mais do que nunca o tempo da “graça”, o tempo dos “encontros”, em que mediante testemunhos vivos e profundos se torna possível o milagre da mudança, como descreve Gustave Bardy em seu esplêndido livro A conversão ao cristianismo nos primeiros séculos. É o tempo, portanto, de uma comunidade cristã que sabe que é “sem pátria”, “comunidade de estrangeiros, que aceita e usa as realidades terrenas, mas não se sente à vontade com elas”10; de uma civitas, enfim, que, tendo deixado de lado a imagem clerical de uma fortaleza assediada, deteriorada pelo conflito com o poder, consegue perceber a condição dos primórdios: “Um cristianismo que ainda pensa voltado para os espaços ilimitados dos povos e que tem ainda a esperança da salvação do mundo”11.

Notas

1 Niebuhr, R., Christian Realism and Political Problems, Nova York, 1953 (sobre Niebuhr enquanto estudioso de Agostinho, cf. Dessì, G., Niebuhr. Antropologia cristiana e democrazia, Roma, 1993); Borghesi, M., “Cristianesimo e democrazia in Reinhold Niebuhr”, in: Il Nuovo Aeropago, 1 (1994), pp. 31-42; Gilson, É., Les métamorphoses de la cité de Dieu, Paris, 1952 (ed. it. citada pelo autor: La città di Dio e i suoi problemi, Milão, 1959, pp. 40-81); Cotta, S., La città politica di sant’Agostino, Milão, 1960; Ratzinger, J., Volk und Haus Gottes in Augustinus Lehre von der Kirche, Ismaning, 1971 (ed. it. citada pelo autor: Popolo e casa di Dio in sant’Agostino, Milão, 1978); id., Die Einheit der Nationen. Eine Vision der Kirchenväter, Munique, 1971 (ed. it. citada pelo autor: L’unità delle nazioni. Una visione dei Padri della Chiesa, Brescia, 1973).

2 Storoni Mazzolani, L., Sant’Agostino e i pagani, Palermo, 1987, pp. 93-94.

3 No que diz respeito a essa distinção e, em particular, à diferença entre Orígenes e Agostinho, cf. Ratzinger, J., Die Einheit der Nationen, cit.

4 Gilson, É., La città di Dio e i suoi problemi, cit., p. 81.

5 Cf. Crocco, A., “Il superamento del dualismo agostiniano nella concezione della storia di Gioacchino da Fiore”, in: VV. AA., L’età dello Spirito e la fine dei tempi in Gioacchino da Fiore e nel gioachimismo medievale, San Giovanni in Fiore, 1986, pp. 143-161. Sobre a diferença entre o modelo agostiniano, que pressupõe as duas civitates, e o joaquimita, que leva à unificação de Igreja e sociedade numa única cidade, cf. Borghesi, M., “L’‘età dello Spirito’ e la metamorfosi della città di Dio”, in: Il Nuovo Aeropago, 13 (1994), pp. 5-27 (toda a edição, com contribuições de J.-R. Armogathe, G. B. Contri, C. Dalmasso, O. Grassi e M. Vallicelli, é dedicada ao confronto entre Joaquim de Fiore e Agostinho). Sobre a secularização da terceira era joaquimita, cf. De Lubac, H., La posterité spirituelle de Joachim de Flore, 2 vv., Paris, 1979-1981. Sobre a transformação da cidade de Deus agostiniana durante a época moderna, ver: Gilson, É., Les métamorphoses de la cité de Dieu, cit.

6 Ratzinger, J., Popolo e casa di Dio in sant’Agostino, cit., p. 313.

7 Ratzinger, J., L’unità delle nazioni, cit., p. 105.

8 Id., ibid., p. 96.

9 Nessa linha se situa a reavaliação de Agostinho realizada por Esposito, R., Nove pensieri sulla politica, Bologna, 1993.

10 Ratzinger, J., L’unità delle nazioni, cit., p. 107.

11 Von Balthasar, H. U. Il filo di Arianna attraverso la mia opera, Milão, 1980, p. 6.

A IGREJA NÃO AGE PARA AMPLAR O SEU PODER


“Reitero com veemência o que muitas vezes foi dito pelos meus venerados predecessores: a Igreja não age para ampliar o seu poder ou reforçar o seu domínio, mas para levar a todos Cristo, salvação do mundo”.

Palavras do Papa Bento XVI na Mensagem para o 83º Dia Missionário Mundial a ser celebrado no domingo, 18 de outubro.



"A ciência diz-nos muitas coisas e é-nos útil sob tantos aspectos, mas a sabedoria é conhecimento do essencial — conhecimento da finalidade da nossa existência e de como devemos viver para que a vida tenha o justo êxito."
Bento XVI

BENTO XVI E A RESTAURAÇÃO DA IDENTIDADE CATÓLICA


Entrevista com John L. Allen Jr.*


A reportagem é de Eusebio Val, publicada no jornal La Vanguardia, 19-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O Papa ainda é importante na política internacional?

Mais importante do que muitos pensam. A Igreja católica tem 1,2 bilhões de membros espalhados por todo o planeta. Mesmo que o Papa não possa apertar um botão para que os católicos façam alguma coisa, a linha que ele marca é sim importante para fixar as prioridades políticas, sociais e culturais dos católicos. O caso mais óbvio é o papel de João Paulo II na derrubada do comunismo na Europa. Ele também foi a principal voz da rejeição moral à guerra dos EUA no Iraque.

Você escreveu que a Igreja católica é para a religião aquilo que os EUA são para geopolítica.

Sim, é a outra superpotência que resta. Cada vez que há alguma iniciativa inter-religiosa importante no mundo, ninguém presta atenção, a menos que o Papa participe. A Igreja católica é a maior e a mais integrada verticalmente. Tem uma estrutura de mando clara. Como nenhuma outra religião. Ninguém sabe quem manda no islã, no hinduísmo ou no judaísmo. Isso lhe dá uma capacidade única para se mobilizar. Assim como não há solução a nenhum problema político ou econômico global que não envolva os EUA, não há solução a nenhum problema religioso ou espiritual global que não envolva a Igreja católica.

E além disso ela possui um corpo diplomático.

Sim, não existe nenhuma outra religião que o tenha. São 193 os países que mantêm relações diplomáticas com a Santa Sé. Só poucos não têm: Vietnã, Coreia do Norte, Arábia Saudita e Irã. Não é uma lista em que você gostaria de estar. A Igreja católica está posicionada de maneira única para ser uma voz religiosa e de consciência nos assuntos globais.

Que missão esse Papa tem, em sua opinião?

É muito claro que a tarefa número um de Bento XVI está voltada ao interior da Igreja, não ao exterior. O que ele tenta fazer é restaurar um forte sentimento de identidade católica, o que significa ser católico e o que nos diferencia do resto. Por isso, existe muito cuidado sobre como são traduzidos os textos da liturgia, tanta atenção aos teólogos que, do ponto de vista do Vaticano, estão ensinando as coisas equivocadas. O projeto principal de Bento XVI é restaurar um sentimento de identidade católico forte, claro, musculoso. Sua esperança é que, se assim o fizer, o catolicismo será mais unido e mais efetivo para levar sua mensagem ao mundo.

Este Papa é de transição, dada a sua idade?

Cada Papa é um Papa de transição, pois houve 264 antes que ele, e provavelmente haverá centenas depois. Mas não acredito que Bento XVI tenha sido eleito simplesmente para manter o assento quente por poucos anos até que escolham outro. No conclave de 2005, os cardeais decidiram que o desafio mais importante para a Igreja é a crise de fé na Europa, que é a parte do mundo mais apática diante da fé ou em alguns casos mais hostil, e alguém tinha que fazer alguma coisa. Eles acreditaram que Bento XVI, que escreveu, pensou e falou sobre a situação da fé na Europa durante décadas, seria o homem adequado. O que acontece é que Bento XVI é famoso por pensar em longo prazo. Ele não se preocupa com a manchete do La Vanguardia de amanhã, mas sim com a situação dentro de 200 anos. Você não pode esperar resultados imediatos. Mas não acredito que se possa dizer que é um papado de transição, no sentido de que não faz nada. Pelo contrário, ele tenta legar um magistério que permita que a Igreja supere a crise da secularização europeia. A má notícia para os jornalistas é que devemos esperar 200 anos para ver se isso funciona.

O próximo Pontífice pode ser negro ou sul-americano?

Da última vez, um finalista foi o cardeal argentino Bergoglio. Foi levado muito a sério como candidato. É possível? Claro que sim. Se olharmos aos números, desses 1,2 bilhões de católicos, mais de 700 milhões vivem na América Latina, na África e na Ásia. Por isso, de certa maneira, já seria hora de que houvesse um Papa do mundo em desenvolvimento. Mas quando os cardeais se reúnem no conclave, eles não pensam no passaporte, na idade ou em onde o candidato estudou. Eles tentam, na verdade, escolher aquele que tenha mais talento, mais santidade, o mais preparado para dirigir a Igreja. Se for africano, perfeito. Se for alemão, como aconteceu da última vez, isso não vai lhes parar. Mesmo que veja como possível, não acredito que irão eleger alguém pelo fato de ser negro. Irão eleger porque acreditam que é o homem adequado para ser Papa. E se for negro, isso não será um obstáculo.

Pode haver uma mudança radical na Igreja como, por exemplo, a perestroika na URSS?

Claro que é possível. Mas as lixeiras da história da Igreja estão cheias de cadáveres de jornalistas que tentaram prever o futuro. Eu não tenho bola de cristal. Historicamente, a mudança na Igreja católica é uma surpresa. Aí está a diferença com os protestantes. Eles mudam constantemente. Têm suas reuniões e votam sobre seus magistérios, rodam seus bispos. Na Igreja católica, pelo contrário, as coisas, na superfície, parecem não se mover durante muito tempo até que, de repente, algo entra em irrupção. Aconteceu assim com o Concílio Vaticano II. Muito poucos anteciparam a mudança tão substancial que ele traria. É possível outra mudança radical? Claro que sim, mas atualmente eu não vejo isso no horizonte.

Qual é o estado de saúde do catolicismo em escala global?

Varia imensamente segundo a região do mundo. Em nível estatístico, o catolicismo goza da melhor saúde na África subsaariana. Em 1900, havia ali 1,9 milhões de católicos. Agora, são 165 milhões. É um crescimento de mais de 8.000% em pouco mais de um século. Os seminários estão cheios, e as missas também. Isso não diz muito sobre a qualidade da fé, mas, numericamente, o catolicismo tem um mercado em expansão, vive um boom na África. Em algumas áreas da Europa, ocorre o contrário. A participação na missa caiu a 4%, 5%, 6%. Os seminários estão morrendo. A Igreja tem uma influência pública muito reduzida. O Papa não conseguiu nem uma menção de Deus na Constituição Europeia. Mas é perigoso e enganoso avaliar a saúde da Igreja com base na Europa. É como estudar o mercado da Coca-Cola onde se bebe Pepsi. No marco global, pelo menos em nível quantitativo, a Igreja católica vai bem.

A Espanha é uma grande preocupação para esse Papa.

A Espanha não é só uma grande preocupação para esse Papa. A Espanha é uma preocupação para o Vaticano e para a Igreja católica em toda a Europa. Zapatero se converteu no símbolo de todo o equívoco do secularismo europeu. É interessante e significativo que quando Obama foi eleito, houve um debate aqui, no Vaticano, sobre se ele se converteria em um Zapatero global. Porque para eles Zapatero é o símbolo desse secularismo radical, hostil à religião, hostil à Igreja católica e hostil aos seus ensinamentos morais. A preocupação é que o impacto de Zapatero não fique só na Espanha, mas que se estenda pela Europa e tenha um sério impacto na América Latina, onde vive a metade dos católicos do mundo. Existe um sério temor de que Zapatero seja uma doença que se estenda e infecte toda a América Latina.

E como o Vaticano reagiu a essa situação?

Acredito que há duas atitudes. Uma é partidária de lutar contra Zapatero, de levar as pessoas às ruas para manifestações em favor da família, para protestar contra o governo. A outra é partidária de dialogar com Zapatero e de convidar o movimento que ele representa para uma conversa razoável, para que não veja a Igreja católica como um inimigo, mas sim como uma potencial amiga. Esse era o estilo de Bento XVI quando se encontrou pela primeira vez com Zapatero, em Valência, no Congresso Mundial da Famílias, em 2006. Entre os jornalistas, esperava-se que esse encontro fosse muito violento, mas na realidade foi uma festa do amor em que Bento XVI, de maneira deliberada, não propôs nenhuma das questões contenciosas como o aborto, o casamento homossexual, a eutanásia ou a relação Igreja-Estado. Seu estilo foi tentar encontrar áreas de acordos potenciais e construir uma relação. Acredito que essas duas atitudes definem a reação da Igreja católica, e seus líderes estão divididos ainda hoje.

* O norte-americano John L. Allen Jr. (foto) é um dos vaticanistas de referência no atual papado de Bento XVI, sobre quem ele publicou duas biografias. Allen escreve no National Catholic Reporter e é comentarista religioso da rede de TV CNN e da rádio pública NPR. Ele vive entre Roma e Denver. Nesta entrevista, Allen analisa o atual momento da Igreja católica, a estratégia de Joseph Ratzinger e sua preocupação com a Espanha de Zapatero.











QUE VEM A SER "DEUS" AFINAL?

1. Âmbito da questão


[65] Quem vem a ser “Deus”, afinal? Em outras épocas tal pergunta não constituía problema, de clara que era. Hoje ela se nos torna uma interrogação séria. Que é que pode conotar, em geral, a palavra “Deus”? Que realidade ela exprime e como chega aos homens a realidade de que fala? Querendo-se seguir a pista da pergunta com a profundeza de que hoje precisamos, seria necessário tentar primeiramente uma análise que pesquisasse as fontes da experiência religiosa, considerando-se, a seguir, como é que o tema “Deus” caracteriza a história inteira da humanidade e é capaz de desencadear nela todas as paixões até aos nossos dias – sim, até aos dias em que o clamor da morte de Deus se ergue por toda parte e, apesar disto, e precisamente por isto, coloca o problema de Deus poderosamente no meio de nós.

Afinal, donde surgiu na humanidade a idéia de Deus; de que raízes nasceu? Como compreender que o mais dispensável aparentemente e o mais inútil dos temas para os homens se fixou e permaneceu, apesar de tudo, como o mais angustioso dos temas da história? E qual é a razão por que ele surge em formas basicamente tão diversificadas? Aliás, através da aparência desordenada da multiplicidade exterior, constata-se a existência fundamental de três formas, que certamente [66] atravessam alterações desiguais na figura do monoteísmo, do politeísmo e do ateísmo, como poderíamos denominar resumidamente os três grandes caminhos da história humana na questão de Deus.

Além disso, já antes fomos alertados que mesmo o ateísmo representa apenas um ponto final aparente do assunto “Deus”, conotando, na realidade, uma forma de preocupação humana com o problema, capaz, até, de revelar, e de fato, manifestando, nesta questão, um ardor apaixonado. Se quiséssemos seguir as questões preliminares fundamentais, deveriam ser apresentadas as duas fontes da experiência religiosa, às quais se pode reduzir a multiplicidade de formas dessa experiência. Sua tensão típica foi descrita pelo conhecido fenomenólogo de religiões, o holandês van der Leeuw, na afirmação paradoxal: na história das religiões Deus-Filho existe antes de Deus-Pai2. Dever-se-ia dizer com mais exatidão que o Deus, portador da salvação, o Salvador, existe antes do Deus Criador, e mesmo depois desta elucidação, cumpre notar que a fórmula não pode ser concebida em sentido de seqüência cronológica ou temporal, para a qual não existem provas. Por mais longe que se olhe na história da religião, o tema “Deus” surge sempre sob as duas figuras, de Filho e Pai, de Criador e de Salvador. A partícula “antes”, portanto, conota apenas que, para a religiosidade concreta, para o interesse existencial vivo, o “portador da salvação” ocupa o primeiro plano, em relação ao Criador.

Atrás dessas duas figuras, em que a humanidade representou o seu Deus, encontram-se os dois pontos de partida da experiência religiosa, dos quais acabamos de falar. O primeiro ponto é a própria existência a ultrapassar-se, sem cessar, apontando para a totalidade em uma forma qualquer, mesmo que seja a mais complicada. E também aí temos um [67] processo de muitas camadas – como multifacetada é a mesma existência humana. Bonhoeffer, como é notório, declarou estar na hora de acabar com um Deus que colocamos como “tapa buraco” na fronteira das nossas possibilidades e ao qual invocamos logo que nos sentimos levados ao fim da linha. Deveríamos procurar e encontrar Deus, não no lugar da nossa miséria e do nosso fracasso, mas em meio à fartura das coisas terrenas e no transbordamento da vida; somente assim se comprova não ser Deus uma escapatória fabricada pelas nossas necessidades, escapatória que se torna supérflua à medida que se alargam os limites do nosso poder3. Na história da luta humana em torno de Deus, encontramos ambos os caminhos parecendo os dois igualmente legítimos. Tanto as agruras e misérias da vida humana como a sua plenitude apontam para Deus. Onde os homens experimentaram a vida em sua fartura, em sua riqueza, beleza e grandiosidade, ali se lhes tornou presente e patente que uma tal existência é uma existência agradecida, que, precisamente em seu aspecto grandioso e luminoso, ela não é algo que alguém se doou a si mesmo, mas uma dádiva que o antecede, que o recebe nos braços de sua bondade, antes de qualquer ação sua, exigindo que se insufle um sentido a tamanha abundância, recebendo-se assim um sentido para a sua própria situação. E vice-versa, também a necessidade e a pobreza sempre serviram-nos de lembrete de algo todo diferente. A questão que se apresenta, pela nossa condição de homens, e que, mais ainda, existe pela nossa condição de homens é o inacabado contido dentro de nós, a fronteira que baliza o ser-homem e que, apesar disto, representa um anseio pelo ilimitado (mais ou menos) [68] no sentido da palavra de Nietzsche: todo prazer anseia pela eternidade, e contudo se revela como instante, esta simultaneidade de isolamento e desejo do ilimitado e do aberto impediu sempre qualquer descanso do homem em si mesmo, fazendo-o sentir que jamais pode bastar-se, só conseguindo encontrar-se passando por cima de si e movendo-se para o totalmente outro e para o infinitamente grande.

O mesmo pode-se demonstrar da temática da solidão e da segurança. A solidão indubiamente é uma das raízes básicas de que surgiu o encontro do homem com Deus. Onde o homem experimenta a solidão, degusta ao mesmo tempo o quanto a sua vida representa um grito pelo “tu” e quão pouco o homem é apto a ser um puro “eu”, encerrado em si mesmo. A solidão pode manifestar-se ao homem em profundezas diferentes. Primeiro, ela satisfaz-se com o encontro de um “tu” humano. Mas então desdobra-se um processo paradoxal descrito por Claudel: cada “tu” que o homem encontra, revela-se, finalmente como uma promessa irrealizada e irrealizável4; porque todo “tu”, no fundo, representa de novo uma desilusão, existindo um ponto em que encontro nenhum é capaz de vencer a derradeira solidão: e exatamente o achar e o ter-achado voltam a ser um retorno ao ermo, um grito pelo “tu” real e absoluto, mergulhado nas profundezas do próprio “eu”. Mesmo agora, nem a miséria da solidão apenas, nem a mera experiência de que comunidade alguma satisfaz de todo o nosso desejo serão os únicos caminhos a abrir-nos para a experiência de Deus – porquanto ele pode surgir também da alegria de estar seguro. Justamente a plenitude do amor, do se-haver-encontrado pode ser o portador da dádiva daquilo que não estamos em condições nem de evocar, nem de criar, fazendo-nos saber que assim [69] recebemos mais do que ambos (amor e encontro) nos poderiam proporcionar. Da luz e da alegria de encontrar-se pode raiar a proximidade do júbilo absoluto e do encontro simplesmente presente por trás de todo o encontrar-se humano.

Com isso queria insinuar apenas de que maneira a existência humana pode ser o ponto de partida da experiência do absoluto que, sob este ponto de vista, é compreendido como “Deus-Filho”, como Salvador, ou mais simplesmente, como Deus relacionado com a existência5. A outra fonte de conhecimento religioso é o conflito do homem com o mundo, com as potências e os pavores com que ali se depara. O cosmos com sua beleza e sua voragem abissal tornou-se para o homem um campo de experiência da força que o ameaça e, simultaneamente, o sustenta; resulta daí uma imagem um tanto imprecisa e distante que se concretiza no semblante do Deus-Criador, Pai.

Prosseguindo na análise desta questão, encontramos o problema, já aduzido, das três formas do tema “Deus” – monoteísmo, politeísmo e ateísmo. Transparece aí a unidade liminar dos três caminhos, unidade que não pode significar nem afirmar identidade, como se, ao cavar mais fundo, tudo se reduzisse a uma e a mesma coisa, perdendo a sua importância as formas anteriores. Argumentações em favor da identidade, para as quais talvez se sinta tentada a especulação filosófica, em que, contudo, se desprezaria a seriedade das decisões humanas, certamente não corresponderiam à realidade. Sem que se possa falar de identidade, um olhar mais fundo faria reconhecer que a diferenciação dos três caminhos é diferente do que fazem supor as três formas em que eles se manifestam: “há um Deus”, “há muitos deuses, “não há Deus”. Entre as três fórmulas e a fé que elas conotam existe uma [70] oposição intransponível, mas também uma relação que o seu simples teor não permite suspeitar. Pois, em última análise, as três estão convencidas da unidade e da singularidade do absoluto, o que, aliás, poderia ser provado. O monoteísmo acredita nesta unidade e singularidade. Mas, não apenas ele; também para o politeísmo os inúmeros deuses aos quais dirige sua piedade e esperança, jamais representaram o próprio absoluto; também o politeísmo estava convencido de que, por trás das numerosas potências, se encontra afinal, em algum lugar, o Ser único, que o ser, em última análise, é um só ou, ao menos, é o eterno conflito dentro de um primitivo paradoxo6. Por outro lado, o ateísmo não suprimiu de modo algum a unidade do ser pelo fato de impugnar a identificação da unidade de todo ser pela idéia de Deus. A mais forte e ativa forma de ateísmo, o marxismo, afirma, de modo o mais rígido, essa unidade do ser em todos os seres, ao equiparar o ser com a matéria. Sem dúvida, o elemento que é o próprio ser, como matéria, separa-se completamente da antiga concepção do absoluto, ligada com a idéia de Deus, mas ao mesmo tempo recebe traços que fazem ressaltar claramente o caráter absoluto da matéria, tornando assim a evocar a idéia de Deus.

Portanto, os três caminhos estão convencidos da unidade e da singularidade do absoluto; diferem apenas na maneira como querem que o homem deva tratar com o absoluto, respectivamente no modo como o absoluto se coloca frente ao homem. Falemos de modo muito esquemático: o monoteísmo parte da idéia de que o absoluto é consciente, conhece o homem e pode tratar com ele. Para o materialismo, o absoluto (=matéria) apresenta-se despojado de qualquer predicado [71] pessoal, não sendo capaz de ser posto em contacto com os conceitos de “chamamento” e “resposta”. No máximo poder-se-ia dizer que o mesmo homem deve libertar da matéria o elemento divino, passando a ter Deus, não atrás de si, mas em sua frente, como o elemento ativado criativamente pelo homem e como seu próprio futuro melhor. Finalmente, o politeísmo tem relação estreita tanto com o monoteísmo, como com o ateísmo, porque os deuses de que ele fala supõem a singularidade de um poder sustentador perfeitamente concebível em um e outro sistema. Nem seria difícil mostrar como o antigo politeísmo andava emparelhado com o ateísmo metafísico e unido ao monoteísmo filosófico7.

Todas estas questões são importantes para quem deseja seguir a pista do tema “Deus” na situação hodierna. Seria preciso muito tempo e paciência para um estudo profundo. Baste-nos, ao menos, tê-los aduzido. São assuntos que encontraremos mais explicitados, ao estudar o destino da fé bíblica para cuja pesquisa o nosso estudo nos orienta. Prosseguindo na senda do problema de Deus, continuamos encarando a luta da humanidade em torno do seu Deus e exposta ao âmbito inteiro da questão.

2. O reconhecimento de um Deus

Voltemos ao texto do qual tínhamos partido, a saber, à frase do símbolo: “Creio em Deus, Pai, todo-poderoso, Criador”. Frase com a qual os cristãos professam a sua fé [72] há quase dois mil anos, frase que procede de outra história mais antiga ainda: atrás dela encontra-se a profissão de fé diária de Israel, cuja variante cristã ela representa: “Ouve, ó Israel, Iahvé, teu Deus, é um único”8. O “Credo” cristão colheu em suas primeiras palavras o “Credo” israelita, inclusive a luta de Israel, sua experiência da fé e seu combate em torno de Deus, que assim se transforma em dimensão interna da fé cristã, a qual não existiria sem luta. Muito lateralmente damos aqui com uma importante norma da história da religião e da fé, a saber, que fé e religião sempre se desenvolvem e evoluem por nexos, jamais no sentido de uma total descontinuidade. A fé de Israel, sem dúvida, representa um elemento novo, em confronto com a fé dos povos vizinhos; contudo não se trata de algo caído do céu, mas de uma cristalização efetuada no embate com a fé dos outros povos, em que uma seleção belicosa e uma re-interpretação diferente representam, ao mesmo tempo, o elo e a mudança.

Iahvé, teu Deus, é um único Deus”, profissão fundamental situada no âmago do nosso “Credo” é, em seu sentido original, uma renúncia aos deuses vizinhos. É profissão no sentido pleno da palavra, isto é, não uma constatação de uma opinião ao lado de outras, mas uma opção existencial. Como renúncia aos deuses significa repúdio ao endeusamento dos poderes políticos, e ao endeusamento do “morre e torna-te” cósmico. Afirma-se que fome, amor e domínio são as três forças que movem a humanidade. Ampliando-se esta afirmação, pode-se constatar que as três formas fundamentais do politeísmo são a adoração do pão, a adoração do Eros e a divinização do poder. Os três caminhos são aberrações, absolutizações do que não é o absoluto e, por isto, escravização do homem. Certamente, trata-se de aberrações em que transparece [73] alguma coisa do poder que sustenta o universo. Mas a profissão de fé de Israel é, como foi dito, uma declaração de guerra contra a tríplice adoração, constituindo assim um processo de máxima importância na história da libertação do homem. Na declaração de guerra contra a tríplice adoração, a profissão de fé é, ao mesmo tempo, um grito de guerra contra a proliferação do divino em geral. É a renúncia a deuses próprios (vê-lo-emos mais tarde). Ou, expresso de outro modo, a renúncia à divinização do que é próprio do homem, típica do politeísmo. E também é a renúncia à própria segurança, ao medo, que tenta apaziguar o ominoso, prestando-lhe culto; e é a adesão ao Deus único do céu, como potência que protege tudo; significa coragem de confiar-se à força que domina o universo inteiro, sem tomar o divino nas mãos.

A atmosfera inicial oriunda da fé de Israel não se alterou fundamentalmente no “Credo” cristão primitivo. Também nele o ingresso na comunidade e a aceitação do seu “símbolo” significa uma decisão existencial de pesadas conseqüência. Pois quem entrasse neste “Credo”, simultaneamente consumiria a renúncia à legislação do mundo do qual era parte integrante, uma renúncia à adoração do poder político dominador, sobre o qual se baseava o império romano, renúncia da adoração do prazer, do culto do medo e da superstição que predominavam no mundo. Não foi por acaso que a luta cristã se deflagrou no campo assim demarcado, transformando-se em guerra em torno da própria forma básica da vida pública antiga.

Creio que para a hodierna compreensão aprofundada e atualizada do “Credo” é de importância decisiva voltar a focalizar esses nexos. Somos levianos demais, considerando como fanatismo de tempos antigos, e por isto fanatismo desculpável, embora impossível hoje em dia, a atitude de recusa dos cristãos, até com sacrifício da vida, a participar, de qualquer [74] modo, no culto prestado ao imperador; o repúdio até das formas mais inocentes, como a inscrição na lista dos sacrifícios, expondo a própria vida em defesa de seus pontos de vista. Hoje distinguiríamos, em tal caso, entre a lealdade civil indispensável e o ato realmente religioso, tentando achar uma saída possível e tomando em conta o fato de não poder esperar-se heroísmo de homens medianos. Quiçá semelhante distinção seja possível em certos casos, e isto graças à decisão que outrora fora tomada. Em todo caso é importante acentuar que a recusa de então muito longe estava de qualquer fanatismo mesquinho e que ela transformou o mundo de uma maneira que só é possível pelo empenho do sofrimento. Naquelas perseguições antigas ficou patente que fé não é brinquedo, mas coisa séria: a fé diz: “não” e é obrigada a dizer “não” ao absolutismo do poder político, à adoração do domínio e dos poderosos em geral – “depôs os poderosos de seus tronos” (Lc 1,52), quebrando assim definitivamente a pretensão totalitária do princípio político. A afirmação: “somente há um Deus”, precisamente por não estar contaminada por nenhuma intenção política, representa um programa de importância política decisiva: graças ao caráter absoluto do seu Deus, que assim se inculca a cada um e graças ao relativamento em que assim se colocam todos os agrupamentos políticos pela unicidade ao Deus que os abrange a todos, temos aí a única defesa definitiva contra o coletivismo e também a supressão total de qualquer exclusivismo humano.

O que foi afirmado sobre a luta da fé contra a adoração do poder poderia aplicar-se no terreno dos esforços pelo autêntico amor humano, na luta contra a falsa adoração do sexo e do Eros, fontes de escravização não menos trágica da humanidade do que o abuso do poder. É mais do que simples metáfora, quando os profetas descrevem a apostasia de Israel como “adultério”. Os cultos idólatras quase sempre estavam ligados à prostituição cúltica e, assim, já a aparência externa [75] os apresentava como adultério. Além disto, eles revelam o seu espírito. O amor definitivo, indivisível e uno entre homem e mulher finalmente só se realiza e se compreende na unidade e indivisibilidade do amor de Deus. Hoje cresce o nosso conhecimento de que não se trata, no amor, de uma dedução filosófica independente, mas de uma realidade muito mais fundamental que resiste ou cai de acordo com a fé em um Deus único. E compreendemos melhor que a liberação do amor, degenerando em simpatia (ou camaradismo) do instinto, representa a entrega do homem às fúrias desencadeadas do sexo e do Eros, sob cuja escravidão cruel ele tomba, sonhando ter-se emancipado. Subtraindo-se a Deus, atacam-no os deuses, e a liberação do homem só se realiza na medida em que se deixa livrar e cessa de apoiar-se sobre si mesmo.

Não menos importante do que o esclarecimento da renúncia encerrada no “Credo” é compreender a afirmação nele contida; e isto porque a renúncia só se sustenta a partir da afirmação e, a seguir, também porque a renúncia dos primeiros séculos cristãos se comprovou de tão grande eficiência histórica, que os deuses desapareceram para sempre. Certamente, não desapareceram as potências expressas nas divindades, nem desapareceu a tentação de absolutizar todas as energias. Um como o outro pertence ao cerne da situação humana e exprime a perene “verdade” do politeísmo: o absolutismo da força, do pão e do Eros não nos ameaça menos do que ao homem antigo. Porém, embora os deuses de então continuem hoje como “forças” a tentar impor-se de modo absoluto, deixaram tombar a máscara do divino e são obrigados a apresentar-se em sua verdadeira profanidade. Eis aí a base da diferença entre o paganismo pré e pós-cristão, que continua marcado pelo dinamismo histórico da renúncia cristã aos deuses. No vazio em que hoje nos encontramos, urge tanto mais a pergunta: qual é o conteúdo da afirmação que a fé cristã conota?

*Os números entre colchetes [n] indicam o início da página na edição portuguesa de Herder – São Paulo, 1970. Foram acrescentados a esta edição eletrônica para possibilitar a citação acadêmica da obra. Os títulos que precedem imediatamente ao número pertencem à página em questão. As palavras hifenizadas entre páginas diferentes foram consideradas da página anterior. A numeração das páginas do original tem início com o prefácio. Os números do índice correspondem ao original.



** RATZINGER, J. Introdução ao Cristianismo. p. 65-77.




FÉ E RAZÃO PODEM SER FACILMENTE RECONCILIADAS





Colega de Richard Dawkins em Oxford, o filósofo inglês Richard Swinburne disse que “há boas razões para supor que as doutrinas cristãs sobre Deus são verdadeiras e, por isso, no sentido de crença e razão, elas podem ser facilmente reconciliadas. A razão dá sustentação à verdade”. Por telefone, ele discutiu com a IHU On-Line as idéias da obra Deus, um delírio e argumenta que, “embora exista um e outro cientista proeminente e ‘barulhento’ como Richard Dawkins”, tem dúvidas se a maioria dos cientistas no mundo são ateístas ou não. Um dos conjuntos fundamentais de argumentos de Swinburne “para a existência de Deus é a regularidade do universo. Por que alguém deveria ter objeções à descoberta da verdade, especialmente se a verdade é toda sobre Deus? A questão é o que nós fazemos com esse conhecimento e há perigos óbvios nesse tipo de conhecimento que podem ser usados para maus usos”. Otimista, ele espera que o “cristianismo possa promover paz e reconciliação entre diferentes comunidades e países” e acredita: “Se recuperarmos o espírito dos evangelhos, tenho certeza que o cristianismo pode ser, como está se tornando novamente, uma comunidade reconciliadora”. A entrevista foi concedida por Swinburne à IHU On-Line por ocasião de sua estadia em Natal, Rio Grande do Norte, quando foi o conferencista de abertura e encerramento do Seminário de Filosofia Analítica Contemporânea, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).


Professor de Filosofia da Religião Cristã na Universidade de Oxford, é um dos mais prestigiados especialistas daquela área. Swinburne é autor de inúmeras obras, entre elas The resurrection of God incarnate (Oxford: Clarendon Press, 2003); The existence of God (2. ed. Oxford: Clarendon Press, 2004) e Faith and reason (2. ed. Oxford: Clarendon Press, 2005). Em língua portuguesa, destacamos Será que Deus existe? (Lisboa: Gradiva, 1998).

Entrevista com Richard Swinburne: Fé e razão podem ser facilmente reconciliadas


IHU On-Line - Fé e razão podem ser conciliadas? Como?

Richard Swinburne - Eu acho que não existe problema entre conciliar esses dois campos. Há bons argumentos para a existência de Deus e, se você quiser, vou descrevê-los. Penso que há boas razões porque Deus deveria permitir que todo o sofrimento que ocorre nesse mundo ocorra. Então, todos os argumentos dão sustentação à existência de Deus, não como certa, mas como provável. E é mais provável do que improvável. Eu acredito que há também bons argumentos para as doutrinas particulares da religião cristã, porque há bons argumentos para o tipo de pessoa que viveu a vida que Jesus viveu, e cuja força da vida culminou com o milagre da ressurreição para a qual eu penso que existem evidências históricas significativas. Isso constituiu o sinal de Deus naquela vida, assim como nos seus ensinamentos e na igreja que ele fundou.

Penso que, por esses dois conjuntos de razões, há boas razões para supor que as doutrinas cristãs sobre Deus são verdadeiras e, por isso, no sentido de crença e razão, elas podem ser facilmente reconciliadas. A razão dá sustentação à verdade. Nas propostas da religião cristã, fé não é bem a mesma coisa que crença. Fé é colocar sua confiança em alguma coisa. E este é um ato voluntário. E, mesmo se você tem boas razões para crer que existe um Deus, você pode decidir não depositar sua confiança nele. Mas isto seria uma coisa tola e errada de se fazer, mas mesmo assim pode ser feito.

IHU On-Line - Os cientistas precisam, necessariamente, ser ateus? Por quê?

Richard Swinburne - Certamente que não. E embora exista um e outro cientista proeminente e “barulhento” como Richard Dawkins, eu tenho minhas dúvidas se a maioria dos cientistas no mundo são ateístas ou não. Mas, certamente, uma minoria muito significativa não é ateísta, e eu realmente não vejo nenhum conflito aí. Um de meus conjuntos fundamentais de argumentos para a existência de Deus é a regularidade do universo, e isto é um fato. Cada átomo no universo se comporta exatamente do mesmo modo, e os cientistas descobriram que modo é esse. Além disso, eles descobriram que muito mais partículas no universo se comportam de forma diferente do que acreditávamos antes. E eles descobriram que a maneira como essas partículas se comportam, ou seja, as leis mais fundamentais da natureza são tais que levam à evolução dos seres humanos desde o estado inicial do universo. Então, eu acredito que descobertas científicas nesse sentido são evidências positivas da existência de Deus.

O outro sentido é que, até 1900, cientistas tendiam a acreditar que o universo era determinista, ou seja, que todo evento era totalmente causado por eventos prévios. E, desde o surgimento da teoria quântica, isso é realmente muito duvidoso e por isso há um certo jogo, um certo indeterminismo na natureza. E assim, se nós quisermos exercer nosso livre arbítrio, nós precisamos de um certo indeterminismo na natureza, e esse Deus deve intervir nessa ordem natural sem violá-la, precisando de um tipo de indeterminismo na natureza. Então, penso que os desenvolvimentos dos últimos cem anos são evidências positivas para a existência de Deus.

IHU On-Line - Autoridades eclesiásticas acusam Craig Venter, o cientista conhecido pelo mapeamento do genoma humano, de querer competir com Deus. O homem contemporâneo pode, efetivamente, “brincar de Deus” ou mesmo competir com ele? Por quê?

Richard Swinburne - Eu não estou preocupado com isso. Na medida em que ele está recém descobrindo o genoma humano, está descobrindo fatos científicos interessantes sobre como Deus fez nossos corpos. Por que alguém deveria ter objeções à descoberta da verdade, especialmente se a verdade é toda sobre Deus? A questão é o que nós fazemos com esse conhecimento. Há perigos óbvios nele, e que podem ser usados no mau sentido. Se descobrimos que alguém tem um gene que os cientistas pensam que é uma coisa ruim, eles poderiam produzir um aborto mesmo mais adiante na gravidez, e eu acredito que isso seria uma coisa muito ruim - destruir um ser racional já existente. Então, nós precisamos ser cuidadosos com o uso, mas não consigo ver nada de errado em possuir o conhecimento.

HU On-Line - Por que é importante sabermos se Deus existe, ou não?

Richard Swinburne - Se é verdade que Ele não nos fez meramente, mas nos mantém existindo a cada momento, ele é a causa elementar/derradeira para nossa existência e nós temos enormes razões para sermos agradecidos a ele, só para começar. E, assim como crianças humanas devem obediência limitada aos seus pais, nós devemos obediência ilimitada a Deus. Quero dizer, à medida que bons pais, não apenas pais biológicos, mas pais de criação, mantêm a criança existindo e fornecem a ela educação e nutrição, eles têm o direito de esperar que os filhos façam certas coisas, não porque elas são boas em si, mas porque não foi solicitado pelos filhos que fizessem isso. E, por isso, se existe um Deus, nós devemos-lhe gratidão, louvor e serviço. Se ele nos pede para fazer certas coisas, isso nos impõe uma obrigação. Então, isso importa muito.

IHU On-Line - Os teóricos da morte de Deus acertaram em sua previsão ou erraram? Se erraram, qual é o lugar de Deus na sociedade contemporânea?

Richard Swinburne - Bem, se isto era pra ser uma previsão de que a religião está se extinguindo, por enquanto, ela falhou. Eu não sei se há mais pessoas que acreditam em Deus, ou menos, do que na época de Nietzsche. O que eu posso dizer é que a população do mundo cresceu consideravelmente e houve um grande crescimento do cristianismo na África e alguns países da América Latina. Eu diria que provavelmente a previsão estava errada. Mas se o cristianismo ou outra religião teística decaíram ou não, não é o ponto crucial.

IHU On-Line - Que cristianismo é possível em nosso tipo de sociedade?

Richard Swinburne - Eu espero que o cristianismo possa promover paz e reconciliação entre diferentes comunidades e países. Nos primeiros 400 anos da existência da Igreja Cristã, ela não aplicou violência para derrubar regimes, aplicou reconciliação entre grupos em competição. A história do cristianismo, principalmente do cristianismo ocidental na Idade Média, não é uma boa história em relação a isso. Mas, claramente, qualquer um que lê os evangelhos e os ensinamentos da igreja primeva vai perceber que qualquer tentativa de estabelecer um estado cristão pela força e obrigar pessoas a acreditar em coisas está totalmente fora da linha do ensinamento cristão tradicional. Se recuperarmos o espírito dos evangelhos, tenho certeza que o cristianismo pode ser, como está se tornando novamente, uma comunidade reconciliadora. Reconciliadora entre países, entre tradições irracionais, entre grupos. Isso não significa que ele não suponha uma verdade dogmática no que as pessoas deveriam acreditar, não como resultado da força, mas como resultado de discussão racional e colocar isso em prática para trazer a paz entre as famílias. Esta é sua chance. Se a Igreja falhou no passado, ela pode fazer melhor agora.

IHU On-Line - Como o igualitarismo e a democracia podem se consolidar numa sociedade como a contemporânea?

Richard Swinburne – Talvez eu não seja a pessoa mais adequada para responder a essa pergunta. Certamente nos seus primórdios, a Igreja tinha certas opiniões sobre como as pessoas deviam se comportar nas suas relações morais com os outros. Isto não se aplicava a nenhuma forma de governo em particular. É reconhecido que você deve pagar impostos ao Estado e que o Estado deve ter um sistema jurídico justo, mas, afora isso, eu não penso que a Igreja tenha muito a dizer. Isto não quer dizer que pensadores cristãos que refletem sobre as condições de nossa sociedade não possam sugerir que cristãos criem um tipo de governo, um tipo de lei. Talvez eles possam, mas isso não é uma coisa sobre a qual eu pensei o suficiente para expressar uma opinião.

IHU On-Line - Como podemos entender a tentativa de Dawkins de combater o fundamentalismo religioso através de um fundamentalismo ateísta?

Richard Swinburne - Bem, eu posso entender o fenômeno Dawkins. Ele depende do tipo de pensadores americanos que foram influenciados pela dominância de um certo tipo de fundamentalismo religioso, especialmente nos Estados Unidos. Acredito que o cristianismo está comprometido com a visão de que o mundo tem apenas cerca de 6 000 anos e tudo o que os cientistas nos disseram sobre evolução é falso. Alguém como Dawkins e outros pensadores estão tão impressionados pela total irracionalidade disso, o que eles associam ao cristianismo e outras religiões teísticas como um todo, que eles sentem a necessidade de manifestar-se furiosamente. Mas, do meu ponto de vista, a religião cristã não está de forma alguma comprometida com a idade do mundo ser de 6 000 anos. Se esses pensadores estivessem familiarizados com isso, eles não estariam dizendo as coisas que dizem, por exemplo. Se lessem um livro como os comentário sobre Gênesis de Agostinho e qualquer coisa escrita por Gregório de Nice sobre a origem, eles teriam visto que essas pessoas estão muito preocupadas que os primeiros capítulos de Gênesis não deveriam ser interpretados de forma incompatível com a ciência grega que prevalecia naquela época. Nós devemos interpretar Gênesis à luz das outras coisas que sabemos, incluindo o que eles consideravam ciência moderna, ou seja, a ciência grega contemporânea, porque Deus era o autor de quase todo mundo natural.

IHU On-Line - Minha última pergunta volta ao início da nossa entrevista, sobre quais são os seus argumentos para a existência de Deus.

Richard Swinburne - Bem, eu penso que os argumentos para a existência de Deus são cumulativos. Ou seja, temos que tomá-los juntos e cada um deles num grau significativo de probabilidade para a conclusão, da mesma forma que uma teoria científica eles são explicados pela teoria todos juntos. Uma coisa que precisa ser explicada, em primeiro lugar, é por que existe um universo físico, por que existe essa enorme quantidade de pedaços de matéria. Segundo, por que todos esses pedaços de matéria se comportam todos da mesma maneira, por exemplo, todos se atraem da forma como Newton descreveu, mas com uma matemática um pouco mais complicada. Mas, mesmo assim, cada partícula exerce exatamente a mesma atração gravitacional proporcional à sua massa sobre todas as outras partículas do universo. Há uma enorme coincidência aqui. Isso é algo que exige explicação. Então, a pergunta permanece: por que levar à evolução do ser humano quando a maioria desses arranjos não levaria a isso.

Outras coisas também pedem explicação. Pessoas fazem coisas porque elas têm crenças a respeito de como o mundo é, além de metas. Elas tentam mudar o mundo à luz das suas crenças e têm metas, poderes limitados no mundo. Então, a noção de uma pessoa é a noção de um ser com poderes, metas e crenças. Deus é o tipo mais simples de pessoa que pode existir porque Ele tem poderes, mas não são poderes limitados, são ilimitados. Portanto, Ele é um ser de poderes infinitos. Ele não é influenciado por causas ou inclinações irracionais. Ele sempre faz coisas porque elas são boas. E, assim, nós temos uma explicação possível para todas essas coisas em termos da explicação mais simples de pessoa que pode haver com poderes, metas e crenças. Por que Ele deveria fazer tudo isso? Bem, como eu digo, nós somos uma coisa boa e o que é único a nosso respeito é que nós temos um tipo de poder, um tipo de qualidade que Deus não tem. Nós podemos fazer escolhas entre o bem e o mal. É uma boa coisa que existam seres que possam fazer esse tipo de escolha, que possam decidir o próprio destino. É uma coisa que Deus não tem, ou seja, Deus não pode fazer nada errado.

VIVEMOS NUMA SOCIEDADE DE ZUMBIS


Acabei de ler um ótimo artigo de Nivaldo Cordeiro, cujo tema é: gnose petista.
Segue abaixo um trecho do artigo:

"A gnose é um antigo termo religioso que designa os desvios de doutrina que deságuam na mentira espiritual, com implicações diretas sobre a práxis. Talvez o mais antigo e eficaz movimento gnóstico tenha começado no mundo pagão da Grécia e tomou forma na filosofia epicurista, nascida para confrontar nada menos do que Sócrates, Platão e Aristóteles. Epicuro foi contemporâneo desse último e seus seguidores ajudaram a expulsar o estigirta de Atenas, triunfando no meio político que levou o grande Sócrates ao supremo sacrifício em defesa da verdade da alma. Seguiu-se a decadência não apenas política, mas filosófica de toda a Grécia, vez que o gnosticismo é um elemento de elevado poder destrutivo.



Em poucas palavras, Epicuro defendia que o sentido da vida se resume à existência nesse mundo, simplificado no binômio busca do prazer/fuga da dor. Essencialmente o que importa sublinhar é a negação de qualquer realidade transcendente para os seguidores do epicurismo, tornando o homem – mais precisamente o prazer eventualmente obtido por ele – a medida de todas as coisas. Gigantes como Aristóteles e Platão riram dessa idiotia teórica, pois desde Parmênides sabia-se que a explicação do universo manifesto pressupunha a realidade do Além, as Formas ou o Deus único dos filósofos, o limite mais amplo a que puderam chegar os maiores pensadores pagãos antes do Advento.

No universo cristão a gnose emerge com a mesma idéia central, a de que o homem pode ser aperfeiçoado nesta vida e buscar a salvação ainda nesse mundo. Pelágio é o ancestral mais vistoso dessa heresia, derrotada, no campo teórico, teológico e político pelo grande Santo Agostinho. Mas a gnose acompanhou, como sombra, o Cristianismo pelos séculos seguintes até triunfar na modernidade (entendida esta como a cultura que moldou a civilização ocidental a partir do século XIV). Embora não seja um corpo de doutrina único e se manifeste em diferentes teorias e movimentos religiosos e políticos, o gnosticismo moderno tem como denominador comum declarar a imanência da salvação e reduzir a psique do homem à relação binária busca do prazer/fuga da dor. Essa caricatura espiritual gerou a criatura bifronte dada pelos falsos opostos liberalismo ateu e o marxismo revolucionário.
(...)
O inimigo dessa gente é um só, a Igreja Católica e o Cristianismo ele mesmo. Na verdade as denominações protestantes são elas próprias uma plena manifestação do gnosticismo usando a roupagem evangélica. Sei que muitos dos seguidores dessas religiões ditas cristãs talvez nem tenham a noção do que se passou, porque não é tarefa fácil encontrar livros de história e menos ainda livros de filosofia política que relatem fielmente o que aconteceu. A decretação de morte de Deus por Nietzsche é o coroamento da modernidade e a síntese de tudo, o corolário da Reforma."

O PODER DE CONHECER



O Globo, 4 de agosto de 2001

“Experimentai de tudo, e ficai com o que é bom”, aconselha o apóstolo. Experiência, tentativa e erro, constante reflexão e revisão do itinerário — tais são os únicos meios pelos quais um homem pode, com a graça de Deus, adquirir conhecimento. Isso não se faz do dia para a noite. “Veritas filia temporis”, dizia Sto.Tomás: a verdade é filha do tempo. Não me venham com fulgurações místicas e intuições súbitas. “Que las hay, las hay”, mas mesmo elas requerem preparação, esforço, humildade, tempo. Até Cristo, no cume da agonia, lançou ao ar uma pergunta sem resposta. Por que nós, que só somos filhos de Deus por delegação, teríamos o direito congênito a respostas imediatas?

O aprendizado é impossível sem o direito de errar e sem uma longa tolerância para com o estado de dúvida. Mais ainda: não é possível o sujeito orientar-se no meio de uma controvérsia sem conceder a ambos os lados uma credibilidade inicial sem reservas, sem medo, sem a mínima prevenção interior, por mais oculta que seja. Só assim a verdade acabará aparecendo por si mesma. O verdadeiro homem de ciência aposta sempre em todos os cavalos, e aplaude incondicionalmente o vencedor, qualquer que seja. A isenção não é desinteresse, distanciamento frio: é paixão pela verdade desconhecida, é amor à idéia mesma da verdade, sem pressupor qual seja o conteúdo dela em cada caso particular.

Não há nada mais estúpido do que a convicção geral da nossa classe letrada de que não existe imparcialidade, de que todas as idéias são preconcebidas, de que tudo no mundo é subjetivismo e ideologia. Aqueles que proclamam essas coisas provam apenas sua total inexperiência da investigação, científica ou filosófica. Não dando valor à sua própria inteligência — porque jamais a testaram — apressam-se em prostituí-la à primeira crença que os impressione, e daí deduzem, com demencial soberba, que todo mundo faz o mesmo. Não sabem que uma aposta total no poder do conhecimento bloqueia, por antecipação, todas as apostas parciais em verdades preconcebidas. Se o que está em jogo para mim, no momento da investigação, não é a tese “x” ou “y”, mas o valor da minha própria capacidade cognitiva, pouco se me dá que vença “x” ou vença “y”: só o que importa é que eu mesmo, enquanto portador do espírito, saia vencedor. Nenhuma crença prévia, por mais sublime que seja o seu conteúdo, vale esse momento em que a inteligência se reconhece no inteligível. Quem não viveu isso não sabe como a felicidade humana é mais intensa, mais luminosa e mais duradoura que todas as alegrias animais.

Infelizmente, a classe intelectual está repleta de indivíduos que não conhecem, da inteligência, senão o seu aparato de meios — a lógica, a memória, os sentimentos, cada qual prezando mais um ou outro desses instrumentos, conforme suas inclinações pessoais — mas não têm a menor idéia do que seja a inteligência enquanto tal, a inteligência enquanto poder de conhecer o real. É impressionante como o poder mesmo que define a atividade dessas pessoas — o intelecto — pode ser desprezado, ignorado, reprimido e por fim totalmente esquecido na prática diária de seus afazeres nominalmente intelectuais. O culto da razão ou dos sentimentos, das sensações ou do instinto, da fé cega ou do “pensamento crítico”, não é senão o resíduo supersticioso que sobra no fundo da alma obscurecida quando se perde o sentido da unidade da inteligência por trás de todas essas operações parciais. A inteligência, com efeito, não é uma função, uma faculdade em particular: é a expressão da pessoa inteira enquanto sujeito do ato de conhecer. A inteligência não é um instrumento, um aspecto, um órgão do ser humano: ela é o ser humano mesmo, considerado no pleno exercício daquilo que nele há de mais essencialmente humano.

Perguntaram-me uma vez, num debate, como eu definia a honestidade intelectual. Sem pestanejar, respondi: é você não fingir que sabe aquilo que não sabe, nem que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem. Se sei, sei que sei. Se não sei, sei que não sei. Isto é tudo. Saber que sabe é saber; saber que não sabe é também saber. A inteligência não é, no fundo, senão o comprometimento da pessoa inteira no exercício do conhecer, mediante uma livre decisão da responsabilidade moral. Daí que ela seja também a base da integridade pessoal, quer no sentido ético, quer no sentido psicológico. Todas as neuroses, todas as psicoses, todas as mutilações da psique humana se resumem, no fundo, a uma recusa de saber. São uma revolta contra a inteligência. Revoltas contra a inteligência — psicoses, portanto, à sua maneira — são também as ideologias e filosofias que negam ou limitam artificiosamente o poder do conhecimento humano, subordinando-o à autoridade, ao condicionamento social, ao beneplácito do consenso acadêmico, aos fins políticos de um partido, ou, pior ainda, subjugando a inteligência enquanto tal a uma de suas operações ou aspectos, seja a razão, seja o sentimento, seja o interesse prático ou qualquer outra coisa.

É claro que, para cada domínio especial do conhecimento e da vida, uma faculdade em particular se destaca, ainda que sem se desligar das outras: o raciocínio lógico nas ciências, a imaginação na arte, o sentimento e a memória no conhecimento de si, a fé e a vontade na busca de Deus. Mas, sem a inteligência, que é cada uma dessas funções, ou a justaposição mecânica de todas elas, senão uma forma requintada de fetichismo? Que é uma imaginação que não intelige o que concebe, um sentimento que não se enxerga a si mesmo, uma razão que raciocina sem compreender, uma fé que aposta às cegas, sem a visão clara dos motivos de crer? São cacos de humanidade, jogados num porão escuro onde cegos tateiam em busca de vestígios de si mesmos. Toda “cultura” que se construa em cima disso não será jamais senão um monumento à miséria humana, um macabro sacrifício diante dos ídolos.

Só o inteligir, assumido como estatuto ontológico e dever máximo da pessoa humana, pode fundamentar a cultura e a vida social. Por isso não há perdão para aqueles que, vivendo das profissões da inteligência, a rebaixam e a humilham. Cada vez que um desses indivíduos grita, seja na língua que for, seja sob o pretexto que for, “Abajo la inteligencia!”, é sempre o coro dos demônios que ecoa, do fundo do abismo: “Viva la muerte!”

O ANSEIO PELA LIBERDADE E PELA VERDADE É PARTE INALIENÁVEL DA NOSSA COMUM HUMANIDADE

Senhor Presidente
Ilustres Reitores e Professores
Queridos estudantes e amigos! 


O encontro desta tarde oferece-me a agradável oportunidade de manifestar a minha estima pelo papel indispensável que as universidades e os institutos académicos desempenham na sociedade. Agradeço ao estudante que gentilmente me saudou em vosso nome, aos membros do coro universitário pela sua excelente interpretação e ao ilustre Reitor da Universidade Carlos, ao Professor Václav Hampl, as suas profundas palavras. O mundo académico, apoiando os valores culturais e espirituais da sociedade e ao mesmo tempo oferecendo-lhes a própria contribuição, desempenha o precioso serviço de enriquecer o património intelectual da nação e de fortalecer os fundamentos do seu futuro desenvolvimento. As grandes mudanças que há vinte anos transformaram a sociedade checa foram causadas, não por último, pelos movimentos de reforma que tiveram origem nas universidades e nos círculos estudantis. Aquela busca de liberdade continuou a guiar o trabalho dos estudiosos:  a sua diakonia para a verdade é indispensável para o bem-estar de qualquer nação.

Quem vos fala foi um professor, atento ao direito da liberdade académica e à responsabilidade no uso autêntico da razão, e agora é o Papa que, no seu papel de Pastor, é reconhecido como voz competente para a reflexão ética da humanidade. Se é verdade que há quem considere que as questões apresentadas pela religião, pela fé e pela ética não têm lugar no âmbito da razão pública, esta visão não é minimamente evidente. A liberdade que está na base da prática da razão tanto na universidade como na Igreja tem uma finalidade determinada:  destina-se à investigação da verdade, e como tal exprime uma dimensão própria do Cristianismo, que não ocasionalmente levou ao nascimento da universidade. Na realidade, a sede de conhecimento do homem estimula cada geração a ampliar o conceito de razão e beber nas fontes da fé. Foi precisamente a rica herança da sabedoria clássica, assimilada e posta ao serviço do Evangelho, que os primeiros missionários cristãos trouxeram a estas terras e que foi estabelecida como fundamento de uma unidade espiritual e cultural que permanece até hoje. A mesma convicção fez com que o meu predecessor, Papa Clemente vi, instituísse em 1347 esta famosa Universidade Carlos, que continua a oferecer uma importante contribuição ao mais  vasto  mundo  académico, religioso e cultural europeu.

A autonomia própria de uma universidade, aliás, de qualquer instituição escolar, encontra significado na capacidade de se tornar responsável perante a verdade. Não obstante, aquela autonomia pode ser vanificada de diversas formas. A grande tradição formativa, aberta ao transcendente, que está na origem das universidades em toda a Europa, foi sistematicamente subvertida, aqui nesta terra e noutras partes,  pela  ideologia  redutiva  do materialismo,  pela  repressão  da  religião e pela opressão do espírito humano. Contudo, em 1989 o mundo foi testemunha de modo dramático da derrocada  de  uma  ideologia  totalitária falhada e do triunfo do espírito humano.

O anseio pela liberdade e pela verdade é parte inalienável da nossa comum humanidade. Ele nunca pode ser eliminado e, como demonstrou a história, só pode ser negado pondo em perigo a própria humanidade. É a este anseio que procuram responder a fé religiosa, as várias artes, a filosofia, a teologia e as outras disciplinas científicas, cada uma com o próprio método, quer a nível de uma reflexão atenta, quer a nível de uma boa prática.

Ilustres Reitores e Professores, juntamente com a vossa pesquisa há um ulterior aspecto essencial da missão da universidade na qual estais comprometidos, ou seja, a responsabilidade de iluminar as mentes e os corações dos jovens de hoje. Este grave aspecto não é certamente novo. Desde os tempos de Platão, a educação não consiste no mero acúmulo de conhecimentos ou de habilidades, mas numa paideia, uma formação humana nas riquezas de uma tradição intelectual finalizada a uma vida virtuosa. Se é verdade que as grandes universidades, que na Idade Média nasciam em toda a Europa, tendiam com confiança para o ideal da síntese de todos os saberes, isto estava sempre ao serviço de uma autêntica humanitas, ou seja, de uma perfeição do indivíduo no interior da unidade de uma sociedade bem ordenada. Deve ser assim também hoje:  quando a compreensão da plenitude e unidade da verdade é despertada nos jovens, eles sentem o prazer de descobrir que a pergunta sobre o que eles podem conhecer lhes abre o horizonte da grande aventura sobre como devem ser e sobre o que devem realizar.

Há que ser reconquistada a ideia de uma formação integral, baseada sobre a unidade do conhecimento radicado na verdade. Isto pode contrastar a tendência, tão evidente na sociedade contemporânea, para uma fragmentação do saber. Com o crescimento maciço da informação e da tecnologia nasce a tentação de separar a razão da busca da verdade. Mas a razão, quando é separada da orientação humana fundamental para a verdade, começa a perder a própria direcção. Ela acaba por se tornar insensível sob a aparência de modéstia, quando se contenta com o que é puramente parcial ou provisório, ou sob a aparência de certeza, quando impõe a capitulação às exigências de quantos dão de maneira indiscriminada igual valor praticamente a tudo. O relativismo que deriva disto gera um disfarce, por detrás do qual podem esconder-se novas ameaças à autonomia das instituições académicas.

Se por um lado passou a época da ingerência derivante do totalitarismo político, por outro, não é porventura verdade que com frequência hoje no mundo a prática da razão e a pesquisa académica são obrigadas de modo subtil e por vezes nem tanto subtil a resignar-se às pressões de grupos de interesses ideológicos e à ilusão de objectivos utilitaristas a curto prazo ou apenas pragmáticos? Que poderia acontecer, se a nossa cultura se tivesse que construir a si mesma unicamente sobre argumentos que estão na moda, com escassa referência a uma tradição intelectual histórica genuína ou sobre as convicções que são promovidas com muito ruído e fortemente financiadas? O que poderia acontecer se, na ansiedade por manter uma secularização radical, acabasse por se separar das raízes que lhe dão vida? As nossas sociedades não se tornarão mais razoáveis ou tolerantes ou maleáveis, mas ao contrário, serão mais frágeis e menos inclusivas, e terão cada vez mais dificuldade em reconhecer o que é verdadeiro, nobre e bom.

Queridos amigos, desejo encorajar-vos em tudo o que fazeis para ir ao encontro do idealismo e da generosidade dos jovens de hoje, não só com programas de estudo que os ajudem a distinguir-se, mas também mediante a experiência de ideais partilhados e de ajuda recíproca no grande empreendimento do aprendizado. As habilidades de análise e as que são exigidas para formular uma hipótese científica, juntas com a arte prudente do discernimento, oferecem um antídoto eficaz às atitudes de fechamento em si, de indiferença e até de alienação que por vezes se encontram nas nossas sociedades do bem-estar e que podem atingir sobretudo os jovens.

Neste contexto de uma visão eminentemente humanista da missão da universidade, gostaria de mencionar brevemente a superação daquela ruptura entre ciência e religião que foi uma preocupação central do meu predecessor, o Papa João Paulo II.

Ele, como sabeis, promoveu uma compreensão mais plena da relação entre fé e razão, entendidas como as duas asas com as quais o espírito humano é elevado à contemplação da verdade (cf. Fides et ratio, Prefácio). Uma apoia a outra e cada uma tem o seu próprio âmbito de acção (cf. ibid., 17), não obstante ainda existam os que gostariam de separar uma da outra. Quantos propõem esta exclusão positivista do divino da universalidade da razão, não só negam aquela que é uma das mais profundas convicções dos crentes:  eles acabam por contrastar precisamente o diálogo das culturas que eles mesmos propõem. Uma compreensão da razão surda ao divino, que relega as religiões para o reino das subculturas, é incapaz de entrar no diálogo das culturas do qual o nosso mundo tem urgente necessidade. No final, a "fidelidade ao homem exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade" (Caritas in veritate, 9). Esta confiança na capacidade humana de procurar a verdade, de encontrar a verdade e de viver segundo a verdade levou à fundação das grandes universidades europeias. Certamente, nós devemos reafirmar isto hoje para infundir no mundo intelectual a coragem necessária para o desenvolvimento de um futuro de autêntico bem-estar, um futuro verdadeiramente digno do homem.

Queridos amigos, com estas reflexões formulo na oração os melhores votos pelo vosso empenhativo trabalho. Rezo para que ele seja sempre inspirado e dirigido por uma sabedoria humana que procura sinceramente a verdade que nos torna livres (cf. Jo 8, 28). Sobre vós e as vossas famílias invoco a bênção da alegria e da paz de Deus.


VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA BENTO XVI À REPÚBLICA TCHECA
ENCONTRO COM O MUNDO ACADÉMICO
DISCURSO DO SANTO PADRE
Salão de Vladislav do Castelo de Praga
Domingo, 27 de Setembro de 2009


FÉ E CIÊNCIA, DIÁLOGO NECESSÁRIO

Fé e ciência, diálogo necessário

Colóquio entre Dom Ravasi e o geneticista Axel Kahn

ROMA, terça-feira, 6 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- “Excluir a razão ou não admitir nada mais que a razão” são os dois excessos a evitar ao confrontar fé e ciência, afirmou o presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, Dom Gianfranco Ravasi, tomando um pensamento do filósofo Pascal.

O prelado falou durante um debate com o geneticista Axel Kahn, presidente da Universidade Paris-Descartes, realizado na sexta-feira passada na embaixada francesa na Santa Sé.
O evento realizou-se por iniciativa da embaixada, em colaboração com a Delegação da Comissão europeia na Santa Sé.
Dois excessos que devem substituir-se por “dois olhares, a ciência e a fé”, ambas necessárias “para uma visão completa da realidade que se explora”, disse Dom Ravasi.
Para o arcebispo, a relação entre ciência e fé deve dar-se “na distinção e no diálogo”.
Cada uma delas cobre “âmbitos diferentes, com caminhos autônomos e diferentes metodologias”, mas ambas “têm necessidade uma da outra para se completar na mente de uma pessoa que pensa”, afirmou.
Dom Ravasi disse que “a tentação no Ocidente é, por um lado, burlar-se vendo a teologia como um produto da paleontologia cultural destinado a ser abandonado com o advento da ciência e, por outro, impor à ciência alguns limites fundamentados sobre afirmações teológicas”.

Objetos diferentes

“A ciência –prosseguiu Dom Ravasi– interroga-se sobre o ‘como’, enquanto a metafísica e a religião se dedicam a investigar os valores últimos, o ‘por quê’”.
Ainda que certamente a teologia e a ciência têm “gramáticas diversas”, explicou o arcebispo, “também têm coincidências metodológicas e expressivas”.
A linguagem científica moderna, por exemplo, “recorre muito à categoria do símbolo, aproximando-se do teológico”, disse.
Por outro lado, “segundo Santo Agostinho, a fé não é nada se não se pensa sobre ela”; a adesão da fé não é só afetiva, mas requer uma elaboração intelectual, e a teologia serve-se de categorias lógicas”, continuou.
Dom mesmo modo, se o conhecimento de fé se situa em um canal distinto ao da simples racionalidade, “não é o único deste tipo experimentado pelo homem”, indicou. E explicou: “pode-se pensar na experiência do enamoramento, em que se supera o que a ciência oferece e se vê no rosto do outro a beleza além da objetividade”.
“Trata-se de um conhecimento verdadeiro, ainda que não é o mesmo que o da geometria, o da racionalidade”, afirmou.

Nem tudo é ciência

Por sua parte, o geneticista Kahn questionou: “por que um quadro é belo?”. “Não há uma resposta científica a esta pergunta, mas é legítimo propô-la, assim como perguntar-se se algo está bem ou mal”.
“A filosofia –prosseguiu Kahn– é um método racional para buscar respostas que não podem ser enfrentadas com a ciência e a racionalidade”.
E é a filosofia, em lugar da fé, a que se exige um diálogo com a ciência, opinou Kahn.
“O diálogo deve ter um vocabulário de conceitos comuns –acrescentou: se os conceitos da fé e da ciência são incomensuráveis entre si, o diálogo não pode ser intelectualmente frutífero”.
“O enfoque filosófico-científico pressupõe uma questão aberta à qual se tenta responder: se a hipótese de início, depois da verificação, resultar ser falsa, renuncia-se a ela”.
Em contrapartida, um enfoque teológico “não pode renunciar a sua premissa, que é a Revelação”. No entanto, “o diálogo entre a fé e a ciência é útil”, disse o geneticista.
“Sobre o humanismo, as posições convergem e estamos mais de acordo que em desacordo”, afirmou.
Na pesquisa com embriões, por exemplo, “a necessária proteção da singularidade do embrião –que ao se desenvolver converte-se em um ser humano– deve recordar-se com ou sem fé”, opinou.
“Sobre a condenação dos exames genéticos nos imigrantes, penso como a Igreja francesa”, acrescentou.
Para Kahn, “nosso mundo está fundado sobre os que creem e os que não creem, mas é necessário criar o futuro juntos; há que dialogar sobre o que uns e outros consideram o caminho correto”.
“A aparição de um ser humano é o resultado de duas condições: possuir um genoma humano e saber olhar o próximo como um questionamento, alguém através de cujo valor de ser humano percebo meu próprio valor”, afirmou Kahn.
“A reciprocidade –concluiu Kahn, que se professou ‘agnóstico mas não ateu’– para um materialista, desde fora da Revelação, é a condição do pensamento moral”.
Dom Ravasi recordou que “quando o Gênesis define a imagem de Deus no homem, afirma que “homem e mulher os criou”, quer dizer, que a imagem de Deus é a relação de amor, a reciprocidade”.
“Para utilizar de novo um pensamento de Pascal”, concluiu o presidente do Conselho Pontifício para a Cultura. “se existe o amor, existe Deus”.

(Chiara Santomiero)
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