Páginas

LEXICON: TERMOS AMBÍGUOS E DISCUTIDOS SOBRE A FAMÍLIA, A VIDA E QUESTÕES ÉTICAS


Resumo da Apresentação do Prof. Dr. Humberto L. Vieira na Jornada Moral Católica frente a Bioética e ao Biodireito.

1. Considerações iniciais

O desenvolvimento das ciências no campo da biomedicina e da genética trouxe grandes contribuições para a humanidade. As descobertas no campo da genética, os estudos sobre a fecundação e desenvolvimento fetal e o “Projeto Genoma” são conquistas bem recentes que trazem à luz a melhor compreensão sobre o início e desenvolvimento da vida humana e possibilitam o tratamento da criança na fase de gestação.
Hoje a criança por nascer já é um segundo cliente do médico. Tratamento intra-uterino até mesmo intervenções cirúrgicas são dispensadas a esse segundo cliente.
Por outro lado, o tratamento preventivo, as vacinas e condições melhores de saneamento tornaram possível o aumento da perspectiva de vida. De uma média de 25/30 anos no inicio do século XX, passamos para 65/70 anos no final desse século, com sensíveis repercussões nos planos de assistência e previdência social.
Além disso, o tratamento do idoso e dos que se encontram no final de sua existência também colheu benefícios desse desenvolvimento científico.
Se por um lado essas novas tecnologias trouxeram melhoria para a vida humana, por outro lado são motivo de grandes preocupações éticas e morais. Nem sempre os cientistas se preocupam com a dignidade do ser humano em suas pesquisas. Ademais, instituições e organizações internacionais, motivadas por interesses políticos e financeiros, apóiam essas pesquisas, criam neologismos e empregam termos ambíguos para conseguir seus objetivos. Daí a preocupação em se estabelecer em âmbito internacional códigos de ética a que todas as pesquisas sejam submetidas. Alguns países já estabeleceram seus procedimentos visando assegurar que essas pesquisas se desenvolvam dentro de procedimentos éticos e morais.

2. Origem do Lexicon

A partir do Ano Internacional da Família e das conferências internacionais a partir da Conferência sobre População e Desenvolvimento que aconteceu no do Cairo em 1994, começaram a surgir nos fóruns mundiais e nos parlamentos neologismos, eufemismos expressões com significados duvidosos que, comprometidos com ideologias, contrariam o direito e a ordem naturais.
Diante disso, chegaram ao Pontifício Conselho para a Família inúmeras solicitações no sentido de esclarecer expressões ambíguas e de duplo sentido. O Presidente desse Pontifício Conselho, S. Emcia. Cardeal Alfonso López Trujillo, reuniu cientistas, médicos, filósofos, antropólogos, moralistas, psicanalistas de renome internacional que estudaram aquelas expressões e ofereceram, à luz da antropologia, da filosofia e da ciência médica e da moral, conceitos e explicações sobre tais expressões.

3. O que é o LEXICON

O Lexicon constitui um dicionário com 867 páginas, em que 78 expressões ambíguas e neologismos são exaustivamente estudados por especialistas internacionais sobre a forma de artigos. Assim são analisados os ‘novos direitos humanos’ como o “direito ao aborto”, “direito à contracepção”, “direitos sexuais e reprodutivos”, “direito de decidir”, etc. Também são analisadas algumas expressões como “discriminação”, “saúde sexual e reprodutiva”, “gênero” etc.
O Lexicon foi editado em italiano e breve será publicado em outras línguas, inclusive em Português.

4. Análise de algumas expressões

4.1 - Concepção

É fato cientificamente comprovado de que a vida humana se inicia na concepção, isto é, quando se dá a fecundação, a fusão do espermatozóide com o óvulo. De um amaneira natural a fecundação se dá nas trompas de Fallópio. No espaço de 5 a 7 dias o embrião se deslocaaté o útero e fixa-se no endométrio, o que se denomina de nidação.
Os termos concepção, mulher grávida e gravidez são definidos como quase idênticos. Claro que as palavras concepção e fecundação são sinônimas. A concepção de uma nova pessoa humana é o resultado do processo de fecundação e assinala o início da gravidez. Alterar o sentido dessas expressões é contrariar um fato universalmente aceito.
Com o surgimento das técnicas de fecundação artificial e o aparecimento do aborto químico o Colégio de Ginecologia e Obstetrícia dos EE.UU., em 1972, publicou o glossário Obstetric-Gynecologic Terminology. Nesse documento concepção é conceituado como a “implantação do blastocisto”. Segundo essa nova definição concepção deixou de ser sinônimo de fecundação.
Posteriormente, em 1995, a FIGO-Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia definia gravidez:
“A Comissão concorda nos seguintes pontos: ‘a gravidez ocorre só com a implantação do óvulo fecundado”. Segundo essa definição de ‘concepção’ e ‘gravidez’, uma intervenção abortiva interrompe uma gravidez somente após a implantação.

Diante disso, surgiram algumas redefinições de gravidez:
A prevenção da gravidez antes da implantação é contracepção e não aborto (Tatum, Connel. “A Decade of Intrauterine Contraception”, pág 186.
“Como era previsível, alguns anti-abortistas declaram que a contracepção de emergência equivale ao aborto [...] ainda que a contracepção de emergência agisse exclusivamente para prevenir a implantação do zigoto, não é uma intervenção abortiva [...] a gravidez começa com a implantação, não com a fecundação [...] a fecundação é condição necessária mas não suficiente para a gravidez” (A. Glazier, “Emergency Postcoital, Contraception, in NEJM (1997)337, 1058-1064.
“A concepção é usada como sinônimo de implantação e não de fecundação” (Trussel, Rodriguez, Ellertson, “New Estimates of the Effectiveness, 1999, 147.
Quando se troca o significado de uma palavra, troça-se a verdade. (John Willks)
Em verdade, são abortivos pré-implantação (são anti-implantação): a pílula do dia seguinte (contracepção de emergência) o DIU (de cobre ou não), a RU-486, sendo que esta última pode acarretar aborto em qualquer fase da gestação. Os injetáveis e as pílulas ditas anticoncepcionais de baixa dosagem (mini e micro) também podem provocar abortos caso falhe sua ação anovulatória. Calcula-se em 20 a 40% a ação abortiva dessas anticoncepcionais.

4.2 - Contragestação
Interrupção da gravidez, extração menstrual, esvaziamento do conteúdo do útero, antecipação terapêutica do parto, regulação menstrual.

São expressões para designar aborto nas várias etapas da gravidez. Contragestação é a expressão criada por Banlieu para denominar aborto com a RU-486. Essa pílula de origem francesa é capaz de provocar aborto em qualquer fase do desenvolvimento fetal. Admitida nos EE.UU. pela FDA, depois de muita discussão vem sendo admitida em outros países. No Brasil se tem conhecimento de seu uso clandestino em alguns centros.
Interrupção da gravidez. Interrompe-se algo que está em curso e que pode ser restabelecido. No caso da interrupção da gravidez corresponde ao aborto uma vez que a gravidez, uma vez interrompida não mais se restabelece. Trata-se de um eufemismo para designar aborto.
Extração menstrual e regulação menstrual. A menstruação não se extrai e sim ocorre normalmente. O que se denomina ‘regulação menstrual’ é a retirada do embrião, por aspiração, nos primeiros dias de vida para que a menstruação volte a ocorrer.
Esvaziamento do conteúdo do útero. Um eufemismo para designar aborto. Qual seria o conteúdo de um útero, senão a criança por nascer?
Antecipação terapêutica do parto. Uma expressão criada pelo Dr. Diaulas da Costa Ribeiro, Procurador do Ministério Público do DF e Territórios (MPDRT) e a Dra. Débora Diniz, antropóloga, para designar os abortos por má formação fetal. Para essas pessoas a criança por nascer portadora de uma anomalia incompatível com a vida, como por exemplo os fetos anencéfalos devem ser abortados. Dr. Diaulas autorizou o aborto em 61 gestantes cujos filhos eram portadores de má formação fetal (anencefalia e outros).

4.3 - Os novos “Direitos Humanos”

“Direito de escolha”, “direitos reprodutivos”, “direitos sexuais”, “direitos a uma morte digna”.
“Direito de escolha”, “direito de opção”, “direito de decidir”. São expressões usadas por grupos feministas para significar “direito ao aborto”. O “direito ao aborto” é incluído nas conferências internacionais pelos grupos feministas como os novos “direitos humanos”. A mulher pode ter o direito de ter ou de espacejar os filhos, mas uma vez grávida não lhe assiste o “direito de abortar”. É um artifício de linguagem para esconder os verdadeiros significados dessas expressões. Às vezes encontramos ONGs denominadas com essas expressões. É o caso por exemplo da “Católicas pelo Direito de Decidir”. Trata-se de uma organização feminista que se autodenomina ‘católicas’ mas que são anti-católicas. Organização com sede nos EE.UU. foi criada em 1970, presidida por Francis Kisling com filiais em vários paises da América Latina. No Brasil sua sede é em S.Paulo e sua presidente é a Sra. Maria José Rosado. Essa organização financiada por fundações norte-americanas (Fundação Ford, Fundação MacArthur etc) defende a legalização do aborto, o ‘casamento de homossexuais’ a contracepção etc. Ainda recentemente fez uma campanha mundial para retirada do Vaticano com Observador Permanente junto às Nações Unidas. Declarações do Vaticano, da Conferência dos Bispos Católicos dos EE. UU. e da CNBB já esclareceram que as Católicas pelo Direito de Decidir não é uma organização católica.
Obs: “direito de opção” é também utilizado para significar “livre opção sexual”, além de significar “opção pelo aborto”.

“Direito sexual”, “direitos reprodutivos”.

“Direito sexual”. Aí são incluídos vários outros “direitos”, como “direito à contracepção” inclusive de adolescentes sem conhecimento dos pais; direito a livre “opção sexual”, “direito à esterilização”, “direito à união civil de pessoas do mesmo sexo” (casamento “gay”), “direito à adoção pelos parceiros sexuais”, etc.

“Direitos reprodutivos”. Essa expressão surgiu nas conferências internacionais (Beijng). Os delegados solicitaram na ocasião uma explicação da expressão tendo sido informado que “direitos reprodutivos” incluía o ‘direito ao aborto. Em realidade, a expressão ‘direitos reprodutivos’ abrange vários outros ‘direitos’ segundo as organizações feministas. Assim direitos reprodutivos inclui ‘direito à fecundação artificial’’, ‘direito’ da mulher dispor de seu próprio corpo, ‘direito’ ao “aborto seguro” sem autorização ou participação do esposo (ou parceiro) etc. Nesse caso o pai da criança não teria nenhum direito sobre seu filho. O Tribunal de Direitos Humanos de Strasburgo rejeitou o direito do pai de se opor à decisão da mãe de abortar.

4.4 - Ideologia de gênero (gender) 

“Gênero” é uma construção cultural. A palavra gênero substitui a palavra sexo com o objetivo de eliminar a idéia de que os indivíduos humanos se dividem em dois sexos. A expressão surgiu no final dos anos sessenta, criada pelo feminismo do gênero. Defendendo a igualdade de sexos, segundo essa ideologia, conclui que a mulher é oprimida pelo homem e a primeira opressão se dá na origem da família, em que o antagonismo homem-mulher se dá como casamento monogâmico. Daí as feministas extremistas se insurgirem contra a família tradicional e optarem por considerarem família qualquer união entre pessoas (entre homem e mulher, entre homossexuais e a chamada família monoparental). O’Leary diz que a desconstrução da família, o ataque à religião, à tradição e aos valores culturais que o feminismo do gênero promove nos países em desenvolvimento abrange o mundo inteiro. Segundo a teoria do gênero o papel desempenhado pelo indivíduo na sociedade é que determinaria uma das 5 modalidades de sexo: mulher heterossexual, mulher homossexual, homem heterossexual, homem homossexual e bissexual.

4.5 - Sexo seguro (safe sex)

A campanha de sexo seguro é baseada na ocultação da verdade cientificamente reconhecida. Várias pesquisas já foram realizadas para averiguar a eficácia do preservativo. Os dados variam de ineficácia de 10 a 30% segundo as pesquisas de resistência, impermeabilidade, uso, armazenamento, transporte. Antes do surgimento da AIDS a falha do preservativo se situava entre 10 e 25% para evitar uma gravidez. Segundo alguns autores que consideraram dois ou mais fatores, a ineficácia do preservativo se situa em torno de 10 a 13%%. Pesquisas de laboratório constataram ser o vírus do HIV 450 vezes menor do que o espermatozóide e os poros (fissuras) do látex 50 a 500 vezes maiores que o tamanho do vírus. Servir-se do preservativo para proteção contra o HIV significa, em realidade, uma roleta russa. Segundo orientação do Center for Disease Control de Atlanta (USA) “ a abstinência e a relação sexual com um único parceiro seguramente não infectado são as únicas estratégias de prevenção.

4.6 - Seleção e redução embrionária

São expressões introduzidas na prática da ‘reprodução tecnicamente assistida’. “Seleção embrionária” se refere a seleção de um embrião humano produzido em proveta antes de sua transferência para o útero. A redução embriológica se refere a eliminação de um ou mais embriões humanos no útero quando, após a transferência vários embriões se desenvolvem. Para evitar sofrimento da mulher e para reduzir gastos vários óvulos são retirados do ovário e fecundados (FIVET). Alguns desses embriões são colocados no útero, mas se todos eles vierem a nidar e se desenvolverem criará problemas para a gestante e até risco de vida para a mãe e seus embriões. Daí resulta a necessidade de eliminar alguns o que é feito com a introdução de cloreto de sódio (ClNa) no coração da criança com o auxílio do ultra-som. A eliminação desses embriões é o que se denomina redução embrionária. Numerosos dados indicam que numa gravidez clinicamente com sucesso 22% terminam em aborto espontâneo e 5% em gravidez ectópica; app 27% são gravidez múltipla com todas as complicações que se seguem; 29,3% têm um parto predeterminado e 36% nascimentos com baixo peso (J. Cohen, M. Mayaux, M.I. Guihard, Moscato. “Pregnancy Outocomes after in Vitro Fertilization”, in Annales of the New York Academy of Sicences (1988)541, 1-6. Vários outros autores podem ser conferidos em “Lexicon”, PCF pág. 790).

4.6 – “Morte digna”, “morte piedosa”, “direito de morrer dignamente’
São expressões ambíguas para justificar a eutanásia.e o suicídio assistido.

“Por eutanásia, em sentido verdadeiro e próprio, deve-se entender uma ação ou uma omissão que, por sua natureza e nas intenções provoca a morte com o objetivo de eliminar o sofrimento” (E.V. 65). Os promotores da eutanásia defendem a tese da ‘qualidade de vida’ expressão que nem sempre é bem explicada. O que seria qualidade de vida? O fato de evitar o sofrimento paciente sofrer? A situação de um indivíduo sem suas faculdades mentais? O estado de um paraplégico? Por outro lado, nem sempre se entende o que é e o que não é eutanásia. Há toda uma gama de interesses que dificultam essa compreensão. Companhias de seguro desejam assegurar menos custos com a assistência ao paciente, hospitais e casas de saúde que vêem no prolongamento da vida (distanásia) uma fonte de receita, ainda há de se considerar o problema da retirada de órgãos para transplantes. De outro os familiares pretendem ficar com seu ente amado por mais tempo, outros que preferem que seu familiar ‘descanse’ etc. Há dois pontos extremos nesses interesses: o excesso terapêutico (tratamento inócuo que não melhora o estado do paciente terminal) e a subtração da atenção básica (suspensão de água, alimento e oxigênio). O fato de um paciente recusar tratamento extraordinário não caracteriza eutanásia. O morrer naturalmente sem o excesso terapêutico e mantendo os cuidados básicos é o que se chama de orto-eutanásia. Coloca-se aqui, também, o problema da morte cerebral.
Hoje se discute em todo o mundo o diagnóstico da morte cerebral. O conceito de morte cerebral surgiu com o desenvolvimento das técnicas e procedimentos dos transplantes de órgãos. Segundo alguns a morte cerebral não é a morte do paciente, enquanto houver atividade do tronco cerebral. Para estes, a morte clínica quando param as atividades de respiração e batimentos cardíacos é que caracteriza a morte da pessoa. Em verdade, os órgãos quando não oxigenados perdem sua vitalidade e não mais servem para serem transplantados. Alguns após 5 minutos da morte clínica já não podem ser utilizados. Já a morte cerebral possibilita a retirada de órgãos para transplantes uma vez que a respiração e os batimentos cardíacos asseguram a vitalidade dos órgãos. Alguns países como a Holanda e alguns Estados Americanos e o norte da Austrália já tornaram legal a eutanásia. Na Holanda as pessoas idosas de 75 anos já não têm assegurado o direito à vida (nos informa o Dr. Brian Clowes em seu livro “Os Fatos da Vida” que idosos são mortos em asilos como meio de liberar leitos para outros. O fato de provocar aborto a criança em idade gestacional avançada é considerado por alguns como “eutanásia pré-natal” (Dr.John Willke).

4.7 - Discriminação

De uma maneira geral todos nós somos contra a discriminação. Entretanto em nome da não-discriminação são apresentados no Congresso Nacional projetos de lei de uniões homossexuais e lésbicas, inclusive com a possibilidade de adoção.
Um outro exemplo é o caso do CEDAW – Convenção sobre eliminação das discriminações contra as mulheres, aprovado em 1° de março de 1980 e o Protocolo Facultativo do CEDAW, ratificado por 42 países, inclusive o Brasil, em 21 de agosto de 2002. Para examinar a discriminação contra a mulher e propor medidas corretivas foi criado um Comitê de especialistas. Nem a convenção, nem o protocolo facultativo se declaram explicitamente a favor da legalização do aborto. Entretanto a experiência demonstra que conceitos como ‘saúde reprodutiva’, e ‘planejamento familiar’ compreendem acesso a serviços de aborto seguro sem penalização. O Comitê é taxativo: “a recusa de um Estado contratante de fornecer a prestação de determinados serviços de saúde reprodutiva em condições legais, resulta discriminatório”. No relatório sobre o Chile em 1999 a Comissão do CEDAW exprime “sua preocupação com respeito a inadequação do reconhecimento e da proteção dos direitos reprodutivos”, em particular pela lei que proíbe toda forma de aborto.”. Quanto à maternidade o Comitê s“ O Comitê afirma que tais disposições violam o direito de todas as mulheres olicitou à Armênia “combater o tradicional estereotipo da mulher no seu papel de mãe”. Insiste com a Bielorussia a fim de suprimir “O dia das mães” porque estimula a mulher a perpetuar o papel tradicional. Pelo que determina o Protocolo Facultativo do CEDAW qualquer instituição ou indivíduo poderá apresentar queixa de discriminação contra a mulher diretamente ao Comitê, independentemente ou não de o assunto estar sendo examinado pelo Judiciário e mesmo contra este. Sem dúvida isso representa uma intervenção indevida na soberania do país. Futuramente até mesmo o Tribunal Internacional, criado na reunião de Roma poderá vir a julgar casos de discriminação contra a mulher (lésbica ou não) caso alguma delas se sinta discriminada e ao arrepio do Poder Judiciário do país.

Conclusão

O Lexicon, escrito por 68 especialistas mundiais, abordando 78 temas e expressões, publicado pelo Pontifício Conselho para a Família, constitui importante obra para a compreensão de neologismos e expressões ambíguas. No espaço de tempo concedido nesta jornada não é possível abordar todo o conteúdo dessa obra.

Publicado inicialmente em italiano, o Lexicon tem despertado muito interesse de vários setores e está sendo traduzido em várias outras línguas, inclusive em português. Essa publicação será muito útil a políticos, legisladores, delegados de conferências internacionais e todos aqueles que se dedicam a conhecer o verdadeiro significado de expressões utilizadas nesses parlamentos.

BIBLIOGRAFIA

1. LEXICON – Termini ambigui e discussi su famiglia, vita e questioni etiche – Edizione Dehoniane Bologna, 2003.
2. Encíclica “Evangelium Vitae, João Paulo II, de 25 de março de 1995, Libreria Editricd Vaticana, Cidade do Vaticano, 1995.
3. Outras indicações bibliográficas são encontradas no rodapé e no final dos artigos do Lexicon.

Fonte: http://www.cancaonova.com/portal/canais/especial/bioetica/materias.php?local=0&id=1929

D. GERALDO MAGELA QUESTIONA O GOVERNO PETISTA SOBRE O PNDH

Recentemente o Arcebispo de Salvador (BH) e Primaz do Brasil, Cardeal Geraldo Majella Agnelo, pegou pesado com o governo Petista, fazendo severas críticas ao programa de direitos humanos (PNDH) do governo Lula, em um artigo que teve como título “Brasil: programa de direitos humanos e os equívocos para o desenvolvimento”. No artigo, ele mostrou a intenção do governo: Afirmar que a vontade de uma minoria, é a vontade da maioria do povo brasileiro. A idéia dos petistas é de entre outras coisas legalizar o aborto e banir os símbolos religiosos dos espaços públicos, mesmo quando a maioria da população brasileira já manifestou explicitamente sua vontade contrária a estas medidas.
O tal programa (PNDH), que contém mais de 500 proposições e 73 páginas e que, segundo muitos comentadores, agride diversos artigos da Constituição Brasileira, e por isso, o Cardeal Majella afirma que “o leitor fica sem saber se esse decreto, que sai em ano eleitoral, deve ser recebido como o programa com o qual o Governo mostra sem retoques seu rosto aos eleitores ou se foi um equívoco do grupo que o redigiu, destinado a sair de circulação”.
“Os temas tratados são de grande interesse, mas os equívocos são muitos e perigosos” adverte o Cardeal Primaz. “O PNDH foi preparado sem uma ampla consulta à sociedade. Esta seria a maneira de sinalizar amadurecimento e consolidação do método democrático, abrindo espaço para o diálogo na sociedade plural”, lamentou.
Mais adiante, o arcebispo destaca que “os direitos humanos dos quais fala o PNDH se parecem mais com proposições de forte conotação ideológica próprias de grupos minoritários, do que com os Direitos Humanos propriamente ditos”. “A fonte última dos Direitos Humanos não se situa na mera vontade dos seres humanos, na realidade do Estado, nos poderes públicos, mas no próprio homem e em Deus seu criador. Tais direitos são universais, invioláveis e inalienáveis”, asseverou o prelado brasileiro citando o Compêndio da Doutrina Social da Igreja.
Referindo-se à Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela ONU que “podem e devem ser aperfeiçoados, integrados e explicitados”, o Cardeal Majella Agnelo afirma também que “isto jamais pode ser feito apresentando outros “direitos” em contradição com os que já foram solenemente proclamados. É o caso, por exemplo, do direito à vida, formulado no artigo terceiro da Declaração da ONU que reza: “Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”", explicou.
O PNDH quer descriminalizar o aborto, tornando-o legítimo e factível até o último dia da gestação. Isto contradiz frontalmente o espírito e a letra do artigo terceiro. Além disso, pretende fazer passar como direito universal à vontade de uma minoria, já que a maioria da população brasileira manifestou explicitamente sua vontade contrária”, denunciou o Arcebispo de Salvador.
O purpurado chamou atenção para o fato de que “a abertura à vida está no centro do desenvolvimento”, como afirma o Papa Bento na Caritas in veritate: “Quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motivações e as energias para trabalhar ao serviço do verdadeiro bem do homem”.
Mais adiante, referindo-se a outro dos direitos fundamentais do homem à “liberdade de pensamento, consciência e religião” o Cardeal destaca que o PNDH “pretende banir do espaço público os símbolos religiosos”. “Creio que um referendum a respeito disso demonstraria a origem ideológica de uma opção que um pequeno grupo quer impor ao país inteiro, revelando sua postura autoritária. O amor à religião caracteriza a sensibilidade e a cultura do povo brasileiro. Fica difícil compreender como o Governo mais popular possa tomar decisões antipopulares”, indagou Dom Geraldo criticando o governo de Lula.
“O Brasil será condenado a continuar sendo o País do futuro? Nós podemos dar todos os passos para ingressar num patamar mais elevado de justiça e de democracia, de crescimento e de paz. Mas o PNDH traz muitos sinais que parecem alimentar o atraso, o conflito e o mal-estar na sociedade“, concluiu o Arcebispo Primaz em seu artigo assinado no dia 25 de Janeiro, festa da Conversão de São Paulo.
 Fonte: ACI Digital

CONCÍCLIO VATICANO II NÃO CRIOU UMA NOVA IGREJA

Queridos irmãos e irmãs

Na semana passada, falei sobre a vida e a personalidade de São Boaventura de Bagnoregio. Nesta manhã, eu gostaria de prosseguir com sua apresentação, detendo-me em uma parte da sua obra literária e da sua doutrina.
Como eu já dizia, São Boaventura, entre seus muitos méritos, teve o de interpretar autêntica e fielmente a figura de São Francisco de Assis, venerado e estudado por ele com grande amor. De modo particular, na época de São Boaventura, uma corrente de Frades Menores, chamados “espirituais”, sustentava que com São Francisco se havia inaugurado uma fase totalmente nova da história, teria aparecido o “Evangelho eterno” de que falava o Apocalipse, que substituía o Novo Testamento. Este grupo afirmava que a Igreja já tinha esgotado seu papel histórico e que seu lugar era ocupado por uma comunidade carismática de homens livres, guiados interiormente pelo Espírito, isto é, os “franciscanos espirituais”.
Na base das ideias deste grupo, estavam os escritos de um abade cisterciense, Joaquim de Fiore, falecido em 1202. Em suas obras, ele afirmava um ritmo trinitário da história. Considerava o Antigo Testamento como a era do Pai, seguida pelo tempo do Filho, o tempo da Igreja. Seria preciso esperar a terceira era, a do Espírito Santo. Toda a história era assim interpretada como uma história de progresso: da severidade do Antigo Testamento à relativa liberdade do tempo do Filho, na Igreja, até a plena liberdade dos filhos de Deus, no período do Espírito Santo, que teria sido também, finalmente, o período da paz entre os homens, da reconciliação dos povos e das religiões. Joaquim de Fiore teria suscitado a esperança de que o início do novo tempo teria vindo de um novo monaquismo. Assim, é compreensível que um grupo de franciscanos acreditasse reconhecer em São Francisco de Assis o iniciador do tempo novo e, em sua ordem, a comunidade do período novo – a comunidade do tempo do Espírito Santo, que deixava para trás a Igreja hierárquica para iniciar a nova Igreja do Espírito, já não ligada às velhas estruturas.
Existia, portanto, o risco de um gravíssimo mal-entendido da mensagem de São Francisco, da sua humilde fidelidade ao Evangelho e à Igreja, e este equívoco comportava uma visão errônea do cristianismo em seu conjunto.
São Boaventura, que em 1257 se converteu em ministro geral da ordem franciscana, encontrou-se frente a uma grande tensão dentro de sua própria ordem, precisamente por causa dos que sustentavam a mencionada corrente dos “franciscanos espirituais”, que se remetia a Joaquim de Fiore.
Precisamente para responder a esse grupo e voltar a dar unidade à ordem, São Boaventura estudou com cuidado os escritos autênticos de Joaquim de Fiore e os atribuídos a ele e, levando em consideração a necessidade de apresentar corretamente a figura e a mensagem do seu amado São Francisco, quis expor uma visão correta da teologia da história. São Boaventura enfrentou o problema precisamente em sua última obra, uma recopilação de conferências aos monges do estúdio parisiense, que ficou incompleta e que foi terminada através das transcrições dos ouvintes, intitulada Hexaëmeron, isto é, uma explicação alegórica dos 6 dias da criação. Os Padres da Igreja consideravam os 6 ou 7 dias do relato sobre a criação como profecia da história do mundo, da humanidade. Os 7 dias representavam para eles 7 períodos da história, mais tarde interpretados também como 7 milênios. Com Cristo, teríamos entrado no último, isto é, no sexto período da história, ao que seguiria o grande sábado de Deus. São Boaventura supõe esta interpretação histórica da relação dos dias da criação, mas de uma forma muito livre e inovadora. Para ele, dois fenômenos da sua época tornam necessária uma nova interpretação do curso da história:
O primeiro: a figura de São Francisco, o homem totalmente unido a Cristo até a comunhão dos estigmas, quase um alter Christus; e, com São Francisco, a nova comunidade criada por ele, diferente do monaquismo conhecido até então. Este fenômeno exigia uma nova interpretação, como novidade de Deus aparecida nesse momento.
O segundo: a postura de Joaquim de Fiore, que anunciava um novo monaquismo e um período totalmente novo da história, indo muito além da revelação do Novo Testamento, exigia uma resposta.
Como ministro geral da ordem dos franciscanos, São Boaventura havia visto imediatamente que, com a concepção espiritualista, inspirada em Joaquim de Fiore, a ordem não era governável, mas caminhava logicamente rumo à anarquia.
Para ele, havia duas consequências:
A primeira: a necessidade prática de estruturas e de inserção na realidade da Igreja hierárquica, da Igreja real, precisava de um fundamento teológico, também porque os demais, os que seguiam a concepção espiritualista, mostravam um aparente fundamento teológico.
A segunda: ainda levando em conta o realismo necessário, não se podia perder a novidade da figura de São Francisco.
Como São Boaventura respondeu à exigência prática e teórica? Da sua resposta, só posso dar aqui um resumo muito esquemático e incompleto em alguns pontos:
1. São Boaventura rejeita a ideia do ritmo trinitário da história. Deus é um para toda a história e não se divide em 3 divindades. Por conseguinte, a história é uma, ainda que seja um caminho e – segundo São Boaventura – um caminho de progresso.
2. Jesus Cristo é a última palavra de Deus; n’Ele, Deus disse tudo, doando a si mesmo. Mais do que Ele mesmo, Deus não pode dizer nem dar. O Espírito é Espírito do Pai e do Filho. O próprio Cristo diz do Espírito Santo: “... Ele vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14, 26), “tomará do que é meu e vos comunicará” (Jo 16, 15). Portanto, não existe outro Evangelho mais alto, não existe outra Igreja a esperar. Por isso, também a ordem de São Francisco deve inserir-se nesta Igreja, em sua fé, em seu ordenamento hierárquico.
3. Isso não significa que a Igreja é imóvel, fixa no passado e que não possa haver novidades nela. Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt: as obras de Cristo não voltam atrás, não diminuem, mas progridem, diz o santo na carta De tribus quaestionibus. Assim, São Boaventura formula explicitamente a ideia do progresso e está é uma novidade com relação aos Padres da Igreja e a grande parte dos seus contemporâneos. Para São Boaventura, Cristo já não é, como era para dos Padres da Igreja, o final, mas o centro da história; com Cristo, a história não acaba, mas começa um novo período.
Outra consequência é a seguinte: até aquele momento, dominava a ideia de que os Padres da Igreja eram o cume absoluto da teologia; todas as gerações seguintes poderiam somente ser suas discípulas. Também São Boaventura reconhece os Padres como mestres para sempre, mas o fenômeno de São Francisco lhe dá a certeza de que a riqueza da Palavra de Deus é inesgotável e que também nas novas gerações podem aparecer novas luzes. A unicidade de Cristo garante também a novidade e renovação em todos os períodos da história.
Certamente, a ordem franciscana – assim sublinha – pertence à Igreja de Jesus Cristo, a Igreja apostólica, e não pode ser construído um espiritualismo utópico. Mas, ao mesmo tempo, é válida a novidade desta ordem com relação ao monaquismo clássico, e São Boaventura – como comentei na catequese anterior – defendeu esta novidade contra os ataques do clero secular de Paris: os franciscanos não têm um mosteiro fixo, podem estar presentes em todos os lugares para anunciar o Evangelho. Precisamente a ruptura com a estabilidade característica do monaquismo a favor de uma nova flexibilidade restituiu à Igreja o dinamismo missionário.
Neste ponto, talvez seja útil dizer que também hoje existem visões segundo as quais toda a história da Igreja no segundo milênio teria sido um ocaso permanente; alguns veem o ocaso imediatamente depois do Novo Testamento. Na verdade, Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt, as obras de Cristo não voltam atrás, mas progridem. O que seria da Igreja sem a nova espiritualidade dos cistercienses, dos franciscanos e dominicanos, da espiritualidade de Santa Teresa de Ávila ou de São João da Cruz...? Também hoje vale esta afirmação: Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt, seguem adiante. São Boaventura nos ensina o conjunto do necessário discernimento, também severo, do realismo sóbrio e da abertura aos novos carismas dados por Cristo, no Espírito Santo, à sua Igreja.
E enquanto se repete esta ideia do ocaso, há também outra ideia, este “utopismo espiritualista”, que se repete. Sabemos, de fato, que após o Concílio Vaticano II, alguns estavam convencidos de que tudo seria novo, de que haveria outra Igreja, de que a Igreja pré-conciliar tinha acabado e de que teríamos totalmente “outra”. Um utopismo anárquico! E, graças a Deus, os sábios timoneiros da barca de Pedro, o Papa Paulo VI e o Papa João Paulo II, por um lado, defenderam a novidade do Concílio e, por outro, ao mesmo tempo, defenderam a unicidade e a continuidade da Igreja, que é sempre Igreja de pecadores e sempre lugar da Graça.
4. Neste sentido, São Boaventura, como ministro geral dos franciscanos, adotou uma linha de governo na qual estava muito claro que a nova ordem não poderia, como comunidade, viver a mesma “altura escatológica” de São Francisco, em que ele vê antecipado o mundo futuro, mas que – guiado, ao mesmo tempo, por um realismo sadio e pelo valor espiritual – deveria aproximar-se o máximo possível da realização plena do Sermão da Montanha, que para São Francisco foi “a” regra, ainda levando em consideração os limites do homem, marcado pelo pecado original.
Vemos assim que, para São Boaventura, governar não era simplesmente fazer, mas sobretudo pensar e rezar. Na base do seu governo, encontramos sempre a oração e o pensamento; todas as suas decisões são resultado da reflexão, do pensamento iluminado pela oração. Seu contato íntimo com Cristo acompanhou sempre seu trabalho de ministro geral e, por isso, ele compôs uma série de escritos teológico-místicos, que expressam o ânimo do seu governo e manifestam a intenção de guiar interiormente a ordem, isto é, de governar não somente mediante mandatos e estruturas, mas guiando e iluminando as almas, orientando a Cristo.
Desses escritos seus, que são a alma do seu governo e que mostram o caminho a ser percorrido, seja individualmente ou como comunidade, eu gostaria de mencionar apenas um, sua obra-prima, Itinerarium mentis in Deum, que é um “manual” de contemplação mística. Este livro foi concebido em um lugar de profunda espiritualidade: o Monte La Verna, onde São Francisco recebeu os estigmas.
Na introdução, o autor ilustra as circunstâncias que deram origem a este escrito seu: “Enquanto meditava sobre as possibilidades da alma de ascender a Deus, apresentou-se a mim, por outro lado, este acontecimento admirável ocorrido naquele lugar ao beato Francisco, isto é, a visão do Serafim alado em forma de Crucificado. E, meditando sobre isso, imediatamente percebi que esta visão me oferecia o êxtase contemplativo do próprio Padre Francisco e, ao mesmo tempo, o caminho que conduz a ele” (Itinerario della mente in Dio, Prologo, 2, em Opere di San Bonaventura. Opuscoli Teologici /1, Roma 1993, p. 499).
As seis asas do Serafim se converteram, assim, no símbolo de seis etapas que conduzem progressivamente o homem ao conhecimento de Deus através da observação do mundo e das criaturas e através da exploração da própria alma com suas faculdades, até a união gratificante com a Trindade por meio de Cristo, a exemplo de São Francisco de Assis.
As últimas palavras do Itinerarium de São Boaventura, que respondem à pergunta sobre como se pode alcançar esta comunhão mística com Deus, pareciam descer ao profundo do coração: “Se agora desejas saber como isso acontece [a comunhão mística com Deus], interroga a graça, não a doutrina; ao desejo, não ao intelecto; ao gemido da oração, não ao estudo da letra; ao esposo, não ao professor; a Deus, não ao homem; à névoa, não à claridade; não à luz, mas ao fogo que inflama tudo e transporta a Deus com as fortes unções e os afetos ardentíssimos... Entremos, portanto, na névoa, silenciemos os afãs, as paixões e os fantasmas; passemos, com Cristo crucificado, deste mundo ao Pai, para que, após tê-lo visto, digamos com Felipe: Isso me basta” (ibid., VII, 6).
Queridos amigos, acolhamos o convite que nos dirige São Boaventura, o Doutor Seráfico, e entremos na escola do Mestre divino: escutemos sua Palavra de vida e de verdade, que ressoa no íntimo da nossa alma. Purifiquemos nossos pensamentos e nossas ações, para que Ele possa habitar em nós e nós possamos compreender sua voz divina, que nos atrai à felicidade verdadeira.

A GRANDE OPÇÃO DO CRISTIANISMO É A OPÇÃO PELA RACIONALIDADE

5. Santo Padre, chamo-me Giovanni, tenho 17 anos, estudo no Liceu Científico Tecnológico "Giovanni Giorgi" de Roma e pertenço à Paróquia de Santa Maria Mãe da Misericórdia.

Peço-lhe que nos ajude a compreender melhor como a revelação bíblica e as teorias científicas podem convergir na busca da verdade. Muitas vezes somos tentados a pensar que ciência e fé entre si sejam inimigas; que ciência e técnica sejam a mesma coisa; que a lógica matemática tenha descoberto tudo; que o mundo é fruto da casualidade, e que se a matemática não descobriu o teorema Deus é porque Deus, simplesmente, não existe. Em síntese, sobretudo quando estudamos, nem sempre é fácil reconduzir tudo a um projecto divino, ínsito na natureza e na história do Homem. Por vezes, a fé vacila ou reduz-se a simples acto sentimental. Também eu, Santo Padre, como todos os jovens, tenho fome de Verdade: mas como posso fazer para harmonizar Ciência e Fé?

O grande Galileu disse que Deus escreveu o livro da natureza na forma da linguagem matemática. Ele estava convencido de que Deus nos deu dois livros: o da Sagrada Escritura e o da natureza. E a linguagem da natureza era esta a sua convicção é a matemática, por conseguinte, ela é linguagem de Deus, do Criador. Reflictamos agora sobre o que é a matemática: em si é um sistema abstracto, uma invenção do espírito humano, que como tal na sua pureza não existe.

É sempre realizado aproximativamente, mas como tal é um sistema intelectual, é uma grande, genial invenção do espírito humano. O que surpreende é que esta invenção da nossa mente humana é verdadeiramente a chave para compreender a natureza, que a natureza está realmente estruturada de modo matemático e que a nossa matemática, inventada pelo nosso espírito, é realmente o instrumento para poder trabalhar com a natureza, para a pôr ao nosso serviço, para a instrumentalizar através da técnica.

Parece-me quase incrível que uma invenção do intelecto humano e a estrutura do universo coincidam: a matemática por nós inventada dá-nos realmente acesso à natureza do universo e faz com que ele seja utilizado por nós. Portanto, a estrutura intelectual do sujeito humano e a estrutura objectiva da realidade coincidem: a razão subjectiva e a razão objectiva na natureza são idênticas. Penso que esta coincidência entre quanto nós pensámos e como se realiza e se comporta a natureza, sejam um grande enigma e desafio, porque vemos que, no final, é "uma" razão que relaciona os dois: a nossa razão não poderia descobrir essa outra, se na origem das duas não se encontrasse uma razão idêntica.

Neste sentido, tenho a impressão que a matemática na qual Deus, como tal, não pode aparecer nos mostra a estrutura inteligente do universo. Agora existem também teorias do caos, mas são limitadas, porque se o caos prevalecesse, toda a técnica se tornaria impossível. Só porque se pode confiar na nossa matemática, também se pode confiar na técnica. A nossa ciência, que torna finalmente possível trabalhar com as energias da natureza, supõe a estrutura confiável, inteligente da matéria. E desta forma vemos que há uma racionalidade subjectiva e uma racionalidade objectiva na matéria, que coincidem.

Evidentemente agora ninguém pode provar como se prova na experimentação, nas leis técnicas que as duas são realmente originadas numa única inteligência, mas parece-me que esta unidade da inteligência, atrás das duas inteligências, esteja realmente no nosso mundo. E quanto mais nós podemos instrumentalizar o mundo com a nossa inteligência, tanto mais sobressai o desígnio da Criação.

Por fim, para chegar à questão definitiva, digo: Deus ou existe ou não existe. Há apenas duas opções. Ou se reconhece a prioridade da razão, da Razão criadora que está na origem de tudo e é o princípio de tudo a prioridade da razão é também prioridade da liberdade ou se defende a prioridade do irracional, segundo o qual tudo o que acontece na nossa terra e na nossa vida seria apenas ocasional, marginal, um produto irracional a razão seria um produto da irracionalidade. 

Por fim, não se pode "provar" um projecto ou outro, mas a grande opção do Cristianismo é a opção pela racionalidade e pela prioridade da razão. Parece-me que esta seja uma óptima opção, que nos mostra como por trás de tudo haja uma grande Inteligência, na qual podemos confiar.

Mas hoje o verdadeiro problema contra a fé parece ser o mal no mundo: perguntamos como pode ser ele compatível com esta racionalidade do Criador. E aqui temos realmente necessidade do Deus que se fez carne e que nos mostra como Ele não seja apenas uma razão matemática, mas que esta razão originária também é Amor. Se olharmos para as grandes opções, a opção cristã também é hoje a mais racional e a mais humana. Por isso, podemos elaborar com confiança uma filosofia, uma visão do mundo que esteja baseada nesta prioridade da razão, nesta confiança de que a Razão criadora é amor, e que este amor é Deus.

Bento XI
Quinta-feira, 6 de Abril 2006










© Copyright 2006 - Libreria Editrice Vaticana

NÃO VOS CONTENTEIS COM NADA MENOS DO QUE OS MAIS ALTOS IDEAIS

"Descobri as vossas raízes cristãs, aprendei a história da Igreja, aprofundai o conhecimento da herança espiritual que vos foi transmitida, imitai as testemunhas e os mestres que vos precederam! Só permanecendo fiéis aos mandamentos de Deus, à Aliança que Cristo selou com o seu sangue derramado na Cruz é que podereis ser os apóstolos e as testemunhas do novo milénio.
É próprio da condição humana e, particularmente, da juventude buscar o Absoluto, o sentido e a plenitude da existência. Amados jovens, não vos contenteis com nada menos do que os mais altos ideiais! Não vos deixeis desanimar por aqueles que, desiludidos da vida, se tornaram surdos aos anseios mais profundos e autênticos do seu coração. Tendes razão para não vos resignardes com diversões insípidas, modas passageiras e projectos redutivos. Se mantiverdes com ardor os vossos anelos pelo Senhor, sabereis evitar a mediocridade e o conformismo, tão espalhados na nossa sociedade."

João Paulo II
JMJ 2002

"Se Deus não existisse, não haveria ateus." G. K. Chesterton

CONHECER O PENSAMENTO DO PAPA

Guilherme d’Oliveira Martins

A história é conhecida. Passeando à beira-mar, ao mesmo tempo que meditava no mistério trinitário de Deus, Agostinho divisa uma criança que, com uma concha, vai buscar água ao mar e a deita numa pequena cova na areia. Agostinho pergunta-lhe o que está a fazer, ao que a criança responde que quer meter todo o mar naquela cova. O Bispo explica-lhe que isso é totalmente impossível. Ao que a criança responde ser precisamente isso que Agostinho tenta fazer, quando quer abarcar com a sua limitada inteligência o incomensurável mistério do Deus trinitário” (Cf. Henrique Noronha Galvão, “Bento XVIUm Pensamento para o nosso tempo”, Pedra Angular, 2009).

O livro sobre o pensamento do Papa que acabo de citar é um documento importante, pela clareza expositiva, pela riqueza formativa, num campo infelizmente tão descurado por muitos leigos católicos, com é o da teologia, e pela abertura de espírito que incentiva. E se é certo que a obra nos introduz na compreensão de um pensamento, a verdade é que o faz também através de uma excelente introdução geral ao moderno pensamento teológico. Trata, assim, sucessivamente da renovação teológica contemporânea, do pensamento de Joseph Ratzinger e do seu percurso teológico (desde o Bispo de Hipona à eclesiologia, bem como a teologia da História em São Boaventura e no tempo presente) e da actualidade de Santo Agostinho (na tocante última lição na Faculdade de Teologia da autoria do Prof. Noronha Galvão).
Estamos perante o desafio de revisitar o acontecimento fundamental do catolicismo do século XX que foi o Concílio Ecuménico Vaticano II, a fim de entendermos a exigência de uma renovação mobilizadora da Igreja moderna. Grandes teólogos merecem ser recordados, lidos e seguidos. Henri de Lubac SJ, Yves Congar OP, Marie-Dominique Chenu OP, Karl Rahner SJ, Hans Urs von Balthasar, Johann Baptist Metz têm de voltar à ordem do dia e as suas luminosas reflexões merecem a nossa especial atenção. E os dois pólos entre os quais se processa grande parte da discussão teológica actual devem ser compreendidos e aprofundados: enquanto Karl Rahner contempla o “mistério da revelação e comunicação de Deus ao homem numa perspectiva transcendental, em que as realidades da história da salvação são vistas como concretizações categoriais de um desígnio divino que é o seu horizonte justificativo”; Hans Urs von Balthasar “sublinha o peso da história na sua singularidade como lugar em que se dá a epifania da glória de Deus, a qual acontece na figura concreta (…) em que se torna presente ao mundo a sua revelação”. Ao longo da obra, encontramos o pensamento de Bento XVI inserido no pensamento contemporâneo, ressaltando que fé e razão permanentemente se completam, num desafio que procura aproximar a antiga vocação europeia do “Aufklärung” das raízes cristãs – devendo a história humana tornar-se “resposta necessária e livre à livre necessidade e à necessária liberdade de ser do homem”. E deste modo, como afirma o discípulo português de Ratzinger, “a fé, para além do que tem de específico, possui ainda a capacidade de abrir o espírito humano àquela visão da verdade a que a nossa razão, por si mesma, pode ter acesso”.
Para nós portugueses, é especialmente interessante ver, a propósito do pensamento de São Boaventura, a recordação do franciscanismo universalista, que tão grande presença tem na nossa cultura, na linha do monge calabrês Joaquim de Fiore e de S. Francisco de Assis, temperado pelo poderoso contributo teológico de Santo António de Lisboa, formado na escola dos Agostinhos de Santa Cruz de Coimbra, o qual, por sua vez, se repercutirá no pensamento seiscentista do Padre António Vieira, e na concepção de “Quinto Império”. Afinal, o agostinismo franciscano faz parte do código genético da nossa cultura e do humanismo universalista de que falava Jaime Cortesão, e que levámos mundo afora. E aqui se conciliam a visão da história circular da antiguidade e a figura linear bíblico-cristã em que tudo se ordena para a plenitude final – propondo Ratzinger a figura da espiral, num permanente movimento ascendente, no qual “tudo o que sobe converge”. Não sendo possível em poucas linhas abarcar a riqueza da obra, deixo apenas, a terminar, duas ou três notas, a começar na pequena história que o Papa costumava contar no seu magistério teológico sobre “Joãozinho à procura de felicidade” (Hans im Glück): “Tendo-se visto na posse de uma pepita de ouro, Hans acha que é demasiado incómodo transportá-la, decidindo trocá-la primeiro por um cavalo, e sucedendo-se, depois, a troca deste por uma vaca, desta por um ganso, e, finalmente, do ganso por uma pedra de afiar, a qual Hans acaba por lançar à água, sem a noção de, com isso, ter perdido grande coisa. Pelo contrário, pensa ter ganhado assim o inestimável dom de uma total liberdade. A estória deixa à fantasia do leitor imaginar por quanto tempo durou esse estonteamento de Hans e como foi para ele sombrio o momento em que acordou da sua ilusão de uma suposta liberdade”…

COMO, ONDE E O QUE DEUS QUER

Disponho aqui um link e um pequeno fragmento de uma publicaçao do segundo capítulo do livro “Dio e il mondo. Essere cristiani nel nuovo millennio” (Edizioni San Paolo, 2001), fruto da entrevista na Abadia de Monte Cassino, entre o cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e o jornalista e escritor alemão Peter Seewald.

Peter Seewald: A Igreja e seus santos ressaltam que também se pode compreender, comprovar e demonstrar a fé cristã por meio da razão. Está certo?

Joseph Ratzinger: Sim, mas dentro de certos limites. É verdade que a fé não é uma arquitetura de imagens gratuitas que alguém possa inventar a seu talante. A fé se arremete à inteligência porque expõe a verdade – e porque a razão foi criada para a verdade -. Nesse sentido, uma fé irracional não é uma fé cristã. A fé desafia nossa compreensão. E nessa conversação também pretendemos averiguar que tudo isso – começando pela ideia da criação até a esperança cristã – é uma formulação inteligente que nos apresenta algo razoável. Nesse sentido, pode-se demonstrar que a fé também está conforme à razão.
 
Clique aqui para ler a entervista
 
Obs: A página esta traduzida pelo tradutor do google.

PAPA EXPLICA O QUE É SER HOMEM SEGUNDO A VONTADE DO CRIADOR

Ser homem. Homem em todos os sentidos, isto é, deve viver uma verdadeira humanidade, um verdadeiro humanismo; deve ter uma educação, uma formação humana, virtudes humanas; deve desenvolver a sua inteligência, a sua vontade, os seus sentimentos, os seus afectos; deve ser realmente homem, homem segundo a vontade do Criador, do Redentor, porque sabemos que o ser humano está ferido e a questão de "o que é o homem" é obscurecida pelo facto do pecado, que ofendeu a natureza humana até às suas profundezas. Assim diz-se: "mentiu", "é humano"; "roubou", "é humano"; mas não é este o verdadeiro ser humano. Humano é ser generoso, é ser bom, é ser homem da justiça, da prudência verdadeira e da sabedoria. (...)
Ser homem: a Carta aos Hebreus faz um realce da nossa humanidade que nos surpreende, porque diz: deve ser um que "pode compadecer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele está cercado de fraqueza" (5, 2) e – depois ainda muito mais forte – "quando vivia na carne, ofereceu, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas Àquele que O podia salvar da morte, e foi atendido pela Sua piedade" (5, 7). Para a Carta aos Hebreus é elemento essencial do nosso ser humano a compaixão, o sofrer com os outros: esta é a verdadeira humanidade. Não é o pecado, porque o pecado nunca é solidariedade, mas é sempre uma não-solidariedade, um tomar a vida para mim mesmo, em vez de a doar. A verdadeira humanidade é participar realmente no sofrimento do ser humano, significa ser um homem de compaixão metriopathein, – diz o texto grego – isto é, estar no centro da paixão humana, carregar realmente com os outros os seus sofrimentos, as tentações deste tempo: "Deus, onde estás neste mundo?".
 
Bento XVI
Encontro com os Párocos da Diocese de Roma
Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010

FÉ, RAZÃO E UNIVERSIDADE: RECORDAÇÕES E REFLEXÕES.

"A fé da Igreja sempre se ateve à convicção de que entre Deus e nós, entre o seu eterno Espírito criador e a nossa razão criada, existe uma verdadeira analogia."

Eminentíssimos Senhores Cardeais,
Magníficos Reitores,
Excelentíssimos Senhores Bispos,
Ilustríssimos Senhores e Senhoras!

Provo grande emoção neste momento em que me encontro de novo na universidade para dar mais uma lição. Ao mesmo tempo, voltam ao pensamento aqueles anos em que, depois dum belo período no Instituto Superior de Frisinga, comecei a minha actividade de professor académico na Universidade de Bona. Estávamos no ano 1959, vigorava ainda na universidade o antigo regime dos professores ordinários. Nas diversas cátedras, não existiam assistentes nem dactilógrafos, mas em contrapartida havia um contacto muito directo com os estudantes e sobretudo entre os professores. Antes e depois das aulas, encontrávamo-nos nas salas dos professores. Os contactos com historiadores, filósofos, filólogos e naturalmente entre as duas faculdades teológicas eram muito estreitos. Uma vez por semestre havia o chamado dies academicus, no qual se apresentavam diante dos estudantes de toda a universidade professores de todas as faculdades, tornando assim possível uma experiência de universitas – realidade esta a que há pouco se referiu também nas suas palavras, Magnífico Reitor – isto é, a experiência de que, não obstante as múltiplas especializações que por vezes nos tornam incapazes de comunicar entre nós, formamos um todo e trabalhamos no todo da única razão com as suas várias dimensões, encontrando-nos assim unidos também na responsabilidade comum pelo recto uso da razão – esta realidade tornava-se uma experiência viva. A universidade era, sem dúvida, orgulhosa também das suas duas faculdades teológicas. Via-se claramente que também estas, interrogando-se sobre a razoabilidade da fé, realizam um trabalho que necessariamente faz parte do «todo» que é a universitas scientiarum, embora nem todos pudessem partilhar a fé, da qual os teólogos se esforçavam por mostrar a correlação com a razão comum. Esta coesão interior no cosmos da razão nunca foi turbada, nem mesmo certa vez quando correu a notícia de que um dos colegas tinha dito que, na nossa universidade, havia um facto estranho: duas faculdades que se ocupavam duma realidade que não existia, ou seja, de Deus. Ora, mesmo em presença dum cepticismo tão radical, permaneceu indiscutível a convicção de que, no conjunto da universidade, continua a ser necessário e razoável interrogar-se sobre Deus por meio da razão e que isto se deve fazer no contexto da tradição da fé cristã.

Tudo isto me voltou à mente, quando recentemente li a parte – publicada pelo professor Theodore Khoury (Münster) – do diálogo que o douto imperador bizantino Manuel II Paleólogo teve com um persa erudito sobre cristianismo e islão e sobre a verdade de ambos, talvez durante os acampamentos de inverno no ano de 1391 em Ankara.[1] Presumivelmente terá sido o próprio imperador que depois, durante o assédio de Constantinopla entre 1394 e 1402, escreveu este diálogo; deste modo se explicaria por que aparecem os seus raciocínios referidos de forma muito mais pormenorizada que os do seu interlocutor persa.[2] O diálogo cobre todo o âmbito das estruturas da fé contidas na Bíblia e no Alcorão, detendo-se principalmente sobre a imagem de Deus e do homem mas também – e repetidamente, como era de esperar – sobre a relação entre as três «Leis» ou três «ordens de vida», como então se designava o Antigo Testamento, o Novo Testamento e o Alcorão. Por agora, nesta lição, não pretendo falar disso; primeiro gostaria de acenar brevemente a um assunto – aliás bastante marginal na estrutura de todo o diálogo – que me fascinou no contexto do tema «fé e razão» e vai servir como ponto de partida para as minhas reflexões sobre este tema.

No sétimo colóquio (διάλεξις – controvérsia) publicado pelo Prof. Khoury, o imperador aborda o tema da jihād, da guerra santa. O imperador sabia seguramente que, na sura 2, 256, lê-se: «Nenhuma coacção nas coisas de fé». Esta é provavelmente uma das suras do período inicial – segundo uma parte dos peritos – quando o próprio Maomé se encontrava ainda sem poder e ameaçado. Naturalmente, sobre a guerra santa, o imperador conhecia também as disposições que se foram desenvolvendo posteriormente e se fixaram no Alcorão. Sem se deter em pormenores como a diferença de tratamento entre os que possuem o «Livro» e os «incrédulos», ele, de modo surpreendentemente brusco – tão brusco que para nós é inaceitável –, dirige-se ao seu interlocutor simplesmente com a pergunta central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: «Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas tais como a sua norma de propagar, através da espada, a fé que pregava».[3] O imperador, depois de se ter pronunciado de modo tão ríspido, passa a explicar minuciosamente os motivos pelos quais não é razoável a difusão da fé mediante a violência. Esta está em contraste com a natureza de Deus e a natureza da alma. Diz ele: «Deus não se compraz com o sangue; não agir segundo a razão – «σὺν λόγω» – é contrário à natureza de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Por conseguinte, quem desejar conduzir alguém à fé tem necessidade da capacidade de falar bem e de raciocinar correctamente, e não da violência nem da ameaça... Para convencer uma alma racional não é necessário dispor do próprio braço, nem de instrumentos para ferir ou de qualquer outro meio com que se possa ameaçar de morte uma pessoa...».[4]

Nesta argumentação contra a conversão através da violência, a afirmação decisiva está aqui: não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus.[5] E o editor, Theodore Khoury, comenta: para o imperador, como bizantino que cresceu na filosofia grega, esta afirmação é evidente; mas não o é para a doutrina muçulmana, porque Deus é absolutamente transcendente. A sua vontade não está vinculada a nenhuma das nossas categorias, incluindo a da razoabilidade.[6] Neste contexto, Khoury cita uma obra do conhecido islamita francês R. Arnaldez, onde este assinala que Ibn Hazm chega a declarar que Deus nem sequer estaria vinculado à sua própria palavra e que nada O obrigaria a revelar-nos a verdade. Se fosse a sua vontade, o homem deveria inclusive praticar a idolatria.[7]

Aqui gera-se um dilema, na compreensão de Deus e consequentemente na realização concreta da religião, que nos desafia hoje de maneira muito directa: a convicção de que o agir contra a razão estaria em contradição com a natureza de Deus, faz parte apenas do pensamento grego ou é válida sempre e por si mesma? Penso que, neste ponto, se manifesta a profunda concordância entre o que é grego na sua parte melhor e o que é a fé em Deus baseada na Bíblia. Modificando o primeiro versículo do livro do Génesis, o primeiro versículo de toda a Sagrada Escritura, João iniciou o prólogo do seu Evangelho com estas palavras: «No princípio era o λόγος». Ora, é precisamente esta a palavra que usa o imperador: Deus age «σὺν λόγω», com logos. Logos significa conjuntamente razão e palavra – uma razão que é criadora e capaz de se comunicar, mas precisamente enquanto razão. Com este termo, João ofereceu-nos a palavra conclusiva para o conceito bíblico de Deus, uma palavra na qual todos os caminhos, muitas vezes cansativos e sinuosos, da fé bíblica alcançam a sua meta, encontram a sua síntese. No princípio era o logos, e o logos é Deus: diz-nos o evangelista. Este encontro entre a mensagem bíblica e o pensamento grego não era simples coincidência. A visão de São Paulo – quando diante dele se estavam fechando os caminhos da Ásia e, em sonho, viu um macedónio que lhe suplicava: «Passa à Macedónia e vem ajudar-nos!» (cf. Act 16, 6-10) – esta visão pode ser interpretada como a «condensação» da necessidade intrínseca de aproximação entre a fé bíblica e a indagação grega.

Na realidade, há muito tempo que esta aproximação se tinha iniciado. Já, na sarça ardente, o nome misterioso de Deus – que O separa do conjunto das divindades com múltiplos nomes, afirmando d’Ele apenas «Eu sou», o seu ser – apresenta-se, face ao mito, como uma contestação, que está em íntima analogia com a tentativa de Sócrates para vencer e superar precisamente o mito.[8] Ora, o processo iniciado na sarça ardente alcança, no âmbito do Antigo Testamento, uma nova maturidade durante o exílio, quando o Deus de Israel, agora privado da Terra e do culto, se anuncia como o Deus do céu e da terra, apresentando-se com uma fórmula simples que prolonga a frase da sarça: «Eu sou». Em paralelo com este novo conhecimento de Deus, cresce uma espécie de iluminismo que se expressa drasticamente na derisão das divindades como sendo apenas obra das mãos do homem (cf. Sal 115). Assim, durante a época helenista, a fé bíblica – não obstante o desacordo em toda a sua dureza com os soberanos helenistas que queriam obter pela força a sua adequação ao estilo grego de vida e ao seu culto idolátrico –, estava interiormente caminhando ao encontro da parte melhor do pensamento grego até chegar a um contacto recíproco que se verificou depois especialmente na literatura sapiencial tardia. Sabemos hoje que a tradução grega do Antigo Testamento realizada em Alexandria – a «Setenta» – é mais do que uma simples (no sentido de avaliar de modo pouco positivo) tradução do texto hebraico: de facto, trata-se de um testemunho textual único no seu género e um passo específico e importante da história da Revelação, no qual se realizou de tal forma o referido encontro que acabou por ter um significado decisivo para o nascimento do cristianismo e sua difusão.[9] Trata-se, no fundo, do encontro entre fé e razão, entre iluminismo autêntico e religião. Ora, o imperador Manuel II, verdadeiramente partindo da natureza íntima da fé cristã e, ao mesmo tempo, da natureza do pensamento grego já fundido com a fé, podia dizer: Não agir «com o logos» é contrário à natureza de Deus.

Por honestidade, temos de referir aqui que, na teologia da baixa Idade Média, se desenvolveram tendências que rompem esta síntese entre o espírito grego e o espírito cristão. Em contraste com o chamado intelectualismo agostiniano e tomista, Duns Escoto deu início a uma orientação voluntarista que, no termo de sucessivos desenvolvimentos, havia de levar à afirmação segundo a qual, de Deus, só conheceremos a voluntas ordinata. Para além desta, existiria a liberdade de Deus, em virtude da qual Ele teria podido criar e fazer inclusivamente o contrário de tudo o que efectivamente realizou. Vemos esboçarem-se aqui posições próximas, sem dúvida, das de Ibn Hazm e que poderiam levar à imagem dum Deus-Arbítrio, que não está dependente sequer da verdade e do bem. A transcendência e a diversidade de Deus aparecem tão exageradamente acentuadas, que inclusive a nossa razão e o nosso sentido da verdade e do bem deixam de ser um verdadeiro espelho de Deus, cujas possibilidades abismais permaneceriam, para nós, eternamente inatingíveis e ocultas por detrás das suas decisões efectivas. Em contraste com isto, a fé da Igreja sempre se ateve à convicção de que entre Deus e nós, entre o seu eterno Espírito criador e a nossa razão criada, existe uma verdadeira analogia, na qual por certo – como afirma, em 1215, o IV Concílio de Latrão – as diferenças são infinitamente maiores que as semelhanças, mas não até ao ponto de abolir a analogia e a sua linguagem. Deus não se torna mais divino pelo facto de O afastarmos para longe de nós num voluntarismo puro e impenetrável, mas o Deus verdadeiramente divino é aquele Deus que se mostrou como logos e, como logos, agiu e age cheio de amor em nosso favor. Certamente o amor, como diz Paulo, «ultrapassa» o conhecimento, sendo por isso capaz de apreender mais do que o simples pensamento (cf. Ef 3, 19), mas aquele permanece o amor do Deus-Logos, motivo pelo qual o culto cristão, como afirma ainda Paulo, é «λογικη λατρεία» – um culto que está de acordo com o Verbo eterno e com a nossa razão (cf. Rm 12, 1).[10]

A recíproca aproximação interior, a que aludimos, entre a fé bíblica e a indagação a nível filosófico do pensamento grego é um elemento de importância decisiva sob o ponto de vista não só da história das religiões, mas também da história universal – um dado a que estamos obrigados ainda hoje. Considerando tal encontro, não surpreende que o cristianismo, apesar da sua origem e de qualquer desenvolvimento importante no Oriente, tenha no fim de contas encontrado a sua fisionomia historicamente decisiva na Europa. E o mesmo se pode exprimir inversamente: o referido encontro, ao qual depois veio juntar-se o património de Roma, criou a Europa e permanece o fundamento daquilo que, com razão, se pode chamar Europa.

À tese segundo a qual o património grego, criticamente purificado, é uma parte integrante da fé cristã, contrapõe-se a reclamação de deselenização do cristianismo – um pedido que, desde o início da Idade Moderna, tem dominado de modo crescente a pesquisa teológica. Entretanto vendo-o mais de perto, podem-se observar três ondas no programa da deselenização: estas, embora interligadas, são claramente distintas uma da outra nas suas motivações e objectivos.[11]

Primeiro, a deselenização surge em conexão com os postulados da Reforma do século XVI. Ao considerarem a tradição das escolas teológicas, os reformadores achavam-se perante uma sistematização da fé condicionada totalmente pela filosofia, isto é, uma fé determinada a partir de fora em virtude de um modo de pensar que não derivava dela. Deste modo, a fé apresentava-se, não já como palavra histórica viva, mas como elemento inserido na estrutura dum sistema filosófico. Pelo contrário, a sola Scriptura busca a pura forma primordial da fé, tal como se apresenta originariamente na Palavra bíblica. Aparecendo a metafísica como um pressuposto derivado de outra fonte, é necessário libertar dela a fé para fazê-la voltar a ser totalmente ela mesma. Quando Kant afirmou que teve de pôr de lado o pensar para dar espaço à fé, ele procedeu fundado neste programa e com um radicalismo imprevisível para os reformadores. Foi assim que ele ancorou a fé exclusivamente na razão prática, negando-lhe o acesso ao conjunto da realidade.

A teologia liberal dos séculos XIX e XX trouxe uma segunda onda ao programa da deselenização: o seu representante eminente é Adolf von Harnack. Tanto durante o tempo dos meus estudos como nos primeiros anos da minha actividade académica, este programa estava fortemente activo também na teologia católica. Como ponto de partida, utilizava-se a distinção de Pascal entre o Deus dos filósofos e o Deus de Abraão, Isaac e Jacob. Na prelecção que fiz em Bona, no ano de 1959, procurei analisar este assunto,[12] e não pretendo retomar aqui por inteiro o discurso. Mas gostaria de tentar pôr em evidência, embora brevemente, a novidade que caracterizava, relativamente à primeira, esta segunda onda de deselenização. Como ideia central temos, em Harnack, o regresso ao Jesus meramente homem e à sua mensagem simples, que viria antes de todas as teologizações e, concretamente, antes das helenizações: tal mensagem simples constituiria o verdadeiro apogeu do desenvolvimento religioso da humanidade. Jesus teria deixado de lado o culto em favor da moral. Em última análise, Ele é representado como pai duma mensagem moral humanitária. O objectivo de Harnack é fundamentalmente trazer o cristianismo à harmonia com a razão moderna, libertando-o precisamente de elementos aparentemente filosóficos e teológicos, como, por exemplo, a fé na divindade de Cristo e na trindade de Deus. Neste sentido, a exegese histórico-crítica do Novo Testamento, com esta sua visão, insere novamente a teologia no cosmos da universidade: para Harnack, a teologia é essencialmente algo de histórico e por conseguinte de estritamente científico. O que ela indaga, por meio da crítica, sobre Jesus é, por assim dizer, expressão da razão prática e consequentemente sustentável também no conjunto da universidade. No fundo, temos a autolimitação moderna da razão, com a sua expressão clássica na «críticas» de Kant, mas ulteriormente radicalizada pelo pensamento das ciências naturais. Em poucas palavras, este conceito moderno da razão baseia-se numa síntese entre platonismo (cartesianismo) e empirismo, que o sucesso técnico confirmou. Por um lado, pressupõe-se a estrutura matemática da matéria, por assim dizer a sua racionalidade intrínseca, que torna possível compreendê-la e usá-la na sua eficácia operacional: este pressuposto básico é, por assim dizer, o elemento platónico no conceito moderno da natureza. Por outro lado, trata-se da utilização funcional da natureza para as nossas finalidades, onde só a possibilidade de controlar verdade ou falsidade através da experiência é que fornece a certeza decisiva. O peso entre os dois pólos pode, segundo as circunstâncias, oscilar para um lado ou outro. Um pensador estritamente positivista como J. Monod declarava-se um platónico convicto.

Isto encerra duas orientações fundamentais e decisivas para a nossa questão. Só o tipo de certeza que deriva da sinergia entre matemática e experiência nos permite falar de cientificidade. Tudo o que pretenda ser ciência deve confrontar-se com este critério. E assim as ciências que dizem respeito à realidade humana, como a história, a psicologia, a sociologia e a filosofia, procuravam também aproximar-se deste cânone da cientificidade. Entretanto, para as nossas reflexões, é ainda importante o facto de o método como tal excluir o problema de Deus, apresentando-o como problema acientífico ou pré-científico. Mas, aqui estamos perante uma redução do espaço próprio da ciência e da razão, facto este que é obrigatório pôr em questão.

Voltarei mais adiante ao assunto. Por agora, basta ter presente que, numa tentativa de conservar, segundo esta perspectiva, o carácter de disciplina «científica» na teologia, do cristianismo restaria apenas um mísero fragmento. E mais grave ainda: se a ciência no seu conjunto é apenas isto, desse modo então o próprio homem sofre uma redução. Porque nesse caso as questões propriamente humanas, isto é, «donde venho» e «para onde vou», as questões da religião e do ethos não podem ter lugar no espaço da razão comum, tal como a descreve uma «ciência» assim entendida, devendo ser transferidas para o âmbito do subjectivo. O sujeito decide, com base nas suas experiências, o que lhe parece religiosamente sustentável, e a «consciência» subjectiva torna-se em última análise a única instância ética. Desta forma, porém, o ethos e a religião perdem a sua força de criar uma comunidade e caem no âmbito da discricionariedade pessoal. Trata-se duma condição perigosa para a humanidade: constatamo-lo nas patologias que ameaçam a religião e a razão – patologias que devem necessariamente eclodir quando a razão fica a tal ponto limitada que as questões da religião e do ethos deixam de lhe dizer respeito. O que resta das tentativas de construir uma ética partindo das regras da evolução ou da psicologia e da sociologia, é simplesmente insuficiente.

Antes de chegar às conclusões para as quais tende todo este raciocínio, devo ainda aludir, brevemente, à terceira onda de deselenização que se difunde actualmente. Em ordem ao encontro das culturas na sua multiplicidade, facilmente se ouve hoje dizer que a síntese realizada na Igreja Antiga com o helenismo teria sido uma primeira inculturação, que não deveria vincular as outras culturas. Mas, estas deveriam ter o direito de remontar até à etapa anterior a tal inculturação para aí descobrirem a mensagem pura e simples do Novo Testamento e, depois, inculturá-la novamente nos respectivos ambientes. Esta tese não é errada de todo; mas é superficial e imprecisa. É que o Novo Testamento foi escrito em língua grega e traz no seu seio o contacto com o espírito grego – um contacto já maturado anteriormente no decurso do Antigo Testamento. Existem, sem dúvida, elementos no processo formativo da Igreja Antiga que não devem ser integrados em todas as culturas. Mas, decisões de fundo, como as que se referem precisamente à relação da fé com a busca da razão humana, fazem parte da própria fé, constituem o seu crescimento, de acordo com a sua natureza.

Dito isto, chego à conclusão. Esta tentativa, feita apenas em linhas gerais, de crítica da razão moderna a partir do seu interior não inclui de forma alguma a opinião de que agora se deva voltar atrás, para antes do iluminismo, rejeitando as convicções da Idade Moderna. Tudo o que é válido no desenvolvimento moderno do espírito, há-de ser reconhecido sem reservas: todos nos sentimos agradecidos pelas grandiosas possibilidades que isso abriu ao homem e pelos progressos que nos foram proporcionados no campo humano. Aliás, o ethos da cientificidade – como acenava nas suas palavras, Magnífico Reitor – é vontade de obediência à verdade e, consequentemente, expressão duma atitude que faz parte das decisões essenciais do espírito cristão. Portanto, a intenção não é retirada, nem crítica negativa; pelo contrário, trata-se de um alargamento do nosso conceito de razão e do seu uso. Porque, juntamente com toda a alegria face às possibilidades do homem, vemos também as ameaças que resultam destas mesmas possibilidades e devemos perguntar-nos como poderemos dominá-las. Consegui-lo-emos apenas se razão e fé voltarem a estar unidas duma forma nova; se superarmos a limitação autodecretada da razão ao que é verificável na experiência, e lhe abrirmos de novo toda a sua amplitude. Neste sentido, a teologia não só enquanto disciplina histórica e humano-científica, mas como verdadeira e própria teologia, ou seja, como indagadora da razão da fé, deve ter o seu lugar na universidade e no amplo diálogo das ciências.

Só assim nos tornamos capazes também de um verdadeiro diálogo das culturas e das religiões – um diálogo de que temos necessidade muito urgente. No mundo ocidental, é largamente dominante a opinião de que são universais apenas a razão positivista e as formas de filosofia dela derivadas. Mas, as culturas profundamente religiosas do mundo vêem, precisamente nesta exclusão do divino da universalidade da razão, um ataque às suas convicções mais íntimas. Uma razão, que diante do divino é surda e repele a religião para o âmbito das subculturas, é incapaz de inserir-se no diálogo das culturas. E no entanto a razão moderna, própria das ciências naturais, com a sua dimensão platónica intrínseca traz consigo, como procurei demonstrar, uma questão que a transcende a ela juntamente com as suas possibilidades metódicas. Ela própria tem simplesmente de aceitar a estrutura racional da matéria e a correspondência entre o nosso espírito e as estruturas racionais operativas na natureza como um dado de facto, sobre o qual se baseia o seu percurso metódico. Mas, a pergunta sobre o porquê deste dado de facto existe e deve ser confiada pelas ciências naturais a outros níveis e modos do pensar – à filosofia e à teologia. Para a filosofia e, de maneira diferente, para a teologia, a escuta das grandes experiências e convicções das tradições religiosas da humanidade, especialmente da fé cristã, constitui uma fonte de conhecimento; recusá-la significaria uma inaceitável redução do nosso escutar e responder. Isto traz-me à mente uma frase de Sócrates a Fédon; nos colóquios anteriores tinham sido citadas muitas opiniões filosóficas erradas, e então Sócrates diz: «Seria facilmente compreensível que alguém, irritado por causa de tantas coisas erradas, detestasse pelo resto da sua vida todo e qualquer discurso sobre o ser, ou o denegrisse. Mas, desta forma, perderia a verdade do ser e sofreria um grande dano».[13] Ora, desde há muito tempo que o ocidente vive ameaçado por esta aversão contra as questões fundamentais da sua razão, mas o único resultado seria sofrer um grande dano. A coragem de abrir-se à vastidão da razão, e não a rejeição da sua grandeza – tal é o programa pelo qual uma teologia comprometida na reflexão sobre a fé bíblica entra no debate do tempo actual. «Não agir segundo razão, não agir com o logos, é contrário à natureza de Deus», disse Manuel II, partindo da sua imagem cristã de Deus, ao interlocutor persa. É a este grande logos, a esta vastidão da razão que convidamos os nossos interlocutores no diálogo das culturas. Reencontrá-la nós mesmos sempre de novo, é a grande tarefa da universidade.

Bento XVI
Aula Magna da Universidade de Regensburg
Terça-feira, 12 de Setembro de 2006

--------------------------------------------------------------------------------
[1] Da totalidade dos 26 colóquios (διάλεξις – Khoury traduz: controvérsia) que compõem o diálogo («Entretien»), Th. Khoury publicou a 7.ª «controvérsia» com notas e uma ampla introdução sobre a origem do texto, a tradição manuscrita e a estrutura do diálogo, juntamente com breves resumos das «controvérsias» não publicadas; ao texto grego juntou uma tradução francesa: Manuel II Paléologue, Entretiens avec un Musulman: 7e Controverse, Sources Chrétiennes n.º 115 (Paris 1966). Entretanto Karl Förstel publicou, no Corpus Islamico-Christianum (Series Graeca. Redacção A. Th. Khoury – R. Glei), uma edição greco-alemã comentada do texto: Manuel II Palaiologus, Dialoge mit einem Muslim, 3 volumes (Würzburg – Altenberge 1993-1996). Já, em 1966, E. Trapp tinha publicado o texto grego com uma introdução como vol. II dos «Wiener byzantinische Studien». As citações que farei em seguida são tiradas de Khoury.
[2] Quanto à origem e à redacção do diálogo, veja-se Khoury pp. 22-29; também nas edições de Förstel e Trapp se encontram amplos comentários a tal respeito.
[3] Controvérsia VII 2c: Khoury, pp. 142-143; Förstel, vol. I, VII Dialog 1.5, pp. 240-241. Infelizmente, esta citação foi tomada, no mundo muçulmano, como expressão da minha posição pessoal, suscitando assim uma indignação compreensível. Espero que o leitor do meu texto possa depreender imediatamente que esta frase não exprime a minha apreciação pessoal face ao Alcorão, pelo qual nutro o respeito que se deve ao livro sagrado duma grande religião. Eu, ao citar o texto do imperador Manuel II, pretendia unicamente evidenciar a relação essencial entre fé e razão. Neste ponto, estou de acordo com Manuel II, sem contudo fazer minha a sua polémica.
[4] Controvérsia VII 3b-c: Khoury, pp. 144-145; Förstel, vol. I, VII Dialog 1.6, pp. 240-243.
[5] Foi unicamente por esta afirmação que citei o diálogo entre Manuel e o seu interlocutor persa. É nesta afirmação que surge o tema das minhas afirmações seguintes.
[6] Cf. Khoury, op. cit., p. 144, nota 1.
[7] R. Arnaldez, Grammaire et théologie chez Ibn Hazm de Cordoue (Paris 1956) p. 13: cf. Khoury, p. 144. Mais adiante, no desenvolvimento do meu discurso, aludirei ao facto da existência de posições semelhantes na teologia da baixa Idade Média.
[8] Para a interpretação do episódio da sarça ardente, objecto de ampla discussão, veja-se o meu livro «Einführung in das Christentum» (Mónaco 1968), pp. 84-102. Penso que as minhas afirmações lá feitas continuam, não obstante os sucessivos desenvolvimentos do debate, a ser ainda válidas.
[9] Cf. A. Schenker, «L’Écriture sainte subsiste en plusieurs formes canoniques simultanées», in: A interpretação da Bíblia na Igreja. Actas do Simpósio promovido pela Congregação para a Doutrina da Fé (Cidade do Vaticano 2001), pp. 178-186.
[10] Tratei este tema, de forma mais pormenorizada, no meu livro «Der Geist der Liturgie. Eine Einführung» (Friburgo 2000), pp. 38-42.
[11] Dentre a vasta literatura sobre este tema da deselenização, apraz-me citar antes de mais: A. Grillmeier, «Hellenisierung-Judaisierung des Christentums als Deuteprinzipien der Geschichte des kirchlichen Dogmas», in: Id., Mit ihm und in ihm. Christologische Forschungen und Perspektiven (Friburgo 1975) pp. 423-488.
[12] Foi publicada de novo e comentada por Heino Sonnemanns: Joseph Ratzinger–Benedikt XVI, Der Gott des Glaubens und der Gott der Philosophen. Ein Beitrag zum Problem der theologia naturalis, Johannes-Verlag Leutesdorf, 2.ª edição aumentada, 2005.
[13] 90 c-d. A propósito deste texto, veja-se também R. Guardini, Der Tod des Sokrates. (Mainz-Paderborn 51987) pp. 218-221.
© Copyright 2006 - Libreria Editrice Vaticana

O CERTO E O ERRADO COMO CHAVES PARA A COMPREENSÃO DO SENTIDO DO UNIVERSO

Parte II

3. A REALIDADE DA LEI

Volto agora ao que disse no final do primeiro capí­tulo: que a raça humana tem duas características curiosas. Em primeiro lugar, que os homens são assombrados pela ideia de um padrão de comportamento que se sentem obrigados a pôr em prática, o qual se poderia chamar de conduta leal, decência, moralidade ou Lei Natural. Em segundo lugar, que eles não o põem em prática. Al­guns de vocês podem se perguntar por que razão cha­mei de “curioso” isso que pode lhes parecer a coisa mais natural do mundo. Em especial, talvez vocês me tenham achado muito duro com a humanidade; afinal de con­tas, aquilo que chamei de transgressão da Lei do Certo e do Errado, ou da Lei Natural, significa somente que ninguém é perfeito. E por que, ó céus, esperaria eu o contrário? Essa seria uma boa resposta se tudo o que eu pretendesse fosse medir numa balança a culpa exata que cabe a cada um de nós por não nos termos portado como queremos que os outros se portem. Não é essa, porém, a tarefa que me propus. Nesta investigação, não estou preocupado com a culpa; estou tentando desco­brir a Verdade. Desse ponto de vista, a própria ideia de imperfeição, de algo que não é o que deveria ser, tem suas consequências.
Se considerarmos um ente como uma pedra ou uma árvore, ele é o que é e não há sentido em dizer que de­veria ser de outro jeito. E claro que podemos dizer que a pedra tem “a forma errada” se pretendemos usá-la para uma construção, ou que uma árvore não é boa porque não faz sombra suficiente. Porém, isso significa tão-so-mente que a pedra ou a árvore não se prestam ao uso que queremos fazer delas; não as culpamos de terem tais ou quais características, a não ser como piada. Te­mos consciência de que, dado um determinado clima e tipo de solo, a árvore não poderia ser em nada dife­rente do que é. A árvore que, de nosso ponto de vista, chamamos de “má” obedece às leis de sua natureza tan­to quanto a que chamamos de “boa”.
Vocês vêem aonde quero chegar? E que o que nós costumamos chamar de leis naturais — o modo pelo qual o clima age sobre a planta, por exemplo — não são leis no sentido estrito da palavra. Essa é só uma maneira de dizer. Quando afirmamos que uma pedra obedece à lei da gravidade, isso não é, por acaso, o mesmo que dizer que essa lei significa apenas “o que a pedra sempre faz”? Não pensamos realmente que a pedra, quando é solta, su­bitamente se lembra de que tem o dever de cair. Tudo o que queremos dizer é que ela, de fato, cai. Em outras palavras, não podemos ter certeza de que exista algo su­perior aos fatos mesmos, uma lei que determine o que deve acontecer e que seja diferente do que efetivamen-te acontece. As leis da natureza, quando aplicadas às ár­vores ou pedras, podem significar apenas “o que a Na­tureza efetivamente faz”. Mas, se nos voltarmos para a Lei da Natureza Humana, ou Lei da Boa Conduta, a história é outra. E ponto pacífico que ela não significa “o que os seres humanos efetivamente fazem”, já que, como eu disse antes, muitos deles não obedecem em absoluto a essa lei, e nenhum deles a observa integral­mente. A lei da gravidade nos diz o que a pedra faz quan­do cai; já a Lei da Natureza Humana nos diz o que os seres humanos deveriam fazer e não fazem. Ou seja, quando tratamos de seres humanos, existe algo além e acima dos fatos. Existem os fatos (como os homens se comportam) e também uma outra coisa (como deve­riam se comportar). No resto do universo, não há necessidade de outra coisa que não os fatos. Elétrons e mo­léculas comportam-se de determinada maneira e disso decorrem certos resultados, e talvez o assunto pare aí. Os homens, no entanto, comportam-se de determina­da maneira e o assunto não pára aí, já que estamos sem­pre conscientes de que o comportamento deles deveria ser diferente.
Isso é tão singular que ficamos tentados a nos en­ganar com falsas explicações. Podemos, por exemplo, afirmar que, quando você diz que um homem não de­veria fazer o que fez, quer dizer a mesma coisa quando assevera que a pedra tem a forma errada: ou seja, que a atitude dele é inconveniente para você. Mas isso é simplesmente falso. Um homem que chega primeiro no trem e ocupa um bom assento é tão inconveniente quanto um homem que tira minha mala do assento e o ocupa sorrateiramente enquanto estou de costas. Po­rém, não culpo o primeiro homem, mas culpo o se­gundo. Não fico bravo – exceto talvez por um breve momento, até recuperar a razão – com uma pessoa que por acidente me faz tropeçar, mas ficot bravo com al­guém que tenta me fazer tropeçar de propósito, mes­mo que não consiga. Porém, foi a primeira pessoa que efetivamente me machucou, e não a segunda. Às vezes, o comportamento que julgo mau não é inconvenien­te para mim de modo algum, muito pelo contrário. Na guerra, cada um dos lados beligerantes achará muito útil um traidor do lado oposto; porém, apesar de usá-lo e de recompensá-lo pelos serviços prestados, o consi­derará um verme em forma humana. Assim, não pode­mos dizer que o que chamamos de boa conduta alheia é simplesmente a conduta que nos é útil. E, quanto à nossa boa conduta, parece-me óbvio que não se trata da que nos traz vantagens. Trata-se, isto sim, de ficar contente com 30 xelins quando poderíamos ter ganho três libras; de fazer o dever de casa honestamente quan­do poderíamos copiar o do vizinho; de respeitar uma moça quando gostaríamos de ir para a cama com ela; de não nos afastar de um posto perigoso quando po­deríamos escapar para um lugar mais seguro; de manter a palavra quando preferiríamos faltar com ela; de falar a verdade mesmo que assim pareçamos idiotas perante os outros.
Certas pessoas dizem que, apesar de a boa condu­ta não ser o que traz vantagens para cada pessoa indi­vidualmente, pode significar o que traz vantagens para a humanidade como um todo; e, portanto, a coisa não seria tão misteriosa. Os seres humanos, no fim das con­tas, possuem algum bom senso; percebem que a segu­rança e a felicidade só são possíveis numa sociedade em que cada qual age com lealdade, e é por perceber isso que tentam conduzir-se com decência. Ora, é perfeitamente verdadeira a ideia de que a segurança e a felicidade só podem vir quando os indivíduos, as classes sociais e os países são honestos, justos e bons uns com os outros. E uma das verdades mais importantes do mundo. Ela só não consegue explicar por que temos tais e tais senti­mentos diante do Certo e do Errado. Se eu perguntar: “Por que devo ser altruísta?”, e você responder: “Porque isso é bom para a sociedade”, poderei retrucar: “Por que devo me importar com o que é bom para a socie­dade se isso não me traz vantagens pessoais?”, ao que você terá de responder: “Porque você deve ser altruísta” – o que nos leva de volta ao ponto de partida. O que você diz é verdade, mas não nos faz avançar. Se um ho­mem pergunta o motivo de se jogar futebol, de nada adianta responder que é “fazer gois”, pois tentar fazer gois é o próprio jogo, e não o motivo pelo qual o joga­mos. No final, estamos dizendo somente que “futebol é futebol” – o que é verdade, mas não precisa ser dito. Da mesma forma, se uma pessoa pergunta o motivo de se agir com decência, não vale a pena responder “para o bem da sociedade”, pois tentar beneficiar a sociedade, ou, em outras palavras, ser altruísta (pois “sociedade”, no fim das contas, significa apenas “as outras pessoas”), é um dos elementos da decência. Tudo o que se estará dizendo é que uma conduta decente é uma conduta de­cente. Teríamos dito a mesma coisa se tivéssemos parado na declaração de que “As pessoas devem ser altruístas”. E é nesse ponto que eu paro. Os homens devem ser altruístas, devem ser justos. Não que os homens se­jam altruístas ou gostem de sê-lo, mas que devem sê-lo. A Lei Moral, ou Lei da Natureza Humana, não é sim­plesmente um fato a respeito do comportamento hu­mano, como a Lei da Gravidade é ou pode ser simples­mente um fato a respeito do comportamento dos ob-jetos pesados. Por outro lado, não é mera fantasia, pois não conseguimos nos desvencilhar dessa ideia; se con­seguíssemos, a maior parte das coisas que dizemos sobre os homens seria absurda. Ela também não é uma sim­ples declaração de como gostaríamos que os homens se comportassem para a nossa conveniência, pois o com­portamento que taxamos de mau ou injusto nem sempre é inconveniente, e, muitas vezes, é exatamente o con­trário. Consequentemente, essa Regra do Certo e do Er­rado, ou Lei da Natureza Humana, ou como quer que você queira chamá-la, deve ser uma Verdade – uma coisa que existe realmente, e não uma invenção huma­na. E, no entanto, não é um fato no mesmo sentido em que o comportamento efetivo das pessoas é um fato. Co­meça a ficar claro que teremos de admitir a existência de mais de um plano de realidade; e que, neste caso em particular, existe algo que está além e acima dos fatos comuns do comportamento humano, algo que no en­tanto é perfeitamente real – uma lei verdadeira, que ne­nhum de nós elaborou, mas que nos sentimos obrigados a cumprir.

4. O QUE EXISTE POR TRÁS DA LEI

Vamos fazer um resumo de tudo o que vimos até aqui. No caso das pedras, das árvores e de coisas dessa natureza, o que chamamos de Lei Natural pode não ser nada além de uma força de expressão. Quando você diz que a natureza é governada por certas leis, quer dizer ape­nas que a natureza, de fato, se comporta de certa forma. As chamadas “leis” talvez não tenham realidade pró­pria, talvez não estejam além e acima dos fatos que po­demos observar. No caso do homem, porém, percebe­mos que as coisas não são bem assim. A Lei da Natu­reza Humana, ou Lei do Certo e do Errado, é algo que transcende os fatos do comportamento humano. Neste caso, além dos fatos em si, existe outra coisa – uma verdadeira lei que não inventamos e à qual sabemos que devemos obedecer.
Quero considerar agora o que isso nos diz sobre o universo em que vivemos. Desde que o homem se tor­nou capaz de pensar, ele se pergunta no que consiste o universo e como ele veio a existir. Grosso modo, dois pontos de vista foram sustentados. O primeiro deles é o que chamamos de materialista. Quem o adota afirma que a matéria e o espaço simplesmente existem e sem­pre existiram, ninguém sabe por quê. A matéria, que se comporta de formas fixas, veio, por algum acidente, a produzir criaturas como nós, criaturas capazes de pen­sar. Numa chance em mil, um corpo se chocou contra o sol e gerou os planetas. Por outra chance infinitesimal, as substâncias químicas necessárias à vida e a tempera­tura correta se fizeram presentes num desses planetas, e, assim, uma parte da matéria desse planeta ganhou vida. Depois, por uma longuíssima série de coincidências, as criaturas viventes se desenvolveram até se tornarem se­res como nós. O outro ponto de vista é o religioso. Se­gundo ele, o que existe por trás do universo se assemelha mais a uma mente que a qualquer outra coisa conhecida. Ou seja, é algo consciente e dotado de objetivos e pre­ferências. De acordo com essa visão, esse ser criou o universo. Alguns dos seus desígnios são ocultos, enquanto outros são bastante claros: produzir criaturas semelhan­tes a si mesmo — quero dizer, semelhantes na medida em possuem mentes. Por favor, não pensem que um destes pontos de vista era sustentado há muito tempo e aos poucos foi cedendo lugar ao outro. Onde quer que tenha havido homens pensantes, os dois pontos de vista sem­pre apareceram de uma forma ou de outra. Notem tam­bém que, para saber qual deles é o correto, não pode­mos apelar à ciência no sentido comum dessa palavra. A ciência funciona a partir da experiência e observa como as coisas se comportam. Todo enunciado científico, por mais complicado que pareça à primeira vista, na verda­de significa algo como “apontei o telescópio para tal par­te do céu às 2h20min do dia 15 de janeiro e vi tal e tal fenómeno”, ou “coloquei um pouco deste material num recipiente, aqueci-o a uma temperatura X e tal coisa aconteceu”. Não pensem que eu esteja desmerecendo a ciência; estou apenas mostrando para que ela serve. Quan­to mais sério for o homem de ciência, mais (no meu entender) ele concordará comigo quanto ao papel dela – papel, aliás, extremamente útil e necessário. Agora, per­guntas como “Por que algo veio a existir?” e “Será que existe algo – algo de outra espécie — por trás das coisas que a ciência observa?” não são perguntas científicas. Se existe “algo por trás”, ou ele há de manter-se totalmente desconhecido para o homem ou far-se-á revelar por outros meios. A ciência não pode dizer nem que esse ser existe nem que não existe, e os verdadeiros cientis­tas geralmente não fazem essas declarações. São quase sempre jornalistas e romancistas de sucesso que as pro­duzem a partir de informações coletadas em manuais de ciência popular e assimiladas de maneira imperfei­ta. Afinal de contas, tudo não passa de uma questão de bom senso. Suponha que a ciência algum dia se tornas­se completa, tendo o conhecimento total de cada mí­nimo detalhe do universo. Não é óbvio que perguntas como “Por que existe um universo?”, “Por que ele con­tinua existindo?” e “Qual o significado de sua existên­cia?” continuariam intactas?
Deveríamos perder as esperanças, não fosse por um detalhe. No universo inteiro, existe uma coisa, e somen­te uma, que nós conhecemos melhor do que conhecería­mos se contássemos somente com a observação externa. Essa coisa é o Ser Humano. Nós não nos limitamos a observar o ser humano, nós somos seres humanos. Nes­se caso, podemos dizer que as informações que possuí­mos vêm “de dentro”. Estamos a par do assunto. Por cau­sa disto, sabemos que os seres humanos estão sujeitos a uma lei moral que não foi criada por eles, que não con­seguem tirar do seu horizonte mesmo quando tentam e à qual sabem que devem obedecer. Alguém que estudasse o homem “de fora”, da maneira como estudamos a eletricidade ou os repolhos, sem conhecer a nossa lín­gua e, portanto, impossibilitado de obter conhecimen­to do nosso interior, não teria a mais vaga ideia da exis­tência desta lei moral a partir da observação de nossos atos. Como poderia ter? Suas observações se resumiriam ao que fazemos, ao passo que essa lei diz respeito ao que deveríamos fazer. Do mesmo modo, se existe algo acima ou por trás dos fatos observados sobre as pedras ou sobre o clima, nós, estudando-os de fora, não temos a menor esperança de descobrir o que ele é.
A natureza da questão é a seguinte: queremos saber se o universo simplesmente é o que é, sem nenhuma razão especial, ou se existe por trás dele um poder que o produziu tal como o conhecemos. Uma vez que esse poder, se ele existe, não seria um dos fatos observados, mas a realidade que os produziu, a mera observação dos fenómenos não pode encontrá-lo. Existe apenas um ca­so no qual podemos saber se esse “algo mais” existe; a saber, o nosso caso. E, nesse caso, constatamos que exis­te. Ou examinemos a questão de outro ângulo. Se existis­se um poder exterior que controlasse o universo, ele não poderia se revelar para nós como um dos fatos do pró­prio universo – da mesma forma que o arquiteto de uma casa não pode ser uma de suas escadas, paredes ou larei­ra. A única maneira pela qual podemos esperar que esta força se manifeste é dentro de nós mesmos, como uma influência ou voz de comando que tente nos levar a ado-tar uma determinada conduta. E justamente isso que descobrimos dentro de nós. Já não deveríamos ficar com a pulga atrás da orelha? No único caso em que po­demos encontrar uma resposta, ela é positiva; nos outros, em que não há respostas, entendemos por que não po­demos encontrá-las. Suponha que alguém me pergun­tasse, acerca de um homem de uniforme azul que passa de casa em casa depositando envelopes de papel em cada uma delas, por que, afinal, eu concluo que dentro dos envelopes existem cartas. Eu responderia: “Porque sem­pre que ele deixa envelopes parecidos na minha casa, dentro deles há uma carta para mim.” Se o interlocutor objetasse: “Mas você nunca viu as cartas que supõe que as outras pessoas recebam”, eu diria: “E claro que não, e nem quero vê-las, porque não foram endereçadas a mim. Eu imagino o conteúdo dos envelopes que não posso abrir pelo dos envelopes que posso.” O mesmo se dá aqui. O único envelope que posso abrir é o Ser Hu­mano. Quando o faço, e especialmente quando abro o Ser Humano chamado “Eu”, descubro que não existo por mim mesmo, mas que vivo sob uma lei, que algo ou alguém quer que eu me comporte de determinada forma. E claro que não acho que, se pudesse entrar na existência de uma pedra ou de uma árvore, encontraria exatamente a mesma coisa, assim como não acho que as pessoas da minha rua recebam exatamente as mesmas cartas que eu. Devo concluir que a pedra, por exemplo, tem de obedecer à lei da gravidade – que, enquanto o missivista se limita a aconselhar-me a obedecer à lei da minha natureza, ele obriga a pedra a obedecer às leis de sua natureza pétrea. O que não consigo negar é que, em ambos os casos, existe, por assim dizer, esse missivista, um Poder por trás dos fatos, um Diretor, um Guia.
Não pense que estou indo mais rápido do que es­tou na realidade. Ainda não estou nem perto do Deus da teologia cristã. Tudo o que obtive até aqui é a evidên­cia de Algo que dirige o universo e que se manifesta em mim como uma lei que me incita a praticar o certo e me faz sentir incomodado e responsável pelos meus er­ros. Segundo me parece, temos de supor que esse Algo é mais parecido com uma mente do que com qualquer outra coisa conhecida — porque, afinal de contas, a úni­ca outra coisa que conhecemos é a matéria, e ninguém ja­mais viu um pedaço de matéria dar instruções a alguém. E claro, porém, que não precisa ser muito parecido com uma mente, muito menos com uma pessoa. No próximo capítulo, vamos tentar descobrir mais a seu respeito. Ape­nas uma advertência. Houve muita conversa fajuta a res­peito de Deus nos últimos cem anos, e não é isso que tenho a oferecer. Esqueça tudo o que ouviu.

NOTA: Para manter esta seção curta o suficiente para ir ao ar, só mencionei os pontos de vista materialis­ta e religioso. Para completar o quadro, tenho de men­cionar o ponto de vista intermediário entre os dois, a chamada filosofia da Força Vital, ou Evolução Criativa, ou Evolução Emergente, cuja exposição mais brilhante e arguta encontra-se nas obras de Bernard Shaw, ao pas­so que a mais profunda, nas de Bergson. Seus defenso­res dizem que as pequenas variações pelas quais a vida neste planeta “evoluiu” das formas mais simples à for­ma humana não ocorreram em virtude do acaso, mas sim pelo “esforço” e pela “intenção” de uma Força Vital. Quando fazem tais afirmações, devemos perguntar se, por Força Vital, essas pessoas entendem algo semelhan­te a uma mente ou não. Se for semelhante, “uma mente que traz a vida à existência e a conduz à perfeição” não é outra coisa senão Deus, e seu ponto de vista é idên­tico ao religioso. Se não for semelhante, qual o sentido, então, de dizer que algo sem mente faça um “esforço” e tenha uma “intenção”? Este argumento me parece fatal para esse ponto de vista. Uma das razões pelas quais as pessoas julgam a Evolução Criativa tão atraente é que ela dá o consolo emocional da crença em Deus sem im­por as consequências desagradáveis desta. Quando nos sentimos ótimos e o sol brilha lá fora, e não queremos acreditar que o universo inteiro se reduz a uma dança mecânica de átomos, é reconfortante pensar nessa gigan­tesca e misteriosa Força evoluindo pelos séculos e nos car­regando em sua crista. Se, por outro lado, queremos fa­zer algo escuso, a Força Vital, que não passa de uma for­ça cega, sem moral e sem discernimento, nunca vai nos atrapalhar como fazia o aborrecido Deus que nos foi en­sinado quando éramos crianças. A Força Vital é como um deus domesticado. Você pode tirá-lo de dentro da caixa sempre que quiser, mas ele não vai incomodá-lo em ocasião alguma — todas as coisas boas da religião sem custo nenhum. Não será a Força Vital a maior invenção da fantasia humana que o mundo jamais viu?

5. TEMOS MOTIVOS PARA NOS SENTIR INQUIETOS

Encerrei o último capítulo com a noção de que, na Lei Moral, entramos em contato com algo, ou alguém, acima do universo material. Acho que alguns leitores sentiram um certo desconforto quando cheguei a esse ponto, e pensaram, inclusive, que eu lhes preguei uma peça, embalando cuidadosamente no papel de embrulho da filosofia algo que não passa de mais uma “conversa fiada sobre religião”. Talvez você estivesse disposto a me ouvir se eu tivesse novidades para contar; se, porém, tudo se resume à religião, bem, o mundo já experimentou esse caminho e não podemos voltar no tempo. Tenho três coisas a dizer para quem estiver se sentindo assim.
A primeira delas é a respeito de “voltar no tempo”. Você pensaria que estou brincando se dissesse que podemos atrasar o relógio e que, se o relógio está errado, é essa a coisa sensata a fazer? Prefiro, entretanto, deixar de lado essa comparação com relógios. Todos nós que­remos o progresso. Progredir, porém, é aproximarmo-nos do lugar aonde queremos chegar. Se você tomou o ca­minho errado, não vai chegar mais perto do objetivo se seguir em frente. Para quem está na estrada errada, pro­gredir é dar meia-volta e retornar à direção correta; nes­se caso, a pessoa que der meia-voJta mais cedo será a mais avançada. Todos já tivemos essa experiência com as contas de aritmética. Quando erramos uma soma des­de o início, sabemos que, quanto antes admitirmos o engano e voltarmos ao começo, tanto antes chegaremos à resposta correta. Não há nada de progressista em ser um cabeça-dura que se recusa a admitir o erro. Penso que, se examinarmos o estado atual do mundo, é bastante óbvio que a humanidade cometeu algum grande erro. Tomamos o caminho errado. Se assim for, devemos dar meia-volta. Voltar é o caminho mais rápido.
A segunda coisa a dizer é que estas palestras ainda não tomaram o rumo de uma “conversa fiada sobre re­ligião”. Não chegamos ainda no Deus de nenhuma reli­gião verdadeira, muito menos no Deus dessa religião específica chamada cristianismo. Tudo o que temos até aqui é Alguém ou Algo que está por trás da Lei Moral. Não lançamos mão da Bíblia nem das igrejas: estamos tentando ver o que podemos descobrir por esforço pró­prio a respeito deste Alguém. Quero, inclusive, deixar bem claro que essa descoberta é chocante. Temos dois indícios que dão prova desse Alguém. Um deles é o uni­verso por ele criado. Se fosse essa a nossa única pista, teríamos de concluir que ele é um grande artista (já que o universo é um lugar muito bonito), mas que também é impiedoso e cruel para com o homem (uma vez que o universo é um lugar muito perigoso e terrível). O outro indício é a Lei Moral que ele pôs em nossa mente. E uma prova melhor do que a primeira, pois co­nhecemo-la em primeira mão. Descobrimos mais coi­sas a respeito de Deus a partir da Lei Moral do que a partir do universo em geral, da mesma forma que sabe­mos mais a respeito de um homem quando conversamos com ele do que quando examinamos a casa que ele cons­truiu. Partindo desse segundo vestígio, concluímos que o Ser por trás do universo está muitíssimo interessado na conduta correta – na lealdade, no altruísmo, na co­ragem, na boa fé, na honestidade e na veracidade. Nes­se sentido, devemos concordar com a visão do cristia­nismo e de outras religiões de que Deus é “bom”. Mas não vamos apressar o andar da carruagem. A Lei Mo­ral não embasa a ideia de que Deus é “bom” no sentido de indulgente, suave ou condescendente. Não há nada de indulgente na Lei Moral. Ela é dura como um osso. Exorta-nos a fazer a coisa certa e parece não se importar com o quanto essa ação pode ser dolorosa, perigosa ou di­fícil. Se Deus é como a Lei Moral, ele não tem nada de suave. De nada adianta, a esta altura, dizer que um Deus “bom” é um Deus que perdoa. Estaríamos indo depres­sa demais. Só uma pessoa pode perdoar, e não chega­mos ainda a um Deus pessoal — só a um poder que está por trás da Lei Moral e se parece mais com uma men­te do que com qualquer outra coisa. Mas ainda seria improvável dizer que se trata de uma pessoa. Caso se tra­te de uma pura mente impessoal, não há sentido algum em pedir que ela nos dê uma certa folga e nos descul­pe, da mesma forma que não há sentido em pedir que a tabuada seja tolerante com nossos erros de multiplica­ção. Nesse caminho, encontraremos a resposta errada. Tampouco adianta dizer que, se existe um Deus assim – uma bondade impessoal e absoluta -, você não pre­cisa gostar dele nem se preocupar com ele. Afinal, a ques­tão é que uma parte de nós está ao lado dele e realmente concorda com ele quando desaprova a ganância, as bai-xezas e os abusos humanos. Talvez você queira que ele abra uma exceção no seu caso e o perdoe desta vez; mas no fundo sabe que, a menos que esse poder por trás do mundo realmente deteste inabakvelmente esse tipo de comportamento, ele não pode ser bom. Por outro lado, sabemos que, se existe um Bem absoluto, ele deve detestar quase tudo o que fazemos. Este é o terrível dilema em que nos encontramos. Se o universo não é governa­do por um Bem absoluto, todos os nossos esforços es­tão fadados ao insucesso a longo prazo. Se, no entanto, ele é governado por esse Bem, fazemo-nos inimigos da bondade a cada dia e o panorama não parece dar sinais de melhora no futuro. Logo, nosso caso é, de novo, ir­remediável – inviável com ou sem ele. Deus é o nosso único alento, mas também o nosso terror supremo; é a coisa de que mais precisamos, mas também da qual mais queremos nos esconder. E nosso único aliado possível, e tornamo-nos seus inimigos. Certas pessoas parecem pensar que o encontro face a face com o Bem absoluto seria divertido. Elas devem pensar melhor no que dizem. Estão apenas brincando com a religião. O Bem pode ser o maior refúgio ou o maior perigo, dependendo de como reagimos a ele. E temos reagido mal.
Enfim, a terceira coisa que tinha a dizer. Quando decidi dar todas estas voltas para chegar a meu verda­deiro assunto, nunca tive a intenção de lhes pregar uma peça. Meu motivo foi outro: foi que o cristianismo só tem sentido para quem teve de encarar de frente os te­mas tratados até aqui. O cristianismo exorta as pessoas a se arrepender e promete-lhes o perdão. Consequente­mente (que me conste), ele não tem nada a dizer às pes­soas que não têm a consciência de ter feito algo de que devem se arrepender e que não sentem a urgência de ser perdoadas. E quando nos damos conta da existência de uma Lei Moral e de um Poder por trás dessa Lei, e percebemos que nós violamos a Lei e ficamos em dívida para com esse Poder — é só então, e nunca antes disso, que o cristianismo começa a falar a nossa língua. Quan­do você sabe que está doente, dá ouvidos ao médico. Quando perceber que nossa situação é crítica, começará a entender a respeito do que os cristãos estão falando. Eles nos oferecem uma explicação de por que nos en­contramos em nosso estado atual, de odiar o bem e tam­bém de amá-lo; de por que Deus pode ser essa mente impessoal oculta por trás da Lei Moral e, ao mesmo tem­po, uma Pessoa. Explicam que as exigências dessa lei, que nem eu nem você conseguimos cumprir, foram cum­pridas por Alguém, para o nosso bem; que Deus mes­mo se fez homem para salvar os homens de sua própria ira. E uma velha história, e se você quiser esmiuçá-la poderá consultar pessoas que, sem dúvida nenhuma, têm mais autoridade do que eu para falar dela. Tudo o que faço é pedir a todos que encarem os fatos — que compreendam as perguntas para as quais o cristianis­mo pretende oferecer respostas. Os fatos amedrontam. Gostaria de poder falar de coisas mais amenas, mas devo declarar o que penso ser a verdade. Evidentemente, pen­so que, a longo prazo, a religião cristã traz um consolo indescritível; mas ela não começa assim. Ela começa com o desalento e a consternação que descrevi, e é inútil ten­tar obter o consolo sem antes passar pela consternação. Na religião, como na guerra e em todos os outros as­suntos, o consolo é a única coisa que não pode ser al­cançada quando é buscada diretamente. Se você buscar a verdade, encontrará a consolação no final; se buscar o consolo, não terá nem o consolo nem a verdade — terá somente uma melosidade vazia que culminará em deses­pero. Muitos entre nós já nos recuperamos da euforia de antes da guerra em matéria de política internacional. E hora de fazer a mesma coisa com a religião.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...