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PARA CULTIVAR A PAZ, É PRECSO PROTEGER A CRIAÇÃO

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

AO CORPO DIPLOMÁTICO
ACREDITADO JUNTO DA SANTA SÉ
PARA A TROCA DE BONS VOTOS DE INÍCIO DE ANO

Sala Régia

Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Excelências,
Senhoras e Senhores,

Este encontro tradicional ao início do ano, duas semanas depois da celebração do nascimento do Verbo encarnado, é para mim uma grande alegria. Como proclamámos na liturgia, «no mistério do seu nascimento, Aquele que, por sua natureza, era invisível tornou-Se visível aos nossos olhos. Gerado desde toda a eternidade, começou a existir no tempo, para renovar em Si a natureza decaída e restaurar o universo» (Prefácio do Natal II). Deste modo, no Natal, contemplámos o mistério de Deus e o da criação: pelo anúncio dos Anjos aos pastores, chegou-nos a boa nova da salvação do homem e da renovação de todo o universo. Por este motivo, na Mensagem para a celebração do Dia Mundial da Paz deste ano, convidei todas as pessoas de boa vontade – precisamente aquelas a quem os Anjos prometeram a paz – a protegerem a criação. E, no mesmo espírito, tenho a alegria de saudar cada um de vós, nomeadamente aqueles que pela primeira vez tomam parte nesta cerimónia. Agradeço-vos vivamente os votos de que se fez intérprete o vosso decano, Senhor Embaixador Alejandro Valladares Lanza, e renovo-vos a expressão do meu grande apreço pela missão que desempenhais junto da Santa Sé. Por vosso intermédio, desejo fazer chegar cordiais cumprimentos e votos de paz e prosperidade às Autoridades e a todos os habitantes dos países que dignamente representais. O meu pensamento abraça também todas as outras nações da terra: o Sucessor de Pedro mantém aberta a sua porta para todos, e com todos deseja tecer relações que contribuam para o progresso da família humana. Desde há algumas semanas, a Santa Sé e a Federação da Rússia estabeleceram relações diplomáticas plenas, motivo este que me dá profunda satisfação. Do mesmo modo, revestiu-se grande significado a visita que me fez recentemente o Presidente da República Socialista do Vietname, país caro ao meu coração, onde a Igreja está a celebrar sua presença plurissecular com um Ano Jubilar. Neste espírito de abertura, recebi, ao longo do ano 2009, numerosas personalidades políticas vindas de diversos países; também eu visitei alguns deles, sendo minha intenção continuar, na medida do possível, a fazê-lo no futuro.



A Igreja está aberta a todos, porque, em Deus, existe para os outros. Por isso compartilha intensamente a sorte da humanidade, que, neste ano há pouco iniciado, aparece ainda marcada pela crise dramática que atingiu a economia mundial, provocando uma instabilidade social grave e generalizada. Na encíclica Caritas in veritate, convidei a procurar as raízes profundas desta situação: em última análise, encontram-se numa mentalidade egoísta e materialista corrente, esquecida dos limites inerentes a toda a criatura. Hoje queria sublinhar que esta mentalidade ameaça igualmente a criação. Provavelmente cada um de nós poderia citar um exemplo dos danos que a mesma provoca ao ambiente nos quatro ângulos da terra. Cito um, dentre muitos outros, na história recente da Europa: há vinte anos, quando caiu o muro de Berlim e quando desabaram os regimes materialistas e ateus que durante vários decénios tinham dominado uma parte deste continente, não se pôde porventura medir as feridas profundas que um sistema económico sem referências assentes na verdade do homem infligira não só à dignidade e liberdade das pessoas e dos povos, mas também à natureza, com a poluição do solo, das águas e do ar? A negação de Deus desfigura a liberdade da pessoa humana, mas devasta também a criação. Daqui resulta que a salvaguarda da criação não visa tanto responder a uma exigência estética, como sobretudo a uma exigência moral, porque a natureza exprime um desígnio de amor e de verdade que nos precede e que vem de Deus.

Por este motivo, compartilho a preocupação crescente causada pelas resistências de ordem económica e política na luta contra a degradação do ambiente. Trata-se de dificuldades que se puderam constatar ainda ultimamente, por ocasião da XV Sessão da Conferência dos Estados membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as alterações climáticas, que teve lugar em Copenhaga de 7 a 18 de Dezembro passado. Espero que no decurso deste ano, primeiro em Bona e depois no México, seja possível chegar a um acordo para enfrentar de maneira eficaz esta questão. Trata-se de uma aposta tanto mais importante quanto em jogo está o próprio destino de algumas nações, nomeadamente alguns Estados insulares.

Mas convém que esta atenção e este empenho pelo ambiente apareçam devidamente ordenados no conjunto dos grandes desafios que se colocam à humanidade. Se se quer construir uma paz verdadeira, como se poderia separar ou mesmo contrapor a protecção do ambiente e a da vida humana, incluindo a vida antes de nascer? É no respeito da pessoa humana por ela mesma que se manifesta o seu sentido da responsabilidade pela criação. Porque, como ensina São Tomás de Aquino, o homem representa o que há de mais nobre no universo (cf. Summa Theologiae, I, q. 29, a. 3). Além disso, como recordei na recente Cimeira Mundial da FAO sobre a Segurança Alimentar, «a terra é capaz de alimentar suficientemente todos os seus habitantes» (Discurso de 16 de Novembro de 2009, n. 2), desde que o egoísmo não leve ao açambarcamento por alguns dos bens destinados a todos.

Queria sublinhar ainda que a salvaguarda da criação implica uma gestão correcta dos recursos naturais dos países e, em primeiro lugar, daqueles que se encontram economicamente desfavorecidos. Penso no continente africano, que tive a alegria de visitar por ocasião da minha viagem aos Camarões e a Angola no passado mês de Março, e ao qual foram consagrados os trabalhos da recente Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos. Os Padres Sinodais assinalaram, com preocupação, a erosão e a desertificação de amplas extensões de terra cultivável, por causa da exploração selvagem e da poluição do ambiente (cf. Propositio 22). Na África, como noutros lados, é necessário adoptar opções políticas e económicas capazes de assegurar «formas de produção agrícola e industrial que respeitem a ordem da criação e satisfaçam as necessidades primárias de todos» (Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2010, n. 10).

Por outro lado, como esquecer que a luta pelo acesso aos recursos naturais é uma das causas de vários conflitos, nomeadamente na África, sendo a fonte de um risco permanente também noutros casos? Esta é mais uma razão que me leva a repetir com vigor que, para cultivar a paz, é preciso proteger a criação. Em diversas partes, há ainda vastas extensões, por exemplo no Afeganistão ou em alguns países da América Latina, onde infelizmente a agricultura está ainda ligada à produção de droga, constituindo aquela uma fonte não indiferente de emprego e subsistência. Se se quer a paz, é preciso preservar a criação pela reconversão de tais actividades, e eu queria pedir, uma vez mais, à comunidade internacional que não se resigne com o tráfico da droga nem com os graves problemas morais e sociais que a mesma gera.

Sim, Senhoras e Senhores, a protecção da criação é um factor importante de paz e de justiça. De entre os numerosos desafios que lança, um dos mais graves é o do aumento das despesas militares e também o da manutenção e desenvolvimento dos arsenais nucleares. Enormes recursos económicos são absorvidos por tais finalidades, quando poderiam ser destinados para o desenvolvimento dos povos, sobretudo dos mais pobres. Por este motivo, espero firmemente que, por ocasião da Conferência para o exame do Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares, que se realizará no próximo mês de Maio em Nova Iorque, sejam tomadas decisões eficazes em ordem a um desarmamento progressivo, que vise libertar o mundo das armas nucleares. Alargando mais o horizonte, deploro que a produção e a exportação das armas contribuam para perpetuar conflitos e violências, como no Darfour, na Somália ou na República Democrática do Congo. À incapacidade das partes directamente implicadas para saírem da espiral de violência e sofrimento gerada por estes conflitos, junta-se a aparente impotência dos outros países e das organizações internacionais para restabelecerem a paz, sem contar a indiferença quase resignada da opinião pública mundial. Não há necessidade de sublinhar quanto tais conflitos danifiquem e degradem o ambiente. Enfim, como não mencionar o terrorismo, que põe em perigo tantas vidas inocentes e provoca uma difusa ansiedade? Nesta solene ocasião, queria renovar o apelo que lancei no dia um de Janeiro, por ocasião da oração do Angelus, a quantos fazem parte de grupos armados, sejam eles quais forem, para que abandonem o caminho da violência e abram seu coração à alegria da paz.

As graves violências que acabo de evocar, associadas aos flagelos da pobreza e da fome e também às catástrofes naturais e à destruição do ambiente, contribuem para engrossar as fileiras daqueles que abandonam as suas próprias terras. Face a tal êxodo, desejo exortar as Autoridades civis a diversos títulos nele interessadas para que trabalhem com justiça, solidariedade e clarividência. De modo particular, queria mencionar aqui os cristãos do Médio Oriente. Afrontados de diversas maneiras, mesmo até no exercício da sua liberdade religiosa, deixam a terra de seus pais, onde se desenvolveu a Igreja dos primeiros séculos. A fim de lhes dar apoio e fazer sentir a solidariedade dos seus irmãos na fé, convoquei para o próximo Outono a Assembleia Especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos.

Senhoras e Senhores Embaixadores, até agora limitei-me a evocar alguns aspectos ligados com a problemática do ambiente. Contudo as raízes da situação, que está à vista de todos, são de ordem moral e a questão deve ser enfrentada no quadro de um grande esforço de educação, para promover uma real mudança das mentalidades e estabelecer novos modos de vida. A comunidade dos crentes pode e quer participar nisso, mas, para o fazer, precisa que o seu papel público seja reconhecido. Infelizmente em certos países, sobretudo ocidentais, difundiu-se nos meios políticos e culturais, bem como nos mass media, um sentimento de pouca consideração e por vezes de hostilidade, para não dizer menosprezo, para com a religião, particularmente a religião cristã. É claro que, se se considera o relativismo como um elemento constitutivo essencial da democracia, corre-se o risco de conceber a laicidade apenas em termos de exclusão ou, mais exactamente, de recusa da importância social do facto religioso. Mas uma tal perspectiva gera confronto e divisão, prejudica a paz, perturba a ecologia humana e, rejeitando por princípio atitudes diversas da sua, torna-se uma estrada sem saída. Por isso, é urgente definir uma laicidade positiva, aberta, que, fundada sobre uma justa autonomia da ordem temporal e da ordem espiritual, favoreça uma sã cooperação e um espírito de responsabilidade compartilhada. Nesta perspectiva, penso na Europa, que, com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, abriu uma nova fase do seu processo de integração, que a Santa Sé continuará a seguir com respeito e benévola atenção. Notando com satisfação que o Tratado prevê que a União Europeia mantenha com as Igrejas um diálogo «aberto, transparente e regular» (art. 17), faço votos de que a Europa, na construção do seu futuro, saiba sempre beber nas fontes da sua própria identidade cristã. Como afirmei no passado mês de Setembro durante a minha viagem apostólica pela República Checa, tal identidade tem um papel insubstituível «na formação da consciência de cada geração e na promoção de um consenso ético de base que é útil para todas as pessoas que chamam a este continente “minha casa”» (Encontro com as Autoridades Políticas e Civis e com o Corpo Diplomático, 26 de Setembro de 2009).

Prosseguindo a nossa reflexão, é necessário evidenciar a complexidade da problemática do ambiente; poder-se-ia dizer que se trata de um prisma plurifacetado. As criaturas são diferentes umas das outras e podem ser protegidas ou, pelo contrário, colocadas em perigo de diversas maneiras, como no-lo demonstra a experiência diária. Um destes ataques provém das leis ou dos projectos que, em nome da luta contra a discriminação, atentam contra o fundamento biológico da diferença entre os sexos. Refiro-me, por exemplo, a países europeus ou do continente americano. «Se tiras a liberdade, tiras a dignidade»: diz São Columbano (Epist. n. 4 ad Attela, in S. Columbani Opera, Dublim, 1957, p. 34). Todavia a liberdade não pode ser absoluta, porque o homem não é Deus, mas imagem de Deus, sua criatura. Para o homem, o caminho a seguir não pode ser fixado pelo que é arbitrário ou apetecível, mas deve, antes, consistir na correspondência à estrutura querida pelo Criador.

A salvaguarda da criação comporta ainda outros desafios, aos quais se pode responder apenas com a solidariedade internacional. Penso nas catástrofes naturais, que semearam mortes, sofrimentos e destruições, durante o ano passado, nas Filipinas, no Vietname, no Laus, no Camboja e na ilha de Taipé. Como não recordar também a Indonésia e, mais perto de nós, a região dos Abruzos, feridas por terramotos devastadores? Perante tais acontecimentos, não deve jamais faltar uma generosa assistência, porque está em jogo a própria vida das criaturas de Deus. Mas, além da solidariedade, a preservação da criação tem necessidade também da concórdia e da estabilidade dos Estados. Quando surgirem divergências e hostilidades entre estes últimos, para defender a paz, devem seguir com tenacidade o caminho de um diálogo construtivo. Foi o que aconteceu há vinte e cinco anos com o Tratado de Paz e Amizade entre a Argentina e o Chile, concluído graças à mediação da Sé Apostólica. O mesmo trouxe abundantes frutos de cooperação e de prosperidade, que de certa maneira beneficiaram toda a América Latina. Nesta mesma região do mundo, vejo com alegria a aproximação que a Colômbia e o Equador estão a realizar depois de vários meses de tensão. Mais perto de nós, alegra-me o entendimento concluído entre a Croácia e a Eslovénia a propósito da arbitragem relativa à sua fronteira marítima e terrestre. Sinto-me feliz igualmente com o Acordo entre a Arménia e a Turquia em ordem à retoma das relações diplomáticas, e espero também que, através do diálogo, melhorem as relações entre todos os países do Cáucaso meridional. Durante a minha peregrinação à Terra Santa, convidei instantemente os Israelitas e os Palestinianos a dialogarem e a respeitarem os direitos uns dos outros. Uma vez mais, elevo a minha voz pedindo que seja universalmente reconhecido o direito que tem o Estado de Israel a existir e gozar de paz e segurança nas fronteiras internacionalmente reconhecidas. E que de igual modo seja reconhecido o direito do Povo Palestiniano a uma pátria soberana e independente, a viver com dignidade e a deslocar-se livremente. Além disso, queria pedir o apoio de todos para que se protejam a identidade e o carácter sagrado de Jerusalém, a sua herança cultural e religiosa, cujo valor é universal. Só assim poderá esta cidade única, santa e atribulada ser sinal e antecipação da paz que Deus deseja para toda a família humana. Por amor do diálogo e da paz, que salvaguardam a criação, exorto os governantes e os cidadãos do Iraque a superarem as divisões, a tentação da violência e a intolerância, para construírem juntos o futuro do seu país. Também as comunidades cristãs querem prestar a sua colaboração, mas para isso é preciso que lhes seja assegurado respeito, segurança e liberdade. O Paquistão foi também duramente fustigado pela violência nestes últimos meses, e alguns episódios visaram directamente a minoria cristã. Peço que se faça o possível para que tais agressões não se repitam mais e que os cristãos possam sentir-se plenamente integrados na vida do seu país. Falando de violências contra os cristãos, não posso, por outro lado, deixar de mencionar o deplorável atentado de que acaba de ser vítima a comunidade copta egípcia nestes últimos dias, precisamente quando ela festejava o Natal. Relativamente ao Irão, espero que, através do diálogo e da colaboração, se encontrem soluções compartilhadas, tanto a nível nacional como no plano internacional. Ao Líbano, que superou uma longa crise política, desejo que prossiga pelo caminho da concórdia. Espero que as Honduras, depois de um tempo de incerteza e agitação, se encaminhe novamente para uma normalidade política e social. E desejo que venha a suceder o mesmo na Guiné e em Madagascar, com a ajuda efectiva e desinteressada da comunidade internacional.

Senhoras e Senhores Embaixadores, no termo deste rápido giro de horizonte, que, por causa da sua brevidade, não pode mencionar todas as situações que mereceriam ser referidas, voltam-me à mente as palavras do Apóstolo Paulo, segundo o qual «toda a criatura geme ainda agora e sofre» e «também nós gememos interiormente» (Rom 8, 20-23). Sim, há tanto sofrimento na humanidade e o egoísmo humano danifica a criação de muitas maneiras. É por isso que a expectativa da salvação, que diz respeito a toda a criação, aparece ainda mais intensa e está presente no coração de todos, crentes e descrentes. A Igreja indica que a resposta a esta aspiração é Cristo, «primogénito de toda a criatura, porque n’Ele foram criadas todas as coisas no céu e na terra» (Col 1, 15-16). Fixando n’Ele o meu olhar, exorto todas as pessoas de boa vontade a trabalharem, com confiança e generosidade, pela dignidade e a liberdade do homem. Que a luz e a força de Jesus nos ajudem a respeitar a ecologia humana, cientes de que esta beneficiará a ecologia ambiental, porque o livro da natureza é único e indivisível. Poderemos assim consolidar a paz para as gerações actual e futuras. Um Ano feliz para todos!


© Copyright 2010 - Libreria Editrice Vaticana



Papa explica ecologia humana



Por Riccardo Cascioli

ROMA, quarta-feira, 6 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- Uma educação voltada para uma “ampla e aprofundada responsabilidade ecológica” baseia-se no “respeito ao homem e a seus direitos e deveres fundamentais”. Assim o Papa retomou a questão do respeito à criação, segundo ele essencial para a paz, em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, em primeiro de janeiro.

Trata-se de uma homilia muito importante, porque o Papa explicita de maneira muito clara as bases que devem fundamentar a ecologia humana.

“Não é possível” – diz o Papa – “nutrir um respeito verdadeiro pelo meio ambiente sem que saibamos reconhecer no cosmos os reflexos da face invisível do Criador”.

O mistério da face de Deus e do homem é o horizonte no qual o Papa aborda a questão ambiental. “O homem é capaz de respeitar as criaturas – afirma bento XVI – na medida em que porta em seu próprio espírito um sentimento pleno de vida, caso contrário será levado a desprezar a si mesmo e tudo aquilo que o rodeia, a não ter respeito pelo ambiente em que vive ou pela criação”.

Há, assim, uma relação estreita entre o respeito ao homem e a proteção ao meio ambiente: “se o homem se degrada, degrada-se o ambiente em que vive; se a cultura se volta em direção ao niilismo, ainda que não teórico mas prático, a natureza pagará as conseqüências”.

Paradoxalmente, portanto, para atingir o âmago dos problemas ambientais, é preciso ter em mente que sua solução não passa por uma leitura aprofundada destes problemas, mas sim pelo aprofundamento da questão humana, do valor que cada um de nós dá à vida. E mais: pelo reconhecimento de que Deus habita nossos corações, para usar uma expressão do Papa. “Quanto mais somos habitados por Deus, e quanto mais formos sensíveis também à Sua presença naquilo que nos rodeia: em todas as criaturas, em especial nos demais homens”.

O homem é único, dentre todas as criaturas, por ser capaz de tal perspectiva e de tal reflexão.

Por isso, a maneira pela qual a Igreja aborda os problemas ambientais é radicalmente diferente, até mesmo oposta, a dos movimentos ambientalistas: "Se o Magistério da Igreja - escreve o Papa em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz – exprime perplexidade diante de uma concepção de ambiente inspirada pelo ecocentrismo e pelo biocentrismo, é porque tal concepção elimina a diferença ontológica e axiológica entre a pessoa humana e os demais seres vivos. Desse modo, elimina-se de fato a identidade e o papel especiais do homem, favorecendo uma visão igualitarista da “dignidade” de todos os seres vivos. Dá-se espaço, assim, a um novo panteísmo, com características neopagãs, que pretende derivar, da natureza por si mesma, entendida no sentido puramente naturalístico, a salvação do homem”.

Fonte: ZENIT.ORG

MENSAGEM URBI ET ORBI

DE SUA SANTIDADE
BENTO XVI

Santo Natal, 25 de Dezembro de 2009



Queridos irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro,
e vós todos, homens e mulheres amados pelo Senhor!

«Lux fulgebit hodie super nos,
 quia natus est nobis Dominus.
- Hoje sobre nós resplandecerá uma luz
porque nasceu para nós o Senhor»

(Missal Romano: Antífona de Entrada, da Missa da Aurora no Natal do Senhor).

A liturgia da Missa da Aurora lembrou-nos que a noite já passou, o dia vai alto; a luz que provém da gruta de Belém resplandece sobre nós.

Todavia a Bíblia e a Liturgia não nos falam da luz natural, mas de uma luz diversa, especial, de algum modo apontada e orientada para um «nós», o mesmo «nós» para quem o Menino de Belém «nasceu». Este «nós» é a Igreja, a grande família universal dos que acreditam em Cristo, que aguardaram com esperança o novo nascimento do Salvador e hoje celebram no mistério a perene actualidade deste acontecimento.

Ao princípio, ao redor da manjedoura de Belém, aquele «nós» era quase invisível aos olhos dos homens. Como nos diz o Evangelho de São Lucas, englobava, para além de Maria e José, poucos e humildes pastores que acorreram à gruta avisados pelos Anjos. A luz do primeiro Natal foi como um fogo aceso na noite. À volta tudo estava escuro, enquanto na gruta resplandecia a luz verdadeira «que ilumina todo o homem» (Jo 1, 9). E no entanto tudo acontece na simplicidade e ocultamente, segundo o estilo com que Deus actua em toda a história da salvação. Deus gosta de acender luzes circunscritas, para iluminarem depois ao longe e ao largo. A Verdade e também o Amor, que são o seu conteúdo, acendem-se onde a luz é acolhida, difundindo-se depois em círculos concêntricos, quase por contacto, nos corações e mentes de quantos, abrindo-se livremente ao seu esplendor, se tornam por sua vez fontes de luz. É a história da Igreja que inicia o seu caminho na pobre gruta de Belém e, através dos séculos, se torna Povo e fonte de luz para a humanidade. Também hoje, por meio daqueles que vão ao encontro do Menino, Deus ainda acende fogueiras na noite do mundo para convidar os homens a reconhecerem em Jesus o «sinal» da sua presença salvífica e libertadora e estender o «nós» dos crentes em Cristo à humanidade inteira.

Onde quer que haja um «nós» que acolhe o amor de Deus, aí resplandece a luz de Cristo, mesmo nas situações mais difíceis. A Igreja, como a Virgem Maria, oferece ao mundo Jesus, o Filho, que Ela própria recebeu em dom e que veio para libertar o homem da escravidão do pecado. Como Maria, a Igreja não tem medo, porque aquele Menino é a sua força. Mas, não O guarda para si: oferece-O a quantos O procuram de coração sincero, aos humildes da terra e aos aflitos, às vítimas da violência, a quantos suspiram pelo bem da paz. Também hoje, à família humana profundamente marcada por uma grave crise, certamente económica mas antes ainda moral, e por dolorosas feridas de guerras e conflitos, a Igreja, com o estilo da partilha e da fidelidade ao homem, repete com os pastores: «Vamos até Belém» (Lc 2, 15), lá encontraremos a nossa esperança.

O «nós» da Igreja vive no território onde Jesus nasceu, na Terra Santa, para convidar os seus habitantes a abandonarem toda a lógica de violência e represália e a comprometerem-se com renovado vigor e generosidade no caminho para uma convivência pacífica. O «nós» da Igreja está presente nos outros países do Médio Oriente. Como não pensar na atribulada situação do Iraque e no «pequenino rebanho» de cristãos que vive na região? Às vezes sofre violências e injustiças, mas está sempre disposto a oferecer a sua própria contribuição para a edificação da convivência civil contrária à lógica do conflito e rejeição do vizinho. O «nós» da Igreja actua no Sri Lanka, na Península Coreana e nas Filipinas, e ainda noutras terras asiáticas, como fermento de reconciliação e de paz. No continente africano, não cessa de erguer a voz até Deus para implorar o fim de toda a prepotência na República Democrática do Congo; convida os cidadãos da Guiné e do Níger ao respeito dos direitos de cada pessoa e ao diálogo; aos de Madagáscar pede para superarem as divisões internas e acolherem-se reciprocamente; a todos lembra que são chamados à esperança, não obstante os dramas, provações e dificuldades que continuam a afligi-los. Na Europa e na América do Norte, o «nós» da Igreja incita a superar a mentalidade egoísta e tecnicista, a promover o bem comum e a respeitar as pessoas mais débeis, a começar daquelas ainda por nascer. Nas Honduras, ajuda a retomar o caminho institucional; em toda a América Latina, o «nós» da Igreja é factor de identidade, plenitude de verdade e caridade que nenhuma ideologia pode substituir, apelo ao respeito dos direitos inalienáveis de cada pessoa e ao seu desenvolvimento integral, anúncio de justiça e fraternidade, fonte de unidade.

Fiel ao mandato do seu Fundador, a Igreja é solidária com aqueles que são atingidos pelas calamidades naturais e pela pobreza, mesmo nas sociedades opulentas. Frente ao êxodo de quantos emigram da sua terra e são arremessados para longe pela fome, a intolerância ou a degradação ambiental, a Igreja é uma presença que chama ao acolhimento. Numa palavra, a Igreja anuncia por toda a parte o Evangelho de Cristo, apesar das perseguições, as discriminações, os ataques e a indiferença, por vezes hostil, mas que lhe consentem de partilhar a sorte do seu Mestre e Senhor.

Queridos irmãos e irmãs, que grande dom é fazer parte de uma comunhão que é para todos! É a comunhão da Santíssima Trindade, de cujo seio desceu ao mundo o Emanuel, Jesus, Deus-connosco. Como os pastores de Belém, contemplamos cheios de maravilha e gratidão este mistério de amor e de luz! Boas-festas de Natal para todos!


UM NOVO ANO DE AMIZADE COM CRISTO PARA SERMOS HOMENS DE PAZ


PAPA BENTO XVI


AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009




Os votos de que o ano novo seja vivido na amizade com Cristo e em paz concluiu a última audiência geral de 2009, na manhã de quarta-feira, 30 de Dezembro, na Sala Paulo VI.

Queridos irmãos e irmãs!

Nesta última audiência do ano gostaria de vos falar de Pedro Lombardo: um teólogo que viveu no século xii, que gozou de grande fama, porque uma sua obra, intitulada Sentenças, foi adoptada como manual de teologia por muitos séculos.

Quem era portanto Pedro Lombardo? Mesmo se as notícias sobre a vida são escassas, podemos contudo reconstruir as linhas essenciais da sua biografia. Nasceu entre os séculos xi e xii, nas redondezas de Novara, no Norte da Itália, num território outrora pertencente aos Longobardos: precisamente por isto foi-lhe dado o apelativo "Lombardo". Ele pertencia a uma família de condições modestas, como podemos deduzir da carta de apresentação que Bernardo de Claraval escreveu a Gilduíno, superior da abadia de São Vítor em Paris, para lhe pedir que hospedasse gratuitamente Pedro, que desejava ir àquela cidade por motivos de estudo. De facto, também na Idade Média não só os nobres ou os ricos podiam estudar e desempenhar papéis importantes na vida eclesial e social, mas também pessoas com origens humildes, como por exemplo Gregório vii, o Papa que enfrentou o Imperador Henrique iv, ou Maurício de Sully, o Arcebispo de Paris que mandou construir Notre-Dame e que era filho de um pobre agricultor.

Pedro Lombardo iniciou os seus estudos em Bolonha, depois foi a Reims, e por fim a Paris. A partir de 1140 ensinou na prestigiosa escola de Notre-Dame. Estimado e apreciado como teólogo, oito anos mais tarde foi encarregado pelo Papa Eugénio iii de examinar as doutrinas de Gilberto Porretano, que suscitavam muitos debates, porque eram consideradas não totalmente ortodoxas. Tendo-se tornado sacerdote, foi nomeado Bispo de Paris em 1159, um ano antes da sua morte, em 1160.

Como todos os mestres de teologia do seu tempo, também Pedro escreveu discursos e textos de comentário à Sagrada Escritura. A sua obra-prima é constituida pelos quatro livros das Sentenças. Trata-se de um texto nascido e finalizado para o ensino. Segundo o método teológico em uso naqueles tempos, era necessário antes de tudo conhecer, estudar e comentar o pensamento dos Padres da Igreja e de outros escritores considerados influentes. Por isso, Pedro recolheu uma documentação muito ampla, constituída principalmente pelo ensinamento dos grandes Padres latinos, sobretudo de Santo Agostinho, e aberta à contribuição de teólogos seus contemporâneos. Entre outras, ele utilizou também uma obra enciclopédica de teologia grega, há pouco tempo conhecida no Ocidente: A fé ortodoxa, composta por São João Damasceno. O grande mérito de Pedro Lombardo é ter organizado todo o material, que reuniu e seleccionou com cuidado, num quadro sistemático e harmonioso. De facto, uma das características da teologia é organizar de modo unitário e ordenado o património da fé. Por conseguinte, ele distribuiu as sentenças, ou seja, as fontes patrísticas sobre os vários argumentos, em quatro livros. No primeiro trata-se de Deus e do mistério trinitário; no segundo, da obra da criação, do pecado e da Graça; no terceiro, do Mistério da Encarnação e da obra da Redenção, com uma ampla exposição sobre as virtudes. O quarto livro é dedicado aos sacramentos e às realidades últimas, as da vida eterna, ou Novíssimos. A visão de conjunto que se obtém disto inclui quase todas as verdades da fé católica. Este olhar sintético e a apresentação clara, ordenada, esquemática e sempre coerente, explicam o sucesso extraordinário das Sentenças de Pedro Lombardo. Elas permitiam uma aprendizagem certa por parte dos estudantes, e um amplo espaço de aprofundamento para os mestres, os professores que delas se serviam. Um teólogo franciscano, Alexandre de Hales, que viveu uma geração depois de Pedro, introduziu nas Sentenças uma subdivisão, que tornou mais fácil a sua consulta e estudo. Também os maiores teólogos do século xiii, Alberto Magno, Boaventura de Bagnoregio e Tomás de Aquino, iniciaram a sua actividade académica comentando os quatro livros das Sentenças de Pedro Lombardo, enriquecendo-as com as suas reflexões. O texto de Lombardo foi o livro usado por todas as escolas de teologia, até ao século xvi.

Desejo ressaltar como a apresentação orgânica da fé é uma exigência irrenunciável. De facto, cada uma das verdades da fé se iluminam reciprocamente e, numa sua visão total e unitária, sobressai a harmonia do plano de salvação de Deus e a centralidade do Mistério de Cristo. A exemplo de Pedro Lombardo, convido todos os teólogos e os sacerdotes a ter sempre presente a visão total da doutrina cristã contra os riscos actuais de fragmentação e da desvalorização de cada uma das verdades. O Catecismo da Igreja Católica, assim como o Compêndio do mesmo Catecismo, oferecem-nos precisamente este quadro completo da Revelação cristã, que se deve acolher com fé e gratidão. Gostaria de encorajar portanto também cada um dos fiéis e comunidades cristãs a aproveitar estes instrumentos para conhecer e aprofundar os conteúdos da nossa fé. Assim ela há-de parecer-nos uma maravilhosa sinfonia, que nos fala de Deus e do seu amor e que solicita a nossa adesão firme e resposta laboriosa.

Para ter uma ideia do interesse que ainda hoje a leitura das Sentenças de Pedro Lombardo pode suscitar, proponho dois exemplos. Inspirando-se no comentário de Santo Agostinho ao livro do Génesis, Pedro interroga-se acerca do motivo pelo qual a criação da mulher foi realizada a partir da costela de Adão e não da sua cabeça ou dos seus pés. E explica: "Era formada não uma dominadora nem sequer uma escrava do homem, mas uma sua companheira" (Sentenças 3, 18, 3). Depois, sempre com base no ensinamento patrístico, acrescenta: "Nesta acção está representado o mistério de Cristo e da Igreja. De facto, assim como a mulher foi formada da costela de Adão enquanto ele dormia, assim a Igreja nasceu dos sacramentos que iniciaram a brotar do lado de Cristo que dormia na Cruz, ou seja, do sangue e da água, com que somos remidos da pena e purificados da culpa" (Sentenças 3, 18, 4). São reflexões profundas e válidas ainda hoje, quando a teologia e a espiritualidade do matrimónio cristão aprofundaram muito a analogia com a relação esponsal entre Cristo e a sua Igreja.

Noutra passagem da sua obra principal, Pedro Lombardo, falando sobre os merecimentos de Cristo, interroga-se: "Por que razão, então [Cristo] quis padecer e morrer, se as suas virtudes já eram suficientes para lhe obter todos os méritos?". A sua resposta é incisiva e eficaz: "Para ti, não para si mesmo!". Depois prossegue com outra pergunta e outra resposta, que parecem reproduzir os debates que eram feitos durante as lições dos mestres de teologia da Idade Média: "E em que sentido ele sofreu e morreu por mim? Para que a sua paixão e a sua morte fossem para ti exemplo e causa. Exemplo de virtude e de humildade, causa de glória e de liberdade; exemplo dado por Deus obediente até à morte; causa da tua libertação e da tua bem-aventurança" (Sentenças 3, 18, 5).

Entre os contributos mais importantes oferecidos por Pedro Lombardo para a história da teologia, gostaria de recordar a sua análise sobre os sacramentos, dos quais deu uma descrição diria definitiva: "É chamado sacramento em sentido próprio aquilo que é sinal da graça de Deus e forma visível da graça invisível, de tal modo que traz a sua imagem e é a sua causa" (4, 1, 4). Com esta definição Pedro Lombardo colhe a essência dos sacramentos: eles são causa da graça, têm a capacidade de continuar realmente a vida divina. Os teólogos sucessivos não abandonarão esta visão e utilizarão também a distinção entre elemento material e elemento formal, introduzida pelo "Mestre das Sentenças", como foi chamado Pedro Lombardo. O elemento material é a realidade sensível e visível, o formal são as palavras pronunciadas pelo ministro. Ambos são essenciais para uma celebração completa e válida dos sacramentos: a matéria, a realidade com a qual o Senhor nos toca visivelmente e a palavra que dá o significado espiritual. No Baptismo, por exemplo, o elemento material é a água que se derrama sobre a cabeça da criança e o elemento formal são as palavras: "Eu te baptizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo". Além disso, Lombardo esclareceu que só os sacramentos transmitem objectivamente a graça divina e que são sete: o Baptismo, a Confirmação, a Eucaristia, a Penitência, a Unção dos Enfermos, a Ordem e o Matrimónio (cf. Sentenças 4, 2, 1).

Queridos irmãos e irmãs, é importante reconhecer como é preciosa e indispensável para cada cristão a vida sacramental, na qual o Senhor através desta matéria, na comunidade da Igreja, nos toca e nos transforma. Como recita o Catecismo da Igreja Católica, os sacramentos são "forças que saem do Corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante, acções do Espírito Santo" (n. 1116). Neste Ano sacerdotal, que estamos a celebrar, exorto os sacerdotes, sobretudo os ministros que curam as almas, a terem eles mesmos primeiro, uma intensa vida sacramental para servirem de ajuda aos fiéis. A celebração dos sacramentos distinga-se por dignidade e decoro, favoreça o recolhimento pessoal e a participação comunitária, o sentido da presença de Deus e o ardor missionário. Os sacramentos são o grande tesouro da Igreja e a cada um de nós compete a tarefa de os celebrar com fruto espiritual. Neles, um acontecimento sempre surpreendente toca a nossa vida: Cristo, através dos sinais visíveis, vem ao nosso encontro, purifica-nos, transforma-nos e torna-nos partícipes da sua amizade divina.

Queridos amigos, chegamos ao fim deste ano e estamos às portas do novo. Desejo-vos que a amizade de Nosso Senhor Jesus Cristo vos acompanhe todos os dias deste ano que está para iniciar. Possa esta amizade de Cristo ser nossa luz e guia, ajudando-nos a ser homens de paz, da sua paz. Bom ano a todos vós!


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