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Papa Bento XVI: nunca procureis a beleza distante da verdade e da caridade




Senhores Cardeais
Venerados Irmãosno Episcopado e no Sacerdócio
Prezados amigos


Para mim é uma grande alegria encontrar-me convosco e receber a vossa homenagem criativa e multiforme, por ocasião do sexagésimo aniversário da minha Ordenação sacerdotal. Estou-vos sinceramente grato pela vossa proximidade nesta celebração para mim tão significativa e importante. Na Celebração eucarística de 29 de Junho passado, Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, dei graças ao Senhor pela dádiva da vocação presbiteral. Hoje, agradeço-vos a amizade e a gentileza que me manifestais. Saúdo cordialmente o Cardeal Angelo Sodano, decano do sagrado Colégio, e o Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura que, juntamente com os seus colaboradores, organizou esta singular manifestação artística, e agradeço-lhe as amáveis palavras que me transmitiu. Dirijo também a minha saudação a todos os presentes, de modo particular a vós, estimados Artistas, que aceitastes o convite para apresentar uma obra vossa nesta Exposição.

O nosso encontro hodierno, em que tenho a alegria e a curiosidade de admirar as vossas obras, quer ser uma nova etapa daquele percurso de amizade e de diálogo que empreendemos no dia 21 de Novembro de 2009, na Capela Sistina, um acontecimento que ainda trago gravado na minha alma. A Igreja e os artistas voltam a encontrar-se, a falar entre si, a defender a necessidade de um diálogo que quer e deve tornar-se cada vez mais intenso e articulado, também para oferecer à cultura, aliás às culturas do nosso tempo um exemplo eloquente de diálogo fecundo e eficaz, destinado a tornar este nosso mundo mais humano e mais bonito. Hoje vós apresentais-me o fruto da vossa criatividade, da vossa reflexão, do vosso talento, expressões dos vários âmbitos artísticos que aqui representais: pintura, escultura, arquitectura, ourivesaria, fotografia, cinema, música, literatura e poesia. Antes de as admirar juntamente convosco, permite que eu medite um momento sobre o título sugestivo desta Exposição: «O esplendor da verdade, a beleza da caridade». Precisamente na homilia da Messa pro eligendo pontifice,comentando a bonita expressão de São Paulo, tirada da Carta aos Efésios, «veritatem facientes in caritate» (4, 15), eu defini a «realização da verdade na caridade» como uma fórmula fundamental da existência cristã. E acrescentei: «Em Cristo, a verdade e a caridade coincidem. Na medida em que nos aproximamos de Cristo, também a nossa vida, a verdade e a caridade se fundem. A caridade sem a verdade seria cega; a verdade sem a caridade seria como “um címbalo que retina” (1 Cor 13, 1)». É precisamente a partir da união, queria dizer da sinfonia, da harmonia perfeita entre verdade e caridade, que emana a beleza autêntica, capaz de suscitar admiração, maravilha e alegria verdadeira no coração dos homens. O mundo em que vivemos tem necessidade de que a verdade resplandeça e não seja ofuscada pela mentira nem pela banalidade; tem necessidade de que a caridade se inflame e não seja derrotada pelo orgulho e pelo egoísmo. Temos necessidade de que a beleza da verdade e da caridade alcance o íntimo do nosso coração e o torne mais humano.

Caros amigos, gostaria de renovar-vos, bem como a todos os artistas, um apelo amistoso e apaixonado: jamais separeis a criatividade artística da verdade e da caridade, nunca procureis a beleza distante da verdade e da caridade, mas com a riqueza da vossa genialidade, do vosso impulso criativo sede sempre, com coragem, investigadores da verdade e testemunhas da caridade; fazei resplandecer a verdade nas vossas obras e fazei com que a sua beleza suscite no olhar e no coração de quantos as admiram o desejo e a necessidade de tornar bela e verdadeira a existência, cada existência, enriquecendo-a com aquele tesouro que nunca desfalece, que faz da vida uma obra-prima, e de cada homem um artista extraordinário: a caridade, o amor. O Espírito Santo, artífice de toda a beleza que existe no mundo, vos ilumine sempre e vos oriente para a Beleza derradeira e definitiva, aquela que desperta a nossa mente e aquece o nosso coração, e que um dia esperamos poder contemplar em todo o seu esplendor.

Mais uma vez, obrigado pela vossa amizade, pela vossa presença e porque levais ao mundo um raio daquela Beleza, que é Deus. Do íntimo do coração, concedo a minha Bênção apostólica a todos vós, aos vossos entes queridos e a todo o mundo da arte.

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

NA INAUGURAÇÃO DA EXPOSIÇÃO PREPARADA
POR OCASIÃO DOS SESSENTA ANOS DE SACERDÓCIO
Átrio da Sala Paulo VI

Segunda-feira 4 de Julho de 2011



© Copyright 2011 - Libreria Editrice Vaticana

A teologia segundo Ratzinger

Os três premiados foram:Manlio Simonetti (na foto, recebendo o prêmio das mãos do papa), estudioso de literatura cristã antiga e da patrística; Olegario González de Cardedal, sacerdote espanhol, professor de teologia sistemática; Maximilian Heim, cisterciense alemão, abade do mosteiro deHeiligenkreuz, na Áustria, e professor de teologia fundamental e dogmática.


Durante a cerimônia entrega a três teólogos do prêmio que leva o seu nome, Bento XVI voltou a abordar a questão da relação entre fé e razão.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 30-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É possível uma teologia que seja "ciência da fé"? A fé cristã, "por sua própria natureza", deve "interrogar-se sobre a razoabilidade da fé". A afirmação é do papa, na manhã de hoje, ao entregar a três estudiosos o "Prêmio Ratzinger", instituído pela Fundação Vaticana Joseph Ratzinger - Bento XVI, liderada pelo monsenhor Giuseppe Scottie cujo comitê científico é presidido pelo cardeal Camillo Ruini.


Bento XVI, em seu discurso, se concentrou sobre o que a teologia é verdadeiramente. "É ciência da fé, diz-nos a tradição. Mas aqui surge logo a pergunta: isso é realmente possível? Ou isso não é, em si mesmo, uma contradição? A ciência não é talvez o contrário da fé? A fé não deixa de ser fé quando se torna ciência? E a ciência não deixa de ser ciência quando é ordenada ou até subordinada à fé?".

Perguntas que se tornam ainda mais impulsivas e, "à primeira vista, até mesmo sem solução" com o moderno conceito de ciência. Eis por que, nos nossos tempos, a teologia, "em vastos âmbitos", tenha se retirado para o campo da história, "a fim de demonstrar aqui a sua séria cientificidade", ou para a práxis, "para mostrar como a teologia, em conexão com a psicologia e a sociologia, é uma ciência útil que oferece indicações concretas para a vida".

A questão da verdade

Mas ambas os caminhos, diz Ratzinger, embora úteis e importantes, não são suficientes e "tornam-se subterfúgios, se a verdadeira pergunta fica sem resposta", isto é: "é verdade aquilo em que acreditamos ou não? Na teologia, está em jogo a questão acerca da verdade. Ela é o seu fundamento último e essencial". Bento XVI, portanto, explicou que "o aspecto revolucionário" do cristianismo foi a "ruptura com o 'costume' por amor da verdade", a ruptura com as "formas tradicionais" de culto que sempre haviam sido observadas.

"Se Cristo é o Logos, a verdade – disse o Papa –, o homem deve corresponder-Lhe com o seu próprio logos, com a sua razão. Para chegar a Cristo, ele deve estar no caminho da verdade. Deve se abrir ao Logos, para a Razão criadora, da qual deriva a sua própria razão e a qual ela o remete".

Daí se entende que "a fé cristã, por sua própria natureza, deve suscitar a teologia, deve se interrogar sobre a razoabilidade da fé, embora, naturalmente, o conceito de razão e o de ciência abracem muitas dimensões, e assim a natureza concreta do nexo entre fé e razão devia e deve ser sempre reexaminada".

Os dois usos da razão

Ratzinger, em seguida, repropôs uma observação de São Boaventura, que, no prólogo ao seu Comentário sobre as Sentenças, falou de um duplo uso da razão: um que é inconciliável com a natureza da fé, e outro que, ao contrário, pertence justamente à natureza da fé. O primeiro consiste no "despotismo da razão, que se torna juíza suprema de tudo". É um desejo de colocar Deus à prova, submetê-Lo a interrogatório, submetê-Lo a "um processo de prova experimental". "Essa modalidade de uso da razão, na idade moderna, atingiu o cume do seu desenvolvimento no âmbito das ciências naturais. A razão experimental aparece hoje, amplamente, como a única forma de racionalidade declarada como científica". Assim, aquilo que não pode ser cientificamente verificado ou falsificado "cai fora do âmbito científico".

Com essa definição, reconhece Bento XVI, "foram realizadas obras grandiosas. Ninguém quererá seriamente pôr em dúvida que ela é justa e necessária no âmbito do conhecimento da natureza e das suas leis". No entanto, há um limite a esse uso da razão: "Deus não é um objeto da experimentação humana. Ele é Sujeito e se manifesta apenas na relação de pessoa a pessoa: isso faz parte da essência da pessoa".

Nessa perspectiva, eis o segundo uso da razão, segundo São Boaventura, "que vale para o âmbito do 'pessoal', para as grandes questões do próprio ser homem. O amor quer conhecer melhor aquele que ama. O amor, o amor verdadeiro, não nos torna cegos, mas sim videntes. Faz parte disso justamente a sede de conhecimento, de um verdadeiro conhecimento do outro".

Por isso, explica Ratzinger, os Padres da Igreja "encontraram os precursores e os predecessores do cristianismo – fora do mundo da revelação de Israel – não no âmbito na religião de costume, mas sim nos homens em busca de Deus, nos 'filósofos': em pessoas que estavam sedentas pela verdade e estavam, portanto, no caminho para Deus".

"Quando não há esse uso da razão – concluiu Bento XVI – então as grandes questões da humanidade caem fora do âmbito da razão e são deixadas para a irracionalidade. Por isso, uma autêntica teologia é tão importante. A fé reta orienta a razão a se abrir ao divino, para que ela, guiada pelo amor à verdade, possa conhecer Deus mais de perto".


Beleza é uma harmonia entre verdade e caridade

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 4 de julho de 2011 (ZENIT.org) – A autêntica beleza emana da harmonia entre a verdade e a caridade, disse hoje Bento XVI.

No átrio da Sala Paulo VI, o Papa inaugurou uma exposição artística em homenagem aos seus 60 anos de sacerdócio, mostra que será exibida até o dia 4 de setembro.

A Igreja e os artistas voltam a encontrar-se, a falar-se, a apoiar a necessidade de um diálogo que busca e deve chegar a ser cada vez mais intenso e articulado”, disse o Papa em seu discurso dirigido aos artistas.

Nesse sentido – prosseguiu – é preciso “oferecer à cultura – mais ainda, às culturas da nossa época – um exemplo eloquente de diálogo fecundo e eficaz, orientado a tornar este nosso mundo mais humano e mais belo”.

Na exposição constam expressões de diversos âmbitos artísticos: pintura, escultura, arquitetura, ourivesaria, fotografia, cinema, música, literatura e poesia.

“Antes de admirá-las junto a vós, permiti que eu me detenha só um momento no sugestivo título desta exposição: ‘O esplendor da verdade, a beleza da caridade’”

O Papa recordou então sua homilia Missa pro eligendo pontifice, onde comentou a expressão de São Paulo na Carta aos Efésios, veritatem facientes in caritate (4,15). Ali ele definiu o “fazer a verdade na caridade” como uma fórmula fundamental da existência cristã.

“E acrescentei: ‘Em Cristo, coincidem verdade e caridade. Na medida em que nos aproximamos de Cristo, também na nossa vida, verdade e caridade fundem-se. A caridade sem verdade seria cega; a verdade sem caridade seria como 'um címbalo que retine'”.

Segundo o Papa, é precisamente “a partir da união – da sinfonia, eu diria –, a partir da perfeita harmonia de verdade e caridade que emana a autêntica beleza, capaz de suscitar admiração, maravilha e alegria verdadeira no coração dos homens”. 

O mundo em que vivemos precisa de que a verdade resplandeça e não seja ofuscada pela mentira nem pela banalidade; precisa de que a caridade inflame e não seja superada pelo orgulho e pelo egoísmo. Precisamos de que a beleza da verdade e da caridade alcance o íntimo do nosso coração e o torne mais humano”, disse.

Bento XVI renovou aos artistas “um convite amistoso e apaixonado”: “não separeis jamais a criatividade artística da verdade e da caridade; não busqueis jamais a beleza longe da verdade e da caridade; pelo contrário: com a riqueza da vossa genialidade, do vosso impulso criativo, sede sempre, com coragem, buscadores da verdade e testemunhas da caridade”.

Pediu ainda a eles: “fazei resplandecer a verdade nas vossas obras e fazei-o de maneira que sua beleza desperte, no olhar e no coração de quem as admira, o desejo de tornar bela e verdadeira a existência, toda existência, enriquecendo-a com esse tesouro que não diminui nunca, que faz da vida uma obra de arte e de cada homem um artista extraordinário: a caridade, o amor”.

O Papa desejou que o Espírito Santo, “artífice de toda a beleza que existe no mundo”, ilumine sempre os artistas e os guie “rumo à Beleza última e definitiva, a que inflama nossa mente e nosso coração e que esperamos poder contemplar um dia em todo o seu esplendor”.

Papa Bento XVI: É na formação das consciências que a Igreja oferece à sociedade a sua contribuição mais específica e preciosa


Senhor Presidente,
Senhores Cardeais,
Ilustres Senhores e Senhoras,
Amados irmãos e irmãs!

Estou muito feliz por poder começar a minha visita encontrando-vos, a vós que representais âmbitos qualificados da sociedade croata e o Corpo Diplomático. Dirijo a minha saudação cordial a cada um de vós pessoalmente e também às realidades vitais a que pertenceis: às comunidades religiosas, às instituições políticas, científicas e culturais, aos sectores artístico, económico e desportivo. Agradeço sentidamente a Mons. Puljić e ao Prof. Zurak as amáveis palavras que me dirigiram, bem como aos artistas que me acolheram com a linguagem universal da música. A dimensão da universalidade, que caracteriza a arte e a cultura, é conatural de um modo particular ao cristianismo e à Igreja Católica. Cristo é plenamente homem, e tudo aquilo que é humano encontra n’Ele e na sua Palavra plenitude de vida e de significado.

Este Teatro esplêndido é um lugar simbólico, que exprime a vossa identidade nacional e cultural. O facto de vos poder encontrar aqui, todos juntos, é mais um motivo de alegria do espírito, porque a Igreja é um mistério de comunhão e rejubila sempre com a comunhão na riqueza das diversidades. A participação dos Representantes das outras Igrejas e Comunidades cristãs, bem como das religiões hebraica e muçulmana, contribui para nos lembrar que a religião não é uma realidade aparte relativamente à sociedade: pelo contrário, é uma sua componente conatural, que evoca constantemente a dimensão vertical, a escuta de Deus como condição para a busca do bem comum, da justiça e da reconciliação na verdade. A religião coloca o homem em relação com Deus, Criador e Pai de todos, e, por conseguinte, deve ser uma força de paz. As religiões sempre se devem purificar segundo esta sua verdadeira essência, para corresponderem à sua genuína missão.

E aqui queria introduzir o tema central desta minha breve reflexão: a consciência. Transversal aos diferentes campos onde estais empenhados, este tema é fundamental para uma sociedade livre e justa, tanto a nível nacional como supranacional. Aqui penso naturalmente na Europa, de que a Croácia faz parte desde sempre no plano histórico-cultural, ao passo que, no plano político-institucional, está em vias de entrar na União. Pois bem, as grandes conquistas da idade moderna, ou seja, o reconhecimento e a garantia da liberdade de consciência, dos direitos humanos, da liberdade da ciência e, consequentemente, de uma sociedade livre, há que confirmá-las e desenvolvê-las mas mantendo a racionalidade e a liberdade abertas ao seu fundamento transcendente, para evitar que tais conquistas se auto-destruam, como infelizmente temos de constatar em não poucos casos. A qualidade da vida social e civil, a qualidade da democracia dependem em grande parte deste ponto «crítico» que é a consciência, de como a mesma é entendida e de quanto se investe na sua formação. Se a consciência se reduz, segundo o pensamento moderno predominante, ao âmbito da subjectividade, para o qual se relegam a religião e a moral, a crise do Ocidente não tem remédio e a Europa está destinada à involução. Pelo contrário, se a consciência é descoberta novamente como lugar da escuta da verdade e do bem, lugar da responsabilidade diante de Deus e dos irmãos em humanidade – que é a força contra toda a ditadura – então há esperança para o futuro.

Estou grato ao Prof. Zurak por ter lembrado as raízes cristãs de numerosas instituições culturais e científicas deste país, como aliás aconteceu em todo o continente europeu. O lembrar estas origens é necessário inclusive para a verdade histórica, mas é importante saber lê-las em profundidade a fim de que possam animar também os dias de hoje. Por outras palavras, é decisivo captar o dinamismo que está dentro do acontecimento, por exemplo, da criação duma universidade, ou dum movimento artístico, ou dum hospital. É preciso compreender o porquê e o como de isso ter acontecido, para se valorizar nos dias de hoje tal dinamismo, que é uma realidade espiritual que se torna cultural e, consequentemente, social. Na base de tudo, encontram-se homens e mulheres, encontram-se pessoas, consciências, movidas pela força da verdade e do bem. Foram citados alguns dos filhos ilustres desta terra. Gostaria de deter-me no Padre jesuíta Ruđer Josip Bošković, que nasceu em Dubrovnik há trezentos anos, no dia 18 de Maio de 1711. Ele personifica muito bem o consórcio feliz entre a fé e a ciência, que se estimulam reciprocamente a uma pesquisa ao mesmo tempo aberta, diversificada e capaz de síntese. A sua obra mais importante, Theoria philosophiae naturalis, publicada em Viena e depois em Veneza a meados do século XVIII, tem um subtítulo muito significativo: redacta ad unicam legem virium in natura existentium, ou seja, «segundo a única lei das forças existentes na natureza». Em Bošković, temos a análise, o estudo de múltiplos ramos do saber, mas temos também a paixão pela unidade. E isto é típico da cultura católica. Por isso, é sinal de esperança a fundação de uma Universidade Católica na Croácia. Espero que esta contribua para criar unidade entre os diversos âmbitos da cultura contemporânea, os valores e a identidade do vosso povo, dando continuidade à fecunda contribuição da Igreja para a história da nobre Nação croata. Voltando ao Padre Bošković, dizem os peritos que a sua teoria da «continuidade», válida tanto nas ciências naturais como na geometria, concorda magnificamente com algumas das grandes descobertas da física contemporânea. Que podemos dizer? Prestemos homenagem ao croata ilustre, mas também ao jesuíta autêntico; prestemos homenagem ao cultor da verdade que está bem ciente de quanto esta o supere, mas sabe também, à luz da verdade, empenhar profundamente os recursos da razão que o próprio Deus lhe concedeu.

Contudo, para além da homenagem, é preciso aproveitar o método, a abertura mental destes grandes homens. Voltemos, pois, à consciência como chave mestra para a elaboração cultural e a construção do bem comum. É na formação das consciências que a Igreja oferece à sociedade a sua contribuição mais específica e preciosa. Uma contribuição que começa na família e que encontra um reforço importante na paróquia, onde as crianças e adolescentes e, depois, os jovens aprendem a aprofundar as Sagradas Escrituras, que são o «grande códice» da cultura europeia; e, ao mesmo tempo, aprendem o sentido da comunidade fundada no dom: não no interesse económico ou na ideologia, mas no amor, que é «a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira» (Caritas in veritate, 1). Aprendida na infância e na adolescência, esta lógica da gratuidade é, depois, vivida nos diversos âmbitos, no jogo e no desporto, nas relações interpessoais, na arte, no serviço voluntário aos pobres e aos doentes, e, uma vez assimilada, pode-se concretizar nos âmbitos mais complexos da política e da economia, colaborando para uma polis que seja acolhedora e hospitaleira, e que ao mesmo tempo não seja vazia, nem falsamente neutra, mas rica de conteúdos humanos, com uma forte consistência ética. É aqui que os christifideles laici estão chamados a fazer render generosamente a sua formação, guiados pelos princípios da Doutrina Social da Igreja, por uma autêntica laicidade, a justiça social, a defesa da vida e da família, a liberdade religiosa e educativa.

Ilustres amigos, a vossa presença e a tradição cultural croata sugeriram-me estas breves reflexões. Deixo-vo-las como sinal da minha estima e sobretudo da vontade que tem a Igreja de caminhar com a luz do Evangelho no meio deste povo. Agradeço-vos pela vossa atenção e de coração abençoo a todos vós, os vossos entes queridos e as vossas actividades!

ENCONTRO COM EXPOENTES DA SOCIEDADE CIVIL, 
DO MUNDO POLÍTICO, ACADÉMICO, CULTURAL 
E EMPRESARIAL, COM O CORPO DIPLOMÁTICO 
E COM OS LÍDERES RELIGIOSOS

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
Teatro Nacional Croata - Zagreb
Sábado, 4 de Junho de 2011
  
© Copyright 2011 - Libreria Editrice Vaticana

A verdadeira adoração é o amor

PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Praça de São Pedro
Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

Prezados irmãos e irmãs
Na história religiosa do antigo Israel, tiveram grande relevância os profetas com o seu ensinamento e a sua pregação. Entre eles, sobressai a figura de Elias, suscitado por Deus para levar o povo à conversão. O seu nome significa «o Senhor é o meu Deus» e é em sintonia com este nome que se desenvolve a sua vida, inteiramente consagrada a provocar no povo o reconhecimento do Senhor como único Deus. De Elias, o Ben Sirá diz: «Levantou-se depois o profeta Elias, ardoroso como o fogo; as suas palavras ardiam como uma tocha» (Ecli 48, 1). Com esta chama, Israel volta a encontrar o seu caminho para Deus. No seu ministério, Elias reza: invoca o Senhor para que restitua a vida ao filho de uma viúva que o tinha hospedado (cf.1 Rs 17, 17-24), clama a Deus o seu cansaço e a sua angústia, enquanto foge para o deserto procurado pela rainha Jezabel que o queria matar (cf. 1 Rs 19, 1-4), mas é sobretudo no monte Carmelo que se mostra em todo o seu poder de intercessor quando, diante de todo o Israel, reza ao Senhor para que se manifeste e converta o coração do povo. É o episódio narrado no capítulo 18 do primeiro Livro dos Reis, sobre o qual hoje meditamos.

Encontramo-nos no reino do Norte, no século IX a.C., na época do rei Acab, num momento em que em Israele se tinha criado uma situação de sincretismo aberto. Além do Senhor, o povo adorava Baal, o ídolo tranquilizador do qual se acreditava que derivava o dom da chuva e ao qual, por isso, se atribuía o poder de dar fertilidade aos campos e vida aos homens e ao gado. Embora pretendesse seguir o Senhor, Deus invisível e misterioso, o povo procurava a segurança também num deus compreensível e previsível, do qual julgava que podia obter a fecundidade e a prosperidade, em troca de sacrifícios. Israele cedia à sedução da idolatria, a tentação contínua do crente, iludindo-se que podia «servir a dois senhores» (cf.Mt 6, 24; Lc 16, 13), e facilitar os caminhos impérvios da fé do Todo-Poderoso, depositando de novo a sua confiança também num deus impotente, feito pelos homens.

É precisamente para desmascarar a insensatez enganadora de tal atitude que Elias manda reunir o povo de Israel no monte Carmelo e que o põe diante da necessidade de fazer uma escolha: «Se o Senhor é Deus, segui-o, mas se é Baal, segui Baal» (1 Rs 18, 21). E o profeta, portador do amor de Deus, não deixa sozinho o seu povo perante esta escolha, mas ajuda-o, indicando-lhe o sinal que revelará a verdade: tanto ele como os profetas de Baal prepararão um sacrifício e rezarão, e o Deus verdadeiro manifestar-se-á, respondendo com o fogo que consumará o holocausto. Assim começa o confronto entre o profeta Elias e os seguidores de Baal, que na realidade está entre o Senhor de Israel, Deus de salvação e de vida, e o ídolo mudo e sem qualquer consistência, que nada pode, nem no bem nem no mal (cf. Jr 10, 5). E começa inclusive o confronto entre dois modos completamente diferentes de se dirigir a Deus e orar.

Com efeito, os profetas de Baal, clamam, agitam-se, dançam saltando, entram num estado de exaltação e chegam até a cortar-se «com espadas e lanças, até se cobrirem de sangue» (1 Rs 18, 28). Eles recorrem a si mesmos para interpelar o seu deus, confiando nas próprias capacidades para suscitar a sua resposta. Revela-se deste modo a realidade enganadora do ídolo: ele é pensado pelo homem como algo de que se pode dispor, que se pode gerir com as próprias forças, ao qual se pode aceder a partir de si mesmo e da própria força vital. A adoração do ídolo, em vez de abrir o coração humano à Alteridade, a uma relação libertadora que permita sair do espaço limitado do próprio egoísmo para aceder a dimensões de amor e de dom recíproco, fecha a pessoa no círculo exclusivo e desesperador da busca de si mesmo. E o engano é tal que, adorando o ídolo, o homem se encontra obrigado a gestos extremos, na tentativa ilusória de o submeter à própria vontade. Por isso, os profetas de Baal chegam a angustiar-se, a provocar feridas no corpo, com um gesto dramaticamente irónico: para ter uma resposta, um sinal de vida do seu deus, chegam a cobrir-se de sangue, e com ele simbolicamente de morte.

A atitude de oração de Elias, ao contrário, é muito diferente. Ele pede ao povo que se aproxime, envolvendo-o deste modo na sua acção e na sua súplica. A finalidade do desafio por ele dirigido aos profetas de Baal consistia em reconduzir para Deus o povo que se tinha perdido, seguindo os ídolos; por isso, ele quer que Israel se una a ele, tornando-se partícipe e protagonista da sua oração e daquilo que estava a acontecer. Depois, o profeta erige um altar utilizando, como o texto descreve, «doze pedras, segundo o número das doze tribos saídas dos filhos de Jacob, a quem o Senhor dissera: “Tu chamar-te-ás Israel”» (v. 31). Aquelas pedras representam todo o Israel, e constituem a memória tangível da história de eleição, de predilecção e de salvação, da qual o povo fora objecto. O gesto litúrgico de Elias tem um alcance decisivo; o altar é lugar sagrado que indica a presença do Senhor, mas aquelas pedras que o compõem representam o povo, que agora, graças à mediação do profeta, é colocado simbolicamente diante de Deus, tornando-se «altar», lugar de oferenda e de sacrifício.

Mas é necessário que o símbolo se torne realidade, que Israel reconheça o verdadeiro Deus e volte a encontrar a própria identidade de povo do Senhor. Por isso, Elias pede a Deus que se manifeste, e aquelas doze pedras, que deviam recordar a Israel a sua verdade, servem também para recordar ao Senhor a sua fidelidade, à qual o profeta se apela na oração. As palavras da sua invocação são densas de significado e de fé: «Senhor Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saibam todos hoje que sois o Deus de Israel, que eu sou vosso servo e que por vossa ordem fiz todas estas coisas. Ouvi-me, Senhor, ouvi-me: que este povo reconheça que vós, Senhor, sois Deus, e que sois vós que converteis os seus corações!» (vv. 36-37; cf. Gn 32, 36-37). Elias dirige-se ao Senhor, chamando-lhe Deus dos Pais, fazendo assim memória implícita das promessas divinas e da história de eleição e de aliança, que uniu indissoluvelmente o Senhor ao seu povo. O compromisso de Deus na história dos homens é tal que o seu Nome já está ligado de maneira inseparável ao dos Patriarcas, e o profeta pronuncia aquele Nome santo para que Deus se recorde e se mostre fiel, mas também a fim de que Israel se sinta chamado pelo nome e volte a encontrar a sua fidelidade. Com efeito, o título divino pronunciado por Elias parece um pouco surpreendente. Em vez de utilizar a fórmula habitual, «Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob», ele recorre a um apelativo menos comum: «Deus de Abraão, de Isaac e de Israel». A substituição do nome «Jacob» com «Israel» evoca a luta de Jacob no vau do Jaboc, com a troca do nome à qual o narrador faz uma referência explícita (cf. Gn 32, 31) e da qual falei numa das últimas catequeses. Tal substituição adquire um significado expressivo no contexto da invocação de Elias. O profeta reza pelo povo do reino do Norte, que se chamava precisamente Israel, distinto de Judá, que indicava o reino do Sul. E agora este povo, que parece ter esquecido a própria origem e a sua relação privilegiada com o Senhor, sente-se chamado pelo nome, enquanto é pronunciado o Nome de Deus, Deus do Patriarca e Deus do povo: «Senhor Deus [...] de Israel, saibam todos hoje que sois o Deus de Israel».

O povo pelo qual Elias reza é posto de novo diante da própria verdade, e o profeta pede que também a verdade do Senhor se manifeste e que Ele intervenha para converter Israel, dissuadindo-o do engano da idolatria e levando-o assim à salvação. O seu pedido é para que o povo enfim saiba, conheça de modo pleno quem é verdadeiramente o seu Deus, e faça a escolha decisiva de seguir só Ele, o Deus verdadeiro. Pois somente assim Deus é reconhecido por aquilo que é, Absoluto e Transcendente, sem a possibilidade de lhe pôr ao lado outros deuses, que O negariam como Absoluto, tornando-o relativo. Esta é a fé que faz de Israel o povo de Deus; trata-se da fé proclamada no conhecido texto do Shemá Israel:«Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, toda a tua alma e todas as tuas forças» (Dt 6, 4-5). Ao Absoluto de Deus, o fiel deve responder com um amor absoluto, total, que comprometa a sua vida inteira, as suas forças e o seu coração. E é precisamente para o coração do seu povo que o profeta, com a sua oração, implora a conversão: «Que este povo reconheça que vós, Senhor, sois Deus, e que sois vós que converteis os seus corações!» (1 Rs 18, 37). Com a sua intercessão, Elias pede a Deus o que o próprio Deus deseja realizar, manifestar-se em toda a sua misericórdia, fiel à sua realidade de Senhor da vida que perdoa, converte, transforma.

E é isto que acontece: «O fogo do Senhor baixou do céu e consumiu o holocausto, a lenha, as pedras, a poeira e até mesmo a água do sulco. Vendo isso, o povo prostrou-se com o rosto por terra, exclamando: “O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!”» (vv. 38-39). O fogo, este elemento necessário e ao mesmo tempo terrível, ligado às manifestações divinas da sarça ardente e do Sinai, agora serve para assinalar o amor de Deus, que responde à oração e se revela ao seu povo. Baal, o deus mudo e impotente, não tinha respondido às invocações dos seus profetas; o Senhor, ao contrário, responde, e de modo inequívoco, não só consumindo o holocausto, mas até secando toda a água que tinha sido derramada em volta do altar. Israel já não pode ter dúvidas; a misericórdia divina veio ao encontro da sua debilidade, das suas dúvidas e da sua falta de fé. Agora Baal, o ídolo inútil, é derrotado, e o povo que parecia perdido voltou a achar o caminho da verdade e a encontrar-se a si mesmo.

Estimados irmãos e irmãs, o que nos diz, a nós, esta história do passado? Qual é o presente desta história? Em primeiro lugar está em questão a prioridade do primeiro mandamento: adorar unicamente a Deus. Onde Deus desaparece, o homem cai na escravidão de idolatrias, como mostraram, no nosso tempo, os regimes totalitários e como mostram também diversas formas de niilismo, que tornam o homem dependente de ídolos, de idolatrias, escravizando-o. Em segundo lugar, a finalidade primária da oração é a conversão: o fogo de Deus que transforma o nosso coração e nos torna capazes de ver Deus e, assim, de viver segundo Deus e de viver para o próximo. E o terceiro ponto: os Padres dizem-nos que também esta história de um profeta é profética, se — dizem — é sombra do porvir, do futuro Cristo; é um passo ao longo do caminho rumo a Cristo. E dizem-nos que aqui vemos o verdadeiro fogo de Deus: o amor que orienta o Senhor até à Cruz, até ao dom total de si mesmo. Então, a autêntica adoração de Deus consiste em dar-se a si próprio a Deus e aos homens, a verdadeira adoração é o amor. E a autêntica adoração de Deus não destrói, mas renova e transforma. Sem dúvida, o fogo de Deus, o fogo do amor consome, transforma e purifica, mas precisamente por isso não destrói mas, ao contrário, cria a verdade do nosso ser, volta a criar o nosso coração. E assim, realmente vivos pela graça do fogo do Espírito Santo, do amor de Deus, somos adoradores em espírito e em verdade. Obrigado!


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Vaticano: Bento XVI entrega «nobel» da Teologia e elogia investigação nesta área

Papa sublinha relação entre fé, ciência, razão e religião

D.R. | Bento XVI e Maximilian Heim
Cidade do Vaticano, 30 jun 2011 (Ecclesia) - Bento XVI entregou hoje as distinções correspondentes à primeira edição do Prémio Ratzinger, espécie de “Nobel” da Teologia, elogiando a investigação nesta área.  

Em ordem a chegar a Cristo, cada um deve estar no caminho da verdade; deve estar aberto ao Logos, à razão criativa, da qual a razão humana deriva e para a qual tende”, afirmou, durante a cerimónia que decorreu no Vaticano.

Os premiados desta primeira edição foram Manlio Simonetti, de 85 anos de idade, especialista em literatura cristã antiga e patrística; Olegario González de Cardedal, 77 anos, professor de dogmática na Universidade de Salamanca; Maximilian Heim, professor de 50 anos de idade, que ensina teologia fundamental e dogmática, centrado no ensinamento de Joseph Ratzinger, o atual Papa.

Após assinalar que “a razão experimental é hoje amplamente apontada como a única forma de racionalidade declarada científica”, Bento XVI falou sobre a relação entre ciência e fé, destacando que “existe um limite” a tal uso da razão.

Deus não é objeto da experimentação humana”, mas “sujeito que se manifesta apenas na relação de pessoa a pessoa”.

Nesse sentido, acrescentou, “é possível ver que a fé cristã, pela sua própria natureza, deve dar origem à teologia, deve inquirir a razoabilidade da fé”.

“A natureza concreta do nexo que une fé e razão pode e deve ser sempre explorada de novo”, disse Bento XVI.

O Prémio é um projeto da fundação criada pelo Vaticano e por Bento XVI (Joseph Ratzinger), com o dinheiro recebido pelos direitos de autor dos livros escritos pelo Papa alemão.

A fundação procura ainda dar a conhecer e promover o estudo da Teologia, inspirada pelo pensamento de Joseph Ratzinger

No seu discurso de agradecimento, Maximilian Heim, o mais jovem entre os premiados, deixou uma certeza em nome de todos: "Queremos compreender a teologia como um falar de Deus que precede o encontro vital conforme anunciado, o qual, por sua vez, deve levar ao encontro vital para a oração".
OC
Fonte: Agência Ecclesia
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