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Papa Bento XVI: Um intelectual na cadeira do pescador




Por Luís Miguel Queirós








Bento XVI deixou marcas enquanto prefeito da Congregação da Doutrina da Fé e, apesar da sua idade avançada (83 anos), parecia talhado para um pontificado forte, que apostaria em devolver prestígio ao cristianismo, sobretudo numa Europa em crise de identidade e de valores. Mas arrisca-se, afinal, a que a história o venha a olhar como um Papa de transição e que o escândalo dos abusos sexuais domine a imagem que o futuro fará do seu mandato.

Bento XVI é um Papa polémico. Com as revelações de abusos sexuais praticados na Igreja Católica a sucederem-se a um ritmo assustador, e sendo ele próprio acusado de ter contribuído para o seu encobrimento, defini-lo como "polémico" oscila, claro, entre o lugar-comum e o eufemismo. Mas a verdade é que o adjectivo se lhe adequaria mesmo sem os escândalos que vêm enchendo as primeiras páginas dos jornais.

Para lá da controvérsia que têm gerado algumas das suas posições ou atitudes, Bento XVI é também um Papa polémico no sentido em que perguntas como "quem é este Papa?" ou "para onde quer ele levar a Igreja?" continuam a suscitar, cinco anos após ter passado a usar o "anel do pescador" e se ter sentado na "cátedra de S. Pedro", respostas diversificadas, quando não contraditórias.

É verdade que João Paulo II também não foi consensual. Admirado e amado por muitos, outros viam nele um Papa essencialmente conservador, que manteve a ortodoxia em temas como o celibato dos padres, o sacerdócio feminino, a contracepção, o aborto, a eutanásia ou, para não alongar os exemplos, a utilização de células estaminais embrionárias. Mas Karol Wojtyla era um homem carismático, dotado de uma invulgar força anímica e de um raro talento de comunicador. E as personalidades carismáticas tendem a ser vistas, muitas vezes de forma ilusória, como figuras transparentes. Gosta-se mais ou menos delas, mas acha-se que se sabe quem são e ao que vêm.

A imagem pública de Ratzinger é mais ambígua. Mesmo quem o conhece de perto, tanto o compara a um tanque de guerra alemão - ficou célebre a alcunha de Panzer Kardinal -, como descreve um homem discreto e afável, que bem preferiria viver entre os seus livros e discos de música clássica do que tomar em ombros as duras exigências do papado.





O que ninguém lhe nega é a erudição enciclopédica, o arcaboiço intelectual, os dotes de persuasão argumentativa. Ratzinger é, no sentido forte do termo, um intelectual. Um homem que cita com a mesma naturalidade Platão e Santo Agostinho, Lutero e Marx, Adorno e Heidegger, para já não falar de teólogos hindus ou muçulmanos de que pouca gente no Ocidente conhecerá sequer o nome.








Em 2004, pouco antes de ser eleito Papa, manteve um longo debate com um dos mais sofisticados pensadores da modernidade, Jürgen Habermas, que deu origem ao livro As Dialécticas da Secularização (o debate está publicado em Portugal na revista Estudos, do CADC, de Coimbra). Ambos fizeram consideráveis cedências ao adversário, mas o veredicto de empate técnico talvez seja ligeiramente injusto para Ratzinger, a quem Patrice de Plunkett, autor de Bento XVI e o Plano de Deus, chama, num elogio algo equívoco, "um admirável instrumento de precisão".









Autor de "best-sellers"





João Paulo II inflamava multidões de jovens e e era um produto altamente vendável para o merchandising da Igreja Católica. Ratzinger não vende estatuetas e medalhas. Mas escreve livros que se tornaram best-sellers em muitos países e que, na sua Alemanha natal, destronaram a saga de Harry Potter. Em Portugal, a obra Existe Deus?, que reproduz o debate com o filósofo ateu italiano Paolo Flores d"Arcais, esteve durante uma semana no primeiro lugar do top de não-ficção das livrarias Almedina.





O gosto de Ratzinger pelo debate intelectual revela-se especialmente no confronto com filósofos ateus ou agnósticos. Nesse debate com Flores d"Arcais, o então cardeal defendeu a racionalidade da fé e a dimensão pública do cristianismo.










O jornalista Alfredi Urdacci, em Bento XVI e o Último Conclave, sugere que o então cardeal Ratzinger teve um papel decisivo na escolha do polaco Wojtyla, cuja eleição interromperia a sucessão ininterrupta de Papas italianos que durava há quase meio milénio, desde a morte do holandês Adriaan Boeyens, ou Adriano VI, em 1523.










João Paulo II, por seu turno, confiou ao teólogo alemão, logo nos primeiros anos do seu mandato, o cargo estratégico de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, nome que o Santo Ofício - que antes fora a Inquisição Universal - assumiu a partir de 1965. E garantem os mais próximos do falecido Papa que Ratzinger era o seu "teólogo de cabeceira". Não será fácil, portanto, encontrar diferenças relevantes entre ambos em matéria doutrinal, e as poucas "nuances" detectáveis tendem a mostrar um Bento XVI ligeiramente mais "progressista" do que o seu antecessor. A posição de Ratzinger parece mais contemporizadora face aos divorciados católicos que voltam a casar-se, embora não se tenha atrevido ainda a revogar-lhes a proibição de comungar, e a sua perspectiva da sexualidade é claramente mais aberta do que a de Wojtyla.





Outro exemplo é a interpretação que Ratzinger faz da terceira parte do chamado "segredo de Fátima". No "comentário teológico" do então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé ao texto do "segredo", a centralidade que Fátima assumiu durante o pontificado anterior e a própria interpretação do texto escrito por Lúcia como antecipando o atentado que João Paulo II sofreu em 1981 devem ser vistas como um efeito da devoção pessoal de João Paulo II. É "razoável" que João Paulo II tenha lido assim o texto, dizia o documento de Ratzinger.

















O que verdadeiramente separa este Papa do anterior é que João Paulo II era um Papa para as massas e um homem de acção. Demonstrou-o com clareza no diálogo inter-religioso, tornando-se o primeiro Papa a rezar numa sinagoga, a franquear a porta de uma mesquita ou a visitar a Grécia, cujo solo nenhum Papa pisara desde o cisma de 1504, que levou à separação das igrejas Católica e Ortodoxa.










Ratzinger é um intelectual sem o menor talento para contagiar multidões, mas a verdade é que também não acredita numa Igreja de massas para os tempos vindouros. "Seria, sem dúvida, uma expectativa errada pensar que se pudesse verificar uma mudança radical das tendências históricas e que a fé voltasse a ser um grande fenómeno de massas", afirma na sua longa entrevista, publicada em livro com o título O Sal da Terra (1996), a Peter Seewald, um católico que aderiu à esquerda radical no final dos anos de 1960 e que recentemente regressou à Igreja.





Vaticano II foi empolado?











O certo é que muitos católicos e não católicos parecem não saber ao certo o que esperar deste Papa. E isto é tanto mais paradoxal quanto é inegável que nenhum dos seus antecessores recentes esclareceu tantas vezes, e de forma tão cabal e estruturada, o que pensa da Igreja e da missão que esta deve assumir no mundo contemporâneo.





É verdade que também não faltam os que acham que o pensamento e a acção de Ratzinger são de uma clareza meridiana. O problema é que não se entendem entre eles. Bento XVI, dizem alguns, é o polícia da fé, o Grande Inquisidor, um integrista dissimulado, que não hesitou, enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em calar vozes dissidentes "à esquerda", como a de Leonardo Boff, referência histórica da Teologia da Libertação, mas levantou a excomunhão que fora imposta por João Paulo aos bispos consagrados pelo tradicionalista Marcel Lefebvre. Um deles, o inglês Richard Williamson, é um assumido negacionista do Holocausto, um homem que afirmou publicamente que os Protocolos dos Sábios de Sião são um documento autêntico, que acredita que está em curso uma conspiração mundial judaico-maçónica e que foi citado pela BBC e pelo jornal Telegraph a dizer que "terão morrido 200 ou 300 mil judeus em campos de concentração nazis, mas nenhum em câmaras de gás".










Outros defendem que Ratzinger já foi, de facto, um progressista moderado, e que agiu ainda como tal no Concílio Vaticano II (1962-65), mas que se assustou de tal modo com os desacatos de Maio de 1968 que virou decisivamente à direita. Seewald afirma mesmo que "sem o seu empenho as reformas do Concílio Vaticano II não seriam concebíveis".










Com Hans Küng, que depois iria entrar em rota de colisão com a hierarquia do Vaticano, o transcendentalista Karl Rahner ou Johann Baptist Metz, precursor das teologias da libertação, Ratzinger foi um dos jovens teólogos que lançaram, em 1965, a publicação assumidamente reformista Concilium. Sete anos mais tarde, fundava com Hans Urs von Balthazar, Walter Kasper e outros teólogos a revista Communio, fortemente crítica dos alegados exageros modernistas da anterior.





Apesar de as aparências parecerem comprovar o fundamento desta alegada "viragem" ideológica de Ratzinger, a maioria dos livros que se têm escrito sobre o novo Papa propõe uma alternativa: ele, asseguram, nunca mudou. As orientações do Concílio Vaticano II é que foram largamente distorcidas e falsificadas pela pressão conjunta dos círculos católicos progressistas e dos meios de comunicação social. Esta é também, no essencial, a tese do próprio Ratzinger, que não se cansa de apelar para a necessidade de se regressar aos documentos efectivamente aprovados no concílio, que teriam sido, segundo diz, grosseiramente sobreinterpretados.





Quando convocou o Vaticano II, depois concluído sob a égide de Paulo VI, João XXIII desejou expressamente um aggiornamento da Igreja. Ratzinger argumenta que esta actualização, no espírito dos padres conciliares, significava apenas apresentar de forma mais eficaz a fé católica ao mundo moderno, e não adaptar os conteúdos da fé às exigências do tempo.










Cerrar fileiras





A veemência das críticas de Ratzinger à evolução da Igreja pós-conciliar não se distingue muito da dos integristas radicais. A diferença é que estes últimos atribuem a responsabilidade do declínio ao próprio Vaticano II, ao passo que o actual Papa defende que o caminho a seguir é voltar às orientações do "verdadeiro" concílio, que, defende, nunca foram cumpridas. "Deve-se reafirmar claramente que uma reforma real da Igreja pressupõe um inequívoco abandono dos caminhos errados, cujas consequências catastróficas já não podem ser negadas", disse o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé numa longa entrevista concedida em 1984 ao jornalista Vittorio Messori, depois publicada em livro com o título Diálogos Sobre a Fé.





Para Ratzinger, foi o facto de a Igreja ter, segundo ele, levado longe de mais a tentativa de se sintonizar com o "espírito do mundo", que a conduziu à crise que hoje enfrenta, marcada pela diminuição drástica de novas vocações, pela redução dos fiéis e por uma perda generalizada de influência, sobretudo na Europa.










Salvaguardadas as devidas distâncias, o dilema que, nesta perspectiva, a Igreja Católica enfrentaria não é muito diferente daquele que afligiu os partidos comunistas europeus após a derrocada do Bloco de Leste. Perante os ventos adversos da História, que estratégia daria mais garantias de sobrevivência: manter apenas a designação e enveredar por uma aproximação à social-democracia ou optar por uma auto-crítica meramente cosmética e cerrar fileiras em torno de uma ortodoxia largamente desacreditada, esperando melhores dias? Mantendo a duvidosa analogia, a receita de Bento XVI é inequívoca: cerrar fileiras.





"Perdemos a visão de que os cristãos não podem viver como vive outro qualquer", diagnosticava o então cardeal Ratzinger. "Hoje, mais do que nunca, o cristão deve estar consciente de pertencer a uma minoria e de estar em contraste com aquilo que é considerado bom, óbvio e lógico pelo "espírito do mundo"." Doutro modo, profetiza, o cristianismo corre o risco de perder "o seu sal e o seu fermento", ou seja: "o "escândalo" e a "loucura" do Evangelho".










O problema, para muitos, é que o Concílio Vaticano II correspondeu também a um dinamismo e uma atitude de reforma da Igreja que deveria ser constante. Na recente carta aberta que dirigiu aos bispos católicos, Hans Küng critica o actual Papa por ter perdido a "oportunidade de fazer do espírito do Concilio Vaticano II a bússola para toda a Igreja Católica, incluindo o próprio Vaticano, e assim promover as necessárias reformas no interior da Igreja". Os mesmos sectores advogam ainda que se colocam hoje novos problemas, designadamente no campo da bioética, que não se punham na época do Vaticano II, e que questões como o celibato ou a ordenação de mulheres se tornaram mais prementes. Razões suficientes para muitos pedirem a convocação de um novo Concílio. Em Portugal, o colunista do PÚBLICO frei Bento Domingues tem sido uma voz a referi-lo com insistência.





Não rejeitando a missão de anunciar a boa-nova que os apóstolos teriam recebido directamente de Cristo, Bento XVI parece menos interessado no número de conversões do que na qualidade do testemunho. E acha mesmo que a Igreja deve largar algum lastro. Referindo-se especificamente à situação na sua Alemanha natal, admitia a Peter Seewald, poucos anos antes de se tornar Papa: "Temos, de longe, muito mais instituições religiosas do que as que podemos cobrir com espírito religioso; e é precisamente isto que leva a Igreja ao descrédito, porque se agarra à configuração institucional mesmo quando já não há nada por detrás." E acrescenta: "Desenvolve-se a impressão de que num hospital ou (...) numa escola, pessoas que, no fundo, não têm nada a ver com a Igreja, são como que obrigadas a seguir posições da Igreja, só porque esta é proprietária e tem poder de decisão."





Um cenário que lamenta, mas que não o surpreende: "Foi sempre assim na História: também a Igreja não foi capaz de se desligar, por si mesma, dos bens terrenos, que tiveram sempre de lhe voltar a ser retirados, o que depois contribuiu para a sua salvação."





Um Papa de transição?










Embora o próprio Bento XVI se veja como um fiel da balança, um dirigente que procura o justo equilíbrio entre tradição e modernidade, pode não ser ilegítimo classificá-lo, em certo sentido, como um radical, alguém que propõe contrariar, em aspectos decisivos, aquela que vem sendo, na prática, a orientação da Igreja Católica ao longo do último meio século. No entanto, ainda não mostrou, nestes primeiros cinco anos do seu pontificado, uma vontade clara de traduzir em medidas concretas as suas convicções.





E isto conduz a um novo paradoxo: um Papa que parecia ter todas as condições para que o seu pontificado, mesmo que previsivelmente breve, marcasse profundamente a Igreja, parece conformar-se com a perspectiva de ser um Papa de transição. Neste estrito sentido, estaríamos perante o inverso do que aconteceu com João XXIII, em quem todos viam um Papa de continuidade, mas que surpreendeu a Igreja e o mundo com a convocação do Vaticano II.





Bento XVI "é muito tímido a fazer reformas e também é céptico sobre a reforma da estrutura", dizia em Roma, à Pública, Marco Politi, um dos mais conceituados vaticanistas, durante anos jornalista do La Repubblica. "Talvez tenha medo de que as reformas coloquem em marcha um processo semelhante ao do Vaticano II, desestabilizando ainda mais a doutrina tradicional."





Estará Bento XVI a desiludir os cardeais que o elegeram? Ou estes elegeram-no justamente por preverem que, enquanto Papa, seria mais conciliador do que deixariam adivinhar as suas posições enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé? Dado que Ratzinger tinha já entre mãos os mais complexos dossiers do Vaticano e, por força do cargo, conhece como ninguém a Igreja mundial, é também possível que aos seus pares tenha parecido sensato dar, por assim dizer, a presidência do conselho de administração ao actual director executivo.





Mas quem é, afinal, este homem, escolhido num dos mais rápidos conclaves de que há memória, e, ao que garantem os vaticanistas, com uma margem confortável?





Baptismo precoce





Joseph Aloïs Ratzinger nasceu a 16 de Abril de 1927, em Marktl am Inn, uma aldeia alemã da Alta Baviera, junto ao rio Inn e perto da fronteira austríaca. Foi baptizado com escassas quatro horas de vida, às 8h30 da manhã. Era Sábado Santo e, na época, não existia ainda a festa da vigília pascal, de modo que a água que iria depois ser usada, ao longo do ano, em todos os baptismos, era abençoada de manhã. Ratzinger foi a primeira criança a receber esta "água nova", como a Igreja lhe chama, o que era considerado - di-lo o próprio Ratzinger na sua autobiografia - "um importante sinal premonitório".





Os seus pais chamavam-se, muito apropriadamente, Maria e Joseph (José), e tinham já tido uma rapariga - Maria, como a mãe - e um outro rapaz, Georg, que aos 11 anos era já um dotado organista e viria a ser ordenado padre no mesmo dia que o irmão mais novo. Recebeu o nome de baptismo de um tio-avô paterno, que se doutorara em Teologia e chegara a ser eleito para o parlamento regional.





Os talentos musicais de Georg levaram-no, em 1964, à direcção do famoso coro juvenil da catedral de Regensburg, que recentemente adquiriu ainda maior notoriedade com as acusações de que vários dos jovens da escola a ele associada teriam sido vítimas de abusos sexuais durante os 30 anos que durou o longo consulado do irmão do Papa. Este alegou não ter sabido de nada, tendo apenas admitido que, de vez em quando, pregava "umas chapadas" aos rapazes.





O pai de Bento XVI era um comissário de polícia local e um "católico praticante", como hoje se diria. Bastante praticante, mesmo. Segundo o filho, aos domingos assistia sempre a três missas: às seis da manhã, às nove horas e à tarde. Além da devoção católica, pode-se especular que Ratzinger tenha também herdado do pai a vocação para policiar o correcto cumprimento das normas estabelecidas. E, tal como o pai, virá a fazê-lo em nome de uma autoridade superior.





Música sacra "versus" rock





Dessa Marktl am Inn onde nasceu, o Papa dificilmente guardará quaisquer recordações, uma vez que mal tinha feito dois anos quando a família se mudou para Tittmoning, uma pequena cidade nas margens do Salzbach, a poucas dezenas de quilómetros de Salzburgo, a terra natal de Mozart, que Ratzinger, de quem se diz ter apreciáveis dotes de pianista, coloca acima de qualquer outro compositor.





E a música não é, para este Papa, uma questão de somenos. "Uma Igreja que se limite apenas a fazer música corrente cai na incapacidade e torna-se, ela mesma, incapaz", afirma na entrevista a Vittorio Messori. Lamenta, por isso, que a música sacra, após o Concílio Vaticano II, esteja hoje confinada a celebrações especiais e quase não se ouça nas igrejas de paróquia. Tudo para atrair esses jovens "cujo sentido acústico", diz, "foi corrompido e degenerado, a partir dos anos 60, pela música rock e por outros produtos semelhantes".





O futuro Bento XVI também pouco tempo ficou em Tittmoning. Em 1932, o pai pediu transferência para Aschau am Inn, uma aldeola onde, segundo a explicação avançada pelo próprio Ratzinger na sua autobiografia, se sentia mais protegido da crescente influência dos nazis nesses anos finais da República de Weimar. Mas a família não tardou a mudar-se de novo, desta vez para Traustein, onde Ratzinger frequentou o liceu e, a partir de 1939, o seminário menor. É também em Março desse ano que o regime nazi torna obrigatória a inscrição dos seminaristas na Juventude Hitleriana. Ratzinger não escapa, mas nunca terá participado dos encontros e actividades da organização.





Em 1943, vê-se obrigado a conciliar os estudos com o serviço militar, tendo sido mobilizado para as baterias antiaéreas. Após várias missões nos arredores de Munique, deram-lhe um posto nos serviços telefónicos, e conseguiu também um pequeno quarto só para si. Convivia com um grupo de católicos empenhados e dispunha de algum tempo livre e de considerável autonomia. E, sobretudo, tinha 16 anos, pelo que não será assim tão surpreendente a desarmante franqueza com que assume que esse caótico Verão de 1943 lhe "ficou gravado na memória como um período esplêndido".










Em Setembro de 1944 regressa a casa, em Traustein, para uma licença de poucos dias, antes de ser enviado para um campo de trabalho situado na fronteira da Áustria com a Hungria, onde, segundo conta, os seus superiores tentaram, sem êxito, levá-lo a alistar-se "voluntariamente" nas SS. No final de Novembro, está outra vez em Traustein, de serviço no quartel de infantaria. Afirma ter desertado pelos finais de Abril de 1945, tendo ficado uns dias escondido em casa de um marechal católico da Luftwaffe, amigo do pai, e depois na casa da família, nos arredores da cidade. É aí que, após a vitória dos Aliados, vem a ser identificado como soldado alemão pelas forças americanas. Passa ainda algumas semanas no campo de prisioneiros de Bad Aibling, até que, a 19 de Junho, é libertado.





O susto de Maio de 1968





Ratzinger tem 18 anos e esperam-no, agora, tempos consideravelmente mais tranquilos. Em 1946, juntamente com o seu irmão Georg, que fora ferido na guerra, entra para o seminário de Frisinga, onde, a par das aulas, vai devorando os livros que encontra na biblioteca da escola. Lê Dostoievski e romancistas franceses católicos como Claudel, Bernanos ou Mauriac. Entusiasma-se também com a geração de cientistas que revolucionara a física - Planck, Heisenberg, Einstein - e embrenha-se na filosofia do idealismo alemão e nas obras de Nietzsche e Bergson, de Jaspers e Heidegger. Afirma tê-lo marcado particularmente o encontro com o pensador judeu Martin Buber, expoente do personalismo de matriz religiosa.










Ratzinger prossegue depois os seus estudos na então recém-reaberta Faculdade de Teologia da Universidade de Munique, que fora encerrada pelos nazis em 1938. Em 1951, é ordenado padre pelo cardeal Faulhaber. No ano seguinte inicia a sua actividade docente na Escola Superior de Filosofia e Teologia de Freising, ensinando teologia dogmática e fundamental. É o início de uma carreira académica bem-sucedida, mas não isenta de alguns percalços, como o de, já após se ter doutorado, em 1953, com a tese Povo e Casa de Deus na Doutrina da Igreja de Santo Agostinho, se ter arriscado a ver reprovado o seu trabalho de habilitação à livre docência - A Teologia da História em S. Boaventura -, que um dos arguentes, o teólogo Michael Schmaus, terá considerado perigosamente modernista.





Até ser nomeado arcebispo de Munique em 1977, irá ainda leccionar em Bona, Münster, Tubinga e, finalmente, na Universidade de Ratisbona, onde assumiu, em 1969, a cátedra de Dogmática. Estava ainda em Bona quando João XXIII convocou o Vaticano II, no qual participará, primeiro como consultor do cardeal Frings, arcebispo de Colónia, e, mais tarde, na qualidade de "teólogo do Concílio".





Um ano mais novo do que Ratzinger, Hans Küng foi outro dos jovens peritos nomeados por João XXIII. Logo após o encerramento do Vaticano II, Küng convence Ratzinger a ir ensinar Dogmática para a Universidade de Tubinga, onde este permanecerá entre 1966 e 1969. Serão anos decisivos. Enquanto Küng vira à esquerda e se torna o primeiro grande teólogo católico a contestar, no século XX, a doutrina da infalibilidade papal, Ratzinger horrorizava-se com as ondas de choque do Maio de 1968.





A crescente influência da filosofia existencialista nas faculdades de Teologia já alarmara o professor de Dogmática, que, com uma ponta de travessura, confessa a Seewald que chegou a "contestá-la com argumentos oriundos do pensamento marxista". Mas, no pós-Maio de 1968, Heidegger foi repentinamente substituído por Marx como paradigma cultural. E a "abordagem marxista", diz, "era incomparavelmente mais radical". Definindo-a como "um messianismo sem Deus", Ratzinger afirma que nesses anos de Tubinga pôde aperceber-se "directamente do rosto cruel desta devoção ateia", da "sanha com que se renunciava a qualquer reflexão moral, considerada um resíduo burguês".





Quando estudantes de Teologia Protestante lançaram panfletos em que consideravam a cruz de Cristo uma "expressão da adoração sado-masoquista da dor" e o Novo Testamento "um meio de enganar as massas em grande escala" - episódio que Ratzinger recorda em várias entrevistas -, achou que já vira o bastante. "Quem queria continuar a ser progressista", afirma na entrevista a Seewald, "tinha de vender o seu carácter".





"Ratzinger", dirá depois Küng, "rejeitou totalmente aquele caos de 1968, e creio que foi esse o ponto decisivo da sua mudança rumo a uma orientação conservadora".





Ascensão em Roma





A carreira académica de Ratzinger encerra-se quando é nomeado arcebispo de Munique e Frisinga, por Paulo VI, em Março de 1977. Três meses depois é elevado a cardeal. Um ano mais tarde é já um dos homens chamados a escolher o sucessor de Paulo VI, o cardeal Albino Luciano, que, numa homenagem aos dois Papas conciliares, escolheu o nome de João Paulo I. Foi nos encontros que precederam o conclave que Ratzinger conheceu pessoalmente Karol Wojtyla, com quem até então se limitara a trocar livros e alguma correspondência.










João Paulo I morreu um mês após ter sido eleito e, no novo conclave, Ratzinger aposta no polaco, quer para evitar a eleição do ultra-conservador cardeal Giuseppe Siri, então arcebispo de Génova, quer para neutralizar viragens à esquerda. Chegou mesmo a dar uma extensa entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeiner, na qual alertava para os riscos que via na eleição.










A carreira académica dava lugar a um não menos bem-sucedido trajecto na Cúria Romana. Em 1981, é nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Mostra-se particularmente duro com as Teologias da Libertação, cuja tónica política anticapitalista talvez lhe avivasse a má memória que reteve do período que se seguiu ao Maio de 68. Intervém também, sempre no sentido de manter a ortodoxia vigente, em todas as grandes polémicas que atravessaram a Igreja ao longo dos últimos anos, como o celibato dos padres ou a ordenação de mulheres. Irrita muita gente, a ponto de, em 1989, dezenas de teólogos terem pedido, na chamada Declaração de Colónia, que a congregação presidida por Ratzinger revelasse "mais pluralismo" e "menos ingerências".





Um dos temas pelos quais se interessou mais foi o diálogo com as restantes confissões cristãs e com o judaísmo e o islão. É um dos pontos em que se distingue de João Paulo II. Este pediu desculpa pelos crimes da Igreja, pregou numa igreja luterana, rezou numa mesquita e junto ao Muro das Lamentações. Ratzinger considerava nos anos 80, e provavelmente ainda considera, que "as atitudes de um certo ecumenismo católico pós-conciliar foram marcadas por uma espécie de masoquismo, uma necessidade um tanto perversa de [a Igreja Católica] se reconhecer culpada por todos os desastres da História".





Não terá sido por acaso que, quando João Paulo II começou a falar da "purificação da memória" da Igreja e dos pedidos de perdão dos erros históricos, a pretexto do jubileu do ano 2000, se comentou que Ratzinger se opunha a essa ideia.





A sua tese é a de que o diálogo com outras confissões só pode ser frutuoso se cada um dos interlocutores assumir claramente as suas posições e recusar uma posição relativista, que, argumenta, subalterniza o critério da verdade. O seu texto Dominus Iesus, no qual reafirma Cristo como o único caminho para a Salvação e defende a superioridade da Igreja Católica em relação às restantes confissões cristãs, provocou muitas reacções negativas, mas é consistente com esta sua perspectiva.










Em relação aos judeus, a sua perspectiva é mais funda. Para Bento XVI, como para João Paulo II, o judaísmo tem um lugar à parte entre os monoteísmos. Mas a relação especial não deve fazer "esquecer e subestimar as diferenças existentes", como dizia na sinagoga de Colónia, quando voltou à Alemanha, já como Papa, para presidir à Jornada Mundial da Juventude, em Agosto de 2005.





É na questão da raiz judaica do cristianismo que Ratzinger mais avança, com base em argumentos bíblicos e teológicos e menos simbólicos e afectivos, como era mais próprio de João Paulo II: em 1997, num discurso na Academia das Ciências Morais e Políticas de Paris, o ainda cardeal dizia que cristãos e judeus estão num plano semelhante de espera do Messias: "[Na fé de Israel, são essenciais a Torá e, por outro lado,] o olhar de esperança, a espera do Messias (...), isto é, a certeza de que o próprio Deus entrará nesta história e realizará a justiça, à qual apenas podemos avizinhar-nos de formas muito imperfeitas. (...) Também a Igreja espera o Messias, que já conhece e à qual, antes de mais, ele manifestará a sua glória."




Contra o relativismo





No conclave de Abril de 2005, Ratzinger posicionou-se claramente como o homem certo para ser escolhido. Em virtude do seu cargo de decano dos cardeais, foi ele a presidir, no período de transição, ao funeral de João Paulo II, às reuniões preparatórias do conclave e à missa de início solene do acto de eleição pontifícia. Na sua homilia, ficou célebre a referência crítica aos "ventos de doutrina" que agitaram "muitos cristãos" e o apelo à necessidade de uma "fé clara" contra o "relativismo".










Foram argumentos decisivos - a par, claro, do seu brilhantismo intelectual, que se destacava entre a maior parte dos cardeais - para que fosse ele o escolhido. A opção pelo nome de Bento não é estranha a outro tema central do seu pensamento: a Europa. Na véspera da morte de João Paulo II, Ratzinger estava em Subiaco, onde São Bento, padroeiro do continente, começou a aventura do monaquismo ocidental, que marcaria decisivamente a cultura e a geografia europeias. Falou sobre a Europa e da necessidade de "homens que, por meio de uma fé iluminada, tornem Deus credível". Bento foi, além disso, o nome do Papa da I Guerra Mundial, que tentou mediar o conflito.





Ratzinger referiu-se ao que considerava a crise da Europa - um conceito sobretudo "cultural e histórico" -, em tudo semelhante à do "naufragado Império Romano". No seu diagnóstico, tocou vários dos aspectos que o preocupa(va)m: "A Europa aparece, nesta hora do seu brilho e sucesso exterior, vazia por dentro", estando "atingida por uma crise de circulação vital". À extinção das suas forças sustentadoras "parece corresponder igualmente o desaparecimento progressivo da Europa étnica". E, defende Ratiznger, decresce o "interesse pelo futuro" e as crianças "são consideradas como uma ameaça para o presente".





Eleito a 19 de Abril de 2005 para substituir "o grande Papa João Paulo II", como o próprio afirmou, o "humilde" Ratzinger começou por criar expectativas no diálogo ecuménico, estagnado nos últimos anos do pontificado de Wojtyla. Por várias vezes, e logo na primeira missa que celebrou com os cardeais enquanto Papa, a 20 de Abril, Bento XVI referiu-se à sua "prioridade" ecuménica, assumindo o "compromisso" de "trabalhar sem poupar energias na reconstituição da plena e visível unidade de todos os seguidores de Cristo".





Em diferentes situações, o novo Papa referiu-se à necessidade de "gestos concretos" nessa aproximação. Mas até hoje, o mais importante que conseguiu foi desanuviar o ambiente com a Igreja Ortodoxa (sobretudo a Igreja Russa, o que, admita-se, não é pouco). A aproximação aos anglicanos ficou toldada pela divisão no interior da Comunhão Anglicana e pela decisão de criar uma estrutura própria para os padres e bispos anglicanos que querem aderir à Igreja Católica em protesto contra a ordenação de mulheres e de homossexuais no anglicanismo - uma decisão cujos contornos exactos permanecem obscuros.



Fonte: http://www.publico.pt/












































































































































































































































































































































































































































O princípio de todas as coisas é a Razão criadora, é o amor, é a liberdade

VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA
HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Basílica Vaticana

Sábado Santo, 23 de Abril de 2011



Amados irmãos e irmãs,

Dois grandes sinais caracterizam a celebração litúrgica da Vigília Pascal. Temos antes de mais nada o fogo que se torna luz. A luz do círio pascal que, na procissão através da igreja encoberta na escuridão da noite, se torna uma onda de luzes, fala-nos de Cristo como verdadeira estrela da manhã eternamente sem ocaso, fala-nos do Ressuscitado em quem a luz venceu as trevas. O segundo sinal é a água. Esta recorda, por um lado, as águas do Mar Vermelho, o afundamento e a morte, o mistério da Cruz; mas, por outro, aparece-nos como água nascente, como elemento que dá vida na aridez. Torna-se assim imagem do sacramento do Baptismo, que nos faz participantes da morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Mas não são apenas estes grandes sinais da criação, a luz e a água, que fazem parte da liturgia da Vigília Pascal; outra característica verdadeiramente essencial da Vigília é o facto de nos proporcionar um vasto encontro com a palavra da Sagrada Escritura. Antes da reforma litúrgica, havia doze leituras do Antigo Testamento e duas do Novo. As do Novo Testamento permaneceram; entretanto o número das leituras do Antigo Testamento acabou fixado em sete, que, atendendo às situações locais, se podem reduzir a três leituras. A Igreja quer, através de uma ampla visão panorâmica, conduzir-nos ao longo do caminho da história da salvação, desde a criação passando pela eleição e a libertação de Israel até aos testemunhos proféticos, pelos quais toda esta história se orienta cada vez mais claramente para Jesus Cristo. Na tradição litúrgica, todas estas leituras se chamavam profecias: mesmo quando não são directamente vaticínios de acontecimentos futuros, elas têm um carácter profético, mostram-nos o fundamento íntimo e a direcção da história; fazem com que a criação e a história se tornem transparentes no essencial. Deste modo tomam-nos pela mão e conduzem-nos para Cristo, mostram-nos a verdadeira luz.


Na Vigília Pascal, o percurso ao longo dos caminhos da Sagrada Escritura começa pelo relato da criação. Desta forma, a liturgia quer-nos dizer que também o relato da criação é uma profecia. Não se trata de uma informação sobre a realização exterior da transformação do universo e do homem. Bem cientes disto estavam os Padres da Igreja, que entenderam este relato não como narração real das origens das coisas, mas como apelo ao essencial, ao verdadeiro princípio e ao fim do nosso ser. Ora, podemo-nos interrogar: mas, na Vigília Pascal, é verdadeiramente importante falar também da criação? Não se poderia começar pelos acontecimentos em que Deus chama o homem, forma para Si um povo e cria a sua história com os homens na terra? A resposta deve ser: não! Omitir a criação significaria equivocar-se sobre a história de Deus com os homens, diminuí-la, deixar de ver a sua verdadeira ordem de grandeza. O arco da história que Deus fundou chega até às origens, até à criação. A nossa profissão de fé inicia com as palavras: «Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra». Se omitimos este início do Credo, a história global da salvação torna-se demasiado restrita, demasiado pequena. A Igreja não é uma associação qualquer que se ocupa das necessidades religiosas dos homens e cujo objectivo se limitaria precisamente ao de uma tal associação. Não, a Igreja leva o homem ao contacto com Deus e, consequentemente, com o princípio de tudo. Por isso, Deus tem a ver connosco como Criador, e por isso possuímos uma responsabilidade pela criação. A nossa responsabilidade inclui a criação, porque esta provém do Criador. Deus pode dar-nos vida e guiar a nossa vida, só porque Ele criou o todo. A vida na fé da Igreja não abrange somente o âmbito de sensações e sentimentos e porventura de obrigações morais; mas abrange o homem na sua integralidade, desde as suas origens e na perspectiva da eternidade. Só porque a criação pertence a Deus, podemos depositar n’Ele completamente a nossa confiança. E só porque Ele é Criador, é que nos pode dar a vida por toda a eternidade. A alegria e gratidão pela criação e a responsabilidade por ela andam juntas uma com a outra.


Podemos determinar ainda mais concretamente a mensagem central do relato da criação. Nas primeiras palavras do seu Evangelho, São João resumiu o significado essencial do referido relato com uma única frase: «No princípio, era o Verbo». Com efeito, o relato da criação, que ouvimos anteriormente, caracteriza-se pela frase que aparece com regularidade: «Disse Deus…». O mundo é uma produção da Palavra, do Logos, como se exprime João com um termo central da língua grega. «Logos» significa «razão», «sentido», «palavra». Não é apenas razão, mas Razão criadora que fala e comunica a Si mesma. Trata-se de Razão que é sentido, e que cria, Ela mesma, sentido. Por isso, o relato da criação diz-nos que o mundo é uma produção da Razão criadora. E deste modo diz-nos que, na origem de todas as coisas, não está o que é sem razão, sem liberdade; pelo contrário, o princípio de todas as coisas é a Razão criadora, é o amor, é a liberdade. Encontramo-nos aqui perante a alternativa última que está em jogo na disputa entre fé e incredulidade: o princípio de tudo é a irracionalidade, a ausência de liberdade e o acaso, ou então o princípio do ser é razão, liberdade, amor? O primado pertence à irracionalidade ou à razão? Tal é a questão de que, em última análise, se trata. Como crentes, respondemos com o relato da criação e com São João: na origem, está a razão. Na origem, está a liberdade. Por isso, é bom ser uma pessoa humana. Assim o que sucedera no universo em expansão não foi que por fim, num angulozinho qualquer do cosmos, ter-se-ia formado por acaso também uma espécie como qualquer outra de ser vivente, capaz de raciocinar e de tentar encontrar na criação uma razão ou de lha conferir. Se o homem fosse apenas um tal produto casual da evolução num lugar marginal qualquer do universo, então a sua vida seria sem sentido ou mesmo um azar da natureza. Mas não! No início, está a Razão, a Razão criadora, divina. E, dado que é Razão, ela criou também a liberdade; e, uma vez que se pode fazer uso indevido da liberdade, existe também o que é contrário à criação. Por isso se estende, por assim dizer, uma densa linha escura através da estrutura do universo e através da natureza do homem. Mas, apesar desta contradição, a criação como tal permanece boa, a vida permanece boa, porque na sua origem está a Razão boa, o amor criador de Deus. Por isso, o mundo pode ser salvo. Por isso podemos e devemos colocar-nos da parte da razão, da liberdade e do amor, da parte de Deus que nos ama de tal maneira que Ele sofreu por nós, para que, da sua morte, pudesse surgir uma vida nova, definitiva, restaurada.

O relato veterotestamentário da criação, que escutámos, indica claramente esta ordem das coisas. Mas faz-nos dar um passo mais em frente. O processo da criação aparece estruturado no quadro de uma semana que se orienta para o Sábado, encontrando neste a sua perfeição. Para Israel, o Sábado era o dia em que todos podiam participar no repouso de Deus, em que homem e animal, senhor e escravo, grandes e pequenos estavam unidos na liberdade de Deus. Assim o Sábado era expressão da aliança entre Deus, o homem e a criação. Deste modo, a comunhão entre Deus e o homem não aparece como um acréscimo, algo instaurado posteriormente num mundo cuja criação estava já concluída. A aliança, a comunhão entre Deus e o homem, está prevista no mais íntimo da criação. Sim, a aliança é a razão intrínseca da criação, tal como esta é o pressuposto exterior da aliança. Deus fez o mundo, para haver um lugar no qual Ele pudesse comunicar o seu amor e a partir do qual a resposta de amor retornasse a Ele. Diante de Deus, o coração do homem que Lhe responde é maior e mais importante do que todo o imenso universo material que, certamente, já nos deixa vislumbrar algo da grandeza de Deus.

Entretanto, na Páscoa e a partir da experiência pascal dos cristãos, devemos ainda dar mais um passo. O Sábado é o sétimo dia da semana. Depois de seis dias em que o homem, de certa forma, participa no trabalho criador de Deus, o Sábado é o dia do repouso. Mas, na Igreja nascente, sucedeu algo de inaudito: no lugar do Sábado, do sétimo dia, entra o primeiro dia. Este, enquanto dia da assembleia litúrgica, é o dia do encontro com Deus por meio de Jesus Cristo, que no primeiro dia, o Domingo, encontrou como Ressuscitado os seus, depois que estes encontraram vazio o sepulcro. Agora inverte-se a estrutura da semana: já não está orientada para o sétimo dia, em que se participa no repouso de Deus; a semana inicia com o primeiro dia como dia do encontro com o Ressuscitado. Este encontro não cessa jamais de verificar-se na celebração da Eucaristia, durante a qual o Senhor entra de novo no meio dos seus e dá-Se a eles, deixa-Se por assim dizer tocar por eles, põe-Se à mesa com eles. Esta mudança é um facto extraordinário, quando se considera que o Sábado – o sétimo dia – está profundamente radicado no Antigo Testamento como o dia do encontro com Deus. Quando se pensa como a passagem do trabalho ao dia do repouso corresponde também a uma lógica natural, torna-se ainda mais evidente o alcance impressionante de tal alteração. Este processo inovador, que se deu logo ao início do desenvolvimento da Igreja, só se pode explicar com o facto de ter sucedido algo de inaudito em tal dia. O primeiro dia da semana era o terceiro depois da morte de Jesus; era o dia em que Ele Se manifestou aos seus como o Ressuscitado. De facto, este encontro continha nele algo de impressionante. O mundo tinha mudado. Aquele que estivera morto goza agora de um vida que já não está ameaçada por morte alguma. Fora inaugurada uma nova forma de vida, uma nova dimensão da criação. O primeiro dia, segundo o relato do Génesis, é aquele em que teve início a criação. Agora tornara-se, de uma forma nova, o dia da criação, tornara-se o dia da nova criação. Nós celebramos o primeiro dia. Deste modo celebramos Deus, o Criador, e a sua criação. Sim, creio em Deus, Criador do Céu e da Terra. E celebramos o Deus que Se fez homem, padeceu, morreu, foi sepultado e ressuscitou. Celebramos a vitória definitiva do Criador e da sua criação. Celebramos este dia como origem e simultaneamente como meta da nossa vida. Celebramo-lo porque agora, graças ao Ressuscitado, vale de modo definitivo que a razão é mais forte do que a irracionalidade, a verdade mais forte do que a mentira, o amor mais forte do que a morte. Celebramos o primeiro dia, porque sabemos que a linha escura que atravessa a criação não permanece para sempre. Celebramo-lo, porque sabemos que agora vale definitivamente o que se diz no fim do relato da criação: «Deus viu que tudo o que tinha feito; era tudo muito bom» (Gn 1, 31). Amen.

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As provas da Ressurreição de Jesus

A Igreja não tem dúvida em afirmar que a Ressurreição de Jesus foi um evento histórico e transcendente. No §639 o Catecismo afirma: “O mistério da Ressurreição de Cristo é um acontecimento real que teve manifestações historicamente constatadas, como atesta o Novo Testamento. Já S. Paulo escrevia aos Coríntios pelo ano de 56: “Eu vos transmiti… o que eu mesmo recebi: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas, e depois aos Doze” (1Cor 15,3-4). O apóstolo fala aqui da viva tradição da Ressurreição, que ficou conhecendo após sua conversão às portas de Damasco.
O primeiro acontecimento da manhã do Domingo de Páscoa foi a descoberta do sepulcro vazio (cf. Mc 16, 1-8). Ele foi a base de toda a ação e pregação dos Apóstolos e foi muito bem registrada por eles. São João afirma: “O que vimos, ouvimos e as nossas mãos apalparam isto atestamos” (1 Jo 1,1-2). Jesus ressuscitado apareceu a Madalena (Jo 20, 19-23); aos discípulos de Emaús (Lc 24,13-25), aos Apóstolos no Cenáculo, com Tomé ausente (Jo 20,19-23); e depois, com Tomé presente (Jo 20,24-29); no Lago de Genezaré (Jo 21,1-24); no Monte na Galiléia (Mt 28,16-20); segundo S. Paulo “apareceu a mais de 500 pessoas” (1 Cor 15,6) e a Tiago (1 Cor 15,7).
S. Paulo atesta que Ele “… ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e foi visto por Cefas, e depois pelos Onze; depois foi visto por mais de quinhentos irmãos duma só vez, dos quais a maioria vive ainda hoje e alguns já adormeceram; depois foi visto por Tiago e, em seguida, por todos os Apóstolos; e, por último, depois de todos foi também visto por mim como por um aborto” (1 Cor 15, 3-8).
“Deus ressuscitou esse Jesus, e disto nós todos somos testemunhas” (At 2, 32), disse São Pedro no dia de Pentecostes. “Saiba com certeza toda a Casa de Israel: Deus o constituiu Senhor (Kýrios) e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes” (At 2, 36). “Cristo morreu e reviveu para ser o Senhor dos mortos e dos vivos”.(Rm 14, 9). No Apocalipse, João arremata: “Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos, e tenho as chaves da Morte e da região dos mortos” (Ap 1, 17s).
Toda a pregação dos Discípulos estava centrada na Ressurreição de Jesus. Diante do Sinédrio Pedro dá testemunho da Ressurreição de Jesus (At 4,8-12). Em At 5,30-32 repete. Na casa do centurião romano Cornélio (At 10,34-43), Pedro faz uma síntese do plano de Deus, apresentando a morte e a ressurreição de Jesus como ponto central. S. Paulo em Antioquia da Pisídia faz o mesmo (At 13,17-41).
A presença de Jesus ressuscitado era a manifestação salvífica definitiva de Deus, inaugurando uma nova era na História humana; era a força do Apóstolos. Jesus ressuscitado caminhou com eles ainda quarenta dias e criou a fé dos discípulos e não estes que criaram a fé no Ressuscitado.
A primeira experiência dos Apóstolos com Jesus ressuscitado, foi marcante e inesquecível: “Jesus se apresentou no meio dos Apóstolos e disse: “A paz esteja convosco!” Tomados de espanto e temor, imaginavam ver um espírito. Mas ele disse: “Por que estais perturbados e por que surgem tais dúvidas em vossos corações? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu! “Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E, como, por causa da alegria, não podiam acreditar ainda e permaneciam surpresos, disse-lhes: “Tendes o que comer?” Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado. Tomou-o então e comeu-o diante deles”. (Lc 24, 34ss)
Os Apóstolos não acreditavam a principio na Ressurreição do Mestre. Amedrontados, julgavam ver um fantasma, Jesus pede que o apalpem e verifiquem que tem carne e ossos. Nada disto foi uma alucinação, nem miragem, nem delírio, nem mentira, e nem fraude dos Apóstolos, pessoas muito realistas que duvidaram a principio da Ressurreição do Mestre. A custo se convenceram. O próprio Cristo teve que falar a Tomé: “Apalpai e vede: os fantasmas não têm carne e osso como me vedes possuir” (Lc 24,39). Os discípulos de Emaús estavam decepcionados porque “nós esperávamos que fosse Ele quem restaurasse Israel” (Lc 24, 21).
Estes depoimentos “de primeira hora”, concebidos e transmitidos pelos discípulos imediatos do Senhor, são argumentos suficientes para dissolver qualquer teoria que quisesse negar a ressurreição corporal de Cristo, ou falar dela como fraude. Esta fé não surgiu “mais tarde”, como querem alguns, na história das primeiras comunidades cristãs, mas é o resultado da missão de Cristo acompanhada dia a dia pelos Apóstolos.
Com os Apóstolos aconteceu o processo exatamente inverso do que se dá com os visionários. Estes, no começo, ficam muito convencidos e são entusiastas, e pouco a pouco começam a duvidar da visão. Já com os discípulos de Jesus, ao contrário, no princípio duvidam. Não crêem em seguida na Ressurreição. Tomé duvida de tudo e de todos e quer tocar o corpo de Cristo ressuscitado. Assim eram aqueles homens: simples, concretos, realistas. A maioria era pescador, não eram nem visionários nem místicos. Um grupo de pessoas abatidas, aterrorizadas após a morte de Jesus. Nunca chegariam por eles mesmos a um auto-convencimento da Ressurreição de Jesus. Na verdade, renderam-se a uma experiência concreta e inequívoca.
Impressiona também o fato de que os Evangelhos narram que as primeiras pessoas que viram Cristo ressuscitado são as mulheres que correram ao sepulcro. Isto é uma mostra clara da historicidade da Ressurreição de Jesus; pois as mulheres, na sociedade judaica da época, eram consideradas testemunhas sem credibilidade já que não podiam apresentar-se ante um tribunal. Ora, se os Apóstolos, como afirmam alguns, queriam inventar uma nova religião, por que, então, teriam escolhido testemunhas tão pouco confiáveis pelos judeus? Se os evangelistas estivessem preocupados em “provar” ao mundo a Ressurreição de Jesus, jamais teriam colocado mulheres como testemunhas.
Os chefes dos judeus tomaram consciência do significado da Ressurreição de Jesus, e, por isso, resolveram apaga-la: “Deram aos soldados uma vultosa quantia de dinheiro, recomendando: “Dizei que os seus discípulos vieram de noite, enquanto dormíeis, e roubaram o cadáver de Jesus. Se isto chegar aos ouvidos do Governador, nós o convenceremos, e vos deixaremos sem complicação”. Eles tomaram o dinheiro e agiram de acordo com as instruções recebidas. E espalhou-se esta história entre os judeus até o dia de hoje” (Mt 28, 12-15). A ressurreição corporal de Jesus era professada tranqüilamente pela Igreja nascente, sem que os judeus ou outros adversários a pudessem apontar como fraude ou alucinação.
Os Apóstolos só podiam acreditar na Ressurreição de Jesus pela evidência dos fatos, pois não estavam predispostos a admiti-la; ao contrário, haviam perdido todo ânimo quando viram o Mestre preso e condenado; também para eles a ressurreição foi uma surpresa.
Eles não tinham disposições psicológicas para “inventar” a notícia da ressurreição de Jesus ou para forjar tal evento. Eles ainda estavam impregnados das concepções de um messianismo nacionalista e político, e caíram quando viram o Mestre preso e aparentemente fracassado; fugiram para não ser presos eles mesmos (Cf. Mt 26, 31s); Pedro renegou o Senhor (cf. Mt 26, 33-35). O conceito de um Deus morto e ressuscitado na carne humana era totalmente alheio à mentalidade dos judeus.
E a pregação dos Apóstolos era severamente controlada pelos judeus, de tal modo que qualquer mentira deles seria imediatamente denunciada pelos membros do Sinédrio (tribunal dos judeus). Se a ressurreição de Jesus, pregada pelos Apóstolos não fosse real, se fosse fraude, os judeus a teriam desmentido, mas eles nunca puderam fazer isto.
Jesus morreu de verdade, inclusive com o lado perfurado pela lança do soldado. É ridícula a teoria de que Jesus estivesse apenas adormecido na Cruz.
Os vinte longos séculos do Cristianismo, repletos de êxito e de glória, foram baseados na verdade da Ressurreição de Jesus. Afirmar que o Cristianismo nasceu e cresceu em cima de uma mentira e fraude seria supor um milagre ainda maior do que a própria Ressurreição do Senhor.
Será que em nome de uma fantasia, de um mito, de uma miragem, milhares de fiéis enfrentariam a morte diante da perseguição romana? É claro que não. Será que em nome de um mito, multidões iriam para o deserto para viver uma vida de penitência e oração? Será que em nome de um mito, durante já dois mil anos, multidões de homens e mulheres abdicaram de construir família para servir ao Senhor ressuscitado? Será que uma alucinação poderia transformar o mundo? Será que uma fantasia poderia fazer esta Igreja sobreviver por 2000 anos, vencendo todas as perseguições (Império Romano, heresias, nazismo, comunismo, racionalismo, positivismo, iluminismo, ateísmo, etc.)? Será que uma alucinação poderia ser a base da religião que hoje tem mais adeptos no mundo (2 bilhões de cristãos)? Será que uma alucinação poderia ter salvado e construído a civilização ocidental depois da queda de Roma? Isto mostra que o testemunho dos Apóstolos sobre a Ressurreição de Jesus era convincente e arrastava, como hoje.
Na verdade, a grandeza do Cristianismo requer uma base mais sólida do que a fraude ou a debilidade mental. É muito mais lógico crer na Ressurreição de Jesus do que explicar a potência do Cristianismo por uma fantasia de gente desonesta ou alucinada. Como pode uma fantasia atravessar dois mil anos de história, com 266 Papas, 21 Concilios Ecumênicos, e hoje com cerca de 4 mil bispos e 416 mil sacerdotes? E não se trata de gente ignorante ou alienada; muito ao contrário, são universitários, mestres, doutores.
Prof. Felipe Aquino
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