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O Concilio Vaticano II é uma expressão do magistério solene e supremo da Igreja católica


"O CONCÍLIO VATICANO II, VINCULATIVO PARA A IGREJA HOJE"


Lectio magistralis do Profº Johannes Grohe na festa de São Tomás de Aquino

ROMA, quinta-feira, 19 de janeiro de 2012 (ZENIT.org) - "O Concílio Vaticano II é, e deve continuar sendo para a Igreja Católica, uma expressão do magistério solene e supremo do nosso tempo". É o que foi dito na manhã do dia 17 de Janeiro pelo Rev. Profº Johannes Grohe, professor de História da Igreja, em sua palestra sobre o Concílio Vaticano II no contexto de todos os concílios ecumênicos, realizada por ocasião da festa de São Tomás de Aquino, patrono da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Santa Croce).
Ao mesmo tempo, deve ser assumida "a sua correspondente importância no diálogo ecumênico, ou seja, em qualquer união com outras Igrejas e comunidades cristãs separadas da Igreja Católica", continuou o professor. Entende-se, portanto, "que não se pode renunciar à necessidade de um recebimento desses textos fundamentais, como tampouco se pode renunciar a receber os outros concílios ecumênicos da Igreja do passado".
Não há dúvida, prosseguiu o estudioso, de que ao longo de dois milênios de concílios ecumênicos, o Vaticano II representa um evento de "importância epocal", "fundamental para a vida da Igreja de hoje", na qual ele deixou "marcas profundas".
Em seu discurso, Grohe também fez menção aos que "põem em dúvida a própria natureza ecumênica do Vaticano II", oferecendo uma gama de referências teológicas e históricas e apresentando estudos que refutam esses questionamentos, destacando a equivocada abordagem metodológica de certos autores.
Mesmo aqueles que desde o início desafiaram a "autoridade" do Sínodo Vaticano, como, por exemplo, "alguns expoentes da minoria conciliar" (Lefebvre e seus seguidores), e portanto contestaram o "carácter vinculativo dos documentos conciliares", acabam salvaguardando por outro lado "o aspecto ecumênico do concílio", colocando-o "na mesma linha dos 20 concílios anteriores".
Deve ser claramente entendido que o concílio aberto em 11 de outubro de 1962 pelo papa João XXIII "não definiu novos dogmas", mas propôs, "com autoridade suprema para toda a comunidade cristã, a doutrina tradicional de modo novo e com uma atitude pastoral nova". Todos os seus decretos têm, portanto, um "valor universal" e "são vinculativos, devendo ser aceitos também por aqueles que desejam entrar em comunhão com a Igreja Católica".

Bento XVI, o reformador


No Ano da fé em conexão com o quinquagésimo aniversário da abertura do Concílio Vaticano II, Bento XVI voltou a insistir na necessidade de uma "interpretação correta" desse evento.

O correto entendimento do Conselho - especificar as instruções para o Ano da fé - não a chamada "hermenêutica da descontinuidade e da ruptura", mas o que o próprio Bento XVI chamou de "hermenêutica da reforma e renovação na continuidade da "um sujeito-Igreja." 



Papa constitui nova Fundação dedicada às relações da ciência com a fé


Cidade do Vaticano (RV) – Constituir um instrumento inédito para a promoção do diálogo entre ciência, teologia e filosofia, essa é a proposta da nova fundação Ciência e Fé (Stoq) constituída por Bento XVI. A sugestão foi do Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, Cardeal Gianfranco Ravasi. 

A Rádio Vaticano conversou com o subsecretário desse dicastério, Mons. Melchor José Sánchez de Toca y Alameda, que ressaltou como principal objetivo dessa nova fundação a continuidade e a garantia da estabilidade às iniciativas em andamento no Vaticano, já chamadas de “Projeto Stock”. A intenção também é abrir-se a novas ações de diálogo entre o mundo das ciências naturais e o mundo da filosofia e da teologia. 

As atividades desenvolvidas são de três níveis. Um deles é o ensino, que tem maior destaque, com programas nas universidades pontifícias de Roma, principalmente no que diz respeito ao diálogo entre ciência e fé. Depois vem o setor de pesquisa, com seminários e workshops, e, por último, a divulgação dos principais conteúdos, por meio de conferências públicas, mostras, publicações e afins. 

Essa nova fundação está ligada ao dicastério da cultura, mas terá plena autonomia. Os principais projetos a serem desenvolvidos são investir na formação dos futuros agentes pastorais, dos sacerdotes religiosos encarregados da formação, reforçando os programas de ensino que já estão presentes em muitas universidades romanas sobre a relação da ciência com a teologia e a filosofia. Em segundo lugar, quer-se potencializar a divulgação dos principais conteúdos através de um grande portal web, com programas de formação a distância e e-learning. Finalmente, quer-se ainda aprofundar alguns filões de pesquisa muito promissores, como o das neurociências e das células-tronco adultas. (ED)




"A CRISE PODE E DEVE SER UM INCENTIVO PARA MEDITAR SOBRE A EXISTÊNCIA HUMANA"

Discurso do Papa ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 09 de janeiro de 2012 (ZENIT.org) - Apresentamos a seguir o discurso do Santo Padre Bento XVI ao Corpo Diplomático creditado junto à Santa Sé para troca de bons votos de início de ano, durante Audiência realizada nesta segunda-feira na Sala Régia.

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Senhoras e Senhores Embaixadores,

O encontro de hoje desenrola-se tradicionalmente no termo das festas do Natal, quando a Igreja celebra a vinda do Salvador. Ele vem na obscuridade da noite, e no entanto a sua presença torna-se imediatamente fonte de luz e alegria (cf. Lc 2, 9-10). Verdadeiramente torna-se sombrio o mundo, quando não é iluminado pela luz divina! Verdadeiramente fica na escuridão o mundo, quando o homem deixa de reconhecer a sua ligação com o Criador, pondo assim em perigo também as suas relações com as outras criaturas e com a própria criação. Infelizmente, o momento actual está marcado por um profundo mal-estar, sendo uma expressão dramática disto mesmo as diversas crises económicas, políticas e sociais.

A este respeito, não posso deixar de mencionar, antes de mais nada, as graves e preocupantes consequências da crise económica e financeira mundial. Esta não atinge só as famílias e as empresas dos países economicamente mais avançados, onde a mesma teve origem, criando uma situação na qual muitos, sobretudo entre os jovens, se sentiram desorientados e frustrados nas suas aspirações por um futuro sereno, mas tal crise marcou profundamente também a vida dos países em vias de desenvolvimento. Não devemos desanimar, mas redesenhar decididamente o nosso caminho com novas formas de compromisso. A crise pode e deve ser um incentivo para meditar sobre a existência humana e a importância da sua dimensão ética, antes mesmo de reflectir sobre os mecanismos que governam a vida económica: não só para procurar conter as perdas individuais ou das economias nacionais, mas para nos impormos novas regras que assegurem a todos a possibilidade de viver dignamente e desenvolver as suas capacidades em benefício da comunidade inteira.

Desejo ainda lembrar que os efeitos do actual momento de incerteza afectam particularmente os jovens. Do seu mal-estar nasceram os fermentos que nos últimos meses investiram, por vezes duramente, várias regiões. Refiro-me antes de mais ao Norte da África e ao Médio Oriente, onde os jovens – que, para além do mais, sofrem pobreza e desemprego e temem pela ausência de perspectivas seguras – lançaram aquilo que veio a tornar-se um amplo movimento de reivindicação de reformas e de participação mais activa na vida política e social. É difícil actualmente traçar um balanço definitivo dos recentes acontecimentos e compreender plenamente as suas consequências para os equilíbrios da Região. O optimismo inicial cedeu, entretanto, o passo ao reconhecimento das dificuldades deste momento de transição e mudança, e parece-me evidente que a senda adequada para prosseguir no caminho empreendido passe pelo reconhecimento da dignidade inalienável de toda a pessoa humana e dos seus direitos fundamentais. O respeito da pessoa deve estar no centro das instituições e das leis, deve conduzir ao fim de toda e qualquer violência e prevenir contra o risco de que a atenção devida às solicitações dos cidadãos e a necessária solidariedade social se transformem em meros instrumentos para manter ou conquistar o poder. Convido a comunidade internacional a dialogar com os actores dos processos em curso, no respeito dos povos e com a consciência de que a construção de sociedades estáveis e reconciliadas, contrapostas a toda a discriminação injusta, particularmente de ordem religiosa, constitui um horizonte mais amplo e transcendente que o dos prazos eleitorais. Sinto uma grande preocupação pelas populações dos países nos quais continuam tensões e violências, particularmente na Síria, onde espero que se ponha rapidamente termo ao derramamento de sangue e comece um diálogo frutuoso entre os actores políticos, favorecido pela presença de observadores independentes. Na Terra Santa, onde as tensões entre palestinianos e israelitas têm repercussões sobre os equilíbrios de todo o Médio Oriente, é preciso que os responsáveis destes dois povos adoptem decisões corajosas e clarividentes a favor da paz. Soube com satisfação que, na sequência duma iniciativa do Reino da Jordânia, foi retomado o diálogo; espero que o mesmo continue a fim de se chegar a uma paz duradoura, que garanta o direito de ambos os povos a viver em segurança em Estados soberanos e dentro de fronteiras seguras e, internacionalmente, reconhecidas. Por sua vez, a comunidade internacional deve estimular a sua criatividade e as iniciativas de promoção deste processo de paz, no respeito dos direitos de cada parte. Sigo também com grande atenção o desenrolar dos factos no Iraque, deplorando os atentados que ainda recentemente causaram a perda de numerosas vidas humanas, e encorajo as suas autoridades a continuarem, firmes, pelo caminho duma plena reconciliação nacional.

O Beato João Paulo II lembrava que «o caminho da paz é também o caminho dos jovens»[1], constituindo eles «a juventude das nações e das sociedades, a juventude de todas as famílias e da humanidade inteira»[2]. Por isso, os jovens pressionam-nos para que sejam consideradas seriamente as suas exigências de verdade, justiça e paz. Nesta linha, foi a eles que dediquei a Mensagem anual para a celebração do Dia Mundial da Paz, intitulada Educar os jovens para a justiça e a paz. A educação é um tema crucial para todas as gerações, pois depende dela tanto o desenvolvimento saudável de cada pessoa como o futuro da sociedade inteira. Por isso mesmo, aquela constitui uma tarefa de primária grandeza num tempo difícil e delicado. Para além de um objectivo claro, como é o de levar os jovens a um pleno conhecimento da realidade e, consequentemente, da verdade, a educação tem necessidade de lugares. Dentre estes, conta-se em primeiro lugar a família, fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher; não se trata duma simples convenção social, mas antes da célula fundamental de toda a sociedade. Por conseguinte, as políticas que atentam contra a família ameaçam a dignidade humana e o próprio futuro da humanidade. O quadro familiar é fundamental no percurso educativo e para o próprio desenvolvimento dos indivíduos e dos Estados; consequentemente, são necessárias políticas que o valorizem e colaborem para a sua coesão social e diálogo. É na família que a pessoa se abre ao mundo e à vida e, como tive ocasião de lembrar durante a minha viagem à Croácia, «a abertura à vida é um sinal da abertura ao futuro»[3]. Neste contexto de abertura à vida, recebi com satisfação a recente sentença do Tribunal de Justiça da União Europeia, que proíbe atribuir alvarás em processos relativos às células estaminais embrionárias humanas, e também a Resolução da Assembleia parlamentar do Conselho da Europa que condena a selecção pré-natal em função do sexo.

Mais em geral, visando sobretudo o mundo ocidental, estou convencido de que se opõem à educação dos jovens e, consequentemente, ao futuro da humanidade as medidas legislativas que permitem, quando não incentivam, o aborto por motivos de conveniência ou por razões médicas discutíveis.

Continuando a nossa reflexão, um papel também essencial no desenvolvimento da pessoa é desempenhado pelas instituições educativas: estas são as primeiras instâncias que colaboram com a família e estão a cumprir mal a sua função precisamente quando falta uma harmonia de objectivos com a realidade familiar. É preciso implementar políticas de formação para que a educação escolar seja acessível a todos e que a mesma, mais do que promover o desenvolvimento cognoscitivo da pessoa, cuide do crescimento harmonioso da personalidade, incluindo nisso a sua abertura ao Transcendente. A Igreja Católica sempre esteve particularmente activa no campo das instituições escolares e académicas, cumprindo uma obra apreciável ao lado das instituições estatais. Por isso espero que esta contribuição seja reconhecida e valorizada também pelas legislações nacionais.

Nesta perspectiva, é bem compreensível que uma obra educativa eficaz exija igualmente o respeito da liberdade religiosa. Esta caracteriza-se por uma dimensão individual, bem como por uma dimensão colectiva e uma dimensão institucional. Trata-se do primeiro dos direitos do homem, porque expressa a realidade mais fundamental da pessoa. Muitas vezes, por variados motivos, este direito é ainda limitado ou espezinhado. Não posso evocar este tema sem começar por saudar a memória do ministro paquistanês Shahbaz Bhatti, cuja luta incansável pelos direitos das minorias terminou com uma morte trágica. E não se trata, infelizmente, dum caso único. Em numerosos países, os cristãos são privados dos direitos fundamentais e postos à margem da vida pública; noutros, sofrem ataques violentos contra as suas igrejas e as suas casas. Às vezes, vêem-se constrangidos a abandonar países que eles mesmos ajudaram a edificar, por causa de tensões contínuas e por políticas que frequentemente os relegam para a condição de espectadores secundários da vida nacional. Noutras partes do mundo, encontram-se políticas tendentes a marginalizar o papel da religião na vida social, como se ela fosse causa de intolerância em vez de uma apreciável contribuição na educação para o respeito da dignidade humana, para a justiça e a paz. O terrorismo religiosamente motivado ceifou, no ano passado, também numerosas vítimas, sobretudo na Ásia e na África. Por esta razão, como lembrei em Assis, os responsáveis religiosos devem repetir, com vigor e firmeza, que «esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição»[4]. A religião não pode ser usada como pretexto para pôr de lado as regras da justiça e do direito em favor do «bem» que ela persegue. Nesta perspectiva, tenho o gosto de recordar, como fiz no meu país natal, que a visão cristã do homem constituiu a verdadeira força inspiradora para os Pais constituintes da Alemanha, como aliás o foi para os Pais fundadores da Europa unida. Queria mencionar também alguns sinais encorajadores no campo da liberdade religiosa. Refiro-me à alteração legislativa, pela qual a personalidade jurídica pública das minorias religiosas foi reconhecida na Geórgia; penso também na sentença do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos favorável à presença do Crucifixo nas salas de aulas italianas. E, precisamente falando da Itália, desejo dirigir-lhe uma saudação particular na conclusão dos 150 anos da sua unificação política. As relações entre a Santa Sé e o Estado italiano atravessaram momentos difíceis depois da unificação. Mas, com o passar do tempo, prevaleceram a concórdia e a vontade mútua de cooperar, cada qual no seu próprio campo, para favorecer o bem comum. Espero que a Itália continue a promover uma relação equilibrada entre a Igreja e o Estado, constituindo deste modo um exemplo para o qual as outras nações possam olhar com respeito e interesse.

Quanto ao continente africano, que visitei de novo indo recentemente ao Benim, é essencial que a cooperação entre as comunidades cristãs e os Governos ajude a percorrer um caminho de justiça, paz e reconciliação, onde os membros de todas as etnias e religiões sejam respeitados. É triste constatar como está ainda distante, em vários países deste continente, um tal objectivo. Penso, em particular, na recrudescência das violências que afectam a Nigéria – como o indicam os atentados perpetrados contra várias igrejas durante o período natalício –, nas sequelas da guerra civil na Costa do Marfim, na instabilidade que persiste na Região dos Grandes Lagos e na urgência humanitária nos países do Corno da África. Peço uma vez mais à comunidade internacional que ajude, com solicitude, a encontrar uma solução para a crise que há anos perdura na Somália.

Finalmente, sinto o dever de sublinhar que uma educação correctamente entendida não pode deixar de favorecer o respeito pela criação. Não podemos esquecer as graves calamidades naturais que, ao longo de 2011, afectaram várias regiões do Sudeste asiático e os desastres ecológicos como o da central nuclear de Fukushima no Japão. A salvaguarda do ambiente, a sinergia entre a luta contra a pobreza e a luta contra as alterações climáticas constituem áreas importantes para a promoção do desenvolvimento humano integral. Por isso espero que, depois da XVII sessão da Conferência dos Estados Membros da Convenção da ONU sobre as Alterações Climáticas, que recentemente terminou em Durban, a comunidade internacional se prepare para a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável («Rio+20») como uma autêntica «família das nações», ou seja, com grande sentido de solidariedade e responsabilidade para com as gerações presentes e as do futuro.

Senhoras e Senhores Embaixadores,

O nascimento do Príncipe da Paz ensina-nos que a vida não acaba no nada, que o seu destino não é a corrupção mas a imortalidade. Cristo veio para que os homens tenham a vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10, 10). «Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna vivível também o presente»[5]. Animada pela certeza da fé, a Santa Sé continua a dar à Comunidade internacional o seu contributo próprio, guiada por um duplo intento que o Concílio Vaticano II – cujo cinquentenário se celebra este ano – definiu claramente: proclamar a sublime vocação do homem e a presença nele dum germe divino, e oferecer à humanidade uma cooperação sincera a fim de instaurar a fraternidade universal que a esta vocação corresponde[6]. Neste espírito, renovo a todos vós, extensivos aos membros das vossas famílias e aos vossos colaboradores, os meus votos mais cordiais para este novo ano.

Agradeço pela vossa atenção.

[1] Carta apostólica por ocasião do Ano Internacional da Juventude Dilecti amici (31 de Março de 1985), 15.

[2] Ibidem, 1.



[5] Carta encíclica Spe salvi (30 de Novembro de 2007), 2.

[6] Cf. Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 3.

© Copyright 2012 - Libreria Editrice Vaticana

É a fé que pode dar à razão (aos filósofos) a coragem de pensar até o fim e não desabar na desconstrução niilista.

Fonte: IHU

O desafio para a filosofia atual é ter mais audácia. É preciso não se deter na superfície. É preciso colocar os problemas fundamentais que dizem respeito à existência dos homens. É preciso ousar pensar.

Para o jesuíta francês Prof Dr Paul Valadier,esse programa proposto até mesmo por papas filósofos comoJoão Paulo II e Bento XVI visa a colaborar com a razão, para que não seja “esmagada pela amplitude dos problemas enfrentados pela humanidade atual: não somente a ecologia e o futuro do planeta, mas o encontro das culturas e das religiões”, afirmou.

Para Valadier, mestre e doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Lyon, teologia e filosofia se tornam essenciais uma à outra na época atual. A filosofia ajuda e estimula a teologia a não “soçobrar nos diversos iluminismos ou integrismos que também caracterizam a atualidade da vida eclesial”. Segundo Valadier, se existe uma tradição católica forte, isso se deve ao seu “respeito pela razão em todo o seu alcance, sem a qual a fé soçobra no vazio”. 

“Muitos suspeitam da filosofia moderna por seu ceticismo, seu relativismo, seu agnosticismo, e mesmo por seu ateísmo. Mas uma fé viva deve poder enfrentar estes sistemas, não para esmagá-los por sua suficiência, mas para compreender suas lógicas e aprender a situar-se em relação a elas”,afirma o filósofo especialista em Friedrich Nietzsche, e que foi durante oito anos chefe de redação da revista francesa Études. “Talvez seja a fé que pode dar à razão (aos filósofos) a coragem de pensar até o fim e não desabar na desconstrução niilista”.

O desafio das religiões, nesse contexto, é “encarar as nossas diferenças e não procurar apagá-las. A paz e o entendimento só podem nascer da consciência compartilhada de nossas (legítimas) diferenças”, esse é “o mundo pluralista no qual nós devemos viver e no qual é preciso procurar paz e concórdia entre todos os povos e todas as religiões”. 

Por isso, explica, a maior contribuição das religiões monoteístas na atualidade é o seu encontro – nas palavras dePaul Ricoeur – no “conflito das interpretações”. Assim, afirma Valadier, as religiões podem responder às suas “pretensões de universalidade”, contribuindo “de maneira eminente ao fortalecimento da comunidade internacional e de seu direito”.

O cristianismo, especificamente, “pode lembrar oportunamente que o indivíduo, considerado como um átomo separado é apenas uma ilusão inconsistente. A pessoa humana nasce e se desenvolve nas relações, e somente nelas”,”Se ela se crê ’soberana’ ou ‘autônoma’, ou seja, sem elo ou sem alteridade, ela se perde e se torna ‘escrava’ de suas pulsões”. 

Portanto, o cristianismo, “professando que todo ser humano é amado por Deus (eleição divina), indica o valor da pessoa e nela suscita uma vontade criadora que não se abandona, mas procura responder positivamente à sua vocação”, diz Valadier.

Com relação aos desafios e perspectivas de futuro, em uma realidade em que a Igreja Católica passa por um declínio na Europa e está “em plena florescência” na Ásia e na África, Prevê que “o centro de irradiação da Igreja Católica não será mais a Europa, como antigamente, mas será, cada vez mais, a Ásia, a África e a América Latina“


O homem é desde a sua origem um homem religioso

Andrea Tornielli- Vatican Insider

“O homem é desde a sua origem um homem religioso”. O sacerdote belga Julien Ries, 92 anos, por muito tempo professor da Universidade Católica de Leuven, é o fundador de um novo campo do saber, a antropologia religiosa fundamental. Proponente do diálogo entre as religiões, Ries será criado cardeal no próximo dia 18 de fevereiro.

A sua existência tem sido dedicada aos estudos sobre o sagrado nas diversas culturas: tem uma bibliografia enorme, e sua a opera omnia foi publicada em italiano pela editora Jaca Book.

Eis a entrevista.

O senhor chega à púrpura depois de uma vida de pesquisa: foi um dos primeiros a insistir sobre a dimensão religiosa como originária no ser humano. O sentido religioso é realmente inato?

Estou muito de acordo com o paleontólogo Yves Coppens, o descobridor de Lucy, que há anos repete que o ser humano é desde já um homem religioso.

Como se documenta essa afirmação?

Consideremos esse ser humano religioso como o conhecemos através dos fatos e dos gestos da história: se analisarmos as suas pinturas encontradas em centenas de cavernas, até agora descobertas, suas milhares de gravuras rupestres, se examinarmos o seu comportamento com relação aos falecidos, se tentarmos interpretar os gestos das suas mãos elevadas à cúpula celeste – o “Ka” dos antigos egípcios –, somos obrigados a pensar em uma experiência de relação vivida de forma consciente pelo ser humano arcaico com a realidade misteriosa e ultraterrena.

Qual é o papel dos textos sagrados das várias religiões?

Os livros sagrados da humanidade são um prodigioso patrimônio que historiadores e outros especialistas tentam analisar para compreender o discurso com o qual o ser humano religioso e simbólico traduziu a própria experiência. O conjunto desse discurso é coerente desde o paleolítico até os nossos dias. Isso nos leva a pensar em uma unidade da experiência espiritual da humanidade.

Hoje, certos símbolos religiosos parecem dividir em vez de unir. É possível a convivência entre religiões diferentes nas nossas sociedades?

O cristão é levado a compreender e a se beneficiar da contribuição das outras culturas. Os Padres da Igreja já haviam compreendido isso. Daí a riqueza da época helênica para a cultura cristã dos primeiros séculos e a grande importância do Renascimento. A sua pergunta subentende a objeção de Claude Lévi-Strauss, que tentou determinar o funcionamento do espírito humano, mas rejeitando buscar nos mitos um sentido que seria revelador das aspirações da humanidade. Para ele, os mitos não dizem nada sobre as origens do homem e sobre o seu destino. A sua busca desemboca em uma visão completamente materialista da cultura. Estamos, assim, na presença de um verdadeiro pessimismo.

Que novidade o cristianismo nos trouxe na história religiosa da humanidade?

No seu discurso construído sob a forma de parábolas, Jesus retoma, em parte, o simbolismo cósmico e o põe ao serviço do anúncio do Evangelho. Acrescenta a isso alegorias extraídas da vida cotidiana. É uma teofania no sentido pleno do termo. E essa mesma existência é a maior revolução religiosa da história. Cristo, depois de ter enviado o Espírito sobre os apóstolos, mediante o seu corpo que é a a Igreja,continua presente na história.

Qual o senhor considera como a sua descoberta científica mais importante?

O fato de ter identificado a possibilidade de construir um novo campo do saber, a antropologia religiosa fundamental. A primeira experimentação dessa construção foi organizar, a pedido da minha editora, Jaca Book, o Tratado de antropologia do sagrado, ao qual colaborou uma centena de estudiosos e no qual se documenta que o conceito de Homo religiosus é operacional e fundamental para a pesquisa sobre as religiões e as culturas. Um trabalho que evidencia o homem religioso e a sua experiência do sagrado, baseando-se nas três constantes da própria experiência: o símbolo, o mito e o rito. A antropologia fundamental aborda tudo isso e nos abre novos horizontes sobre o ser humano, também em tempos de crise como o nosso.


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