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BENTO XVI E A RESTAURAÇÃO DA IDENTIDADE CATÓLICA


Entrevista com John L. Allen Jr.*


A reportagem é de Eusebio Val, publicada no jornal La Vanguardia, 19-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O Papa ainda é importante na política internacional?

Mais importante do que muitos pensam. A Igreja católica tem 1,2 bilhões de membros espalhados por todo o planeta. Mesmo que o Papa não possa apertar um botão para que os católicos façam alguma coisa, a linha que ele marca é sim importante para fixar as prioridades políticas, sociais e culturais dos católicos. O caso mais óbvio é o papel de João Paulo II na derrubada do comunismo na Europa. Ele também foi a principal voz da rejeição moral à guerra dos EUA no Iraque.

Você escreveu que a Igreja católica é para a religião aquilo que os EUA são para geopolítica.

Sim, é a outra superpotência que resta. Cada vez que há alguma iniciativa inter-religiosa importante no mundo, ninguém presta atenção, a menos que o Papa participe. A Igreja católica é a maior e a mais integrada verticalmente. Tem uma estrutura de mando clara. Como nenhuma outra religião. Ninguém sabe quem manda no islã, no hinduísmo ou no judaísmo. Isso lhe dá uma capacidade única para se mobilizar. Assim como não há solução a nenhum problema político ou econômico global que não envolva os EUA, não há solução a nenhum problema religioso ou espiritual global que não envolva a Igreja católica.

E além disso ela possui um corpo diplomático.

Sim, não existe nenhuma outra religião que o tenha. São 193 os países que mantêm relações diplomáticas com a Santa Sé. Só poucos não têm: Vietnã, Coreia do Norte, Arábia Saudita e Irã. Não é uma lista em que você gostaria de estar. A Igreja católica está posicionada de maneira única para ser uma voz religiosa e de consciência nos assuntos globais.

Que missão esse Papa tem, em sua opinião?

É muito claro que a tarefa número um de Bento XVI está voltada ao interior da Igreja, não ao exterior. O que ele tenta fazer é restaurar um forte sentimento de identidade católica, o que significa ser católico e o que nos diferencia do resto. Por isso, existe muito cuidado sobre como são traduzidos os textos da liturgia, tanta atenção aos teólogos que, do ponto de vista do Vaticano, estão ensinando as coisas equivocadas. O projeto principal de Bento XVI é restaurar um sentimento de identidade católico forte, claro, musculoso. Sua esperança é que, se assim o fizer, o catolicismo será mais unido e mais efetivo para levar sua mensagem ao mundo.

Este Papa é de transição, dada a sua idade?

Cada Papa é um Papa de transição, pois houve 264 antes que ele, e provavelmente haverá centenas depois. Mas não acredito que Bento XVI tenha sido eleito simplesmente para manter o assento quente por poucos anos até que escolham outro. No conclave de 2005, os cardeais decidiram que o desafio mais importante para a Igreja é a crise de fé na Europa, que é a parte do mundo mais apática diante da fé ou em alguns casos mais hostil, e alguém tinha que fazer alguma coisa. Eles acreditaram que Bento XVI, que escreveu, pensou e falou sobre a situação da fé na Europa durante décadas, seria o homem adequado. O que acontece é que Bento XVI é famoso por pensar em longo prazo. Ele não se preocupa com a manchete do La Vanguardia de amanhã, mas sim com a situação dentro de 200 anos. Você não pode esperar resultados imediatos. Mas não acredito que se possa dizer que é um papado de transição, no sentido de que não faz nada. Pelo contrário, ele tenta legar um magistério que permita que a Igreja supere a crise da secularização europeia. A má notícia para os jornalistas é que devemos esperar 200 anos para ver se isso funciona.

O próximo Pontífice pode ser negro ou sul-americano?

Da última vez, um finalista foi o cardeal argentino Bergoglio. Foi levado muito a sério como candidato. É possível? Claro que sim. Se olharmos aos números, desses 1,2 bilhões de católicos, mais de 700 milhões vivem na América Latina, na África e na Ásia. Por isso, de certa maneira, já seria hora de que houvesse um Papa do mundo em desenvolvimento. Mas quando os cardeais se reúnem no conclave, eles não pensam no passaporte, na idade ou em onde o candidato estudou. Eles tentam, na verdade, escolher aquele que tenha mais talento, mais santidade, o mais preparado para dirigir a Igreja. Se for africano, perfeito. Se for alemão, como aconteceu da última vez, isso não vai lhes parar. Mesmo que veja como possível, não acredito que irão eleger alguém pelo fato de ser negro. Irão eleger porque acreditam que é o homem adequado para ser Papa. E se for negro, isso não será um obstáculo.

Pode haver uma mudança radical na Igreja como, por exemplo, a perestroika na URSS?

Claro que é possível. Mas as lixeiras da história da Igreja estão cheias de cadáveres de jornalistas que tentaram prever o futuro. Eu não tenho bola de cristal. Historicamente, a mudança na Igreja católica é uma surpresa. Aí está a diferença com os protestantes. Eles mudam constantemente. Têm suas reuniões e votam sobre seus magistérios, rodam seus bispos. Na Igreja católica, pelo contrário, as coisas, na superfície, parecem não se mover durante muito tempo até que, de repente, algo entra em irrupção. Aconteceu assim com o Concílio Vaticano II. Muito poucos anteciparam a mudança tão substancial que ele traria. É possível outra mudança radical? Claro que sim, mas atualmente eu não vejo isso no horizonte.

Qual é o estado de saúde do catolicismo em escala global?

Varia imensamente segundo a região do mundo. Em nível estatístico, o catolicismo goza da melhor saúde na África subsaariana. Em 1900, havia ali 1,9 milhões de católicos. Agora, são 165 milhões. É um crescimento de mais de 8.000% em pouco mais de um século. Os seminários estão cheios, e as missas também. Isso não diz muito sobre a qualidade da fé, mas, numericamente, o catolicismo tem um mercado em expansão, vive um boom na África. Em algumas áreas da Europa, ocorre o contrário. A participação na missa caiu a 4%, 5%, 6%. Os seminários estão morrendo. A Igreja tem uma influência pública muito reduzida. O Papa não conseguiu nem uma menção de Deus na Constituição Europeia. Mas é perigoso e enganoso avaliar a saúde da Igreja com base na Europa. É como estudar o mercado da Coca-Cola onde se bebe Pepsi. No marco global, pelo menos em nível quantitativo, a Igreja católica vai bem.

A Espanha é uma grande preocupação para esse Papa.

A Espanha não é só uma grande preocupação para esse Papa. A Espanha é uma preocupação para o Vaticano e para a Igreja católica em toda a Europa. Zapatero se converteu no símbolo de todo o equívoco do secularismo europeu. É interessante e significativo que quando Obama foi eleito, houve um debate aqui, no Vaticano, sobre se ele se converteria em um Zapatero global. Porque para eles Zapatero é o símbolo desse secularismo radical, hostil à religião, hostil à Igreja católica e hostil aos seus ensinamentos morais. A preocupação é que o impacto de Zapatero não fique só na Espanha, mas que se estenda pela Europa e tenha um sério impacto na América Latina, onde vive a metade dos católicos do mundo. Existe um sério temor de que Zapatero seja uma doença que se estenda e infecte toda a América Latina.

E como o Vaticano reagiu a essa situação?

Acredito que há duas atitudes. Uma é partidária de lutar contra Zapatero, de levar as pessoas às ruas para manifestações em favor da família, para protestar contra o governo. A outra é partidária de dialogar com Zapatero e de convidar o movimento que ele representa para uma conversa razoável, para que não veja a Igreja católica como um inimigo, mas sim como uma potencial amiga. Esse era o estilo de Bento XVI quando se encontrou pela primeira vez com Zapatero, em Valência, no Congresso Mundial da Famílias, em 2006. Entre os jornalistas, esperava-se que esse encontro fosse muito violento, mas na realidade foi uma festa do amor em que Bento XVI, de maneira deliberada, não propôs nenhuma das questões contenciosas como o aborto, o casamento homossexual, a eutanásia ou a relação Igreja-Estado. Seu estilo foi tentar encontrar áreas de acordos potenciais e construir uma relação. Acredito que essas duas atitudes definem a reação da Igreja católica, e seus líderes estão divididos ainda hoje.

* O norte-americano John L. Allen Jr. (foto) é um dos vaticanistas de referência no atual papado de Bento XVI, sobre quem ele publicou duas biografias. Allen escreve no National Catholic Reporter e é comentarista religioso da rede de TV CNN e da rádio pública NPR. Ele vive entre Roma e Denver. Nesta entrevista, Allen analisa o atual momento da Igreja católica, a estratégia de Joseph Ratzinger e sua preocupação com a Espanha de Zapatero.











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