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A colaboração entre religião e ciência moderna

A colaboração entre religião e ciência moderna resulta em vantagem para uma e para outra, sem violar de nenhum modo as suas autonomias respectivas. Do mesmo modo que a religião exige a liberdade religiosa, a ciência reivindica legitimamente a liberdade da investigação. O Concílio ecuménico Vaticano II, depois de reafirmar, com o Concílio Vaticano I, a justa liberdade das artes e das disciplinas humanas no campo dos seus princípios, reconhece solenemente «a autonomia legítima da cultura e em particular a das ciências». Ao realizar-se esta comemoração solene de Einstein, desejaria confirmar de novo as declarações do Concílio sobre a autonomia da ciência no seu trabalho de investigação sobre a verdade inscrita na criação pelo dedo de Deus. Cheia de admiração pelo génio do grande sábio em que se revela a marca do Espírito criador, a Igreja, sem intervir de qualquer modo, por um juízo que não lhe pertence formular, sobre a doutrina relativa aos grandes sistemas do universo, propõe-na todavia à reflexão de teólogos para descobrir a harmonia que existe entre a verdade científica e a verdade revelada.

Papa Bento XVI aos cientistas: "Universo não é caos"

Cidade do Vaticano (RV) - “O universo não é caos ou o resultado do caos, bem pelo contrário, revela uma complexidade bem ordenada” – observou Bento XVI, ao receber, nesta quinta-feira, no Vaticano, os sessenta participantes da Assembleia Plenária da Pontifícia Academia das Ciências, que tem como tema: “Complexidade e Analogia nas Ciências: Aspetos teóricos, metodológicos e epistemológicos”. 

Agradecendo a saudação inicial do diretor desta Pontifícia Academia, o cientista suíço Werner Arber, o Papa observou que a temática abordada toca um importante aspeto, que “abre a uma variedade de perspectivas que apontam para uma nova visão da unidade das ciências” e para “a grande unidade da natureza na complexa estrutura do cosmos e para o mistério do lugar que o homem nele ocupa”.

A paciente integração das variadas teorias, cujos resultados, quando confirmados, constituem os pressupostos para novas investigações, “testemunham – notou o Papa – tanto a unidade do processo científico como também a permanente tendência dos cientistas em direção a uma compreensão mais apropriada da verdade da natureza e a uma visão mais inclusiva da mesma”.

“Tal abordagem interdisciplinar da complexidade mostra também que as ciências não são mundos intelectuais desligados uns dos outros, pelo contrário, que estão interligadas entre si e vocacionadas ao estudo da natureza como uma realidade unificada, inteligível e harmoniosa na sua inegável complexidade.” 

O universo não é um caos ou o resultado do caos. Pelo contrário, ele aparece cada vez mais claramente como uma complexidade ordenada que nos permite, através da análise comparativa e da analogia, passar da especialização para um ponto de vista mais universal e vice-versa”.

Referindo-se ao tema abordado nesta Assembleia, “Complexidade e analogia”, Bento XVI fez notar como o uso da analogia se tem revelado muito “frutuoso para a Filosofia e para a Teologia, não só como instrumento para uma análise horizontal da realidades da natureza, mas também como estímulo para um pensar criativo sobre um plano transcendental mais elevado”. 

O pensamento cristão tem empregado a analogia não só para a investigação das realidades mundanas, mas também como meio de se elevar da ordem da natureza criada à contemplação do Criador.

Estou convencido da necessidade urgente de um diálogo e cooperação permanentes entre os mundos da ciência e da fé, para construir uma cultura de respeito pelo homem, pela dignidade humana e pela liberdade, a bem do futuro da nossa família humana e para um desenvolvimento sustentável, a longo prazo, do nosso planeta.”



Ciência e fé têm uma reciprocidade fecunda, quase uma exigência complementar da compreensão do real, diz Bento XVI


(...)
Nesta circunstância, gostaria de oferecer algumas reflexões. A nossa é uma época em que as ciências experimentais transformaram a visão do mundo e a própria autocompreensão do homem. As múltiplas descobertas, as tecnologias inovativas que se sucedem a ritmo premente, são razão de orgulho motivado, mas muitas vezes não estão isentas de aspectos inquietantes. Com efeito, por detrás do optimismo difundido do saber científico estende-se a sombra de uma crise do pensamento. Rico de meios, mas não igualmente de fins, o homem do nosso tempo vive frequentemente condicionado pelo reducionismo e relativismo, que levam a perder o significado das coisas; quase deslumbrado pela eficácia técnica, esquece-se do horizonte fundamental da exigência de sentido, relegando assim à irrelevância a dimensão transcendente. 

Neste cenário, o pensamento torna-se frágil e ganha terreno também uma depauperação ética, que ofusca as referências normativas de valor. Aquela que foi a fecunda raiz europeia de cultura e de progresso parece esquecida. Nela, a busca do absoluto — o quaerere Deum — incluía a exigência de aprofundar as ciências profanas, todo o mundo do saber (cf. Discurso no Collège des Bernardins de Paris, 12 de Setembro de 2008). Com efeito, a investigação científica e a exigência de sentido, apesar da fisionomia epistemológica e metodológica específica, jorram de uma una única nascente, aquele Logos que preside à obra da criação e guia a inteligência da história. Uma mentalidade fundamentalmente tecnoprática gera um desequilíbrio arriscado entre o que é tecnicamente possível e o que é moralmente bom, com consequências imprevisíveis.

Então, é importante que a cultura redescubra o vigor do significado e do dinamismo da transcendência, em síntese, que abra com decisão o horizonte do quaerere Deum. Vem à mente a célebre frase agostiniana: «Criastes-nos para Vós [Senhor], e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousar em Vós» (As Confissões, I, 1). Pode-se dizer que o mesmo impulso para a investigação científica brota da sede de Deus que habita no coração humano: no fundo, o homem de ciência tende, muitas vezes inconscientemente, a alcançar aquela verdade que pode dar sentido à vida

Mas por mais apaixonada e tenaz que seja a pesquisa humana, com as suas próprias forças ela não é capaz de uma solução segura, porque «o homem não é capaz de iluminar completamente a estranha penumbra que pesa sobre a questão das realidades eternas... Deus deve tomar a iniciativa de ir ao encontro do homem, de se lhe dirigir» (J. Ratzinger, L’Europa di Benedetto nella crisi delle culture, Cantagalli, Roma 2005, 124). Então, para restituir à razão a sua dimensão nativa, integral, é necessário voltar a descobrir o lugar de nascente, que a investigação científica compartilha com a busca da fides quaerens intellectum, segundo a intuição anselmiana. 

Ciência e fé têm uma reciprocidade fecunda, quase uma exigência complementar da compreensão do real. Mas de modo paradoxal, precisamente a cultura positivista, excluindo do debate científico a pergunta sobre Deus, determina o declínio do pensamento e o depauperamento da capacidade de compreensão do real. Porém, o quaerere Deum do homem perder-se-ia num enredo de caminhos, se não viesse ao seu encontro uma senda de iluminação e de orientação segura, que é aquela do próprio Deus que se faz próximo do homem com um amor imenso: «Em Jesus Cristo, Deus não só fala ao homem, mas procura-o... É uma busca que nasce no íntimo de Deus e tem o seu ponto culminante na Encarnação do Verbo» (João Paulo II, Tertio millennio adveniente, 7).

Religião do Logos, o Cristianismo não relega a fé para o âmbito do irracional, mas atribui a origem e o sentido da realidade à Razão criadora, que no Deus crucificado se manifestou como amor e que convida a percorrer o caminho doquaerere Deum: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida». S. Tomás de Aquino comenta: «Com efeito, o ponto de chegada deste caminho é a finalidade do desejo humano. Pois bem, o homem deseja principalmente duas coisas: em primeiro lugar, o conhecimento da verdade que é próprio da sua natureza. Em segundo lugar, a permanência no ser, propriedade comum a todas as coisas. Em Cristo encontram-se ambas... Portanto, se procuras por onde passar, acolhe Cristo porque Ele é o caminho» (Exposição sobre João, cap. 14, lectio 2). Então, o Evangelho da vida ilumina o caminho árduo do homem, e diante da tentação da autonomia absoluta, recorda que «a vida do homem provém de Deus, é seu dom, é sua imagem e sua figura, é participação do seu sopro vital» (João Paulo II,Evangelium vitae, 39).

 E é precisamente percorrendo a vereda da fé que o homem se torna capaz de divisar nas próprias realidades de sofrimento e de morte, que atravessam a sua existência, uma possibilidade autêntica de bem e de vida. Na Cruz de Cristo reconhece a Árvore da vida, revelação do amor apaixonado de Deus pelo homem. Então, o cuidado de quantos sofrem torna-se um encontro quotidiano com o rosto de Cristo, e a dedicação da inteligência e do coração faz-se sinal da misericórdia de Deus e da sua vitória sobre a morte.

Vivida na sua integridade, a investigação é iluminada pela ciência e pela fé, e é destas duas «asas» que ela haure impulso e estímulo, sem jamais perder a justa humildade, o sentido do próprio limite. Deste modo, a busca de Deus torna-se fecunda para a inteligência, fermento de cultura, promotora de verdadeiro humanismo, busca que não se detém à superfície. Queridos amigos, deixai-vos guiar sempre pela sabedoria que vem do Alto, por um saber iluminado pela fé, recordando que a sabedoria exige a paixão e o esforço da pesquisa.

Insere-se aqui a tarefa insubstituível da Universidade Católica, lugar em que a relação educativa é posta ao serviço da pessoa na construção de uma competência científica qualificada, arraigada num património de saberes que a sucessão das gerações instilou em sabedoria de vida; lugar em que a relação de cura não é profissão, mas missão; onde a caridade do Bom Samaritano é a primeira cátedra e o rosto do homem sofredor, a Face do próprio Cristo: «A mim o fizeste». 

No trabalho quotidiano de pesquisa, de ensino e de estudo, a Universidade Católica do Sagrado Coração vive nesta traditio que exprime a própria potencialidade de inovação: progresso algum, nem sequer no plano cultural, se alimenta de mera repetição, mas exige um início sempre novo. Além disso, requer aquela disponibilidade ao confronto e ao diálogo que abre a inteligência e dá testemunho da rica fecundidade do património da fé. Assim, dá-se forma a uma sólida estrutura de personalidade, onde a identidade cristã penetra na vida quotidiana e se manifesta a partir do interior de uma profissionalidade excelente.

A Universidade Católica, que tem com a Sé de Pedro uma relação especial, está hoje chamada a ser instituição exemplar que não limita a aprendizagem à funcionalidade de um êxito económico, mas amplia a acção em vista de projectos em que o dom da inteligência investiga e desensolve as dádivas do mundo criado, superando uma visão apenas produtivista e utilitarista da existência, porque «o ser humano foi feito para o dom, que exprime e realiza a sua dimensão de transcendência» (Caritas in veritate, 34). É precisamente esta conjugação entre investigação científica e serviço incondicionado à vida que delineia a fisionomia católica da Faculdade de Medicina e Cirurgia «Agostino Gemelli», porque a perspectiva da fé é interior — não sobreposta, nem justaposta — à busca talentosa e tenaz do saber.

Uma Faculdade católica de Medicina é lugar onde o humanismo transcendente não é slogan retórico, mas regra viva da dedicação quotidiana. Desejando uma Faculdade de Medicina e Cirurgia autenticamente católica, Padre Gemelli — e com ele muitos outros, como o Prof. Brasca — voltava a levar ao centro da atenção a pessoa humana na sua fragilidade e na sua grandeza, nos recursos sempre novos de uma pesquisa apaixonada e na não menor consciência do limite e do mistério da vida. Por isso, desejastes instituir um novo Centro de Ateneu para a Vida, que ajude outras realidades já existentes como, por exemplo, o Instituto Científico Internacional Paulo VI. Portanto, encorajo a atenção à vida em todas as suas fases.
(...)

VISITA À UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SAGRADO CORAÇÃO
NO 50º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DA FACULDADE DE MEDICINA
E CIRURGIA DA POLICLÍNICA AGOSTINO GEMELLI
DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
Quinta-feira 3 de Maio de 2012



© Copyright 2012 - Libreria Editrice Vaticana

O apreço da Igreja pelo progresso da pesquisa científica


(...)

A ciência é um lugar de diálogo entre o homem e seu criador
A história da ciência no século XX está sem dúvida marcada por conquistas e grandes progressos. Infelizmente, a imagem popular da ciência do século XX é por vezes caracterizada de forma diferente, por dois elementos extremos. «Por um lado, a ciência é considerada uma panaceia, como é confirmado pelas suas notáveis conquistas do último século. Com efeito, os seus inúmeros progressos foram tão determinantes e velozes que parecem confirmar a opinião segundo a qual a ciência poderia responder a todos as questões da existência humana, inclusive às suas mais altas aspirações. Por outro, há pessoas que têm receio da ciência e dela tomam distância, por causa de preocupantes progressos que fazem reflectir, como a construção e o uso aterrorizador das armas nucleares.

A ciência, claramente, não é definida só por estes dois extremos. A sua tarefa foi e permanece uma paciente e todavia apaixonada procura da verdade sobre o cosmo, a natureza e a criação do ser humano. Nesta procura, houve muitos sucessos e fracassos, vitórias e derrotas. Os desenvolvimentos da ciência foram quer edificantes, como quando foram descobertas a complexidade da natureza e os seus fenómenos, superando as nossas expectativas, quer humilhantes, como quando algumas das teorias que deveriam explicar definitivamente estes fenómenos, se revelaram só parciais.

Todavia, também os resultados provisórios constituem uma concreta contribuição para revelar a correspondência entre o intelecto e as realidades naturais, com base nas quais as gerações vindouras poderão edificar ulteriormente.

O progresso realizado no âmbito do conhecimento científico no século xx, nas suas várias disciplinas, conduziu a uma maior tomada de consciência sobre o lugar que o homem e este planeta ocupam no universo. Em todas as ciências, o comum denominador continua a ser a noção de experimentação como um método estruturado para analisar a natureza. Nos últimos séculos, o homem realizou sem dúvida muitos mais progressos em comparação com a precedente história da humanidade, embora nem sempre no conhecimento de si mesmo e de Deus, mas certamente no conhecimento do macrocosmo e do microcosmo. 

O nosso encontro hoje, caros amigos, é a prova do apreço da Igreja pelo progresso da pesquisa científica e da sua gratidão pelos esforços científicos, que contemporaneamente encoraja e do qual traz benefícios. Actualmente, os próprios cientistas apreciam cada vez mais a necessidade de abertura à filosofia para descobrir o fundamento lógico e epistemológico da própria metodologia e das próprias conclusões. 

Por sua vez, a Igreja está convicta de que a actividade científica finalmente beneficia do reconhecimento da dimensão espiritual do homem e da sua procura de uma resposta definitiva, que permita o reconhecimento da existência de um mundo independentemente de nós, que não formos capazes de entender completamente e que podemos penetrar só na medida em que formos capazes de nos ancorar na sua própria lógica. Os cientistas não criam o mundo, aprendem sobre ele e tentam imitá-lo, seguindo as leis e a inteligibilidade que a natureza nos manifesta. 

A experiência do cientista como ser humano consiste por conseguinte na percepção de uma constante, uma lei, um logos que ele não criou mas que ele próprio observou: com efeito, isto leva-nos a aceitar a existência de uma Razão omnipotente, que é diferente daquela do homem e suporta o mundo. É este o ponto focal do encontro entre as ciências naturais e a religião. Por conseguinte, a ciência torna o lugar do diálogo, um encontro entre o homem e a natureza e, potencialmente, também entre o homem e o seu Criador.

Enquanto observamos o século XXI, gostaria de propor dois argumentos sobre os quais reflectir ainda mais. Em primeiro lugar, ao crescer profundamente dentro de nós a maravilha perante a complexidade da natureza, graças aos resultados cada vez mais numerosos das ciências, a necessidade de uma abordagem interdisciplinar coincidente com a reflexão filosófica que conduza a uma síntese, é cada vez mais sentida. Em segundo lugar, as conquistas científicas neste novo século deveriam conformar-se sempre com os imperativos da fraternidade e da paz, contribuindo para resolver os grandes problemas da humanidade e concentrando os esforços de todos em direcção ao verdadeiro bem do homem e do desenvolvimento integral dos povos do mundo. O êxito positivo da ciência do século xx dependerá certamente em grande medida da capacidade dos cientistas de procurar a verdade e de aplicar as descobertas de forma que possam caminhar de mãos dadas com a procura do que é justo e bom.

Com esses voto, convido-vos a dirigir o vosso olhar em direcção a Cristo, Sabedoria não criada, e reconhecer no Seu rosto, o Logos do Criador de todas as coisas. Renovando os meus bons votos pelo vosso trabalho, concedo-vos de bom grado as minhas bênçãos apostólicas.

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
AOS PARTICIPANTES NA PLENÁRIA
Sala Clementina
Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

Ciência e fé: mal-entendidos



Num dia desses tirei um tempinho para assistir a alguns vídeos no YouTube com discussões sobre filosofia, ciência e , bem como sobre criacionismo evolucionismo. Fiquei impressionado com os mal-entendidos e conceitos truncados, imprecisos e incompletos, além de puros e simples preconceitos! Não é à toa que muitos pensam que fé e ciência sejam incompatíveis! Com determinadas visões de ciência e certas visões de fé, não é para menos!


Resumidamente, como este espaço permite, é preciso que se compreenda o seguinte: (1) Não há contraposição entre criacionismo e evolucionismo do ponto de vista bíblico. (2) Desde os anos 50 do século passado a Igreja tem deixado claro que as narrativas bíblicas da criação pertencem a um gênero literário poético: Deus criou tudo, tudo é bom, tudo foi tirado do nada para a glória de Deus, a misteriosa realidade do mal é fruto de um não a Deus dado pela criatura, o homem é imagem de Deus, tudo caminha para Deus. É isto que os relatos da criação desejam ensinar. (3) Há um tremendo mal-entendido de muitos cientistas sobre o que significa a palavra Deus bem como sobre o Seu modo de agir!

Deus não é um ser entre outros, que possa ser apreendido, descrito, "quantificável". Ele é o Ser; rigorosamente falando, Ele não existe; Ele É! É presente no mais íntimo da menor e mais fugaz partícula subatômica e envolve o universo todo (ou milhares de outros que possam existir, segundo a imaginação mais fantasiosa que real de alguns astrofísicos...): Ele é o mais Além e o mais Aquém de tudo! Sobre Deus, a ciência não tem nada a dizer, simplesmente porque Ele escapa totalmente ao seu campo de estudo e competência. Fico impressionando quando vejo cientistas que, falando de Deus, de repente extrapolam seu campo e tornam-se filósofos ou teólogos de má qualidade...

Outro mal-entendido: o modo de pensar a ação de Deus no mundo. Dou alguns exemplos: se é a liberdade humana quem age, então não é Deus; se é Deus, então não é a liberdade. Assim, para libertar o homem, é necessário eliminar Deus. Outro exemplo: se se consegue explicar os dinamismos da matéria, da energia, a evolução do universo e a evolução dos seres vivos, então Deus não existe... Aí aparecem com toda força a compreensão tortíssima de quem é Deus e da qualidade da Sua ação! Exatamente porque Deus não é um ser entre os seres, mas é o Ser que cria soberanamente e sustenta continuamente tudo no ser, Sua ação criadora é contínua e total e não vem de fora para dentro do mundo criado, mas age no íntimo mesmo da matéria e da vida. Assim, uma flor se abre porque Deus continua criando, uma estrela explode porque Deus continua agindo, o vento sopra porque Deus continua Sua obra! Mas, e as leias da natureza? São obra contínua de Deus, que é amorosamente fiel à Sua criação! A evolução mesma é obra da contínua e perene ação de Deus, que tudo dirige, governa e conduz segundo Sua misteriosa sabedoria, que nos ultrapassa!

Então, isto significa que não se pode perceber os rastros de Deus na Criação? Pode-se sim! (1) O próprio fato de existir o ser e não o nada, grita pela questão: donde vem tudo? Quem deu a tudo o ser e a consistência? E esta incrível ordem, mesmo em áreas de aparente desordem? Como do nada pôde surgir tudo? Nenhum cientista tem uma resposta científica para tais questões. Os que se metem a respondê-las extrapolam o método científico e começam a fazer filosofia, na maioria das vezes, de má qualidade...

(2) Se pensarmos bem, olhando a criação e a inteligência e o coração humanos, temos que nos perguntar por uma Inteligência infinita, que nos ultrapassa totalmente e tudo criou para Si! O mal é querer medir Deus por nós, engaiolando-O no nosso estreito limite! (3) Mas, tem mais: quantas vezes diante da beleza da criação e da vida com seus acontecimentos, temos a intuição fortíssima da existência e da presença desse Criador amoroso, verdadeiro poeta? Reduzir o conhecimento humano ao racional é ridiculamente desumano! Até mesmo descobertas científicas são realizadas, às vezes, seguindo-se a intuição... E é bom ter bem presente que no caso da persistente intuição que o coração e a inteligência humana têm da existência de Deus, não se trata de um tema periférico da vida, mas do fundamento mesmo da existência. Trata-se de uma intuição que poderíamos chamar de arquetípica, ponto de o homem não conseguir jamais escapar da noção de Deus – a não ser para cair na noção de deuses falsos, verdadeiras armadilhas que tiranizam e desfiguram o homem!

(4) E o mais que tudo: a tremenda e perturbadora questão do Sentido! Por que e para que tudo existe? E eu, com meus sonhos e desejos infinitos? E a inteligência e consciência do ser humano? Não será a neurociência ou qualquer outro ramo da ciência que poderá responder a este tipo de perguntas. Aqui entra a filosofia e, em última análise, a religião!

A discussão entre fé e razão, entre ciência e religião sempre foi muito problemática devido às intolerâncias e preconceitos de ambas as partes. Atualmente, pelo menos na nossa cultura ocidental, o grande preconceito e intolerância parte, sobretudo, da visão estreita de alguns cientistas. Seria preciso humildade para escutar o outro, para perceber os vários campos de abordagem da realidade, aceitando os limites do seu próprio campo de estudo. Se se levasse isso em conta, haveria bem menos mal-entendidos e bem menos bobagem nas opiniões sobre o tema...

Cientistas ateus? Porque existem ateus? Como chegamos ao ateísmo moderno


                           
Por Jorge Pimentel Cintra

O falso mito de que os cientistas não acreditam em Deus

O falso mito de que os cientistas não acreditam em Deus tem, na verdade, pretensões maiores do que parece à primeira vista: quer dar a entender que todas as pessoas verdadeiramente inteligentes e esclarecidas não aderem às “fábulas” ou aos “mitos” religiosos; e os cientistas, esses “homens geniais”, levados pelas demonstrações da sua ciência, chegaram à conclusão inevitável de que Deus simplesmente não existe.

Outro falso mito que “corre solto” é que os cientistas não acreditam em Deus. Em si, o fato não teria nada de mais, já que encontramos ateus de todas as profissões e de todas as categorias sociais. Este mito tem, na verdade, pretensões maiores do que parece à primeira vista: quer dar a entender que todas as pessoas verdadeiramente inteligentes e esclarecidas não aderem às “fábulas” ou aos “mitos” religiosos; e os cientistas, esses “homens geniais”, levados pelas demonstrações da sua ciência, chegaram à conclusão inevitável de que Deus simplesmente não existe.

Nada mais distante da verdade; um conhecimento superficial da vida de alguns cientistas poderia dar uma impressão desse tipo, mas um estudo mais profundo mostra sempre que os contados casos de ateísmo são muito mais uma conseqüência de circunstâncias ou de problemas pessoais do que uma atitude decorrente de conclusões científicas. De fato, até hoje ninguém apresentou nenhum argumento verdadeiramente sério sobre a inexistência de Deus, e muito menos baseado em conclusões científicas.

É um fato que houve cientistas que foram ateus ou que abandonaram a prática da religião, como por exemplo Madame Curie, polonesa de origem, nascida e educada na religião católica, que se desinteressou da religião ao ficar abalada pela morte da mãe. Só temos a dizer que é uma pena.

A Grande lista dos que acreditam em Deus

Por outro lado, ao longo de toda a história, poderíamos citar uma quantidade enorme de cientistas e de filósofos que acreditavam em Deus, que viveram a sua religião ou até mesmo eram pessoas de comunhão diária, como Pasteur. Muitos deles, além disso, manifestaram as suas convicções publicamente, em mais de uma oportunidade.

Descartes e Galileu morreram como bons cristãos, com todos os sacramentos; Leibniz escreveu uma obra denominada Teodicéia (“Justificação de Deus”) contra o ateísmo. Platão e Aristóteles, sobre os quais não pesa a “suspeita” de serem considerados cristãos ou católicos, já que viveram antes de Cristo, apresentaram inúmeras provas da existência de Deus, com argumentos puramente racionais. Em Newton e Kepler encontramos almas profundamente cristãs, que não tiveram o menor receio de falar de Deus nos seus escritos. Mendel, o iniciador da genética, fez as suas experiências com ervilhas nos terrenos do mosteiro de que era abade. Copérnico, reintrodutor moderno do sistema heliocêntrico, era clérigo.

A profissão de fé dos maiores cientistas

Para não alongarmos demasiado o texto com explicações, apresentamos a seguir depoimentos de alguns cientistas sem acrescentar-lhes maiores comentários e restringindo-nos somente a alguns que já fazem parte da história.1



(1) Citações extraídas do folheto Gott existiert, reproduzidos em Pergunte e Responderemos, ano XXIX, n. 316, setembro de 1988.



1. Isaac Newton (1642-1727), fundador da física clássica e descobridor da lei da gravidade: “A maravilhosa disposição e harmonia do universo só pode ter tido origem segundo o plano de um Ser que tudo sabe e tudo pode. Isto fica sendo a minha última e mais elevada descoberta”.

2. William Herschel (1738-1822), astrônomo alemão, descobridor do planeta Urano: “Quanto mais o campo das ciências naturais se dilata, tanto mais numerosas e irrefutáveis se tornam as provas da eterna existência de uma Sabedoria criadora e todo-poderosa”.

3. Alessandro Volta (1745-1827), físico italiano, descobridor da pilha elétrica e inventor, cujo nome deu origem ao termo voltagem: “Submeti a um estudo profundo as verdades fundamentais da fé, e [...] deste modo encontrei eloqüentes testemunhos que tornam a religião acreditável a quem use apenas a sua razão”.

4. André Marie Ampère (1775-1836), físico e matemático francês, descobridor da lei fundamental da eletrodinâmica, cujo nome deu origem ao termo amperagem: “A mais persuasiva demonstração da existência de Deus depreende-se da evidente harmonia daqueles meios que asseguram a ordem do universo e pelos quais os seres vivos encontram no seu organismo tudo aquilo de que precisam para a sua subsistência, a sua reprodução e o desenvolvimento das suas virtualidades físicas e espirituais”.

5. Jons Jacob Berzelius (1779-1848), químico sueco, descobridor de inúmeros elementos químicos: “Tudo o que se relaciona com a natureza orgânica revela uma sábia finalidade e apresenta-se como produto de uma Inteligência Superior [...]. O homem [...] é levado a considerar as suas capacidades de pensar e calcular como imagem daquele Ser a quem ele deve sua existência”.

6. Karl Friedrich Gauss (1777-1855), alemão, considerado por muitos como o maior matemático de todos os tempos, também astrônomo e físico: “Quando tocar a nossa última hora, teremos a indizível alegria de ver Aquele que em nosso trabalho apenas pudemos pressentir.

7. Agustin-Louis Cauchy (1789-1857), matemático francês, que desenvolveu o cálculo infinitesimal: Sou um cristão, isto é, creio na divindade de Cristo como Tycho Brahe, Copérnico, Descartes, Newton, Leibniz, Pascal [...], como todos os grandes astrônomos e matemáticos da antigüidade”.

8. James Prescott Joule (1818-1889), físico britânico, estudioso do calor, do eletromagnetismo e descobridor da lei que leva o seu nome: “Nós topamos com uma grande variedade de fenômenos que [...] em linguagem inequívoca falam da sabedoria e da bendita mão dO Grande Mestre das obras”.

9. Ernest Werner von Siemens (1816-1892), engenheiro alemão, inventor da eletrotécnica e que trabalhou muito no ramo das telecomunicações: “Quanto mais fundo penetramos na harmoniosa dinâmica da natureza, tanto mais nos sentimos inspirados a uma atitude de modéstia e humildade; [...] e tanto mais se eleva a nossa admiração pela infinita Sabedoria, que penetra todas as criaturas”.

10. William Thompson Kelvin (1824-1907), físico britânico, pai da termodinâmica e descobridor de muitas outras leis da natureza: “Estamos cercados de assombrosos testemunhos de inteligência e benévolo planejamento; eles nos mostram através de toda a natureza a obra de uma vontade livre e ensinam-nos que todos os seres vivos são dependentes de um eterno Criador e Senhor”.

11. Thomas Alva Edison (1847-1931), inventor, com mais de 2.000 patentes, entre elas a da lâmpada elétrica: “Tenho [...] enorme respeito e a mais elevada admiração por todos os engenheiros, especialmente pelo maior deles: Deus!”.

12. Guglielmo Marconi (1874-1937), físico italiano, inventor do telégrafo sem fio, prêmio Nobel em 1909: “Declaro com ufania que sou homem de fé. Creio no poder da oração. Creio nisto não só como fiel cristão, mas também como cientista”.

13. John Ambrose Fleming (1849-1945), físico britânico, descobridor da válvula e do diodo: “A grande quantidade de descobertas modernas destruiu por completo o antigo materialismo. O universo apresenta-se hoje ao nosso olhar como um pensamento. Ora, o pensamento supõe a existência de um pensador”.

14. Arthur Eddington (1882-1946), físico e astrônomo britânico: “A física moderna leva-nos necessariamente a Deus”.

15. Max Plank (1858-1947), físico alemão, criador da teoria dos quanta, prêmio Nobel em 1928: “Para onde quer que se estenda o nosso olhar, em parte alguma vemos contradição entre ciências naturais e religião, antes encontramos plena convergência nos pontos decisivos. Ciências naturais e religião não se excluem mutuamente, como hoje em dia muitos pensam e receiam, mas completam-se e apelam uma para a outra. Para o crente, Deus está no começo; para o físico, Deus está no ponto de chegada de toda a sua reflexão”.

16. Albert Einstein (1879-1955), físico judeu alemão, criador da teoria da relatividade, prêmio Nobel em 1921: “Todo o profundo pesquisador da natureza deve conceber uma espécie de sentimento religioso, pois não pode admitir que seja ele o primeiro a perceber os extraordinariamente belos conjuntos de seres que contempla. No universo, incompreensível como é, manifesta-se uma inteligência superior e ilimitada. A opinião corrente de que sou ateu baseia-se num grande equívoco. Quem a quisesse depreender das minhas teorias científicas, não teria compreendido o meu pensamento”.

17. Carl Gustav Jung (1875-1961), suíço, um dos fundadores da psicanálise: “Entre todos os meus pacientes na segunda metade da vida, isto é, tendo mais de 35 anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão da sua atitude religiosa. Todos, em última instância, estavam doentes por terem perdido aquilo que uma religião viva sempre deu aos seus adeptos, e nenhum se curou realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse própria”.

18. Werner von Braun (1912-1977), físico alemão radicado nos Estados Unidos e naturalizado norte-americano, especialista em foguetes e principal diretor técnico dos programas da NASA (Explorer, Saturno e Apolo), que culminaram com a chegada do homem à lua: “Não se pode de maneira nenhuma justificar a opinião, de vez em quando formulada, de que na época das viagens espaciais temos conhecimentos da natureza tais que já não precisamos de crer em Deus. Somente uma renovada fé em Deus pode provocar a mudança que salve da catástrofe o nosso mundo. Ciência e religião são, pois, irmãs, e não pólos antitéticos. E: “Quanto mais compreendemos a complexidade da estrutura atômica, a natureza da vida ou o caminho das galáxias, tanto mais encontramos razões novas para nos assombrarmos diante dos esplendores da criação divina”.

Será mesmo que todos os cientistas são ateus?

POR QUE EXISTEM ATEUS?

Realmente, essa é uma pergunta muito boa, para a qual talvez não exista uma resposta conclusiva, pois no fundo trata-se de um mistério.

Para entender como se chegou a essa situação, é necessário regredir um pouco no tempo em busca das raizes do problema. Sempre houve materialistas e ateus, como Epicuro e Demócrito, já nos tempos áureos da filosofia grega; mas, para nos restringirmos aos tempos modernos, podemos começar novamente com Descartes. Uma das suas preocupações era precisamente a de estabelecer (como postulado) uma separação radical entre a fé e a razão humana, criando compartimentos estanques e incomunicáveis dentro de cada ser humano, o qual teria assim uma espécie de chave que poderia ser ligada e desligada: ora pensaria e agiria como cientista, utilizando-se só da razão, ora pensaria e agiria como homem religioso, valendo-se da fé. A religião seria, nesse esquema, algo puramente voluntário e sentimental, em que a razão não teria cabida.

Um dos fatores que contribuiram para dar origem a essa atitude foram as guerras de religião do século XVI, cujas conseqüências Descartes chegou a presenciar: manifestações de fanatismo as mais diversas, em que cada grupo afirmava estar na verdade e queria convencer os demais pela força. Não é de estranhar que, até entre gente equilibrada, se levantasse a tentação de dizer que os assuntos de religião são como os sentimentos: cada qual tem os seus, como tem os seus gostos e preferências pessoais; é assunto sobre o qual de nada adianta discutir: os argumentos são muito mais passionais do que racionais. Que motivos racionais pode ter um torcedor para torcer por um time de futebol?

Ora, uma vez que se afirme que todas as religiões são iguais – que dependem do gosto de cada um –, o passo seguinte é uma indiferença absoluta, que no fundo admite que nenhuma delas está na verdade e nenhuma possui valores absolutos. A conseqüência é que não vale a pena aderir a nenhuma religião oficial e muito menos praticá-la.

O passo histórico seguinte foi o deísmo, corrente nascida na Inglaterra, segundo a qual Deus não seria senão o Grande Arquiteto do Universo que, tendo construido o mundo, o teria abandonado a seguir nas mãos do homem; neste caso, caber-nos-ia viver como se Deus não existisse, e portanto, seria preciso rejeitar a existência de milagres, da Providência ou de um Evangelho revelado, negando também qualquer intervenção de Deus na história humana. Cristo seria um grande profeta e até o maior dos homens, o que, na boca dessas pessoas, equivalia a negar que fosse Deus. A religião, a união com Deus, ficaria reduzida a um vago sentimentalismo, e a moral a umas simples regras de convivência entre os homens.

A partir daí, alguns filósofos ingleses começaram a autodenominar-se livre-pensadores, querendo dizer com isso que estavam livres da superstição (isto é, da religião), e que aceitavam somente uma religião “natural”, sem dogmas nem ritos; adotaram o lema “liberdade, igualdade, fraternidade”, que seria assumido mais tarde pela Revolução francesa.

O passo seguinte na evolução dessa linha de pensamento foi, naturalmente, o agnosticismo (se é que Deus existe, não é possível conhecê-lo), ou simplesmente o ateísmo. Por essa rota caminharam os filósofos da Ilustração francesa: Condillac, Diderot, D’Alembert, que Lênin recomendava como a melhor introdução ao “ateísmo científico”.

Nessa trajetória nota-se, paralelamente à expulsão de Deus da vida e do pensamento, uma deificação do próprio homem. A atitude de Descartes atribui ao homem (à sua inteligência) qualidades que são exclusivas de Deus; Espinosa diz que o homem é parte de Deus; Kant atribui à razão humana um papel fundamental na constituição da realidade; Hegel, num panteísmo cósmico, deifica a razão humana, projetando-a como criadora de toda a realidade; e Feuerbach entroniza definitivamente o homem no lugar de Deus: “O homem é para o homem o ser supremo”, idéia plenamente aceita por Marx. Finalmente, Nietzsche, como representante de muitos outros, proclama a morte de Deus.

O triste paradoxo embutido nessa atitude é que, ao tentar divinizar o homem, acabou-se por animalizá-lo, reduzindo-o a um plano infra-humano. A conclusão era lógica: se o homem não provém de cima (de Deus), só pode provir de baixo (da matéria); se a dignidade do homem provém de estar feito à imagem e semelhança de Deus, ao suprimir-se Deus suprime-se também a sua dignidade, e o homem passa a ser qualquer outra coisa: o homem é aquilo que come (Feuerbach); é puro sexo (Freud); provém do macaco (Darwin), que provém da matéria (os defensores atuais da geração espontânea), que provém do caos. Em perfeita consonância com esses princípios, pregaram-se as filosofias da inimizade: o príncipe deve dominar pelo medo (Maquiavel), o homem é o lobo do homem (Hobbes), a guerra, a luta e a contradição constituem a essência da realidade (Hegel), o ódio é o motor da história (Marx), o inferno são os outros (Sartre), devemos aprender a odiar (Lunatcharsky). Os inimigos estão dentro do próprio homem, numa tensão entre id, ego e super-ego, nos recalques, nas tensões psíquicas, no stress e nos complexos dos mais diversos gêneros.

Estas breves pinceladas não têm a pretensão de ser uma análise histórica, mas penso que são suficientes para explicar uma série de características do atual estado da sociedade. Depois de tudo isso, não é de estranhar que alguns cientistas pudessem e possam desembocar no ateísmo.

                      

Galileu: As duas verdades, de fé e de ciência, não podem nunca contradizer-se

Veneráveis Irmãos

Excelência
Senhoras, Senhores
 1. Agradeço vivamente a Vossa Excelência, Senhor Presidente, as palavras calorosas e dedicadas que me dirigiu no princípio do seu discurso e alegro-me também consigo como ainda com os Senhores Dirac e Weisskopf, ambos membros ilustres da Pontifícia Academia das Ciências, por esta comemoração solene do centenário do nascimento de Albert Einstein.

A Sé Apostólica quer também prestar a Albert Einstein a homenagem que lhe é devida pela contribuição eminente que trouxe ao progresso da ciência, quer dizer, ao conhecimento da verdade, presente no mistério do universo.

Sinto-me plenamente solidário com o meu Predecessor Pio XI e com os que lhe sucederam na Cátedra de Pedro, convidando os membros da Pontifícia Academia das Ciências, e todos os sábios com eles, a fazerem «progredir, cada vez mais nobre e intensamente, as ciências, sem nada lhes pedir a mais; isto porque, neste excelente propósito e neste nobre labor, consiste a missão de servir a verdade, da qual nós os encarregamos ...» (Motu proprio In multis solaciis de 28 de Outubro de 1936, sobre a Pontifícia Academia das Ciências: AAS 28, 1936, p. 424).

A investigação da verdade é a tarefa fundamental da ciência

2.O investigador, que se move nesta primeira vertente da ciência, sente toda a fascinação das palavras de Santo Agostinho: «Intellectum valde ama» (Santo Agostinho, Epist. 120, 3, 13; PL 33, 459), «ama muito a inteligência» e a função que lhe é própria, de conhecer a verdade. A ciência pura é um bem, digno de ser muito amado, porque ela é conhecimento e portanto perfeição do homem na sua inteligência. Antes mesmo das suas aplicações técnicas, deve ela ser honrada por si mesma, como parte integrante da cultura. A ciência fundamental é bem universal, que todos os povos devem poder cultivar em plena liberdade de qualquer forma de servidão internacional ou de colonialismo intelectual.

A investigação fundamental deve ser livre diante dos poderes político e económico, que hão-de cooperar para o desenvolvimento dela, sem a deter na sua criatividade nem a fazer servir aos próprios interesses. Como toda a outra verdade, a verdade científica não tem, com efeito, de dar contas senão a si mesma e à Verdade suprema que é Deus, criador do homem e de todas as coisas.

Trinómio ciência-tecnologia-consciência


3. Na sua outra vertente, volta-se a ciência para as aplicações práticas, que encontram o pleno desenvolvimento nas diversas tecnologias. Na fase das suas realizações concretas, a ciência é necessária à humanidade para satisfazer as justas exigências da vida e vencer os diferentes males que a ameaçam. Não há dúvida que a ciência aplicada prestou e prestará ao homem serviços imensos, contanto que seja, ao menos um tanto, inspirada pelo amor, regulada pela sabedoria e acompanhada pela coragem que a defende contra a ingerência indevida de todos os poderes tirânicos. A ciência aplicada deve aliar-se à consciência para que, no trinómio ciência-tecnologia-consciência, seja servida a causa do verdadeiro bem do homem.

 'Domínio' do homem sobre o mundo visível


4. Infelizmente, como tive ocasião de dizer na minha encíclica Redemptor Hominis «o homem de hoje parece estar sempre ameaçado por aquilo mesmo que produz ... E nisto parece consistir o capítulo principal do drama da existência humana contemporânea» (Redemptor Hominis, 15). O homem deve sair vitorioso deste drama que ameaça degenerar em tragédia, e há-de encontrar a sua realeza autêntica sobre o mundo e o pleno domínio sobre as coisas que ele produz. Na hora actual, como eu escrevia na mesma encíclica «o sentido essencial desta 'realeza' e deste 'domínio' do homem sobre o mundo visível, que lhe foi confiado como tarefa pelo próprio Criador, consiste na prioridade da ética, no primado da pessoa sobre as coisas e na superioridade do espírito sobre a matéria» (Ibid. 16).

Esta superioridade tripla mantém-se na medida em que se conserva o sentido da transcendência do homem sobre o mundo e de Deus sobre o homem. Exercendo a sua missão de guarda e advogada duma e outra transcendência, a Igreja julga ajudar a ciência a conservar a sua pureza ideal na vertente da investigação fundamental, e a desempenhar o seu serviço em favor do homem na vertente das suas aplicações práticas.

 A Igreja reconhece de boa vontade, ter beneficiado da ciência


5. A Igreja reconhece de boa vontade, por outro lado, ter beneficiado da ciência. É a esta, entre outras, que é preciso atribuir o que o Concílio disse a propósito de certos aspectos da cultura moderna: «As condições novas afectam igualmente a própria vida religiosa ... O desenvolvimento do espírito crítico purifica-a duma concepção mágica do mundo e de reminiscências supersticiosas, e exige uma adesão cada vez mais pessoal e activa à fé, o que faz que sejam numerosos aqueles que atingem um sentido mais vivo de Deus» (Gaudium et Spes, 7).

A colaboração entre religião e ciência moderna resulta em vantagem para uma e para outra, sem violar de nenhum modo as suas autonomias respectivas. Do mesmo modo que a religião exige a liberdade religiosa, a ciência reivindica legitimamente a liberdade da investigação. O Concílio ecuménico Vaticano II, depois de reafirmar, com o Concílio Vaticano I, a justa liberdade das artes e das disciplinas humanas no campo dos seus princípios, reconhece solenemente «a autonomia legítima da cultura e em particular a das ciências»  (Ibid. 59). Ao realizar-se esta comemoração solene de Einstein, desejaria confirmar de novo as declarações do Concílio sobre a autonomia da ciência no seu trabalho de investigação sobre a verdade inscrita na criação pelo dedo de Deus. Cheia de admiração pelo génio do grande sábio em que se revela a marca do Espírito criador, a Igreja, sem intervir de qualquer modo, por um juízo que não lhe pertence formular, sobre a doutrina relativa aos grandes sistemas do universo, propõe-na todavia à reflexão de teólogos para descobrir a harmonia que existe entre a verdade científica e a verdade revelada.

Aprofundem o exame do caso de Galileu


6. Senhor Presidente. Disse Vossa Excelência com muita razão no seu discurso que Galileu e Einstein caracterizaram uma época. A grandeza de Galileu é a todos conhecida, como a de Einstein; mas diferentemente deste; que nós honramos hoje diante do Colégio Cardinalício no palácio apostólico, o primeiro muito teve que sofrer — não poderíamos escondê-lo — da parte de homens e organismos da Igreja. O Concílio Vaticano reconheceu e deplorou certas intervenções indevidas: «Seja-nos permitido lamentar — está escrito no número 36 da constituição conciliar Gaudium et Spes — certas atitudes que existiram até entre os próprios cristãos, por não terem entendido suficientemente a legítima autonomia da ciência. Fontes de tensões e de conflitos, elas levaram muitos espíritos a pensar que ciência e fé se opõem». A referência a Galileu está expressa claramente na nota relativa a este texto, que cita o volume Vita e opere di Galileo Galilei de Mons. Pio Paschini, editado pela Pontifícia Academia das Ciências.

Indo além desta tomada de posição do Concílio, desejo que teólogos, sábios e historiadores, animados por espírito de sincera colaboração, aprofundem o exame do caso de Galileu e, num reconhecimento leal dos erros de qualquer lado que tenham vindo, façam desaparecer as desconfianças que este assunto opõe ainda, em muitos espíritos, a uma concórdia frutuosa entre ciência e fé, entre a Igreja e o mundo. Dou todo o meu apoio a esta tarefa, que poderá honrar a verdade da fé e da ciência, e abrir a porta a futuras colaborações.

As duas verdades, de fé e de ciência, não podem nunca contradizer-se


7. Seja-me permitido, Senhores, submeter à vossa atenção e reflexão alguns pontos que me parecem importantes para colocar de novo na sua verdadeira luz a questão de Galileu, em que as concordâncias entre religião e ciência são mais numerosas, e sobretudo mais importantes, que as incompreensões de que nasceu o conflito áspero e doloroso que se prolongou durante os séculos seguintes.

Aquele, que é chamado a justo título fundador da física moderna, declarou explicitamente que as duas verdades, de fé e de ciência, não podem nunca contradizer-se, «procedendo igualmente do Verbo divino a Escritura santa e a natureza, a primeira como ditada pelo Espírito Santo, a segunda como executora fidelíssima das ordens de Deus», segundo ele escreveu na carta ao Padre Benedetto Castelli a 21 de Dezembro de 1613 (Edição nacional das obras de Galileu, vol. V, pp. 282-285). O Concílio Vaticano II não se exprime diferentemente; retoma mesmo expressões semelhantes quando ensina: «A investigação metódica, em todos os campos do saber, se é realizada de modo verdadeiramente científico e conforme às normas morais, não será nunca contrária à fé, porque as realidades temporais e as realidades da fé têm a sua origem no mesmo Deus» (Gaudium et Spes, 36).

Galileu manifesta na sua investigação científica a presença do Criador que o estimula, que se antecipa às suas intuições e as ajuda, operando no mais profundo do seu espírito. A propósito da invenção da luneta astronómica, escreve no princípio do Sidereus Nuncius, recordando algumas das suas descobertas astronómicas: «Quae omnia ope Perspicilli a me excogitati divina prius illuminante gratia, paucis abhinc diebus reperta, atque observata fuerunt» (Sidereus Nuncius, Venetiis apud Thomam Baglionum, MDCX, fol. 4). «Tudo isto foi descoberto e observado nestes últimos dias, graças ao 'telescópio' que inventei, depois de ser iluminado pela graça divina».

A confissão galileana da iluminação divina no espírito do sábio encontra eco no texto já citado da Constituição conciliar da Igreja no mundo contemporâneo: «Quem, com perseverança e humildade, se esforça por penetrar nos segredos da realidade, é conduzido, embora sem o saber, como que pela mão de Deus» (Loc. cit.). A humildade, sobre que insiste o texto conciliar, é virtude do espírito, necessária tanto para a investigação científica como para a adesão à fé. A humildade gera clima favorável ao diálogo entre o crente e o sábio, invoca a iluminação de Deus, já conhecido ou ainda desconhecido mas amado, num caso como noutro, por aquele que investiga humildemente a verdade.

A pluralidade das regras de interpretação da Sagrada Escritura

8. Galileu formulou normas importantes de carácter epistemológico, que se mostram indispensáveis para pôr de acordo a Escritura sagrada e a ciência. Na sua carta à Grã-duquesa mãe, da Toscana, Cristina de Lorena, reafirma a verdade da Escritura: «A Sagrada Escritura não pode nunca mentir, sob condição todavia de que seja penetrado o seu verdadeiro sentido, que — não julgo poder negar-se — está muitas vezes oculto e é diferentíssimo daquele que parece indicar o simples significado das palavras» (Edição nacional das obras de Galileu, vol. V, p. 315). Galileu introduz o princípio duma interpretação dos livros sagrados, que vai além do sentido literal mas é conforme ao intento e ao tipo de exposição que são próprios de cada um deles. É necessário, como afirma, que «os sábios que a expõem mostrem os sentidos verdadeiros dela».

O magistério eclesiástico admite a pluralidade das regras de interpretação da Sagrada Escritura. Ensina expressamente, de facto, com a encíclica Divino afflante Spiritu de Pio XII, a presença de géneros literários diferentes nos livros sagrados e portanto a necessidade de interpretações conformes ao carácter de cada um deles.

As concordâncias diversas que recordei não resolvem sozinhas todos os problemas da questão de Galileu, mas contribuem para criar um ponto de partida favorável para a solução honrosa deles, um estado de alma propício à solução honesta e real de velhas oposições.

A existência desta Pontifícia Academia das Ciências, à qual Galileu foi dalguma maneira associado por meio da instituição antiga, que precedeu aquela de que hoje fazem parte sábios eminentes, é sinal visível que mostra aos povos, sem qualquer forma de discriminação racial ou religiosa, a harmonia profunda que pode existir entre as verdades da ciência e as verdades da fé.


9. Além da fundação da vossa Academia pontifícia por Pio XI, o meu predecessor João XXIII desejou que a Igreja contribuísse para promover o progresso científico e para o recompensar, instituiu a medalha de Pio XI. Em conformidade com a designação feita pelo Conselho da Academia, tenho o prazer de conferir esta alta distinção a um jovem investigador, o Doutor António Paes de Carvalho, cujos trabalhos de busca fundamental trouxeram contributo importante ao progresso da ciência e ao bem da humanidade.

A importância e função da Pontifícia Academia das Ciências

10. Senhor Presidente e Senhores Académicos: diante dos Eminentíssimos Cardeais aqui presentes, do Corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, dos ilustres sábios e de todas as personalidades que assistem a esta sessão académica, desejava eu declarar que a Igreja universal, a Igreja de Roma unida a todas as que há no mundo, atribui grande importância à função da Pontifícia Academia das Ciências.

O título de pontifícia, atribuído a esta Academia, significa, não o ignorais, o interesse e o apoio da Igreja que se manifestam sob formas bem diversas, sem dúvida, das do antigo mecenatismo, mas não menos profundas e eficazes. Como escrevia o insigne e saudoso Presidente da vossa Academia, Monsenhor Lemaitre: «Precisaria a Igreja da ciência? Certamente que não, a cruz e o evangelho bastam-lhe. Mas ao cristão nada de humano é alheio. Como poderia a Igreja desinteressar-se da mais nobre das ocupações estritamente humanas: a busca da verdade?» (O. Godard- M. Heller, Les relations entre la science et ta foi chez Georges Lemaître, Pontificia Academia Scientiarum Commentarii, vol. III, n. 21, p. 7) .

Nesta Academia que é vossa e minha, colaboram sábios crentes e não crentes, colaboram concordando na busca da verdade científica e no respeito das crenças alheias. Seja-me permitido citar ainda aqui uma página luminosa de Monsenhor Lemaître: «Ambos (o sábio crente e o sábio não crente) se esforçam por decifrar o palimpsesto multiplamente imbricado da natureza, em que os vestígios das diversas épocas da longa evolução do mundo se foram cobrindo e confundindo. O crente possui talvez a vantagem de saber que o enigma tem solução, que a escrita subjacente é afinal obra dum ser inteligente, portanto que o problema apresentado pela natureza foi posto para ser resolvido, e que a sua dificuldade é sem dúvida proporcionada à capacidade presente ou futura da humanidade. Isto não lhe dará talvez novos recursos na investigação, mas contribuirá para o conservar neste são optimismo sem o qual um esforço suportado não pode manter-se muito tempo» (O.c., p. 11).

Desejo-vos a todos este optimismo são, de que fala Monsenhor Lemaître, optimismo que vai buscar a sua origem misteriosa mas real, ao Deus em que pusestes a vossa fé, ou ao Deus desconhecido para o qual tende a verdade que é o objecto das vossas investigações iluminadas.

A ciência, que professais, Senhores Académicos e Senhores sábios, no campo da investigação pura como no da investigação aplicada, oxalá ajude a humanidade, com o apoio da religião e em concordância com ela, a encontrar o caminho da esperança e a atingir o fim último da paz e da fé.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
À PONTIFÍCIA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS
POR OCASIÃO DO PRIMEIRO CENTENÁRIO
DO NASCIMENTO DE ALBERT EINSTEIN
10 de Novembro de 1979

Copyright © Libreria Editrice Vaticana

Ciência e fé têm uma reciprocidade fecunda - Bento XVI




Com particular alegria vos encontro hoje para celebrar os 50 anos de fundação da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Policlínico “Agostino Gemelli”. Agradeço ao presidente do Instituto Toniolo, Cardeal Angelo Scola e ao reitor, Prof. Franco Anelli, pelas gentis palavras a mim dirigidas. Saúdo o Senhor presidente da Câmara dos deputados, o honorável Giafranco Fini, os Senhores Ministros, honoráveis Lorenzo Ornaghi e Renato Balduzzi, as inúmeras autoridades, como também os Docentes, os médicos, a equipe e os estudantes do Policlínico e da Universidade Católica. Um pensamento especial a vós, caros pacientes.

Nesta circunstância gostaria de fazer algumas reflexões. O Nosso é um tempo no qual as ciências experimentais transformaram a visão do mundo e a própria compreensão do homem. As múltiplas descobertas, as tecnologias inovadoras que se sucedem em ritmo galopante, são razão para motivado orgulho, mas geralmente não privadas de inquietante questionamento. De fato, dentro do difuso otimismo do saber científico se projeta a sombra de uma crise de pensamento. Rico de meios, mas não de fins, o homem do nosso tempo vive muitas vezes condicionado ao reducionismo e ao relativismo, que levam a ferir o significado das coisas; quase encantado pela eficácia técnica, esquece o horizonte fundamental da busca de sentido, conduzindo assim a uma irrelevância a dimensão transcendente. A partir disso, o pensamento se torna fraco e dá margem também para o empobrecimento ético, que obscurece as referências normativas de valor. Aquela que foi a fecunda raiz europeia de cultura e de progresso, parece esquecida. Nela, a busca pelo absoluto – o quarere Deum - compreendia a exigência para aprofundar as ciências profanas, todo o mundo do saber (cfr Discurso ao Collège des Bernardins di Parigi, 12 setembro de 2008). A pesquisa científica e a busca de sentido, de fato, mesmo na específica fisionomia epistemológica e metodológica, brotam de uma única fonte, aquele Logos que conduz a obra da criação e guia a inteligência da história. Uma mentalidade fundamentalmente técnica e prática gera um arriscado desequilíbrio entre aquilo que é possível tecnicamente e aquilo que é moralmente bom, com imprevisíveis consequências.

É importante então que a cultura redescubra o valor do significado e o dinamismo da transcendência, em uma palavra, abra com decisão o horizonte do quarere Deum. Vem à mente a célebre frase agostiniana “Nos criaste para ti Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não respousar em ti” (As confissões, I, 1). Se pode dizer que o impulso para a pesquisa científica brota da saudade de Deus que habita no coração humano: no fundo, o homem de ciência tende, mesmo que inconscientemente, a alcançar aquela verdade que pode dar sentido à vida. Mas, embora seja apaixonada e tenaz e busca humana, ela não é capaz com as próprias forças de alcançar porto seguro, porque “o homem não está à altura de esclarecer completamente a estranha penumbra que paira sobre as questões das realidades eternas...Deus deve tomar a iniciativa de vir ao encontro e de voltar-se para o homem” (J. Ratzinger, L'Europa di Benedetto nella crisi delle culture, Cantagalli, Roma 2005, 124). Para restituir à razão a sua nativa e integral dimensão é necessário então redescobrir o lugar, a fonte que a busca científica compartilha com a busca da fé, fides quaerens intellectum, segundo a instituição anselmiana. Ciência e fé têm uma reciprocidade fecunda, quase uma complementar exigência da inteligência do real. Mas, paradoxalmente, exatamente a cultura positivista, excluindo a busca de Deus do debate científico, determina o declínio do pensamento e o enfraquecimento da capacidade de inteligência do real. Mas o quarere Deum do homem se perderia em um enrosco de estradas se não lhe viesse ao encontro uma via de iluminação e de segura orientação, que é aquela de Deus que se faz próximo ao homem com imenso amor: “Em Jesus Cristo, Deus não somente fala ao homem, mas o busca. É uma busca que nasce no íntimo de Deus e tem seu ponto culminante na encarnação do Verbo” (João Paulo II, Tertio Millenio Adveniente, 7).

Religião do Logos, o Cristianismo não transporta a fé para o campo irracional, mas atribui a origem e o sentido da realidade à Razão Criadora, que em Deus crucificado se manifestou como amor e que convida a percorrer a estrada do quarere Deum: “Eu sou o caminho, a verdade, a vida”. Comenta São Tomás de Aquino: “O ponto de chegada desta via, de fato, é o fim do desejo humano. Agora o homem deseja duas coisas principalmente: em primeiro lugar aquela consciência da verdade que é própria de sua natureza. Em segundo lugar, a permanência no ser, propriedade esta, comum a todas as coisas. Em Cristo, se encontra uma e outra...Se, portanto procuras por onde passar, acolhas Jesus, porque Ele é a via” (Exposições sobre João, cap 14, lectio 2). O Evangelho da vida ilumina então o caminho árduo do homem, e diante da tentação da autonomia absoluta, recorda que a vida do homem provém de Deus, é seu dom, sua imagem e marca, participação do seu sopro vital” (João Paulo II, Evangelium vitae, 39). E é exatamente percorrendo a estrada da fé que o homem tem a capacidade de distinguir nas mesmas realidades de sofrimento e morte, que atravessam sua existência, uma possibilidade autêntica de bem e de vida. Na Cruz de Cristo reconhece a Árvore da vida, revelação do amor apaixonado de Deus pelo homem. O cuidado para com aqueles que sofrem é então encontro cotidiano com o rosto de Jesus, e a dedicação da inteligência e do coração se fazem sinal da misericórdia de Deus e da sua vitória sobre a morte.

Vivida na sua integralidade, a busca é iluminada pela ciência e pela fé, e por essas duas “asas” recebe impulso, sem nunca perder a justa humildade, o sentido do próprio limite. Em tal modo a busca de Deus se torna fecunda para a inteligência, fermento de cultura, promotora do verdadeiro humanismo, procura que não se prende à superfície.Queridos amigos, deixai-vos guiar pela sabedoria que vem do alto, por um saber iluminado pela fé, recordando que a sabedoria exige a paixão e o esforço na procura. 

Se insere aqui o papel insubstituível da Universidade Católica, lugar em que a relação educativa é colocada à serviço da pessoa na construção de uma qualificada competência científica, enraizada em um patrimônio de saber que a trajetória das gerações destilou em sabedoria de vida; lugar em que a relação de cuidado não é um ofício, mas missão; onde a caridade do Bom Samaritano é a primeira cátedra, e a face do homem sofrido o próprio rosto de Cristo: “o fizeram a mim” (Mt 25,40). A Universidade Católica do Sagrado Coração, no trabalho cotidiano de pesquisa, de ensinamento e de estudo, vive nesta traditio que exprime o próprio potencial de inovação: nenhum progresso, nem mesmo no âmbito cultura, se nutre de uma mera repetição, mas exige sempre um novo início. Requer, além disso, aquela disponibilidade para o confronto e o diálogo que abre a inteligência e testemunha a rica fecundidade do patrimônio da fé. Se dá forma assim a uma sólida estrutura de personalidade, onde a identidade cristã penetra o viver cotidiano e se exprime no interno de uma profissionalidade excelente.

A Universidade Católica, que com a Sé de Pedro possui uma particular relação, é chamada hoje a ser instituição exemplar que não restringe o saber à funcionalidade de um êxito econômico, mas alarga a respiração sobre projetividade na qual o dom da inteligência investiga e desenvolve os dons do mundo criado, superando uma visão somente produtivista e utilitarista da existência, porque o “ser humano é feito para o dom, que exprime e atua a dimensão da transcendência” (Caritas in Veritate, 34). Exatamente esta junção entre pesquisa científica e serviço incondicional à vida delineia a fisionomia católica da Faculdade de Medicina e Cirurgia “Agostino Gemelli”, porque a prospectiva da fé é interior – não sobreposta, nem justaposta – à pesquisa apurada e tenaz do saber.

Uma Faculdade de Medicina é lugar onde o humanismo transcendente não é slogan retórico, mas regra vivida na dedicação cotidiana. Sonhando uma Faculdade de Medicina e Cirurgia autenticamente católica, Padre Gemelli – e com ele tantos outros, com o Prof. Brasca - , colocava no centro da atenção a pessoa na sua fragilidade e na sua grandeza, nos sempre novos recursos de uma busca apaixonada e na não menos consciência do limite e do mistério da vida. Por isso, quisestes instituir um novo Centro Ateneo para a vida, que sustente outras realidades já existentes, como por exemplo, o Instituto Científico Internacional Paulo VI. Encorajo, pois, a atenção à vida em todas as suas fases.

Gostaria de dirigir-me agora, em particular, a todos os pacientes que estão aqui no “Gemelli”, assegurar minha oração e meu afeto e dizer-lhes que aqui serão sempre acompanhados com amor, porque nos rosto deles se reflete aquele do Cristo sofredor.

E exatamente o amor de Deus, que resplandece em Cristo, é capaz de tornar acurado e penetrante o olhar da pesquisa e a colher aquilo que nenhuma investigação é capaz de colher. O havia bem presente o beato Giuseppe Toniolo, que afirmava como é da natureza do homem ler nos outros a imagem de Deus amor e, na criação, a sua marca. Sem amor, também a ciência perde sua nobreza. Somente o amor garante a humildade de procura. Obrigado pela atenção.


Visita Pastoral de Bento XVI
Universidade Sagrado Coração de Roma
Hospital Policlínio "Gemelli"
Roma, Itália
03 de maio de 2012 

Bóson de Higgs: "Ciência não é ameaça para a fé"

Cidade do Vaticano (RV) – Nesta quinta-feira, o jornal do Vaticano “L’Osservatore Romano” traz em destaque a notícia da descoberta de uma nova partícula que pode ser o bóson de Higgs, anunciada pelo Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN).
Os dados foram divulgados na manhã de quarta-feira, num seminário em Genebra, e ainda são preliminares, mas os cientistas afirmam que a nova partícula tem características de massa e comportamento previstas para o bóson de Higgs, também conhecido como a ‘partícula de Deus’.

Esta é considerada a mais elementar das partículas atômicas constitutivas do universo.
O “L’Osservatore” dá ressalto à comoção e ao entusiasmo com que o “pai” da pequena partícula subatômica, o físico britânico Peter Higgs, reagiu, não conseguindo segurar as lágrimas.

“Ovação de pé. A notícia é oficial: o bóson de Higgs, que explicaria porque é que todas as coisas do universo têm uma massa, existe” - assinala o cotidiano.

Em declaração à imprensa portuguesa, o Padre José Tolentino Mendonça, consultor do Pontifício Conselho para a Cultura, assegura que a Igreja Católica está acompanhando a descoberta “com entusiasmo”. O consultor do Papa Bento XVI garante que a Igreja Católica respeita a autonomia da ciência e as metodologias diferentes do caminho da busca da fé.

Questionado pela Rádio Antena 1 se estas pesquisas colocam em causa as convicções da religião, Pe. José Tolentino Mendonça responde de forma negativa, sublinhando que a ciência não é uma ameaça para a fé.














Nicholas Steno, o fundador da Paleontologia e padre católico


Nicholas Steno, o fundador da Paleontologia padre católico



Em 11 de janeiro, comemoramos o aniversário do nascimento de Nicholas Steno, uma dedicação também foi feita, dedicando a ele o logotipo do Google. Steno era um homem importante da ciência e um padre católico.
Inscrever-se Francis, decano da Faculdade de Matemática, Ciências Físicas e Naturais da Universidade de Turim nos fez lembrar de "subsidiária", dizendo como ele se tornou o pai dageologia, paleontologia, estratigrafia, e, finalmente, o bispo católico. Lançou as bases científicas das glândulas, músculos, coração e cérebro. Ele mostrou que os fósseis são os restos de organismos viveram no passado, propôs o primeiro modelo de reconstrução tectônicas, introduziu o conceito de evolução física e temporal da crosta da Terra. Ele participou de Spinoza e Leibniz, na Holanda, na Alemanha.
Após a conversão, o sacerdote católico foi ordenado em 1675, foi consagrado bispo em 1677 e enviado como vigário apostólico no norte da Alemanha, onde vai viver o espírito evangélico de pobreza e caridade. Ele morreu em 1686 na Alemanha, não sendo um padre católico a confessar durante sua agonia, ele confessou em público, listando seus pecados em voz alta. Nell'1988 João Paulo II beatificou. Assinar contém as palavras usadas pelo Papa durante a beatificação: "Toda a vida de Niels Stensen era um peregrino incansável na busca da verdade, o científico eo religioso. Um observador agudo das características de pedras preciosas e também as maravilhas da fábrica do mundo e animal. Stensen desafia-nos como um europeu, como um crente, como cristão, convertido, como um pastor de almas e missionária ".

Deus não é para o bico da ciência


Henrique Raposo (www.expresso.pt)
8:00 Sexta feira, 24 de fevereiro de 2012

Antony Flew (1923-2010) não foi um ateu de garagem. Flew foi o Dawkins do século XX, o líder do ateísmo que se julgava legitimado pela ciência. É por isso que a sua conversão foi um acontecimento tão polémico. Deus existe é a explicação dessa polémica descoberta. O grande motor da mudança? A teoria do Big Bang. Steiner diz, algures em Gramáticas da Criação, que a teoria do Big Bang é a tradução científica do livro do Génesis. Flew navegou por águas similares. Para este filósofo britânico, a teoria do Big Bang fornece a prova científica para aquilo que São Tomás de Aquino considerava inacessível ao conceito de prova: o começo do universo. Enquanto pensou que o universo era apenas um espaço ilimitado mas atemporal (sem um começo), Flew encarou o dito universo como um conjunto de factos fechado e à mercê de uma ciência toda-poderosa. Mas tudo mudou com o Big Bang. Se o universo teve um começo, então, a pergunta é inevitável: o que produziu esse começo? Quem deu o primeiro pontapé na bola cósmica?

O que torna Flew num caso subversivo para o ateísmo hegemónico não é a mera conversão à ideia de Deus. A subversão está na forma, porque Flew chegou a Deus através da ciência, e não através da fé. Flew atingiu Deus através da física e da cosmologia. O ex-papa dos ateus pegou nos dados científicos, e Eureka: há um Deus subjacente à racionalidade da natureza e do universo. Tudo bem? Tudo mal. Deus não é um assunto científico. Deus não se prova ou desprova cientificamente. Deus é um salto de fé abraâmico, kierkegaardiano. Se Dawkins está errado, Flew também não está certo.

Sim, Dawkins tem direito ao seu ateísmo, mas já não tem direito a pensar que esse ateísmo tem certificado científico. A ciência não prova a não-existência de Deus. Deus é um assunto não-científico por excelência, porque Deus não está ao alcance do método científico. Mais: quando afirma que o seu ateísmo darwinista é a única resposta aceitável, Dawkins deixa de lado qualquer ceticismo em relação à sua própria teoria, acabando por esquecer que a ciência não anda à procura da verdade redentora. Todo o conhecimento científico assenta nesta arquitectura céptica: só podemos ter estabilidades teóricas, e nunca certezas teóricas; todas as teorias têm de ser falsificáveis, logo, todas as teorias são apenas possivelmente verdadeiras. Sem este mar de dúvidas, o espírito científico não sobrevive. Preso na fúria de negar Deus em nome da ciência, Dawkins acaba por desrespeitar a própria ciência.

Ora, se não prova a não-existência de Deus desejada por Dawkins, a ciência também não prova a existência de Deus. Flew diz que esta foi uma peregrinação da razão: "segui a razão até onde ela me levou. E ela levou-me a aceitar a existência de um Ser auto-existente, imutável, imaterial, omnipotente e omnisciente". Problema? Apesar das diferenças a jusante, Flew partilha com Dawkins um erro a montante: encara Deus como um desafio científico. Sucede que Deus e a fé não são assuntos empíricos, não são temas para o bico da ciência. Deus não se esconde na relação gravitacional entre planetas, mas na relação moral entre homens. Deus é um salto de fé ético, e não uma descoberta com tubos de ensaio. Flew percebeu que o ateísmo não era a resposta, mas teve medo de atravessar o deserto.

Ciência e fé, criacionismo, evolucionismo, desenho inteligente. Fala o astrônomo do Vaticano

Entrevista com o Diretor do Observatório Astronômico do Vaticano


 Em 2006 Funes foi apontado diretor do Observatório do Vaticano pelo Papa Bento XVI. Homem de fé e de ciência, ele defende o diálogo como forma de superar os conflitos. Para ele, o Big Bang e o Gênesis não são contraditórios, e sim caminhos diferentes da eterna busca humana pelo conhecimento e pela verdade. Até a possibilidade de existência de vida extraterrestre já é aceita pela Igreja. "Não vejo contradição entre fé e ciência, pois a verdade é uma só", diz ele, que está no Rio para participar do workshop "The Evolving Universe", evento promovido pela PUC-Rio e pela Fundação Planetário.


- Sendo, ao mesmo tempo, cientista e padre, como o senhor equilibra questões de ciência e fé?

 JOSÉ FUNES: Não vejo contradição entre fé e ciência, pois a verdade é uma só. Creio que as duas ajudam e apoiam uma a outra. Claro que cada uma tem sua própria linguagem, método e perspectiva, mas podemos aprender da diversidade entre as duas. Houve conflitos no passado e provavelmente teremos conflitos no futuro, mas podemos superar esses conflitos com o diálogo.


- O senhor certamente já ouviu questionamentos do tipo: "a Bíblia diz que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, quando então ele teria criado o resto do Universo?". Como isso influencia o diálogo?

 FUNES: É preciso estarmos atentos à linguagem, ao contexto e às culturas. A Bíblia não é um livro de ciência. Então, se estamos procurando uma explicação científica para o início do Universo, não vamos achar na Bíblia. A Bíblia é um livro que foi escrito entre 2 mil e 3 mil anos atrás e seus autores não tinham o conhecimento científico que temos hoje. O livro do Gênesis não diz como Deus criou o Universo, o que havia no seu começo, se era matéria escura, energia escura, átomos. Esse não é o escopo e o objetivo da Bíblia. Os autores da Bíblia foram inspirados por Deus para comunicar uma mensagem religiosa e não uma mensagem científica.

  - O senhor concorda que o Big Bang é a melhor explicação para a origem do Universo? O que sente quando dizem que ele não precisou da ação de Deus para acontecer?

 FUNES: A teoria do Big Bang é a melhor explicação científica que temos hoje para a origem do Universo. Temos várias evidências de que o Universo tem cerca de 14 bilhões de anos e, com os dados que temos, é, sim, a melhor explicação disponível. Deus, para nós cristãos, não é a energia escura, a gravidade ou qualquer outra explicação científica de como o Universo se fez. Esse não é o Deus cristão. O Deus em que acreditamos é o pai de Jesus, autor da criação, o pai amoroso que toma conta de nós e nos ama tanto que nos enviou seu filho. Claro que se pensarmos Deus como a energia escura, a força da gravidade etc, não precisamos de Deus para explicar a realidade do Universo.


- E quanto ao argumento de que o Universo que vivemos é resultado de um desenho inteligente que seria a prova da existência de Deus? 

 FUNES: Se entendermos o desenho inteligente como um teoria científica ou um caminho teológico para Deus, não concordo, pois não é boa ciência, nem boa teologia. Segundo a teoria do Big Bang, para termos a vida como conhecemos, precisamos que o Universo tenha tido uma espécie de sintonia fina. Se diferentes parâmetros físicos, como a massa do elétron, a constante da gravidade, a velocidade da luz, tivessem seus valores mudados, acabaríamos com um Universo diferente. Não é possível ter uma prova da existência de Deus do ponto de vista da ciência. Por outro lado, essas explicações científicas são racionais e compatíveis com nossa crença de que Deus é o Criador. Não vejo nenhum conflito real entre a teoria do Big Bang e o que sabemos pela fé. Do ponto de vista da fé, creio que há um propósito para a criação do Universo.


- A Igreja aceita a possibilidade de existência de vida extraterrestre?

 FUNES: Primeiro, deixemos bem claro que não temos provas de que exista vida no Universo fora da Terra. Dito isso, há um ramo interdisciplinar de estudo chamado astrobiologia que tem se desenvolvido muito nos últimos 20 anos e que tem como objetivo procurar por vida. Vivemos em um Universo com centenas de bilhões de galáxias, cada uma delas formada por centenas de bilhões de estrelas, que por sua vez têm centenas de bilhões de planetas orbitando elas, então é possível que haja vida lá fora no Universo. Vamos ver. Não há conflito entre a possibilidade de existência de vida extraterrestre e a doutrina da Igreja. Temos que fazer mais pesquisas, pois até o momento não temos provas da existência de vida fora da Terra. A Igreja encoraja essas pesquisas e não podemos fazer mais que isso.


- E se encontrarmos vida fora da Terra e ela for diferente de nós, o senhor acha que há alguma contradição com os ensinamentos da Igreja? Afinal, a Bíblia não diz que fomos criados à imagem e semelhança de Deus?


 FUNES: Não vejo nenhuma contradição entre a possibilidade de existência de vida no Universo com a fé em Deus como o Criador. Nós fomos criados à imagem de Deus, mas basicamente é nossa natureza espiritual que foi criada à imagem de Deus. Isso é que é importante. Outros seres podem ter sido criados com diferentes aparências, mas também abrigando uma natureza espiritual feita por Deus.


- O mesmo vale para a discussão entre criacionismo e evolução?

  FUNES: Não sou biólogo, e sim astrônomo, mas posso dizer que do ponto de vista da ciência a evolução está comprovada. Na opinião da Igreja, não há oposição entre a criação e a evolução. Assim como no caso do Big Bang, são linguagens diferentes. Não podemos ler a Bíblia literalmente e isso está claro para a Igreja Católica. Ninguém na Igreja faria isso. E temos evidências da ciência de que a evolução existe. Assim como a vida, o Universo também evolui. Nos próprios processos físicos há evolução das galáxias, das estrelas, então a ideia da evolução é bem compreendida por nós.
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