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Papa apela à reconciliação entre tradição religiosa e secularismo

Bento XVI defendeu hoje uma reconciliação entre a tradição religiosa e o secularismo, em Portugal. "Nestes séculos da dialéctica entre iluminismo, secularismo e fé, não faltaram nunca pessoas que quiseram criar pontes, um diálogo", constatou, lamentando a "tendência dominante" de opor estas dimensões. O Papa falava aos jornalistas, a bordo do voo que o transportava até Lisboa, recordando a "longa história" do secularismo e do iluminismo país, a respeito da qual evocou o nome do Marquês de "Pombal". "Ao longo destes séculos, Portugal viveu sempre na dialéctica" que hoje assume novas formas, disse. A presença do secularismo foi classificada como "normal", mas o Papa sublinhou que "o grande desafio actual é que este e a "cultura da fé" se encontrem e descubram "a sua verdadeira identidade".
 
Para Bento XVI, neste momento existe "uma hipótese" para encontrar "a síntese" para um diálogo "profundo e verdadeiro". O Papa considera a cultura europeia não pode ser apenas "racionalista, sem dimensão religiosa e transcendente", considerando que assim não poderia entrar em diálogo com as grandes "tradições culturais da humanidade". "A razão como tal é aberta ao transcendente", defendeu.
 
Octavio Carmo
Agência Ecclesia

Papa vai a Fátima mostrar ação de Deus na história

Análise do porta-voz vaticano

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 10 de maio de 2010 (ZENIT.org).- Bento XVI vai a Fátima mostrar como Deus age na história, um das lições centrais dos aparecimentos da Virgem Maria aos três pastorinhos portugueses, segundo anuncia o porta-voz da Santa Sé.

O Pe. Federico Lombardi SJ, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, analisa as razões pelas quais o Papa visita Portugal, de 11 a 14 de maio, no 10º aniversário da beatificação de Jacinta e Francisco, no último editorial da publicação semanal Octava Dies do Centro de Televisão Vaticano.

"João Paulo II quis que o ‘terceiro segredo' de Fátima fosse revelado na ocasião da beatificação dos dois pastorinhos, Francisco e Jacinta, durante o Jubileu do ano 2000, transição entre dois milênios. Estava se completando um século caracterizado por grandes sofrimentos, sobre os quais, exatamente, as visões de Fátima deram uma interpretação espiritual dramática e luminosa: tempo de guerra e de martírio, no qual a Igreja e mesmo o Papa compartilham profundamente os sofrimentos e a sede de salvação da humanidade inteira."

"Para duas crianças inocentes, em um lugar insignificante - como é característico dos grandes eventos marianos -, era confiada uma mensagem que, em sua simplicidade, liberava uma força espiritual capaz de superar fronteiras e de ser transmitida além das graves circunstâncias da história da humanidade", sublinha o porta-voz.

O Pe. Lombardi, em seu editorial, pergunta-se o que a mensagem de Fátima pode nos dizer, agora que foi revelado o segredo de fatos que se cumpriram.

Para responder, ele lembra o comentário do então cardeal Joseph Ratzinger na conclusão da publicação do texto do "segredo", no qual dizia: "Ação de Deus, Senhor da história, e corresponsabilidade do homem, em sua dramática e fecunda liberdade, são os dois pilares sobre os nos quais a história da humanidade é construída. A Virgem aparecida em Fátima nos convida a voltar a estes valores esquecidos, para o futuro do homem em Deus, de quem somos parte ativa e responsável".

"Precisamos de olhos límpidos e inocentes para ler o caminho do novo milênio e entender onde seus riscos e as suas mais verdadeiras esperanças estão. A mensagem de Fátima conserva toda a sua seriedade frente à história", conclui o Pe. Lombardi.

A VERDADEIRA LIBERDADE PRESSUPÕE A BUSCA DA VERDADE

(...)
Hoje, de maneira especial no meio dos jovens, sobressai de novo a interrogação a respeito da natureza da liberdade conquistada. Para qual finalidade se vive em liberdade? Quais são as suas autênticas características distintivas?


Cada geração tem a tarefa de se comprometer desde o início na árdua procura do modo como ordenar correctamente as realidades humanas, esforçando-se por compreender o recto uso da liberdade (cf. Spe salvi, 25). O dever de revigorar as "estruturas de liberdade" é fundamental, mas nunca é suficiente: as aspirações humanas elevam-se acima de nós mesmos, para além daquilo que qualquer autoridade política ou económica possa oferecer, rumo àquela esperança luminosa (cf. ibid., n. 35), que encontra a sua origem além de nós mesmos e, no entanto, manifesta-se no nosso interior como verdade, beleza e bondade. A liberdade procura uma finalidade e por este motivo exige uma convicção. A verdadeira liberdade pressupõe a busca da verdade — do verdadeiro bem — e por conseguinte encontra o seu próprio cumprimento precisamente no facto de conhecer e de fazer aquilo que é recto e justo. Por outras palavras, a verdade é a norma-guia para a liberdade, e a bondade é a sua perfeição. Aristóteles definiu o bem como "aquilo para o que todas as coisas tendem", e chegou a sugerir que, "não obstante seja digno alcançar a finalidade até para um único homem, todavia é melhor e mais divino alcançá-lo para uma nação ou para uma polis" (Ética a Nicômaco, 1; cf. Caritas in veritate, 2). Na verdade, a elevada responsabilidade de manter alerta a sensibilidade pela verdade e pelo bem depende de quem quer que exerça o papel de guia: nos campos religioso, político ou cultural, cada qual segundo o modo que lhe é próprio. Em conjunto, temos que nos comprometer na luta pela liberdade e na procura da verdade: ou as duas coisas caminham juntas, de mãos dadas, ou então perecem juntas miseravelmente (cf. Fides et ratio, 90).

Para os cristãos, a verdade tem um nome: Deus. E o bem tem um rosto: Jesus Cristo. A fé cristã, desde o tempo dos Santos Cirilo e Metódio e dos primeiros missionários, desempenhou na realidade um papel decisivo no acto de plasmar a herança espiritual e cultural deste país. A mesma coisa deve verificar-se no presente e em vista do futuro. O rico património de valores espirituais e culturais, que se exprimem uns através dos outros, não apenas deu forma à identidade desta nação, mas também a dotou da perspectiva necessária para desempenhar um papel de coesão no coração da Europa. Durante séculos, esta terra constituiu um ponto de encontro entre diferentes povos, tradições e culturas. Como bem sabemos, ela conheceu capítulos dolorosos e traz em si a cicatriz dos trágicos acontecimentos causados pela incompreensão, pela guerra e pela perseguição. E todavia, é também verdade que as suas raízes cristãs favoreceram o crescimento de um considerável espírito de perdão, de reconciliação e de colaboração, que tornou as populações destas terras capazes de voltar a encontrar a liberdade e de inaugurar uma nova era, uma nova síntese e uma renovada esperança. Não é precisamente deste espírito, que tem necessidade a Europa de hoje?

A Europa é mais do que um continente. Ela é uma casa! E a liberdade encontra o seu significado mais profundo precisamente no facto de ser uma pátria espiritual. No pleno respeito pela distinção entre as esferas política e religiosa — distinção que garante a liberdade de expressar o próprio credo religioso e de viver em sintonia com ele — desejo evidenciar novamente o papel insubstituível do Cristianismo para a formação da consciência de cada geração e para a promoção de um consenso ético de base, ao serviço de cada pessoa que chama a este continente "casa"!

Neste espírito, presto homenagem à voz de quantos hoje, neste país e na Europa, procuram aplicar a própria fé de maneira respeitadora mas determinada, na arena pública, na expectativa de que as normas sociais e as linhas políticas sejam inspiradas pelo desejo de viver em conformidade com a verdade que torna livre cada homem e cada mulher (cf. Caritas in veritate, 9).

A fidelidade aos povos que vós servis e representais exige a fidelidade à verdade, a única que constitui a garantia da liberdade e do desenvolvimento humano integral (cf. ibid., n. 9). Efectivamente, a coragem de apresentar de maneira clara a verdade é um serviço a todos os membros da sociedade: com efeito, ele lança luz no caminho do progresso humano, indica os seus fundamentos éticos e morais e garante que as directrizes políticas se inspirem no tesouro da sabedoria humana. A atenção à verdade universal jamais deveria ser ocultada por interesses particularistas, por mais importantes que eles possam ser, porque isto levaria unicamente a novos casos de fragmentação social ou de discriminação, que precisamente aqueles grupos de interesse ou de pressão declaram que desejam ultrapassar. Com efeito, a busca da verdade, longe de ameaçar a tolerância das diferenças ou o pluralismo cultural, torna o consenso possível e permite ao debate público conservar-se lógico, honesto e responsável, assegurando aquela unidade que as noções superficiais de integração simplesmente não são capazes de realizar.

Estou convicto de que, à luz da tradição eclesial acerca das dimensões material, intelectual e espiritual das obras de caridade, os membros da comunidade católica, juntamente com os de outras Igrejas, comunidades eclesiais e religiões, continuarão a procurar, nesta nação e alhures, objectivos de desenvolvimento que contenham em si um valor mais humano e humanizador (cf. ibid., n. 9).

Estimados amigos, a nossa presença nesta magnífica capital, frequentemente denominada "o coração da Europa", estimula-nos a perguntar-nos em que consiste este "coração". É verdade que não existe uma resposta fácil para tal interrogação, no entanto um indício é constituído seguramente pelas jóias arquitectónicas que adornam esta cidade. A beleza extraordinária das suas igrejas, do castelo, das praças e das pontes não podem deixar de orientar as nossas mentes para Deus. A sua beleza exprime fé; são epifanias de Deus que, justamente, nos permitem considerar as grandes maravilhas às quais nós, criaturas, podemos aspirar quando damos expressão às dimensões estética e cognoscitiva do nosso ser mais profundo. Como seria trágico, se se admirassem tais exemplos de beleza, ignorando contudo o mistério transcendente que eles indicam. O encontro criativo da tradição clássica e do Evangelho deu vida a uma visão do homem e da sociedade sensível à presença de Deus no meio de nós. Esta visão, ao plasmar o património cultural deste continente, iluminou claramente o facto de que a razão não termina com aquilo que o olho vê mas, ao contrário, ela é atraída pelo que está além, por aquilo a que nós aspiramos profundamente: poderíamos dizer, o Espírito da Criação.

No contexto da actual encruzilhada de civilizações, tão frequentemente marcada por uma alarmante separação da unidade de bondade, verdade e beleza, e pela consequente dificuldade de encontrar um consenso sobre os valores comuns, cada esforço para o progresso humano deve inspirar-se nesta herança viva. A Europa, fiel às suas raízes cristãs, tem uma vocação particular a sustentar esta visão transcendente nas suas iniciativas ao serviço do bem comum de indivíduos, comunidades e nações. De importância particular é a tarefa urgente de encorajar os jovens europeus mediante uma formação que respeite e alimente a capacidade, que Deus lhes conferiu, de transcender precisamente aqueles limites que às vezes se presume que os deve aprisionar. Nos desportos, nas artes criativas e na investigação académica, os jovens encontram de bom grado a oportunidade para se elevarem. Não é porventura também verdade que, se confrontados com altos ideais, eles hão-de aspirar inclusive à virtude moral e a uma vida fundamentada no amor e na bondade? Encorajo profundamente os pais e os responsáveis pelas comunidades, a fim de que esperem das autoridades a promoção de valores que sejam capazes de integrar as dimensões intelectual, humana e espiritual numa formação sólida, digna das aspirações dos nossos jovens.

"Veritas vincit". Este é o mote da bandeira do Presidente da República Checa: em última análise, a verdade vence realmente, não com a força, mas graças à persuasão, ao testemunho heróico de homens e mulheres de princípios sólidos, ao diálogo sincero que sabe olhar, para além do interesse pessoal, para as necessidades do bem comum. A sede de verdade, bondade e beleza, gravada pelo Criador em todos os homens e mulheres, está destinada a orientar conjuntamente as pessoas na busca da justiça, da liberdade e da paz. A história demonstrou amplamente que a verdade pode ser atraiçoada e manipulada ao serviço de ideologias falsas, da opressão e da injustiça. No entanto, os desafios que a família humana deve enfrentar não nos interpelam a olhar para além destes perigos? No final, o que é mais desumano e destruidor do que o cinismo que gostaria de negar a grandeza da nossa busca da verdade, e do relativismo que corrói os próprios valores que sustentam a construção de um mundo unido e fraterno? Pelo contrário, nós temos de readquirir a confiança na nobreza e na grandeza do espírito humano, pela sua capacidade de alcançar a verdade, e deixar que esta confiança nos guie no trabalho paciente da política e da diplomacia.

Senhoras e Senhores, com estes sentimentos exprimo na oração os bons votos para que o vosso serviço seja inspirado e sustentado pela luz daquela verdade que é o reflexo da Sabedoria eterna de Deus Criador. Sobre vós e as vossas famílias, invoco de coração a abundância das Bênçãos divinas.

Encontro com as autoridades políticas e civis e com o corpo diplomático
Castelo de Praga - Sala Espanhola
Sábado, 26 de Setembro de 2009

A CONTRIBUIÇÃO POSITIVA DA RELIGIÃO PARA A SOCIEDADE CIVIL

Encontro com os chefes religiosos muçulmanos, o corpo diplomático e os reitores das universidades
Bento XVI visitou em Amã, ainda na manhã do dia 9 de Maio, o museu hachemita e a mesquita al-Hussein Bin Talal, guiado pelo Príncipe Ghazi Bin Talal. Em seguida, fora da mesquita, encontrou-se também com os chefes religiosos muçulmanos, com o corpo diplomático e com os reitores das Universidades jordanas. Após o discurso de saudação do Príncipe, o Sumo Pontífice dirigiu a todos os presentes estas palavras.

Alteza Real

Excelências
Ilustres Senhoras e Senhores
(...)
Lugares de culto, como esta maravilhosa mesquita de Al-Hussein Bin Talal, intitulada ao venerado e saudoso Rei, elevam-se como jóias sobre a superfície da terra. Do antigo ao moderno, do sultuoso ao humilde, todos eles remetem ao divino, ao Único Transcendente, ao Omnipotente. E ao longo dos séculos, estes santuários atraíram homens e mulheres ao interior do seu espaço sagrado para fazer uma pausa, para rezar e para admitir a presença do Todo-Poderoso, assim como para reconhecer que todos nós somos suas criaturas.
Por este motivo, não podemos deixar de estar preocupados com o facto de que hoje, com insistência crescente, alguns consideram que a religião falhe na sua pretensão de ser, por sua própria natureza, edificadora de unidade e de harmonia, uma expressão de comunhão entre as pessoas e com Deus. Com efeito, alguns asseveram que a religião é necessariamente uma causa de divisão no nosso mundo; e por tal razão, afirmam que quanto menos atenção se presta à religião no sector público, melhor é. Sem dúvida, o contraste de tensões e divisões entre os seguidores de diferentes tradições religiosas, infelizmente, não pode ser negado. Todavia, não se verifica porventura também o caso que com frequência a manipulação ideológica da religião, às vezes com finalidades políticas, é o verdadeiro catalizador das tensões e das divisões, e não raro inclusive das violências na sociedade? Diante de tal situação, em que os opositores da religião procuram não simplesmente silenciar a sua voz, mas também substituí-la com a sua própria, a necessidade de que os crentes sejam fiéis aos seus princípios e aos seus credos é sentida de modo mais pungente do que nunca. Muçulmanos e cristãos, precisamente por causa da influência da nossa história conjunta, tão frequentemente assinalada por incompreensões, hoje devem comprometer-se para ser identificados e reconhecidos como adoradores de Deus, fiéis à oração, desejosos de se comportar e de viver em conformidade com as disposições do Omnipotente, misericordiosos e compassivos, coerentes ao darem o testemunho de tudo aquilo que é justo e bom, sempre reconhecidos pela origem e dignidade comuns de cada pessoa humana, que permanece no ápice do desígnio criador de Deus para o mundo e para a história.
(...)
Ilustres amigos, hoje desejo fazer menção de uma tarefa que indiquei em diversas ocasiões e que, creio firmemente, cristãos e muçulmanos podem assumir, de modo particular através do seu contributo para o ensino e bolsas de estudo, assim como para o serviço à sociedade. Tal tarefa constitui o desafio a cultivar para o bem, no contexto da fé e da verdade, a vasta potencialidade da razão humana. Com efeito, os cristãos descrevem Deus, entre outros modos, como Razão criadora, que ordena e orienta o mundo. E Deus dota-nos da capacidade de participar nesta Razão e assim de agir de acordo com o que é bom. Os muçulmanos adoram a Deus, o Criador do Céu e da Terra, que falou à humanidade. E como crentes no único Deus, sabemos que a razão humana constitui em si um dom de Deus, que se eleva ao plano mais alto quando é iluminada pela luz da verdade de Deus. Na realidade, quando a razão humana humildemente se permite ser purificada pela fé, em nada se debilita; pelo contrário, é revigorada para resistir à presunção de ir além dos seus próprios limites. Deste modo, a razão humana é reforçada no compromisso de perseguir a sua nobre finalidade de servir a humanidade, dando expressão às nossas comuns aspirações mais íntimas e ampliando em vez de manipular e limitar o debate público. Portanto, a adesão genuína à religião longe de restringir as nossas mentes alarga os horizontes da compreensão humana. Isto protege a sociedade civil dos excessos de um ego ingovernável, que tende a absolutizar o finito e a eclipsar o infinito; faz com que a liberdade seja exercida em sinergia com a verdade, e enriquece a cultura com o conhecimento daquilo que diz respeito tudo o que é verdadeiro, bom e belo.
Uma semelhante compreensão da razão, que impele continuamente a mente humana para além de si mesma na busca do Absoluto, apresenta um desafio: contém um sentido tanto de esperança como de prudência. Em conjunto, cristãos e muçulmanos são levados a procurar tudo aquilo que é justo e recto. Permaneçamos comprometidos em ultrapassar os nossos interesses particulares e em encorajar outros, de forma especial os administradores e os líderes sociais, a fazer o mesmo com a finalidade de saborear a profunda satisfação de servir o bem comum, embora com consequências pessoais. Somos recordados que precisamente porque é a nossa dignidade humana comum que dá origem aos direitos humanos universais, eles são igualmente válidos para cada homem e cada mulher, sem distinção de grupos religiosos, sociais ou étnicos aos quais pertencem. Sob este aspecto, temos que observar que o direito de liberdade religiosa vai além da questão do culto e inclui o direito especialmente das minorias de um acesso equitativo ao mercado de trabalho e outras esferas da vida civil.
Antes de vos deixar nesta manhã, gostaria de sublinhar de modo especial a presença no meio de nós de Sua Beatitude Emmanuel iii Delly, Patriarca de Bagdad, a quem saúdo muito calorosamente. A sua presença faz-nos pensar nos cidadãos do vizinho Iraque, muitos dos quais encontraram uma hospitalidade cordial aqui na Jordânia. Os esforços da comunidade internacional para promover a paz e a reconciliação, juntamente com os esforços dos líderes locais, devem continuar em vista de produzir fruto na vida dos iraquianos. Exprimo o meu apreço por todos os que apoiam os esforços destinados a aprofundar a confiança e a reconstruir as instituições e as infra-estruturas essenciais para o bem-estar daquela sociedade. Mais uma vez, peço com insistência aos diplomatas e à comunidade internacional por eles representadas, juntamente com os líderes políticos e religiosos locais, que façam tudo o que for possível para assegurar à antiga comunidade cristã daquela nobre terra o seu direito fundamental a uma coexistência pacífica com os próprios concidadãos.
Distintos amigos, faço votos por que os sentimentos por mim expressos no dia de hoje nos deixem com uma renovada esperança para o futuro. O nosso amor e dever diante do Omnipotente não se manifestam unicamente no culto, mas também no amor e na preocupação pelas crianças e pelos jovens as vossas famílias e por todos os cidadãos da Jordânia. É por eles que vos empenhais e são eles que vos estimulam a pôr no âmago das instituições, das leis e das funções da sociedade o bem de cada pessoa humana. Possa a razão, enobrecida e tornada humilde pela grandeza da verdade de Deus, continuar a plasmar as vidas e as instituições desta nação, de tal maneira que as famílias consigam florescer e todos possam viver em paz, contribuindo para a cultura e ao mesmo tempo haurindo da cultura que unifica este grande Reino! Muito obrigado!

A ORAÇÃO DEIXADA POR BENTO XVI NO MURO OCIDENTAL

Deus de todos os tempos,
na minha visita a Jerusalém, "Cidade da Paz",
pátria espiritual comum de judeus, cristãos e muçulmanos,
apresento-vos as alegrias, as esperanças e as aspirações,
as provações, os sofrimentos e a dor
de todo o vosso povo no mundo inteiro.
Deus de Abraão, Isaac e Jacob,
ouvi o clamor dos aflitos, dos amedrontados e dos desesperados;
enviai a vossa paz sobre esta Terra Santa, sobre o Médio Oriente
e sobre toda a família humana;
estimulai os corações de todos aqueles que invocam o vosso nome,
a percorrer humildemente o caminho da justiça e da compaixão.
"O Senhor é bom para aqueles que nele confiam,
para a alma que O procura" (Lm 3, 25)!

BENTO XVI DESPEDIU-SE DE ISRAEL

Bento XVI despediu-se esta Sexta-feira de Israel, concluindo uma viagem de oito dias à Terra Santa. Na cerimónia de despedida, em Telavive, Bento XVI foi acompanhado por Shimon Peres e Benjamin Netanyahu, presidente e primeiro-ministro de Israel.
O Papa passou em revista os vários momentos da sua estadia no país, reafirmando em particular a sua condenação do “terrível episódio” do Holocausto.
Referindo como “um dos momentos mais solenes” desta estadia em Israel a visita ao Memorial do Holocausto, Yad Vashem, o Papa recordou o encontro tido com alguns sobreviventes da Shoah, “profundamente emocionante” que lembrou a visita realizada há três anos ao Campo de Auschwitz, onde tantos judeus foram “brutalmente exterminados”.
“Tantos Judeus – mães, pais, irmãos, maridos, esposas, irmãos, irmãs, amigos – foram brutalmente exterminados por um regime sem Deus que propagandeava uma ideologia de anti-semitismo e de ódio. Não se deve nunca esquecer ou negar este horroroso capítulo da história. Pelo contrário, aquelas negras recordações devem fortalecer-nos na decisão de nos estreitarmos ainda mais uns aos outros como ramos da mesma oliveira, alimentada pelas mesmas raízes e unidos pelo amor fraterno”, disse.
Evocando a oliveira plantada no jardim da residência presidencial, no dia da sua chegada a Israel, Bento XVI recordou que é precisamente a imagem de uma oliveira que São Paulo usa para descrever a íntima relação entre cristãos e judeus. “Somos alimentados pelas mesmas raízes espirituais. Encontramo-nos como irmãos, irmãos que em certos períodos da nossa história tivemos uma relação tensa, mas que agora estamos firmemente empenhados em construir pontes de amizade duradoura”, apontou.
Agradecendo a calorosa hospitalidade que lhe foi reservada, Bento XVI afirmou que “vim visitar este país como um amigo dos Israelitas, exactamente como sou um amigo do povo palestiniano”. “Os amigos gostam de passar tempo na companhia um do outro, e afligem-se profundamente quando vêem o outro sofrer. Nenhum amigo dos Israelitas e dos Palestinianos pode deixar de se contristar com as contínuas tensões entre os vossos dois povos. Nenhum amigo pode deixar de chorar com os sofrimentos e as perdas de vidas humanas que ambos os povos têm sofrido nos últimos sessenta anos”, frisou.
Neste contexto, deixou um sentido “apelo a todas as populações destas terras”:
“Nunca mais derramamento de sangue!
Nunca mais combates!
Nunca mais terrorismo!
Nunca mais guerra!
Quebremos o círculo vicioso da violência!
Instaure-se, pelo contrário, uma paz duradoura baseada na justiça!
Haja uma verdadeira reconciliação que cure as feridas”.
Concretizando ainda mais o seu apelo, o Papa pediu que “seja universalmente reconhecido o direito do Estado de Israel a existir e a gozar de paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas”. E que “se reconheça igualmente que o povo palestiniano tem direito a uma pátria independente, soberana, a viver com dignidade e a viajar livremente”.
Que a solução dos dois Estados se torne uma realidade e não permaneça mero sonho”, acrescentou ainda Bento XVI, que não quis concluir o seu discurso final sem uma referência directa ao Muro construído por Israel na Cisjordânia.
“Para mim, uma das mais tristes imagens na minha visita a estas terras foi o muro. No momento de passar ao lado dele, rezava pedindo um futuro em que as populações da Terra Santa possam viver em paz e harmonia sem necessidade de tais instrumentos de segurança e separação, respeitando e confiando um no outro e renunciando a toda e qualquer forma de violência e agressão”, observou.
No final do discurso, o Papa assegurou as suas orações e as dos católicos de todo o mundo “para que prossigam os esforços para construir nesta região uma paz justa e duradoura”.

BENTO XVI NA TERRA SANTA NÃO TOMA PARTIDO E POR ISSO É CRITICADO

O papel único do pontífice, segundo o Pe. Thomas Williams, L.C.
JERUSALÉM, quinta-feira, 14 de maio de 2009 (ZENIT.org).- Bento XVI “não veio à Terra Santa para tomar partido político, nem sequer pelo seu próprio ‘partido’”, esclarece o Pe. Thomas D. Williams, L.C., teólogo americano, professor da Universidade Regina Apostolorum de Roma.
O sacerdote, que está comentando de Jerusalém a peregrinação papal para o canal de televisão americano CBSNews e para Zenit, explica: “Ele não veio somente como representante da Igreja Católica, mas verdadeiramente em nome de cada envolvido, em nome da própria humanidade”.
O Pe. Williams confessa que esta reflexão lhe foi suscitada ao ver como continuam as críticas locais diante dos fatos e palavras do Santo Padre. “Não posso ajudá-lo, mas elevo meu coração a Deus em gratidão por este amável Papa alemão. Percebi como sua missão é única neste terra partida em facções de contínuas disputas e que vão desde a terra até as minúcias doutrinais.”
“Bento XVI – explica o Pe. Williams – fala em nome dos judeus, elogiando sua herança religiosa e defendendo seu direito à segurança e autonomia. Fala em nome dos palestinos e do seu direito à soberania e à liberdade. Fala em nome dos muçulmanos, recordando-lhes o melhor de sua tradição religiosa, com suas profundas convicções e sentido culto ao único Deus. Fala pelos cristãos, em seu difícil estatuto de pequena e sofrida minoria. Em uma palavra, fala a todos e para todos.”
Segundo o Pe. Thomas, “esta é a singularidade da voz e da mensagem do Papa. (...) Paradoxalmente – esclarece –, em meio a toda a manipulação da mensagem de Bento XVI e de todas as protestas porque ele não se alinha suficientemente a nenhum grupo, vemos a grandeza e singularidade de sua presença aqui. Nenhum outro líder no mundo pode falar com a mesma autoridade moral ou imparcialidade. Sua verdadeira repugnância a exercer a política partidária é a causa de que frequentemente sua mensagem seja rejeitada e por isso é tão desesperadamente importante”.
Para ilustrar o que quer dizer, o sacerdote dá um exemplo. Um dos que levantaram as maiores críticas sobre a suposta falta de remorso do Papa pela Shoá é o rabino Ysrael Meir Lau, presidente do Memorial Yad Vashem: qualificou o discurso do Papa como “sem compaixão” pela horrível tragédia dos 6 milhões de vítimas.
“Se você assistir à cobertura televisiva do evento, verá que Lau estava á direita do Papa e parecia que tinha comido algo especialmente desagradável ao seu estômago”, indica.
Mas é que o rabino Lau não está alheio às críticas ao papado. Foi também incansável na hora de desacreditar o Papa Pio XII, inclusive quando isso signifique distorcer a verdade.
O Pe. Williams lembra que “durante as comemorações em Berlim, em 1998, do 60º aniversário da Noite dos Vidros Quebrados – o evento do dia 9 de novembro de 1938 que deu início à era das perseguições de judeus na Alemanha –, Lau, então rabino chefe de Israel, foi convidado a falar. Em seu apaixonado discurso, fez a pergunta condenatória, ‘Pio XII, onde você estava? Por que permaneceu em silêncio durante a Noite dos Vidros Quebrados?’”.
No dia seguinte, indica o Pe. Williams, dois jornais italianos mostraram esta manchete, com o subtítulo “O vergonhoso silêncio de Pio XII”. “O único problema – indica – é que Pio XII só foi eleito em março de 1939, quatro meses depois da noite dos Vidros Quebrados. Apesar disso, não vi que o rabino Lau tenha se apressado a expressar remorso por sua difamação do Papa Pio XII.” Em seu voo a Israel, o Pe. Williams teve a oportunidade de reler “a cândida autobiográfica de Bento XVI, ‘Minha vida’” e comenta: “Foi tocante, mais uma vez, ver como sua própria infância foi cruelmente interrompida pela subida ao poder de Hitler e como muitas pessoas alemãs de boa vontade foram injustamente qualificadas de nazistas. Se acreditam nas críticas a Bento XVI, qualquer um que morava na Alemanha entre 1930 e 1940 é necessariamente culpável de associação ao nazismo”.
Felizmente, acrescenta, “algumas vozes judaicas importantes estão começando a ser ouvidas em Jerusalém convidando os críticos a deixarem de lado o Papa. Por exemplo, Noah Frug, presidente do Consórcio de Organizações de Sobreviventes do Holocausto em Israel, disse que as críticas dirigidas ao pontífice eram exageradas. ‘Ele veio aqui para aproximar a Igreja do judaísmo e deveríamos considerar sua visita como positiva e importante’, disse Frug”.
O sacerdote analisa outro exemplo, as palavras que o Papa pronunciou na quarta-feira, em Belém, para expressar sua solidariedade aos palestinos e para afirmar a posição da Santa Sé de reconhecimento de dois Estados.
Dirigindo-se ao presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas alias Abu Mazen, o Bispo de Roma disse: “A Santa Sé apoia os direitos de sua população a uma soberana pátria palestina na terra dos vosso antepassados, segura e em paz com seus vizinhos, no interior de fronteiras reconhecidas internacionalmente”.
“Em teoria – acrescenta o Pe. Williams –, isso não deveria provocar desacordo, dado que a postura oficial do Estado de Israel coincide com a da Santa Sé. Israel, também afirma o direito dos palestinos a uma pátria soberana, uma vez que tal acordo possa se tornar factível sem detrimento da segurança de Israel. Certamente, aí está a dificuldade.”
O comentarista falou com pessoas de diversos ambientes e experiências, e uma coisa que todos parecem ter em comum, comenta, é o sofrimento: “Cada um tenta me contar sobre as adversidades e injustiças sofridas, pessoal ou historicamente. Cada um tem uma história de aflição para relatar. Ninguém parece recordar ter cometido nenhuma injustiça, mas somente lembra de tê-la sofrido. E não posso deixar de me perguntar, em uma terra de tanta dor e pena, uma terra cuja população se orgulha de ‘recordar’, se nesta ocasião o esquecimento poderia ser a virtude mais necessária”.
E conclui lembrando que nesta quarta-feira, em Belém, “Bento XVI instou seus ouvintes cristãos a ‘ser uma ponte de diálogo e cooperação construtiva na edificação de uma cultura de paz que substitua o presente ponto morto de temor, agressão e frustração’. É o que ele mesmo está se esforçando em ser, com sua presença, suas palavras e sua paciente decisão de pregar persistentemente a Boa Notícia”.
Por motivos maiores não podemos acompanhar desta vez a Viagem do Papa Bento XVI à Terra Santa. No entanto, para quem desejar ler ou reler algum discurso do papa ou o noticiário relacionado a sua viagem, iremos dispor alguns links interessantes abaixo. Depois, conforme o tempo, estaremos postando alguns discursos mais relevantes.
LINKS:

ENTREVISTA COM BENTO XVI NO VÔO À JORDANIA

«A Igreja Católica quer contribuir para a paz na Terra Santa»
AMÃ, sexta-feira, 8 de maio de 2009 (ZENIT.org).- Oferecemos a seguir a transcrição da coletiva de imprensa que Bento XVI concedeu nesta sexta-feira aos jornalistas que o acompanhavam no vôo que o levou de Roma à Jordânia. * * * – Padre Lombardi: Santidade, agradecemos muito que nos dê também desta vez uma ocasião de um encontro com o senhor ao início de uma viagem tão importante e comprometida. Entre outras coisas, temos também a oportunidade de desejar-lhe uma boa viagem e de dizer-lhe que colaboraremos na difusão das mensagens que o senhor nos transmitirá. Como é habitual, as perguntas que agora proponho são o resultado de uma coleta de perguntas entre os colegas aqui presentes. Eu as exponho por motivos de facilidade logística, mas na realidade são fruto do trabalho comum.
– Pergunta: Santidade, esta viagem acontece em um período muito delicado para o Oriente Médio. Há fortes tensões; por ocasião da crise de Gaza, haviam inclusive pensado que o senhor renunciaria a realizá-la. Ao mesmo tempo, poucos dias depois de sua viagem, os principais responsáveis políticos de Israel e da Autoridade Palestina se encontrarão com o presidente Obama. O senhor acha que poderá dar uma contribuição para o processo de paz que agora parece estagnado?
– Bento XVI: Bom dia! Quero antes de tudo agradecer o trabalho que realizais e desejar a todos uma boa viagem, uma boa peregrinação, um bom retorno. Com relação à pergunta, certamente tento contribuir com a paz não como indivíduo, mas em nome da Igreja Católica, da Santa Sé. Nós não somos um poder político, mas uma força espiritual e esta força espiritual é uma realidade que pode contribuir para o progresso do processo de paz. Vejo três níveis: como crentes, estamos convencidos de que a oração é uma verdadeira força. Ela abre o mundo a Deus: estamos convencidos de que Deus escuta e de que pode atuar na história. Penso que se milhões de pessoas, de crentes, rezam, é realmente uma força que influencia e pode contribuir para ir adiante com a paz. Segundo ponto: tentamos ajudar na formação das consciências. A consciência é a capacidade do homem de perceber a verdade, mas esta capacidade está frequentemente com obstáculos por interesses particulares. E libertar destes interesses, abrir mais à verdade, aos verdadeiros valores, é uma grande tarefa: é um dever da Igreja ajudar a conhecer os verdadeiros critérios, os verdadeiros valores, e libertar-nos de interesses particulares. E assim, terceiro ponto, interpelamos também – precisamente é assim! – a razão: precisamente porque não somos parte política, podemos talvez mais facilmente, também à luz da fé, ver os verdadeiros critérios, ajudar a entender o que contribui para a paz e falar à razão, apoiar as posturas realmente razoáveis. Fizemos isso e queremos fazer novamente agora e no futuro.
– Obrigado, Santidade. Segunda pergunta: o senhor, como teólogo, refletiu em particular sobre a raiz única que une cristãos e judeus. Como é possível que, apesar dos esforços de diálogo, aconteçam com frequência ocasiões de mal-entendidos? Como o senhor vê o futuro do diálogo entre as duas comunidades?
– Bento XVI: O importante é que na realidade temos a mesma raiz, os mesmos Livros do Antigo Testamento, que são – tanto para os judeus como para nós – Livro da Revelação. Mas, naturalmente, após dois mil anos de histórias diversas, e mais ainda, separadas, não nos surpreende o fato de que se dêem mal-entendidos, porque se formaram tradições de interpretação, de linguagem, de pensamento muito diferentes, por assim dizer, um «cosmos semântico» muito diferente, de modo que as mesmas palavras em ambas as partes significam coisas diferentes; e com este uso de palavras que, no curso da história conformaram significados diversos, nascem obviamente mal-entendidos. Devemos fazer de tudo para aprender a linguagem do outro, e me parece que fizemos grandes progressos. Hoje temos a possibilidade de que os jovens, os futuros professores de teologia, possam estudar em Jerusalém, na Universidade Hebraica, e os judeus têm contato acadêmico conosco: assim se dá um encontro destes «cosmos semânticos» diferentes. Aprendemos mutuamente e avançamos pelo caminho do verdadeiro diálogo; aprendemos um do outro e estou certo de que estamos progredindo. E isso ajudará também no processo de paz, e mais, no amor recíproco.
– Santidade, esta viagem tem duas dimensões essenciais de diálogo inter-religioso, com o islã e com o judaísmo. São duas direções completamente separadas ou haverá também uma mensagem comum que tenha a ver com as três religiões que fazem referência a Abraão?
– Bento XVI: Certamente existe também uma mensagem comum e será ocasião de apresentá-la e, apesar da diferença de origens, temos raízes comuns, porque, como já disse, o cristianismo nasce do Antigo Testamento e o Novo Testamento sem o Antigo não existiria, porque se refere permanentemente à Escritura, ou seja, ao Antigo Testamento; mas também o Islã nasceu em um ambiente onde estava presente tanto o judaísmo como os diversos ramos do cristianismo, judaico-cristianismo, cristianismo-antioquenho bizantino, e todas as circunstâncias se refletem na tradição alcorânica. Assim, temos muito em comum desde as origens, na fé no único Deus. Por isso, é importante, por um lado, manter um diálogo a duas partes – com os judeus e com o Islã – e depois também um diálogo trilateral. Eu mesmo fui cofundador de uma fundação para o diálogo entre as três religiões no qual personalidades como o metropolita Damaskinos e o grão-rabino da França, René Samuel Sirat, estavam juntos, e esta fundação fez também uma edição dos livros das três religiões: o Alcorão, o Novo Testamento e o Antigo Testamento. Portanto, o diálogo trilateral deve seguir adiante, é importantíssimo para a paz e também – digamos – para viver bem a própria religião.
– Uma última pergunta. Santidade, o senhor aludiu frequentemente ao problema da diminuição dos cristãos no Oriente Médio, em particular na Terra Santa. É um fenômeno com diferentes razões de caráter político, econômico e social. O que se pode fazer concretamente para ajudar a presença cristã na região? Que contribuição o senhor espera oferecer com sua viagem? Há esperança para estes cristãos no futuro? Terá uma mensagem particular também para os cristãos de Gaza que virão para encontrá-lo em Belém?
– Bento XVI: Certamente há esperanças, porque agora é um momento difícil, como você disse, mas também um momento de esperança, de um novo começo, de um novo impulso no caminho rumo à paz e queremos alentar os cristãos na Terra Santa e em todo o Oriente Médio a ficar, a oferecer sua contribuição nos países de suas origens: são um componente importante da vida destas regiões. Concretamente, a Igreja, além de palavras de alento, além da oração comum, tem também escolas e hospitais. Neste sentido, temos a presença de realidades muito concretas. Nossas escolas formam uma geração que terá a possibilidade de estar presente na vida pública. Estamos criando a universidade católica na Jordânia e me parece ser uma grande perspectiva, em que os jovens – tanto muçulmanos como cristãos – se encontram, aprendem juntos, onde se forma uma elite cristã que está preparada precisamente para trabalhar para a paz. Mas geralmente nossas escolas são uma oportunidade muito importante para abrir um futuro aos cristãos e os hospitais mostram nossa presença. Também há muitas associações cristãs que ajudam de diversas formas os cristãos e com ajudas concretas os animam a que permaneçam; assim, espero que os cristãos realmente possam encontrar o valor, a humildade, a paciência de ficar nestes países, de oferecer sua contribuição ao futuro destes países.
– Padre Lombardi: Obrigado, Santidade. Com estas respostas, o senhor nos ajudou a ambientar nossa viagem do ponto de vista espiritual, do ponto de vista cultural, e renovo os desejos, também da parte de todos os colegas que estão neste voo, e também de outros que estão voando para a Terra Santa neste momento, precisamente para participar e ajudar também do ponto de vista informativo para o bom resultado desta missão sua tão comprometida. Boa viagem o senhor e a todos os seus colaboradores; e bom trabalho também aos colegas.

TERRA SANTA: BENTO XVI EMPREENDE SUA VIAGEM MAIS COMPLEXA

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 4 de maio de 2009 (ZENIT.org).- A peregrinação que Bento XVI empreenderá nesta sexta-feira à Jordânia, a Israel e aos Territórios Palestinos é a mais complexa deste pontificado, reconheceu nesta segunda-feira o porta-voz da Santa Sé. Em um briefing concedido à imprensa internacional, o Pe. Federico Lombardi S.J., diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, reconheceu que a viagem, que concluirá em 15 de maio, acontece em momentos sumamente delicados para a região, em particular após a guerra de Gaza, motivo pelo qual a considerou como um ato de «valentia» a favor da reconciliação e da paz. A 12ª viagem internacional deste pontificado permite ao Papa não apenas encontrar os representantes políticos das cidades visitadas– Amã, Jerusalém, Belém e Nazaré –, mas também «confirmar e alentar os cristãos da Terra Santa que diariamente têm de enfrentar muitas dificuldades. O contexto, reconheceu o porta-voz, é sumamente complicado, caracterizado pelo fato de que Israel conta com um novo governo, há divisões entre os palestinos que provocaram o atraso das eleições, mantêm-se as tensões provocadas pelo Irã, e está se apresentando a política do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. «É um conjunto de situações em movimento e de tensões no qual a viagem do Papa se apresenta como um ato de esperança e de confiança, para poder dar uma contribuição à paz e à reconciliação.» «Parece-me que é um ato decididamente valente e um belo testemunho de compromisso para poder levar uma mensagem de paz e reconciliação em situações difíceis», assegurou o Pe. Lombardi. Neste contexto, confessou o porta-voz, muitos se perguntaram se o conflito de Gaza levaria à anulação da viagem. Contudo, esclarece, o Papa quer apostar na paz. Isso explica o motivo pelo qual o próprio Papa, neste domingo, ao falar em inglês ao final do encontro com os peregrinos por ocasião do Regina Coeli, dirigiu uma saudação especial à população palestina. O pontífice pediu aos peregrinos na Praça de São Pedro que se unam na oração «pelos povos afligidos dessa região. Em especial, peço-vos que recordeis o povo palestino, que enfrentou grandes dificuldades e sofrimentos. Que o Senhor os abençoe, e a todos os que vivem na Terra Santa, com os dons da unidade e da paz». Este espírito de reconciliação explica o fato de que o Papa se encontre com as mais altas autoridades de Israel, tanto civis como religiosas, e que em Belém seja acolhido pela presidente da Autoridade Nacional da Palestina, assim como o fato de que tenha encontros com os mais importantes líderes muçulmanos da região.

ENTREVISTA CONCEDIDA PELO SANTO PADRE BENTO XVI AOS JORNALISTAS DURANTE A VIAGEM AÉREA PARA A ÁFRICA

Terça-feira, 17 de Março de 2009
(Padre Federico Lombardi, Director da Sala de Imprensa da Santa Sé): Santidade, bem-vindo entre o grupo de colegas: somos cerca de setenta que nos preparamos para viver esta viagem com Vossa Santidade. Fazemos-lhe os nossos melhores votos e desejamos poder acompanhá-lo com o nosso serviço, de modo a poder fazer participar também muitas outras pessoas nesta aventura. Como de costume, nós somos-lhe muito gratos pelo diálogo que agora nos concede; preparámo-lo recolhendo, nos dias passados, um certo número de perguntas da parte dos colegas – recebi umas trinta – e depois escolhemos algumas que pudessem apresentar um discurso mais completo sobre esta viagem e que pudessem interessar a todos; e somos-lhe muito gratos pelas respostas que nos der. A primeira pergunta é feita pelo nosso colega Brunelli, da televisão italiana, que se encontra aqui, à nossa direita:
P. – Santidade, há tempos – e sobretudo, depois da sua última carta aos Bispos d o mundo – muitos jornais falam de "solidão do Papa". Que pensa sobre isto? Sente-se deveras sozinho? E com que sentimentos, depois das recentes vicissitudes, voa agora para a África connosco?
R. – Na realidade, devo dizer que me vem um pouco vontade de sorrir sobre este mito da minha solidão: de modo algum me sinto sozinho. Todos os dias recebo nas visitas programadas os colaboradores mais estreitos, começando pelo Secretário de Estado até à Congregação de Propaganda Fide, etc.; vejo depois todos os chefes das Congregações regularmente, todos os dias recebo Bispos em visita "ad limina" – ultimamente todos os Bispos, um depois do outro, da Nigéria, depois os Bispos da Argentina... Tivemos duas Plenárias nestes dias, uma da Congregação para o Culto Divino e a outra da Congregação para o Clero, e depois colóquios amistosos; uma rede de amizade, também os meus concelebrantes de Missa da Alemanha vieram recentemente por um dia, para falar comigo... Portanto a solidão não é um problema, estou realmente circundado de amigos numa maravilhosa colaboração com Bispos, colaboradores, leigos e por isto estou grato. Vou à África com grande alegria: eu amo a África, tenho muitos amigos africanos já desde os tempos em que era professor até aos dias de hoje; amo a alegria da fé, esta fé jubilosa que se encontra na África. Vós sabeis que o mandato do Senhor para o Sucessor de Pedro é "confirmar os irmãos na fé": eu procuro fazê-lo. Mas estou certo de que regressarei eu mesmo confirmado pelos irmãos, contagiado – por assim dizer – pela sua fé jubilosa.
A segunda pergunta é feita por John Davis, responsável da secção romana da agência de notícias católica dos Estados Unidos:
P. – Vossa Santidade vai em viagem à África no momento em que se está a verificar uma crise económica mundial que tem reflexos também nos Países pobres. Aliás, a África neste momento tem que enfrentar uma crise alimentar. Gostaria de perguntar três coisas: esta situação encontrará eco na sua viagem? Vossa Santidade apelar-se-á à comunidade internacional para que assuma os problemas da África? E, a terceira coisa, falar-se-á destes problemas também na Encíclica que está a preparar?
R. – Obrigado pela pergunta. Naturalmente, eu não vou à África com um programa político-económico, para o qual me faltaria a competência. Vou com um programa religioso, de fé, de moral, mas precisamente isto é também uma contribuição essencial para o problema da crise económica que vivemos neste momento. Todos sabemos que um elemento fundamental da crise é precisamente um deficit da ética nas estruturas económicas; compreendeu-se que a ética não é uma coisa "fora" da economia, mas "dentro" e que a economia não funciona se não tiver em si o elemento ético. Portanto, ao falar de Deus e dos grandes valores espirituais que constituem a vida cristã, procurarei dar um contributo precisamente também para superar a crise, para renovar o sistema económico a partir de dentro, onde está o centro da verdadeira crise. E, naturalmente, apelar-me-ei à solidariedade internacional: a Igreja é católica, isto é, universal, aberta a todas as culturas, a todos os continentes; está presente em todos os sistemas políticos e assim a solidariedade é um princípio interno, fundamental para o catolicismo. Naturalmente gostaria de dirigir um apelo antes de tudo à própria solidariedade católica, fazendo-o extensivo contudo à solidariedade de todos os que vêem a sua responsabilidade na sociedade humana de hoje. Obviamente falarei disto também na Encíclica: este é um motivo do atraso. Estávamos prestes a publicá-la, quando se desencadeou esta crise e retomamos o texto para responder mais adequadamente, no âmbito das nossas competências, no contexto da Doutrina Social da Igreja, mas com referência aos elementos reais da crise actual. Assim espero que a Encíclica possa ser também um elemento, uma força para superar a difícil situação presente.
Santidade, a terceira pergunta é-nos feita pela nossa colega Isabelle de Gaulmyn, de "La Croix":
P. – Très Saint-Père, bonjour. Faço a pergunta em italiano, mas se gentilmente puder responder em francês... O Conselho especialdo Sínodo dos Bispos para a África pediu que o grande crescimento quantitativo da Igreja africana se torne também um crescimento qualitativo. Por vezes, os responsáveis da Igreja são considerados como um grupo de ricos e privilegiados e os seus comportamentos não são coerentes com o anúncio do Evangelho. Vossa Santidade convidará a Igreja em África a um compromisso de exame de consciência e de purificação das suas estruturas?
R. – Procurarei, se for possível, falar em francês. Tenho uma visão mais positiva da Igreja na África: é uma Igreja muito próxima dos pobres, uma Igreja com os sofredores, com pessoas que têm necessidade de ajuda e portanto parece-me que a Igreja é realmente uma instituição que ainda funciona, quando outras estruturas já não funcionam, e com o seu sistema de educação, de hospitalidade, de ajuda, em todas as situações, ela está presente no mundo dos pobres e dos sofredores. Naturalmente, o pecado original está presente também na Igreja; não existe uma sociedade perfeita e por conseguinte há também pecadores e deficiências na Igreja em África, e neste sentido um exame de consciência, uma purificação interior é sempre necessária, e recordaria também neste sentido a liturgia eucarística: começa-se sempre com uma purificação da consciência, e um novo recomeçar na presença do Senhor. E diria, mais do que uma purificação das estruturas, que é sempre também necessária, é preciso uma purificação dos corações, porque as estruturas são o reflexo dos corações, e nós fazemos o que é possível para dar uma força renovada à espiritualidade, à presença de Deus no nosso coração, quer para purificar as estruturas da Igreja, quer também para ajudar a purificação das estruturas da sociedade.
Agora, uma pergunta que vem da componente alemã deste grupo de jornalistas: é Elisa Kramer que representa o Sankt Ulrich Verlag, que faz a pergunta:
P. – Heiliger Vater, gute Reise! O Padre Lombardi disse-me para falar em italiano, assim faço a pergunta em italiano. Quando Vossa Santidade se dirige à Europa, fala com frequência de um horizonte do qual Deus parece desaparecer. Na África não é assim, mas existe uma presença agressiva de seitas, existem as religiões tradicionais africanas. Qual é então a especificidade da mensagem da Igreja católica que Vossa Santidade deseja apresentar neste contexto?
R. – Então, primeiro reconheçamos todos que na África o problema do ateísmo quase não se apresenta, porque a realidade de Deus é tão presente, tão real no coração dos africanos que não crer em Deus, viver sem Deus não parece uma tentação. É verdade que existem também os problemas das seitas: nós não anunciamos, como fazem alguns deles, um Evangelho de prosperidade, mas um realismo cristão. Estamos convictos de que toda esta sobriedade, este realismo que anuncia um Deus que se fez homem, por conseguinte um Deus profundamente humano, um Deus que sofre, também connosco, dá um sentido ao nosso sofrimento para um anúncio com um horizonte mais vasto, que tem mais futuro. E sabemos que estas seitas não são muito estáveis na sua consistência: no momento pode fazer bem o anúncio da prosperidade, de curas milagrosas, etc., mas depois de um pouco de tempo vê-se que a vida é difícil, que um Deus humano, um Deus que sofre connosco é mais convincente, mais verdadeiro, e oferece uma ajuda maior para a vida. É importante também que nós tenhamos a estrutura da Igreja católica. Não anunciamos a um pequeno grupo que depois de um certo tempo se isola e se perde, mas entramos nesta grande rede universal da catolicidade, não só transtemporal, mas presente sobretudo como uma grande rede de amizade que nos une e nos ajuda também a superar o individualismo para alcançar esta unidade na diversidade, que é a verdadeira promessa.
Agora damos de novo a palavra a uma voz francesa: é o nosso colega Philippe Visseyrias, de France 2:
P. – Santidade, entre os muitos males que atormentam a África, existe também e sobretudo o da difusão da SIDA. A posição da Igreja católica sobre o modo de lutar contra ele é com frequência considerada irrealista e ineficaz. Vossa Santidade enfrentará este tema durante a viagem?
R. – Diria o contrário: penso que a realidade mais eficiente, mais presente na frente da luta contra a SIDA é precisamente a Igreja católica, com os seus movimentos, com as suas diversas realidades. Penso na Comunidade de Santo Egídio que faz tanto, visível e também invisivelmente, pela luta contra a SIDA, nos Camilianos, em todas as outras realidades e em todas as Irmãs que estão à disposição dos doentes... Diria que não se pode superar este problema da Sida só com dinheiro, mesmo se necessário, mas se não há alma, se os africanos não ajudam (assumindo a responsabilidade pessoal), não se pode resolver o flagelo com a distribuição de preservativos: ao contrário, aumentam o problema. A solução só pode ser dúplice: o primeira, uma humanização da sexualidade, isto é, uma renovação espiritual e humana que tenha em si um novo modo de se comportar uns com os outros; a segunda, uma verdadeira amizade também e sobretudo pelas pessoas que sofrem, a disponibilidade, até com sacrifícios, com renúncias pessoais, a estar com os sofredores. E estes são os factores que ajudam e proporcionam progressos visíveis. Portanto, diria esta nossa dúplice força de renovar o homem interiormente, de dar força espiritual e humana para um comportamento justo em relação ao próprio corpo e ao do outro, e esta capacidade de sofrer com os que sofrem, de permanecer presente nas situações de prova. Parece-me que esta é a resposta justa, e a Igreja faz isto e oferece deste modo uma grandíssima e importante contribuição. Agradeço a quantos o fazem.
E agora, a última pergunta, que vem até do Chile, porque somos muito internacionais: temos também um correspondente da televisão católica chilena connosco. E damos-lhe a palavra paraa última pergunta: Maria Burgos.
P. – Obrigada, Padre Lombardi. Santidade, que sinais de esperança vê a Igreja no Continente africano? E Vossa Santidade pensa poder transmitir à África uma mensagem de esperança?
R. – A nossa fé é esperança por definição: di-lo a Sagrada Escritura. E por isso, quem leva a fé está convencido de levar também a esperança. Parece-me, não obstante todos os problemas que conhecemos bem, que há grandes sinais de esperança. Novos governos, novas disponibilidades de colaboração, luta contra a corrupção – um grande mal que deve ser superado! – e também a abertura das religiões tradicionais à fé cristã, porque nas religiões tradicionais todos conhecem Deus, o único Deus, mas parece um pouco distante. Esperam que se aproxime. É no anúncio do Deus que se fez Homem que elas se reconhecem: Deus aproximou-se realmente. Depois, a Igreja católica tem muito em comum: digamos, o culto dos antepassados encontra a sua resposta na comunhão dos santos, no purgatório. Santos não são só os canonizados, mas todos os nossos mortos. E assim, no Corpo de Cristo realiza-se precisamente também tudo o que o culto dos antepassados intuía. E assim por diante. Há portanto um encontro profundo que dá realmente esperança. E cresce também o diálogo inter-religioso – falei com mais de metade dos bispos africanos, e as relações com os muçulmanos, apesar dos problemas que se podem verificar, são muito promissoras, disseram-me eles; o diálogo cresce no respeito recíproco e na colaboração nas comuns responsabilidades éticas. E de resto cresce também este sentido de catolicidade que ajuda a superar o tribalismo, um dos grandes problemas, e isto origina a alegria de ser cristão. Um problema das religiões tradicionais é o medo dos espíritos. Um dos bispos africanos disse-me: uma pessoa converte-se realmente ao cristianismo, torna-se plenamente cristão quando sabe que Cristo é realmente mais forte. Deixa de ter medo. E também este é um fenómeno em crescimento. Portanto, diria que com tantos elementos e problemas que não podem faltar, crescem as forças espirituais, económicas, humanas que nos dão esperança, e gostaria de realçar precisamente os elementos de esperança.
Fonte: Vatican.va

VIAGEM DE BENTO XVI À ÁFRICA: CERIMÓNIA DE DESPEDIDA DE ANGOLA

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, Luanda
Segunda-feira, 23 de Março de 2009
Excelentíssimo Senhor Presidente da República,
Ilustríssimas Autoridades civis, militares e eclesiásticas,
Prezados irmãos e irmãs em Cristo,
Amigos todos de Angola!
Vivamente sensibilizado pela presença de Vossa Excelência, Senhor Presidente, neste momento da minha partida, quero exprimir-lhe o meu apreço e gratidão pelo tratamento fidalgo que me reservou e as disposições tomadas para facilitar o desenvolvimento dos diferentes encontros que me foram dado viver. Tanto às autoridades civis e militares como aos Pastores e responsáveis das comunidades e instituições eclesiais envolvidas nos mesmos, dirijo os mais cordiais agradecimentos por todas as amabilidades que tiveram para comigo durante estes dias que pude passar entre vós. Uma palavra de reconhecimento devo-a aos operadores dos meios de comunicação social, aos agentes dos serviços de segurança e a todos os voluntários que, com generosidade, eficiência e discrição, contribuíram para o bom êxito da minha visita. Estou grato a Deus por ter encontrado uma Igreja viva e, apesar das dificuldades, cheia de entusiasmo, que soube carregar a sua cruz e a dos outros, testemunhar perante todos a força salvífica da mensagem evangélica. Ela continua a anunciar que chegou o tempo da esperança, empenhando-se na pacificação dos ânimos e convidando ao exercício duma caridade fraterna que saiba abrir-se ao acolhimento de todos, no respeito das ideias e sentimentos de cada um. É hora de me despedir para voltar a Roma, triste por vos deixar, mas feliz por ter conhecido de perto um povo corajoso e decidido a renascer. Não obstante as resistências e os obstáculos, este povo pretende construir o seu futuro caminhando por sendas de perdão, justiça e solidariedade. Se me permitissem um apelo final, seria para pedir que a justa realização das aspirações fundamentais das populações mais necessitadas constitua a preocupação principal de quantos ocupam cargos públicos, visto que a sua intenção – estou certo – é desempenhar a missão recebida, não para si mesmos, mas em vista do bem comum. O nosso coração não pode estar em paz, enquanto virmos irmãos sofrerem por falta de alimento, de trabalho, de um tecto ou de outros bens fundamentais. Entretanto para se oferecer uma resposta concreta a estes nossos irmãos em humanidade, o primeiro desafio a vencer é o da solidariedade: solidariedade entre as gerações, solidariedade entre países e entre continentes que dê origem a uma partilha cada vez mais equitativa das riquezas da terra entre todos os homens. E de Luanda estendo o olhar para a África inteira, despedindo-me até ao próximo mês de Outubro na Cidade do Vaticano, quando nos reunirmos para a II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos dedicada a este continente, onde o Verbo de Deus humana do em pessoa encontrou refúgio. Agora peço a Deus que faça sentir a sua protecção e ajuda aos refugiados e deslocados sem número que vagueiam à espera de um retorno a casa. O Deus do céu repete-lhes: «Ainda que tua mãe te esquecesse, Eu nunca te esqueceria» (cf. Is 49, 15). É como filhos e filhas que Deus vos ama; Ele vela sobre os vossos dias e as vossas noites, sobre as vossas fadigas e aspirações. Irmãos e amigos de África, queridos angolanos, coragem! Não vos canseis de fazer progredir a paz, cumprindo gestos de perdão e trabalhando pela reconciliação nacional, para que jamais prevaleça a violência sobre o diálogo, o medo e o desânimo sobre a confiança, o rancor sobre o amor fraterno. E isto poderá acontecer se vos reconhecerdes uns aos outros como filhos do mesmo e único Pai do Céu. Deus abençoe Angola! Abençoe cada um dos seus filhos e filhas! Abençoe o presente e o futuro desta querida Nação. Ficai com Deus!
Fonte: Vatican.va

VIAGEM DE BENTO XVI À ÁFRICA: ENCONTRO COM OS MOVIMENTOS CATÓLICOS PARA A PROMOÇÃO DA MULHER

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
Paróquia de Santo António, Luanda
Domingo, 22 de Março de 2009
Amados irmãos e irmãs!
«Não têm vinho» – disse Maria numa súplica a Jesus para que o casamento pudesse continuar uma festa, como aliás sempre deve ser: «Os convidados da boda não podem jejuar, enquanto o esposo está com eles» (cf. Mc 2, 19). Depois, a Mãe de Jesus foi recomendar aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser» (cf. Jo 2, 1-5). E aquela mediação materna permitiu o «vinho bom», premonitório de uma nova aliança da omnipotência divina com o coração humano pobre mas disponível. Aliás, isto mesmo tinha já acontecido no passado, quando – ouvimo-lo na primeira leitura – «todo o povo respondeu numa só voz: “Faremos tudo o que o Senhor mandar”» (Ex 19, 8). Estas mesmas palavras se elevem do coração de quantos aqui nos reunimos nesta igreja de Santo António, nascida graças à benemérita obra missionária dos Frades Menores Capuchinhos que a quiseram como uma nova Tenda da Arca da Aliança, sinal da presença de Deus no meio do povo em caminho. Sobre eles e quantos colaboram e beneficiam da assistência religiosa e social que daqui jorra, o Papa traça uma benévola e encorajadora Bênção. Saúdo com afecto a cada um dos presentes: bispos, presbíteros, consagrados e consagradas, e de modo particular a vós, fiéis leigos, que conscientemente assumis as tarefas de empenho e testemunho cristão que têm a sua raiz no sacramento do baptismo e, para aqueles que são casados, também no sacramento do matrimónio. E, motivada pela razão principal que aqui nos reúne, uma saudação minha carregada de estima e de esperança vai para as mulheres, a quem Deus confiou as fontes da vida: Vivei e apostai na vida, porque Deus vivo apostou em vós! De ânimo grato saúdo os responsáveis e animadores dos movimentos eclesiais mobilizados nomeadamente para a promoção da mulher angolana. Agradeço ao Senhor Dom José de Queirós Alves e aos vossos representantes as palavras que me dirigiram ilustrando as inquietações e esperanças de tantas heroínas silenciosas como são as mulheres nesta nação amada. A todos exorto a tomar efectiva consciência das condições desfavoráveis a que estiveram – e continuam a estar – sujeitas muitas mulheres, examinando em que medida a conduta e as atitudes dos homens, às vezes falhos de sensibilidade ou responsabilidade, possam ser a causa daquelas. Os desígnios de Deus são outros. Ouvimos na leitura que o povo inteiro respondeu numa só voz: «Faremos tudo o que o Senhor mandar». Diz a Sagrada Escritura que o Criador divino, ao examinar a obra por Ele realizada, viu nela um senão: era tudo bom, senão fosse o homem estar só! Como podia o homem sozinho ser imagem e semelhança de Deus que é uno e trino, de Deus que é comunhão? «Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele» (Gn 2, 20). Deus de novo pôs mãos ao trabalho para criar a auxiliar que faltava, dotando-a de modo privilegiado com a ordem do amor que não via suficientemente representada na criação. Como sabeis, irmãos e irmãs, esta ordem do amor pertence à vida íntima do próprio Deus, à vida trinitária, sendo o Espírito Santo a hipóstase pessoal do amor. Pois bem, «no fundamento do desígnio eterno de Deus – como dizia o saudoso Papa João Paulo II – a mulher é aquela na qual a ordem do amor no mundo criado das pessoas encontra um terreno para deitar a sua primeira raiz» (Carta apostólica Mulieris dignitatem, 29). De facto, à vista do gracioso encanto que irradia da mulher pela íntima graça que Deus lhe deu, o coração do homem ilumina-se e revê-se nela: «Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne» (Gn 2, 23). A mulher é um outro «eu» na comum humanidade. Há que reconhecer, afirmar e defender a igual dignidade do homem e da mulher: ambos são pessoas, diversamente dos outros seres vivos do mundo que os rodeia. Ambos são chamados a viver em profunda comunhão, no recíproco reconhecimento e dom de si mesmos, trabalhando juntos para o bem comum com as características complementares do que é masculino e do que é feminino. Quem não adverte, hoje, a necessidade de dar mais espaço às «razões do coração»? Num mundo como o actual dominado pela técnica, sente-se necessidade desta complementaridade da mulher, para o ser humano poder viver nele sem se desumanizar de todo. Pense-se nas terras onde abunda a pobreza, nas zonas devastadas pela guerra, em tantas situações trágicas resultantes de emigrações forçadas ou não… São quase sempre as mulheres que lá mantêm intacta a dignidade humana, defendem a família e tutelam os valores culturais e religiosos. Queridos irmãos e irmãs, a história regista quase exclusivamente as conquistas dos homens, quando, na realidade, uma parte importantíssima da mesma se fica a dever a acções determinantes, perseverantes e benéficas realizadas por mulheres. Deixai que vos fale de duas entre muitas mulheres extraordinárias: Teresa Gomes e Maria Bonino. Angolana a primeira, faleceu em 2004 na cidade de Sumbe, depois duma vida conjugal feliz de que nasceram 7 filhos; inquebrantável foi a sua fé cristã e admirável o seu zelo apostólico, sobretudo nos anos 1975 e 1976 quando uma feroz propaganda ideológica e política se abateu sobre a paróquia de Nossa Senhora das Graças de Porto Amboim, conseguindo quase fechar as portas da igreja. Teresa tornou-se a líder dos fiéis inconformados com a situação, apoiando-os, defendendo com bravura as estruturas paroquiais e tudo fazendo para terem de novo a santa Missa. O seu amor à Igreja tornou-a incansável na obra da evangelização, sob a orientação dos sacerdotes. Quanto a Maria Bonino: médica pediatra italiana, oferece-se voluntária para diversas missões nesta África amada, tendo sido a responsável do sector pediátrico no Hospital provincial do Uíje nos dois últimos anos da sua vida. Devotada ao seu cuidado diário de milhares de crianças lá internadas, Maria haveria de pagar com o sacrifício mais alto o serviço lá prestado durante uma terrível epidemia da febre hemorrágica de Marburg, acabando ela mesma contagiada; ainda transferida para Luanda, aqui faleceu e aqui repousa desde 24 de Março de 2005 – faz depois de amanhã 4 anos. A Igreja e a sociedade humana foram– e continuam a ser– imensamente enriquecidas pela presença e as virtudes das mulheres, em particular daquelas que se consagraram ao Senhor e, apoiadas n’Ele, puseram-se ao serviço dos outros. Hoje, amados angolanos, já ninguém deveria nutrir dúvidas de que as mulheres têm, na base da sua igual dignidade com os homens, «pleno direito de se inserir activamente em todos os âmbitos públicos, e o seu direito há-de ser afirmado e protegido, inclusivamente através de instrumentos legais, onde estes se revelem necessários. O reconhecimento do papel público das mulheres não deve, contudo, diminuir a função insubstituível que têm no interior da família: aqui, a sua contribuição para o bem e o progresso social, apesar de pouco considerado, é de um valor realmente inestimável» (Mensagem para o Dia Mundial da Paz em 1995, n. 9). Aliás, a nível pessoal, a mulher sente a própria dignidade não tanto como resultado da afirmação de direitos no plano jurídico, como sobretudo directa consequência da atenção concreta, material e espiritual, recebida no coração da família. A presença materna no seio da família é tão importante para a estabilidade e o crescimento desta célula fundamental da sociedade que deveria ser reconhecida, louvada e apoiada de todos os modos possíveis. E, pelo mesmo motivo, a sociedade deve chamar os maridos e pais às próprias responsabilidades para com a família. Caríssimas famílias, certamente já vos destes conta de que nenhum casal humano pode sozinho, unicamente com as suas próprias forças, oferecer adequadamente aos filhos o amor e o sentido da vida. De facto, para poder dizer a alguém: «A tua vida é boa, embora eu não conheça o teu futuro», são precisas uma autoridade e credibilidade superiores àquilo que os pais por si sós podem dar. Os cristãos sabem que esta autoridade superior está conferida àquela família mais ampla que Deus, através do seu Filho Jesus Cristo e do dom do Espírito Santo, criou na história dos homens, isto é, à Igreja. Vemos aqui ao trabalho aquele Amor eterno e indestrutível que assegura à vida de cada um de nós um sentido permanente, apesar de não conhecermos o futuro. Por este motivo, a edificação de cada família cristã situa-se no contexto da família maior que é a Igreja, que a apoia e abraça no seu seio garantindo-lhe que sobre ela pousa, agora e no futuro, o «sim» do Criador. «Não têm vinho» – disse Maria a Jesus. Queridas mulheres angolanas, tomai-A por vossa Advogada junto do Senhor. Assim A conhecemos desde as bodas de Caná: como a Mulher benigna, cheia de materna solicitude e coragem, a Mulher que Se dá conta das necessidades alheias e, no desejo de pôr-lhes remédio, leva-as diante do Senhor. Junto d’Ela, poderemos todos, mulheres e homens, recuperar aquela serenidade e íntima confiança que nos torna felizes em Deus e incansáveis na luta pela vida. Seja a Senhora da Muxima a estrela da vossa vida, que vos guarde unidos na grande família de Deus. Amen.
Fonte: Vatican.va

VIAGEM DE BENTO XVI À ÁFRICA: CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA COM OS BISPOS DA I.M.B.I.S.A.

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI
Esplanada de Cimangola, Luanda
Domingo, 22 de Março de 2009
Amados irmãos,
quero incluir nesta Eucaristia uma particular oração de sufrágio pelos dois jovens que ontem perderam a vida na entrada para o Estádio dos Coqueiros. Confiemo-los a Jesus para que os acolha no seu Reino. Aos seus familiares e amigos, exprimo a minha solidariedade e o mais vivo pesar até porque vieram para me encontrar. Ao mesmo tempo rezo pelos feridos desejando-lhes pronto restabelecimento; abandonemos-nos aos desígnios insondáveis de Deus!
Senhores Cardeais,
Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Amados irmãos e irmãs em Cristo!
«Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16). Estas palavras enchem-nos de alegria e de esperança, enquanto aguardamos o cumprimento das promessas de Deus. Motivo de particular alegria para mim, hoje, é poder como Sucessor do Apóstolo Pedro celebrar esta Missa convosco, meus irmãos e irmãs em Cristo vindos das várias regiões de Angola, de São Tomé e Príncipe e de muitos outros países. Com grande afecto no Senhor, saúdo as comunidades católicas de Luanda, Bengo, Cabinda, Benguela, Huambo, Huíla, Kuando Kubango, Kunene, Kwanza Norte, Kwanza Sul, Lunda Norte, Lunda Sul, Malanje, Namibe, Moxico, Uíje e Zaire. De modo particular saúdo os meus Irmãos no Episcopado, os membros da Associação Inter-regional dos Bispos da África Austral reunidos à volta deste altar do Sacrifício do Senhor. Agradeço ao Presidente da CEAST, Dom Damião Franklin, as suas amáveis palavras de boas-vindas e, na pessoa dos respectivos Pastores, saúdo todos os fiéis do Botswana, Lesoto, Moçambique, Namíbia, África do Sul, Suazilândia e Zimbabue. A primeira leitura de hoje ecoa com uma ressonância particular no coração do Povo de Deus em Angola. É uma mensagem de esperança dirigida ao Povo eleito exilado longe do seu país, um convite para regressar a Jerusalém e reconstruir o templo do Senhor. A expressiva descrição da destruição e da ruína causadas pela guerra reflecte a experiência pessoal de tantas pessoas neste país a braços com as consequências terríveis da guerra civil. É bem verdade que a guerra pode destruir tudo o que tem valor (cf. 2 Cr 36, 19): famílias, comunidades inteiras, o fruto das canseiras humanas, as esperanças que guiam e sustentam a sua vida e o seu trabalho. Trata-se, infelizmente, de uma experiência demasiado familiar a toda a África: a força destrutiva da guerra civil, a queda na voragem do ódio e da vingança, a delapidação dos esforços de gerações de gente boa. Quando a Palavra do Senhor – uma Palavra que visa a edificação dos indivíduos, das comunidades e da família humana inteira – é transcurada e a lei de Deus é ridicularizada, desprezada e achincalhada (cf. 2 Cr 36, 16), o resultado só pode ser destruição e injustiça: a humilhação da nossa humanidade comum e a traição da nossa vocação de filhos e filhas do Pai misericordioso, irmãos e irmãs do seu dilecto Filho. Confortemo-nos, pois, com as palavras consoladoras que ouvimos na primeira leitura! O apelo a voltar e a reconstruir o templo de Deus tem um significado particular para cada um de nós. São Paulo, de quem celebramos o bimilenário do nascimento este ano, diz que «nós somos o templo do Deus vivo» (2 Cor 6, 16). Como sabemos, Deus habita nos corações de todas as pessoas que, tendo posto a sua confiança em Cristo, renasceram no Baptismo e tornaram-se templos do Espírito Santo. E agora, na unidade do Corpo de Cristo que é a Igreja, Deus chama-nos a reconhecer o poder da sua presença em nós, a acolher o dom do seu amor e do seu perdão e a ser mensageiros deste amor misericordioso no meio das nossas famílias e comunidades, na escola e no lugar de trabalho, em todo o sector da vida social e política. Aqui, em Angola, este Domingo está reservado como dia de oração e sacrifício pela reconciliação nacional. O Evangelho ensina-nos que a reconciliação – uma verdadeira reconciliação – só pode ser fruto de uma conversão, de uma mudança do coração, de um novo modo de pensar. Ensina-nos que só a força do amor de Deus pode mudar os nossos corações e fazer-nos triunfar sobre o poder do pecado e da divisão. Quando estávamos «mortos pelos nossos pecados» (cf. Ef 2, 5), o seu amor e a sua misericórdia deram-nos a reconciliação e a vida nova em Cristo. Tal é o núcleo da doutrina do Apóstolo Paulo, sendo importante para nós trazer à memória que só a graça de Deus pode criar um coração novo em nós. Só o seu amor pode mudar o nosso «coração de pedra» (Ez 11, 19) e tornar-nos capazes de construir antes que demolir. Só Deus pode fazer novas todas as coisas. Vim à África precisamente para proclamar esta mensagem de perdão, de esperança e de uma nova vida em Cristo. Há três dias, em Yaoundé, tive a alegria de tornar público o Instrumentum laboris da Segunda Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, que será dedicada ao tema: A Igreja em África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz. Hoje peço-vos para rezardes, em união com todos os nossos irmãos e irmãs da África inteira, por esta intenção: para que cada cristão deste grande continente experimente o toque salutar do amor misericordioso de Deus e a Igreja em África se torne «lugar de autêntica reconciliação para todos, graças ao testemunho dado pelos seus filhos e filhas» (Ecclesia in Africa, 79). Queridos amigos, esta é a mensagem que o Papa vos traz, para vós e vossos filhos. Recebestes a força do Espírito Santo para ser construtores de um futuro melhor para o vosso amado país. No baptismo, foi-vos concedido o Espírito para serdes arautos do Reino de Deus, Reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz (cf. Missal Romano, Prefácio de Cristo Rei). No dia do vosso baptismo, recebestes a luz de Cristo. Sede fiéis a este dom, certos de que o Evangelho pode revigorar, purificar e nobilitar os profundos valores humanos da vossa cultura originária e das vossas tradições: famílias solidárias, profundo sentido religioso, celebração festiva do dom da vida, apreço pela sabedoria dos mais velhos e pelas aspirações do jovens. Além disso, sede agradecidos pela luz de Cristo! Mostrai-vos reconhecidos com aqueles que vo-la trouxeram: gerações e gerações de missionários que tanto contribuíram, e contribuem, para o desenvolvimento humano e espiritual deste país. Senti-vos agradecidos pelo testemunho de tantos pais e professores cristãos, de catequistas, presbíteros, religiosas e religiosos, que sacrificaram a sua vida pessoal para vos transmitir este tesouro precioso. E abraçai o desafio que vos coloca este grande património. Reparai que a Igreja em Angola e na África inteira está destinada a ser, perante o mundo, um sinal daquela unidade a que é chamada toda a família humana mediante a fé em Cristo Redentor. No Evangelho de hoje, há palavras pronunciadas por Jesus que causam uma certa impressão: diz-nos Ele que a sentença de Deus sobre o mundo já foi pronunciada (cf. Jo 3, 19ss). A luz já veio ao mundo; mas os homens preferiram as trevas à luz, porque as suas obras eram más. Oh como são grandes as trevas em tantas partes do mundo! E as nuvens do mal obscureceram tragicamente também a África, incluindo esta amada nação angolana. Pensemos no flagelo da guerra, nos frutos terríveis do tribalismo e das rivalidades étnicas, na avidez que corrompe o coração do homem, reduz à escravidão os pobres e priva as gerações futuras dos recursos de que terão necessidade para criar uma sociedade mais solidária e justa: uma sociedade verdadeira e autenticamente africana no seu estro e nos seus valores. E que dizer daquele insidioso espírito de egoísmo que fecha os indivíduos em si mesmos, divide as famílias e, espezinhando os grandes ideais de generosidade e abnegação, conduz inevitavelmente ao hedonismo, à fuga para falsas utopias através do uso da droga, à irresponsabilidade sexual, ao enfraquecimento do vínculo matrimonial, à destruição das famílias e à eliminação de vidas humanas inocentes por meio do aborto? Mas a palavra de Deus é uma palavra de esperança sem limites. «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, (…) para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 16.17). Deus nunca nos considera um caso perdido. Continua a convidar-nos para erguermos os olhos para um futuro de esperança, e promete-nos a força para o realizar. Como diz São Paulo na segunda leitura de hoje, Deus criou-nos em Cristo Jesus para levarmos uma vida justa, uma vida em que pratiquemos boas obras segundo a sua vontade (cf. Ef 2, 10). Deu-nos os seus mandamentos, não como um fardo, mas como fonte de liberdade: liberdade de nos tornarmos homens e mulheres cheios de sabedoria, mestres de justiça e de paz, pessoas que têm confiança nos outros e procuram o seu verdadeiro bem. Deus criou-nos para vivermos na luz e sermos luz para o mundo em redor. Assim no-lo diz Jesus, no Evangelho de hoje: «Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus» (Jo 3, 21). «Praticai, pois, a verdade». Irradiai a luz da fé, da esperança e do amor nas vossas famílias e comunidades. Sede testemunhas da verdade santa que torna livres homens e mulheres. Vós sabeis, por amarga experiência, que o trabalho de reconstrução – ao contrário da repentina fúria devastadora do mal – é penosamente lento e duro. Requer tempo, fadiga e perseverança: deve começar nos nossos corações, nos pequenos sacrifícios quotidianos necessários para sermos fiéis à lei de Deus, nos pequenos gestos pelos quais demonstramos de amar os nossos vizinhos – os nossos vizinhos todos sem olhar a raça, etnia ou língua – com a disponibilidade de colaborar com eles para construir, juntos, sobre bases duradouras. Fazei com que as vossas paróquias se tornem comunidades onde a luz da verdade de Deus e a força do amor reconciliador de Cristo não sejam apenas celebradas, mas manifestadas em obras concretas de caridade. E não tenhais medo! Ainda que isto signifique ser um «sinal de contradição» (Lc 2, 34) face a comportamentos duros e a uma mentalidade que vê os outros mais como instrumentos a usar do que como irmãos e irmãs a amar, respeitar e ajudar ao longo do caminho da liberdade, da vida e da esperança. Permiti-me concluir com uma palavra dirigida particularmente aos jovens angolanos e a todos os jovens da África. Queridos jovens amigos, vós sois a esperança do futuro do vosso país, a promessa de um amanhã melhor. Começai, desde hoje, a crescer na vossa amizade com Jesus, que é «o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14, 6): uma amizade nutrida e aprofundada através da oração humilde e perseverante. Procurai conhecer a vontade de Deus a vosso respeito, ouvindo diariamente a sua palavra e permitindo à sua lei de modelar a vossa vida e as vossas relações. Deste modo, tornar-vos-eis profetas sábios e generosos do amor salvífico de Deus; tornar-vos-eis evangelizadores dos vossos próprios colegas, levando-os por meio do vosso exemplo pessoal a apreciar a beleza e a verdade do Evangelho e a ter esperança num futuro plasmado pelos valores do Reino de Deus. A Igreja precisa do vosso testemunho. Não tenhais medo de responder generosamente ao chamamento que Deus vos faz para O servir quer como sacerdotes, religiosas ou religiosos, quer como pais cristãos ou em tantas outras formas de serviço que a Igreja vos propõe. Amados irmãos e irmãs! No final da primeira leitura de hoje, Ciro, rei da Pérsia, inspirado por Deus, convida o povo eleito a regressar à sua amada pátria e reconstruir o Templo do Senhor. Que estas palavras inspiradas sejam um apelo a todo o Povo de Deus que vive em Angola e na África Austral: Coragem! Ponde-vos a caminho! (cf. 2 Cr 36, 23). Olhai o futuro com esperança, confiai nas promessas de Deus e vivei na sua verdade. Deste modo, construireis algo destinado a permanecer e deixareis às gerações futuras uma herança duradoura de reconciliação, justiça e paz. Amen.
CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA COM OS BISPOS DA I.M.B.I.S.A. (ASSOCIAÇÃO INTER-REGIONAL DOS BISPOS DA ÁFRICA AUSTRAL)
Fonte: Vatican.va

VIAGEM DE BENTO XVI À ÁFRICA: ENCONTRO COM OS JOVENS EM LUANDA

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
Estádio dos Coqueiros - Luanda
Sábado, 21 de Março de 2009
Queridos amigos!
Viestes em grande número – e representais aqui muitos mais unidos espiritualmente –, para encontrar o Sucessor de Pedro e, comigo, proclamar a todos a alegria de acreditar em Jesus Cristo e renovar o compromisso de ser seus discípulos fiéis neste nosso tempo. Análogo encontro teve lugar nesta mesma cidade, a 7 de Junho de 1992, com o amado Papa João Paulo II; com as feições um pouco diferentes mas o mesmo amor no coração, aqui tendes o actual Sucessor de Pedro, que vos abraça a todos em Jesus Cristo, que «é o mesmo ontem, hoje e para sempre» (Heb 13, 8). Antes de mais nada, quero agradecer-vos por esta festa que me fazeis, por esta festa que sois, pela vossa presença e a vossa alegria. Dirijo uma saudação afectuosa aos venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio e aos vossos animadores. De coração agradeço e saúdo a quantos prepararam este Encontro e de modo particular à Comissão Episcopal da Juventude e Vocações com o seu presidente, Dom Kanda Almeida, a quem agradeço as cordiais boas-vindas que me dirigiu. Saúdo a todos os jovens, católicos e não católicos, à procura de uma resposta para os seus problemas, alguns dos quais certamente referidos pelos vossos representantes cujas palavras ouvi com gratidão. O abraço que lhes dei vale naturalmente para todos vós. Encontrar os jovens faz bem a todos! Talvez tenham tantas dificuldades, mas trazem consigo tanta esperança, tanto entusiasmo e tanta vontade de recomeçar. Jovens amigos, guardais dentro de vós próprios a dinâmica do futuro. Convido-vos a olhá-lo com os olhos do apóstolo João: «Vi um novo céu e uma nova terra (…) e também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da presença de Deus, bela como noiva adornada para o seu esposo. E do trono ouvi uma voz forte que dizia: “Eis a morada de Deus com os homens”» (Ap 21, 1-3). Queridos amigos, Deus faz a diferença. Desde a serena intimidade entre Deus e o casal humano no jardim do Éden, passando pela glória divina que irradiava da Tenda da Reunião no meio do povo de Israel ao longo da sua travessia pelo deserto, até à encarnação do Filho de Deus que Se uniu indissoluvelmente ao homem em Jesus Cristo. Este mesmo Jesus retoma a travessia do deserto humano passando pela morte e chega à ressurreição, arrastando consigo toda a humanidade para Deus. Agora Jesus já não está confinado num espaço e tempo determinados, mas o seu Espírito – o Espírito Santo – emana d’Ele e entra nos nossos corações, unindo-nos assim com o próprio Jesus e com Ele ao Pai – com o Deus uno e trino. Sim, meus caros amigos! Deus faz a diferença… Mais ainda! Deus faz-nos diferentes, faz-nos novos. Tal é a promessa que Ele mesmo nos faz: «Vou renovar todas as coisas» (Ap 21, 5). E é verdade! Diz-no-lo o apóstolo São Paulo: «Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo. Tudo isto vem de Deus, que por meio de Jesus Cristo nos reconciliou consigo» (2 Cor 5, 17-18). Tendo subido aos Céus e entrado na eternidade, Jesus Cristo ficou Senhor de todos os tempos. Por isso, Ele pode fazer-Se nosso companheiro no presente, e tem o livro dos nossos dias na sua mão: nela segura firmemente o passado, com as fontes e os alicerces do nosso ser; nela guarda ciosamente o futuro, deixando-nos vislumbrar a mais bela alvorada de toda a nossa vida que d’Ele irradia, ou seja, a ressurreição em Deus. O futuro da humanidade nova é Deus; antecipação inicial disso mesmo é a sua Igreja. Quando puderdes, lede com atenção a sua história: dar-vos-eis conta que a Igreja, com o passar dos anos, não envelhece; antes, torna-se cada vez mais jovem, porque caminha ao encontro do Senhor, aproximando-se cada vez mais da única e verdadeira fonte donde brota a juventude, a novidade, a regeneração, a força da vida. Amigos que me escutais, o futuro é Deus. Como há pouco ouvimos, «Ele enxugará todas as lágrimas dos olhos; nunca mais haverá morte, nem luto, nem gemidos nem dor, porque o mundo antigo desapareceu» (Ap 21, 4). Entretanto, vejo aqui presentes alguns dos milhares de jovens angolanos mutilados em consequência da guerra e das minas, penso nas lágrimas sem conta que muitos de vós verteram pela perda dos familiares, e não é difícil imaginar as nuvens cinzentas que ainda cobrem o céu dos vossos sonhos melhores… E leio no vosso coração uma dúvida, que me lançais: «Isto temos. Aquilo que nos diz, não se vê. A promessa tem a garantia divina – e nós o cremos –, mas Deus, quando Se levantará para renovar todas as coisas?» A resposta de Jesus é a mesma que Ele deu aos seus discípulos: «Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim. Em casa de meu Pai, há muitas moradas. Se assim não fosse, Eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar» (Jo 14, 1-2). Mas vós, queridos jovens, insistis: «De acordo! Mas quando sucederá isto?» A idêntica pergunta feita pelos apóstolos, Jesus respondeu: «Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a sua autoridade. Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas (…) até aos confins do mundo» (Act 1, 7-8). Reparai que Jesus não nos deixa sem resposta; diz-nos claramente uma coisa: a renovação começa dentro; sereis dotados de uma força do Alto. A força dinâmica do futuro está dentro de vós. Está dentro… como? Como a vida está dentro de uma semente: assim o explicou Jesus, numa hora crítica do seu ministério. Este começara com grande entusiasmo, pois a gente via os doentes curados, os demónios expulsos, o Evangelho anunciado; mas, quanto ao resto, o mundo continuava como antes: os romanos dominavam ainda; a vida era difícil no dia a dia, apesar destes sinais, destas lindas palavras. E o entusiasmo foi esmorecendo, até ao ponto de muitos discípulos abandonarem o Mestre (cf. Jo 6, 66), que pregava mas não mudava o mundo. E todos se interrogavam: Afinal que vale esta mensagem? Que traz este Profeta de Deus? Então Jesus falou de um semeador que semeia no campo do mundo, explicando que a semente é a sua Palavra (cf. Mc 4, 3-20), são as curas realizadas: verdadeiramente pouca coisa, se comparada com as enormes carências e “macas” (dificuldades) da realidade de todos os dias. E todavia na semente está presente o futuro, porque a semente traz em si o pão de amanhã, a vida de amanhã. A semente parece quase nada, mas é a presença do futuro, é promessa já presente hoje; quando cai em terra boa, frutifica trinta, sessenta e até cem vezes mais. Meus amigos, vós sois uma semente lançada por Deus à terra, que traz no coração uma força do Alto, a força do Espírito Santo. Mas, para passar da promessa de vida ao fruto, o único caminho possível é dar a vida por amor, é morrer por amor. Foi o próprio Jesus que o disse: «Se a semente, caindo na terra, não morrer fica ela só; mas, se morrer, dá muito fruto. Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo perde a sua vida conservá-la-á para a vida eterna» (cf. Jo 12, 24-25). Assim falou Jesus, e assim o fez: a sua crucifixão parece o falimento total, mas não! Jesus, animado pela força de «um Espírito eterno, ofereceu-Se a Si mesmo a Deus como vítima sem mancha» (Heb 9, 14). E deste modo, caindo em terra, Ele pôde dar fruto o tempo todo e em todos os tempos. E aí tendes o novo Pão, o Pão da vida futura, a Santíssima Eucaristia que nos alimenta e faz desabrochar a vida trinitária no coração dos homens. Jovens amigos, sementes dotadas com a força do mesmo Espírito eterno, desabrochai ao calor da Eucaristia, onde se realiza o testamento do Senhor: Ele dá-Se a nós, e nós respondemos dando-nos aos outros por amor d’Ele. Tal é o caminho da vida; mas só o podereis percorrer graças a um constante diálogo com o Senhor e um verdadeiro diálogo entre vós. A cultura social predominante não vos ajuda a viver nem a Palavra de Jesus nem o dom de vós mesmos a que Ele vos convida segundo o desígnio do Pai. Queridos amigos, a força está dentro de vós, como o estava em Jesus que dizia: «O Pai que está em Mim, é que faz as obras. (…) Aquele que acredita em Mim fará também as obras que Eu faço; e fará obras maiores do que estas, porque Eu vou para o meu Pai» (Jo 14, 10.12). Por isso, não tenhais medo de tomar decisões definitivas. Generosidade não vos falta – eu sei! –, mas, perante o risco de se comprometer para uma vida inteira quer no matrimónio quer numa vida de especial consagração, sentis medo: «O mundo vive em contínuo movimento e a vida está cheia de possibilidades. Poderei eu dispor agora da minha vida inteira, ignorando os imprevistos que me reserva? Não será que eu, com uma decisão definitiva, jogo a minha liberdade e me prendo com as minhas próprias mãos?» Tais são as dúvidas que vos assaltam e que a actual cultura individualista e hedonista aviva. Mas quando o jovem não se decide, corre o risco de ficar uma eterna criança! Eu digo-vos: Coragem! Ousai decisões definitivas, porque na verdade são as únicas que não destroem a liberdade, mas lhe criam a justa direcção, possibilitando seguir em frente e alcançar algo de grande na vida. Sem dúvida, a vida só pode valer se tiverdes a coragem da aventura, a confiança de que o Senhor nunca vos deixará sozinhos. Juventude angolana, liberta dentro de ti o Espírito Santo, a força do Alto! Confiado nela, como Jesus, arrisca este salto, por assim dizer, no definitivo e com isso dá uma possibilidade à vida! Assim criar-se-ão entre vós ilhas, oásis e depois grandes superfícies de cultura cristã, onde se tornará visível aquela «cidade santa que desce do céu, da presença de Deus, bela como noiva adornada para o seu esposo». Tal é a vida que vale a pena ser vivida e que de coração vos desejo. Viva a juventude de Angola!
Fonte: Vatican.va
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