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Papa Bento XVI: É na formação das consciências que a Igreja oferece à sociedade a sua contribuição mais específica e preciosa


Senhor Presidente,
Senhores Cardeais,
Ilustres Senhores e Senhoras,
Amados irmãos e irmãs!

Estou muito feliz por poder começar a minha visita encontrando-vos, a vós que representais âmbitos qualificados da sociedade croata e o Corpo Diplomático. Dirijo a minha saudação cordial a cada um de vós pessoalmente e também às realidades vitais a que pertenceis: às comunidades religiosas, às instituições políticas, científicas e culturais, aos sectores artístico, económico e desportivo. Agradeço sentidamente a Mons. Puljić e ao Prof. Zurak as amáveis palavras que me dirigiram, bem como aos artistas que me acolheram com a linguagem universal da música. A dimensão da universalidade, que caracteriza a arte e a cultura, é conatural de um modo particular ao cristianismo e à Igreja Católica. Cristo é plenamente homem, e tudo aquilo que é humano encontra n’Ele e na sua Palavra plenitude de vida e de significado.

Este Teatro esplêndido é um lugar simbólico, que exprime a vossa identidade nacional e cultural. O facto de vos poder encontrar aqui, todos juntos, é mais um motivo de alegria do espírito, porque a Igreja é um mistério de comunhão e rejubila sempre com a comunhão na riqueza das diversidades. A participação dos Representantes das outras Igrejas e Comunidades cristãs, bem como das religiões hebraica e muçulmana, contribui para nos lembrar que a religião não é uma realidade aparte relativamente à sociedade: pelo contrário, é uma sua componente conatural, que evoca constantemente a dimensão vertical, a escuta de Deus como condição para a busca do bem comum, da justiça e da reconciliação na verdade. A religião coloca o homem em relação com Deus, Criador e Pai de todos, e, por conseguinte, deve ser uma força de paz. As religiões sempre se devem purificar segundo esta sua verdadeira essência, para corresponderem à sua genuína missão.

E aqui queria introduzir o tema central desta minha breve reflexão: a consciência. Transversal aos diferentes campos onde estais empenhados, este tema é fundamental para uma sociedade livre e justa, tanto a nível nacional como supranacional. Aqui penso naturalmente na Europa, de que a Croácia faz parte desde sempre no plano histórico-cultural, ao passo que, no plano político-institucional, está em vias de entrar na União. Pois bem, as grandes conquistas da idade moderna, ou seja, o reconhecimento e a garantia da liberdade de consciência, dos direitos humanos, da liberdade da ciência e, consequentemente, de uma sociedade livre, há que confirmá-las e desenvolvê-las mas mantendo a racionalidade e a liberdade abertas ao seu fundamento transcendente, para evitar que tais conquistas se auto-destruam, como infelizmente temos de constatar em não poucos casos. A qualidade da vida social e civil, a qualidade da democracia dependem em grande parte deste ponto «crítico» que é a consciência, de como a mesma é entendida e de quanto se investe na sua formação. Se a consciência se reduz, segundo o pensamento moderno predominante, ao âmbito da subjectividade, para o qual se relegam a religião e a moral, a crise do Ocidente não tem remédio e a Europa está destinada à involução. Pelo contrário, se a consciência é descoberta novamente como lugar da escuta da verdade e do bem, lugar da responsabilidade diante de Deus e dos irmãos em humanidade – que é a força contra toda a ditadura – então há esperança para o futuro.

Estou grato ao Prof. Zurak por ter lembrado as raízes cristãs de numerosas instituições culturais e científicas deste país, como aliás aconteceu em todo o continente europeu. O lembrar estas origens é necessário inclusive para a verdade histórica, mas é importante saber lê-las em profundidade a fim de que possam animar também os dias de hoje. Por outras palavras, é decisivo captar o dinamismo que está dentro do acontecimento, por exemplo, da criação duma universidade, ou dum movimento artístico, ou dum hospital. É preciso compreender o porquê e o como de isso ter acontecido, para se valorizar nos dias de hoje tal dinamismo, que é uma realidade espiritual que se torna cultural e, consequentemente, social. Na base de tudo, encontram-se homens e mulheres, encontram-se pessoas, consciências, movidas pela força da verdade e do bem. Foram citados alguns dos filhos ilustres desta terra. Gostaria de deter-me no Padre jesuíta Ruđer Josip Bošković, que nasceu em Dubrovnik há trezentos anos, no dia 18 de Maio de 1711. Ele personifica muito bem o consórcio feliz entre a fé e a ciência, que se estimulam reciprocamente a uma pesquisa ao mesmo tempo aberta, diversificada e capaz de síntese. A sua obra mais importante, Theoria philosophiae naturalis, publicada em Viena e depois em Veneza a meados do século XVIII, tem um subtítulo muito significativo: redacta ad unicam legem virium in natura existentium, ou seja, «segundo a única lei das forças existentes na natureza». Em Bošković, temos a análise, o estudo de múltiplos ramos do saber, mas temos também a paixão pela unidade. E isto é típico da cultura católica. Por isso, é sinal de esperança a fundação de uma Universidade Católica na Croácia. Espero que esta contribua para criar unidade entre os diversos âmbitos da cultura contemporânea, os valores e a identidade do vosso povo, dando continuidade à fecunda contribuição da Igreja para a história da nobre Nação croata. Voltando ao Padre Bošković, dizem os peritos que a sua teoria da «continuidade», válida tanto nas ciências naturais como na geometria, concorda magnificamente com algumas das grandes descobertas da física contemporânea. Que podemos dizer? Prestemos homenagem ao croata ilustre, mas também ao jesuíta autêntico; prestemos homenagem ao cultor da verdade que está bem ciente de quanto esta o supere, mas sabe também, à luz da verdade, empenhar profundamente os recursos da razão que o próprio Deus lhe concedeu.

Contudo, para além da homenagem, é preciso aproveitar o método, a abertura mental destes grandes homens. Voltemos, pois, à consciência como chave mestra para a elaboração cultural e a construção do bem comum. É na formação das consciências que a Igreja oferece à sociedade a sua contribuição mais específica e preciosa. Uma contribuição que começa na família e que encontra um reforço importante na paróquia, onde as crianças e adolescentes e, depois, os jovens aprendem a aprofundar as Sagradas Escrituras, que são o «grande códice» da cultura europeia; e, ao mesmo tempo, aprendem o sentido da comunidade fundada no dom: não no interesse económico ou na ideologia, mas no amor, que é «a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira» (Caritas in veritate, 1). Aprendida na infância e na adolescência, esta lógica da gratuidade é, depois, vivida nos diversos âmbitos, no jogo e no desporto, nas relações interpessoais, na arte, no serviço voluntário aos pobres e aos doentes, e, uma vez assimilada, pode-se concretizar nos âmbitos mais complexos da política e da economia, colaborando para uma polis que seja acolhedora e hospitaleira, e que ao mesmo tempo não seja vazia, nem falsamente neutra, mas rica de conteúdos humanos, com uma forte consistência ética. É aqui que os christifideles laici estão chamados a fazer render generosamente a sua formação, guiados pelos princípios da Doutrina Social da Igreja, por uma autêntica laicidade, a justiça social, a defesa da vida e da família, a liberdade religiosa e educativa.

Ilustres amigos, a vossa presença e a tradição cultural croata sugeriram-me estas breves reflexões. Deixo-vo-las como sinal da minha estima e sobretudo da vontade que tem a Igreja de caminhar com a luz do Evangelho no meio deste povo. Agradeço-vos pela vossa atenção e de coração abençoo a todos vós, os vossos entes queridos e as vossas actividades!

ENCONTRO COM EXPOENTES DA SOCIEDADE CIVIL, 
DO MUNDO POLÍTICO, ACADÉMICO, CULTURAL 
E EMPRESARIAL, COM O CORPO DIPLOMÁTICO 
E COM OS LÍDERES RELIGIOSOS

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
Teatro Nacional Croata - Zagreb
Sábado, 4 de Junho de 2011
  
© Copyright 2011 - Libreria Editrice Vaticana

DEVE-SE RECONHECER-SE À FAMILIA O PRIMADO DA EDUCAÇÃO

Os Padres sinodais revêem-se na preocupação expressa muitas vezes pelo Santo Padre acerca da educação. Em África, como em todo o mundo, há uma crise da educação. Precisamos de um programa orgânico de educação, onde se articulem intimamente a fé e a razão, de modo que os fiéis possam estar convenientemente preparados para enfrentar todas as circunstâncias da vida, evitando pautar-se por critérios dualistas e relativistas nas suas opções quotidianas. De facto, a educação não pode ser reduzida a um mero percurso formal escolástico, mas deve incutir nos jovens um profundo sentido da vida. Deve reconhecer-se à família o primado na educação e ajudá-la consequentemente nesta sua missão. Os Padres sinodais insistem por isso na afirmação da prioridade e na defesa da liberdade de educação, a qual não pode nem deve ser monopólio do Estado.
Onde as Igrejas tiverem escolas que queiram cooperar com o Estado em ordem a assegurar a educação, é necessário que se respeite o direito de a Igreja dirigir essas escolas. Também seria desejável que o Estado manifestasse a sua colaboração com a Igreja na educação, apoiando as escolas desta.

Proposições da II Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos

12 RAZÕES PELAS QUAIS CRUCIFIXO NÃO VIOLA LIBERDADE



E a miragem de um Estado neutro na confrontação de valores

VIENA, terça-feira, 10 de novembro de 2009 (ZENIT.org).- A verdadeira liberdade religiosa não é a liberdade da religião, afirma o historiador Martin Kugler, em resposta à decisão do Tribunal Europeu para os Direitos Humanos de eliminar os crucifixos das salas de aula das escolas italianas.

Kugler, diretor da rede de defesa dos direitos humanos Christianophobia.eu, com sede em Viena, ofereceu 12 teses que mostram o pensamento equivocado do tribunal que decidiu a favor de uma mãe ateia que protestou pelos crucifixos pendurados na escola dos seus filhos.

O direito à liberdade religiosa pode significar somente seu exercício, não a liberdade de confrontar; o significado de ‘liberdade de religião’ não tem nada a ver com a criação de uma sociedade ‘livre da religião’”, explica.

“Eliminar à força o símbolo da cruz é uma violação, como seria obrigar os ateus a pendurarem este símbolo.”

“A parede branca também é uma declaração ideológica, especialmente se nos primeiros séculos não podia estar vazia”, afirma.

Um Estado neutro com relação aos valores é uma ficção frequentemente utilizada com um objetivo de propaganda.”

Para Kugler, decisões como a do tribunal europeu atacam realmente a religião, ao invés de lutar contra a intolerância religiosa.

“Não se pode combater os problemas políticos lutando contra a religião – indica. O fundamentalismo antirreligioso se torna cúmplice do fundamentalismo religioso quando provoca com a intolerância.”

“A maior parte das pessoas afetadas gostaria de manter a cruz – declara. É também um problema de política democrática, dando descaradamente prioridade aos interesses individuais.”

Retomando os argumentos propostos pelo governo italiano em defesa dos crucifixos nas salas de aula, Kugler indica que “a cruz é o Logos da Europa; é um símbolo religioso, mas também muito mais que isso”.

Uma miragem

Em um debate com Die Presse, Kugler destaca outros dois elementos do debate Igreja-Estado.

Falar de um “Estado neutro na confrontação dos valores” é “simplesmente ingênuo, e o resultado é uma miragem. É como uma brincadeira”.

“Um Estado neutro quanto aos valores? Contra a fraude e a corrupção? Contra a xenofobia e a discriminação? Diante dos pecados contra o meio ambiente e as conquistas sexuais no trabalho?” – pergunta-se.

E continua: “Um Estado que abençoa os neonazistas, permite a pornografia, favorece certas formas de ajuda ao desenvolvimento e outras não... tudo por valores neutros? Alguém está tentando nos enganar”.

O especialista também destaca um segundo ponto que merece mais atenção: a ideia segundo a qual uma esfera pública sem presença alguma da vida religiosa ou dos símbolos religiosos seria mais “tolerante” ou mais apropriada para a liberdade de consciência que uma que permite ou inclusive fomenta declarações de crença religiosa.

“Obviamente, os pais ateus podem sentir que seu filho é molestado pela cruz na sala de aula, mas é inevitável”, explica.

“Pode me incomodar também, ao entrar em uma agência dos correios, ver uma fotografia do presidente federal no qual não votei – continua. A influência, os sinais ideológicos, as presenças visuais – inclusive sexistas – existirão sempre e em todos os lugares.”

“A única pergunta é como e o que contêm.”

Neste sentido, Kugler afirma que o Estado “deve intervir somente de maneira muito moderada e, se o faz, não deve ser somente com proibições que reduzam a religião a um gueto”.

A DITADURA DO LAICISMO


Por: Dr. IVES GANDRA DA SILVA MARTINS


São Paulo, sábado, 07 de novembro de 2009

UMA ÚNICA senhora -que, certamente, no dia de comemoração do nascimento de Cristo, ofertará a seus filhos e familiares presentes natalinos- e a Corte Européia de Direitos Humanos, constituída de juízes não italianos -e que também, em homenagem ao Natal, não funcionará no dia 25 de dezembro-, impuseram à nação italiana, berço do cristianismo universal, contra a opinião de dezenas de milhões de pessoas que lá vivem, a retirada dos crucifixos de suas escolas públicas.

Os próprios juízes daquela corte, que decidiram contra a presença dos crucifixos - símbolo integrante da cultura da esmagadora maioria dos cidadãos italianos-, certamente também festejarão as festas natalinas, presentearão familiares e amigos e comemorarão a data de confraternização mundial por excelência, talvez a mais importante para a difusão da paz e da fraternidade entre os povos.

A contradição hipócrita entre a eliminação dos crucifixos e a comemoração do Natal -signos que lembram a morte e o nascimento de Jesus Cristo- é evidente, demonstrando a falta de razoabilidade da decisão da Corte Europeia de Direitos Humanos, por impor aos italianos a vontade de uma única pessoa.

Não cogitou, entretanto, de instituir a proibição dos feriados natalinos a todos os países da Europa. Esse e outros episódios que vão se multiplicando pelo mundo estão a atestar que os valores do cristianismo incomodam, hoje, como incomodaram, nos primeiros 300 anos, os detentores do poder no Império Romano, cujo padrão de comportamento moral não serviria de lição para nenhuma escola de governantes.

Para o referido órgão decisório, acostumado a condenar todos aqueles que, na sua preconceituosa visão laicista, ferem seu conceito amesquinhado de dignidade humana, realmente a figura do crucifixo deve perturbar, pois, como julgador, Cristo, na cruz, não só absolveu todos os que o condenaram mas também aquele criminoso (Dimas) que com ele foi crucificado. E, para essa corte, acostumada a condenar, a figura de um juiz que absolve é perturbadora, como lembra Américo Lacombe.

O certo é que há uma minoria, com forte influência política, que busca solapar os valores éticos e culturais do cristianismo a título de impor a ditadura do ateísmo, segundo a qual, num Estado laico, apenas os que não têm religião podem se manifestar, impor as suas regras e exigir que todos os que acreditam em Deus se submetam à tirania agnóstica.

A decisão, por outro lado, fere um princípio fundamental, o da subsidiariedade no direito europeu, pelo qual todas as questões que podem ser decididas de acordo com a tradição, os costumes e a legislação locais não devem ser levadas às cortes da comunidade, pois dizem respeito exclusivamente ao direito interno de cada país.

Bem por isso a decisão referida está recebendo fortes críticas, correndo sérios riscos de não ser cumprida em um país no qual até mesmo leis que contrariam seus costumes são de difícil cumprimento. No Brasil, o Conselho Nacional de Justiça, em resolução tomada por 12 votos e uma abstenção, deliberou que, nos tribunais, caberá a cada magistrado decidir, de acordo com suas convicções, a manutenção ou não do crucifixo na sala de julgamentos. E uma tentativa do Ministério Público de retirar os crucifixos desses recintos foi rejeitada pelo Poder Judiciário.

Se a Turquia vier a ingressar na União Européia - já estando avançadas as tratativas nesse sentido-, certamente a Corte Européia não terá coragem de proibir, diante de possíveis reações “talebanísticas”, os símbolos da cultura e da crença islâmica nas sessões de julgamento. Os valores do cristianismo sempre incomodaram. Embora sem a virulência dos tempos dos mártires do Coliseu, a reação dos que querem impor sua maneira de ser é a mesma.

Trata-se de uma visão deturpada do Estado laico. Este não é um Estado sem Deus, mas um Estado em que a liberdade de pensar é plena e não pode reputar-se ameaçada pelo respeito às tradições do povo e do país. Numa democracia, é a maioria que deve decidir os seus destinos. E a maioria acredita em Deus.

SEM CLAREZA JURÍDICA, A LIBERDADE RELIGIOSA FICA FRAGILIZADA

14 Sep 2009
Cardeal Odilo Pedro Scherer
Na noite de 26 de agosto, em sessão extraordinária, a Câmara dos Deputados ratificou o Acordo entre o Brasil e a Santa Sé sobre o estatuto jurídico da Igreja Católica em nosso país. O Acordo estava sendo longamente desejado, pois desde a Republica e a adoção do “Estado laico” no Brasil, faltava clareza e segurança jurídica para a presença e a atuação da Igreja Católica e das demais Igrejas e religiões. Não basta garantir teoricamente a liberdade religiosa, o que poderia ser como um pacote de presente, belo por fora, mas vazio. O exercício desse direito pode expressar-se na abstenção de qualquer convicção e manifestação religiosa; mas o que mais acontece, é a sua atuação positiva mediante a adesão a religiões, instituições, organizações religiosas e maneiras de interação com a sociedade.
Sem clareza jurídica, a liberdade religiosa fica fragilizada e até exposta a arbitrariedades e constrangimentos. E o Estado laico também fica de mãos atadas, sem saber como proceder quando a liberdade religiosa é invocada como pretexto para cometer ilícitos e explorar economicamente, em função de lucro privado, as necessidades e sentimentos religiosos do povo. Como coibir, por exemplo, o charlatanismo e a exploração da boa fé do povo? Como levar à justiça o infrator que lesa a população e o Estado, se ele pode sempre apelar para uma liberdade religiosa vaga e mal interpretada? A clareza nas relações da religião com a sociedade, e do Estado com ela, é um bem para todos.
É esta clareza jurídica que o Acordo visa, no que se refere à Igreja Católica, que tem na Santa Sé seu representante e interlocutor com os Estados, na esfera do Direito internacional. A diplomacia da Santa Sé tem uma praxe longa e consolidada de acordos, tratados, concordatas ou convênios com muitos países; são instrumentos reconhecidos do Direito internacional, através dos quais a Igreja Católica, em entendimento com os Estados, clareia o modo de sua presença e atuação nesses países, e também sua contribuição às sociedades locais, em benefício da população. Esses tratados são estabelecidos pela Santa Sé com numerosos países, e não apenas com nações de maioria católica ou cristã, mas também onde os católicos são pequena minoria, como Israel, ou países de predominância islâmica, como a Tunísia e o Marrocos. Mas também com Estados declaradamente laicos.
O Acordo não pretende privilégios para a Igreja Católica, mas a segurança jurídica, como garantia efetiva do exercício da liberdade religiosa. Dessa clareza também faz parte a própria organização interna, que pode ser muito diversa de uma religião para outra: quem é quem dentro delas, quem as representa e é seu legítimo interlocutor com a sociedade. Esta clareza interna, por certo, não falta à Igreja Católica, que a expressa no seu Direito Canônico, antigo e público, e onde também ficam manifestos seus propósitos e sua metodologia de ação.
Não faltaram questionamentos e argumentações contrárias, antes que se chegasse à ratificação do Acordo na Câmara. No contexto pluralista do Brasil atual, isso é bem compreensível, pois a matéria, de certa forma, era nova na opinião pública; a ocasião foi boa até mesmo para uma reflexão, a busca de esclarecimentos e a superação de eventuais preconceitos. Argumentou-se com veemência, por exemplo, que o Acordo feria a Constituição, enquanto houve todo o cuidado em respeitar a Lei maior e a restante legislação brasileira. Tentou-se negar a legitimidade do Acordo, com a alegação de que o Brasil é um Estado laico; no entanto, acordos dessa natureza partem, justamente, da aceitação da laicidade do Estado e confirmam este princípio; por essa razão é que a Santa Sé busca formas “concordadas” de relacionamento da Igreja com Estados não religiosos e sem religião oficial.
Houve também conclusões equivocadas de que a Igreja Católica voltaria a ser a religião oficial no Brasil, que ela imporia seu ensino religioso a todos os alunos das escolas públicas e pretendia a isenção das leis trabalhistas. Tudo infundado, era só ler com isenção os termos do Acordo. Houve ainda alertas e até acusações de que a Igreja Católica buscava privilégios, discriminando outros grupos religiosos. Também isso é inconsistente, pois o mesmo direito de pleitear instrumentos jurídicos concordados com o Estado também estava assegurado aos demais grupos religiosos, bastando que se organizassem. E seria bom assim; nada melhor, no Estado laico, que a clareza nas relações da religião com a sociedade.
Finalmente, o bom senso prevaleceu na Câmara e o Acordo recebeu a aprovação; ficou claro que as alegações contrárias não eram convincentes contra a legitimidade e a legalidade do tratado Brasil-Santa Sé. O fato é que, uma vez aprovado, o texto foi proposto logo, quase ipsis litteris, num projeto de “Lei geral das religiões” e aprovado na mesma hora, sem discussão, nem convocação de audiências públicas. Aquilo que, antes, fora considerado inaceitável, absurdo e contrário aos interesses do povo, incompatível com o Estado laico, deixou de sê-lo num piscar de olhos. Terá sido pelo adiantado da hora daquela sessão extraordinária noturna?
O Estado, por certo, continua laico e pode celebrar acordos e entendimentos com quem quer que seja, no respeito às suas próprias leis. No entanto, ao passar para uma legislação geral organizações tão diversas, como as religiões, será que não houve um cochilo longo demais? Na Roma antiga, neste caso, a recomendação aos homens ilustres do Senado, provavelmente, teria sido esta: Videant Cônsules.

CARITAS IN VERITATE NO DEBATE FILOSÓFICO-SOCIAL

Entrevista com o filósofo Rodrigo Guerra López
Por Jaime Septién
QUERÉTARO, quarta-feira, 22 de julho de 2009 (ZENIT.org-El Observador).- A encíclica social de Bento XVI, "Caritas in veritate" aborda o âmbito de saberes como a política, a economia ou as teorias sobre a globalização para entrar em cheio no debate filosófico-social contemporâneo, explica um filósofo.
Para aproximar-nos dessas intuições do novo documento pontifício Zenit e El Observador entrevista Rodrigo Guerra López, doutor em Filosofia pela Academia Internacional do Principado de Liechtenstein, membro da Academia Pontifícia para a Vida, e diretor do Centro de Pesquisa Social Avançada (www.cisav.org).
Entre seus livros destacam-se “Voltar à pessoa” (Volver a la persona - Madri 2002); “Católicos e políticos: uma identidade em tensão” (Católicos y políticos: una identidad en tensión - Bogotá 2005) e “Como um grande movimento” (Como un gran movimiento - México 2006). Recentemente publicou em co-autoria “Vida humana e aborto” (Vida humana y aborto - México 2009).
– Como se localiza a encíclica Caritas in Veritate no debate filosófico-social contemporâneo?
– Rodrigo Guerra: A nova encíclica do Papa não pretende competir com as análises que a partir da teoria social se realizam sobre a situação que guarda o desenvolvimento no contexto do mundo globalizado. Contudo, Caritas in Veritate ingressa à discussão desde seu próprio estatuto: a Doutrina Social da Igreja. Isto significa que a sabedoria prática nascida do encontro com Cristo permite emitir um juízo sobre as condições que possibilitam o desenvolvimento e sobre as disfunções que a atual globalização possui.
Ampliando um pouco os conceitos, poderíamos dizer que o Papa Bento XVI oferece uma “teoria crítica da sociedade”, ou seja, uma revisão de alguns dos mais importantes supostos que sustentam a atual configuração do mundo global. Agora, diferentemente de outras “teorias críticas”, Bento XVI não situa o núcleo da questão na capacidade que o ser humano possui para auto-redimir-se e auto-emancipar-se.
Ao contrário, uma dimensão constitutiva do critério de juízo utilizado pelo Papa é uma antropologia precisa na qual toda a consistência do “eu” se reconhece como dom, como presente, e portanto, como abertura relacional para o Fundamento, ou seja, para Deus, que sustenta e que liberta. Desta maneira, Bento XVI insistirá em que “o homem não se desenvolva unicamente com suas próprias forças” (n. 11) mas que requer ser ajudado a partir de um horizonte maior ao que pode ter acesso por si mesmo. Horizonte que dá Cristo, ou seja, o Acontecimento que nos precede.
– Que relação tem a encíclica Cáritas in Veritate com o resto do Magistério de Bento XVI?
– Rodrigo Guerra: Cáritas in Veritate se encontra sustentada precisamente no reconhecimento do cristianismo como “Acontecimento”, e por isso, possui uma ligação estrutural com Deus caritas est, Spe salvi e em geral com a já milenar tradição eclesial que reconhece a absoluta novidade da irrupção e permanência de Cristo na história. Desta forma, a nova encíclica faz contínua referência à importância que possui “ampliar o horizonte da razão” para que sem reducionismos possamos abrir-nos à verdade em geral e eventualmente à Verdade encarnada.
Desta maneira, Caritas in Veritate não é um documento secundário no ensino do Papa, ao contrário, completa o itinerário inaugurado no discurso de Ratisbona e que continuou em numerosas intervenções sobre a necessidade de estabelecer novas relações entre a razão e a fé. Este itinerário está muito longe de ser de ordem meramente teórica, ele possui uma grande novidade e pertinência existencial e social por fundamentar-se no caráter formativo que o cristianismo possui: o cristianismo é um fato que afeta a vida e que promove realmente seu desenvolvimento com dignidade. Por isso, o Papa valentemente assinala, no número quarto da encíclica, que “o anúncio de Cristo é o primeiro e principal fator de desenvolvimento”.
– A encíclica Caritas in Veritate aposta na reorientação da globalização para que esta sirva realmente ao desenvolvimento das pessoas e dos povos: isto é realmente possível?
– Rodrigo Guerra: A história recente demonstrou que não é possível pretender construir a ordem nacional e internacional a partir de premissas puramente instrumentais no âmbito do Estado e do mercado. A globalização, tal e como hoje está definida, devora seus próprios criadores.
Por isso, é racional e razoável pensar que a via para corrigir o rumo da globalização descansa na introdução de uma lógica diferente da baseada nas leis da oferta e da demanda. Este novo raciocínio tem como eixo de sustentação a gratidão, a responsabilidade social, a redistribuição equitativa da riqueza, a capacidade para criar novas formas de empresa.
Hoje, existem experiências importantes em matéria de comércio justo, micro-financiamentos, economia solidária e de comunhão que mostram que este caminho não só é possível, mas necessário. A globalização só modificará seu perfil através de pessoas concretas que sejam capazes de remodelá-la. Para isso é necessário um novo pensamento econômico e uma nova capacidade de incidência local, nacional e global.
– A autonomia da economia não é questionada com o pensamento de Bento XVI?
– Rodrigo Guerra: Justamente, as economias que estão fracassando hoje, resistem a admitir no seio de seu próprio âmbito, orientações de ordem moral. Este é um erro epistemológico importante: o objeto da economia possui a liberdade como uma dimensão constitutiva de sua própria natureza. Por isso, uma economia autenticamente humana e autenticamente autônoma não pode ser senão essencialmente ética. É absurdo que uma teoria do valor em economia prescinda da existência de valores morais!
Os diversos tipos de valor acontecem na experiência e podem ser reconhecidos pela razão prática, que é a razão que particularmente opera na atividade econômica. Por isso, Bento XVI recupera uma potente intuição de João Paulo II: toda decisão de investimento, de produção ou de consumo possui uma iniludível dimensão moral. O fato de subordinar ou cancelar esta dimensão, por um lado, atenta contra a dignidade da pessoa – que é a principal riqueza de uma empresa e de uma nação – e, por outro, contra a própria economia.
– Que importância tem o Estado e a ação política à luz da nova encíclica?
– Rodrigo Guerra: O Papa se encontra nitidamente preocupado com os temas que configuram o Estado como “Estado social”. Também adverte que uma diminuição irresponsável das competências do Estado pode conduzir a um enfraquecimento dos direitos dos trabalhadores. Este tipo de considerações nos mostram que a compreensão católica da política não se identifica unicamente com o Estado liberal nem com a mera presença de certas elites cristãs em espaços de poder.
A ação política tem que recuperar um sentido social que nunca deveria ter perdido. “Sentido social” não só significa “políticas sociais” mais profundas e solidárias, mas levar no coração uma decidida opção preferencial pelos pobres e excluídos. Por isso, a colaboração verdadeira na organização e gestão do bem comum é medida mais em termos de desenvolvimento que de triunfo eleitoral, mais em termos de serviço aos mais fracos que de ativismo.
Quais são as causas profundas do subdesenvolvimento segundo o Papa Bento XVI?
– Rodrigo Guerra: O Papa, no número 19 de Caritas in Veritate, diz que as causas do subdesenvolvimento são fundamentalmente duas: a falta de fraternidade e a falta de pensamento. Por um lado “a sociedade cada vez mais globalizada nos faz mais próximos, mas não mais irmãos”. Enquanto não entendermos que a caridade, o perdão e a reconciliação são método para a ação política e econômica não conseguiremos avançar como pessoas e como sociedade. Desta forma, o Papa constata a ausência de autênticos pensadores capazes de gerar um novo humanismo social e político. Sem pensamento rigoroso, capaz de voltar às coisas de fato, a ação política e econômica se realiza sem sentido, sem direção, como puro ativismo que não transcende os interesses mesquinhos da busca do poder pelo poder.
– O Papa insiste na necessidade de uma nova autoridade mundial. Isto não é algo muito perigoso? Não poderíamos cair em um novo totalitarismo de escala planetária?
– Rodrigo Guerra: A Igreja é muito consciente dos riscos de uma nova ordem política, econômica e jurídica para o mundo globalizado. Contudo, não é possível dar governabilidade à globalização se não se construir bases para uma nova civilização, para uma nova Res publica mundial, que não deve ser um super-Estado totalitário, mas uma nova maneira de construir as relações internacionais a partir de uma “gramática da ação” – como dizia Wojtyla –, ou seja, a partir de um novo “Direito dos Povos” de base iuspersonalista.
– Quem está chamado a colocar em prática o ensinamento da encíclica Caritas in Veritate?
– Rodrigo Guerra: Caritas in Veritate está destinada a todos os católicos e a todos os homens de boa vontade. Contudo, como todo ensinamento corre um risco: o de reduzir seu conteúdo a indicações meramente formais ou abstratas. É fácil eludir a responsabilidade pessoal e institucional e pensar que o ensinamento do Papa é “mera inspiração” ou que está destinado “para outros”, mas não para “nós”.
Por isso, atrevo-me a assinalar algo que não me deixa de surpreender: os bispos latino-americanos no documento de "Aparecida" abordaram praticamente todos os temas nucleares da encíclica de modo providencialmente antecipado. Eles, seguindo o Papa, também reconheceram com grande força que o cristianismo é acontecimento, escola de discipulado e experiência de comunhão.
Em outras palavras, para que a encíclica possa ativar-se antes que um “plano estratégico” o que precisamos é recuperar o essencial do método cristão. Só assim, poderemos mostrar que a fé gera movimento, criatividade e compromisso solidário. Só assim voltaremos a exibir que o “sujeito” da Doutrina Social da Igreja existe e porque existe, atua.

O QUE A IGREJA PENSA SOBRE DEMOCRACIA

O arcebispo de Granada responde em um curso sobre ética e futuro da democracia

O arcebispo de Granada, Dom Francisco Javier Martínez Fernández, destacou o apreço da Igreja pela democracia, mas advertiu que este conceito se desvirtua quando se prescinde da fé e se baseia em ideologias.

Não obstante, segundo o arcebispo, o pensamento filosófico atual se reduziu à mera percepção racional e isolou a fé cristã, princípio último que oferece sentido à essência humana.

Dom Martínez afirmou que diante da falta deste “fator unificador”, o homem se vê obrigado a buscar uma ideologia que justifique seu comportamento e isso conduz à desvirtuação de conceitos como o da democracia.

Neste sentido, Dom Martínez destacou que o homem precisa de um único critério de verdade aplicável e propôs uma “teologia política” que conceba Deus e Jesus Cristo como princípio último da existência humana.

Esta proposta pretende acabar com a redução da religião ao âmbito privado da vida e recuperar a relação direta de Deus com o mundo como resposta ao niilismo cultural.

O arcebispo falou das relações humanas e afirmou que os conflitos derivados destas estão determinados pela defesa dos interesses de cada indivíduo.

Neste sentido, enfatizou que as “relações humanas só são humanas na medida em que são desinteressadas”.

Durante sua intervenção, Dom Martínez afirmou que “uma democracia sem valores se converte em uma ditadura” e declarou que a crise atual tem algumas raízes morais.

NÃO PODE HAVER SEPARAÇÃO ENTRE FÉ E VIDA

"A Igreja na sua missão não está sujeita ao Estado. A Congregação para a Doutrina da Fé em sua "Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política", de 24 de novembro de 2002 diz: "A Igreja não pretende exercer um poder político nem eliminar a liberdade de opinião dos católicos em questões contingentes. Entende, ao invés – como é sua função própria – instruir e iluminar a consciência dos fiéis, sobretudo dos que se dedicam a uma participação na vida política, para que o seu operar esteja sempre ao serviço da promoção integral da pessoa e do bem comum. Assim o ensinamento social da Igreja não é uma intromissão no governo de cada País. Não há dúvida, porém, que põe um dever moral de coerência de cada fiel leigo, no interior da sua consciência, que é única e unitária". Insiste que não há na vida dois caminhos paralelos, um da chamada "vida espiritual", outro da "vida secular", ou seja, família, trabalho, empenho político e cultura. A consciência é formada à luz do Evangelho.
Cardeal Dom Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro
12/09/2007

A ABOLIÇÃO DA VERDADE

Por Francisco Faus (Congregação para o Clero)
Democracia para “quase todos”
No nosso tempo, no mundo inteiro, estão num primeiro plano do debate político e dos comentários da mídia as questões controvertidas sobre a o valor da vida humana (desde a concepção até a morte natural), sobre a bioética na perspectiva dos atuais progressos da Ciência, sobre o significado da sexualidade e da família, etc.
Nos países democráticos, é reconhecido a todos – pessoas singulares ou entidades –, o direito de manifestar livremente a sua opinião, de sugerir soluções e de apresentá-las na mídia, ou por meio de representantes do povo, de projetos de lei, etc. É uma decorrência lógica dos princípios de liberdade e pluralismo, que são considerados essenciais para uma autêntica democracia.
Neste sentido, nem políticos nem mídia se atreveriam a negar ou restringir, por exemplo, o direito de o movimento gay expor e defender as suas reivindicações; nem o direito de ONGS ou movimentos ecológicos reivindicar, por exemplo, o reconhecimento de que os animais possuam os mesmos direitos que os seres humanos. Cada opinião é respeitada, por princípio, e aceita para debate civilizado, exceto... Sim, há uma exceção: a Igreja Católica. Quando a Igreja se manifesta sobre essas questões debatidas na atualidade, levanta-se imediatamente um clamor, que ecoa em grande parte da mídia, contra o seu direito de opinar, falar, sugerir, propor. Parece que só em relação à Igreja a liberdade e o pluralismo ideológico e político deixam de ter vigência.
Dirão que é porque a Igreja é “dogmática”. Mas a Igreja não manda no país, nem tem poder algum para fazê-lo numa sociedade civil laica, que ela não só aceita de bom grado mas defende como tal (se alguém ignora isso, ignora os ensinamentos da Igreja desde o Concílio Vaticano II). Mas a Igreja, que reúne em si um grupo amplamente majoritário de brasileiros, simplesmente acha, e com toda a razão, que a sua voz pode ser ouvida pelo menos com um respeito análogo ao que se presta a opiniões minoritárias, por vezes bem singulares, de grupos numericamente insignificantes.
Ora, a realidade é que, sem tréguas, uma gritaria desrespeitosa – e com freqüência ofensiva – pretende silenciar, abafar, excluir do debate essa voz. Esse processo de exclusão, de abolição, procede por quatro degraus, que coincidem num progressivo “banimento da verdade”, degraus que analisaremos brevemente a seguir.

A LIBERDADE RELIGIOSA: UMA DAS FACES DO PRISMA UNITÁRIO DA LIBERDADE

Atualmente vemos o esforço da mídia em tenta calar a Igreja no que diz respeito à sua liberdade de expressar e de anunciar a Fé que recebeu de Cristo.
Segue abaixo uma lição magistral de Joao Paulo II sobre o sentido da verdadeira liberdade religiosa e o papel do Estado:
"É oportuno mencionar ainda o problema da liberdade religiosa. Sabeis que a Igreja não pede privilégio algum ao poder civil; com uma clareza que, desde o Concílio, sobressai ainda melhor que no passado, definiu uma posição global segundo a qual a liberdade religiosa não é senão uma das faces do prisma unitário da liberdade: esta é elemento constitutivo essencial de uma sociedade autenticamente moderna e democrática. Por conseguinte, nenhum Estado pode pretender beneficiar de uma estima positiva e, com mais forte razão, ser considerado merecedor pelo único facto de parecer conceder a liberdade religiosa, quando de facto a isola de um contexto geral de liberdade; e um Estado não pode definir-se "democrático" se de qualquer modo põe obstáculos à liberdade religiosa não só no que diz respeito ao exercício da prática do culto, mas ainda à participação num pé de igualdade nas actividades escolares e educativas, como também nas iniciativas sociais, nas quais a vida do homem moderno se articula cada vez mais. A história, mesmo a mais recente, atesta que os responsáveis civis preocupados com o bem do seu povo não têm nada a temer da Igreja; pelo contrário, respeitando-lhe as actividades, proporcionam ao próprio povo um enriquecimento, porque utilizam um meio certo de melhoramento e de elevação."

TEOLOGIA DE RATZINGER É CRITICA DA MODERNIDADE

Luiz Felipe Pondé, Folha de S. Paulo, 24/04/05
ESPECIAL PARA A FOLHA

Bento 16 é um intelectual. Homens bem intencionados, articulados, midiáticos, tímidos, honestos, “conservadores” ou “progressistas”, podem ou não ser intelectuais. Se o forem, a percepção que temos deles demandará maior esforço cognitivo - esta característica pode se tornar, muitas vezes, um problema para a informação e para o entendimento.
Alguns analistas já apontaram para o fato de que Bento 16 deverá ter dificuldades no relacionamento com a mídia e o “rebanho”. João Paulo 2º não era um intelectual. Aqui já surge uma diferença importante para aqueles que pensam que nada muda, pelo menos no plano da trama teológica teórica e prática, invisível a instrumentos grosseiros de análise. O perfil intelectual pode ser definido, entre outras formas, por uma tendência a ver o mundo de um modo mais complexo. A questão é: em qual dimensão este fato influencia na passagem de uma atividade essencialmente teórica e reflexiva para uma de cunho mais pastoral e dominada pela lógica empírica miúda e cotidiana?
Sabemos que a pastoral hoje em dia flerta abertamente com a “inteligência do marketing” e, por isso mesmo, assume a forma da razão publicitária, seja em seu conteúdo “progressista ou conservador” - há uma clara atmosfera de consciência empresarial da fé: quem converte mais?
O que o pensamento de Ratzinger parece indicar é que o processo de contágio da religião cristã pelas manias do secularismo moderno pode ser detectado em várias frentes.
O novo papa não é um intelectual cujo mote é medo de não agradar. Numa atitude pastoral, esse traço parece ser contraditório, a menos que esteja imerso numa articulação teológica que o sustente e organize. A teologia de Ratzinger é uma crítica aberta à ditadura da modernidade e, neste processo, às “soluções” pseudo-religiosas (no entendimento dele) para “a questão religiosa”.
Santo Agostinho pode ser muito mais nosso contemporâneo do que o último guru espiritual correto ou o último teólogo transteológico. Chamá-lo de “conservador” é má fé (razão estratégica), barateamento da discussão ou simples falta de repertório. Mas, na “democracia real”, esse processo de barateamento pode ser estrutural.
Evidentemente que atitudes não se dão no vazio dos laços sociais. A democracia como comportamento generalizado, associada a uma economia calcada na idéia de produção industrial e regida pela lógica do desejo, parece tender, desde suas origens no século 19, para um cenário pouco dócil às necessidades estruturais e dinâmicas de um pensamento que não se faz facilitador: não é fácil encontrarmos no vaivém infernal da democracia moderna produtivista - isto é, orientada por um “ethos” da eficácia - os espaços que propiciam os movimentos delicados e sutis de uma reflexão que exige maior repertório metodológico e conceitual.
O risco de resvalarmos para a banalização é enorme: o novo papa foi nazista (quem não teria servido o exército então? Era uma guerra…). Ele é um conservador retrógrado que é contra mulheres e homossexuais. Relativizar dogmas, tudo bem, mas só na casa do vizinho! Não haverá perda no diálogo com os avanços da ciência? Como se andar em linha reta sempre para frente fosse evidente indicação de avanço e como se dialogar fosse sinônimo de submissão ao encantamento da lógica ruidosa da eficácia. A agenda moderna não será preterida?
Para Bento 16, a “agenda” não é moderna, mas sim eterna. Quem consegue lidar facilmente com uma categoria de tempo que por definição exclui e supera a noção empobrecida de temporalidade? Uma solução é fugir, fingindo que tudo é ideologia…
Na obra “O Sal da Terra” (Ed. Imago), de 1996, podemos ter alguns indícios de como Ratzinger pensa questões como essas, entre outras tantas. Obra já madura, nela temos a chance de ver de modo articulado e coloquial (trata-se de uma longa entrevista) a evolução de seu pensamento teológico no enfrentamento de diversas questões essenciais.
Uma experiência marcou a vida do novo papa: voltando para a Alemanha após o período do Vaticano 2º, e assumindo a atividade docente, um dia foi interrompido por alunos que tomaram seu microfone em meio à aula sem pedir licença. O professor Ratzinger ali percebeu que algo estava se passando e que cuidados eram necessários com o chamado processo de modernização.
Um dos temas caros à reflexão de Ratzinger é a dissolução da experiência litúrgica graças ao deslocamento do lugar da relação entre culto e comunidade dentro da dinâmica eclesial. Segundo ele, muitos católicos confundem a relação entre fé e prática litúrgica na medida em que parecem crer que o “formato” da liturgia é objeto de decisão comunitária, como numa pesquisa de opinião pública.
Essa temática é diretamente descendente da pressão pela dissolução das estruturas hierárquicas em favor de um “democratismo das bases”. Para Ratzinger, parece haver um “instinto antidiscernimento” na condição contemporânea. Não é o fiel o “ponto de partida” da experiência litúrgica, mas a Revelação, mediada pelos mistérios sacramentais.
O viés democratista das bases tende a perder de vista este fato, porque no fundo é fruto do processo dissolutivo do relativismo anômico (por isso opera em baixo discernimento) e do secularismo autoritário, e o resultado é a perda da espessura mística do culto em favor de uma semelhança com shows (no nosso caso) de música popular “ao alcance de todos”. Prova deste autoritarismo é o mal entendimento de que escolher formas “antigas” de liturgia (pré-conciliares, Vaticano 2º) seja signo de “reacionarismo”.
O rompimento da idéia de pastoral como sedução por atração também é fruto de sua reflexão teológica. Imagens como “oásis no deserto”, “fortaleza no alto”, “grãos de sal da terra”, todas remetem para um distanciamento da idéia de uma teologia “da Igreja triunfante”. Não operar dentro das categorias da razão publicitária - termo meu - pode tornar alguém quase irracional.
Para Ratzinger a antropologia agostiniana que vê o homem como um ser que gira ao redor de uma natureza danificada pelo pecado é muito mais empírica do que os modos de pseudodignidade antroponômicas. Isso dá um tom “pessimista” à sua reflexão antropológica, que diante da regra de “respeito às sensibilidades sociais”, parece uma heresia. O homem deve julgar a si próprio menos como agente de sua própria salvação e mais como agente de sua perda -não por um trauma masoquista, mas antes de tudo por propedêutica metodológica.
Atitudes como essa aparece também na sua crítica a preguiça travestida de “amor pela paz” de muitos bispos: segundo Ratzinger, o medo de conflitos leva muitos bispos e padres à preguiça mental e prática. Referindo-se ao seu tempo de bispo na Alemanha, ele reconhece como é difícil não se calar e optar pelo silêncio fácil. Trata-se do veneno silencioso que corrói a própria estrutura da comunidade. Inocula-se a preguiça em nome da paz.
Todavia, uma crítica como esta pode ser facilmente cooptada pela bancada secular da igreja (aqueles que pensam que a igreja deve buscar sua teologia nos livros de Marx, Feuerbach, Nietszche ou Foucault): essa chamada pelo enfrentamento dos conflitos é na realidade um discurso de poder, diriam os “socioteólogos”.
O interessante é que só o outro é que faz o discurso do poder: é o lado em que você está que determina se sua causa é justa ou manipuladora. Ratzinger recusa em bloco a “teoria do poder em toda parte” e a identifica como uma das formas de dissipação da capacidade humana de discernir as coisas. Se não há nada além do que “power politics”, não há nada a fazer.
Seu repetido discurso acerca da importância da liturgia para a teologia indica sua compreensão, dita em termos filosóficos, de que transformações ontológicas (ou existenciais) são operadas no momento litúrgico que abrem para o ser humano uma experiência de Deus. Quando o indivíduo vive uma religião que tende para mera instituição social, a liturgia se transforma em algo que repete o mundo secular “ad infinitum”.
A condenação do padre austríaco Gotthold Hasenhöttl é uma boa oportunidade para compreender suas reflexões no plano prático. Segundo Ratzinger, o erro de Hasenhöttl (dar comunhão a não batizados) era na realidade função de erro teológico: para ele, Deus não é uma realidade existente em si, mas um evento para encontros entre seres humanos.
Esse tipo de teologia dissipativa, está no foco de suas críticas ao relativismo teológico de autores como John Hick, entre outros, e nos leva às aporias do diálogo entre diferentes religiões. Ratzinger dirá que não há como não destituir o cristianismo de Cristo (cristianismo acristológico) se tivermos que aceitar realidades indistintas e cósmicas, panteístas, aos moldes da Índia.
As tentativas de manter a religião nos limites da razão natural e achar que Kant salvou o cristianismo, marcando as diferenças entre Deus (um ser fora das categorias a priori de sensibilidade) e Jesus (encarnado e, portanto, um ser limitado às categorias a priori da sensibilidade, e por isso puro fenômeno descartável teologicamente porque meramente empírico) é para Ratzinger erros semelhantes da teologia da libertação.
Uma característica do humanismo moderno é essa tendência de buscar referências extrabíblicas e fora da tradição cristã para a atividade hermenêutica ou exegética. Por exemplo, o feminismo deságua numa agenda que impõe à Bíblia conteúdos que nela inexistem ou simplesmente nega a validade bíblica em favor da emancipação secular. Para Ratzinger, alguém pode até pensar assim, mas nada há de cristão ou católico nisso, e o melhor é que “vá embora”.
O processo de dissipação do cristianismo a serviço da instalação de modelos orientais, chega, por exemplo, à assimilação do budismo como método de auto-erotismo pseudoespiritual, na medida em que o eu é uma fonte de gozo sem obrigações reais no mundo. Ratzinger pensa que muitos católicos hoje vêem a sua fé em desvantagem porque ela tem um discurso de responsabilidade muito explícito, e a sensibilidade contemporânea, fruto de sistemas de pensamento que escondem sua verdadeira filiação (os ídolos do mundo caído: amor pela matéria, pelo conhecimento vão e pelo orgulho), materializada, por exemplo, num canto pela sexualidade orgasmática e estéril, pouco fecunda, não agüenta tamanha pressão moral.
Quando ataca os instrumentos culturais como grandes sessões de rock’n'roll a serviço da fé, Ratzinger tem isso em mente: o cristianismo não é uma religião da liberação do ônus da consciência, mas o contrário, da consciência como instrumento que ilumina a percepção de Deus.
Uma outra frente de crítica é aos diversos tipos de hegelianismos, da história como lei de redenção até a transvaloração nietzscheana como salvação que passa pelo gozo infinito do eu. Ratzinger diz que espera que tenhamos aprendido como modelos de redenção baseados em revoluções violentas (como a do líder Barrabás, no evangelho, de Hitler, Stálin, Fidel etc.) só geram tragédias em escala gigantesca. “Leis da história” não existem, são uma bobagem do socialismo pseudocientífico, retórica a serviço da violência.
Quando teólogos distantes da espiritualidade da igreja se confundem e pensam que o Zeitgeist (espírito da época ou do tempo) é um critério possível para uma instituição que tem sua raiz no sobrenatural (...), nascem híbridos como a teologia da libertação, que apesar de ter em si germes do cristianismo (a recusa da pobreza e da injustiça), acabam se transformando em mera facção socialista.
Estes teólogos caem em erros de utilizarem referenciais hermenêuticos que, no limite, produzem a exclusão de Deus. Na relação teórica entre teologia da libertação e marxismo, é aquela que é parasitária. O marxismo não precisa de qualquer teologia (mesmo a que está mais perto dele do que de Deus) para fazer seu trabalho (a não ser como conteúdo retórico). Confunde-se o carisma profético da igreja com uma teoria secular datada. Não há sintonia entre o tempo secular e a vocação profética, essa extemporaneidade é figura da eternidade em diálogo com o tempo.
As interpretações seculares de Deus, como a teologia da libertação, só podem degenerar em visões materialistas do tipo “a Alemanha está mais perto do Reino de Deus que o Brasil porque tem água encanada e distribuição de renda mais igualitária e escola pública”, ou “Deus é a natureza ou o Amor por tudo” -esta forma mais típica do cruzamento com espiritualidades da Nova Era.
As formas de relativismo que cruzam com um culto da subjetividade hedonista também são modos de neopaganização. No fundo, o indiscernimento relativista leva ao individualismo ou ao multiculturalismo oba-oba. Duas questões se cruzam aqui.
Uma que é a da exclusão do sofrimento, tudo é relativo menos meu prazer, e, no plano religioso, significa um deus que serve ao meu eu. Outra que é da própria dinâmica do relativismo que é sua aporia da tolerância por anomia conceitual: a idéia de que não há a possibilidade de que pessoas ou sistemas de idéias ou religiões estejam erradas é infantil. Não é por acaso que frases como “cada um é cada um” são instrumentos de suspensão de pensamento a serviço da preguiça, utilizados largamente por adolescentes irritados diante da demanda de discernimento.
De novo, paz e preguiça mesclados a serviço da anomia. O medo atávico de guerras religiosas nos condena a todos ao imobilismo intelectual. O fato de existirem várias religiões não implica que estejam todas certas. No caso específico do catolicismo, é interessante perceber como todas parecem melhor do que ela, ou merecem menos crítica do que ela. Senso comum é comum nesse assunto como critério suficiente de conhecimento. Diria até que basta falar mal da igreja, acrescentar um pouco de sexo e ter mulheres poderosas como heroínas, para se atingir o sucesso.
Em 1999, num discurso sobre a relação entre lei e ordem em Roma, Ratzinger lembrou seus anos de nacional-socialismo e comentou que era interessante como agora (após os anos 50), a idéia de se estabelecer critérios era vista como “ato fascista”, e que durante os anos do nazismo era o contrário: os cidadãos eram convocados a agir a partir de seus sentimentos “livres e verdadeiros” e não a respeitar as leis estabelecidas.
Vivemos hoje uma clara tendência a uma sensibilidade disseminada em critérios fluidos. Ratzinger vê como um sinal de dissolução o fato da moral hoje ser pensada a partir da lógica de somatório de opiniões, como um consenso de sensibilidades. Evidentemente que essa idéia se parece muito com a noção de que se trata de uma contabilidade de concupiscências estabelecendo contratos.
A teologia de Ratzinger não é um “creio porque é absurdo”, aos moldes de Tertuliano, mas “creio para compreender”, aos moldes de Agostinho. O aparente pessimismo pode ser apenas rigor. No fundo, há sentido, mas há que pensar e contar com a misericórdia de Deus. Os seres humanos gostam de ser acalentados na sua fragilidade estrutural. Quando pessoas nos dizem coisas duras, sofremos. Por isso hoje tendemos a optar por maus pedagogos, mas que mentem para nós, e deuses que nos obedecem em nossa volúvel espiritualidade à venda.

Luiz Felipe Pondé é professor de filosofia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), da Faculdade de Comunicação da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado) e professor-pesquisador convidado da Universidade de Marburg (Alemanha). É autor, entre outros, de “Conhecimento na Desgraça” (Edusp) e “Crítica e Profecia, filosofia da religião em Dostoiévksi” (Ed. 34).

A DEMOCRACIA PRECISA DA RELIGIÃO? UM DEBATE ENTRE HABERMAS E RATZINGER

No dia 19 de janeiro de 2004, o cardeal Joseph Ratzinger e Jürgen Habermas se encontraram na Katholische Akademie in Bayern, em Munique. No encontro se discutiu o tema As bases pré-políticas e morais do Estado democrático. A discussão também tratou de temas, como a complementaridade e a oposição entre razão e fé, a crítica ao capitalismo globalizado, a necessidade de uma base moral nas sociedades pluralistas e midiáticas. Numa época em que a invasão do Iraque pelos EUA estava no centro das discussões, ambos debruçaram-se sobre a necessidade de o poder ser submetido a um direito comum.
Em dois próximos posts irei publicar na íntegra o discurso destes dois grandes intelecuais da atualidade.
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