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A salvação e a opção pela racionalidade no cristianismo

Pedro Ravazzano

O homem é, verdadeiramente, religioso, não só afirma a realidade do que não vê como considera aquilo que não vê como mais real do que o que se vê. Ademais, fundamentado a sua crença naquilo que não é ratificado pela empiria, o homem religioso tornou-se alvo da crítica moderna que se levanta contra a religião numa multiplicidade de argumentos.

L. Feurbach considera a religião como conseqüência da ignorância e da alienação, nada mais do que a projeção do homem em Deus como plenitude dos anseios humanos – homo hominis Deus. Destarte, a derrocada de “Deus” é o meio para o rompimento dos grilhões que aprisionam a capacidade do homem. K. Marx já relaciona a religião com a opressão, o ópio do povo que anestesia a consciência da classe explorada, assim, criação burguesa. S. Freud, por sua vez, referencia a crença religiosa com a neurose coletiva. Entretanto, ainda que exista a possibilidade da demonstração racional da existência de Deus – cinco vias de Santo Tomás – o fundamento filosófico da experiência religiosa vem apenas depois da crença.

O ordo ad Deum – orientado até Deus – do homem é reflexo da sua condição de ser espiritual. Não obstante, a religião é muito contextual, tem todos os condicionamentos da natureza humana e a imagem que temos de Deus é dependente das nossas experiências.

A sociedade religiosa, composta por pessoas unidas por um fim que supera as capacidades individuais, é composta pelos atos religiosos, objetos religiosos – com um valor atribuído pela comunidade e separado do uso profano – e, fundamentalmente, a consciência religiosa. A experiência fenomenológica, religiosa, que gera o sentimento religioso, leva em conta a dimensão histórica, psicológica, interpessoal, material, da religião.

Ainda que, por natureza, o homem busque a Verdade, não necessariamente a conhece. A religião pode, então, ser compreendida como a disposição da vontade na qual é dado livremente culto e honra a Deus, ainda que a ordenação natural do homem a Deus nem sempre seja reconhecida pelo próprio homem. Desse modo, a negação da religião é conseqüência do rechaço moral. Ao ter a disposição de render culto a Deus o homem exerce a virtude da “Religião”. Destarte, a religião ajuda o homem na medida em que fomenta a sua liberdade, um influxo que respeita a liberdade e encaminha para a Verdade.

Entretanto, o cristianismo ainda que parta dessa visão geral do fenômeno religioso tem em suas notas fundamentais uma radical distinção com todas as manifestações religiosas, do Deus que rompe o seu isolamento transcendental e fala aos homens como homem. Para a fé cristã todos os seres humanos são chamados à salvação – desde já se destaca o contra-senso da heresia da predestinação negativa dos calvinistas. Não obstante, existe a necessidade da conciliação entre essa vontade universal salvífica de Deus e a necessidade da Igreja.

Pontuamos, outrossim, a importância de diferenciar o cristianismo, em sua real compreensão, do cristianismo débil, isto é, uma crença que não tem noção forte da Verdade, que nega a objetividade da Revelação, fundamentado numa experiência sem conteúdo - o reino da experiência em detrimento da objetividade da fé. A heresia do bem-estar rechaça a exatidão dogmática substituindo-a pelo subjetivismo radical da experiência individual. Não se deve, em hipótese alguma, confundir a vida espiritual com a psicologia, afinal o estado de graça não necessariamente está unido ao bem estar que é de caráter emocional.

O cristianismo tornou-se catalisador de realidades culturais diferentes, dando origem a uma nova cultura – "Majestosa, a princesa real vem chegando, vestida de ricos brocados de ouro". O concílio Vaticano II inaugurou uma leitura teológica que, ainda que não rompa com a Tradição, mudou a perspectiva em relação à teologia das religiões.

Antes de tudo devemos partir de algumas premissas fundamentais: o reconhecimento da capacidade do intelecto humano de conhecer a Verdade, a Revelação de Deus como critério último de verificação, e recursos para compreender a Verdade revelada. Ademais, tanto a vontade salvífica universal e a necessidade da Igreja na salvação devem também ser entendidas como verdade.

No tocante à reflexão da teologia das religiões o Magistério – que não faz teologia, mas testemunha a fé e a defende – impõe os limites. O documento Dominus Iesus, por exemplo, coloca alguns pontos basilares nessa análise: a plenitude e definitividade da verdade de Nosso Senhor Jesus Cristo, a unidade indissolúvel entre a economia do Logos e do Espírito Santo, a unidade e universalidade do mistério salvífico de Cristo, a unidade e unicidade da Igreja de Cristo, prolongação da ação de Cristo no mundo.

Apenas o cristianismo realiza de modo completo e definitivo a relação do homem com Deus. A definitividade absoluta da fé cristã vem da sua opção pela racionalidade, por isso a crise da verdade leva à crise do cristianismo. Do mesmo modo, a crise da metafísica – "A crise do mundo moderno é uma crise metafísica" Pe. Leonel Franca – também problematiza a realidade da Civilização Ocidental atual.

O cristianismo rompe com o mito do eterno retorno fundamental nas religiões tradicionais. O in illo tempore não é mais o tempo mítico, mas sim o hoje já que Cristo é manifestação de Deus na história que se prolonga no tempo nos sacramentos e na Igreja. O cristianismo fez a opção preferencial pela racionalidade, confiança na capacidade do homem de alcançar a Verdade por meio do pensamento, harmonia entre fé e razão rompida por Guilherme de Ockham.

Santo Tomás coloca que só na Igreja há os sacramentos e a fé necessárias para a salvação. Esta, por sua vez, pode ser conquistada por duas vias: a fé explícita; confessar a fé em Cristo, e a fé implícita; a salvação pelos méritos dos sacramentos, confiança na Providência de Deus e indiretamente confiança no amor encarnado e de sua ação na história. Ademais, a infidelidade se configura junto àqueles que se obstinam em ir contra a fé previamente anunciada e aos que nunca ouviram, que vivem em ignorância. Os primeiros são passíveis de culpa enquanto os segundos são inculpáveis e, caso sejam fiéis à sua consciência, seguindo a lei natural, gozam da fé implícita.

Francisco de Vitória dissera que os pagãos eram condenados pelos seus pecados mortais e pela idolatria, mas seguindo a lei natural eram iluminados por Cristo. Domingo de Soto afirmara o mesmo em relação aos judeus e muçulmanos. A Revelação final é Cristo, mas ainda que o seu anúncio dependa, obviamente, da linguagem, dos símbolos e da forma, não se pode aceitar o pluralismo de iure, como vias alternativas à fé cristã queridas por Deus. Ainda que os confins visíveis da Igreja não sejam sinônimos dos confins espirituais, como colocara Joseph Ratzinger.

Fonte: www.acarajeconservador.blogspot.com

Blogueiros convidam Igreja a não ter medo do debate

Primeiro encontro no Vaticano

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 4 de maio de 2011 (ZENIT.org) - Os participantes do encontro com blogueiros, organizado em 2 de maio no Vaticano pelo Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais e pelo Conselho Pontifício para a Cultura, lançaram um apelo à Igreja a não ter medo do debate.
Os 150 blogueiros formaram uma assembleia muito diferente da que geralmente se reúne na Via dell'Ospedale, junto à Via della Conciliazione. Assim que se sentaram, praticamente todos ligaram seus laptops ou pegaram seus telefone celulares para se conectar à internet.
E durante o encontro, a discussão no Facebook e no Twitter alcançou uma intensidade tremenda.
Um encontro, portanto, tanto físico quanto virtual, para permitir que os outros 750 blogueiros inscritos, que por falta de espaço não puderam participar, pudessem acompanhá-lo de perto.
Esta reunião pretendia ser muito aberta, como declarou o presidente do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais, Dom Claudio Maria Celli, no início da sessão, afirmando que não se tratava de "um encontro de blogueiros católicos, embora muitos de vocês se inspirem nos valores do Evangelho, mas de um momento motivado sobretudo por um diálogo respeitoso, como o Papa nos convida, muitas vezes: um respeito pela verdade".
O primeiro painel abriu a palavra a vários dos blogueiros, que destacaram a importância dessa forma de comunicação na internet. Segundo eles, por meio dos blogs, a fé pode ser transmitida e as discussões são realizadas entre as pessoas presentes na rede.
Citando as palavras de João Paulo II, Andrés Beltramo, autor do blog "Sacro e profano", correspondente em Roma da agência ‘Notimex', convidou a Igreja a não ter medo de abrir estes debates. Este foi um conselho retomado pelo autor italiano de vários blogs, Mattia Marasco, quem convidou a Igreja a "atrever-se mais" neste campo.
Os primeiros cinco a tomar a palavra insistiram no aspecto missionário dos blogs.
O Pe. Roderick Vonhögen confessou que descobriu quase por acaso a força e o poder dos blogs. Enviando vídeos pela internet, ele se tornou "um pastor para pessoas que precisam dele" e que o buscam na internet. Este sacerdote holandês, que publica suas intervenções em inglês, compara sua atividade pastoral na rede à construção de uma comunidade local.
O Pe. Federico Lombardi SJ, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, indicou um dos aspectos mais importantes dos blogs para a comunidade cristã: "Os blogueiros católicos são a opinião pública na Igreja. O magistério conciliar previa esta realidade, que não foi muito desenvolvida".
Outros representantes da Santa Sé ilustraram a escassez de recursos da Igreja para estar presente na internet, o que promoveu nos últimos tempos o uso das redes sociais - que estão sendo utilizadas de maneira particularmente eficaz pela organização da próxima Jornada Mundial da Juventude, segundo se constatou.
Este encontro de breve duração foi apresentado por Dom Celli como o início de outras possíveis iniciativas de maior envergadura. Para a Santa Sé, reconheceu ele, o evento serviu para chegar a "uma conscientização oficial da existência e da importância da blogosfera na vida de hoje".
No rosto dos blogueiros, por outro lado, foi constatada a alegria provocada pelo encontro com colegas de outros cantos do mundo, com interesses comuns.
Um elemento surgiu com clareza das discussões: o nascimento de um novo tipo de presença pastoral na internet, até o ponto de que, segundo o sacerdote italiano Marco Sanavio, hoje é necessária a figura do "web-pastor".
Uma missão que surgiu em várias ocasiões no encontro e que foi claramente apresentada por François Jeanne-Beylot: "Se Cristo viesse pregar hoje, não subiria numa montanha ou num barco, mas iria ao Twitter ou criaria um blog".
(Stéphane Lemessin)

Fé e Ciência: «É tempo de caminhar lado a lado para o mesmo bem comum»

"Coimbra, 04 abr 2011 (Ecclesia) — O grupo 'Fé e Razão na Academia' (FRA), em Coimbra, desafia os investigadores da Ciência e da Teologia a porem de lado as suas diferenças, em nome de um 'conhecimento mais completo da realidade'. 
'Acredito que se chegou a um acordo de cavalheiros, de respeito mútuo, e é tempo de passar à próxima fase, perceber que as duas perspetivas caminham lado a lado para o mesmo bem comum' sublinha Inês Santos, em declarações prestadas à ECCLESIA, esta sexta-feira, durante um colóquio intitulado 'Ciência e Deus'. 
A iniciativa, organizada pelo Instituto Universitário Justiça e Paz, em conjunto com o FRA, reuniu um conjunto de cientistas e teólogos, que procuraram transmitir a forma como lidam com esta tensão, nas respetivas áreas de saber. 
O cientista Carlos Fiolhais, num painel intitulado «Em que crê um cientista?», sublinhou que a Ciência e a Fé 'respondem a ânsias fundamentais' do ser humano, apesar de serem 'atividades distintas'. 
Para o diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, é preciso favorecer não só o convívio mas principalmente o 'enriquecimento mútuo'. 
Uma ideia reforçada pelo padre Vasco Pinto Magalhães, na sua dissertação sobre 'Como conciliar Ciência e Deus'. 
O jesuíta, que se dedica sobretudo à Pastoral Universitária mas tem também larga experiência em matéria de Bioética, disse que 'nada ajuda tanto a ciência como uma saudável crença em Deus'. 
Alertou ainda para os perigos de uma 'absolutização da ciência' ou de uma 'leitura à letra da bíblia'. 
O evento deu corpo à primeira iniciativa pública do FRA, um grupo de estudantes, investigadores e professores que começou a reunir-se há cerca de um ano e meio, depois de um repto lançado pelo Instituto Universitário Justiça e Paz (IUJP).
'Somos cientistas ou investigadores, mas também somos católicos e não são duas gavetas diferentes' realça Inês Santos, que integra este núcleo ao mesmo tempo que está a acabar o seu doutoramento na Universidade de Coimbra. 
O que começou por ser uma simples mesa redonda à volta da encíclica Fides et Ratio, de João Paulo II, passou agora a ser um fórum mais alargado, que poderá ter novas iniciativas no futuro. 
Para o padre Nuno Santos, do IUJP, trata-se sobretudo de um 'desafio de humildade', e perceber que 'nem Fé nem Ciência explicam tudo'. 'Acho que saímos a ganhar quando conseguimos colocar esta tensão em cima da mesa e penso que em Portugal isto não tem sido feito ao nível académico' conclui. PTE/JCP" 

Fonte: Agência Ecclesia
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