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"Se Deus não existisse, não haveria ateus." G. K. Chesterton
"Homens que começam a combater a Igreja em beneficio da liberdade e da humanidade terminam jogando fora a liberdade e a humanidade só para poderem com isso combater a Igreja."
G. K. Chesterton

AS PESSOAS NÃO SABEM COMO COMEÇAR A PENSAR

"O que observamos sobre toda a cultura atual do jornalismo e das discussões gerais é que as pessoas não sabem como começar a pensar. Não somente que seu pensamento é de terceira ou quarta mão, mas que ele começa já na terça parte do processo. Os homens não sabem de onde vêm seus pensamentos. Eles não sabem quais as conseqüências de suas palavras. Eles chegam ao final de toda controvérsia e não sabem de onde ela começou ou de que se trata. Eles estão sempre supondo certos absolutos, que, se corretamente definidos, chocariam até eles próprios como sendo não absolutos mas absurdos. Pensar é assim estar num emaranhado; continuar a pensar é se aprofundar mais e mais no emaranhado. E por trás de tudo há sempre algo entendido; que é realmente mal-entendido."

Fragmento retirado do livro "A Coisa" de G. K. Chesterton

É PRECISO ALARGAR A RAZÃO PARA ENXERGAR AS COISAS SIMPLES

Gilbert Keith Chesterton
A maior parte dos homens retornaria aos antigos costumes em matéria de fé e de moral se conseguissem ampliar suficientemente os seus horizontes. É principalmente a sua estreiteza mental que os mantém nos trilhos da negação. Mas esse alargamento mental é facilmente mal interpretado, porque a mente precisa ser alargada para poder enxergar as coisas simples, ou mesmo as que são evidentes em si mesmas. Temos necessidade de uma espécie de esticamento da nossa imaginação para conseguirmos ver os objetos óbvios delinearem-se contra o seu fundo óbvio, especialmente quando se trata de objetos grandes colocados diante de um fundo grande.
(...)
O crítico nunca se lembra de fazer alguma coisa tão simples como comparar o católico com o não-católico. A única coisa que nunca parece cruzar-lhe a mente, quando argumenta acerca da idéia que tem da Igreja, é perguntar-se com toda a simplicidade que seria do mundo sem a Igreja.
(...)
Qual o resultado que obteremos se compararmos a Igreja com o “mundo” que está fora dela, ou que se opõe a ela, ou que nos é oferecido como uma alternativa para a Igreja? E a evidente resposta é que o “mundo”comete todas as barbaridades de que sempre acusou a Igreja, e as comete de maneira muito pior, e as comete em escala muito maior, e – e isto é o pior e o mais importante – as comete sem dispor de padrões para voltar à sanidade nem de motivos para fazer um movimento de penitência. Os abusos católicos podem ser reformados, porque dispomos de uma forma universalmente aceita; os pecados católicos podem ser expiados, porque há um teste e um princípio de expiação. Em que outra parte do mundo de hoje havemos de encontrar semelhante teste ou padrão?.
(...)
O perigo atual é que as pessoas não se dispõem a ampliar suficientemente os seus horizontes a ponto de se tornarem capazes de enxergar as coisas óbvias, e esta é uma delas. Os homens acusam a tradição Romana de ser semi-pagã, e depois se refugiam num paganismo completo; queixam-se de que os cristãos se deixaram contaminar pelo paganismo, e depois fogem dos doentes para se refugiarem junto à doença. Não há uma única falta institucional imputada à Igreja Católica que não esteja presente de maneira muitíssimo mais flagrante, e até gritante, em qualquer outra instituição – o Estado, a Escola, a moderna máquina tributária e policial – que as pessoas se voltam, na esperança de que serão salvas por elas da superstição dos seus pais. Esta é a contradição, esta é a violenta colisão, este é o inevitável desastre intelectual em que estão envolvidas até as orelhas. Quanto a nós, só nos resta esperar, pondo em jogo toda a paciência de que sejamos capazes, até descobrirmos quanto tempo levarão para descobrir o que foi que lhes aconteceu.

Entrevista sobre Chesterton

Em 14 de junho, a edição italiana do L’Osservatore Romano, publicou uma entrevista de Paolo Pegoraro com Ian Boyd, fundador e diretor da Chesterton Review. Segue a tradução abaixo. À produção menos conhecida de Gilbert Keith Chesterton pertence A Ressurreição de Roma (The Resurrection of Rome, não traduzido para o português) – embora redescoberta nos anos recentes – quase um diário de viagem do escritor inglês na capital italiana. Parafraseando o título se pode dizer que este sábado, em Roma, será a “ressurreição de Chesterton”. O mérito deste portentoso evento deve ser atribuído sobretudo a “La Civiltà Cattolica”, a revista dos jesuítas que hospedará um congresso internacional sobre o criador do Padre Brown (personagem dos romances policiais de Chesterton), o primeiro deste nível na Itália, dedicado ao conhecido escritor. Convidado de honra será Padre Ian Boyd, sacerdote da congregação de São Basílio, perito em Chesterton, fundador e diretor da “Chesterton Review” além de Presidente do Chesterton Institute for Faith & Culture da Universidade de Seton Hall em New Jersey que, juntamente com a “La Civiltà Cattolica” e com a Bomba Carta, organizou a manifestação. Nós o encontramos em seu desembarque em Roma e nos declara imediatamente ser um tanto levado a descobrir porque hoje na Itália Chesterton seja pouco conhecido.
“Parece-me que as notícias relativas ao esquecimento de Chesterton são exageradas. Nos Estados Unidos existe recentemente uma grande redescoberta de Chesterton: muitos livros seus estão sendo reeditados e os congressos reúnem centenas de pessoas a cada ano. Faz poucos anos o presidente Bush, na sua visita à China, citou uma famosa definição que Chesterton fez da América: ‘uma nação com a alma de uma Igreja’. Mas também na Europa eu diria que acontece o mesmo fenômeno: o nosso instituto realizou conferências em toda a Europa – em lugares diversos como Irlanda, Inglaterra, Lituânia e Croácia – que tiveram enorme sucesso. Além disso, deve-se dizer que a Europa enfrenta hoje graves desafios éticos e culturais e faria bem em considerar Chesterton como guia nestas dificuldades. Direi ainda que um bom indicativo da força de uma cultura se encontra na medida de sua capacidade de responder a uma provocação, ao mesmo tempo sábia e imaginativa, como aquela oferecida por Chesterton”. Em que sentido Chesterton pode ser considerado um profeta dos nossos dias?
Ele foi um profeta pela simples razão de que tudo que escreveu se concretizou. Aqueles coisas que aos seus contemporâneos pareciam fantasias, nos parecem hoje como a descrição do mundo atual. Por exemplo, no seu jornal, o G. K.’s Weekly, em 19 de junho de 1926 ele escreve que “a próxima grande heresia será um ataque à moral, e em particular à moral sexual (...) A loucura de amanhã não está em Moscou, mas sobretudo em Manhattan”. Ainda antes, em 1905, havia escrito no Daily News: “Antes que a idéia liberal morra ou triunfe, nós veremos guerras e perseguições tais que o mundo jamais viu”. Como escreveu Alan Lawson Maycock na antologia dos escritos de Chesterton (intitulada The Man Who Was Orthodox), de sua responsabilidade, ele (Chesterton) possuía “aquele raro poder de intuição que em literatura é chamado o dom da sabedoria”.
O que há de vivo, hoje, nas obras e na mensagem de GKC?
A obra de Chesterton é de certo modo compacta e é pois muito difícil separar os vários componentes. Em geral ele ofereceu uma visão “sacramental” do mundo, uma idéia do divino que é mediada através das coisas materiais. Neste sentido ele tem muitas coisas importantes a dizer sobre economia, família; realidade que ele considera essencial para o crescimento do homem e da sociedade. Ele era a favor do pequeno empreendimento, da distribuição da riqueza e nutria um intenso interesse pelos assuntos relativos às realidades locais, destacando a importância da adesão ao próprio lugar de origem. Chesterton lutou com paixão a favor da casa e da família. Mas estas são apenas duas entre tantas coisas que ele tinha a dizer.
Qual foi a relação de Chesterton com a razão? A razão é algo a defender e a revalorizar ou é um laço sufocante para o homem?
A melhor resposta a esta pergunta, penso que se encontra no primeiro episódio das estórias do Padre Brown, A Cruz Azul. Nesta estória, Padre Brown chega a identificar o conhecido ladrão francês, Flambeau, disfarçado de padre, porque este último ataca o uso da razão e isto é, diz Padre Brown, péssima teologia (nos dias de hoje, a péssima teologia do ladrão disfarçado de padre, só reforçaria a eficácia de seu disfarce!!!). Por outro lado, Chesterton insistiu com freqüência sobre os limites não tanto da razão quanto do racionalismo. O primeiro valor da lógica, disse uma vez, é ser uma arma com a qual derrotar os lógicos. O ponto que está realmente no coração de Chesterton é que, segundo ele, o homem deveria combinar razão e imaginação. O pensador construtivo é como Neemias que defende os muros de Jerusalém com uma pá de pedreiro em uma mão e a espada na outra (Neemias 4, 1-12): a pá representa a imaginação, o poder construtivo; a espada é a razão, o instrumento defensivo. Tudo é bem resumido no conselho que ele dá ao jovem rapaz ao qual presenteou com um livro ilustrado: “Assim recorda-te do teu livro, meu jovenzinho, / e escuta as palavras e as críticas dos intelectuais. / Mas não creia em nada que não possa ser relatado em imagens coloridas”.
Ainda sobre sua relação com a razão, considerando que os últimos dois Papas apreciaram muito os escritos de Chesterton, se pode dizer que ele tenha sido um escritor “ratzingeriano” pela sua defesa da razão, mas também tomista como João Paulo II?
Pergunta muito interessante, mas eu sugeriria que se fizesse uma distinção entre o tomismo e o agostinismo que Chesterton explorou. De uma parte ele foi profundamente tomista, e deste ponto de vista, mais próximo de João Paulo II. No seu grande livro sobre Santo Tomás, que Etienne Gilson considerou o mais belo livro escrito sobre o santo, ele fala da “paixão pela vida” de Tomás e insiste, contraponto Tomás a Platão, que quando as coisas materiais nos enganam isto acontece não porque sejam transitórias mas porque são, ao mesmo tempo, muito mais reais. Ele é também profundamente agostiniano na convicção que a verdade pode ser descrita através de parábolas e que todos os eventos devem ser lidos como parte de um texto sagrado. Nesta convicção, a vida humana é uma história terrestre com um significado celeste, uma re-proclamação da história do Evangelho. E me agrada acrescentar que também João Paulo (se refere a Albino Luciani, João Paulo I) foi um Papa “chestertoniano”: a sua deliciosa carta aos escritores ingleses, que se encontra no volume “Ilustríssimos Senhores” (escrita quando o Papa Luciani era Patriarca de Veneza), com a sua aguda leitura de um romance um tanto obscuro, como A Esfera e a Cruz (desconheço se existe uma tradução para o português), mostra um amor por Chesterton que é profundo e comovente.
Chesterton não teve filhos naturais. Há escritores que possam ser considerados seus filhos espirituais?
Certamente Clive S. Lewis, que atribui a Chesterton a sua conversão ao cristianismo. Também John R. R. Tolkien (autor de O Senhor dos Anéis) e Graham Greene admiravam profundamente Chesterton como também o poeta e escritor argentino Jorge Luis Borges. Conta-se que Franz Kafka quando leu “O Homem que era Quinta-feira” sem nada saber a respeito do autor, disse que estava certo de que o autor tivesse encontrado Deus. (Entre nós podemos citar Gustavo Corção e Alceu Amoroso Lima entre os admiradores de Chesterton)
E quais são, por outro lado, os pais espirituais de Chesterton?
Talvez a maior influência sobre Chesterton tenha sido a do pouco conhecido George MacDonald, amigo de Lewis Carrol e autor de algumas belíssimas estórias fantásticas para crianças. De MacDonald Chesterton retirou muito do seu conceito de “imaginação sacramental”. Depois John Henry Newman: o próprio Chesterton afirma ter lido todas as obras de Newman, no que se pode acreditar tranqüilamente. Diria que também Robert L Stevenson foi muito importante para Chesterton, como, obviamente foi Charles Dickens – com o seu amor por aquilo que pode ser definido o extraordinário poder das pessoas comuns – e Robert Browning a quem dedicou sua primeira e melhor biografia. Por fim, Chesterton mesmo sempre reconheceu em si a grande influência daquela filosofia derivada das leitura das fábulas, que poderíamos definir como sabedoria da humanidade.

CHESTERTON: ALGUNS TEXTOS

Links para alguns textos de chesterton:

UM RETRATO DE G. K. CHESTERTON

Quem é esse sujeito, e por que nunca ouvi falar dele?
Um retrato de Gilbert Keith Chesterton, um dos maiores e mais influentes intelectuais do século XX, que por razões inconfessáveis ainda é um desconhecido para amplos setores da sociedade contemporânea Por Dale Ahlquist Já ouvi muitas vezes as perguntas acima, feitas por pessoas que estavam começando a descobrir Chesterton. Tinham começado a ler um livro seu, ou viram uma edição da revista Gilbert!, ou ainda toparam com algumas das suas famosas frases incisivas, que formulam de maneira maravilhosa um pouco desse bom senso tão esquecido. Os que levantavam essas questões, faziam-no num tom de assombro misturado com gratidão e... com uma certa irritação. Estavam deslumbrados com o que tinham descoberto, agradecidos por terem feito essa descoberta e como que incomodados por terem demorado tanto tempo a descobri-la.
"QUEM É ESSE SUJEITO?..."
Gilbert Keith Chesterton (1874 1936) não pode ser resumido numa frase nem num parágrafo. Apesar de se terem escrito excelentes biografias sobre ele, nunca foi realmente “capturado” nas páginas de um livro. Mas, ao invés de esperarmos até ter separado as ovelhas dos cabritos, vamos direto ao ponto e digamos claramente: Chesterton foi o melhor escritor do século XX. Teve algo a dizer sobre todos os assuntos, e disse-o melhor do que ninguém. Não era, porém, um mero fraseólogo: sabia expressar se muitíssimo bem, mas – o que é mais importante – também tinha coisas muitíssimo boas para expressar. Pois a razão pela qual foi o maior escritor do século XX é que foi o maior pensador do século XX.
Nascido em Londres, Chesterton estudou no Saint Paul’s College, mas não freqüentou a Faculdade, e sim a Escola de Artes. Em 1900, pediram lhe que escrevesse uns artigos de crítica de Arte para uma revista, e partindo daí acabou por tornar-se um dos mais prolíficos escritores de todos os tempos. Chesterton escreveu uma centena de livros, contribuições para outros duzentos, centenas de poemas, incluindo o épico Ballad of the White Horse, cinco peças de teatro, cinco romances e uns duzentos contos, incluindo a popular série sobre o Padre Brown, o padre detetive.
No entanto, apesar das suas habilidades literárias, Chesterton considerava-se acima de tudo um jornalista. Escreveu mais de 4000 artigos, entre os quais trinta anos de colunas semanais para o Illustrated London News e treze anos de colunas semanais para o Daily News, além dos textos diversos que redigiu para o seu próprio jornal, o G.K.’s Weekly. (Para se ter uma idéia, 4000 artigos equivalem a escrever um artigo por dia, todos os dias, durante onze anos. Se isso não o impressiona, tente fazê-lo, não digo por onze anos, mas por algumas semanas. E lembre se: os artigos devem ser todos bons, tão divertidos quanto profundos, e ainda por cima devem poder ser lidos com proveito daqui a cem anos.)Chesterton movia se com igual desembaraço em crítica literária ou social, História, Política, Economia, Filosofia e Teologia. O seu estilo é inconfundível, sempre marcado pela humildade, pela consistência, pelo paradoxo, pela sagacidade e pelo encanto. Os seus escritos continuam tão atuais e permanentes hoje como no momento em que surgiram, apesar de muitos deles terem sido publicados pela primeira vez em jornais.
O homem que compôs frases tão perfeitas e profundas como "Não é que o ideal cristão tenha sido testado e considerado insuficiente; foi considerado difícil demais e deixado de lado sem testar" ("The Christian ideal has not been tried and found wanting; it has been found difficult and left untried"), media 2,09 metros de altura, pesava uns 140 quilos e costumava ter um charuto na boca. Passeava usando uma capa, um chapéu amarrotado, minúsculos óculos na ponta do nariz e uma bengala na mão, soprando alegremente o seu bigode. E quase sempre não tinha a menor idéia de onde ou quando era o seu próximo compromisso.
Boa parte dos seus escritos foram elaborados em estações de trem, pois ele costumava perder o trem que devia tomar. Um episódio famoso que se conta a seu respeito é que certo dia a sua esposa recebeu um telefonema em que ele lhe perguntava: "Estou em Harborough Market. Onde deveria estar agora?" A sua dedicada esposa, Frances, estava sempre pendente dos menores detalhes da sua vida, uma vez que estava mais do que claro que ele mesmo não tinha a menor aptidão para as pequenas coisas concretas. Mais tarde, passou a receber a ajuda de uma secretária, Dorothy Collins, que se tornou praticamente filha adotiva do casal e depois administradora do legado literário de Chesterton, levando adiante a publicação das suas obras após a morte.Esse distraído, enorme e travesso homenzarrão, que ria das suas próprias piadas e divertia as crianças em festinhas de aniversário lançando balas ao ar e apanhando as com a boca, foi o homem que escreveu a obra intitulada O Homem Eterno, que levaria um jovem ateu chamado C.S. Lewis a tornar se cristão. Foi ele quem escreveu um romance intitulado O Napoleão de Nothing Hill, que inspiraria Michael Collins a liderar o movimento pela independência da Irlanda. E foi também ele o autor de um artigo no Illustrated London News que inspiraria Mohandas Gandhi a liderar o movimento que pôs fim ao domínio colonial inglês na Índia.
Esse foi o homem que, solicitado a escrever um livro sobre São Tomás de Aquino, pediu à secretária que retirasse uma pilha de livros de São Tomás da biblioteca, abriu o primeiro, folheou o do começo ao fim, fechou o e começou a ditar a obra sobre o santo teólogo. E, ao contrário do que esperaríamos, não lhe saiu um livro qualquer. Ninguém menos do que o renomado especialista em tomismo e Filosofia Medieval, Étienne Gilson, viria a dizer dessa obra:
"Considero, sem comparação alguma, que é o melhor livro jamais escrito sobre São Tomás. Só um gênio podia fazer algo assim. Todo o mundo admitirá, sem nenhuma dúvida, que se trata de um livro inteligente; mas os poucos leitores que tiverem passado vinte ou trinta anos estudando São Tomás de Aquino e publicado dois ou três volumes sobre o tema terão de reconhecer que a chispa de gênio de Chesterton lhes deixou ao rés do chão a erudição. Tudo o que eles tentavam expressar desajeitadamente em fórmulas acadêmicas foi expressado por Chesterton. Esse homem foi um dos pensadores mais profundos que jamais existiram. Era profundo porque tinha razão, e não podia deixar de tê la; mas também não conseguia deixar de ser modesto e amável; por isso, deixava os que concordavam com ele pensarem que estava certo e era profundo; quanto aos outros, desculpava se por ter razão, e fazia se perdoar a profundidade com o engenho, pois era só o que eles conseguiam ver nele."
Chesterton discutiu com muitos dos mais célebres intelectuais do seu tempo: George Bernard Shaw, H.G. Wells, Bertrand Russell, Clarence Darrow. Segundo os relatos da época, costumava sair vencedor dessas disputas. O mundo, porém, imortalizou os seus oponentes e esqueceu Chesterton, de modo que hoje só nos dão a ouvir um dos lados da argumentação e nos obrigam a aturar as heranças do socialismo, do relativismo, do materialismo e do ceticismo. A ironia disso é que todos os seus oponentes tratavam Chesterton com a máxima consideração e estima; Shaw, por exemplo, chegou a dizer: "O mundo não agradeceu o suficiente a Chesterton".
Os seus escritos foram aplaudidos e elogiados por Ernest Hemingway, Graham Greene, Evelyn Waugh, Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Karel Capek, Marshall McLuhan, Paul Claudel, Dorothy L. Sayers, Agatha Christie, Sigrid Undset, Ronald Knox, Kingsley Amis, W.H. Auden, Anthony Burgess, E.F. Schumacher, Neil Gaiman e Orson Welles, para só citar alguns poucos. E T.S. Eliot afirmou que Chesterton "merece o direito perpétuo à nossa lealdade"....
E POR QUE NUNCA OUVI FALAR DELE?
"Há três respostas possíveis para essa pergunta:
1. Não sei.
2. Você foi enganado.
3. Chesterton é o escritor mais injustamente desprezado do nosso tempo. Talvez esta seja mais uma prova de que a educação é importante demais para ser deixada nas mãos dos burocratas do ensino, e de que a publicação de livros é importante demais para ser deixada nas mãos dos editores. Mas isso não desculpa que se tenha deixado de ensinar Chesterton nas nossas escolas, de reeditar amplamente os seus escritos e de mencioná los com o destaque que merecem nas antologias de textos universitários.
Seja como for, existe uma desculpa para isso: Chesterton é duro de classificar, e se um escritor não pode ser adscrito a uma categoria nem rotulado sumariamente com uma só palavra, corre o risco de escorrer pelo ralo. Mesmo que meça mais de dois metros e pese cento e quarenta quilos.
Mas há ainda um outro problema. Os pensadores, os críticos e os comentaristas modernos acharam muito mais conveniente ignorar Chesterton do que fazê lo comparecer numa discussão, porque argumentar com Chesterton equivale a ser derrotado.
Chesterton debateu de forma eloqüente todas as variadas ideologias surgidas no século XX: o materialismo, o determinismo científico, o relativismo moral e o agnosticismo invertebrado. Além disso, combateu tanto o socialismo quanto o capitalismo, mostrando porque ambos têm sido inimigos da liberdade e da justiça na sociedade moderna.
Mas a que coisas ele era favorável? O que defendia? Defendia o homem comum e o bom senso. Defendia o pobre. Defendia a família. Defendia a beleza. E defendia a Cristandade e a Fé Católica. Temas que não andam muito em voga nas salas de aula, na mídia ou no debate público. E é provavelmente por isso que ele é desprezado. O mundo moderno prefere escritores que sejam esnobes, que tenham idéias exóticas e bizarras, que glorifiquem a decadência, que ridicularizem os católicos, que neguem a dignidade dos pobres e que digam que liberdade não implica nenhuma responsabilidade.
Mas, mesmo que Chesterton já não seja ensinado nas escolas, você não pode considerar se educado enquanto não ler o Chesterton completo. Além disso, ler todo o Chesterton é por si só uma educação quase completa. Chesterton é realmente um professor, e dos melhores. Ele não irá somente surpreendê lo. Não irá operar apenas o prodígio de fazer você pensar. Ele irá mais além: fará você rir.

Para entender a Idade Média

Por Gilbert Keith Chesterton E por que homens que não conhecem a História... pensam que a conhecem? É inteiramente razoável que os homens prósperos do nosso tempo não saibam História. Se a conhecessem, teriam de conhecer a história muito pouco edificante de como se tornaram prósperos...

É inteiramente razoável, digo, que não saibam História: mas por que raios pensam que sabem? Aqui está uma opinião, tomada a esmo do livro de um dos mais cultos dentre os nossos jovens críticos, obra muito bem escrita e inteiramente digna de confiança – quando trata do seu próprio tema, que é um tema moderno. Diz esse escritor: “Na Idade Média, houve pouco ou nenhum avanço social ou político” até a Reforma e a Renascença.

Ora, eu poderia igualmente bem afirmar que, no século XIX, houve pouco avanço na ciência e na técnica até a vinda de William Morris (1), e depois justificar essa afirmação dizendo que não tenho nenhum interesse pessoal por teares a vapor ou águas-vivas – o que certamente é o caso. Porque isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer: que não tem nenhum interesse pessoal por arautos ou abades mitrados. Tudo isso está muito bem; mas por que, ao escrever sobre coisas que não existiam na Idade Média, esse autor sente a necessidade de dogmatizar sobre um assunto de que evidentemente nunca ouviu falar? E sobre o qual, apesar de tudo, talvez ainda se pudesse contar uma História muito interessante?

Pouco antes da conquista pelos normandos (2), países como o nosso apresentavam um feudalismo ainda incipiente e completamente pulverizado, sulcado por contínuas ondas de bárbaros, bárbaros que nunca tinham montado um cavalo. Praticamente não havia casa de pedra ou de tijolo na Inglaterra; quase não havia estradas, apenas sendas batidas; praticamente não havia lei, apenas costumes locais. Essa era a Idade das Trevas, da qual surgiria a Idade Média.

Mas tomemos agora a Baixa Idade Média, duzentos anos depois da conquista normanda e praticamente outro tanto antes do início da Reforma. As grandes cidades surgiram; os cidadãos são privilegiados e importantes; os trabalhadores organizaram-se em Corporações de Ofício livres e responsáveis; os Parlamentos são poderosos e litigam com os próprios reis; a escravidão desapareceu quase por completo; abriram-se as grandes Universidades, que ministram esse programa de ensino tão admirado por Huxley (3); repúblicas tão orgulhosas e patrióticas como as dos antigos pagãos erguem-se como estátuas de mármore ao longo da costa mediterrânea; e por todo o norte os homens construíram igrejas tão grandiosas que os homens talvez nunca mais as igualem. E isso – que, na sua maior parte, foi realizado mais propriamente não em dois, mas em um século –, é a isso é o que o nosso crítico chama “pouco ou nenhum avanço social ou político”. Praticamente não há instituição moderna importante que tenha influenciado a sua vida – da escola em que estudou ao Parlamento que o governa –, que não teve os seus principais avanços na Idade Média.

Se alguém pensa que escrevo isso por pedantismo, espero poder mostrar-lhe em um momento que tenho um objetivo mais humilde e mais prático. Quero considerar a natureza da ignorância, e começo por dizer que, em qualquer sentido escolar e acadêmico, sou eu mesmo muito ignorante. Assim como dizemos de um homem como Lord Brougham (4) que tinha um grande conhecimento geral, eu diria que tenho uma grande ignorância geral.

Só que este é exatamente o ponto a que pretendia chegar. É um conhecimento geral e uma ignorância geral: sei pouco de História, mas sei um pouco de quase toda a História. Não sei muito, digamos, sobre Martinho Lutero e sua Reforma, mas sei que ela fez uma diferença enorme; ora, não saber que o rápido progresso dos séculos XII e XIII fez uma diferença enorme é pelo menos tão extraordinário como nunca ter ouvido falar de Martinho Lutero. Também não estou muito bem informado sobre os budistas, mas sei que se interessam por filosofia; não saber que os budistas se interessam por filosofia, acredite em mim, seria tão chocante como não saber que os medievais se interessavam pela experimentação e pelo progresso políticos.

Da mesma forma, não sei muito sobre Frederico o Grande. Na minha infância, a enorme coleção de volumes de Carlyle sobre o assunto inspirava-me medo: parecia haver tantas coisas a conhecer! No entanto, apesar desses receios, eu seria perfeitamente capaz de adivinhar, com uma razoável probabilidade de acerto, o tipo de assunto que esses volumes continham. Por exemplo, eu arriscaria (penso que não incorretamente) que os volumes deviam conter a palavra “Prússia” em um ou mais lugares; que, de tempos a tempos, se falaria de guerra; que se faria alguma menção de tratados e fronteiras; que a palavra “Silésia” poderia ser encontrada caso se procurasse diligentemente, bem como os nomes de Maria Teresa e Voltaire; que em algum lugar de todos aqueles volumes, o seu grande autor diria se Frederico o Grande tivera um pai, se chegara a casar-se, se possuíra grandes amigos, se tivera algum hobby ou aficção literária de qualquer tipo, se havia morrido no campo de batalha ou na cama, e assim por diante. Se eu tivesse reunido coragem suficiente para abrir um daqueles volumes, provavelmente teria encontrado alguma coisa, ao menos nessas linhas gerais.

Agora, troque a imagem; imagine o jornalista ou homem de letras comum, jovem e bem educado, recém-saído de uma escola pública ou faculdade, parado diante de uma coleção ainda maior de livros ainda maiores das bibliotecas da Idade Média – digamos, todos os volumes de São Tomás de Aquino. Digo-lhe que, de nove casos em dez, aquele jovem bem-educado não tem a menor noção do que iria encontrar naqueles volumes encadernados em couro. Pensa que irá encontrar discussões sobre as capacidades dos anjos de se equilibrarem sobre pontas de agulhas, e talvez o fizesse. Mas afirmo que ele não pensa – nem de longe – que irá encontrar um professor universitário a discutir quase todas as coisas que Herbert Spencer discutiu: política, sociologia, formas de governo, monarquia, liberdade, anarquia, propriedade privada, comunismo, e todas as variadas idéias que, no nosso tempo, se dedicam a brigar em nome do futuro “socialismo”.

Igualmente, não sei muito sobre Maomé ou o maometanismo. Não levo o Alcorão para ler na cama toda noite. Mas, se em determinada noite o fizesse, há pelo menos um sentido em que sei o que não encontrarei nele. Suponho que a obra não transbordará de fortes encorajamentos ao culto dos ídolos; que não se cantarão ali em alta voz os louvores do politeísmo; que o caráter de Maomé não será submetido a nada que se parece com o ódio e o ridículo; e que a grande doutrina moderna da irrelevância da religião não será enfatizada sem necessidade.

Mas troque novamente a imagem, e imagine o homem moderno (o pobre homem moderno) que tivesse levado um volume de teologia medieval para a cama. Ele esperaria encontrar ali um pessimismo que não há, um fatalismo que não há, um amor à barbárie que não há, um desprezo pela razão que não há.

Aliás, seria na verdade muito bom que fizesse a experiência. Far-lhe-á bem de uma forma ou de outra: ou o fará dormir – ou o fará acordar.

Notas:

(1) William Morris (1834-1896): Artista e escritor inglês, contribuiu com grande sucesso para a valorização e o aprimoramento das mais variadas formas de arte (desde a decoração até a arquitetura e a iluminura), chegando mesmo a fundar empresas bem-sucedidas nesse ramo (entre elas, a tipografia Kelmscott Press, em 1890). Ao fim da vida, deixou de lado os seus êxitos artísticos e empresariais para dedicar-se a difusão de idéias socialistas.

(2) A conquista da Inglaterra pelos normandos comandados por Guilherme o conquistador ocorreu no ano de 1066.

(3) Thomas Henry Huxley (1825-1895): biólogo inglês, amigo de Charles Darwin e um dos maiores defensores e divulgadores da teoria evolucionista, o que fez especialmente através do seu livro Man´s Place in Nature (“O lugar do homem na natureza”, 1863), em que pela primeira vez os princípios do evolucionismo são aplicados ao homem.

(4) Henry Peter, Lord Brougham (1778-1868): político britânico nascido em Edimburgo. Suas numerosas obras, às vezes contraditórias entre si, cobriram quase todos os ramos do conhecimento da época, tendo ele escrito sobre Filosofia, Teologia, Economia e até Matemática. Destacou-se também por ter fundado revistas e sociedades de difusão do conhecimento e por ter realizado reformas no Parlamento britânico.

Fonte: Quadrante

A própria razão é uma questão de fé

Da Ortodoxia, de Chesterton: "A própria razão é uma questão de fé. É um ato de fé afirmar que nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade por mínima que seja."
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