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A fenomenologia Católica de Edith Stein


Teresa Benedita Cruz
Dea. Umba Diego Cubides, EP

Sua obra é um convite ao estudo da filosofia moderna com os critérios da fé católica, quer através da rectificação do caminho que os homens tiveram desde a Renascença até o contrário. A razão é limitada, não pode ser transposta sem a ajuda da razão sobrenatural a fixar humildemente verdades reveladas.
Por isso a fé não se torne um inimigo da razão, mas sim a preservação de erro, fornecendo informações de novos conhecimentos para enriquecer o conhecimento, como ela fez com a fenomenologia de Husserl.
Esta é outra característica fundamental: a não objeção a priori. Ela não deixou a herança da filosofia antiga de fazer algo novo, mas, pelo contrário, ele a usou para fazer a comparação com a filosofia moderna, mostrando positivos e negativos passado. Assim, deu um novo significado para a escolástica e purgado de seus erros.
A grande personalidade do nosso santo - não é amigo de novidades ", restaurou a primazia que o Doutor Angélico deve ter todo o estudo filosófico, para ser sólido e seguro. Como ela diz que "as soluções (de Aquino) têm problemas nas suas testas o selo da verdade."
Sua Santidade o Papa Leão XIII na sua encíclica "Aeterni Patris"(4 - VIII-1879), recomendou o estudo de St. Thomas, para ver as maquinações e artifícios de falsa sabedoria, em Edith encontrar essa fonte para a compreensão do Santo água potável segura e completa e pura verdade.
A razão humana não pode ser incluído no círculo de eventos, caso contrário ela não seria capaz de conhecer a Deus. Ela nos mostra como isso levaria ao agnosticismo. Por conseguinte, toda ciência que suporta apenas fenômenos, sem relação com o Absoluto, o ateísmo tem histórico e científico.
Ela valoriza muito o sentimento, mas sujeito à inteligência, caso contrário, atrapalha recta ratio desordenada pela comoção fora dos sentidos pode ter sobre a corporeidade, o homem animalizado. Daí a grande importância dada à virgindade, que o homem Angelized oposto prime fazendo espiritual sobre o material. Embora não seja um tratado sobre isso, sua vida consagrada testemunha a grande estima que tinha por ela e pelo domínio que exercia sobre seu corpo.
Sua vocação encarna o pensamento dos Papas de Leão XIII, São Pio X, Papa João Paulo II - que declarou o co-padroeira da Europa e do actual Papa Bento XVI.
O primeiro, já mencionado, enfatizou a necessidade de o estudo de St. Thomas.
São Pio X condenou os erros do modernismo na encíclica "Pascendi Dominici Gregis"(8 - IX-1907), indicando desvio de filosofia, também respondeu a Edith.
Identifica completamente com o pensamento personalista SS João Paulo II, o que aumenta o valor transcendente da pessoa humana. Sua encíclica "Fides et Ratio"É a aplicação da união entre a razão natural e sobrenatural Edith faz no campo da filosofia.
Sua Santidade o Papa Bento XVI continua a linha de seu antecessor, enfatizando a unidade que deve existir entre a religião ea razão: os princípios da fé e da razão à direita rejeitar todas as formas de totalitarismo e da violência.
Martirizado pelos nazistas chegaram ao cumprimento da oferta feita por seu povo. Existência que não foi consumido em vão e, como Tertuliano disse: "O sangue dos mártires é semente de cristãos".
Cubides Umba, Diego. Metafísica sabedoria como na alma cristã de Edith Stein. Pontifícia Universidade Bolivariana - Faculdade de Teologia, Filosofia e Ciências Humanas. Canonical Licenciatura em Filosofia. Medellín, 2009. p. 91-104.

Fonte: http://presbiteros.arautos.org/2010/03/17/la-fenomenologia-catolica-de-santa-teresa-benedicta/

"ASSIM RENASCI CRISTÃO". ENTREVISTA COM RENÉ GIRARD

René Girard, em entrevista a Grant Kaplan, no jornal dos bispos italianos Avvenire, 04-01-2009, se diz um "cristão permanente". Segundo ele, o desafio da Igreja é "alcançar os jovens". "Isso explica por que João Paulo II era tão importante", afirma. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Muitas vezes, defendeu-se que o senhor se deparou com o cristianismo durante as suas pesquisas, mas a verdade é um pouco diferente.

Sim, é verdade. A história é diferente do momento em que eu já era cristão por parte de mãe, uma mulher muito fiel e bastante “sofisticada” no seu modo de sê-lo, especialmente para o tempo em que viveu. Meu pai, ao contrário, era moderadamente anticlerical. Essa situação era muito típica na classe média francesa. Mia mãe, no início, não me influenciou muito. Dos 12 aos 30 anos, sempre que podia eu evitava a missa dominical. Mas é falso pensar que eu me deparei por acaso com o cristianismo. Na minha infância havia diversos elementos cristãos que eram – que são – muito potentes, e a influência da minha mãe também foi importante. Por isso, as pesquisas realizadas para "Deceit, Desire and the Novel" foram um renascimento do meu cristianismo e se tratou de algo muito comprometedor. As experiências da infância podem ser muito importantes. Quanto mais reflito, melhor entendo que você tem razão ao sugerir que a minha história se desenrolou assim.

A Igreja nos Estados Unidos, e, em um certo sentido, menos na Europa ocidental, parece tristemente dividida entre os que se autodefinem tradicionalistas e os que se chamam de progressistas. Não se ignorando essas distinções superficiais, de que modo o senhor conseguiu não se alinhar com um “grupo” dentro da Igreja?
É uma pergunta complicada. Penso que haja pouca diferença entre a Europa e os Estados Unidos, ou menos do que você insinua.
A questão sobre a divisão entre progressistas e tradicionalistas dominou o debate por muitos anos. Hoje, o vejo como um pouco “dépassé” e não relevante da forma como é usado.
Parece que o grande entusiasmo progressista do Concílio tenha diminuído e se tornado menos importante. Eu acho que a pergunta verdadeira é se alguém permanece cristão ou não. Estou inclinado a não me sentir um cristão do passado, mas um cristão “permanente”. Por um certo período, fui visto como um conservador extremo, porque sentia que o cristianismo progressista daquele período estava imitando, se pode-se dizer assim, os debates que não são, por si mesmos, religiosos... debates da vida política e da ação social, que são interessantes, mas não fundamentais para o cristianismo. No meu modo de ver, o questionamento é se alguém crê ou não na encarnação e na divindade de Cristo. Lentamente, estamos nos voltando a esse ponto.

Visto que o senhor é francês, mas também reside nos Estados Unidos, acha que a Igreja norte-americana está se fechando dentro de seus próprios muros?
Historicamente, isso foi verdade para a Igreja francesa, que se fazia chamar de "Igreja galesa", para enfatizar a própria independência do papado. De um ponto de vista francês, a Igreja norte-americana é muito mais preocupada com a sua relação com o papado e com o seu desejo de ser “ortodoxa”, isto é, de não fazer afirmações estranhas a uma perspectiva cristã. Da perspectiva de qualquer pessoa de fora, a Igreja norte-americana é extremamente generosa nas suas doações. Nisso certamente há algo do processo do bode expiatório, mas isso não me impressiona como um fenômeno particularmente americano. A tendência a criticar o papado era muito difundida na França. Por exemplo, durante a Primeira Guerra Mundial, as pessoas não estavam conscientes do que ocorria com Bento XV (e acho que Bento XVI tomou esse nome justamente por causa disso).
Bento XV era muito popular durante a guerra, apesar de ser impopular na França por ser muito pró-Alemanha, e o mesmo na Alemanha, porque era exageradamente pró-França. Fez esforços muito notáveis para pôr fim aos combates. Interveio e fez o melhor que pôde para promover as negociações. Ninguém apreciou esse esforço, como se fosse um dever fazê-lo. Foi verdadeiramente profético ao entender que a guerra era um desastre de proporções enormes para toda a Europa.

O que o senhor responderia se o Papa lhe perguntasse o que deveria fazer para melhor levar adianta a obra de catequese na Igreja?
A Igreja é consciente disso e continuamente se interroga sobre o que deve fazer para melhorar. Certamente, é necessário alcançar os jovens. Isso explica por que João Paulo II era tão importante. A simpatia misteriosa que os jovens tinham por João Paulo II foi notavelmente destacada no momento em que se refletiu sobre o seu papado. Eventos como as Jornadas Mundiais da Juventude são muito importantes. Obviamente não é fácil ter a mesma simpatia de Wojtyla, mas o grande sucesso da visita do papa Ratzinger aos Estados Unidos e a recente viagem à França foram muito importantes. Em Paris, foram 250 mil as pessoas que o escutaram na missa, e 100 mil destas passaram a noite ali. Um evento impressionante. Por isso, as pessoas que pensam que o cristianismo na França já acabou erram completamente, na minha opinião. Por exemplo, quando o cardeal Lustiger era arcebispo de Paris celebrava a missa às 6h30 da manhã todo domingo, em Notre Dame. Se não se chegasse a tempo, era impossível encontrar um lugar para se sentar na igreja. Entre as pessoas de Paris, a sua popularidade era incrível. Esse fenômeno não foi conhecido como se deveria, porque nisso havia algo de muito paradoxal. Lustiger não era um parisiense doc, mas um judeu, e bispo de Orleans antes de chegar a Paris. A sua popularidade foi algo de verdadeiramente inédita.

O senhor considera o seu trabalho um empenho apologético?
Penso que o aspecto mais influente do meu trabalho seja mostrar que o judaísmo e o cristianismo existem em continuidade com as religiões arcaicas. Fundamentalmente, eu sou um antropólogo e um racionalista. O que defendo é o fato de que as sociedades humanas são muito diferentes daquelas que os especialistas definem como “sociedades animais”, porque as primeiras têm a religião. Na sociedade arcaica, religião e cultura são absolutamente um todo, mesmo que isso não aparece. A religião, por isso, é um modo com o qual os seres humanos aprendem, sem ter consciência, o modo no qual se comportar com a violência no interior do próprio grupo. Nesse caso, o sacrifício chega a revestir o papel das vítimas substitutivas. Esse fenômeno deveria ser explicado em termos puramente antropológicos, como algo científico. Não é necessária uma convicção religiosa para entendê-lo. Essa compreensão da religião arcaica (levada adiante também por aqueles que têm uma consideração desfavorável frente à própria religião) representa uma verdadeira revolução. É muito importante mostrar que essas vítimas são absolutamente indispensáveis à sobrevivência do homem.
De um certo modo, o cristianismo é o fim das religiões arcaicas, porque revela que a vítima é inocente. Quando se compreende o cristianismo de maneira correta na sua proximidade-distância da religião arcaica, descobre-se que estamos frente à mesma estrutura, ou seja, o fenômeno do bode expiatório, isto é, Jesus como vítima. Já o texto bíblico é concebido para destruir o esquema do bode expiatório em vez de usá-lo para realizar sacrifícios. A relação com todas as religiões arcaicas no passado é tão central e racional, ao ponto de que se poderia ir para trás em dezenas de milhares de anos. Esse é um dado importante. A religião da Encarnação deveria ser uma antropologia assim como uma teologia. A Encarnação significa homem e Deus juntos. A teologia é o Deus puro e é construída sobre esquemas que ignoram completamente aquilo que, no cristianismo, chamamos de Encarnação.

Em nível pessoal, o senhor tem alguma sugestão para tornar a fé atraente frente aos não-crentes?
Uma coisa importante seria mostrar que o cristianismo tem algo a dizer a respeito das ciências do homem. Isso é absolutamente indispensável. A antropologia sempre viu a religião como um tipo de história. No século XIX, Auguste Comte sentia que a religião arcaica era a primeira tentativa de se entender os “mistérios do universo”. Em outras palavras, empreendiam o mesmo percurso da ciência. Mas, segundo Comte, tratava-se de uma ciência muito decadente e não de alto nível. Para os positivistas do século XIX, a filosofia ficava no meio do caminho, era um pouco melhor do que a teologia, mas ainda não aceitável como a ciência. Essa visão era muito abstrata e tinha pouco a ver com o fato de que a religião é um fenômeno muito concreto que leva as pessoas a evitar matarem-se totalmente umas às outras.

Qual papel o senhor acredita que as principais teses do seu trabalho intelectual terão nas próximas décadas?
Considero que a questão e o paradoxo do bode expiatório (porque isso existe quando não se vê e está ausente quando se diz que está presente) serão melhor compreendidos e assumirão um papel que nunca apareceu na apologética. A visão do cristianismo não é muito paradoxal. Eu acho que, quando se lê Kierkegaard com atenção, vê-se que ele não estava muito distante de muitas das afirmações que a teoria do bode expiatório pode formular de maneira mais racional. Por isso, essa visão pode ser um instrumento de apologética que ainda não foi descoberto.

UM NOVO ANO DE AMIZADE COM CRISTO PARA SERMOS HOMENS DE PAZ


PAPA BENTO XVI


AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009




Os votos de que o ano novo seja vivido na amizade com Cristo e em paz concluiu a última audiência geral de 2009, na manhã de quarta-feira, 30 de Dezembro, na Sala Paulo VI.

Queridos irmãos e irmãs!

Nesta última audiência do ano gostaria de vos falar de Pedro Lombardo: um teólogo que viveu no século xii, que gozou de grande fama, porque uma sua obra, intitulada Sentenças, foi adoptada como manual de teologia por muitos séculos.

Quem era portanto Pedro Lombardo? Mesmo se as notícias sobre a vida são escassas, podemos contudo reconstruir as linhas essenciais da sua biografia. Nasceu entre os séculos xi e xii, nas redondezas de Novara, no Norte da Itália, num território outrora pertencente aos Longobardos: precisamente por isto foi-lhe dado o apelativo "Lombardo". Ele pertencia a uma família de condições modestas, como podemos deduzir da carta de apresentação que Bernardo de Claraval escreveu a Gilduíno, superior da abadia de São Vítor em Paris, para lhe pedir que hospedasse gratuitamente Pedro, que desejava ir àquela cidade por motivos de estudo. De facto, também na Idade Média não só os nobres ou os ricos podiam estudar e desempenhar papéis importantes na vida eclesial e social, mas também pessoas com origens humildes, como por exemplo Gregório vii, o Papa que enfrentou o Imperador Henrique iv, ou Maurício de Sully, o Arcebispo de Paris que mandou construir Notre-Dame e que era filho de um pobre agricultor.

Pedro Lombardo iniciou os seus estudos em Bolonha, depois foi a Reims, e por fim a Paris. A partir de 1140 ensinou na prestigiosa escola de Notre-Dame. Estimado e apreciado como teólogo, oito anos mais tarde foi encarregado pelo Papa Eugénio iii de examinar as doutrinas de Gilberto Porretano, que suscitavam muitos debates, porque eram consideradas não totalmente ortodoxas. Tendo-se tornado sacerdote, foi nomeado Bispo de Paris em 1159, um ano antes da sua morte, em 1160.

Como todos os mestres de teologia do seu tempo, também Pedro escreveu discursos e textos de comentário à Sagrada Escritura. A sua obra-prima é constituida pelos quatro livros das Sentenças. Trata-se de um texto nascido e finalizado para o ensino. Segundo o método teológico em uso naqueles tempos, era necessário antes de tudo conhecer, estudar e comentar o pensamento dos Padres da Igreja e de outros escritores considerados influentes. Por isso, Pedro recolheu uma documentação muito ampla, constituída principalmente pelo ensinamento dos grandes Padres latinos, sobretudo de Santo Agostinho, e aberta à contribuição de teólogos seus contemporâneos. Entre outras, ele utilizou também uma obra enciclopédica de teologia grega, há pouco tempo conhecida no Ocidente: A fé ortodoxa, composta por São João Damasceno. O grande mérito de Pedro Lombardo é ter organizado todo o material, que reuniu e seleccionou com cuidado, num quadro sistemático e harmonioso. De facto, uma das características da teologia é organizar de modo unitário e ordenado o património da fé. Por conseguinte, ele distribuiu as sentenças, ou seja, as fontes patrísticas sobre os vários argumentos, em quatro livros. No primeiro trata-se de Deus e do mistério trinitário; no segundo, da obra da criação, do pecado e da Graça; no terceiro, do Mistério da Encarnação e da obra da Redenção, com uma ampla exposição sobre as virtudes. O quarto livro é dedicado aos sacramentos e às realidades últimas, as da vida eterna, ou Novíssimos. A visão de conjunto que se obtém disto inclui quase todas as verdades da fé católica. Este olhar sintético e a apresentação clara, ordenada, esquemática e sempre coerente, explicam o sucesso extraordinário das Sentenças de Pedro Lombardo. Elas permitiam uma aprendizagem certa por parte dos estudantes, e um amplo espaço de aprofundamento para os mestres, os professores que delas se serviam. Um teólogo franciscano, Alexandre de Hales, que viveu uma geração depois de Pedro, introduziu nas Sentenças uma subdivisão, que tornou mais fácil a sua consulta e estudo. Também os maiores teólogos do século xiii, Alberto Magno, Boaventura de Bagnoregio e Tomás de Aquino, iniciaram a sua actividade académica comentando os quatro livros das Sentenças de Pedro Lombardo, enriquecendo-as com as suas reflexões. O texto de Lombardo foi o livro usado por todas as escolas de teologia, até ao século xvi.

Desejo ressaltar como a apresentação orgânica da fé é uma exigência irrenunciável. De facto, cada uma das verdades da fé se iluminam reciprocamente e, numa sua visão total e unitária, sobressai a harmonia do plano de salvação de Deus e a centralidade do Mistério de Cristo. A exemplo de Pedro Lombardo, convido todos os teólogos e os sacerdotes a ter sempre presente a visão total da doutrina cristã contra os riscos actuais de fragmentação e da desvalorização de cada uma das verdades. O Catecismo da Igreja Católica, assim como o Compêndio do mesmo Catecismo, oferecem-nos precisamente este quadro completo da Revelação cristã, que se deve acolher com fé e gratidão. Gostaria de encorajar portanto também cada um dos fiéis e comunidades cristãs a aproveitar estes instrumentos para conhecer e aprofundar os conteúdos da nossa fé. Assim ela há-de parecer-nos uma maravilhosa sinfonia, que nos fala de Deus e do seu amor e que solicita a nossa adesão firme e resposta laboriosa.

Para ter uma ideia do interesse que ainda hoje a leitura das Sentenças de Pedro Lombardo pode suscitar, proponho dois exemplos. Inspirando-se no comentário de Santo Agostinho ao livro do Génesis, Pedro interroga-se acerca do motivo pelo qual a criação da mulher foi realizada a partir da costela de Adão e não da sua cabeça ou dos seus pés. E explica: "Era formada não uma dominadora nem sequer uma escrava do homem, mas uma sua companheira" (Sentenças 3, 18, 3). Depois, sempre com base no ensinamento patrístico, acrescenta: "Nesta acção está representado o mistério de Cristo e da Igreja. De facto, assim como a mulher foi formada da costela de Adão enquanto ele dormia, assim a Igreja nasceu dos sacramentos que iniciaram a brotar do lado de Cristo que dormia na Cruz, ou seja, do sangue e da água, com que somos remidos da pena e purificados da culpa" (Sentenças 3, 18, 4). São reflexões profundas e válidas ainda hoje, quando a teologia e a espiritualidade do matrimónio cristão aprofundaram muito a analogia com a relação esponsal entre Cristo e a sua Igreja.

Noutra passagem da sua obra principal, Pedro Lombardo, falando sobre os merecimentos de Cristo, interroga-se: "Por que razão, então [Cristo] quis padecer e morrer, se as suas virtudes já eram suficientes para lhe obter todos os méritos?". A sua resposta é incisiva e eficaz: "Para ti, não para si mesmo!". Depois prossegue com outra pergunta e outra resposta, que parecem reproduzir os debates que eram feitos durante as lições dos mestres de teologia da Idade Média: "E em que sentido ele sofreu e morreu por mim? Para que a sua paixão e a sua morte fossem para ti exemplo e causa. Exemplo de virtude e de humildade, causa de glória e de liberdade; exemplo dado por Deus obediente até à morte; causa da tua libertação e da tua bem-aventurança" (Sentenças 3, 18, 5).

Entre os contributos mais importantes oferecidos por Pedro Lombardo para a história da teologia, gostaria de recordar a sua análise sobre os sacramentos, dos quais deu uma descrição diria definitiva: "É chamado sacramento em sentido próprio aquilo que é sinal da graça de Deus e forma visível da graça invisível, de tal modo que traz a sua imagem e é a sua causa" (4, 1, 4). Com esta definição Pedro Lombardo colhe a essência dos sacramentos: eles são causa da graça, têm a capacidade de continuar realmente a vida divina. Os teólogos sucessivos não abandonarão esta visão e utilizarão também a distinção entre elemento material e elemento formal, introduzida pelo "Mestre das Sentenças", como foi chamado Pedro Lombardo. O elemento material é a realidade sensível e visível, o formal são as palavras pronunciadas pelo ministro. Ambos são essenciais para uma celebração completa e válida dos sacramentos: a matéria, a realidade com a qual o Senhor nos toca visivelmente e a palavra que dá o significado espiritual. No Baptismo, por exemplo, o elemento material é a água que se derrama sobre a cabeça da criança e o elemento formal são as palavras: "Eu te baptizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo". Além disso, Lombardo esclareceu que só os sacramentos transmitem objectivamente a graça divina e que são sete: o Baptismo, a Confirmação, a Eucaristia, a Penitência, a Unção dos Enfermos, a Ordem e o Matrimónio (cf. Sentenças 4, 2, 1).

Queridos irmãos e irmãs, é importante reconhecer como é preciosa e indispensável para cada cristão a vida sacramental, na qual o Senhor através desta matéria, na comunidade da Igreja, nos toca e nos transforma. Como recita o Catecismo da Igreja Católica, os sacramentos são "forças que saem do Corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante, acções do Espírito Santo" (n. 1116). Neste Ano sacerdotal, que estamos a celebrar, exorto os sacerdotes, sobretudo os ministros que curam as almas, a terem eles mesmos primeiro, uma intensa vida sacramental para servirem de ajuda aos fiéis. A celebração dos sacramentos distinga-se por dignidade e decoro, favoreça o recolhimento pessoal e a participação comunitária, o sentido da presença de Deus e o ardor missionário. Os sacramentos são o grande tesouro da Igreja e a cada um de nós compete a tarefa de os celebrar com fruto espiritual. Neles, um acontecimento sempre surpreendente toca a nossa vida: Cristo, através dos sinais visíveis, vem ao nosso encontro, purifica-nos, transforma-nos e torna-nos partícipes da sua amizade divina.

Queridos amigos, chegamos ao fim deste ano e estamos às portas do novo. Desejo-vos que a amizade de Nosso Senhor Jesus Cristo vos acompanhe todos os dias deste ano que está para iniciar. Possa esta amizade de Cristo ser nossa luz e guia, ajudando-nos a ser homens de paz, da sua paz. Bom ano a todos vós!


SANTO ANSELMO

Nascido aos pés dos Alpes, em Aosta, em 1033, de família nobre, e educado pelos beneditinos, santo Anselmo manifestou desde muito jovem um forte desejo de dedicar-se à vida contemplativa. Seu pai, Gandulfo, permanecia irremovível: o filho primogênito não devia tornar-se monge, mas seguir os seus passos. Anselmo sofreu tanto que chegou a ficar gravemente enfermo, mas o pai não se dobrou. Restabelecido, o jovem pareceu ouvir o desejo paterno, porque se adaptou à vida mundana, mais que isso: pareceu bem disposto às ocasiões fáceis de prazeres que o seu dinheiro lhe permitia, mas em seu coração conservava intacta a antiga chama. De fato abandonou bem logo a casa paterna, ultrapassou Moncenísio e após ter vagado pela França parou em Bec, na Normandia, em cuja famosa abadia lecionava um grande mestre de teologia, o monge Lanfranco.
Anselmo mergulhou nos estudos seguindo fielmente os rastros do mestre, ao qual sucedeu como abade, ainda muito jovem, na direção do mosteiro e como professor. Foi pregador e reformador da vida monástica e sobretudo teólogo. Representa o início da teologia escolástica. Seu rigor ascético criou-lhe fortes oposições da parte de alguns, mas a sua grande amabilidade acabava por conquistar o amor e a estima até dos mais refratários. Era um gênio metafísico de coração piedoso: com o coração e a inteligência se aproximou dos mistérios cristãos: “Fazei, Senhor, que eu sinta com o coração o que toco com a inteligência” – ele escrevia.
As suas duas obras mais conhecidas são o Monológio, ou modo de meditar sobre as razões da fé, e o Proslógio, ou a fé que procura a inteligência. É preciso, segundo ele, impregnar sempre mais a nossa fé de inteligência, aguardando a visão beatífica. Suas obras filosóficas, como suas meditações sobre a Redenção, provinham de um vivo entusiasmo do coração e da inteligência. Nisso o pai da Escolástica estava bem perto de santo Agostinho. Elevado à dignidade de arcebispo primaz da Inglaterra, com sede em Canterbury, o manso monge de Bec teve de lutar contra a hostilidade de Guilherme, o Vermelho, e Henrique I. Os contrastes, primeiro velados, explodiram em luta aberta e por duas vezes o arcebispo Anselmo teve de reatravessar a Mancha e aguardar no exílio até que as águas se acalmassem.
Foi a Roma não só para pedir o reconhecimento dos seus próprios direitos, mas também para que fossem amenizadas as penas decretadas contra seus adversários, afastando assim o perigo de um cisma. Esta sua moderação acabou por desarmar todos os seus inimigos. Morreu em Canterbury a 21 de abril de 1109. Em 1720 o papa Clemente Xi declarou-o doutor da Igreja.
Fonte: Cleofas

GRANDES PENSADORES: CARD. JOHN HENRY NEWMAN


Por -Tradução: Jaime Francisco de Moura
Fonte: Enciclopédia Católica
Ainda que somente há alguns anos que sou católico, sei entretanto que o problema "por que sou católico" é muito diferente do problema "por que me converti ao catolicismo". Tantas coisas motivaram minha conversão e tantas outras continuam surgindo depois... Todas elas são colocadas em evidência somente quando a primeira nos dá o empurrão que conduz à própria conversão. Todas são também tão numerosas e tão diferentes umas das outras, que, no fim, o motivo originário e primordial pode chegar a nos parecer quase insignificante e secundário.
Cardeal Diácono de São George em Velabro, autor sagrado, filósofo, homem de letras, líder do Movimento Tractariano, e o mais ilustre converso inglês à Igreja. Nascido na Cidade de Londres, em 21 de fevereiro de 1801, o mais velho de seis irmãos, três homens e três mulheres; morreu em Edgbaston, Birmingham, em 11 de agosto de 1890. Houveram certas discussões sobre sua ascendência com respeito a seu lado paterno. Seu pai foi John Newman, um banqueiro, sua mãe Jemima Fourdrinier, de uma família Hugonote estabelecida em Londres como cinzeladores e fabricantes de papel. Sabe-se que o sobrenome era escrito "Newmann"; está claro que muitos judeus, ingleses ou estrangeiros, o levaram, e a insinuação era que o cardeal era de ascendência judaica. Mas não encontraram nenhuma evidência documentaria para confirmar tal idéia. Sua linhagem francesa é inegável. Recebeu de sua mãe seu treinamento religioso, um Calvinismo modificado; e provavelmente ajudou à "concisão lúcida" de suas palavras quando tratava de temas abstrusos. Seu irmão Francis William, também escritor, mas carente de elegância literária, separou-se da Igreja Inglesa para aderir-se ao Deísmo; Charles Robert, o segundo irmão, era bastante errático e professava o ateísmo. Uma das irmãs, Mary, morreu jovem; Jemina tem um lugar na biografia do cardeal durante a crise de sua carreira anglicana; e estamos em dívida com uma filha de Harriet, Anne Mozley, pelas "Cartas e Correspondência" de 1845, que contêm uma seqüela das próprias mãos do cardeal Newman da clássica "Apologia" desde o dia em que foi completada, a "Apologia" será sempre a principal autoridade dos primeiros pensamentos de Newman, e de seu conceito sobre o grande ressurgimento religioso, conhecido como Movimento de Oxford, do qual foi o guia o filósofo e o mártir.
Sua imensa correspondência, da qual a maior parte permanece sem ser publicada, não pode mudar essencialmente nossa estiva para quem, ainda que sutil ao grau de marginar o refinamento, foi também impulsivo e aberto com seus amigos, assim como enérgico em suas posições com o público. De tudo o que conhecemos dele, podemos deduzir que a grandeza de Newman consistia na união de originalidade, que chegava a uma genialidade de primeira classe, e um caráter de grande profundidade espiritual, manifestadas em uma linguagem de perfeita harmonia e ritmo, em uma energia que tão freqüentemente criou seitas ou Igrejas, e em uma personalidade não menos arrebatadora quanto sensível. Entre as estrelas literárias de seu tempo Newman se distingue pelo puro resplendor cristão que brilha em sua vida e escritos. Ele é o inglês da era que manteve o antigo credo com uma sabedoria que só os teólogos possuem, com uma força shakespeariana de estilo, e um fervor próprio dos santos. É esta combinação única a que o eleva sobre os pregadores católicos de vinitate mundi, como Thackeray, e que o outorga um lugar aparte de Tnnyson e Browning. Em comparação a ele Keble é uma luz de sexta magnitude; Pusey, um professor devoto, Lidon, um menos eloqüente Lacordaire. Newman ocupa no século XIX uma posição semelhante à do Bispo Butler no XVIII. Se Butler é o paládio cristão contra o deísmo, então Newman é o apologista católico em uma época de agnosticismo, rodeada pelas teorias da evolução. Ele é, alem disso, um poeta, e seu "Sonho de Gerontio" ("Dreams of Gerontius") avantaja cem vezes mais o verso meditativo dos poetas modernos por seu claro-escuro de símbolos e cenas dramáticas do mundo visto atrás do véu. Foi educado desde sua infância em deleitar-se com a leitura da Bíblia, mas carecia de convicções religiosas formadas até que completou quinze anos. Costumava desejar que os contos das mil e uma noites fossem verdadeiros; sua mente discorria com influências desconhecidas; pensava que a vida era possivelmente um sonho, que ele era um anjo, e que seus amigos anjos o estariam enganando com a aparência de um mundo material. Era "muito supersticioso" e tinha medo do escuro.
Aos quinze anos se "converteu", ainda que não praticasse muito os Evangelhos; das obras da escola de Calvino, obteve suas idéias dogmáticas definitivas, enquanto descansava "no pensamento de dois e somente dois absolutos e luminosos seres evidentes a todas as luzes, eu mesmo e meu Criador". Em outras palavras, a personalidade se converteu na verdade primeira de sua filosofia; sem se importar com a lei, a razão ou a experiência dos sentidos. Daqui em diante, Newman foi um místico cristão, e como tal permaneceu. Dos escritos de Thomas Scott de Aston Sandford, "a quem, humanamente falando", disse, "Quase devo a minha alma" , aprendeu a doutrina da Trindade, apoiando cada frase do Credo Atanasiano com textos da Escritura. Os aforismos de Scott estiveram constantemente presentes em seus lábios por anos, "Santidade antes que paz", e "O crescimento é a única evidência da vida". A obra "Serious Call" de Law teve nos jovens uma influência católica ou céptica; nasceu para ser missionário; pensava que era o desejo de Deus que guiasse uma só vida; apaixonado pelas citações dos Padres dadas na "História da Igreja" de Milner, e lendo, em Newton sobre as profecias, sentiu-se convencido de que o papa era o Anticristo. Atendeu a escola em Ealing, próximo de Londres desde os sete anos. Sempre pensativo, tímido e afetivo, não participava dos jogos de "homens", começou a exercitar sua pena prontamente, leu as Novelas Waverley, imitava a Gibbon e Jonson, matriculou-se no Colégio Trindade (Trinity College) de Oxford, em dezembro de 1816, e em 1818 ganhou uma bolsa de 60 libras por nove anos. Em 1819 o banco de seu pai suspendeu os pagamentos, mas logo descarregou suas obrigações por completo. Trabalhando muito duro por seu título, Newman perdeu a saúde e conseguiu em 1821 somente honras de terceira classe. Mas seus dons não podiam ser ocultados. Oriel era então a primeira em reputação e intelectualmente falando entre as Universidades de Oxford, e foi eleito tutor em Oriel em 12 de abril de 19]822. Sentiu que este foi "o ponto de quebra de sua vida, e de todos os dias, o mais memorável" . Em 1821 tinha renunciado à intenção de estudar para advogado, e decidiu tomar ordens. Como tutor de Oriel, considerava quer tinha uma cura de almas; foi ordenado em 13 de junho de 1824; e por sugestão de Pusey converteu-se em tenente padre de São Clemente; em Oxford, onde permaneceu dois anos em atividades paroquiais. E aqui os pontos de vista nos quais tinha sido educado o decepcionaram, o Calvinismo não era uma chave para o fenômeno do ser humano como aparecem no mundo. Não funcionariam. Escreveu artigos de Cícero, etc., e seu primeiro "Ensaio sobre Milagres" ("Essay on Miracles"), que toma uma posição estritamente protestante, busca prejudicar àqueles afastados da Escritura. Mas também caiu sob a influência de Whateley, logo Arcebispo Anglicano de Dublin, que, em 1825, o fez seu vice-presidente em St. Mary - Hall. Whateley o estimulou através de discussões, o ensinou a noção do cristianismo como organismo social e soberano diferente do estado, mas o conduziu na direção das idéias "liberais" e lógica nominalista. Newman contribuiu em tal tema no livro de Whateley, alguma vez famoso. De Hawkins, cujo voto decisivo o fez reitor de Oriel, Newman obteve as doutrinas católicas da tradição e regeneração batismal, assim como certa precisão de termos que muito depois, deram origem ao mal-entendido de kingsley dos métodos de Newman ao escrever. De outro clérigo de Oxford aprendeu a crer na sucessão apostólica. E a "Analogia" de Butler, que leu em 1823, foi um marco em suas opiniões religiosas.
Provavelmente não seja muito dizer que seu livro profundo se converteu no guia da vida de Newman, e deu origem não somente ao "Ensaio sobre o Desenvolvimento" ("Essay on Development") mas também ao "Gramática de Assentimento" ("Grammar of Assent"). Em particular ofereceu um conjunto de ética e consciência de rejeição que confirmaram suas primeiras crenças em um doador de leis e um juiz intimamente presentes na alma. Em outra linha sugeria ao sistema sacramental, ou a "Economia", de que os Alexandrinos Clemente e São Atanásio são expoentes. Em resumo, neste período formativo as fontes onde Newman derivou seus princípios assim como suas doutrinas eram anglicanas e gregas, não romanas ou germanas. Seu calvinismo se derrubou, ao tempo que se retirou da Sociedade Bíblica. Estava crescendo ardentemente anti-erastiano; e Whateley viu os elementos de seu novo partido na Igreja reunindo ao que Oriel tinha escolhido como sua promessa intelectual, mas quem Oxford conhecera como crítico e antagonista da "Marcha da Mente" ("March of Mind"). Sua universidade em 1828 o fez Vigário de St. Mary (que era também a igreja da universidade), e em seu púlpito brindou os "Sermões Paroquiais" ("Parochial Sermons"), sem eloqüência ou postura, já que não tinha oferendas populares, mas com uma maravilhosa seriedade e uma sabedoria da natureza humana rara vez igualada. Quando foram publicados, foi dito que eles "superam todos os demais sermões fora do mercado assim como as histórias de Scott superam qualquer outra história". Não eram discutíveis; e a teologia católica tinha muito pouco que objetar-lhes. Se estilo castigado, fertilidade de ilustração, e sua curta mas aguda energia, não perderam nada com a passagem dos anos. Em tom são severos e freqüentemente melancólicos, como a manifestação de um espírito solitário.
Embora afável e até compassivo, o caráter peculiar de Newman incluía uma profunda reserva. Não tinha sua composição - como ele mesmo afirma - um grama de alegria. Sempre foi o intelectual de Oxford, não democrata, desconfiado dos movimentos populares, mas habilmente interessado em estudos políticos como sustentando as fortunas da Igreja. Esta disposição foi intensificada por sua amizade com Keble, cujo "Ano Cristão" ("Christian Year") foi publicado em 1827, e com R. Hurrel Froude, homem de pensamento impetuoso e de prática de auto-negação. Em 1832 discutiu com Dr, Hawkins, quem não toleraria a idéia pastoral que Newman tanto apreciava de seu trabalho universitário. Renunciou a sua tutoria, empreendeu uma longa viagem ao redor do Mediterrâneo com Froude, e voltou a Oxford, onde em 14 de julho de 1833, Keble pregou o sermão do tribunal sobre "Apostasia Nacional". Aquele dia, o aniversário da Revolução Francesa, deu origem ao Movimento de Oxford. A viagem de Newman à costa do Norte da África, Itália, Grécia Ocidental, e Sicília (Dezembro de 1832 - Julho de 1833) foi um episódio romântico, do qual seus diários preservaram os incidentes e a cor. Em Roma viu a Wiseman na Universidade Inglesa; a cidade, como mãe da religião de sua terra nativa, o embruxou de tal maneira que nunca se esqueceu dela. Sentiu-se chamado para uma grande missão; e quando a febre o acometeu em Leonforte em Sicília (onde estava errando só) gritou, "Não devo morrer, não pequei contra a luz". No Cabo Ortegal, em 11 de dezembro de 1832 tinha composto o primeiro de uma série de poemas, denso, apaixonado, e original que profetizava que a Igreja reinaria como no princípio. Acalmado no Estreito de Bonifácio, buscou guia através de ternos versos, "Guia, Luz Bondosa", imerecidamente atesourado por todo aquele de raízes Anglo-falantes. Foram chamados a canção caminhante do hóspede tractariano. Mas durante as primeiras etapas daquela travessia não esteve claro, inclusive para o próprio líder em que direção se moviam - longe da revolução certamente.
A reforma estava no ar, dos bispados irlandeses tinham sido suprimidos; a separação do estado podia não estar longe. Havia necessidade de resistência aos inimigos sem, e de uma Segunda, mas católica, reforma desde dentro. A Igreja primitiva devia de alguma maneira se restaurada na Inglaterra. Outros se reuniam em comitê e enviavam uma direção a Canterbury; Newman começou os "Tratados para os Tempos" ("Tracts for the Times"), como nos diz com um sorriso, "de sua própria cabeça". Para ele Aquiles sempre pareceu mais que o anfitrião dos Achans. Tomou seu lema da Ilíada: "Saberão agora a diferença". Aquiles desceu à batalha, combateu por oito anos, ganhou vitória sobre vitória, mas foi vencido por suas próprias armas quando o "Tratado 90" apareceu, e se retirou a sua tenda em Littlemore, um campeão quebrado. Entretanto, tinha feito uma obra duradoura, maior que o de Laud e capaz de derrubar o de Cranmer ao final. Tinha ressuscitado os padres, trazidos para aliviar o sistema sacramental, asfaltado o caminho de um surpreendente restabelecimento de um ritual longamente esquecido, e tendo dado ao clérigo um assentimento entre milhares no momento quando os princípios erastianos estavam na véspera do triunfo. "Foi pouco depois de 1830", disse Pattison severamente, "que os tratados desolaram a vida de Oxford". A posição de Newman era designada a Via Media. A Igreja inglesa, manteve, já os leigos à altura de Roma e Gênova. Era católica em origem, doutrina, anatematizava como heresias os peculiares princípios, quer seja Calvino ou Lutero, não se podia mais que protestar contra as "Corrupções Romanas", que eram excrescências da verdade primitiva. Daqui que a Inglaterra defendeu aos Padres, cujo ensinamento entregou o livro de Oração; apelava à antigüidade, e sua norma era a Igreja indivisível. "Charles", dizia Newman, "é o rei, Laud o prelado, Oxford a cidade sagrada, deste princípio". O estudo patrístico se converteu em ordem do dia. O primeiro volume de Newman, "Os Arianos do século IV", é um indigesto, mas valioso e característico tratado, totalmente Alexandrino em tom, discutindo credos e seitas na linha da "Economia". Como história fracassa; a forma é confusa. O estilo contrasta com sua posterior intensidade e frontalidade de expressão. Mas como pensador Newman nunca viajou muito além dos Arianos" (publicado em 1833). Implica uma filosofia mística controlada pelos dogmas cristãos, enquanto a Igreja a difunde. Na "Apologia" encontramos esta chave a seu desenvolvimento mental brindada por Newman, não sem desenhar. Diz, Entendi...que o mundo exterior, físico e histórico, era a manifestação para nossos sentidos de realidades maiores que elas mesmas. A natureza era uma parábola, a Escritura era uma alegoria; a literatura pagã, a filosofia, e mitologia, adequadamente entendidas eram uma preparação para o Evangelho. Os poetas gregos e sábios eram em um sentido profetas. Houve uma "dispensa" dos gentios assim como dos judeus. Ambos tinham aparentemente vindo a nada; desde e através de cada um a doutrina evangélica se fez manifesta. Deste modo foi concedido espaço para a antecipação de revelações mais profundas, de verdades que permanecem ainda sob o véu das letras. A Santa Igreja "permanecerá depois de tudo como símbolo daqueles feitos celestiais que encherão a eternidade. Seus mistérios são a expressão em linguagem humana de verdades que não são equivalentes à mente humana" ("Apol". Ed. 1895, p.27) Tal era o ensinamento que "chegou como música" a seu ouvido espiritual, de Atenas e Alexandria. A vida de Newman esteve dedicada, primeiro a aplicar este magnífico esquema à Igreja da Inglaterra; e logo, quando viu que não cabia em dimensões tão estreitas, à Igreja do centro, a Roma. Mas suas amplas implicações, inclusive sua desenvolvida visão não ingressaram. Entretanto, substituiu um princípio dinâmico e progressivo por um meramente estático. Mas supunha-se que a posição anglicana confiaria no Quod ubique de Vincent de Lerins, admitindo nenhum desenvolvimento real; seus autores sagrados atacam a Boussuet contra as "variações" do catolicismo. De 1833 a 1839 o líder Tractariano manteve esta linha de defesa sem dúvida. Logo, desfez-se e a Via Media desapareceu. Enquanto isso, Oxford viu-se sacudindo como a Florença dos Médici por um novo Savonarola, que fez discípulos por todas as partes; quem enardeceu aos conservadores quando Hampden, um sócio de um colégio de Oxford, sujeitou verdades cristãs à influência dissolve do nominalismo; e quem multiplicou livros e escritos sobre todas as posturas religiosas de uma vez. "O Ofício Profético" era uma apologia formal do tipo Laudiano; o confuso, mas formoso "Tratado sobre a Justificação" ("Treatise on Justification") fez um esforço "por mostrar que existe pouca diferença, mas o que é verbal nas múltiplas posturas, encontradas quer seja entre os autores sagrados católicos ou protestantes" neste tam. Döllinger o chamou "a maior obras mestra em teologia que a Inglaterra produziu em cem anos" e contem a verdadeira resposta ao puritanismo. Os "Sermões Universitários" ("University Sermons"), profundos como seu tema, apontam a determinar os poderes e limites da razão, os métodos de revelação, as possibilidades de uma teologia real.
Newman escreveu tanto que quase perde sua mão. Entre uma multidão de admiradores, um quiçá, Hurrel Froude, pôde conhecê-lo em semelhantes termos de pensamento, e Froude faleceu em Dartington em 1836. O pioneiro caminhou seu rumo sozinho. Foi um mal líder de partido, sendo responsável por repentinas resoluções pessoais que terminaram em catástrofes. Mas desde 1839, quando governou em Oxford sem rival algum, estava já vacilante. Em sua própria linguagem, tinha visto um fantasma -a sombra de Roma, cobrindo seu compromisso anglicano. Dois nomes estão associados com uma mudança transcendental: Wiseman e Ward. A "Apologia" faz completa justiça a Wiseman; apenas menciona a Ward (veja Movimento de Oxford). Aqueles que estavam observando podem ter predito uma colisão entre os Tractarianos e a Inglaterra protestante. Isto ocorreu por ocasião do "Tract 90", em si mesmo o menos interessante de todas as publicações de Newman. O tratado estava orientado a prevenir críticas contra Roma ao distinguir as corrupções, contra as quais se dirigiam os trinta e nove artigos, das doutrinas de Trento que estas não atacavam. Uma furiosa e universal agitação foi a conseqüência (Fev. 1841), Newman foi denunciado como traidor, um Guy Fawkes em Oxford; a Universidade interveio com torpeza acadêmica e chamou ao tratado "uma evasão". Dr. Bagot, Bispo de Oxford, o censurou levemente, mas ordenou que cessasse de escrever tratados.
Durante três anos esparramaram-se condenas da parte dos bispos por todos os lados. Para uma mente constituída como a de Newman, imbuída com idéias inacianas do episcopado, e sem a intenção de se dar conta de que elas não valem no estabelecimento inglês, este foi um juízo ex-cathedra contra ele. Deteve seus tratados, renunciou a seu editorial de "The Bristish Critic", abandonou St. Mary , e se retirou em Littlemore em comunhão leiga. Nada é mais claro que isso, se tivesse sido mantido em silêncio, teria ganhado. "Tract 90" não vai tão longe como muitos intentos anglicanos de reconciliação desde então. Os bispos não sonhavam com obrigá-lo à submissão. Mas tinha perdido a fé em si mesmo. Lendo a história da Igreja viu que o Via Media não era algo novo. Tinha sido refúgio dos Seminaristas, sem os quais o Arianismo não tivesse florescido. Fez a fortuna dos Monofisistas, graças a quem a Igreja de Alexandria que tinha se fundido na heresia e caído vítima das legiões de Mohammed. A analogia que Newman tinha observado com consternação estava reforçada por outro lado através de Wiseman, escrevendo sobre os donatistas em "The Dublin Review". Wiseman citou a Santo Agostinho, "Securus judicat orbis terrarum" , que pode ser interpretado "o consentimento católico é o juiz da controvérsia". Nem algo antigo estudado em livros, nem a descoberta sucessão do bispos, mas a Igreja vivente agora irrompia sobre ele como única peremptória e infalível. Sempre foi e sempre será. Nicea, Éfeso e Caledônia levam assim o testemunho a Roma.
Devemos acrescentar o grotesco assunto do bispado de Jerusalém, o fruto de uma aliança com Prússia Luterana, e a teoria anglicana foi refutada com fatos. Desde 1841 Newman estava em seu leito de morte no que respeita à igreja anglicana. Ele e alguns amigos viveram juntos em Littlemore em retiro monástico, sob uma dura regra que não ajudava a sua saúde. Em fevereiro de 1843, se retratou de suas fortes palavras contra Roma, em Setembro deteve esse ritmo de vida. Com grande trabalho compôs o "Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã" ("Essay on the Development of Christian Doctrine"), em que as aparentes variações ao dogma, antigamente objetados contra a Igreja Católica, estavam explicadas em uma teoria da evolução, curiosamente antecipando-se em certos pontos ao trabalho de Darwin. Tem muito mais passagens originais, mas mantém um fragmento. Em 9 de outubro de 1845, durante um período de agitada ação em oxford, Newman foi recebido na Igreja pelo padre dominicano, Passionista italiano, três dias logo que Renan tinha rompido com São Suplício e o Catolicismo. O evento, ainda que longo em prospecto, irritou e angustiou a seus concidadãos que não o perdoaram até muitos anos depois. Sentiu-se sua importância, se desconhece as causas. Daí uma alienação que só o magnífico candor da própria delineação de Newman na "Apologia" poderia satisfazer completamente. Sua conversão divide uma vida quase noventa anos em partes iguais -a primeira mais dramática e sua perspectiva determinada; a Segunda até aqui a contamos imperfeitamente, mas passou um quarto de século sob luz maligna, sob suspeita de um lado e outro, seus planos frustrados, suas motivações tergiversadas. Chamado por Wiseman a Oscott, próximo a Brimingham, em 1846, viajou em outubro a Roma, e foi ordenado sacerdote pelo Cardeal Fransoni. O papa aprovou seu esquema para estabelecer na Inglaterra o oratório de São Edgbaston, onde ainda permanece a comunidade.
Em 1859 acrescentou-se uma grande escola. A espaçosa igreja renascentista, consagrada em 1909, é em comemoração dos quarenta anos que Newman viveu ali. Após seu "Sermões para Diferentes Congregações" ("Sermons to Mixed Congregations"), que excedem em vigor e ironia sobre suas próprias publicações. Sempre se sentiu "paucorum homimum, sum", sua afabilidade não era para a multidão. Como católico iniciou-se com bastante entusiasmo. Seus "Discursos sobre Dificuldades Anglicanas" ("Lectures on Anglican Difficulties") foram ouvidos em Londres por grandes audiências; "Perda e Ganhos" ("Loss and Gain"), ainda que não seja uma grande história, tem muitos comentários alegres e toques pessoais; "Calista" lembra sua viagem pelo Mediterrâneo; o sermão no sínodo de Oscott titulado "A Segunda Primavera" ("The Second Spring") tem uma estranha e delicada beleza. Diz-se que Macaulay o sabia de coração. "Quando Newman decidiu unir-se à Igreja de Roma" observa R. H. Hutton, "sua genialidade floresceu com uma força e liberdade como nunca floreceu na comunhão anglicana". Além disso, "em ironia, em humor, em eloqüência, em força imaginativa, os escritos posteriores, e como podemos chamá-la, porção emancipada de sua carreira, excedendo de longe os escritos de seu aprendizado teológico". Mas a literatura Católica também ganhou uma voz persuasiva e uma clássica dignidade da que até hoje não há outro exemplo. Sua própria secessão, precedida pela de Ward (Conflitos internos da pior classe em Oxford) , e seguida por muitos outros, tinham alarmados aos ingleses. Em 1850 ocorreu a "Agressão Papal ". pela qual o país se dividiu em sedes católicas, e um cardeal romano anunciou da Porta Flaminiam seu compromisso para governar Wesminster. A nação se ficou louca pela emoção. Newman entregou no Intercâmbio de Milho, em Birmingham, seus discursos sobre a posição dos Católicos (era rara vez oportuno nos títulos de seus livros), e, para o assombro de Geoge Eliot, foi revelado como mestre do humor, engenhoso, divertido e desdenhoso da grande tradição protestante. Um apóstata sacerdote italiano, Achilli, estava arengando contra a Igreja. Notificado por Wiseman, o Orador deu os particulares da carreira infame deste homem e Achilli trouxe um carregamento de calúnias. Newman, com enormes gastos, reuniu evidência que justificava a acusação que tinha feito. Mas um jurado anti papa o condenou a pagar uma multa de 100 libras; após a apelação o veredicto foi anulado; e "The Times" admitiu que tinha havido um erro judicial quando Newman foi declarado culpável. Os católicos de todo o mundo o apoiaram. Seus agradecimentos se encontram na dedicação de suas "Lectures" de Dublin. Mas sempre recordava que devia esse juízo à participação e descuido de Wiseman.
Ainda o esperavam muitas mais dificuldades. os anos entre 1851 e 1870 o trouxeram desastres a uma série de nobres projetos com os que buscava servir à religião e à cultura. Na Irlanda os bispos foram obrigados, logo de rejeitar as universidades "Sem Deus" em 1847, a assumir uma universidade própria. Não tinham nem homens, nem idéias; o Estado não sancionaria títulos conferidos por um organismo privado; entretanto, podia-se fazer a tentativa; e Newman foi nomeado reitor em novembro de 1851. Passaram três anos como um sonho; em 1854 prestou juramento. mas tinha em mente em 1852 dirigir a Irlanda a idéia da universidade, com a grandeza e a liberalidade de Oxford, se devemos crer em Pattison. As "Lectures" terminam abruptamente, deram-lhe menos satisfação que qualquer outra obra sua; inclusive, em conjunto com suas brilhantes obras pequenas na "University Magazine", e as dissertações acadêmicas para as diferentes universidades, exibem uma posição de pensamento, uma urbanidade de estilo, e um nível de inteligência superlativo. Elas são a melhor defesa das teorias educacionais católicas em qualquer idioma; um crítico talvez as descreveria como as Via Media entre um obscurantismo que pisoteia os direitos do conhecimento e livre pensamento que não escutará os direitos da revelação. Incidentemente, defendiam o ensino dos clássicos contra o grupo de Franceses Puritanos conduzidos pelo Abbé de Gaume. Isto é quase tudo o que Newman conseguiu durante os sete anos de sua campanha na Irlanda. Somente alguns estudantes nativos ou ingleses assistiram à casa em St. Stephen Green. Os bispos estavam divididos, e o arcebispo MacHale opôs um severo non possumus aos planos do reitor.
Enquanto à administração, as dificuldades se multiplicaram; e apesar de Newman ganhar a amizade do Arcebispo Cullen e o Bispo Moriarty, não eram sempre tratado com consideração. Foi-lhe prometido o status de bispo titular, mas por motivos que nunca conheceu esta promessa nunca se cumpriu. Seu sentimento para a Irlanda era cálido e generoso, mas em novembro de 1858, retirou-se dou reitorado. Seus trabalhos e inquietudes foram-lhe retiradas. Outra grande empresa, à que o Cardeal Wiseman o convidava foi de igual maneira um fracasso - a revisão da Bíblia Católica em Inglês. Newman tinha escolhido um conjunto de pessoas para o trabalho e tinham começado a acumular materiais, mas alguns interesses de pequenos publicitários foram escutados pelo Cardeal Wiseman, cujas intenções eram boas, mas efêmeras e permitiu-lhes arruinar esta magnifica oportunidade. Como escritor de inglês em prosa Newman aparece como a perfeita personificação de Oxford, derivando de Cicero a arte lúcida e calmada da exposição, das tragédias gregas um pensativo refinamento, dos Padres uma preferência pelo ensinamento pessoal sobre o científico, de Shakespeare, Hooker e aquela velha escola o uso do idioma. Não quis aprender o alemão; não conhecia Goethe, nem Hegel; tomou alguns princípios de Coleridge, provavelmente indiretamente, e, nunca foi além de Aristóteles em suas vistas gerais à educação. Da estreiteza puritana de seus primeiros vinte anos foi entregue quando descobriu a Igreja como algo essencial para o cristianismo. Logo aumentou essa concepção até que se converteu à Igreja Católica, Apostólica e Romana. Entretanto, não fez nenhuma tentativa de ampliar as bases educativas de Oxford, em 1830, em que manteve sua posição, apesar de sua contínua leitura e estudo. A teologia escolástica, exceto em seu lado Alxandrino, a manteve sem tocá-la; não há nada nelas em suas "Lectures" ou em seu "Gammar of Assent".
Escreveu energicamente contra a iluminação pouco profunda de Brougham; não imprimiu nenhuma palavra de Darwin, ou Huxley, ou inclusive Colenso. Lamentou a queda de Döllinger, mas não podia consentir a idéia alemã pela qual, como de fato foi aplicada, o juízo privado dos historiadores rejeitavam os dogmas da Igreja. Consciência para ele era a revelação interna de Deus, o catolicismo é a revelação externa e objetiva. Esta força de duas dimensões opunha-se ao agnóstico, ao racionalista, ao simples mundano. Mas parece Ter pensado que os homens são demasiadamente prematuros para empreender uma reconciliação positiva entre fé e ciência, ou quem tentou através de uma vasta síntese curar os conflitos modernos com Roma. Deixou-lhe tal obrigação às seguintes gerações; e ainda que pelo princípio do desenvolvimento e a filosofia do assentimento concreto proporcionando espaço para isso, não contribuiu para seu cumprimento em detalhe.
Provavelmente seja recordado como o Bispo Católico Butler, que estendeu a "Analogia" desenhada desde a experiência da Igreja histórica, provando estar de acordo com a natureza das coisas, não obstante transcendendo grandemente com o esquema visível através de sua mensagem, instituições e propósito, que são igualmente sobrenaturais.
Fonte: Veritatis

O MASSACRE DOS INOCENTES

Giotto - Massacre dos Inocentes - Igreja de São Francisco de Assis, Itália (afresco)
Crianças assassinadas por causa de Jesus
Do Mistério dos santos inocentes de Charles Péguy Esses foram arrancados dos homens:
(de entre os homens, do meio dos homens,
do serem homens)
(Os maiores santos foram homens,
não foram arrancados do serem homens)
e em sua boca não foi encontrada mentira:
de fato, não têm mancha diante do trono
de Deus.
[...] E em seguida do Apóstolo a Igreja repete: Innocentes
pro Christo infantes occisi sunt.
As inocentes, por Cristo,
crianças foram massacradas.
(infantes, crianças pequenas, cada pequena criança que
ainda nem fala)
Ab iniquo rege
lactentes interfect sunt:
Por um rei malvado,
lactantes foram assassinados:
(lactentes, cheios de leite, lácteos,
na idade do leite, ainda em regime de leite,
nutridos de leite)
ipsum sequuntur Agnum sine macula
seguem o próprio Cordeiro sem mancha
(e o texto é tal, minha filhinha, que, ao mesmo tempo, o Cordeiro é sem mancha
e esses, com ele, são também sem mancha)
[...] Salvete, flores Martyrum, essas crianças
de nem dois anos são as flores de todos
os outros Mártires.
Ou seja, as flores que dão
os outros Mártires.
Bem no início de abril, são a rósea flor do pêssego.
Em pleno abril, bem no início
de maio, são a branca flor da pera.
Em pleno maio, são a vermelha flor da maçã.
Branca e vermelha.
[...] Elas são a própria flor e o botão da flor
e a rama do botão.
São a gema do ramo e a gema da flor.
São a honra de abril e a doce esperança.
São a honra dos bosques e dos meses.
São a jovem infância. [...]
São a flor de pilriteiro que floresce na semana santa.
E a flor do precoce espinheiro negro que floresce cinco semanas antes.
De todas essas rosáceas, árvores e plantas, são a flor.
Promessa de tantos mártires,
são os botões de rosa
Desse orvalho de sangue.
Salvete, flores Martyrum,
Salve, flores dos Mártires,
quos, lucis ipso in limine,
Christi insecutor sustulit,
ceu turbo nascentes rosas.
que, no limiar da luz,
o perseguidor de Cristo arrebatou,
(arrancou)
ceu turbo nascentes rosas.
como a tempestade as rosas nascentes.
(ou seja, como a tempestade, como uma tempestade arrebata, arranca as rosas nascentes).
Vos prima Christi victima,
Grex immolatorum tener,
Aram sub ipsam simplices
Palma et coronis luditis.
Vós, primeiras vítimas de Cristo,
Tenro rebanho dos imolados,
Aos pés do próprio altar, simples,
Simplices, almas simples, simples crianças,
Palma et coronis luditis.
Numa brincadeira com a palma e as coroas.
Com a vossa palma e as vossas coroas.
Tal é o meu paraíso, diz Deus.
Meu paraíso é o que há de mais simples.
Nada é mais despojado que meu paraíso.
Aram sub ipsam aos pés do próprio altar
Essas simples crianças brincam com sua palma e suas coroas de mártires.
Eis o que acontece em meu paraíso.
De que será que alguém pode jogar com uma palma e coroas de mártires?
Acho que brincam de roda, diz
Deus, e talvez de aro (ao menos é o que eu penso, pois vocês não acham, afinal, que alguém me peça permissão)
E a palma sempre verde lhes serve, ao que parece, de vara.

Entrevista sobre Chesterton

Em 14 de junho, a edição italiana do L’Osservatore Romano, publicou uma entrevista de Paolo Pegoraro com Ian Boyd, fundador e diretor da Chesterton Review. Segue a tradução abaixo. À produção menos conhecida de Gilbert Keith Chesterton pertence A Ressurreição de Roma (The Resurrection of Rome, não traduzido para o português) – embora redescoberta nos anos recentes – quase um diário de viagem do escritor inglês na capital italiana. Parafraseando o título se pode dizer que este sábado, em Roma, será a “ressurreição de Chesterton”. O mérito deste portentoso evento deve ser atribuído sobretudo a “La Civiltà Cattolica”, a revista dos jesuítas que hospedará um congresso internacional sobre o criador do Padre Brown (personagem dos romances policiais de Chesterton), o primeiro deste nível na Itália, dedicado ao conhecido escritor. Convidado de honra será Padre Ian Boyd, sacerdote da congregação de São Basílio, perito em Chesterton, fundador e diretor da “Chesterton Review” além de Presidente do Chesterton Institute for Faith & Culture da Universidade de Seton Hall em New Jersey que, juntamente com a “La Civiltà Cattolica” e com a Bomba Carta, organizou a manifestação. Nós o encontramos em seu desembarque em Roma e nos declara imediatamente ser um tanto levado a descobrir porque hoje na Itália Chesterton seja pouco conhecido.
“Parece-me que as notícias relativas ao esquecimento de Chesterton são exageradas. Nos Estados Unidos existe recentemente uma grande redescoberta de Chesterton: muitos livros seus estão sendo reeditados e os congressos reúnem centenas de pessoas a cada ano. Faz poucos anos o presidente Bush, na sua visita à China, citou uma famosa definição que Chesterton fez da América: ‘uma nação com a alma de uma Igreja’. Mas também na Europa eu diria que acontece o mesmo fenômeno: o nosso instituto realizou conferências em toda a Europa – em lugares diversos como Irlanda, Inglaterra, Lituânia e Croácia – que tiveram enorme sucesso. Além disso, deve-se dizer que a Europa enfrenta hoje graves desafios éticos e culturais e faria bem em considerar Chesterton como guia nestas dificuldades. Direi ainda que um bom indicativo da força de uma cultura se encontra na medida de sua capacidade de responder a uma provocação, ao mesmo tempo sábia e imaginativa, como aquela oferecida por Chesterton”. Em que sentido Chesterton pode ser considerado um profeta dos nossos dias?
Ele foi um profeta pela simples razão de que tudo que escreveu se concretizou. Aqueles coisas que aos seus contemporâneos pareciam fantasias, nos parecem hoje como a descrição do mundo atual. Por exemplo, no seu jornal, o G. K.’s Weekly, em 19 de junho de 1926 ele escreve que “a próxima grande heresia será um ataque à moral, e em particular à moral sexual (...) A loucura de amanhã não está em Moscou, mas sobretudo em Manhattan”. Ainda antes, em 1905, havia escrito no Daily News: “Antes que a idéia liberal morra ou triunfe, nós veremos guerras e perseguições tais que o mundo jamais viu”. Como escreveu Alan Lawson Maycock na antologia dos escritos de Chesterton (intitulada The Man Who Was Orthodox), de sua responsabilidade, ele (Chesterton) possuía “aquele raro poder de intuição que em literatura é chamado o dom da sabedoria”.
O que há de vivo, hoje, nas obras e na mensagem de GKC?
A obra de Chesterton é de certo modo compacta e é pois muito difícil separar os vários componentes. Em geral ele ofereceu uma visão “sacramental” do mundo, uma idéia do divino que é mediada através das coisas materiais. Neste sentido ele tem muitas coisas importantes a dizer sobre economia, família; realidade que ele considera essencial para o crescimento do homem e da sociedade. Ele era a favor do pequeno empreendimento, da distribuição da riqueza e nutria um intenso interesse pelos assuntos relativos às realidades locais, destacando a importância da adesão ao próprio lugar de origem. Chesterton lutou com paixão a favor da casa e da família. Mas estas são apenas duas entre tantas coisas que ele tinha a dizer.
Qual foi a relação de Chesterton com a razão? A razão é algo a defender e a revalorizar ou é um laço sufocante para o homem?
A melhor resposta a esta pergunta, penso que se encontra no primeiro episódio das estórias do Padre Brown, A Cruz Azul. Nesta estória, Padre Brown chega a identificar o conhecido ladrão francês, Flambeau, disfarçado de padre, porque este último ataca o uso da razão e isto é, diz Padre Brown, péssima teologia (nos dias de hoje, a péssima teologia do ladrão disfarçado de padre, só reforçaria a eficácia de seu disfarce!!!). Por outro lado, Chesterton insistiu com freqüência sobre os limites não tanto da razão quanto do racionalismo. O primeiro valor da lógica, disse uma vez, é ser uma arma com a qual derrotar os lógicos. O ponto que está realmente no coração de Chesterton é que, segundo ele, o homem deveria combinar razão e imaginação. O pensador construtivo é como Neemias que defende os muros de Jerusalém com uma pá de pedreiro em uma mão e a espada na outra (Neemias 4, 1-12): a pá representa a imaginação, o poder construtivo; a espada é a razão, o instrumento defensivo. Tudo é bem resumido no conselho que ele dá ao jovem rapaz ao qual presenteou com um livro ilustrado: “Assim recorda-te do teu livro, meu jovenzinho, / e escuta as palavras e as críticas dos intelectuais. / Mas não creia em nada que não possa ser relatado em imagens coloridas”.
Ainda sobre sua relação com a razão, considerando que os últimos dois Papas apreciaram muito os escritos de Chesterton, se pode dizer que ele tenha sido um escritor “ratzingeriano” pela sua defesa da razão, mas também tomista como João Paulo II?
Pergunta muito interessante, mas eu sugeriria que se fizesse uma distinção entre o tomismo e o agostinismo que Chesterton explorou. De uma parte ele foi profundamente tomista, e deste ponto de vista, mais próximo de João Paulo II. No seu grande livro sobre Santo Tomás, que Etienne Gilson considerou o mais belo livro escrito sobre o santo, ele fala da “paixão pela vida” de Tomás e insiste, contraponto Tomás a Platão, que quando as coisas materiais nos enganam isto acontece não porque sejam transitórias mas porque são, ao mesmo tempo, muito mais reais. Ele é também profundamente agostiniano na convicção que a verdade pode ser descrita através de parábolas e que todos os eventos devem ser lidos como parte de um texto sagrado. Nesta convicção, a vida humana é uma história terrestre com um significado celeste, uma re-proclamação da história do Evangelho. E me agrada acrescentar que também João Paulo (se refere a Albino Luciani, João Paulo I) foi um Papa “chestertoniano”: a sua deliciosa carta aos escritores ingleses, que se encontra no volume “Ilustríssimos Senhores” (escrita quando o Papa Luciani era Patriarca de Veneza), com a sua aguda leitura de um romance um tanto obscuro, como A Esfera e a Cruz (desconheço se existe uma tradução para o português), mostra um amor por Chesterton que é profundo e comovente.
Chesterton não teve filhos naturais. Há escritores que possam ser considerados seus filhos espirituais?
Certamente Clive S. Lewis, que atribui a Chesterton a sua conversão ao cristianismo. Também John R. R. Tolkien (autor de O Senhor dos Anéis) e Graham Greene admiravam profundamente Chesterton como também o poeta e escritor argentino Jorge Luis Borges. Conta-se que Franz Kafka quando leu “O Homem que era Quinta-feira” sem nada saber a respeito do autor, disse que estava certo de que o autor tivesse encontrado Deus. (Entre nós podemos citar Gustavo Corção e Alceu Amoroso Lima entre os admiradores de Chesterton)
E quais são, por outro lado, os pais espirituais de Chesterton?
Talvez a maior influência sobre Chesterton tenha sido a do pouco conhecido George MacDonald, amigo de Lewis Carrol e autor de algumas belíssimas estórias fantásticas para crianças. De MacDonald Chesterton retirou muito do seu conceito de “imaginação sacramental”. Depois John Henry Newman: o próprio Chesterton afirma ter lido todas as obras de Newman, no que se pode acreditar tranqüilamente. Diria que também Robert L Stevenson foi muito importante para Chesterton, como, obviamente foi Charles Dickens – com o seu amor por aquilo que pode ser definido o extraordinário poder das pessoas comuns – e Robert Browning a quem dedicou sua primeira e melhor biografia. Por fim, Chesterton mesmo sempre reconheceu em si a grande influência daquela filosofia derivada das leitura das fábulas, que poderíamos definir como sabedoria da humanidade.

CHESTERTON: ALGUNS TEXTOS

Links para alguns textos de chesterton:

UM RETRATO DE G. K. CHESTERTON

Quem é esse sujeito, e por que nunca ouvi falar dele?
Um retrato de Gilbert Keith Chesterton, um dos maiores e mais influentes intelectuais do século XX, que por razões inconfessáveis ainda é um desconhecido para amplos setores da sociedade contemporânea Por Dale Ahlquist Já ouvi muitas vezes as perguntas acima, feitas por pessoas que estavam começando a descobrir Chesterton. Tinham começado a ler um livro seu, ou viram uma edição da revista Gilbert!, ou ainda toparam com algumas das suas famosas frases incisivas, que formulam de maneira maravilhosa um pouco desse bom senso tão esquecido. Os que levantavam essas questões, faziam-no num tom de assombro misturado com gratidão e... com uma certa irritação. Estavam deslumbrados com o que tinham descoberto, agradecidos por terem feito essa descoberta e como que incomodados por terem demorado tanto tempo a descobri-la.
"QUEM É ESSE SUJEITO?..."
Gilbert Keith Chesterton (1874 1936) não pode ser resumido numa frase nem num parágrafo. Apesar de se terem escrito excelentes biografias sobre ele, nunca foi realmente “capturado” nas páginas de um livro. Mas, ao invés de esperarmos até ter separado as ovelhas dos cabritos, vamos direto ao ponto e digamos claramente: Chesterton foi o melhor escritor do século XX. Teve algo a dizer sobre todos os assuntos, e disse-o melhor do que ninguém. Não era, porém, um mero fraseólogo: sabia expressar se muitíssimo bem, mas – o que é mais importante – também tinha coisas muitíssimo boas para expressar. Pois a razão pela qual foi o maior escritor do século XX é que foi o maior pensador do século XX.
Nascido em Londres, Chesterton estudou no Saint Paul’s College, mas não freqüentou a Faculdade, e sim a Escola de Artes. Em 1900, pediram lhe que escrevesse uns artigos de crítica de Arte para uma revista, e partindo daí acabou por tornar-se um dos mais prolíficos escritores de todos os tempos. Chesterton escreveu uma centena de livros, contribuições para outros duzentos, centenas de poemas, incluindo o épico Ballad of the White Horse, cinco peças de teatro, cinco romances e uns duzentos contos, incluindo a popular série sobre o Padre Brown, o padre detetive.
No entanto, apesar das suas habilidades literárias, Chesterton considerava-se acima de tudo um jornalista. Escreveu mais de 4000 artigos, entre os quais trinta anos de colunas semanais para o Illustrated London News e treze anos de colunas semanais para o Daily News, além dos textos diversos que redigiu para o seu próprio jornal, o G.K.’s Weekly. (Para se ter uma idéia, 4000 artigos equivalem a escrever um artigo por dia, todos os dias, durante onze anos. Se isso não o impressiona, tente fazê-lo, não digo por onze anos, mas por algumas semanas. E lembre se: os artigos devem ser todos bons, tão divertidos quanto profundos, e ainda por cima devem poder ser lidos com proveito daqui a cem anos.)Chesterton movia se com igual desembaraço em crítica literária ou social, História, Política, Economia, Filosofia e Teologia. O seu estilo é inconfundível, sempre marcado pela humildade, pela consistência, pelo paradoxo, pela sagacidade e pelo encanto. Os seus escritos continuam tão atuais e permanentes hoje como no momento em que surgiram, apesar de muitos deles terem sido publicados pela primeira vez em jornais.
O homem que compôs frases tão perfeitas e profundas como "Não é que o ideal cristão tenha sido testado e considerado insuficiente; foi considerado difícil demais e deixado de lado sem testar" ("The Christian ideal has not been tried and found wanting; it has been found difficult and left untried"), media 2,09 metros de altura, pesava uns 140 quilos e costumava ter um charuto na boca. Passeava usando uma capa, um chapéu amarrotado, minúsculos óculos na ponta do nariz e uma bengala na mão, soprando alegremente o seu bigode. E quase sempre não tinha a menor idéia de onde ou quando era o seu próximo compromisso.
Boa parte dos seus escritos foram elaborados em estações de trem, pois ele costumava perder o trem que devia tomar. Um episódio famoso que se conta a seu respeito é que certo dia a sua esposa recebeu um telefonema em que ele lhe perguntava: "Estou em Harborough Market. Onde deveria estar agora?" A sua dedicada esposa, Frances, estava sempre pendente dos menores detalhes da sua vida, uma vez que estava mais do que claro que ele mesmo não tinha a menor aptidão para as pequenas coisas concretas. Mais tarde, passou a receber a ajuda de uma secretária, Dorothy Collins, que se tornou praticamente filha adotiva do casal e depois administradora do legado literário de Chesterton, levando adiante a publicação das suas obras após a morte.Esse distraído, enorme e travesso homenzarrão, que ria das suas próprias piadas e divertia as crianças em festinhas de aniversário lançando balas ao ar e apanhando as com a boca, foi o homem que escreveu a obra intitulada O Homem Eterno, que levaria um jovem ateu chamado C.S. Lewis a tornar se cristão. Foi ele quem escreveu um romance intitulado O Napoleão de Nothing Hill, que inspiraria Michael Collins a liderar o movimento pela independência da Irlanda. E foi também ele o autor de um artigo no Illustrated London News que inspiraria Mohandas Gandhi a liderar o movimento que pôs fim ao domínio colonial inglês na Índia.
Esse foi o homem que, solicitado a escrever um livro sobre São Tomás de Aquino, pediu à secretária que retirasse uma pilha de livros de São Tomás da biblioteca, abriu o primeiro, folheou o do começo ao fim, fechou o e começou a ditar a obra sobre o santo teólogo. E, ao contrário do que esperaríamos, não lhe saiu um livro qualquer. Ninguém menos do que o renomado especialista em tomismo e Filosofia Medieval, Étienne Gilson, viria a dizer dessa obra:
"Considero, sem comparação alguma, que é o melhor livro jamais escrito sobre São Tomás. Só um gênio podia fazer algo assim. Todo o mundo admitirá, sem nenhuma dúvida, que se trata de um livro inteligente; mas os poucos leitores que tiverem passado vinte ou trinta anos estudando São Tomás de Aquino e publicado dois ou três volumes sobre o tema terão de reconhecer que a chispa de gênio de Chesterton lhes deixou ao rés do chão a erudição. Tudo o que eles tentavam expressar desajeitadamente em fórmulas acadêmicas foi expressado por Chesterton. Esse homem foi um dos pensadores mais profundos que jamais existiram. Era profundo porque tinha razão, e não podia deixar de tê la; mas também não conseguia deixar de ser modesto e amável; por isso, deixava os que concordavam com ele pensarem que estava certo e era profundo; quanto aos outros, desculpava se por ter razão, e fazia se perdoar a profundidade com o engenho, pois era só o que eles conseguiam ver nele."
Chesterton discutiu com muitos dos mais célebres intelectuais do seu tempo: George Bernard Shaw, H.G. Wells, Bertrand Russell, Clarence Darrow. Segundo os relatos da época, costumava sair vencedor dessas disputas. O mundo, porém, imortalizou os seus oponentes e esqueceu Chesterton, de modo que hoje só nos dão a ouvir um dos lados da argumentação e nos obrigam a aturar as heranças do socialismo, do relativismo, do materialismo e do ceticismo. A ironia disso é que todos os seus oponentes tratavam Chesterton com a máxima consideração e estima; Shaw, por exemplo, chegou a dizer: "O mundo não agradeceu o suficiente a Chesterton".
Os seus escritos foram aplaudidos e elogiados por Ernest Hemingway, Graham Greene, Evelyn Waugh, Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Karel Capek, Marshall McLuhan, Paul Claudel, Dorothy L. Sayers, Agatha Christie, Sigrid Undset, Ronald Knox, Kingsley Amis, W.H. Auden, Anthony Burgess, E.F. Schumacher, Neil Gaiman e Orson Welles, para só citar alguns poucos. E T.S. Eliot afirmou que Chesterton "merece o direito perpétuo à nossa lealdade"....
E POR QUE NUNCA OUVI FALAR DELE?
"Há três respostas possíveis para essa pergunta:
1. Não sei.
2. Você foi enganado.
3. Chesterton é o escritor mais injustamente desprezado do nosso tempo. Talvez esta seja mais uma prova de que a educação é importante demais para ser deixada nas mãos dos burocratas do ensino, e de que a publicação de livros é importante demais para ser deixada nas mãos dos editores. Mas isso não desculpa que se tenha deixado de ensinar Chesterton nas nossas escolas, de reeditar amplamente os seus escritos e de mencioná los com o destaque que merecem nas antologias de textos universitários.
Seja como for, existe uma desculpa para isso: Chesterton é duro de classificar, e se um escritor não pode ser adscrito a uma categoria nem rotulado sumariamente com uma só palavra, corre o risco de escorrer pelo ralo. Mesmo que meça mais de dois metros e pese cento e quarenta quilos.
Mas há ainda um outro problema. Os pensadores, os críticos e os comentaristas modernos acharam muito mais conveniente ignorar Chesterton do que fazê lo comparecer numa discussão, porque argumentar com Chesterton equivale a ser derrotado.
Chesterton debateu de forma eloqüente todas as variadas ideologias surgidas no século XX: o materialismo, o determinismo científico, o relativismo moral e o agnosticismo invertebrado. Além disso, combateu tanto o socialismo quanto o capitalismo, mostrando porque ambos têm sido inimigos da liberdade e da justiça na sociedade moderna.
Mas a que coisas ele era favorável? O que defendia? Defendia o homem comum e o bom senso. Defendia o pobre. Defendia a família. Defendia a beleza. E defendia a Cristandade e a Fé Católica. Temas que não andam muito em voga nas salas de aula, na mídia ou no debate público. E é provavelmente por isso que ele é desprezado. O mundo moderno prefere escritores que sejam esnobes, que tenham idéias exóticas e bizarras, que glorifiquem a decadência, que ridicularizem os católicos, que neguem a dignidade dos pobres e que digam que liberdade não implica nenhuma responsabilidade.
Mas, mesmo que Chesterton já não seja ensinado nas escolas, você não pode considerar se educado enquanto não ler o Chesterton completo. Além disso, ler todo o Chesterton é por si só uma educação quase completa. Chesterton é realmente um professor, e dos melhores. Ele não irá somente surpreendê lo. Não irá operar apenas o prodígio de fazer você pensar. Ele irá mais além: fará você rir.

LÉON BLOY - TEXTOS

Léon era filho de pai sarcástico, que zombava da religião (discípulo de Voltaire), e de mãe muito religiosa católica. Recebeu educação contraditória, que nele suscitou lutas internas entre a verdadeira crença religiosa (sugerida por sua mãe) e os preconceitos (incutidos por seu pai). Aos poucos estes foram desmoronando, mas com grande sofrimento para Bloy, que ele descreve em sua obra A Mulher Pobre. Acabou pedindo o Batismo, mas nem por isto conseguiu definir o seu ritmo de vida: quis tornar-se monge beneditino, mas não lhe foi possível, porque caía e recaía em seus vícios. Retirou-se para um mosteiro cartuxo, a fim de lá escrever; mas sua consciência lhe dizia que suas palavras não correspondiam ao seu tipo de vida. Um belo dia pareceu-lhe ouvir uma voz interior, que lhe dizia: "Se fores dócil à graça, eu te anuncio com certeza alegrias tão profundas, tão intensas, tão puras, tão luminosas que julgarás estar para morrer". Começou então uma vida nova, que com seus escritos e conversas levou muitos irmãos a Deus.

Links para alguns escritos:

CITAÇÕES DE LÉON BLOY: O PEREGRINO DO ABSOLUTO


Leon Bloy

PENSAMENTOS DE LÉON BLOY

Trechos extraídos do livro “Léon Bloy”, de Octavio de Faria, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro, 1968.

Eu pedia continuamente a Deus, que me enviasse sofrimentos extraordinários, enormes tormentos espantosos, e que assim eu pagasse por todos aqueles que amava, por todos os que amasse e devesse amar, quaisquer que eles fossem, inclusive assassinos ou mulheres perdidas
(Leon Bloy, Cartas)

“O visível é a marca dos passos do Invisível”
(Mon Journal, M.F. – ed. 1928, p. 78)

“Quanto mais alguém se aproxima de Deus, mais fica só. É o infinito da solidão.”
(La porte des Humbles, M.F. - ed. 1920, p. 141)

“Senhor Jesus, orais por quem vos crucifica e crucificais aqueles que vos amam”
(Le Mendiant Ingrat, v. II , M.F – 1928, p.170)

“A Fé é o conhecimento de nossos limites”
(Le Mendiant Ingrat, M.F. – ed. 1928, p. 207)

“A dor é uma graça que não merecemos”
(Quatre Ans De Captivé Á Cochoins-Sur-Marne, v. II, - M.F. ed. 1928, p.211)

“Chegamos a esse formidável e absolutamente estranho momento em que, Deus tendo sido expulso de toda parte, nenhum homem saberá mais para onde ir”

“Por que não se desencadeou ainda a perseguição sangrenta? Porque o demônio não consegue se decidir. Sabe que sobre dez ou vinte mil apóstatas, em relação aos quais está seguro, haverá um mártir e isso lhe causa medo”

“A função da Razão é crer e crer é saber, saber NO ALTO”

“É preciso ver em cada palavra da Escritura um vaso cheio do Sangue de Jesus Cristo”

“Os acontecimentos não são sucessivos, mas contemporâneos, de um modo absoluto. Contemporâneos e simultâneos, e é por essa razão que podem existir profetas. Os acontecimentos desenrolam-se sob os nossos olhos, como uma tela imensa. Só a nossa visão é que é sucessiva.”

“Nossas almas, resgatadas com sangue de Jesus Cristo, não são ´malditas´, mas condenadas a gerar Deus na dor. Quando Deus estiver nascido, as torrentes de alegria cairão sobre nós e escutaremos o canto dos anjos”

“O paraíso terrestre era necessariamente toda a terra. De outro modo, a terra não poderia ter sido maldita, posto que, supondo o Jardim de Volúpia um lugar determinado, tudo, além dos limites desse lugar, seria o que vemos, e, por conseguinte, não teria tido necessidade de maldição. Adão, antes da sua queda, vivia num estado inimaginável, análogo, ao que parece, àquele de Nosso Senhor na sua Humanidade gloriosa, depois da Ressurreição: luminosidade, agilidade, sutileza, ubiqüidade, etc., a matéria não lhe podendo servir de obstáculo. Adão, antes da queda era como um carvão em estado de incandescência. Subitamente extinto, perdeu sua luz e seu calor, tornando-se frio e negro.”

“No caminho da Igreja. Digo eu: quanto mais marchamos no sentido de Deus, mais seremos unidos, isto é: próximos. Os seres humanos não são paralelos, mas convergentes. E Deus é o seu foco.”

“Somos doentes, mas Maria é nosso hospital: Salus infirmorum. A cura, nesse hospital é a santidade.”

“Enfim, tudo o que não é estritamente católico, exclusivamente, desatinadamente católico, deve ser atirado nas latrinas.”


“Quereis saber o que há de vital, de absolutamente essencial na Igreja de Jesus Cristo? Olhai para o que os protestantes execram”

“Declaro, em nome de um muito pequeno grupo de indivíduos que amam a Deus e estão decididos a morrer por Ele quando for necessário, que o espetáculo dos católicos modernos é uma tentação acima de nossas forças”

“Em síntese, afirmai, gritai mesmo que sou um católico, e será verdade. Mas, um católico não maçador, porque, um católico ABSOLUTO”

“Os imbecis estão na Igreja como as pulgas nas casas velhas. Apavoram os visitantes e fazem com que os locatários se mudem.”

“O que se vê pode toda parte, e cada vez mais, é, por parte dos cristãos, o ateísmo prático, pelo menos na maior parte deles”

“...ousei dizer o que amedronta a todo a todo mundo, sobretudo aos covardes católicos de nossa época, em completo esquecimento do julgamento dos homens”

“Três espécies de seres cujo contato cada dia me é mais insuportável: os ricos, os pulhas e os protestantes.”

“Há para o diabo épocas fastas, inexplicáveis momentos em que uma extraordinária licença concedida aos poderosos de seu inferno”


***

SOBRE LÉON BLOY

O escritor francês Léon Bloy autodenominava-se "o peregrino do absoluto", "o mendigo ingrato"... Nasceu em Périgueux, em 1846. A maior parte da vida residiu em Paris. Morreu em Bourg La Reine em 1917, aos 71 anos. Depois de converter-se ao catolicismo aos vinte e poucos anos, disparava dardos e petardos para todos os lados, conseguindo indispor-se tanto com ateus e materialistas quanto com maus católicos e prelados. Léon Bloy, a mulher e os filhos conheceram a mais absoluta miséria - seus livros vendiam pouco, a imprensa sequer o citava. Muitas vezes precisou esmolar para comer. No final da vida alcançou um certo reconhecimento entre os intelectuais e artistas franceses, mas viveu sempre marginalizado e pouco lido. (No Brasil, há um ensaio (esgotado) de Octávio de Faria, com muitos excertos traduzidos, "Léon Bloy", Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro, 1968.)

LÉON BLOY E OS MARITAIN

Foi o encontro com Bloy o passo fundamental de Raissa e Jacques Maritain em sua caminhada para a fé católica. Este encontro se deu pela leitura de um livro de Bloy que suscita nela a segunte reflexão: “Lendo ‘La femme pauvre’ atravessamos a linguagem literária (...) para ir diretamente não ao autor, mas ao homem, homem de fé, iluminado pelos raiso dessa coisa estranha, tão desconhecida par anós, e com que a ele identificada; o catolicismo”(p. 84). Logo depois, resolvem escrever para Bloy e visitá-lo. A expectativa da primeira visita é descrita por Jacques e citada por Raissa:

No dia 15/06/1905, duas crianças de 20 anos subiam a escadaria do Sacré-coeur. Levavam em si essa angústia que é o único produto real da cultura moderna, e uma espécie de desespero ativo iluminado apenas, sem que soubessem por quê, pela certeza interior de que a Verdade de que tinham fome, e sem a qual lhes era quase impossível aceitar a vida, lhes seria um dia mostrada (...). (p. 92)

Iam ao encontro de um estranho mendigo, que desprezando qualquer filosofia clamava em altos brados a verdade divina e, católico integralmente obediente, com muito mais liberdade do que todos os revolucionários do mundo, condenava o seu tempo e os que se sentem consolados aqui na terra. (p. 93)

Bastava transpor o limiar de sua porta para que, como que impulsionados por mola invisível, estabelecessem-se os valores na sua verdadeira hierarquia. Sabia-se, adivinhava-se que “só há uma tristeza, a de não ser santo.[1] E tudo o mais se tornava crepuscular. Depois de dois anos de convivência com Bloy, pedem o Batismo. Foram batizados no dia 11 de junho de 1906, na festa de São Barnabé, na Igreja Saint Jean L’evangeliste em Montmartre, tendo Leon Bloy como padrinho.

[1] Última frase do livro La femme paure de Leon Bloy.
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