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Lectio Divina de Bento XVI: sobre Humildade, Virtudes e Batismo

ENCONTRO DO PAPA BENTO XVI
COM O CLERO DA DIOCESE DE ROMA
NO INÍCIO DA QUARESMA
LECTIO DIVINA
Sala Paulo VI
Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
 
Queridos irmãos!
É para mim uma grande alegria ver todos os anos, no início da Quaresma, o meu clero, o clero de Roma, e é agradável ver como somos hoje numerosos. Pensava que nesta grande sala teríamos sido um grupo disperso, mas vejo que somos um forte exército de Deus e podemos entrar com vigor neste nosso tempo, nas batalhas necessárias para promover, para fazer com que o Reino de Deus vá em frente. Entramos ontem pela porta da Quaresma, renovamento anual do nosso Baptismo; repetimos quase o nosso catecumenado, indo de novo à profundidade do nosso ser baptizados, retomando, voltando ao nosso ser baptizados e assim incorporados em Cristo. Deste modo, podemos também procurar guiar as nossas comunidades de novo nesta comunhão íntima com a morte e ressurreição de Cristo, tornar-nos cada vez mais conformes com Cristo, tornar-nos cada vez mais realmente cristãos.

O trecho da Carta de são Paulo aos Efésios que ouvimos (4, 1-16) é um dos grandes textos eclesiais do Novo Testamento. O autor começa com a sua apresentação: «Eu, Paulo, preso por causa do Senhor» (v. 1). A palavra grega desmios diz «encadeado»: Paulo, como um criminal, está em cadeias, encadeado por Cristo. Este é o primeiro elemento da auto-apresentação: ele diz encadeado, fala na comunhão da paixão de Cristo e deste modo está em comunhão também com a ressurreição de Cristo, com a sua nova vida. Nós, quando falamos, devemos falar sempre em comunhão com a sua paixão e aceitar também as nossas paixões, os nossos sofrimentos e provações, neste sentido: são precisamente provas da presença de Cristo, que Ele está connosco e que nos encaminhamos, em comunhão com a sua paixão, para a novidade da vida, para a ressurreição. «Encadeado», portanto, é primeiro uma palavra da teologia da cruz, da comunhão necessária de qualquer evangelização, de cada pastor com o Pastor supremo, que nos remiu «entregando-se», sofrendo por nós. O amor é sofrimento, é doar-se, é perder-se, e precisamente deste modo é fecundo. Mas assim, no elemento exterior das cadeias da liberdade que já não está presente, aparece e transparece também outro aspecto: a verdadeira cadeia que liga Paulo a Cristo é a cadeia do amor: «Encadeado por amor»: um amor que dá liberdade, um amor que o torna capaz de fazer presente a Mensagem de Cristo e o próprio Cristo. E isto deveria ser, também para todos nós, a última cadeia que nos liberta, ligados com a cadeia do amor a Cristo. Deste modo encontramos a liberdade e o verdadeiro caminho da vida, e podemos, com o amor de Cristo, guiar para este amor, que é a alegria, a liberdade, também os homens que nos estão confiados.

E depois diz «exorto» (cf 4, 1): sua tarefa é exortar, mas não é uma admoestação moralista. Exorto da comunhão com Cristo; é o próprio Cristo, por fim, que exorta, que convida com o amor de um pai e de uma mãe. «Comportai-vos de maneira digna da chamada que recebestes» (v. 1); ou seja, primeiro elemento: recebemos uma chamada. Eu não sou anónimo ou sem sentido no mundo: há uma chamada, há uma voz que me chamou, uma voz que sigo. E a minha vida deveria ser um entrar cada vez mais profundamente no caminho da chamada, seguir esta voz e deste modo encontrar o verdadeiro caminho e guiar os outros por este caminho.

Sou «chamado com uma chamada». Diria que temos a grande primeira chamada do Baptismo, de ser com Cristo; a segunda grande chamada de ser Pastores ao seu serviço, e devemos estar cada vez mais em escuta desta chamada, de modo a poder chamar, ou melhor, ajudar também outros para que sintam a voz do Senhor que chama. O grande sofrimento da Igreja de hoje na Europa e no Ocidente é a falta de vocações sacerdotais, mas o Senhor chama sempre, falta quem ouve. Nós ouvimos a sua voz e devemos estar atentos à voz do Senhor também para outros, ajudar para que haja quem ouve, e assim a chamada seja aceite, se abra um caminho da vocação para ser Pastores com Cristo. São Paulo volta sobre esta palavra «chamada» no final deste primeiro parágrafo, e fala de uma vocação, de uma chamada à esperança – a própria chamada é esperança – e deste modo demonstra as dimensões da chamada: não é só individual, a chamada já é um fenómeno dialógico, um fenómeno no «nós»; no «eu» e no «tu» e no «nós». «Chamada à esperança». Vemos assim as dimensões da chamada; elas são três. Chamada, por fim, segundo este texto, para Deus. Deus é o fim; no final chegamos simplesmente a Deus e todo o caminho é um caminho rumo a Deus. Mas este caminho rumo a Deus nunca é isolado, nunca é um caminho só no «eu», é um caminho rumo ao futuro, à renovação do mundo, é um caminho no «nós» dos chamados que chamam outros, que lhes faz ouvir esta chamada. Por isso a chamada é sempre também uma vocação eclesial. Ser fiéis à chamada do Senhor abrange a descoberta deste «nós» no qual e para o qual somos chamados, assim como ir juntos e realizar as virtudes necessárias. A «chamada» implica a eclesialidade, por conseguinte, a dimensão vertical e horizontal, que caminham inseparavelmente juntas, engloba a eclesialidade no sentido de se deixar ajudar para o «nós» e de construir este «nós» da Igreja. Neste sentido, são Paulo ilustra a chamada com esta finalidade: um Deus único, só, mas com esta direcção rumo ao futuro; a esperança no «nós» dos que têm esperança, que amam dentro da esperança, com algumas virtudes que são precisamente os elementos do caminhar juntos.

A primeira é: «com toda a humildade» (Ef 4, 2). Gostaria de me deter um pouco mais sobre esta virtude porque o catálogo das virtudes pré-cristãs não a contém; é uma virtude nova, a virtude do seguimento de Cristo. Pensemos na Carta aos Filipenses, no capítulo dois: Cristo, sendo igual a Deus, humilhou-se, aceitando a forma de servo e obedecendo até à cruz (cf. Fl 2, 6-8). Este é o caminho da humildade do Filho que devemos imitar. Seguir Cristo significa entrar neste caminho da humildade. O texto grego diz tapeinophrosyne (cf. Ef 4, 2): não pensar em grande para si mesmos, ter a medida justa. Humildade. O contrário da humildade é a soberba, como raiz de todos os pecados. A soberba que é arrogância, que quer sobretudo poder, aparência, aparecer aos olhos dos outros, ser alguém ou alguma coisa, não tenciona agradar a Deus, mas agradar a si próprio, ser aceite pelos demais e — digamos — venerados pelos outros. O «eu» no centro do mundo: trata-se do meu eu soberbo, que sabe tudo. Ser cristão significa superar esta tentação originária, que é também o núcleo do pecado original: ser como Deus, mas sem Deus; ser cristão é ser verdadeiro, sincero, realista. A humildade é sobretudo verdade, viver na verdade, aprender a verdade, aprender que a minha pequenez é precisamente a grandeza, porque assim sou importante para o grande tecido da história de Deus com a humanidade. Precisamente reconhecendo que eu sou um pensamento de Deus, da construção do seu mundo, e sou insubstituível, precisamente assim, na minha pequenez, e só deste modo, sou grande. Este é o início do ser cristão: é viver a verdade. E só vivo bem se viver a verdade, o realismo da minha vocação pelos outros, com os outros, no corpo de Cristo. Viver contra a verdade é sempre viver mal. Vivamos a verdade! Aprendamos este realismo: não querer aparecer, mas querer agradar a Deus e fazer quanto Deus pensou de mim e para mim, e deste modo aceitar também o outro. O aceitar o outro, que talvez seja maior do que eu, supõe precisamente este realismo e o amor à verdade; supõe aceitar-me a mim mesmo como «pensamento de Deus»; tal como sou, nos meus limites e, desta forma, na minha grandeza. A aceitação de si e do outro caminham juntas: só aceitando-me a mim no grande tecido divino posso aceitar também os outros, que formam comigo a grande sinfonia da Igreja e da criação. Eu penso que as pequenas humilhações, que temos que viver dia a dia, são saudáveis, porque ajudam cada um a reconhecer a própria verdade e deste modo a libertar-nos desta vanglória que vai contra a verdade e não me pode fazer feliz e bom. Aceitar e aprender isto, e assim aprender a aceitar a minha posição na Igreja, o meu pequeno serviço como grande aos olhos de Deus. E precisamente esta humildade, este realismo, torna livres. Se sou arrogante, se sou soberbo, pretendo agradar sempre e se não consigo sou miserável, sou infeliz e devo procurar sempre este agradar. Ao contrário, quando sou humilde tenho a liberdade também de estar em contraste com uma opinião prevalecente, com pensamentos de outros, porque a humildade me dá a capacidade, a liberdade da verdade. E assim, diria, peçamos ao Senhor que nos ajude, nos ajude a ser realmente construtores da comunidade da Igreja: que cresça, que nós mesmos cresçamos na grande visão de Deus, do «nós», e sejamos membros do Corpo de Cristo, pertencentes assim, em unidade, ao Filho de Deus.

A segunda virtude — mas sejamos mais breves — é a «doçura», diz a tradução italiana (Ef 4, 2), em grego é praus, ou seja, «doce, manso»; e também esta é uma virtude cristológica como a humildade, que é seguir Cristo por este caminho de humildade. Assim também praus, ser doce, ser manso, é seguimento de Cristo que diz: Vinde a mim, que sou manso de coração (cf. Mt 11, 29). Isto não significa debilidade. Cristo também pode ser duro, se necessário, mas sempre com um coração bom, permanece sempre visível a bondade, a mansidão. Na Sagrada Escritura, algumas vezes, «manso» é simplesmente o nome dos crentes, do pequeno rebanho dos pobres que, em todas as provas, permanecem humildes e firmes na comunhão do Senhor: procurar esta mansidão, que é o contrário da violência. A terceira bem-aventurança. O Evangelho de são Mateus diz: felizes os mansos, porque possuirão a terra (cf. Mt 5, 5). Não são os violentos que possuem a terra, no final permanecem os mansos: eles têm a grande promessa, e assim nós devemos ter a certeza da promessa de Deus, da mansidão que é mais forte que a violência. Nesta palavra da mansidão esconde-se o contraste com a violência: os cristãos são os não violentos, são os opositores da violência.

E são Paulo prossegue: «com magnanimidade» (Ef 4, 2): Deus é magnânimo. Não obstante a nossa debilidade e os nossos pecados, começa sempre de novo connosco. Perdoa-me, mesmo se sabe que amanhã cairei de novo no pecado; distribui os seus dons, mesmo sabendo que muitas vezes somos administradores insuficientes. Deus é magnânimo, de grande coração, confia-nos a sua bondade. E esta magnanimidade, esta generosidade, faz precisamente parte deste seguimento de Cristo, de novo.

Por fim, «suportando-vos uns aos outros no amor» (Ef 4, 2); parece-me que precisamente a humildade dá origem esta capacidade de aceitar o outro. A alteridade do outro é sempre um peso. Por que o outro é diferente? Mas precisamente esta diferença, esta alteridade é necessária para a beleza da sinfonia de Deus. E devemos, precisamente com a humildade na qual reconheço os meus limites, a minha alteridade em relação ao outro, o peso que eu sou para o outro, tornar-nos capazes não só de suportar o outro, mas, com amor, encontrar precisamente na alteridade também a riqueza do seu ser e das ideias e da fantasia de Deus.

Portanto, tudo isto serve como virtude eclesial para a construção do Corpo de Cristo, que é o Espírito de Cristo, para que se torne de novo exemplo, de novo corpo, e cresça. Paulo diz isto depois em concreto, afirmando que toda esta variedade dos dons, dos temperamentos, do ser homem, serve à unidade (cf. Ef 4, 11-13). Todas estas virtudes são também virtudes da unidade. Por exemplo, para mim é muito significativo que a primeira Carta depois do Novo Testamento, a Primeira Carta de Clemente, seja dirigida a uma comunidade, a dos Coríntios, dividida e sofredora pela divisão (cf. PG 1, 201-328). Nesta Carta, precisamente a palavra «humildade» é uma palavra-chave: estão divididos porque falta a humildade, a falta de humildade destrói a unidade. A humildade é uma virtude fundamental da unidade e só assim a unidade do Corpo de Cristo cresce e nos tornarmos realmente unidos e recebemos a riqueza e a beleza da unidade. Por isso, é lógico que o elenco destas virtudes, que são virtudes eclesiais, cristológicas, virtudes da unidade, se oriente para a unidade explícita: «um só Senhor, uma só fé, um só Baptismo. Um só Deus e Pai de todos» (Ef 4, 5). Uma só fé e um só Baptismo, como realidade concreta da Igreja que está sob o único Senhor.

Baptismo e fé são inseparáveis. O Baptismo é o Sacramento da fé e a fé tem um dúplice aspecto. É um acto profundamente pessoal: eu conheço Cristo, encontro-me com Cristo e dou-lhe confiança. Pensemos na mulher que toca as suas vestes na esperança de ser salva (cf. Mt 9, 20-21); confia totalmente n'Ele e o Senhor diz: A tua fé te salvou, porque acreditaste (cf. Mt 9, 22). Também aos leprosos, ao único que volta, diz: a tua fé te salvou (cf. Lc 17, 19). Portanto, inicialmente a fé é sobretudo um encontro pessoal, um tocar as vestes de Cristo, um ser tocado por Cristo, estar em contacto com Cristo, confiar no Senhor, ter e encontrar o amor de Cristo e, no amor de Cristo, também a chave da verdade, da universalidade. Mas precisamente por isto, porque chave da universalidade do único Senhor, esta fé não é só um acto pessoal de confiança, mas um acto que tem um conteúdo. A fides qua exige a fides quae, o conteúdo da fé, e o Baptismo expressa este conteúdo: a fórmula trinitária é o elemento substancial do credo dos cristãos. Ele, em si, é um «sim» a Cristo, e assim ao Deus Trinitário, com esta realidade, com este conteúdo que me une a este Senhor, a este Deus, que tem este Rosto: vive como Filho do Pai na unidade do Espírito Santo e na comunhão do Corpo de Cristo. Por conseguinte, isto parece-me muito importante: a fé tem um conteúdo e não é suficiente, não é um elemento de unificação se este conteúdo da única fé não existe nem for vivido e confessado.

Por isso, «Ano da Fé», Ano do Catecismo — para ser muito prático – estão imprescindivelmente relacionados. Só renovaremos o Concílio se renovarmos o conteúdo — depois condensado de novo — do Catecismo da Igreja Católica. E um grande problema da Igreja actual é a falta de conhecimento da fé, é o «analfabetismo religioso», como disseram os Cardeais na sexta-feira passada sobre esta realidade. «Analfabetismo religioso»; e com este analfabetismo não podemos crescer, a unidade não pode crescer. Por isso, nós mesmos devemos apropriar-nos de novo deste conteúdo, como riqueza da unidade e não como uma confecção de dogmas e mandamentos, mas como uma realidade única que se revela na sua profundidade e beleza. Devemos fazer o possível por um renovamento catequético, para que a fé seja conhecida e assim Deus seja conhecido, Cristo seja conhecido, a verdade seja conhecida e cresça a unidade na verdade.

Depois todas estas unidades acabam em: «um só Deus e Pai de todos». Tudo isto não é humildade, tudo isto não é fé comum, destrói a unidade, destrói a esperança e torna invisível o Rosto de Deus. Deus é Uno e Único. O monoteísmo era o grande privilégio de Israel, que conheceu o único Deus, e permanece elemento constitutivo da fé cristã. O Deus Trinitário — sabemo-lo — não são três divindades, mas é um único Deus; e vemos melhor o que significa unidade: unidade é unidade do amor. É assim: precisamente porque é o círculo de amor, Deus é Uno e Único.

Para Paulo, como vimos, a unidade de Deus identifica-se com a nossa esperança. Por quê? De que modo? Porque a unidade de Deus é esperança, porque ela nos garante que, no final, não há diversos poderes, no final não há dualismo entre poderes diversos e contrastantes, no final não permanece a cabeça do dragão que se poderia levantar contra Deus, não permanece a imundície do mal e do pecado. No final permanece só a luz! Deus é único e é o único Deus: não há outro poder contra Ele! Sabemos que hoje, com os males sempre em crescimento que vivemos no mundo, muitos duvidam da Omnipotência de Deus; aliás, diversos teólogos — até bons — dizem que Deus não seria Omnipotente, porque tudo o que vemos no mundo não seria compatível com a omnipotência; e assim eles querem criar uma nova apologia, desculpar Deus e «desculpar» Deus destes males. Mas esta não é a maneira justa, porque se Deus não é Omnipotente, se existem e permanecem outros poderes, não é verdadeiramente Deus e não é esperança, porque no final permaneceria o politeísmo, permaneceria a luta, o poder do mal. Deus é Omnipotente, o único Deus. É claro, na história foi dado um limite à sua omnipotência, reconhecendo a nossa liberdade. Mas enfim tudo volta e não permanece outro poder; esta é a esperança: que a luz vence, o amor vence! No final não permanece a força do mal, só Deus permanece! E deste modo estamos no caminho da esperança, caminhando rumo à unidade do único Deus, que se revelou mediante o Espírito Santo, no único Senhor, Cristo.
Depois desta grande visão, são Paulo entra um pouco nos pormenores e diz de Cristo: «Tendo subido ao céu levou consigo os presos, distribuiu dons aos homens» (Ef 4, 8). O Apóstolo cita o Salmo 68, que descreve de modo poético a subida de Deus com a Arca da Aliança rumo às alturas, rumo ao cimo do Monte Sião, rumo ao templo: Deus como vencedor que superou os outros, que são prisioneiros e, como um verdadeiro vencedor, distribui dons. O Judaísmo viu nisto uma imagem de Moisés, que sobe para o monte Sinai para receber nas alturas a vontade de Deus, os Mandamentos, não considerados como peso, mas como o dom de conhecer o Rosto de Deus, a vontade de Deus. Por fim, Paulo vê nisto uma imagem da ascensão de Cristo que sobe para o alto depois de ter descido; sobe e atrai a humanidade para Deus, encontra lugar para a carne e para o sangue no próprio Deus; atrai-nos para a altura do seu ser Filho e liberta-nos da prisão do pecado, torna-nos livres porque é vencedor. Sendo vencedor, Ele distribui os dons. E assim chegamos da ascensão de Cristo à Igreja. Os dons são a charis como tal, a graça: estar na graça, no amor de Deus. E depois os carismas que concretizam a charis em cada uma das funções e missões: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres para assim edificar o Corpo de Cristo (cf. Ef 4, 11).

Não pretendo entrar agora numa exegese pormenorizada. É muito debatido o significado de apóstolos, profetas... Contudo, podemos dizer que a Igreja está construída sobre o fundamento da fé apostólica, que está sempre presente: os Apóstolos, na sucessão apostólica, estão presentes nos Pastores, que somos nós, pela graça de Deus e não obstante toda a nossa pobreza. E estamos gratos a Deus que nos quis chamar para estar na sucessão apostólica e continuar a edificar o Corpo de Cristo. Aqui surge um elemento que parece importante: os ministérios — os chamados ministérios — são chamados «dons de Cristo», são carismas, isto é, não há esta oposição: por um lado o ministério, como uma coisa jurídica, e por outro os carismas, como dom profético, vivaz, espiritual, como presença do Espírito e da sua novidade. Não! Precisamente os ministérios são dons do Ressuscitado e são carismas, são articulações da sua graça: não se pode ser sacerdote sem ser carismático. Ser sacerdote é um carisma. Devemos ter isto — parece-me — presente: ser chamado ao sacerdócio, ser chamado com um dom do Senhor, com um carisma do Senhor. E assim, inspirados pelo seu Espírito, devemos procurar viver este nosso carisma. Só deste modo penso que se possa compreender que a Igreja no Ocidente relacionou inseparavelmente sacerdócio e celibato; estar numa existência escatológica rumo ao último destino da nossa esperança, rumo a Deus. Precisamente porque o sacerdócio é um carisma e deve estar também relacionado com um carisma: se não fosse isto mas apenas uma coisa jurídica, seria absurdo impor um carisma, que seja um verdadeiro carisma; mas se o próprio sacerdócio é carisma, é normal que conviva com o carisma, com o estado carismático da vida escatológica.

Peçamos ao Senhor para que nos ajude a compreender isto cada vez mais, a viver cada vez mais no carisma do Espírito Santo e assim a viver também este sinal escatológico da fidelidade ao Senhor Único, que é necessário precisamente para o nosso tempo, com a fragmentação do matrimónio e da família, que se podem compor só na luz desta fidelidade à única chamada do Senhor.

Um último ponto. São Paulo fala do crescimento do homem perfeito, que alcança a medida da plenitude de Cristo: já não seremos crianças à mercê das ondas, transportados por qualquer vento de doutrina (cf. Ef 4, 13-14). «Ao contrário, agindo segundo a verdade na caridade, procuremos crescer em todas as coisas, tendendo para Ele» (Ef 4, 15). Não se pode viver numa meninice espiritual, numa meninice de fé: infelizmente, neste nosso mundo, vemos esta meninice. Muitos, depois da primeira catequese, não foram mais além; talvez tenha ficado este núcleo, talvez se tenha também destruído. E de resto, eles estão nas ondas do mundo e nada mais; não podem como adultos, com competência e profunda convicção, expor e tornar presente a filosofia da fé — por assim dizer — a grande sabedoria, a racionalidade da fé, que abre os olhos também dos outros, que abre os olhos precisamente para quanto é bom e verdadeiro no mundo. Falta este ser adultos na fé e permanece a meninice na fé.

Sem dúvida, nestes últimos decénios, vivemos também outro uso da expressão «fé adulta». Fala-se de «fé adulta», ou seja, emancipada do Magistério da Igreja. Enquanto estou sob a protecção da mãe, sou criança, devo emancipar-me; emancipado do Magistério, finalmente sou adulto. Mas o resultado não é uma fé adulta, o resultado é a dependência das ondas do mundo, das opiniões do mundo, da ditadura dos meios de comunicação, da opinião que todos pensam e querem. Não é verdadeira emancipação, a emancipação da comunhão do Corpo de Cristo! Ao contrário, é cair sob a ditadura das ondas, do vento do mundo. A verdadeira emancipação é precisamente libertar-se desta ditadura, na liberdade dos filhos de Deus que crêem juntos no Corpo de Cristo, com Cristo Ressuscitado, e vêem assim a realidade, e são capazes de responder aos desafios do nosso tempo.

Parece-me que devemos rezar muito ao Senhor, para que nos ajude a ser emancipados neste sentido, livres neste sentido, com uma fé realmente adulta, que vê, deixa ver e pode ajudar também os outros a chegar à verdadeira perfeição, à verdadeira idade adulta, em comunhão com Cristo.

Neste contexto há a bonita expressão da aletheuein en te agape, ser verdadeiros na caridade, viver a verdade, ser verdade na caridade: os dois conceitos caminham juntos. Hoje o conceito de verdade é um pouco suspeito porque se combina verdade com violência. Infelizmente na história verificaram-se também episódios com os quais se procurava defender a verdade com a violência. Mas as duas são contrárias. A verdade não se impõe com outros meios, mas só por si mesma! A verdade só pode chegar através de si mesma, da própria luz. Mas precisamos da verdade; sem verdade não conhecemos os verdadeiros valores e como poderíamos ordenar o kosmos dos valores? Sem verdade somos cegos no mundo, não temos caminho. O grande dom de Cristo é precisamente que vemos o Rosto de Deus e, mesmo se de forma enigmática, muito insuficiente, conhecemos o fundo, o essencial da verdade em Cristo, no seu Corpo. E conhecendo esta verdade, crescemos também na caridade que é a legitimação da verdade e nos mostra que é a verdade. Diria que precisamente a caridade é o fruto da verdade — conhece-se a árvore pelos frutos — e se não há caridade, também a verdade não é precisamente apropriada, vivida; e onde há a verdade, nasce a caridade. Graças a Deus, vemo-lo em todos os séculos: não obstante os factos negativos, o fruto da caridade sempre esteve presente na cristandade e está também hoje! Vemo-lo nos mártires, em tantas irmãs, frades e sacerdotes que servem humildemente os pobres, os doentes, que são presença da caridade de Cristo. E deste modo são o grande sinal que aqui está a verdade.

Rezemos ao Senhor para que nos ajude a levar o fruto da caridade e deste modo sermos testemunhas da sua verdade. Obrigado.

 
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Discurso de Bento XVI sobre Deus, Ressurreição, Baptismo e vida Cristã

Eminência,
Queridos Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs,

para mim é um grande prazer estar aqui na Catedral de Roma, com representantes da minha diocese, e eu sinceramente agradecer ao Cardeal Vigário as suas amáveis ​​palavras.

Já ouvi dizer que as últimas palavras do Senhor sobre esta terra aos seus discípulos, foram: "Ide, fazei discípulos de todas as nações e batizá-los em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (cf. Mt 28:19). Fazer discípulos e batizar. Porque não é suficiente para que o discípulo de conhecer as doutrinas de Jesus, para saber os valores cristãos? Por que é necessário para ser batizado? Este é o tema da nossa reflexão, para compreender a realidade, a profundidade do Sacramento do Batismo.

A primeira porta se abre, se lermos com atenção estas palavras do Senhor. A escolha da palavra "em nome do Pai" no texto grego é muito importante: o Senhor diz: "eis" e não "en", que não é "em nome" da Trindade - como costumamos dizer que um deputado prefeito fala "em nome" o prefeito, um embaixador fala "em nome" do governo: não. Ele diz: "eis a onoma", que é uma imersão em nome da Trindade, um ser inscrito no nome da Trindade, uma interpenetração do ser de Deus e do nosso ser, um ser imerso no Deus Uno e Trino, Pai, Filho e Espírito Santo, bem como no casamento, por exemplo, duas pessoas se tornam uma só carne, se tornar uma realidade nova e única com um nome novo e exclusivo.

O Senhor tem nos ajudado a entender melhor essa realidade em sua conversa com os saduceus sobre a ressurreição. Os saduceus reconhecidos pelo cânone do Antigo Testamento apenas os cinco livros de Moisés e da ressurreição não aparece nestes, de modo negou. O Senhor, a partir destes cinco livros mostra a realidade da ressurreição e diz: Você não sabe que Deus é chamado de Deus de Abraão, Isaac e Jacó? (Cf. Mt 22:31-32). Então, Deus toma esses três e apenas em seu nome, tornam-se o nome de Deus para entender quem é esse Deus que você deve ver essas pessoas que se tornaram o nome de Deus, um nome de Deus, estão imersos em Deus assim vemos que quem está em nome de Deus, que está imerso em Deus, está vivo porque Deus - diz o Senhor - não é um Deus de mortos mas de vivos, e se tal é Deus, é Deus de vivos, os vivos são porque vivem na memória, a vida de Deus é precisamente o que acontece em nosso ser batizado nos tornamos incorporada em nome de Deus, para que nós pertencemos a este nome e seu nome se torna o nosso nome e nós vamos conseguir, através de nosso testemunho - como o Testamento três Velha - a ser testemunhas de Deus, um sinal de que este Deus, este nome de Deus

Assim, ser batizado significa ser unido a Deus em uma única, novas vidas pertencem a Deus, estamos imersos no próprio Deus. Com isso em mente, podemos ver imediatamente algumas conseqüências.

A primeira é que Deus não está longe para nós, não uma realidade para discussão - se há ou não - mas nós estamos em Deus e Deus está em nós. A prioridade, a centralidade de Deus em nossas vidas é uma primeira conseqüência do Batismo. A pergunta: "É Deus", A resposta é: "Existe e é com nós; central em nossas vidas esta proximidade de Deus, esse ser no próprio Deus, que não é uma estrela distante, mas é ambiente da minha vida. " Esta seria a primeira consequência e deve dizer-nos que nós mesmos devemos ter em conta esta presença de Deus, verdadeiramente viver em sua presença.

Uma segunda consequência do que eu disse é que não fazemos cristãos. Tornar-se cristão não é algo que resulta da minha decisão: "Eu agora me tornar um cristão." Claro, minha decisão é necessária, mas acima de tudo é um ato de Deus comigo: eu não sou cristão eu faço, eu sou contratado por Deus, escolhido por Deus e, portanto, dizer "sim" a esta acção Deus, me tornar um cristão. Para ser cristão, em certo sentido, é passiva: Eu não faço um cristão, mas Deus faz-me um de seus homens, Deus levou-me na mão e faz da vida uma nova dimensão. Como eu não ganhar a vida, mas a vida me deu, eu não nasceu porque eu fiz homem, mas porque os seres humanos nascem me foi dada. Assim, mesmo sendo um cristão me deu, para mim é uma pessoa que se torna um trunfo na nossa, na minha vida. E esta responsabilidade, para não obter-se cristãos, mas eles se tornaram cristãos por Deus, já implica algum "mistério da Cruz: só através da morte de meu egoísmo, fora de mim, eu posso ser um cristão.

Um terceiro elemento que se abre imediatamente nesta visão é que, naturalmente, estar imerso em Deus, estão unidos com os nossos irmãos e irmãs, porque todo mundo está em Deus e se eu estou puxado para fora do meu isolamento, se eu estou imerso em Deus, estou imerso na comunhão com os outros. Ser batizado nunca é um ato solitário do "eu", mas é necessariamente sempre ser combinado com qualquer outro, um. Estar em unidade e solidariedade com todo o Corpo de Cristo, com toda a comunidade de seus irmãos e irmãs Este fato que o Batismo põe-me na comunidade, ele quebra o meu isolamento. Devemos manter isso em nosso ser cristão.

E, finalmente, voltamos para a Palavra de Cristo aos saduceus: "Deus é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó" (cf. Mt 22,32), e, portanto, estes não são mortos, se eles são de Deus estão vivos. Isso significa que com o Batismo, por imersão em nome de Deus, nós também já estão imersos na vida imortal, nós vivemos para sempre. Em outras palavras, o batismo é o primeiro passo da Ressurreição: imerso em Deus, já estamos imersos na vida indestrutível, a partir da Ressurreição. Como Abraão, Isaac e Jacó como "nome de Deus" está vivo, então colocamos em nome de Deus, vivemos a vida imortal. O batismo é o primeiro passo da ressurreição, entrando na vida indestrutível de Deus

Assim, num primeiro momento, com a fórmula batismal de Mateus, com a última palavra de Cristo, já vimos alguns "a essência do Batismo. Agora vemos o rito sacramental, a fim de compreender mais precisamente o que é o Batismo.

Este ritual, tal como o ritual de quase todos os sacramentos, é composto de dois elementos: sobre o assunto - a água - e da palavra. Isto é muito importante. Cristianismo não é algo puramente espiritual, como algo meramente subjetiva, sentimento, vontade, de idéias, mas é uma realidade cósmica. Deus é o Criador de toda a matéria, a matéria entra no cristianismo, e só neste contexto mais amplo da matéria e do espírito que somos cristãos. Muito importante é, portanto, que a matéria é parte de nossa fé, o corpo é parte de nossa fé, a fé não é puramente espiritual, mas Deus nos faz bem em toda a realidade do cosmos e do cosmos gira, puxa-o . E com este elemento material - água - vem não apenas um elemento fundamental do cosmos, uma questão fundamental criado por Deus, mas também o simbolismo de todas as religiões, porque todas as religiões a água tem algo a dizer. O caminho da religião, esta busca por Deus de diferentes maneiras - até mesmo erradas, mas sempre buscando a Deus - torna-se tomado em Sacramento. Outras religiões, com o seu caminho para Deus, estão presentes, eles são levados, e por isso faz a síntese do mundo, todos à procura de Deus expressa nos símbolos da religião, e especialmente - é claro - o simbolismo do Antigo Testamento , de modo que, com toda sua experiência de salvação e bondade de Deus, torna-se o presente. Neste ponto, vamos voltar.

O outro elemento é a palavra, e esta palavra é apresentada em três partes: renúncias, promessas, orações. Importante é que estas palavras são, portanto, não apenas palavras, mas são uma forma de vida. Em tal decisão é tomada, com estas palavras está presente em toda nossa jornada baptismal - tanto pré-baptismal e pós-baptismal e, em seguida, com estas palavras, e mesmo com os símbolos, o Batismo se estende a todas as nossas vidas. Esta realidade das promessas, renúncias, invocações é uma realidade que continua ao longo de nossas vidas, porque estamos sempre na estrada baptismal catecumenal, através destas palavras ea realização dessas palavras. O Sacramento do Batismo não é um ato de uma hora, mas é uma realidade de toda a nossa vida é uma jornada de nossa vida. Na realidade, também há por trás da doutrina das duas ruas, que foi fundamental no início do cristianismo: um caminho para que nós dizemos "não" e uma maneira de que nós dizemos "sim".

Começamos com a primeira parte, as isenções. Há três anos e ter o primeiro segundo: "Entregue-se às seduções do mal para nunca serem separados dominado pelo pecado?". Quais são essas seduções do mal? Na Igreja primitiva, e por muitos séculos, aqui era a expressão: "Dê ao diabo na bomba?", E agora sabemos o que se entende por esta expressão "bombear o diabo." A bomba do diabo eram especialmente grandes espetáculos sangrentos, em que a crueldade é divertido, em que os homens matam torna-se algo espetacular entretenimento, vida e morte de um homem. Estes espetáculos sangrentos, esta é a diversão do mal "inferno bomba", onde ele aparece com a beleza aparente e, de fato, aparece com toda a sua crueldade. Mas além deste sentido imediato da palavra "bomba do diabo", você quis falar sobre um tipo de cultura, um modo de vida, um modo de vida, em que a verdade não importa, mas aparentemente não procurou verdade, mas o efeito, o sentimento, e, sob o disfarce da verdade, na realidade, os homens são destruídos, ele só quer destruir e criar a si mesmos como vencedores. Portanto, essa renúncia foi muito real: ele estava dando uma espécie de cultura que é uma cultura anti-, contra Cristo e Deus Ele decidiu contra uma cultura que, no Evangelho de São João, é chamado de "kosmos houtos" "este mundo". Com "este mundo", é claro, João e Jesus não falou da criação de Deus, o homem como tal, mas falam de uma determinada criatura que é dominante e se impõe como se este fosse o mundo, e como se esse é o caminho de vida que se impõe. Agora vamos cada um de vocês para refletir sobre esta "bomba do diabo", dessa cultura a que dizemos "não". Ser batizado significa basicamente apenas uma emancipação, a libertação dessa cultura. Sabemos também hoje uma espécie de cultura em que não a verdade, mesmo se aparentemente você deseja exibir toda a verdade que conta é o sentimento eo espírito de difamação e destruição. Uma cultura que não parece bom, cuja moralidade é, na verdade, uma máscara para confundir, confusão e destruição. Contra essa cultura, onde a mentira vem com a aparência de verdade e de informação, contra essa cultura que busca apenas bem-estar material e nega a Deus, dizendo "não". Sabemos também de muitos salmos o contraste de uma cultura em que se parece imune de todos os males do mundo, está acima de tudo, a Deus acima, enquanto que, na realidade, é uma cultura do mal, um domínio do mal. E assim, a decisão do Baptismo, esta parte do catecumenal que dura toda a nossa vida, é precisamente este "não", disse e fez novo a cada dia, mesmo com os sacrifícios que custa para se opor à cultura dominante em muitas partes, mesmo que tenha sido imposta como se o mundo, este mundo não é verdade. E há muitos que querem realmente a verdade.

Então nós passamos a renúncia primeiro: "Renunciem ao pecado para viver na liberdade dos filhos de Deus"?. Hoje a liberdade e a vida cristã, guardando os mandamentos de Deus, indo em direções opostas; cristãos seria como a escravidão, a liberdade é emancipada da fé cristã, a emancipação - afinal - do pecado da Palavra de Deus aparece quase ridículo para muitos, porque eles dizem: "O quê! Deus não pode ofender! Deus é tão grande, que é interessante para Deus, se eu cometer um erro? Nós não podemos ofender a Deus, seu interesse é muito grande para ser ofendido por nós. " Parece verdade, mas não é verdade. Deus tornou-se vulnerável. Em Cristo crucificado, vemos que Deus tornou-se vulnerável, tornou-se vulnerável à morte. Deus cuida de nós, porque ele ama e o amor de Deus é vulnerável, o amor de Deus é a preocupação do homem, o amor de Deus significa que a nossa primeira preocupação não deve ser prejudicado, não destrói o seu amor , não faça nada contra seu amor porque, caso contrário vivemos mesmo contra nós e contra nossa liberdade. E, de fato, esta aparente liberdade na emancipação da escravidão, Deus torna-se apenas as ditaduras tantos da época, que devem ser seguidos para ser considerado no momento.

E finalmente: "Renuncie a Satanás." Isso nos diz que há um. "Sim" a Deus e "não" ao poder do Maligno, que coordena todas as atividades que você quer fazer eo deus deste mundo, como diz São João Mas não é Deus, é só o inimigo, e não vamos submeter ao seu poder, dizemos "não" porque dizemos "sim", um "sim" chave, o "sim" do amor e da verdade. Estes três renúncias, no rito do batismo, na antiguidade, foram acompanhadas por três mergulho: imersão em água como um símbolo de morte, um "não" que realmente é a morte de um tipo de vida e ressurreição para uma outra vida . Nesta retorno. Então, a confissão em três perguntas: "Você acredita em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador, em Cristo, e, finalmente, no Espírito Santo e da Igreja?. Esta fórmula, estas três partes foram desenvolvidas a partir da Palavra de batizar "o Senhor, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo", estas palavras chegaram a ser concretizadas e profundidade: o que significa Pai, Filho, o que significa - tudo fé em Cristo, toda a realidade de Deus feito homem - eo que significa a crer para ser batizado no Espírito Santo, que toda a ação de Deus na história, a Igreja, na comunhão dos santos. Assim, a fórmula de batismo é também um diálogo positivo não é simplesmente uma fórmula. Especialmente a confissão de fé não é apenas uma coisa a entender, algo intelectual, algo para se lembrar - sim, isso também - também afeta o intelecto, é também o nosso modo de vida, especialmente. E isso me parece muito importante. Não é uma coisa intelectual, uma fórmula pura. É um diálogo de Deus com a gente, uma ação de Deus conosco, e nossa resposta, é uma viagem. A verdade de Cristo só pode ser compreendido se acontecer do jeito dele. Só quando aceitamos Cristo como o caminho que começamos a realmente estar no caminho de Cristo e também podemos entender a verdade de Cristo. A verdade não vivida não aberto, somente a verdade vivida, da verdade aceita como uma forma de vida como uma viagem, ela também abre como verdade em toda a sua riqueza e profundidade. Portanto, essa fórmula é uma maneira, é uma expressão de nossa conversão, a ação de Deus, e nós realmente queremos ter em mente que mesmo em todas as nossas vidas: a de que andamos em comunhão com Deus, com Cristo. E assim estamos em comunhão com a verdade: viver a verdade, a verdade torna-se uma vida e viver esta vida, também podemos encontrar a verdade.

Agora sobre o elemento material: a água. É muito importante ver os dois sentidos de água. Por um lado, a água do mar sugere, especialmente no Mar Vermelho, até a morte no Mar Vermelho. No mar representa o poder da morte, a necessidade de morrer para começar uma nova vida. Isto parece muito importante. Batismo não é apenas uma cerimônia, um ritual introduzido há muito tempo, e não é apenas uma limpeza, uma operação de cosmética. É mais do que apenas uma lavagem: é a vida e a morte, há uma morte certa e renascimento, ressurreição para uma nova vida. Esta é a profundidade do ser cristão não é apenas algo que é adicionado, mas um novo nascimento. Depois de cruzar o Mar Vermelho, que são novos. Assim, o mar, em todas as experiências do Antigo Testamento, tornou-se para o símbolo da cruz cristã. Porque só através da morte, uma renúncia radical em que morre para um certo tipo de vida, pode ser realizado renascimento e nova vida pode realmente ser. Isso faz parte do simbolismo da água: simboliza - especialmente na Antiguidade mergulho - o Mar Vermelho, a morte, a Cruz. Somente a Cruz chegamos a uma nova vida e isso é feito todos os dias. Sem esta morte sempre renovada, não podemos renovar a vitalidade real da vida nova de Cristo.

Mas o outro símbolo é a fonte. A água é a fonte de toda a vida, em adição ao simbolismo da morte, também a simbologia de vida nova. Toda a vida vem da água, a água que vem de Cristo como a verdadeira vida nova que nos leva para a eternidade.

No final, fica a pergunta - apenas uma palavra um pouco - o batismo de crianças. E 'direito de fazê-lo, ou se precisa fazer antes de o catecumenal para chegar a um Batismo realmente alcançados? E a outra questão que sempre surge é: "Mas podemos impor a uma criança o que a religião quer viver ou não? Nós não devemos deixar que a criança escolher? ». Estas questões mostram que não vemos mais na fé cristã para uma nova vida, a vida verdadeira, mas vemos uma escolha de outro, mesmo um peso que você não deveria ter sido imposta sem o consentimento do sujeito. A realidade é diferente. A própria vida nos é dada sem sermos capazes de escolher se queremos viver ou não, qualquer um pode se perguntar: "quer nascer ou não? '. A vida nos é dada necessariamente sem o consentimento prévio, é dado a nós por isso não podemos decidir antes de "sim ou não, eu quero viver ou não." E, de fato, a verdadeira questão é: "E 'direito de dar a vida neste mundo sem ter recebido o consentimento - ou vivo ou não? Você pode realmente antecipar a vida a vida sem a pessoa ter a oportunidade de decidir? ". Eu diria: você está certo e somente se, na vida, também podemos garantir que a vida, com todos os problemas que o mundo é bom, é bom para viver, há uma garantia de que esta vida é boa, está protegido por Deus e é um verdadeiro dom. Apenas a antecipação de um senso justifica a antecipação da vida. E assim o batismo da propriedade como garantia de Deus, em antecipação do sentido do "sim" de Deus para proteger a vida, também justifica a antecipação da vida. Portanto, o batismo infantil não é contra a liberdade, é necessário para dar isso para justificar o dom - de outro modo questionável - da vida. Somente a vida que está nas mãos de Deus, nas mãos de Cristo, imerso em nome do Deus trino, é certamente uma coisa boa que você pode dar sem escrúpulos. E assim somos gratos a Deus que nos deu este presente, que ele nos deu a si mesmo. E nosso desafio é viver esse dom, podemos realmente viver em uma jornada pós-batismal, e os sacrifícios que o "sim" e viver para sempre no grande "sim" de Deus, e assim viver bem. Obrigado.

Para cada homem, o princípio da vida é aquele, a partir do qual Cristo foi imolado por ele


"PASSAR DE ESPECTADOR À ATOR"
Sexta-Feira Santa: Pregação do Padre Raniero Cantalamessa

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 06 de abril de 2012 (ZENIT.org) - Publicamos o texto integral da pregação do padre Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap., pregador da Casa Pontifícia, nesta Sexta-Feira Santa 2012, realizada na Basílica de São Pedro.

Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap.
"Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos”
(Apocalipse 1,18)

Alguns Padres da Igreja colocaram numa imagem todo o mistério da redenção. Imagina, dizem, que aconteceu, no estádio, uma luta épica. Um herói enfrentou o cruel tirano que escravizava a cidade e, com enorme esforço e sofrimento, o venceu. Você estava na arquibancada, não lutou, não se esforçou e nem teve feridas. Mas, se você admira o herói, se se alegra com ele pela vitória, se tece-lhe uma coroa, se anima e exalta a platéia por ele, se se ajoelha com alegria diante do vencedor, beija a sua cabeça e aperta a sua mão direita; em suma, se tanto se exalta por ele, a tal ponto de considerar como sua a vitória dele, eu lhe digo que você terá com certeza parte no prêmio do vencedor.

E tem mais: suponha que o vencedor não tenha nenhuma necessidade do prêmio que conquistou para si, mas que deseje, mais do que qualquer outra coisa, ver o seu admirador honrado e considere que o prêmio da sua luta seja a coroação do seu amigo, em tal caso aquele homem não terá talvez a coroa, mesmo sem ter lutado e sem ter feridas? Claro que vai! (Nicola Cabasilas, Vita in Christo, I, 9 (PG 150, 517).

Dessa forma, dizem esses Padres, acontece com Cristo e conosco. Ele, na cruz, derrotou seu antigo adversário. “As nossas espadas – exclama São João Crisóstomo – não estão sujas de sangue, não estivemos na arena, não temos lesões, nem sequer vimos a batalha, e eis que temos a vitória. Sua foi a luta, nossa a coroa. E porque também nós vencemos, imitemos o que os soldados fazem nesse caso: com vozes de alegria exaltemos a vitória, entoemos hinos de louvor ao Senhor” (S. João Crisóstomo, De coemeterio et de cruce; PG, 49, 596). Não poderia ser explicado melhor o significado da liturgia que estamos celebrando.
***
Mas o que estamos fazendo é, em si, uma imagem, a representação de uma realidade passada, ou é a própria realidade? Ambas as coisas! "Nós – dizia Santo Agostinho ao povo – sabemos e acreditamos com fé certíssima que Cristo morreu só uma vez por nós [...]. Sabeis perfeitamente bem que tudo isto foi feito apenas uma vez e ainda assim a solenidade periodicamente o renova [...]. Verdade histórica e solenidade litúrgica não estão em contradição entre si, como se a segunda fosse falácia e somente a primeira correspondesse à verdade. Do que a história afirma ter acontecido uma só vez na realidade, a solenidade renova muitas vezes a celebração nos corações dos fiéis” (S. Agostinho, Sermone 220; PL 38, 1089).

A liturgia "renova" o evento: quantas discussões, durante cinco séculos até hoje, sobre o sentido desta palavra, especialmente quando é aplicada ao sacrifício da cruz e à Missa! Paulo VI usou um verbo que poderia pavimentar o caminho para uma compreensão ecumênica sobre tal argumento: o verbo “representar”, compreendido no sentido forte de reapresentar, ou seja tornar novamente presente e operante o acontecido”( Cf Paolo VI, Mysterium fidei (AAS 57, 1965, p. 753 ss).

Há uma diferença substancial entre a representação da morte de Cristo e aquela, por exemplo, da morte de Júlio César na tragédia homônima de Shakespeare. Ninguém assiste, estando vivo, o aniversário da própria morte; Cristo sim, porque ressuscitou. Somente Ele pode dizer, como faz no Apocalipse: "Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos” (Ap 1,18). Devemos ter cuidado neste dia, visitando os chamados "sepulcros" ou participando nas procissões do Cristo morto, de não merecermos a censura que o Ressuscitado dirigiu às piedosas mulheres na manhã de Páscoa: "Por que procurais Aquele que vive entre os mortos?" (Lc 24,5).

É uma afirmação ousada, mas verdadeira aquela de certos autores ortodoxos. “A anamnese, ou seja, o memorial litúrgico, faz o evento mais verdadeiro do que quando aconteceu historicamente pela primeira vez". Em outras palavras, mais real e verdadeiro para nós que o revivemos “segundo o Espírito”, do que para aqueles que o viveram "segundo a carne", antes que o Espírito Santo revelasse à Igreja o pleno significado.

Não estamos apenas comemorando um aniversário, mas um mistério. É ainda Santo Agostinho que explica a diferença entre as duas coisas. Na celebração “à maneira de aniversário”, não se pede outra coisa – diz – mais do que “indicar com uma solenidade religiosa o dia do ano no qual cai a lembrança do mesmo acontecimento”; na celebração a modo de mistério (“em sacramento”), “não somente se comemora um acontecimento, mas é feito também de tal forma que se entenda o seu significado e seja acolhido santamente” (Agostinho, Epistola 55, 1, 2; CSEL 34, 1, p. 170)

Isso muda tudo. Não se trata somente de assistir a uma representação, mas de “acolher” o significado, de passar de espectador à ator. Cabe a nós portanto escolher qual parte queremos representar no drama, quem queremos ser: se Pedro, se Judas, se Pilatos, se a multidão, se o Cireneu, se João, se Maria ... Ninguém pode permanecer neutro; não tomar partido, é tomar um bem preciso: aquele de Pilatos que lava as mãos, ou da multidão que de longe "permanecia lá, a olhar " (Lucas 23, 35).

Se voltando para casa, nesta tarde, alguém nos perguntar: "De onde vens? Onde estivestes?", respondamos, portanto, pelo menos em nossos corações: "No Calvário!"
***
Mas nada disso acontece automaticamente, só porque participamos nesta liturgia. Trata-se, dizia Agostinho, de “acolher” o significado do mistério. Isto acontece com a fé. Não há música, onde não há um ouvido que a escute, por mais que a orquestra toque forte; não há graça, onde não há uma fé que a acolha.

Numa homilia de Páscoa do século IV, o bispo pronunciava estas palavras surpreendentemente modernas e, por assim dizer, existenciais: "Para cada homem, o princípio da vida é aquele, a partir do qual Cristo foi imolado por ele. Mas Cristo é imolado por ele quando ele reconhece a graça e se torna consciente da vida que lhe foi dada por aquela imolação”(Homilia pascal do ano 387; SCh 36, p. 59 s.)

Isso aconteceu sacramentalmente no Batismo, mas deve sempre acontecer conscientemente de novo na vida. Devemos, antes de morrer, ter a coragem de fazermos um golpe de audácia, quase como um golpe de mão: apropriar-nos da vitória de Cristo. A apropriação indevida! Uma coisa comum infelizmente na sociedade na qual vivemos, mas com Jesus essa não somente não está proibida, mas é sumamente recomendada. “Indevida” aqui significa que não nos é devido, que não nos é merecido, mas nos é dado gratuitamente, pela fé.

Mas andemos com passos firmes; escutemos um doutor da Igreja. “Eu – escreve São Bernardo - , o que não posso obter por mim mesmo, o aproprio (literalmente, o usurpo!) com confiança do lado aberto do Senhor, porque está cheio de misericórdia. Meu mérito, por isso, é a misericórdia de Deus. Não sou tão pobre de méritos, enquanto ele seja rico de misericórdia. Que se as misericórdias do Senhor são muitas (Sl 119, 156), eu porém terei muitos méritos. E o que acontece com a minha justiça? Ó Senhor, me lembrarei somente da tua justiça. De fato, ela é também a minha, porque tu es para mim justiça de Deus" (cf. 1 Cor 1, 30) (S. Bernardo de Claraval, Sermoni sul Cantico, 61, 4-5; PL 183, 1072).

Talvez esta forma de conceber a santidade tenha feito São Bernardo menos zeloso das boas obras, menos comprometido na aquisição das virtudes? Talvez negligenciasse mortificar o seu corpo e reduzí-lo a escravidão (cf. 1 Cor 9, 27), aquele que, antes de todos e mais do que todos, tinha feita desta apropriação da justiça de Cristo o objetivo da sua vida e da sua pregação (cf. Fl 3, 7-9)?

Em Roma, como infelizmente em todas as grandes cidades, há muitos moradores de rua. Existe um nome para eles em todas as línguas: homeless, clochards, sem-teto: seres humanos que não têm mais do que poucos trapos que carregam e algum objeto que trazem consigo em sacos plásticos. Imaginemos que um dia se espalha a notícia: Na rua Condotti (todos sabemos o que é a rua Condotti em Roma!) há uma boutique luxuosa que, por razões desconhecidas, de interesse ou de generosidade, convida todos os moradores de rua da Estação Termini a virem para o seu negócio; lhes convida a tirar os seus trapos imundos, a tomar um bom banho e depois a escolher o vestido que desejam entre aqueles exibidos e levá-los, assim, de graça.

Todos dizem entre si: “Isto é um conto de fadas, nunca acontece”. Verdadeiríssimo, mas o que nunca acontece entre os homens é o que pode acontecer a cada dia entre os homens e Deus, porque, diante Dele, aqueles moradores de rua somos nós! É o que acontece conosco depois de uma boa confissão: tire as suas roupas sujas, os pecados, receba o banho da misericórdia e levante-se que estás “revestido das vestes da salvação, coberto com um manto de justiça” (Isaías 61, 10).

O publicano da parábola subiu ao templo para orar; disse simplesmente, mas do fundo do coração: "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!", e "voltou para casa justificado" (Lc 18, 14), reconciliado, feito novo, inocente. O mesmo, se temos a sua fé e o seu arrependimento, se poderá dizer de nós voltando à casa depois desta liturgia.
***
Entre os personagens da paixão que podemos nos identificar percebo que deixei de citar um, que mais do que ninguém, espera quem lhe siga o exemplo: o bom ladrão.

O bom ladrão faz uma confissão completa dos pecados; diz ao seu companheiro que insulta Jesus: “Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação? Quanto a nós, é de justiça; estamos pagando por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal” (Lc 23, 40 ss.). O bom ladrão se mostra aqui um excelente teólogo. Só Deus de fato, se sofre, sofre absolutamente como inocente; qualquer outro ser que sofre deve dizer: "Eu sofro com justiça," porque, embora não seja responsável pela ação imputada, nunca está totalmente sem culpa. Só a dor das crianças inocentes é semelhante àquela de Deus e por isso é tão misteriosa e tão sagrada.

Quantos crimes atrozes que permanecem, nos últimos tempos, sem culpados, quantos casos não resolvidos! O bom ladrão faz um apelo aos responsáveis: façam como eu, venham à luz, confessem a vossa culpa; experimentareis também vós a alegria que eu senti quando ouvi a palavra de Jesus: “Hoje estarás comigo no paraíso!” (Lc 23, 43). Quantos réus confessos podem confirmar que foi assim também para eles: que passaram do inferno ao paraíso no dia que tiveram a coragem de arrepender-se e confessar a sua culpa. Eu também conheci alguns. O paraíso prometido é a paz da consciência, a possibilidade de olhar-se no espelho ou olhar para os próprios filhos sem ter que desprezar-se.

Não carreguem convosco até o túmulo o vosso segredo; encontraríeis uma condenação muito mais temível do que aquela humana. O nosso povo não é cruél com quem errou mas reconhece o mal feito, sinceramente, não somente por algum interesse. Pelo contrário! Está pronto para ter pena e acompanhar o arrependido no seu caminho de redenção (que de qualquer forma, torna-se mais curto). "Deus perdoa muitas coisas, por uma obra boa", diz Lucia ao Inominável no “Os Noivos”. Ainda mais, devemos dizer, que ele perdoa muitas coisas por um ato de arrependimento. Ele prometeu solenemente: “Mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tornar-se-ão alvos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim tornar-se-ão como a lã” (Is 1, 18).

Continuemos a fazer o que, como escutamos no início, é a nossa tarefa neste dia: com vozes de alegria exaltemos a vitória da cruz, entoemos hinos de louvor ao Senhor. “O Redemptor, sume carmen temet concinentium"( Hino do Domingo de Ramos e da Missa crismal da Quinta-feira Santa): E vós, ó nosso Redentor, aceite o canto que elevamos para vós.
[Tradução Thácio Siqueira]

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O REMÉDIO DA IMORTALIDADE EXISTE... É CRISTO: BENTO XVI NA VIGÍLIA PASCAL

Amados irmãos e irmãs,
Uma antiga lenda judaica, tirada do livro apócrifo “A vida de Adão e Eva”, conta que Adão, durante a sua última enfermidade, teria mandado o filho Set juntamente com Eva à na região do Paraíso buscar o óleo da misericórdia, para ser ungido com este e assim ficar curado. Aos dois, depois de muito rezar e chorar à procura da árvore da vida, aparece o Arcanjo Miguel para dizer que não conseguiriam obter o óleo da árvore da misericórdia e que Adão deveria morrer. Em seguida, os leitores cristãos adicionaram a esta comunicação do arcanjo, uma palavra de consolação. O Arcanjo teria dito que, depois de 5.500 anos, viria o benévolo Rei Cristo, o Filho de Deus, e ungiria com o óleo da sua misericórdia todos aqueles que acreditassem nele. “O óleo da misericórdia para toda a eternidade será dado a quantos deverão renascer da água e do Espírito Santo. Então, o Filho de Deus rico de amor, Cristo, descerá às profundezas da terra e conduzirá o teu pai ao Paraíso, para junto da árvore da misericórdia”. Nesta lenda, faz-se palpável toda a aflição do homem diante do destino de enfermidade, dor e morte que nos foi imposto. Torna-se evidente a resistência que o homem oferece à morte: em algum lugar – repetidamente pensaram os homens – deveria existir a erva medicinal contra a morte. Mais cedo ou mais tarde, deveria ser possível encontrar o remédio não somente contra as diversas doenças, mas contra a verdadeira fatalidade – contra a morte. Deveria, em suma, existir o remédio da imortalidade. Também hoje, os homens andam à procura de tal substância curativa. A ciência médica atual, incapaz de excluir a morte, procura, contudo, eliminar o maior número possível das suas causas, adiando-a sempre mais; procura uma vida sempre melhor e mais longa. Mas, pensemos um pouco: caso se conseguisse quiçá não excluir totalmente a morte mas adiá-la indefinidamente, como seria chegar a uma idade de várias centenas de anos? Isto seria bom? A humanidade envelheceria numa medida extraordinária; não haveria lugar para a juventude. A capacidade de inovação se apagaria e uma vida interminável não seria um paraíso, mas uma condenação. A verdadeira erva medicinal contra a morte deveria ser diversa. Não deveria levar simplesmente a uma prolongação indefinida desta vida atual. Deveria transformar a nossa vida a partir do interior. Deveria criar em nós uma vida nova, verdadeiramente capaz de eternidade: deveria transformar-nos de tal modo que não terminasse com a morte, mas com ela iniciasse em plenitude. A novidade impressionante da mensagem cristã, do Evangelho de Jesus Cristo era, e ainda é, dizer-nos isto: sim, esta erva medicinal contra a morte, este autêntico remédio da imortalidade existe. Foi encontrado. É acessível. No Batismo, este medicamento nos é dado. Uma vida nova começa em nós, uma vida nova que amadurece na fé e não é cancelada pela morte da vida velha, mas só então se tornará plenamente visível.
Ouvindo isto alguns, quiçá muitos, responderão: a mensagem sim, eu escuto, mas falta-me a fé. E, mesmo quem quer acreditar perguntará: mas, é verdadeiramente assim? Como devemos imaginá-la? Como se realiza esta transformação da vida velha, de tal modo que nela se forme a vida nova que não conhece a morte? Mais uma vez, um antigo escrito judaico pode nos ajudar a ter uma idéia daquele processo misterioso que tem início em nós no Batismo. Neste escrito se conta que o patriarca Henoc foi arrebatado até ao trono de Deus. Mas, ele se atemorizou à vista das gloriosas potestades angélicas e, na sua fraqueza humana, não pôde contemplar a Face de Deus. “Então Deus disse a Miguel – assim continua o livro de Henoc – 'Toma Henoc e tira-lhe as vestes terrenas. Unge-o com o óleo suave e reviste-o com vestes de glória! ' E, Miguel tirou as minhas vestes, ungiu-me com óleo suave; este óleo possuía algo mais que uma luz radiosa... O seu esplendor era semelhante aos raios do sol. Quando me vi, eis que eu era como um dos seres gloriosos” (Ph. Rech, Inbild des Kosmos, II 524).
Isto mesmo – ser revestidos com a nova veste de Deus – verivica-se Batismo; assim nos ensina a fé cristã. É verdade que esta mudança das vestes é um percurso que dura toda a vida. Aquilo que acontece no Batismo é o início de um processo que abarca toda a nossa vida –torna-nos capazes de eternidade, de tal modo que, na veste de luz de Jesus Cristo, podemos aparecer diante de Deus e viver com Ele para sempre.
No rito do Batismo, há dois elementos nos quais este evento se expressa e torna visível, também como exigência para o resto da nossa vida. Em primeiro lugar, temos o rito das renúncias e das promessas. Na Igreja Antiga, o batizando virava-se para ocidente, símbolo das trevas, do pôr do sol, da morte e, portanto, do domínio do pecado. O batizando virava-se para aquela direção e pronunciava um tríplice “não”: ao diabo, às suas pompas e ao pecado. Com a estranha palavra “pompas”, ou seja, o fausto do diabo, indicava-se o esplendor do antigo culto dos deuses e do antigo teatro, onde a diversão era ver pessoas vivas sendo dilaceradas pelas feras. Portanto, isto era o repúdio de um tipo de cultura que acorrentava o homem à adoração do poder, ao mundo da cobiça, à mentira, à crueldade. Era um ato de libertação da imposição de uma forma de vida que se apresentava como prazer e, contudo, levava à destruição daquilo que no homem são as suas qualidades melhores. Esta renúncia – com um comportamento menos dramático – constitui ainda hoje uma parte essencial do Batismo. Assim removemos as “vestes velhas”, com as quais não se pode estar diante de Deus. Melhor dito: começamos a depô-las. Com efeito, esta renúncia é uma promessa na qual damos a mão a Cristo, para que Ele nos guie e revista. Quais sejam as “vestes” que depomos e qual seja a promessa que pronunciamos fica claro quando lemos, no quinto capítulo da Carta aos Gálatas, aquilo que Paulo denomina “obras da carne” – termo que significa precisamente as vestes velhas que devem ser depostas. Paulo as designa assim: “fornicação, libertinagem, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas” (Gal 5, 19ss). São estas as vestes que depomos; são vestes da morte.
Em seguida, o batizando na Igreja Antiga se virava para oriente – símbolo da luz, símbolo do novo sol da história, novo sol que se levanta, símbolo de Cristo. O batizando determina a nova direção da sua vida: a fé em Deus trino, a quem ele se oferece. Assim, o próprio Deus nos veste com o traje de luz, com a veste da vida. Paulo chama a estas novas “vestes” “fruto do Espírito” e as descreve com as seguintes palavras: “caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência” (Gal 5, 22).
Na Igreja Antiga, depois o batizando era verdadeiramente despojado das suas vestes. Descia à fonte batismal e era imerso por três vezes – um símbolo da morte que significa toda a radicalidade deste despojamento e desta mudança de veste. Esta vida, que em todo o caso já está voltada à morte, o batizando a entrega à morte, junto com Cristo, e por Ele se deixa arrastar e elevar para a vida nova, que o transforma para a eternidade. Depois subindo das águas batismais, os neófitos eram revestidos com a veste branca, a veste luminosa de Deus, e recebiam a vela acesa como sinal da vida nova na luz que Deus mesmo acendera neles. Eles sabiam que tinham obtido o remédio da imortalidade, que agora, no momento de receber a sagrada Comunhão, tomava a sua forma plena. Na Comunhão, recebemos o Corpo do Senhor ressuscitado e nós mesmos somos atraídos para este Corpo, de tal modo que ficamos já guardados por Aquele que venceu a morte e nos conduz através da morte.
No decorrer dos séculos, os símbolos tornaram-se mais escassos, mas o acontecimento essencial do Batismo continue sendo o mesmo. Este não é apenas um lavacro, e menos ainda uma recepção um pouco complicada numa nova associação. O Batismo é morte e ressurreição, renascimento para a nova vida.
Sim, a erva medicinal contra a morte existe. Cristo é a árvore da vida, que se fez novamente acessível. Se aderimos a ele, então estamos na vida. Por isso, nesta noite da ressurreição, cantaremos com todo o coração o aleluia, o canto da alegria que não tem necessidade de palavras. Por isso Paulo pode dizer aos Filipenses: “alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos!” (Fl 4, 4). Não se pode comandar a alegria. Somente pode ser dada. O Senhor ressuscitado nos dá a alegria: a verdadeira vida. Já estamos protegidos para sempre guardados no amor daquele a quem foi dado todo o poder no céu e na terra (cf. Mt 28,18). Assim, seguros de ser escutados, peçamos como diz a oração sobre as oferendas que a Igreja eleva nesta noite: Acolhei, ó Deus, com estas oferendas as preces do vosso povo, para que a nova vida, que brota do mistério pascal, seja por vossa graça penhor da eternidade. Amém.
 
VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA
HOMILIA DO PAPA BENTO XVI
Basílica Vaticana
Sábado Santo, 3 de Abril de 2010
 

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