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Papa Bento XVI: É na formação das consciências que a Igreja oferece à sociedade a sua contribuição mais específica e preciosa


Senhor Presidente,
Senhores Cardeais,
Ilustres Senhores e Senhoras,
Amados irmãos e irmãs!

Estou muito feliz por poder começar a minha visita encontrando-vos, a vós que representais âmbitos qualificados da sociedade croata e o Corpo Diplomático. Dirijo a minha saudação cordial a cada um de vós pessoalmente e também às realidades vitais a que pertenceis: às comunidades religiosas, às instituições políticas, científicas e culturais, aos sectores artístico, económico e desportivo. Agradeço sentidamente a Mons. Puljić e ao Prof. Zurak as amáveis palavras que me dirigiram, bem como aos artistas que me acolheram com a linguagem universal da música. A dimensão da universalidade, que caracteriza a arte e a cultura, é conatural de um modo particular ao cristianismo e à Igreja Católica. Cristo é plenamente homem, e tudo aquilo que é humano encontra n’Ele e na sua Palavra plenitude de vida e de significado.

Este Teatro esplêndido é um lugar simbólico, que exprime a vossa identidade nacional e cultural. O facto de vos poder encontrar aqui, todos juntos, é mais um motivo de alegria do espírito, porque a Igreja é um mistério de comunhão e rejubila sempre com a comunhão na riqueza das diversidades. A participação dos Representantes das outras Igrejas e Comunidades cristãs, bem como das religiões hebraica e muçulmana, contribui para nos lembrar que a religião não é uma realidade aparte relativamente à sociedade: pelo contrário, é uma sua componente conatural, que evoca constantemente a dimensão vertical, a escuta de Deus como condição para a busca do bem comum, da justiça e da reconciliação na verdade. A religião coloca o homem em relação com Deus, Criador e Pai de todos, e, por conseguinte, deve ser uma força de paz. As religiões sempre se devem purificar segundo esta sua verdadeira essência, para corresponderem à sua genuína missão.

E aqui queria introduzir o tema central desta minha breve reflexão: a consciência. Transversal aos diferentes campos onde estais empenhados, este tema é fundamental para uma sociedade livre e justa, tanto a nível nacional como supranacional. Aqui penso naturalmente na Europa, de que a Croácia faz parte desde sempre no plano histórico-cultural, ao passo que, no plano político-institucional, está em vias de entrar na União. Pois bem, as grandes conquistas da idade moderna, ou seja, o reconhecimento e a garantia da liberdade de consciência, dos direitos humanos, da liberdade da ciência e, consequentemente, de uma sociedade livre, há que confirmá-las e desenvolvê-las mas mantendo a racionalidade e a liberdade abertas ao seu fundamento transcendente, para evitar que tais conquistas se auto-destruam, como infelizmente temos de constatar em não poucos casos. A qualidade da vida social e civil, a qualidade da democracia dependem em grande parte deste ponto «crítico» que é a consciência, de como a mesma é entendida e de quanto se investe na sua formação. Se a consciência se reduz, segundo o pensamento moderno predominante, ao âmbito da subjectividade, para o qual se relegam a religião e a moral, a crise do Ocidente não tem remédio e a Europa está destinada à involução. Pelo contrário, se a consciência é descoberta novamente como lugar da escuta da verdade e do bem, lugar da responsabilidade diante de Deus e dos irmãos em humanidade – que é a força contra toda a ditadura – então há esperança para o futuro.

Estou grato ao Prof. Zurak por ter lembrado as raízes cristãs de numerosas instituições culturais e científicas deste país, como aliás aconteceu em todo o continente europeu. O lembrar estas origens é necessário inclusive para a verdade histórica, mas é importante saber lê-las em profundidade a fim de que possam animar também os dias de hoje. Por outras palavras, é decisivo captar o dinamismo que está dentro do acontecimento, por exemplo, da criação duma universidade, ou dum movimento artístico, ou dum hospital. É preciso compreender o porquê e o como de isso ter acontecido, para se valorizar nos dias de hoje tal dinamismo, que é uma realidade espiritual que se torna cultural e, consequentemente, social. Na base de tudo, encontram-se homens e mulheres, encontram-se pessoas, consciências, movidas pela força da verdade e do bem. Foram citados alguns dos filhos ilustres desta terra. Gostaria de deter-me no Padre jesuíta Ruđer Josip Bošković, que nasceu em Dubrovnik há trezentos anos, no dia 18 de Maio de 1711. Ele personifica muito bem o consórcio feliz entre a fé e a ciência, que se estimulam reciprocamente a uma pesquisa ao mesmo tempo aberta, diversificada e capaz de síntese. A sua obra mais importante, Theoria philosophiae naturalis, publicada em Viena e depois em Veneza a meados do século XVIII, tem um subtítulo muito significativo: redacta ad unicam legem virium in natura existentium, ou seja, «segundo a única lei das forças existentes na natureza». Em Bošković, temos a análise, o estudo de múltiplos ramos do saber, mas temos também a paixão pela unidade. E isto é típico da cultura católica. Por isso, é sinal de esperança a fundação de uma Universidade Católica na Croácia. Espero que esta contribua para criar unidade entre os diversos âmbitos da cultura contemporânea, os valores e a identidade do vosso povo, dando continuidade à fecunda contribuição da Igreja para a história da nobre Nação croata. Voltando ao Padre Bošković, dizem os peritos que a sua teoria da «continuidade», válida tanto nas ciências naturais como na geometria, concorda magnificamente com algumas das grandes descobertas da física contemporânea. Que podemos dizer? Prestemos homenagem ao croata ilustre, mas também ao jesuíta autêntico; prestemos homenagem ao cultor da verdade que está bem ciente de quanto esta o supere, mas sabe também, à luz da verdade, empenhar profundamente os recursos da razão que o próprio Deus lhe concedeu.

Contudo, para além da homenagem, é preciso aproveitar o método, a abertura mental destes grandes homens. Voltemos, pois, à consciência como chave mestra para a elaboração cultural e a construção do bem comum. É na formação das consciências que a Igreja oferece à sociedade a sua contribuição mais específica e preciosa. Uma contribuição que começa na família e que encontra um reforço importante na paróquia, onde as crianças e adolescentes e, depois, os jovens aprendem a aprofundar as Sagradas Escrituras, que são o «grande códice» da cultura europeia; e, ao mesmo tempo, aprendem o sentido da comunidade fundada no dom: não no interesse económico ou na ideologia, mas no amor, que é «a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira» (Caritas in veritate, 1). Aprendida na infância e na adolescência, esta lógica da gratuidade é, depois, vivida nos diversos âmbitos, no jogo e no desporto, nas relações interpessoais, na arte, no serviço voluntário aos pobres e aos doentes, e, uma vez assimilada, pode-se concretizar nos âmbitos mais complexos da política e da economia, colaborando para uma polis que seja acolhedora e hospitaleira, e que ao mesmo tempo não seja vazia, nem falsamente neutra, mas rica de conteúdos humanos, com uma forte consistência ética. É aqui que os christifideles laici estão chamados a fazer render generosamente a sua formação, guiados pelos princípios da Doutrina Social da Igreja, por uma autêntica laicidade, a justiça social, a defesa da vida e da família, a liberdade religiosa e educativa.

Ilustres amigos, a vossa presença e a tradição cultural croata sugeriram-me estas breves reflexões. Deixo-vo-las como sinal da minha estima e sobretudo da vontade que tem a Igreja de caminhar com a luz do Evangelho no meio deste povo. Agradeço-vos pela vossa atenção e de coração abençoo a todos vós, os vossos entes queridos e as vossas actividades!

ENCONTRO COM EXPOENTES DA SOCIEDADE CIVIL, 
DO MUNDO POLÍTICO, ACADÉMICO, CULTURAL 
E EMPRESARIAL, COM O CORPO DIPLOMÁTICO 
E COM OS LÍDERES RELIGIOSOS

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
Teatro Nacional Croata - Zagreb
Sábado, 4 de Junho de 2011
  
© Copyright 2011 - Libreria Editrice Vaticana

ENTREVISTA COM BENTO XVI NO VÔO À JORDANIA

«A Igreja Católica quer contribuir para a paz na Terra Santa»
AMÃ, sexta-feira, 8 de maio de 2009 (ZENIT.org).- Oferecemos a seguir a transcrição da coletiva de imprensa que Bento XVI concedeu nesta sexta-feira aos jornalistas que o acompanhavam no vôo que o levou de Roma à Jordânia. * * * – Padre Lombardi: Santidade, agradecemos muito que nos dê também desta vez uma ocasião de um encontro com o senhor ao início de uma viagem tão importante e comprometida. Entre outras coisas, temos também a oportunidade de desejar-lhe uma boa viagem e de dizer-lhe que colaboraremos na difusão das mensagens que o senhor nos transmitirá. Como é habitual, as perguntas que agora proponho são o resultado de uma coleta de perguntas entre os colegas aqui presentes. Eu as exponho por motivos de facilidade logística, mas na realidade são fruto do trabalho comum.
– Pergunta: Santidade, esta viagem acontece em um período muito delicado para o Oriente Médio. Há fortes tensões; por ocasião da crise de Gaza, haviam inclusive pensado que o senhor renunciaria a realizá-la. Ao mesmo tempo, poucos dias depois de sua viagem, os principais responsáveis políticos de Israel e da Autoridade Palestina se encontrarão com o presidente Obama. O senhor acha que poderá dar uma contribuição para o processo de paz que agora parece estagnado?
– Bento XVI: Bom dia! Quero antes de tudo agradecer o trabalho que realizais e desejar a todos uma boa viagem, uma boa peregrinação, um bom retorno. Com relação à pergunta, certamente tento contribuir com a paz não como indivíduo, mas em nome da Igreja Católica, da Santa Sé. Nós não somos um poder político, mas uma força espiritual e esta força espiritual é uma realidade que pode contribuir para o progresso do processo de paz. Vejo três níveis: como crentes, estamos convencidos de que a oração é uma verdadeira força. Ela abre o mundo a Deus: estamos convencidos de que Deus escuta e de que pode atuar na história. Penso que se milhões de pessoas, de crentes, rezam, é realmente uma força que influencia e pode contribuir para ir adiante com a paz. Segundo ponto: tentamos ajudar na formação das consciências. A consciência é a capacidade do homem de perceber a verdade, mas esta capacidade está frequentemente com obstáculos por interesses particulares. E libertar destes interesses, abrir mais à verdade, aos verdadeiros valores, é uma grande tarefa: é um dever da Igreja ajudar a conhecer os verdadeiros critérios, os verdadeiros valores, e libertar-nos de interesses particulares. E assim, terceiro ponto, interpelamos também – precisamente é assim! – a razão: precisamente porque não somos parte política, podemos talvez mais facilmente, também à luz da fé, ver os verdadeiros critérios, ajudar a entender o que contribui para a paz e falar à razão, apoiar as posturas realmente razoáveis. Fizemos isso e queremos fazer novamente agora e no futuro.
– Obrigado, Santidade. Segunda pergunta: o senhor, como teólogo, refletiu em particular sobre a raiz única que une cristãos e judeus. Como é possível que, apesar dos esforços de diálogo, aconteçam com frequência ocasiões de mal-entendidos? Como o senhor vê o futuro do diálogo entre as duas comunidades?
– Bento XVI: O importante é que na realidade temos a mesma raiz, os mesmos Livros do Antigo Testamento, que são – tanto para os judeus como para nós – Livro da Revelação. Mas, naturalmente, após dois mil anos de histórias diversas, e mais ainda, separadas, não nos surpreende o fato de que se dêem mal-entendidos, porque se formaram tradições de interpretação, de linguagem, de pensamento muito diferentes, por assim dizer, um «cosmos semântico» muito diferente, de modo que as mesmas palavras em ambas as partes significam coisas diferentes; e com este uso de palavras que, no curso da história conformaram significados diversos, nascem obviamente mal-entendidos. Devemos fazer de tudo para aprender a linguagem do outro, e me parece que fizemos grandes progressos. Hoje temos a possibilidade de que os jovens, os futuros professores de teologia, possam estudar em Jerusalém, na Universidade Hebraica, e os judeus têm contato acadêmico conosco: assim se dá um encontro destes «cosmos semânticos» diferentes. Aprendemos mutuamente e avançamos pelo caminho do verdadeiro diálogo; aprendemos um do outro e estou certo de que estamos progredindo. E isso ajudará também no processo de paz, e mais, no amor recíproco.
– Santidade, esta viagem tem duas dimensões essenciais de diálogo inter-religioso, com o islã e com o judaísmo. São duas direções completamente separadas ou haverá também uma mensagem comum que tenha a ver com as três religiões que fazem referência a Abraão?
– Bento XVI: Certamente existe também uma mensagem comum e será ocasião de apresentá-la e, apesar da diferença de origens, temos raízes comuns, porque, como já disse, o cristianismo nasce do Antigo Testamento e o Novo Testamento sem o Antigo não existiria, porque se refere permanentemente à Escritura, ou seja, ao Antigo Testamento; mas também o Islã nasceu em um ambiente onde estava presente tanto o judaísmo como os diversos ramos do cristianismo, judaico-cristianismo, cristianismo-antioquenho bizantino, e todas as circunstâncias se refletem na tradição alcorânica. Assim, temos muito em comum desde as origens, na fé no único Deus. Por isso, é importante, por um lado, manter um diálogo a duas partes – com os judeus e com o Islã – e depois também um diálogo trilateral. Eu mesmo fui cofundador de uma fundação para o diálogo entre as três religiões no qual personalidades como o metropolita Damaskinos e o grão-rabino da França, René Samuel Sirat, estavam juntos, e esta fundação fez também uma edição dos livros das três religiões: o Alcorão, o Novo Testamento e o Antigo Testamento. Portanto, o diálogo trilateral deve seguir adiante, é importantíssimo para a paz e também – digamos – para viver bem a própria religião.
– Uma última pergunta. Santidade, o senhor aludiu frequentemente ao problema da diminuição dos cristãos no Oriente Médio, em particular na Terra Santa. É um fenômeno com diferentes razões de caráter político, econômico e social. O que se pode fazer concretamente para ajudar a presença cristã na região? Que contribuição o senhor espera oferecer com sua viagem? Há esperança para estes cristãos no futuro? Terá uma mensagem particular também para os cristãos de Gaza que virão para encontrá-lo em Belém?
– Bento XVI: Certamente há esperanças, porque agora é um momento difícil, como você disse, mas também um momento de esperança, de um novo começo, de um novo impulso no caminho rumo à paz e queremos alentar os cristãos na Terra Santa e em todo o Oriente Médio a ficar, a oferecer sua contribuição nos países de suas origens: são um componente importante da vida destas regiões. Concretamente, a Igreja, além de palavras de alento, além da oração comum, tem também escolas e hospitais. Neste sentido, temos a presença de realidades muito concretas. Nossas escolas formam uma geração que terá a possibilidade de estar presente na vida pública. Estamos criando a universidade católica na Jordânia e me parece ser uma grande perspectiva, em que os jovens – tanto muçulmanos como cristãos – se encontram, aprendem juntos, onde se forma uma elite cristã que está preparada precisamente para trabalhar para a paz. Mas geralmente nossas escolas são uma oportunidade muito importante para abrir um futuro aos cristãos e os hospitais mostram nossa presença. Também há muitas associações cristãs que ajudam de diversas formas os cristãos e com ajudas concretas os animam a que permaneçam; assim, espero que os cristãos realmente possam encontrar o valor, a humildade, a paciência de ficar nestes países, de oferecer sua contribuição ao futuro destes países.
– Padre Lombardi: Obrigado, Santidade. Com estas respostas, o senhor nos ajudou a ambientar nossa viagem do ponto de vista espiritual, do ponto de vista cultural, e renovo os desejos, também da parte de todos os colegas que estão neste voo, e também de outros que estão voando para a Terra Santa neste momento, precisamente para participar e ajudar também do ponto de vista informativo para o bom resultado desta missão sua tão comprometida. Boa viagem o senhor e a todos os seus colaboradores; e bom trabalho também aos colegas.

A CONSCIÊNCIA CRISTÃ EM FAVOR DO DIREITO À VIDA

Queridos irmãos e irmãs
É para mim uma verdadeira alegria receber nesta Audiência os membros da Pontifícia Academia para a Vida, reunidos por ocasião da XIII Assembleia Geral, e quantos quiseram participar no Congresso que tem como tema: "A consciência cristã em favor do direito à vida". (...) O tema que propusestes à atenção dos participantes, e portanto também da comunidade eclesial e da opinião pública, é de grande relevância: com efeito, a consciência cristã tem a necessidade interior de se alimentar e de se fortalecer com as múltiplas e profundas motivações que militam em favor do direito à vida. É um direito que deve ser sustentado por todos, porque se trata de um direito fundamental em relação aos outros direitos humanos. Afirma-o com vigor a Encíclica Evangelium vitae: "Mesmo por entre dificuldades e incertezas, todo o homem sinceramente aberto à verdade e ao bem pode, pela luz da razão e com o secreto influxo da graça, chegar a reconhecer, na lei natural inscrita no coração (cf. Rm 2, 14-15), o valor sagrado da vida humana desde o seu início até ao seu termo, e afirmar o direito que todo o ser humano tem de ver plenamente respeitado este seu bem primário. Sobre o reconhecimento de tal direito é que se funda a convivência humana e a própria comunidade política" (n. 2). Esta mesma Encíclica recorda que, "de modo particular, devem defender e promover este direito os crentes em Cristo, conscientes daquela verdade maravilhosa, recordada pelo Concílio Vaticano II: "Pela sua encarnação Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem" (Gaudium et spes, 22). De facto, neste acontecimento da salvação revela-se à humanidade não só o amor infinito de Deus, que "amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho único" (Jo 3, 16), mas também o valor incomparável de cada pessoa humana" (Evangelium vitae, 2). Por isso, o cristão é continuamente chamado a mobilizar-se para enfrentar os múltiplos ataques aos quais o direito à vida está exposto. Nisto, ele sabe que pode contar com motivações que têm profundas raízes na lei natural e, portanto, que podem ser compartilhadas por todas as pessoas de consciência recta. Nesta perspectiva, sobretudo depois da publicação da Encíclica Evangelium vitae, muito se realizou a fim de que os conteúdos de tais motivações pudessem ser melhor conhecidos na comunidade cristã e na sociedade civil, mas é necessário admitir que os ataques contra a vida, no mundo inteiro, se ampliaram e multiplicaram, adquirindo também novas formas. São cada vez mais vigorosas as pressões para a legalização do aborto nas nações da América Latina e nos países menos desenvolvidos, mesmo com o recurso à liberalização das novas formas de aborto químico, sob o pretexto da saúde reprodutiva: incrementam-se as políticas do controle demográfico, não obstante já sejam reconhecidas como perniciosas também nos planos económico e social. Ao mesmo tempo, nos países mais desenvolvidos aumenta o interesse pela investigação biotecnológica mais aprimorada, para instaurar subtis e vastas metodologias de eugenismo, até à busca obcecada do "filho perfeito", com a difusão da procriação e de várias formas de diagnóstico, que tendem a garantir a sua selecção. Uma nova onda de eugenética discriminatória encontra consensos em nome do presumível bem-estar dos indivíduos e, de maneira especial no mundo economicamente progredido, promovem-se leis para legalizar a eutanásia. Tudo isto acontece enquanto, sob outro ponto de vista, se multiplicam os impulsos em favor da legalização de convivências alternativas ao matrimónio e fechadas à procriação natural. Nestas situações a consciência, por vezes subjugadas pelos meios de pressão colectiva, não demonstra suficiente vigilância acerca da gravidade dos problemas em jogo, e o poder dos mais fortes debilita e parece paralisar inclusive as pessoas de boa vontade. Por isso, é ainda mais necessário o apelo à consciência e, de forma particular, à consciência cristã. "A consciência moral, como diz o Catecismo da Igreja Católica, é um juízo da razão, pelo qual a pessoa humana reconhece a qualidade moral de um acto concreto que vai praticar, que está prestes a executar ou que já realizou. Em tudo quanto diz e faz, o homem está obrigado a seguir fielmente o que sabe que é justo e recto" (n. 1778). Desta definição sobressai o facto de que a consciência moral, para ser capaz de orientar rectamente o comportamento humano, deve em primeiro lugar alicerçar-se no fundamento sólido da verdade, ou seja, deve ser iluminada para reconhecer o verdadeiro valor das acções e a consciência dos critérios de avaliação, de maneira a saber distinguir o bem do mal, também onde o ambiente social, o pluralismo cultural e os interesses sobrepostos não contribuem para isto. A formação de uma consciência autêntica, porque está fundamentada na verdade, e recta, porque determinada a seguir os seus preceitos sem quaisquer contradições, sem atraiçoamentos e sem compromissos, constitui hoje em dia um empreendimento difícil e delicado, mas imprescindível. E trata-se de uma empresa, infelizmente, impedida por diversos factores. Antes de mais nada, na actual fase da secularização chamada pós-moderna e caracterizada por inquestionáveis formas de tolerância, não somente aumenta a rejeição da tradição cristã, mas desconfia-se inclusive da capacidade que a razão tem de compreender a verdade e as pessoas afastam-se do gosto pela reflexão. Na opinião de alguns, para ser livre, a consciência individual deveria até renunciar tanto às referências às tradições como às que se fundamentam na razão. Desta forma a consciência, um acto da razão que tem em vista da verdade acerca das coisas, cessa de ser luz e torna-se um simples pano de fundo sobre o qual a sociedade dos meios de comunicação lança as imagens e os impulsos mais contraditórios. É necessário reeducar para o desejo do conhecimento da verdade autêntica, para a defesa da própria liberdade de opção diante dos comportamentos de massa e das seduções da propaganda, para nutrir a paixão pela beleza moral e pela clareza da consciência. Esta é a tarefa delicada dos pais e dos educadores que os acompanham; e é tarefa da comunidade cristã, em relação aos seus fiéis. No que diz respeito à consciência cristã, ao seu crescimento e ao seu alimento, não nos podemos contentar com um contacto efémero com as principais verdades da fé na infância, mas é necessário percorrer um caminho que acompanhe as várias etapas da vida, abrindo a mente e o coração, a fim de que aceitem os deveres fundamentais sobre os quais está alicerçada a existência, tanto do invidíduo como da comunidade. Somente assim será possível levar os jovens a compreender os valores da vida, do amor, do matrimónio e da família. Só deste modo será possível levá-los a apreciar a beleza e a santidade do amor, a alegria e a responsabilidade de ser pais e colaboradores de Deus no acto de dar a vida. Na falta de uma formação contínua e qualificada, torna-se ainda mais problemática a capacidade de juízo nos problemas apresentados pela biomedicina, em matéria de sexualidade, de vida nascente e de procriação, como também no modo de tratar e curar os enfermos e cuidar das camadas mais frágeis da sociedade. Sem dúvida, é necessário falar dos critérios morais que dizem respeito a estes temas com profissionais, médicos e juristas, em vistas de os comprometer na elaboração de um competente juízo de consciência e, neste caso, também uma corajosa objecção de consciência, mas uma igual urgência sobressai, a nível básico, para as famílias e as comunidades paroquiais, no processo de formação da juventude e dos adultos. Sob este aspecto, ao lado da formação cristã, destinada ao conhecimento da Pessoa de Cristo, da sua Palavra e dos Sacramentos, no itinerário de fé das crianças e dos adolescentes é preciso unir coerentemente o discurso sobre os valores morais, que dizem respeito à corporeidade, a sexualidade, o amor humano, a procriação, o respeito pela vida em todos os momentos, denunciando ao mesmo tempo com motivos válidos e específicos os comportamentos contrários a estes valores primários. Neste campo característico, a obra dos sacerdotes deverá ser oportunamente coadjuvada pelo compromisso de educadores leigos, também especialistas, dedicados à tarefa de orientar as realidades eclesiais com a sua ciência iluminada pela fé. Portanto, rezo ao Senhor a fim de que envie para junto de vós, estimados irmãos e irmãs, e para junto de quantos se dedicam à ciência, à medicina, ao direito e à política, testemunhas dotadas de consciência autêntica e recta, para defender e promover o "esplendor da verdade", em favor do dom e do mistério da vida. Caríssimos profissionais, filósofos, teólogos, cientistas e médicos, confio na vossa assistência. Numa sociedade às vezes ruidosa e violenta, com a vossa qualificação cultural, com o ensinamento e com o exemplo, podeis contribuir para despertar em muitos corações a voz eloquente e clara da consciência. "Na verdade, o homem tem uma lei inscrita por Deus no seu coração ensinou-nos o Concílio Vaticano II. A sua dignidade está em obedecer-lhe e segundo ela será julgado" (Gaudium et spes, 16). O Concílio ofereceu sábias indicações, para que os leigos "aprendam diligentemente... a distinguir entre os direitos e as obrigações que lhes correspondem enquanto membros da Igreja, e os que lhes competem como membros da sociedade civil", e "procurem com diligência harmonizá-los uns com os outros, lembrando-se que em toda a ocupação temporal devem orientar-se sempre pela consciência cristã, pois nenhuma actividade humana, nem sequer na ordem temporal, pode subtrair-se ao império de Deus" (Lumen gentium, 36). Por este motivo, o Concílio exorta os leigos crentes a aceitar "tudo o que estabelecerem na Igreja os Pastores... como mestres e governantes"; por sua vez, "os Pastores reconheçam e tornem efectivas a dignidade e a responsabilidade dos leigos na Igreja; aproveitem de bom grado o seu conselho prudente...", e conclui que "desta convivência familiar entre os leigos e os Pastores há que esperar muitas vantagens para a Igreja" (Lumen gentium,38). Quando está em jogo o valor da vida humana, esta harmonia entre a função magisterial e o compromisso laical torna-se singularmente importante: a vida é o primeiro dos bens recebidos de Deus, e constitui o fundamento de todos os outros; garantir o direito à vida a todos, e de maneira igual para todos, é um dever de cujo cumprimento depende o futuro da humanidade. A importância deste vosso encontro de estudo sobressai também deste ponto de vista. Confio os vossos trabalhos e resultados à intercessão da Virgem Maria, que a tradição cristã saúda como a verdadeira "Mãe de todos os vivos". Que Ela vos assista e vos guie! Como penhor destes bons votos, desejo conceder a todos vós, aos vossos familiares e colaboradores a Bênção Apostólica.
DISCURSO DO PAPA BENTO XVI AOS PARTICIPANTES NA ASSEMBLEIA GERAL DA PONTIFÍCIA ACADEMIA PARA A VIDA
Sábado, 24 de Fevereiro de 2007
Fonte: Vatican.va

A TEOLOGIA DA CONSCIÊNCIA DE NEWMAN

JOSEPH RATZINGER
"Não me sinto competente para falar da figura ou da obra de John Henry Newman, mas talvez seja interessante que eu fale da minha pessoal abordagem a Newman, no qual se reflecte também algo da actualidade deste grande teólogo inglês nas controvérsias espirituais do nosso tempo. Quando em Janeiro de 1946 pude iniciar o meu estudo da teologia no seminário da Diocese de Frisinga, que finalmente reabriu depois dos tormentos da guerra, foi previsto que ao nosso grupo fosse destinado como prefeito um estudante mais velho, o qual, já antes do início da guerra tinha começado a trabalhar numa dissertação sobre a teologia da consciência de Newman. Durante todos os anos em que esteve envolvido na guerra, não afastou da sua mente este tema, que agora retomava com novo entusiasmo e energia. Ligou-nos, desde o início uma amizade pessoal, que se concentrava totalmente sobre os grandes problemas da filosofia e da teologia. É evidente que Newman estava sempre no centro deste intercâmbio. Alfred Läpple, o prefeito acima mencionado, publicou em 1952 a sua dissertação, com o título O indivíduo na Igreja. A doutrina de Newman sobre a consciência tornou-se então para nós o fundamento daquele personalismo teológico, que a todos nos atraiu com o seu fascínio. A nossa imagem do homem, assim como a nossa concepção da Igreja, foram assinaladas por este ponto de partida. (...)
Por isso, era um facto para nós liberatório e fundamental saber que o "nós" da Igreja não se fundava na eliminação da consciência, mas podia desenvolver-se unicamente a partir da consciência. Contudo, precisamente porque Newman explicava a existência do homem a partir da consciência, isto é, na relação entre Deus e a alma, era também claro que este personalismo não representava cedência alguma ao individualismo, e que o vínculo à consciência não significava concessão alguma à arbitrariedade tratava-se antes precisamente do contrário. De Newman aprendemos a compreender a primazia do Papa: a liberdade de consciência assim ensinava Newman com a Carta ao Duque de Norfolk não se identifica de modo algum com o direito de "dispensar-se da consciência, de ignorar o Legislador e o Juiz, e de ser independentes de deveres invisíveis". Deste modo a consciência, no seu significado autêntico, é o verdadeiro fundamento da autoridade do Papa. De facto, a sua força vem da Revelação, que completa a consciência natural iluminada de maneira apenas incompleta, e "a sua razão de ser é o facto de ser o campeão da lei moral e da consciência".
Esta doutrina sobre a consciência tornou-se para mim cada vez mais importante no andamento sucessivo da Igreja e do mundo. Apercebo-me cada vez mais que ela se abre sempre de maneira completa só em referência à biografia do Cardeal, a qual supõe todo o drama espiritual do seu século. Newman, enquanto homem da consciência, tornou-se um convertido; foi a sua consciência que o guiou dos antigos vínculos e das antigas certezas para o mundo que para ele era mais difícil e inabitual do catolicismo. Contudo, precisamente este caminho da consciência é muito diferente do caminho da subjectividade que se afirma a si mesma: ao contrário, é um caminho de obediência à verdade objectiva. A segunda passagem do caminho de conversão que dura toda a vida de Newman foi de facto a superação da posição do subjectivismo evangélico, em favor de uma concepção do Cristianismo fundada na objectividade do dogma. A este propósito penso que é sempre muito significativa, sobretudo hoje, uma formulação tirada de uma das suas pregações da época anglicana. O verdadeiro Cristianismo demonstra-se na obediência, e não num estado de consciência. "Assim, qualquer tarefa e trabalho de um cristão se organiza tendo como centro estes dois elementos: a fé e a obediência; "ele olha para Jesus" (Hb 2, 9)... e age segundo a sua vontade. Parece-me que hoje corremos o perigo de não dar a importância que deveríamos a nenhum dos dois. Consideramos qualquer reflexão verdadeira e cuidadosa sobre o conteúdo da fé como estéril ortodoxia, como técnica impenetrável. Por conseguinte fazemos consistir o critério da nossa piedade na posse de uma disposição do ânimo espiritual".
Em relação a isto, tornaram-se importantes para mim algumas frases tiradas do livro Os Arianos do IV século, que à primeira vista me tinham parecido bastante surpreendentes: o princípio apresentado pela Escritura como fundamento da paz é "reconhecer que a verdade como tal deve guiar quer o comportamento político quer o privado... e que o zelo, na escala das graças cristãs, tinha a prioridade sobre a benevolência". Para mim é sempre de novo fascinante aperceber-me e reflectir como precisamente assim e só assim, através do vínculo com a verdade, com Deus, a consciência recebe valor, dignidade e força. Neste contexto gostaria de acrescentar apenas outra expressão tirada da Apologia pro vita sua, que ao contrário demonstra o realismo desta concepção da pessoa e da Igreja: "Os movimentos vivos não surgem de comissões".
Gostaria de voltar mais uma vez ao aspecto autobiográfico. Quando em 1947 continuei em Mónaco os meus estudos, encontrei no professor de teologia fundamental, Gottlieb Söhngen, o meu verdadeiro mestre em teologia, um culto e apaixonado seguidor de Newman. Ele apresentou-nos a Gramática do Consentimento e com ela a modalidade específica e a forma de certeza própria do conhecimento religioso. Ainda mais profundamente agiu em mim o contributo que Heinrich Fries publicou por ocasião do Jubileu de Calcedónia: nele tive o acesso à doutrina de Newman sobre o desenvolvimento do dogma, que considero ser, com a doutrina sobre a consciência, o seu contributo decisivo para a renovação da teologia. Com isto ele pôs nas nossas mãos a chave para inserir na teologia um pensamento histórico, ou melhor: ele ensinou-nos a pensar historicamente a teologia, e precisamente desta forma, a reconhecer a identidade da fé em todas as mutações. Sou obrigado a abster-me do aprofundamento, neste contexto, desta ideia.
Parece-me que o contributo de Newman ainda não foi completamente utilizado nas teologias modernas. Ele contém em si ainda possibilidades frutuosas, que aguardam ser desenvolvidas. Nesta sede gostaria apenas de me referir mais uma vez ao aspecto biográfico desta concepção. Todos sabem como a concepção de Newman sobre a ideia do desenvolvimento marcou o seu caminho rumo ao catolicismo. Contudo não se trata apenas de um desenvolvimento coerente de ideias. No conceito de desenvolvimento está em jogo a própria vida pessoal de Newman. Parece-me que isto se torna evidente na sua conhecida afirmação, contida no famoso ensaio sobre O desenvolvimento da doutrina cristã: "aqui, na terra, viver é mudar, e a perfeição é o resultado de muitas transformações". Newman foi ao longo de toda a sua vida uma pessoa que se converteu, que se transformou, e desta forma permaneceu sempre ele mesmo, e tornou-se sempre mais ele mesmo.
(...) A conversão é um caminho, uma via que dura a vida inteira. Por isso, a fé é sempre desenvolvimento, e precisamente assim maturação da alma para a Verdade, que "nos é mais íntima de quanto nós o somos para nós mesmos". Newman expôs na ideia do desenvolvimento a própria experiência pessoal de uma conversão jamais concluída, e assim ofereceu-nos a interpretação não só do caminho da doutrina cristã, mas também da vida cristã. O sinal característico do grande doutor da Igreja parece-me que seja aquele que ele não ensina só com o seu pensamento e com os seus discursos, mas também com a sua vida, porque nele pensamento e vida compenetram-se e determinam-se reciprocamente. Se isto é verdade, então Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

NEWMAN: UMA SÍNTESE EXCEPCIONAL ENTRE ENTRE FÉ E RAZÃO

JOÃO PAULO II
"Newman nasceu numa época atormentada não só politica e militarmente, mas também sob o ponto de vista espiritual. As antigas certezas vacilavam e os crentes encontravam-se perante as ameaças do racionalismo e do fideísmo. O racionalismo trouxe consigo a recusa quer da autoridade quer da transcendência, enquanto o fideísmo afastou as pessoas dos desafios da história e dos compromissos terrenos, gerando neles uma dependência insensata da autoridade e do sobrenatural. Naquele mundo, Newman chegou deveras a uma síntese excepcional entre fé e razão que eram para ele "como duas asas sobre as quais o espírito humano alcança a contemplação da verdade" (cf. Fides et ratio, Introdução; cf. ibid, n. 74). Foi a contemplação apaixonada da verdade que o conduziu a uma aceitação libertadora da autoridade, cujas raízes estão em Cristo, e a um sentido do sobrenatural que abre a mente e o coração humanos a uma ampla gama de possibilidades reveladas em Cristo. "Ilumina gentilmente a obscuridade, guia-me" escreveu Newman em "A Nuvem do não Conhecimento". Para ele Cristo era a luz no centro de qualquer obscuridade. Para o seu túmulo escolheu a seguinte epígrafe: Ex umbris et imaginibus in veritatem; era evidente que no final da sua viagem terrena foi Cristo a verdade que encontrou."
Por ocasião do Segundo centanário do Cardeal Newman Vaticano, 22 de Janeiro de 2001. Fonte: Vatican.va
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