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MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA BENTO XVI PARA A QUARESMA DE 2012


«Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos

ao amor e às boas obras» (Heb 10, 24)


Irmãos e irmãs!
A Quaresma oferece-nos a oportunidade de reflectir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.

Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre actual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.

1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão.

O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado ékatanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objecto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção aobem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo actual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66).

A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.

O facto de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correcção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correcção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há-de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correcção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais rectamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.

2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade.

O facto de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a actual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correcção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.

Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a acção do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt5, 16).

3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade.

Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efectivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.

Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre actual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).

Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.

Vaticano, 3 de Novembro de 2011

BENEDICTUS PP. XVI

© Copyright 2011 - Libreria Editrice Vaticana

MENSAGENS PARA A QUARESMA

Segue abaixo os links de todas as mensagens para a quaresma do Papa Bento XVI durante o seu pontificado.


TEMA: Sobre a Justiça de Deus.
"A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo" (cfr Rom 3, 21–22 )
TEMA: Sobre o valor e o sentido do jejum.  
"Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome" (Mt 4, 1-2)
TEMA: Sobre a esmola.
«Cristo fez-Se pobre por vós» (cf. 2 Cor 8, 9)
TEMA: Sobre Cristo crucificado.
«Hão-de olhar para aquele que trespassaram» (Jo 19, 37)
TEMA: Sobre a misericórdia e o desenvolvimento. 
«Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão por elas» (Mt 9, 36)




O JEJUM E O DESENVOLVIMENTO DA PESSOA

JOÃO PAULO II AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 21 de Março de 1979
O jejum penitencial e o desenvolvimento da pessoa
1. Ordenai um jejum (Jl. 1, 14). São as palavras que ouvimos na primeira leitura de Quarta-feira de Cinzas. Escreveu-as o Profeta Joel, e a Igreja, em conformidade com elas, estabelece a prática da Quaresma, ordenando o jejum. Hoje a prática da Quaresma, definida por Paulo VI na Constituição «Poenitemini», está notavelmente mitigada em comparação com o que era antigamente. Nesta matéria o Papa deixou muito à decisão das Conferências Episcopais de cada país, às quais, por conseguinte, toca a missão de adaptar as exigências do jejum às circunstâncias em que se encontram as respectivas sociedades. Recordou também que a essência da penitência quaresmal é constituída não só pelo jejum, mas também pela oração e pela esmola (obra de misericórdia). É necessário pois decidir segundo as circunstâncias, uma vez que o jejum pode mesmo ser «substituído» por obras de misericórdia e pela oração. A finalidade deste período especial na vida da Igreja é, sempre e em toda a parte, a penitência, isto é, a conversão para Deus. A penitência, de facto, entendida como conversão, isto é «metánoia», forma um conjunto que a tradição do Povo de Deus já na Antiga Aliança, e em seguida o próprio Cristo, ligaram em certo modo à oração, à esmola e ao jejum.
Porquê o jejum?
Neste momento vêm-nos talvez à lembrança as palavras com que Jesus respondeu aos discípulos de João Baptista quando o interrogavam: por que não jejuam os teus discípulos? Jesus respondeu: Porventura podem os companheiros do esposo estar tristes enquanto o esposo está com eles? Dias hão-de vir em que lhes tirarão o esposo e então jejuarão (Mt 9, 15). Na verdade, o tempo da Quaresma recorda-nos que o esposo nos foi tirado. Tirado, detido, preso, esbofeteado, flagelado, coroado de espinhos e crucificado ... O jejum no tempo da Quaresma é a expressão da nossa solidariedade com Cristo. Tal foi o significado da Quaresma através dos séculos e assim hoje se mantém. «O meu amor foi crucificado e já não há em mim a chama que deseja as coisas materiais», como escreve o Bispo de Antioquia, Inácio, na carta aos Romanos (Santo Inácio de Antioquia, Ad Romanos, VII, 2).
2. Porquê o jejum? A esta pergunta é preciso dar uma resposta mais extensa e profunda, para que fique clara a relação à «metánoia», isto é, aquela transformação espiritual, que aproxima o homem de Deus. Esforcemo-nos portanto por concentrar-nos não só na prática da abstenção do alimento ou das bebidas — isto de facto significa «jejum» no sentido ordinário — mas no significado mais profundo desta prática que, aliás, pode e deve às vezes ser «substituída» por alguma outra. O alimento e as bebidas são indispensáveis para o homem viver, disso se serve e deve servir-se, mas não lhe é lícito abusar seja da forma que for. A tradicional abstenção do alimento e das bebidas tem como finalidade introduzir na existência do homem não só o equilíbrio necessário, mas também o desprendimento daquilo que poderia definir-se «atitude consumística». Tal atitude tornou-se nos nossos tempos uma das características da civilização e em particular da civilização ocidental. A atitude consumística! O homem orientado para os bens materiais, múltiplos bens materiais, muitas vezes abusa deles. Não se trata aqui unicamente do alimento e das bebidas. Quando o homem está orientado exclusivamente para a posse e o uso dos bens materiais, isto é, das coisas, então também toda a civilização é medida segundo a quantidade e qualidade das coisas que se encontra capaz de fornecer ao homem e não se mede com a medida adequada ao homem. Esta civilização fornece de facto, os bens materiais não só para que sirvam ao homem a exercer as actividades criativas e úteis, mas cada vez mais ... a satisfazer os sentidos, a excitação que disso deriva, o prazer momentâneo e a multiplicidade de sensações cada vez maior. Ouve-se às vezes dizer que o aumento excessivo dos meios audiovisuais nos países ricos nem sempre ajuda o desenvolvimento da inteligência, particularmente nas crianças; pelo contrário, às vezes contribui para lhes deter o desenvolvimento. A criança vive só de sensações, procura sensações sempre novas ... E torna-se assim, sem se dar conta, escrava desta paixão actual. Saciando-se de sensações, fica muitas vezes intelectualmente passiva; a inteligência não se abre à busca da verdade; a vontade fica presa ao hábito, a que não sabe opor-se. Disto resulta que o homem contemporâneo deve jejuar, isto é, abster-se não só do alimento ou das bebidas, mas de muitos outros meios de consumo, como de estimular e satisfazer os sentidos. Jejuar significa abster-se, renunciar a alguma coisa.
3. Porque renunciar a alguma coisa? Porque privarmo-nos dela? Já em parte respondemos a esta pergunta. Não será todavia completa a resposta, se não nos dermos conta de o homem ser ele próprio, também por conseguir privar-se dalguma coisa, capaz de dizer a si mesmo «não». O homem é ser composto de corpo e alma. Alguns escritores contemporâneos apresentam esta estrutura composta do homem sob a forma de estratos, e falam, como exemplo, de estratos exteriores na superfície da nossa personalidade, contrapondo-os aos estratos em profundidade. A nossa vida parece estar dividida nestes estratos e desenvolve-se através deles. Enquanto os estratos superficiais estão ligados à nossa sensualidade, os estratos profundos são expressão da espiritualidade do homem, isto é, da vontade consciente, da reflexão, da consciência e da capacidade de viver os valores superiores. Esta imagem da estrutura da personalidade humana pode servir para se compreender o significado do jejum para o homem. Não se trata aqui somente do significado religioso, mas dum significado que se exprime através da chamada «organização» do homem com sujeito-pessoa. O homem desenvolve-se regularmente, quando os estratos mais profundos da sua personalidade encontram suficiente expressão, quando o âmbito dos seus interesses e das suas aspirações não se limita só aos estratos exteriores e superficiais, ligados com a sensualidade humana. Para facilitar este desenvolvimento, devemos por vezes desapegar-nos conscientemente do que serve para satisfazer a sensualidade, quer dizer, daqueles estratos exteriores superficiais. Devemos portanto renunciar a tudo quanto os «alimenta».
Eis, em breves palavras, a interpretação do jejum dos dias de hoje. A renúncia às sensações, aos estímulos, aos prazeres e ainda ao alimento ou às bebidas, não é fim de si mesma. Deve apenas, por assim dizer, preparar o caminho para conteúdos mais profundos, de que «se alimenta» o homem interior. Tal renúncia, tal mortificação deve servir para criar no homem as condições para poder viver os valores superiores, de que ele está, a seu modo, «faminto». Eis o significado «pleno» do jejum na linguagem de hoje. Todavia, quando lemos os autores cristãos da antiguidade ou os Padres da Igreja, encontramos neles a mesma verdade, muitas vezes expressa com linguagem tão «actual» que nos surpreende. Diz, por exemplo, São Pedro Crisólogo: «O jejum é paz do corpo, força dos espíritos e vigor das almas» (São Pedro Crisólogo, Sermo VII: de ieiunio 3), e ainda: «O jejum é o leme da vida humana e governa todo o navio do nosso corpo» (São Pedro Crisólogo, Sermo VII: de ieiunio 1). E Santo Ambrósio responde assim às possíveis objecções contra o jejum: «A carne, pela sua condição mortal, tem algumas concupiscências suas próprias: a respeito delas foi-te concedido o direito de as enfrear. A tua carne está-te sujeita (...): Não sigas as solicitações ilícitas, mas refreia-as algum tanto, mesmo no que diz respeito às coisas lícitas. De facto, quem não se abstém de nenhuma das coisas lícitas, está também perto das ilícitas» (Santo Ambrósio, Sermo de utilitate ieiunii III. V. VII). Até escritores, que não pertencem ao cristianismo, declaram a mesma verdade. Esta é de alcance universal. Faz parte da sabedoria universal da vida.
4. É-nos agora certamente mais fácil compreender porque unem Cristo Senhor e a Igreja o apelo ao jejum com a penitência, isto é, com a conversão. Para nos convertermos a Deus, é necessário descobrirmos em nós mesmos aquilo que nos torna sensíveis a quanto pertence a Deus, portanto: os conteúdos espirituais, os valores superiores, que falam à nossa inteligência, à nossa consciência e ao nosso «coração» (segundo a linguagem bíblica). Para nos abrirmos a estes conteúdos espirituais e a estes valores, é preciso desapegarmo-nos de tudo quanto serve apenas ao consumismo, à satisfação dos sentidos. Na abertura da nossa personalidade humana para Deus, o jejum entendido quer no modo «tradicional» quer no «actual» — deve acompanhar ao mesmo passo a oração porque esta dirige-nos directamente para Ele. Por outro lado, o jejum, isto é a mortificação dos sentidos e o domínio do corpo conferem à oração maior eficácia que o homem descobre em si mesmo. Descobre, de facto, que é «diverso», que é mais «senhor de si mesmo» e que se tornou interiormente livre. E disso se dá conta pois a conversão e o encontro com Deus, por meio da oração, frutificam nele. Destas nossas reflexões de hoje resulta claro que o jejum não é só o «resíduo» duma prática religiosa dos séculos passados, mas é também indispensável ao homem de hoje, aos cristãos do nosso tempo. É necessário reflectir profundamente sobre este tema, precisamente durante o período da Quaresma.
Fonte: Vatican.va

A ORAÇÃO É O CAMINHO DO VERBO QUE TUDO ABRAÇA

JOÃO PAULO II AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 14 de Março de 1979
A oração é o caminho do Verbo que tudo abraça
1. Durante a Quaresma muitas vezes chegam aos nossos ouvidos as palavras «oração, jejum e esmola», que já tive de recordar na Quarta-feira de Cinzas. Estamos habituados a pensar nelas como em obras piedosas e boas, que todo o cristão deve realizar sobretudo neste período. Tal modo de pensar é exacto, mas não completo. A oração, a esmola e o jejum precisam de mais profunda compreensão, se queremos inserir estes actos mais profundamente na nossa vida, e não considerá-los simplesmente como práticas passageiras, que só exigem de nós algo de momentâneo, ou só momentaneamente nos privam dalguma coisa. Com este modo de pensar não chegamos ainda ao verdadeiro sentido e à verdadeira força que a oração, o jejum e a esmola têm no processo da conversão a Deus e da nossa maturação espiritual: uma anda ao mesmo passo que a outra. Chegamos à maturidade espiritual convertendo-nos a Deus, e a conversão realiza-se por meio do jejum e da esmola, devidamente entendidos. Convém talvez dizer já que não se trata aqui só de «práticas» momentâneas, mas de atitudes constantes, que imprimem na nossa conversão a Deus, forma duradoira. A Quaresma, como tempo litúrgico, dura só 40 dias ao ano: mas para Deus devemos tender sempre; isto significa que é preciso convertermo-nos continuamente. A Quaresma deve deixar marca forte e indelével na nossa vida. Há-de renovar em nós a consciência da nossa união com Jesus Cristo, que nos faz ver a necessidade da conversão e nos indica os caminhos para a realizarmos. A oração, o jejum e a esmola são precisamente os caminhos que nos foram indicados por Cristo. Nas meditações que irão seguir-se, procuraremos entrever quão profundamente penetram estes caminhos no homem: o que para ele significam. O cristão deve compreender o verdadeiro sentido destes caminhos, se os quer seguir.
O Caminho da Oração
2. Primeiro, portanto, o caminho da oração. Digo «primeiro», porque desejo falar deste antes dos outros. Mas, ao dizer «primeiro», quero hoje acrescentar que, na obra total da nossa conversão — isto é, da nossa maturação espiritual — a oração não está isolada dos outros dois caminhos que a Igreja define com o termo evangélico «jejum e esmola». Talvez o caminho da oração nos seja mais familiar. Talvez compreendamos com mais facilidade que sem ela não é possível convertermo-nos a Deus, permanecermos em união com ele naquela comunhão que nos leva à maturação espiritual. Não duvido que entre vós, que agora me ouvis, muitíssimos haja que tenham experiência própria de oração, que tenham conhecimento dos vários aspectos dela e possam torná-los conhecidos também às outras pessoas. De facto, aprendemos a orar, orando. O Senhor Jesus ensinou-nos a orar, primeiro que tudo orando ele próprio: ... e passou a noite em oração (Lc. 4, 23. 2); outro dia, como escreve São Mateus, subiu ao monte, sozinho, para orar. E, chegada a noite, ainda Ele estava só lá em cima (Mt. 14, 23). Antes da sua Paixão e Morte, foi ao monte das Oliveiras e animou os Apóstolos a que orassem; Ele mesmo, ajoelhando-se, pôs-se a orar. Invadido pela angústia, orava mais intensamente (Cfr. Lc. 22, 39-46). Só uma vez — rogado pelos discípulos Senhor, ensina-nos a orar (Lc. 11, 1). — lhes comunicou o mais simples e mais profundo conteúdo de oração: o «Pai nosso».
Quando oramos, somos discípulos de Cristo
Sendo impossível resumir num breve discurso tudo o que se pode dizer ou foi escrito sobre o assunto da oração, queria eu hoje realçar uma coisa apenas. Nós todos, quando oramos, somos discípulos de Cristo, não porque repetimos as palavras que Ele uma vez nos ensinou — palavras sublimes, conteúdo completo da oração. Somos discípulos de Cristo, mesmo quando não usamos essas palavras. Somos seus discípulos já, só porque ora-mos: «Escuta o Mestre que ora; aprende tu a orar. Para isto, de facto, orou Ele, para nos ensinar a orar», afirma Santo Agostinho (Sto. Agostinho, Enarrationes in Ps., 56, 5) E um autor contemporâneo escreve: «Uma vez que o termo do caminho da oração se perde em Deus, e ninguém conhece o caminho senão Aquele que vem de Deus, Jesus Cristo — é necessário (...) fixarmos os olhos n'Ele só. É o caminho, a verdade e a vida. Só Ele percorreu o caminho nas duas direcções. É preciso meter-mos a nossa mão na sua e partirmos» (Y. Raguin, Chemins de la contemplation, Desclée de Brouwer, 1969, pág. 179). Orar significa falar com Deus. Atrever-me-ia a dizer mais: orar significa encontrarmo-nos naquele Único eterno Verbo, por meio de quem fala o Pai, Verbo que fala ao Pai. Este Verbo fez-se carne, para nos ser mais fácil encontrarmo-nos n'Ele, mesmo com a nossa palavra humana de oração. Pode esta palavra às vezes ser muito imperfeita, poderá até mesmo faltar-nos de todo. Mas a incapacidade das nossas palavras humanas completa-se continuamente no Verbo que se fez carne para falar ao Pai com a plenitude daquela união mística que forma com Ele cada homem que ora; que todos quantos oram, formam com Ele. Nesta particular união com o Verbo está a grandeza da oração, a sua dignidade, e em certo modo, a sua definição.
É preciso sobretudo compreender bem a grandeza fundamental e a dignidade da oração. Oração de cada homem. E ainda de toda a Igreja orante. A Igreja, em certo modo, chega tão longe como a oração: até onde haja um homem que ore.
Grandeza, dignidade e definição da oração
3. É preciso orarmos baseando-nos neste conceito essencial da oração. Quando os discípulos pediram ao Senhor Jesus «ensina-nos a orar», Ele respondeu pronunciando as palavras da oração Pai nosso, criando assim um modelo concreto e ao mesmo tempo universal. De facto, tudo quanto se pode e deve dizer ao Pai, está incluído naqueles sete pedidos, que todos sabemos de cor. Há neles tal simplicidade, que até uma criança os aprende, e simultaneamente tal profundidade, que se pode consumar uma vida inteira a meditar o sentido de cada um. Não é porventura assim? Não nos fala cada um deles, um após outro, do que é essencial para a nossa existência, voltada completamente para Deus, para o Pai? Não nos fala do «pão de cada dia», do «perdão das nossas ofensas assim como nós as perdoamos», e juntamente de «não cairmos em tentação» e de «ficarmos livres do mal»? Quando Cristo, satisfazendo o pedido dos discípulos «ensina-nos a orar», pronuncia as palavras da sua oração, ensina não só as palavras, mas ensina também que no nosso colóquio com o Pai deve haver sinceridade total e plena abertura. A oração deve abraçar tudo o que faz parte da nossa vida. Não pode ser alguma coisa de suplementar ou marginal. Tudo deve encontrar nela a própria voz. Mesmo tudo o que nos pesa; aquilo de que nos envergonhamos; aquilo que por sua natureza nos separa de Deus. Exactamente, sobretudo isto. É a oração que sempre, em primeiro lugar e essencialmente, abate a barreira entre nós e Deus, barreira que o pecado e o mal podem ter levantado. Por meio da oração, toda a gente deve encontrar a sua referência justa: quer dizer, a referência a Deus: o meu mundo interior e também o mundo objectivo, aquele em que vivemos e tal como o conhecemos. Se nos voltamos para Deus, tudo em nós se dirige para Ele. A oração é exactamente a expressão de nos dirigirmos para Deus; isto é, ao mesmo tempo, a nossa contínua conversão: o nosso caminho.
Diz a Sagrada Escritura: Assim como a chuva e a neve / descem do céu e já não voltam lá / sem terem regado / e fecundado a terra, / e sem a terem feito germinar / dando o grão ao semeador / e o pão para comer; / o mesmo sucede com a palavra / que sai da minha boca: / não volta a mim sem produzir o seu efeito, / sem executar a minha vontade / e ter cumprido a missão que lhe dei (Is. 55, 10-11. 3). A oração é o caminho do Verbo que tudo abraça. Caminho do Verbo eterno que atravessa a profundidade de tantos corações; que reconduz ao Pai tudo quanto n'Ele tem a sua origem. A oração é o sacrifício dos nossos lábios (Cfr. Heb. 13, 15). É, como escreve Santo Inácio de Antioquia, «água viva que murmura dentro de nós e diz: vem para o Pai» (Cfr. Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos, VII, 2).
Com a minha Bênção Apostólica.
Fonte: Vatican.va

REENCONTRA-SE NA VERDADE E NA LIBERDADE INTERIOR

JOÃO PAULO II AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 1979
Penitência e reencontro da verdade interior
1. Encontramo-nos hoje no primeiro dia da Quaresma, Quarta-feira de Cinzas. Neste dia, iniciando o período de quarenta dias de preparação para a Páscoa, a Igreja impõe-nos as cinzas sobre a nossa cabeça e convida-nos à penitência. A palavra «penitência» aparece em muitas páginas da Sagrada Escritura, ressoa na boca de muitos Profetas e, por fim, de modo particularmente eloquente, na boca do próprio Jesus Cristo: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus (Mt. 3, 2. 2). Pode dizer-se que Cristo introduziu a tradição do jejum de quarenta dias no ano litúrgico da Igreja, porque Ele próprio jejuou durante quarenta dias e quarenta noites (Mt. 4, 2) antes de começar a ensinar. Com este jejum de quarenta dias, a Igreja é, em certo sentido, chamada todos os anos a seguir o seu Mestre e Senhor, se quer pregar eficazmente o seu Evangelho. O primeiro dia da Quaresma — precisamente hoje — deve testemunhar de modo particular que a Igreja aceita este chamamento de Cristo e deseja responder-lhe. 2. Penitência, em sentido evangélico significa sobretudo «conversão». Sob este aspecto é muito significativo o trecho do Evangelho de Quarta-feira de Cinzas. Jesus fala do cumprimento dos actos de penitência, conhecidos e praticados pelos seus contemporâneos, pelo povo da Antiga Aliança. Ao mesmo tempo, porém, submete a crítica o modo puramente «exterior» do cumprimento destes actos: esmola, jejum e oração, porque este modo é contrário à finalidade própria dos mesmos actos. Fim dos actos de penitência é o mais profundo voltarmo-nos para o próprio Deus, para nos podermos encontrar com Ele no íntimo do nosso ser humano, no segredo do coração. Quando, pois deres esmola, não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas ... a fim de serem louvados pelos homens ...; que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e teu Pai, que vê o oculto, premiar-te-á. Quando orardes, não sejais como os hipócritas ... para serem vistos pelos homens ..., mas ... entra no teu quarto, e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, recompensar-te-á. E, quando jejuardes, não mostreis um ar sombrio, como os hipócritas ..., (mas) ... perfuma a cabeça e lava o rosto, para que o teu jejum não seja conhecido pelos homens, mas de teu Pai, que está presente no oculto; e teu Pai, que vê no oculto, recompensar-te-á (Mt. 6, 2-6). Por conseguinte, o primeiro e principal significado da penitência é interior, espiritual. O principal esforço da penitência consiste «em entrar em si mesmo», no mais profundo do próprio ser, entrar nesta dimensão da própria humanidade em que, em certo sentido, nos espera Deus. O homem «exterior» deve — diria — ceder, em cada um de nós, ao homem «interior» e, em certo sentido, «deixar-lhe o lugar». Na vida corrente, o homem não vive bastante «interiormente». Jesus Cristo indica de modo claro que também os actos de devoção e de penitência (como o jejum, a esmola e a oração), que pela sua finalidade religiosa são principalmente «interiores», podem ceder ao «exteriorismo» corrente, e portanto podem ser falsificados. Pelo contrário, a penitência, como conversão a Deus, requer sobretudo que o homem rejeite as aparências, saiba libertar-se da falsidade e reencontrar-se em toda a sua verdade interior. Mesmo um olhar rápido e sumário, sobre o divino fulgor da verdade interior do homem é já um bom êxito. É necessário, porém, consolidar este bom êxito mediante um trabalho sistemático sobre nós mesmos. Este trabalho é chamado «ascese» (assim já o haviam denominado os Gregos dos tempos das origens do cristianismo). Ascese quer dizer esforço interior para não nos deixarmos raptar nem impelir pelas diversas correntes «exteriores», de modo a mantermo-nos sempre nós mesmos e a conservarmos a dignidade da própria humanidade. Mas o Senhor Jesus chama-nos a fazer ainda alguma coisa mais. Quando diz «entra no teu quarto e fecha a porta», indica um esforço ascético do espírito humano, que não deve terminar no próprio homem. Aquele fechar-se é, ao mesmo tempo, a mais profunda abertura do coração humano. É indispensável para nos encontrarmos com o Pai, e por isso deve ser empreendido. «O teu Pai, que vê o oculto, recompensar-te-á». Aqui trata-se de readquirir a simplicidade do pensamento, da vontade e do coração, que é indispensável para nos encontrarmos no próprio «eu» interior com Deus. E Deus espera isto, para se aproximar do homem interiormente recolhido e ao mesmo tempo aberto à Sua palavra e ao Seu amor! Deus deseja comunicar-se à alma assim disposta. Deseja dar-lhe a verdade e o amor, que têm n'Ele a verdadeira fonte. 3. Assim, a corrente principal da Quaresma deve passar pelo homem interior, pelos corações e pelas consciências. É nisto que consiste o esforço essencial da penitência. Neste esforço, a vontade humana de nos convertermos a Deus é investida pela graça preveniente de conversão e, ao mesmo tempo, de perdão e de libertação espiritual. A penitência não é só um esforço, um peso, mas também uma alegria. Por vezes é uma grande alegria do espírito humano, alegria que outras fontes não podem suscitar. Parece que o homem contemporâneo perdeu, em certa medida, o gosto desta alegria. Perdeu, além disso, o profundo sentido daquele esforço espiritual que permite encontrarmo-nos a nós mesmos em toda a verdade do próprio íntimo. Para isto concorrem muitas causas e circunstâncias que é difícil analisar nos limites desta conversação. A nossa civilização — sobretudo no ocidente —, intimamente ligada ao progresso da ciência e da técnica, entrevê a necessidade do esforço intelectual e físico; mas perdeu notavelmente o sentido do esforço do espírito, cujo fruto é o homem visto nas suas dimensões interiores. No fim de contas o homem que vive nas correntes desta civilização muito frequentemente perde a própria dimensão; perde o sentido interior da própria humanidade. A este homem torna-se estranho quer o esforço que conduz ao fruto há pouco mencionado, quer a alegria que dele provém: - a grande alegria do reencontro e do encontro,
- a alegria da Conversão (metánoia),
- a alegria da Penitência. A severa liturgia da Quarta-feira de Cinzas e, em seguida, todo o período da Quaresma é — como preparação para a Páscoa — um chamamento sistemático a esta alegria: à alegria que frutifica do esforço por nos reencontrarmos a nós mesmos em paciência: Pela vossa constância é que salvareis as vossas almas (Lc. 21, 19).
Ninguém tenha medo de entregar-se a este esforço.
Fonte: Vatican.va

O JEJUM CONFERE UNIDADE DE CORPO E ALMA À PESSOA

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA BENTO XVI PARA A QUARESMA DE 2009
"Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome" (Mt 4, 1-2)
Queridos irmãos e irmãs!
No início da Quaresma, que constitui um caminho de treino espiritual mais intenso, a Liturgia propõe-nos três práticas penitenciais muito queridas à tradição bíblica e cristã – a oração, a esmola, o jejum – a fim de nos predispormos para celebrar melhor a Páscoa e deste modo fazer experiência do poder de Deus que, como ouviremos na Vigília pascal, «derrota o mal, lava as culpas, restitui a inocência aos pecadores, a alegria aos aflitos. Dissipa o ódio, domina a insensibilidade dos poderosos, promove a concórdia e a paz» (Hino pascal). Na habitual Mensagem quaresmal, gostaria de reflectir este ano em particular sobre o valor e o sentido do jejum. De facto a Quaresma traz à mente os quarenta dias de jejum vividos pelo Senhor no deserto antes de empreender a sua missão pública. Lemos no Evangelho: «O Espírito conduziu Jesus ao deserto a fim de ser tentado pelo demónio. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome» (Mt 4, 1-2). Como Moisés antes de receber as Tábuas da Lei (cf. Êx 34, 28), como Elias antes de encontrar o Senhor no monte Oreb (cf. 1 Rs 19, 8), assim Jesus rezando e jejuando se preparou para a sua missão, cujo início foi um duro confronto com o tentador. Podemos perguntar que valor e que sentido tem para nós, cristãos, privar-nos de algo que seria em si bom e útil para o nosso sustento. As Sagradas Escrituras e toda a tradição cristã ensinam que o jejum é de grande ajuda para evitar o pecado e tudo o que a ele induz. Por isto, na história da salvação é frequente o convite a jejuar. Já nas primeiras páginas da Sagrada Escritura o Senhor comanda que o homem se abstenha de comer o fruto proibido: «Podes comer o fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás» (Gn 2, 16-17). Comentando a ordem divina, São Basílio observa que «o jejum foi ordenado no Paraíso», e «o primeiro mandamento neste sentido foi dado a Adão». Portanto, ele conclui: «O “não comas” e, portanto, a lei do jejum e da abstinência» (cf. Sermo de jejunio: PG 31, 163, 98). Dado que todos estamos estorpecidos pelo pecado e pelas suas consequências, o jejum é-nos oferecido como um meio para restabelecer a amizade com o Senhor. Assim fez Esdras antes da viagem de regresso do exílio à Terra Prometida, convidando o povo reunido a jejuar «para nos humilhar – diz – diante do nosso Deus» (8, 21). O Omnipotente ouviu a sua prece e garantiu os seus favores e a sua protecção. O mesmo fizeram os habitantes de Ninive que, sensíveis ao apelo de Jonas ao arrependimento, proclamaram, como testemunho da sua sinceridade, um jejum dizendo: «Quem sabe se Deus não Se arrependerá, e acalmará o ardor da Sua ira, de modo que não pereçamos?» (3, 9). Também então Deus viu as suas obras e os poupou. No Novo Testamento, Jesus ressalta a razão profunda do jejum, condenando a atitude dos fariseus, os quais observaram escrupulosamente as prescrições impostas pela lei, mas o seu coração estava distante de Deus. O verdadeiro jejum, repete também noutras partes o Mestre divino, é antes cumprir a vontade do Pai celeste, o qual «vê no oculto, recompensar-te-á» (Mt 6, 18). Ele próprio dá o exemplo respondendo a satanás, no final dos 40 dias transcorridos no deserto, que «nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4). O verdadeiro jejum finaliza-se portanto a comer o «verdadeiro alimento», que é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34). Portanto, se Adão desobedeceu ao mandamento do Senhor «de não comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal», com o jejum o crente deseja submeter-se humildemente a Deus, confiando na sua bondade e misericórdia. Encontramos a prática do jejum muito presente na primeira comunidade cristã (cf. Act 13, 3; 14, 22; 27, 21; 2 Cor 6, 5). Também os Padres da Igreja falam da força do jejum, capaz de impedir o pecado, de reprimir os desejos do «velho Adão», e de abrir no coração do crente o caminho para Deus. O jejum é também uma prática frequente e recomendada pelos santos de todas as épocas. Escreve São Pedro Crisólogo: «O jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum, portanto quem reza jejue. Quem jejua tenha misericórdia. Quem, ao pedir, deseja ser atendido, atenda quem a ele se dirige. Quem quer encontrar aberto em seu benefício o coração de Deus não feche o seu a quem o suplica» (Sermo 43; PL 52, 320.332). Nos nossos dias, a prática do jejum parece ter perdido um pouco do seu valor espiritual e ter adquirido antes, numa cultura marcada pela busca da satisfação material, o valor de uma medida terapêutica para a cura do próprio corpo. Jejuar sem dúvida é bom para o bem-estar, mas para os crentes é em primeiro lugar uma «terapia» para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus. Na Constituição apostólica Paenitemini de 1966, o Servo de Deus Paulo VI reconhecia a necessidade de colocar o jejum no contexto da chamada de cada cristão a «não viver mais para si mesmo, mas para aquele que o amou e se entregou a si por ele, e... também a viver pelos irmãos» (Cf. Cap. I). A Quaresma poderia ser uma ocasião oportuna para retomar as normas contidas na citada Constituição apostólica, valorizando o significado autêntico e perene desta antiga prática penitencial, que pode ajudar-nos a mortificar o nosso egoísmo e a abrir o coração ao amor de Deus e do próximo, primeiro e máximo mandamento da nova Lei e compêndio de todo o Evangelho (cf. Mt 22, 34-40). A prática fiel do jejum contribui ainda para conferir unidade à pessoa, corpo e alma, ajudando-a a evitar o pecado e a crescer na intimidade com o Senhor. Santo Agostinho, que conhecia bem as próprias inclinações negativas e as definia «nó complicado e emaranhado» (Confissões, II, 10.18), no seu tratado A utilidade do jejum, escrevia: «Certamente é um suplício que me inflijo, mas para que Ele me perdoe; castigo-me por mim mesmo para que Ele me ajude, para aprazer aos seus olhos, para alcançar o agrado da sua doçura» (Sermo 400, 3, 3: PL 40, 708). Privar-se do sustento material que alimenta o corpo facilita uma ulterior disposição para ouvir Cristo e para se alimentar da sua palavra de salvação. Com o jejum e com a oração permitimos que Ele venha saciar a fome mais profunda que vivemos no nosso íntimo: a fome e a sede de Deus. Ao mesmo tempo, o jejum ajuda-nos a tomar consciência da situação na qual vivem tantos irmãos nossos. Na sua Primeira Carta São João admoesta: «Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como estará nele o amor de Deus?» (3, 17). Jejuar voluntariamente ajuda-nos a cultivar o estilo do Bom Samaritano, que se inclina e socorre o irmão que sofre (cf. Enc. Deus caritas est, 15). Escolhendo livremente privar-nos de algo para ajudar os outros, mostramos concretamente que o próximo em dificuldade não nos é indiferente. Precisamente para manter viva esta atitude de acolhimento e de atenção para com os irmãos, encorajo as paróquias e todas as outras comunidades a intensificar na Quaresma a prática do jejum pessoal e comunitário, cultivando de igual modo a escuta da Palavra de Deus, a oração e a esmola. Foi este, desde o início o estilo da comunidade cristã, na qual eram feitas colectas especiais (cf. 2 Cor 8-9; Rm 15, 25-27), e os irmãos eram convidados a dar aos pobres quanto, graças ao jejum, tinham poupado (cf. Didascalia Ap., V, 20, 18). Também hoje esta prática deve ser redescoberta e encorajada, sobretudo durante o tempo litúrgico quaresmal. De quanto disse sobressai com grande clareza que o jejum representa uma prática ascética importante, uma arma espiritual para lutar contra qualquer eventual apego desordenado a nós mesmos. Privar-se voluntariamente do prazer dos alimentos e de outros bens materiais, ajuda o discípulo de Cristo a controlar os apetites da natureza fragilizada pela culpa da origem, cujos efeitos negativos atingem toda a personalidade humana. Exorta oportunamente um antigo hino litúrgico quaresmal: «Utamur ergo parcius, / verbis, cibis et potibus, / somno, iocis et arcitius / perstemus in custodia – Usemos de modo mais sóbrio palavras, alimentos, bebidas, sono e jogos, e permaneçamos mais atentamente vigilantes». Queridos irmãos e irmãos, considerando bem, o jejum tem como sua finalidade última ajudar cada um de nós, como escrevia o Servo de Deus Papa João Paulo II, a fazer dom total de si a Deus (cf. Enc. Veritatis splendor, 21). A Quaresma seja portanto valorizada em cada família e em cada comunidade cristã para afastar tudo o que distrai o espírito e para intensificar o que alimenta a alma abrindo-a ao amor de Deus e do próximo. Penso em particular num maior compromisso na oração, na lectio divina, no recurso ao Sacramento da Reconciliação e na participação activa na Eucaristia, sobretudo na Santa Missa dominical. Com esta disposição interior entremos no clima penitencial da Quaresma. Acompanhe-nos a Bem-Aventurada Virgem Maria, Causa nostrae laetitiae, e ampare-nos no esforço de libertar o nosso coração da escravidão do pecado para o tornar cada vez mais «tabernáculo vivo de Deus». Com estes votos, ao garantir a minha oração para que cada crente e comunidade eclesial percorra um proveitoso itinerário quaresmal, concedo de coração a todos a Bênção Apostólica.
Vaticano, 11 de Dezembro de 2008.
Fonte: Vatican.va
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