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Papa Bento XVI: Discurso sobre monoteísmo, Doutrina social e o status da teologia hoje


DISCURSO DO PAPA BENTO XVI 

À PONTIFÍCIA COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL

Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Venerados Irmãos no Episcopado
Ilustres Professores e Professoras
Estimados Colaboradores



Senhor Cardeal
É uma grande alegria para mim, poder receber-vos no encerramento da Sessão Plenária anual da Comissão Teológica Internacional. Gostaria de manifestar, antes de tudo, um sentido agradecimento pelas palavras que o Senhor Cardeal William Levada, como Presidente da Comissão, quis dirigir-me em nome de todos vós.

Este ano, os trabalhos desta Sessão coincidiram com a primeira semana de Advento, ocasião que nos faz recordar como cada teólogo é chamado a tornar-se homem do Advento, expectativa vigilante, que ilumina os caminhos da inteligência da Palavra que se fez carne. Podemos dizer que o conhecimento do Deus verdadeiro tende para aquela «hora» que nos é desconhecida, e dela se alimenta constantemente, na qual o Senhor há-de voltar. Portanto, manter acordada a vigilância e vivificar a esperança da expectativa não são uma tarefa secundária para um pensamento teológico recto, que encontra a sua razão na Pessoa d’Aquele que vem ao nosso encontro e ilumina o nosso conhecimento da salvação.

Hoje, é-me grato meditar brevemente convosco sobre três temas que a Comissão Teológica Internacional está a estudar nos últimos anos. O primeiro, como foi dito, diz respeito à questão fundamental para cada reflexão teológica: a questão de Deus e, em particular, a compreensão do monoteísmo. A partir deste vasto horizonte doutrinal, aprofundastes também um tema de carácter eclesial: o significado da Doutrina social da Igreja, dedicando depois especial atenção a uma temática que actualmente é de grande actualidade para o pensar teológico sobre Deus: a questão do próprio status da teologia hoje, nas suas perspectivas, nos seus princípios e critérios.

A questão de Deus e a compreensão do monoteísmo

Por detrás da profissão da fé cristã no único Deus encontra-se a profissão de fé quotidiana do povo de Israel: «Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor» (Dt 6, 4). O cumprimento inaudito da livre disposição do amor de Deus para com todos os homens realizou-se na encarnação do Filho em Jesus Cristo. Em tal Revelação da intimidade de Deus e da profundidade do seu vínculo de amor com o homem, o monoteísmo do único Deus iluminou-se com uma luz completamente nova: a luz trinitária. E no mistério trinitário ilumina-se inclusive a fraternidade entre os homens. A teologia cristã, juntamente com a vida dos fiéis, deve restituir a evidência feliz e cristalina ao impacto da Revelação trinitária sobre a nossa comunidade. Não obstante os conflitos étnicos e religiosos no mundo tornem mais difícil aceitar a singularidade do pensar cristão de Deus e do humanismo que é por ele inspirado, os homens podem reconhecer no Nome de Jesus Cristo a verdade de Deus Pai, em relação à qual o Espírito Santo suscita todos os gemidos da criatura (cf. Rm 8). Em fecundo diálogo com a filosofia, a teologia pode ajudar os fiéis a tomar consciência e a testemunhar que o monoteísmo trinitário nos mostra a verdadeira Face de Deus, e este monoteísmo não é fonte de violência, mas força de paz pessoal e universal.

O ponto de partida de cada teologia cristã é o acolhimento desta Revelação divina: o acolhimento pessoal do Verbo que se fez carne, a escuta da Palavra de Deus na Escritura. A partir desta base, a teologia ajuda a inteligência crente da fé e a sua transmissão. No entanto, toda a história da Igreja demonstra que o reconhecimento do ponto de partida não é suficiente para alcançar a unidade na fé. Toda a leitura da Bíblia nos coloca, necessariamente, num dado contexto de leitura, e o único contexto em que o crente pode estar em plena comunhão com Cristo é a Igreja e a sua Tradição viva. Temos que viver sempre de novo a experiência dos primeiros discípulos, que «perseveravam na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fracção do pão e nas orações» (Act 2, 42). Nesta perspectiva, a Comissão estudou os princípios e os critérios segundo os quais uma teologia pode ser católica, e meditou também sobre a contribuição actual da teologia. É importante recordar que a teologia católica, sempre atenta ao vínculo entre fé e razão, desempenhou um papel histórico no nascimento da Universidade. Uma teologia verdadeiramente católica, com os dois movimentos,«intellectus quaerens fidem et fides quaerens intellectum», é hoje necessária como nunca, para tornar possível uma sinfonia das ciências e para evitar as derivas violentas de uma religiosidade que se opõe à razão, e de uma razão que se opõe à religião.

O significado da Doutrina social da Igreja

Além disso, a Comissão Teológica estuda a relação entre a Doutrina Social da Igreja e o conjunto da Doutrina cristã. O compromisso social da Igreja não é somente algo de humano, nem se resolve numa teoria social. A transformação da sociedade, realizada pelos cristãos ao longo dos séculos, constitui uma resposta à vinda do Filho de Deus ao mundo: o esplendor de tal Verdade e Caridade ilumina todas as culturas e sociedades. São João afirma: «Nisto temos conhecido o amor: no facto de que Ele (Jesus) deu a sua vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos» (1 Jo 3, 16). Os discípulos de Cristo Redentor sabem que sem a atenção ao próximo, o perdão e o amor também pelos inimigos, nenhuma comunidade humana pode viver em paz; e isto começa na primeira e fundamental sociedade, que é a família. Na colaboração necessária a favor do bem comum, inclusive com quantos não compartilham a nossa fé, temos que tornar presentes os verdadeiros e profundos motivos religiosos do nosso compromisso social, assim como esperamos que os outros nos manifestem as suas motivações, a fim de que a colaboração se realize com clareza. Quem tiver compreendido os fundamentos do agir social cristão, poderá então encontrar nos mesmos também um estímulo para ter em consideração a própria fé em Jesus Cristo.

A questão do próprio status da teologia hoje

Caros amigos, o nosso encontro confirma de modo significativo quanto a Igreja precisa da reflexão competente e fiel dos teólogos a respeito do mistério do Deus de Jesus Cristo e da sua Igreja. Sem uma reflexão teológica sadia e vigorosa, a Igreja correria o risco de não expressar plenamente a harmonia entre fé e razão. Ao mesmo tempo, sem a vivência fiel da comunhão com a Igreja e a adesão ao seu Magistério, como espaço vital da própria existência, a teologia não conseguiria explicar de modo adequado a razão do dom da fé.

Transmitindo, por vosso intermédio, os bons votos e o encorajamento a todos os irmãos e irmãs teólogos, espalhados pelos vários contextos eclesiais, invoco sobre vós a intercessão de Maria, Mulher do Advento e Mãe do Verbo encarnado, que é para nós, no seu gesto de conservar a Palavra no próprio coração, paradigma da recta teologia, o modelo sublime do verdadeiro conhecimento do Filho de Deus. Ela, Estrela da Esperança, oriente e salvaguarde o trabalho precioso que levais a cabo em prol e em nome da Igreja. É com estes sentimentos de gratidão que vos renovo a minha Bênção Apostólica. Obrigado!

© Copyright 2011 - Libreria Editrice Vaticana

QUAL É A RELAÇÃO QUE EXISTE ENTRE A VERDADE E A PRÁTICA DA CARIDADE?


Empenho social e Doutrina Social


de Mons. Giampaolo Crepaldi

ROMA, sábado, 12 de novembro, 2011 (ZENIT.org) - Gostaria de chamar a atenção sobre um aspecto muito importante do conhecimento e da utilização da Doutrina Social da Igreja e sobre o envolvimento social e político dos católicos. Refiro-me à falta de consciência da dimensão social dos princípios da doutrina cristã. Eu acho que muitos católicos seriamente engajados na sua comunidade sejam certamente capazes de dizer por que a Doutrina Social da Igreja considere mais importante a pessoa do funcionário do que o produto do trabalho, mas talvez não sejam tão capazes de dizer por que o dogma da Trindade seja de fundamental importância também para a construção da cidade terrena, bem como da celestial.

O nosso observatório já falou sobre estas questões, que consideramos fundamentais. Por exemplo, no passado nós escrevemos sobre a importância dos documentos da Congregação para a Doutrina da Fé, a fim de um uso correto da Doutrina Social da Igreja. Eu mesmo falei com uma nota publicada seja no nosso site que está no "Boletim da Doutrina Social da Igreja", sobre "A doutrina social da Igreja no contexto da Doutrina Cristã". Dentro dos Relatórios Anuais sobre a Doutrina Social da Igreja no Mundo, publicados pelo nosso Observatório, a análise do Magistério de Bento XVI centra-se sempre sobre estas questões doutrinárias, considerando-as fundamentais para definir corretamente a questão social. Seria uma grave amputação da Doutrina Social da Igreja esquecer esses fundamentos dogmáticos e projetar-se diretamente nas assim chamadas "coisas para fazer". No entanto, talvez, justamente é isso que ocorre, mesmo em escolas e sessões de formação na Doutrina Social da Igreja.

Esta atenção para os aspectos dogmáticos e doutrinários e as suas consequências sociais, é também muito importante no discernimento com relação às outras religiões. Se estes são colocados de lado e negligenciados, então acaba que também o católico acredita que todas as religiões sejam igualmente capazes de levar a humanização, a justiça, a paz, o respeito pela pessoa e de estabelecer uma vida social saudável. Se acreditar em um Deus que é três pessoas é o mesmo que acreditar em um Deus que não o é, então não faz diferença para a construção da sociedade ser um cristão ou ser de outra religião monoteísta.

Como exemplo, gostaria de trazer aqui o caso do dogma da Trindade, ou seja, no fato de que a Igreja Católica crê num Deus que é apenas uma substância em três pessoas e do monoteísmo, ou seja, na crença em um só Deus.

Se seguirmos o pensamento de Joseph Ratzinger, observamos que a Trindade nos diz que originária não é só a unidade, mas também a multiplicidade; que uma pessoa como unidade única não existe porque está sempre dirigida a; que existe, além da substância, o plano da relação, que deve ser considerado um verdadeiro e próprio plano do ser. Da mesma forma como a pessoa é feita à imagem de Deus, também a pessoa vive junto desta unidade e multiplicidade, originariamente e contemporaneamente. Este aspecto dogmático e doutrinal da fé cristã nos diz portanto que não acontece que nós primeiro sejamos aquilo que sejamos e depois nos relacionamos com os outros comunitariamente. A realidade é que o nosso ser individual é por si mesmo aberto à comunhão, é já uma relação dentro de si mesmo e com os outros. 

Agora, pensemos na sociedade e nos perguntemos: a sociabilidade relacional entre as pessoas se reforça mais por meio de uma semelhante religião ou por meio de uma religião na qual Deus é só unidade e não multiplicidade? Eu diria que a resposta é bastante evidente. Uma sociedade tem maiores possibilidades de que seja coesa e unida partindo daquela concepção religiosa, mais do que da outra. Um Deus que seja também Trinitário não é menos Uno, mas sim é mais Uno, porque aqui se trata da unidade do Espírito, que é absolutamente mais profunda justamente porque tal. Dois esposos, ainda que distantes fisicamente entre eles, estão infinitamente mais unidos do que duas pedras juntas uma da outra. Na comunhão espiritual é possível unir-se ao outro sem renunciar de ser si mesmo, e mais, tornando-se maiormente si mesmo na medida que se une ao outro. Estas simples observações tomadas da nossa experiência quotidiana nos fazem compreender que um Deus em Três pessoas é mais Uno e fornece à sociedade um exemplo de íntima e profunda unidade relacional que a sociedade, nos seus níveis infinitamente inferiores, experimenta no matrimônio, na família, na comunhão de um grupo, de uma nação e na inteira comunidade universal vista como uma só família. O monoteísmo, em quanto tal, trouxe grandes benefícios à sociedade, mas nem todos os monoteístas são iguais. O monoteísmo trinitário é capaz de trazer benefícios ainda maiores.

Aqui não é o lugar para examinar outros dogmas da religião católica, basta um exemplo. A encarnação, a epifania, a morte na Cruz, a Ressurreição, Pentecostes, a Vida Eterna, o Juízo Final ... são aspectos dogmáticos e doutrinais que são de fundamental importância para a organização deste mundo e para a doutrina social da Igreja . Abrir um lugar para Deus no mundo, diz Bento XVI, requer evitar negligenciar este elo fundamental entre os aspectos dogmáticos e a construção da cidade terrena. Em outras palavras, não deve ser esquecido, mas estudado e aprofundado o primeiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja.

* Arcebispo de Trieste

CARITAS IN VERITATE NO DEBATE FILOSÓFICO-SOCIAL

Entrevista com o filósofo Rodrigo Guerra López
Por Jaime Septién
QUERÉTARO, quarta-feira, 22 de julho de 2009 (ZENIT.org-El Observador).- A encíclica social de Bento XVI, "Caritas in veritate" aborda o âmbito de saberes como a política, a economia ou as teorias sobre a globalização para entrar em cheio no debate filosófico-social contemporâneo, explica um filósofo.
Para aproximar-nos dessas intuições do novo documento pontifício Zenit e El Observador entrevista Rodrigo Guerra López, doutor em Filosofia pela Academia Internacional do Principado de Liechtenstein, membro da Academia Pontifícia para a Vida, e diretor do Centro de Pesquisa Social Avançada (www.cisav.org).
Entre seus livros destacam-se “Voltar à pessoa” (Volver a la persona - Madri 2002); “Católicos e políticos: uma identidade em tensão” (Católicos y políticos: una identidad en tensión - Bogotá 2005) e “Como um grande movimento” (Como un gran movimiento - México 2006). Recentemente publicou em co-autoria “Vida humana e aborto” (Vida humana y aborto - México 2009).
– Como se localiza a encíclica Caritas in Veritate no debate filosófico-social contemporâneo?
– Rodrigo Guerra: A nova encíclica do Papa não pretende competir com as análises que a partir da teoria social se realizam sobre a situação que guarda o desenvolvimento no contexto do mundo globalizado. Contudo, Caritas in Veritate ingressa à discussão desde seu próprio estatuto: a Doutrina Social da Igreja. Isto significa que a sabedoria prática nascida do encontro com Cristo permite emitir um juízo sobre as condições que possibilitam o desenvolvimento e sobre as disfunções que a atual globalização possui.
Ampliando um pouco os conceitos, poderíamos dizer que o Papa Bento XVI oferece uma “teoria crítica da sociedade”, ou seja, uma revisão de alguns dos mais importantes supostos que sustentam a atual configuração do mundo global. Agora, diferentemente de outras “teorias críticas”, Bento XVI não situa o núcleo da questão na capacidade que o ser humano possui para auto-redimir-se e auto-emancipar-se.
Ao contrário, uma dimensão constitutiva do critério de juízo utilizado pelo Papa é uma antropologia precisa na qual toda a consistência do “eu” se reconhece como dom, como presente, e portanto, como abertura relacional para o Fundamento, ou seja, para Deus, que sustenta e que liberta. Desta maneira, Bento XVI insistirá em que “o homem não se desenvolva unicamente com suas próprias forças” (n. 11) mas que requer ser ajudado a partir de um horizonte maior ao que pode ter acesso por si mesmo. Horizonte que dá Cristo, ou seja, o Acontecimento que nos precede.
– Que relação tem a encíclica Cáritas in Veritate com o resto do Magistério de Bento XVI?
– Rodrigo Guerra: Cáritas in Veritate se encontra sustentada precisamente no reconhecimento do cristianismo como “Acontecimento”, e por isso, possui uma ligação estrutural com Deus caritas est, Spe salvi e em geral com a já milenar tradição eclesial que reconhece a absoluta novidade da irrupção e permanência de Cristo na história. Desta forma, a nova encíclica faz contínua referência à importância que possui “ampliar o horizonte da razão” para que sem reducionismos possamos abrir-nos à verdade em geral e eventualmente à Verdade encarnada.
Desta maneira, Caritas in Veritate não é um documento secundário no ensino do Papa, ao contrário, completa o itinerário inaugurado no discurso de Ratisbona e que continuou em numerosas intervenções sobre a necessidade de estabelecer novas relações entre a razão e a fé. Este itinerário está muito longe de ser de ordem meramente teórica, ele possui uma grande novidade e pertinência existencial e social por fundamentar-se no caráter formativo que o cristianismo possui: o cristianismo é um fato que afeta a vida e que promove realmente seu desenvolvimento com dignidade. Por isso, o Papa valentemente assinala, no número quarto da encíclica, que “o anúncio de Cristo é o primeiro e principal fator de desenvolvimento”.
– A encíclica Caritas in Veritate aposta na reorientação da globalização para que esta sirva realmente ao desenvolvimento das pessoas e dos povos: isto é realmente possível?
– Rodrigo Guerra: A história recente demonstrou que não é possível pretender construir a ordem nacional e internacional a partir de premissas puramente instrumentais no âmbito do Estado e do mercado. A globalização, tal e como hoje está definida, devora seus próprios criadores.
Por isso, é racional e razoável pensar que a via para corrigir o rumo da globalização descansa na introdução de uma lógica diferente da baseada nas leis da oferta e da demanda. Este novo raciocínio tem como eixo de sustentação a gratidão, a responsabilidade social, a redistribuição equitativa da riqueza, a capacidade para criar novas formas de empresa.
Hoje, existem experiências importantes em matéria de comércio justo, micro-financiamentos, economia solidária e de comunhão que mostram que este caminho não só é possível, mas necessário. A globalização só modificará seu perfil através de pessoas concretas que sejam capazes de remodelá-la. Para isso é necessário um novo pensamento econômico e uma nova capacidade de incidência local, nacional e global.
– A autonomia da economia não é questionada com o pensamento de Bento XVI?
– Rodrigo Guerra: Justamente, as economias que estão fracassando hoje, resistem a admitir no seio de seu próprio âmbito, orientações de ordem moral. Este é um erro epistemológico importante: o objeto da economia possui a liberdade como uma dimensão constitutiva de sua própria natureza. Por isso, uma economia autenticamente humana e autenticamente autônoma não pode ser senão essencialmente ética. É absurdo que uma teoria do valor em economia prescinda da existência de valores morais!
Os diversos tipos de valor acontecem na experiência e podem ser reconhecidos pela razão prática, que é a razão que particularmente opera na atividade econômica. Por isso, Bento XVI recupera uma potente intuição de João Paulo II: toda decisão de investimento, de produção ou de consumo possui uma iniludível dimensão moral. O fato de subordinar ou cancelar esta dimensão, por um lado, atenta contra a dignidade da pessoa – que é a principal riqueza de uma empresa e de uma nação – e, por outro, contra a própria economia.
– Que importância tem o Estado e a ação política à luz da nova encíclica?
– Rodrigo Guerra: O Papa se encontra nitidamente preocupado com os temas que configuram o Estado como “Estado social”. Também adverte que uma diminuição irresponsável das competências do Estado pode conduzir a um enfraquecimento dos direitos dos trabalhadores. Este tipo de considerações nos mostram que a compreensão católica da política não se identifica unicamente com o Estado liberal nem com a mera presença de certas elites cristãs em espaços de poder.
A ação política tem que recuperar um sentido social que nunca deveria ter perdido. “Sentido social” não só significa “políticas sociais” mais profundas e solidárias, mas levar no coração uma decidida opção preferencial pelos pobres e excluídos. Por isso, a colaboração verdadeira na organização e gestão do bem comum é medida mais em termos de desenvolvimento que de triunfo eleitoral, mais em termos de serviço aos mais fracos que de ativismo.
– Quais são as causas profundas do subdesenvolvimento segundo o Papa Bento XVI?
– Rodrigo Guerra: O Papa, no número 19 de Caritas in Veritate, diz que as causas do subdesenvolvimento são fundamentalmente duas: a falta de fraternidade e a falta de pensamento. Por um lado “a sociedade cada vez mais globalizada nos faz mais próximos, mas não mais irmãos”. Enquanto não entendermos que a caridade, o perdão e a reconciliação são método para a ação política e econômica não conseguiremos avançar como pessoas e como sociedade. Desta forma, o Papa constata a ausência de autênticos pensadores capazes de gerar um novo humanismo social e político. Sem pensamento rigoroso, capaz de voltar às coisas de fato, a ação política e econômica se realiza sem sentido, sem direção, como puro ativismo que não transcende os interesses mesquinhos da busca do poder pelo poder.
– O Papa insiste na necessidade de uma nova autoridade mundial. Isto não é algo muito perigoso? Não poderíamos cair em um novo totalitarismo de escala planetária?
– Rodrigo Guerra: A Igreja é muito consciente dos riscos de uma nova ordem política, econômica e jurídica para o mundo globalizado. Contudo, não é possível dar governabilidade à globalização se não se construir bases para uma nova civilização, para uma nova Res publica mundial, que não deve ser um super-Estado totalitário, mas uma nova maneira de construir as relações internacionais a partir de uma “gramática da ação” – como dizia Wojtyla –, ou seja, a partir de um novo “Direito dos Povos” de base iuspersonalista.
– Quem está chamado a colocar em prática o ensinamento da encíclica Caritas in Veritate?
– Rodrigo Guerra: Caritas in Veritate está destinada a todos os católicos e a todos os homens de boa vontade. Contudo, como todo ensinamento corre um risco: o de reduzir seu conteúdo a indicações meramente formais ou abstratas. É fácil eludir a responsabilidade pessoal e institucional e pensar que o ensinamento do Papa é “mera inspiração” ou que está destinado “para outros”, mas não para “nós”.
Por isso, atrevo-me a assinalar algo que não me deixa de surpreender: os bispos latino-americanos no documento de "Aparecida" abordaram praticamente todos os temas nucleares da encíclica de modo providencialmente antecipado. Eles, seguindo o Papa, também reconheceram com grande força que o cristianismo é acontecimento, escola de discipulado e experiência de comunhão.
Em outras palavras, para que a encíclica possa ativar-se antes que um “plano estratégico” o que precisamos é recuperar o essencial do método cristão. Só assim, poderemos mostrar que a fé gera movimento, criatividade e compromisso solidário. Só assim voltaremos a exibir que o “sujeito” da Doutrina Social da Igreja existe e porque existe, atua.

UMA NOVA NÍNTESE ENTRE, MERCADO CAPITAL E TRABALHO

Cidade do Vaticano, 31 jan (RV) - Bento XVI recebeu em audiência esta manhã, na Sala Clementina, no Vaticano, os dirigentes da Confederação Italiana Sindical dos Trabalhadores – CISL – (sigla em italiano); uma das maiores organizações sindicais italianas, que celebra os seus 60 anos de fundação.
Em seu discurso aos presentes, o Santo Padre falou de uma "nova síntese" entre mercado, capital e trabalho, que não esqueça a solidariedade e a dignidade de quem trabalha e recorra de modo decisivo ao acordo entre as partes sociais, superando os particularismos. Essa, segundo o pontífice, é a oportunidade que a crise econômica mundial oferece à humanidade de hoje.
Mais de um século de estudos e de magistério social por parte da Igreja oferece os instrumentos para "ler" causas e saídas de uma crise econômica mundial que, se, por um lado, cria certamente alarme, por outro, pode ser aproveitada como trampolim para repensar os atuais mecanismos financeiros. Foi a primeira reflexão que Bento XVI ofereceu aos expoentes da CISL:
"O grande desafio e oportunidade que a preocupante crise econômica do momento convida a saber colher, é de encontrar uma nova síntese entre bem comum e mercado, entre capital e trabalho.
"O Santo Padre baseou a sua reflexão nos ensinamentos da Doutrina social da Igreja, os quais – recordou – desde o fim do Séc. XIX – com a célebre encíclica de Leão XIII, Rerum Novarum (1891), defenderam a "inalienável dignidade dos trabalhadores", e contribuíram para promover a visão cristã do trabalho.
Em tempos recentes, tanto a Centesimus Annus (1991), quanto a precedente Laborem Exercens (1981), de João Paulo II, desenvolveram esse magistério específico – prosseguiu o pontífice.
E a substância, afirmou Bento XVI citando a segunda das duas encíclicas do Papa Wojtyla, é que "a Igreja jamais deixou de considerar os problemas do trabalho dentro de uma questão social" que "condiciona" indivíduos e famílias e que requer que seja afrontada com a arma da solidariedade:
"Para superar a crise econômica e social que estamos vivendo, sabemos que é necessário um esforço livre e responsável por parte de todos; ou seja, é necessário superar os interesses de parte e de setor, de modo que possam afrontar juntos e unidos as dificuldades que atingem cada âmbito da sociedade, especialmente, o mundo do trabalho. Jamais como hoje se percebe uma tal urgência; as dificuldades que atingem o mundo do trabalho impelem a um efetivo e mais decidido concerto entre os múltiplos e diversos componentes da sociedade.
"Ademais, o "chamado à colaboração", antigo quanto a Bíblia – observou o pontífice – adquire um sentido particular nos momentos difíceis:
"Portanto, os votos são os de que da atual crise mundial nasça a vontade comum que dê vida a uma nova cultura da solidariedade e da participação responsável, condições indispensáveis para construir, juntos, o futuro do nosso planeta.
"Recordando que as mais recentes encíclicas sociais reconheceram "o papel e a importância estratégica dos sindicatos", Bento XVI concluiu dirigindo, à referida confederação sindical, a seguinte exortação:
"O mundo precisa de pessoas que se dediquem com interesse à causa do trabalho, no pleno respeito pela dignidade humana e pelo bem comum. A Igreja, que aprecia o papel fundamental dos sindicatos, se faz próxima a vocês, hoje como no passado, e está pronta a ajudá-los, a fim de que possam cumprir, da melhor forma possível, a sua tarefa na sociedade."
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