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Discurso de Bento XVI à Pontifícia Academia das Ciências Sociais

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede
(tradução de CN Notícias)

Queridos membros da Academia,

Apraz-me cumprimentar-vos no início de vossa XVI Sessão Plenária, que é dedicada a uma análise da crise econômica global à luz dos princípios éticos consagrados na Doutrina Social da Igreja. Agradeço a vossa presidenta, professora Mary Ann Glendon, por suas corteses palavras de saudação e ofereço-vos meus sinceros bons votos para a fecundidade de suas deliberações.

A quebra do sistema financeiro mundial, como sabemos, demonstrou a fragilidade do atual sistema econômico e das instituições a ele ligados. Isso também mostrou o erro do pressuposto de que o mercado é capaz de autorregular-se, para além da intervenção pública e o apoio de padrões morais internalizados. Tal suposição é baseada em uma noção empobrecida da vida econômica como uma espécie de mecanismo de auto-calibração conduzido por interesses próprios e fins lucrativos. Dessa forma, negligencia a natureza essencialmente ética da economia como uma atividade de e para os seres humanos. Mais que uma espiral de produção e consumo, em vista de necessidades humanas estritamente definidas, a vida econômica deve ser corretamente vista como um exercício de responsabilidade humana, intrinsecamente orientada para a promoção da dignidade da pessoa, a busca do bem comum e do desenvolvimento integral - político, cultural e espiritual - dos indivíduos, famílias e sociedades. Uma apreciação desta dimensão humana exige, por sua vez, precisamente o tipo de investigação interdisciplinar e reflexão com que a presente sessão da Academia se compromete.

Na minha Encíclica Caritas in Veritate, observei que "a crise atual obriga-nos a projetar de novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas e encontrar novas formas de compromisso" (n. 21). Replanejar o caminho, é claro, também significa olhar para os padrões compreensivos e objetivos que permitem avaliar as estruturas, instituições e decisões concretas que guiam e direcionam a vida econômica. A Igreja, baseada em sua fé em Deus o Criador, afirma a existência de uma lei universal natural que é a fonte última desses critérios (cf. Caritas in Veritate, 59). No entanto, ela também está convencido de que os princípios dessa ordem ética, inscrita na própria criação, são acessíveis à razão humana e, como tal, devem ser adotados como base para decisões práticas. Como parte do grande patrimônio da sabedoria humana, a lei moral natural, que a Igreja apropriou, purificada e desenvolvida à luz da revelação Cristã, serve como um farol guiando os esforços de indivíduos e comunidades para exercer o bem e evitar o mal, enquanto direcionam seus compromissos para construir autenticamente uma sociedade justa e humana.

Entre os princípios indispensáveis que moldam essa abordagem ética integral da vida econômica deve estar a promoção do bem comum, baseada no respeito pela dignidade da pessoa humana e reconhecê-la como o objetivo principal dos sistemas de produção e comércio, instituições políticas e bem-estar social. Em nossos dias, a preocupação com o bem comum tem assumido uma dimensão cada vez mais marcadamente global. Isso também tornou cada vez mais evidente que o bem comum envolve a responsabilidade perante as gerações futuras; a solidariedade intergeracional deve passar a ser reconhecida como um critério ético fundamental para julgar qualquer sistema social. Essas realidades apopntam para a urgência de reforçar os procedimentos de governança da economia global, embora com o devido respeito pelo princípio da subsidiariedade. No final, porém, todas as decisões econômicas e políticas devem ser orientadas para a "caridade na verdade", na medida em que a verdade preserva e canaliza o poder libertador da caridade em meio às sempre contingentes estruturas e acontecimentos humanos. Pois "sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a ação social fica à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade" (Caritas in Veritate, 5).

Com essas considerações, queridos amigos, novamente expresso minha confiança de que esta Sessão Plenária contribuirá para um discernimento mais profundo dos sérios desafios sociais e econômicos que enfrenta o nosso mundo e ajudará a apontar o caminho a seguir para enfrentar esses desafios em um espírito de sabedoria, justiça e autêntica humanidade. Garanto-vos mais uma vez as minhas orações por vosso importante trabalho, e sobre vós e seus entes queridos invoco cordialmente as Bênçãos divinas de alegria e paz.

FULTON J. SHEEN E O PROBLEMA DA LIBERDADE

Na esteira de Leo Trese, um amigo recomendou-me os livros do Arcebispo de Rochester (Nova York), Fulton J. Sheen (1895-1979). Famoso pelos seus programas de TV nos anos 50 e começo dos 60 (Life is Worth Living e The Fulton Sheen Program), Sheen foi também autor de 96 livros, quase todos apologéticos, além de artigos e colunas em jornais. Seus livros são facilmente encontráveis em sebos, inclusive alguns títulos em português e espanhol. Algumas prédicas também estão disponíveis aqui.

Encontrei O Problema da Liberdade, cujo título original é Freedom Under God. Publicado nos EUA em 1940, a tradução brasileira foi lançada em 1945 pela Editora Agir e contou com diversas edições. A que encontrei é a 5ª edição, de 1956.

O objetivo de Sheen é estabelecer a relação entre religião, liberdade e os sistemas políticos e econômicos modernos. Sheen condena ferozmente o comunismo e o nazismo, considendo-os ideologias semelhantes. Quanto ao liberalismo free market, Sheen também reserva críticas duras, mas para isso faz uso de velhos mitos socialistas como, por exemplo, a idéia de que sob o liberalismo econômico os pobres ficam mais pobres porque os ricos ficam mais ricos; no início da Revolução Industrial os trabalhadores foram vilmente explorados, salvos mais tarde por sindicatos e leis trabalhistas; os trabalhadores deveriam participar nos lucros das empresas, e negar-lhes isto representa grave exploração por parte do capital.

Esses mitos influenciam o raciocínio do autor de maneira tão profunda que, infelizmente, comprometem muitas de suas análises. É triste ver um homem consciente dos males do comunismo preso às próprias doutrinas comunistas quando tenta prescrever-lhes uma cura.

Quanto à estrutura geral do livro, a divisão é a seguinte: (1) Expulsão da religião do espaço público, (2) Falsas liberdades e verdadeira liberdade e (3) Aplicações da verdadeira liberdade na ordem econômica e política.
* * *
Sheen inicia sua digressão sobre a liberdade lembrando que é a religião quem dá ordem e virtude à sociedade. Baní-la do espaço público, reduzindo-a a práticas e doutrinas meramente privadas, acaba engendrando na sociedade um espírito arreligioso que, por fim, se transformará em um espírito anti-religioso. Se o homem deseja ser verdadeiramente livre, então precisará redescobrir o que Sheen chama de "os direitos de Deus e da religião sobre a ordem pública", provavelmente uma alusão à Era Cristã.

Expulsada a Igreja da praça pública, duas falsas liberdades vêm preencher o vácuo, (1) a liberdade de indiferença, na qual o indivíduo age e pensa como quiser, à exemplo do que ocorre no ceticismo, no relativismo e no liberalismo e (2) a liberdade de necessidade, na qual o indivíduo é obrigado a obedecer à autoridade, como no comunismo e no nazismo.

Porém, segundo Sheen, a verdadeira liberdade é fazer o que se deve fazer. E quem sabe o que devemos fazer é nosso Criador, que diz que devemos conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo. Em suma, o que teríamos de fazer para sermos verdadeiramente livres é desenvolver nossa personalidade a fim de sermos eternamente felizes com Deus, conhecendo-O, amando-O e servindo-O, e quem nos ensina o caminho das pedras de tal realização é o próprio Cristo, por meio de sua Igreja.

A partir desta premissa -- é Cristo, por meio da Igreja, quem ensina os homens como se organizarem política e economicamente de maneira agradável a Deus --, Sheen discorre sobre a liberdade e suas aplicações sociais, políticas e econômicas.

Assim como a base da  liberdade interna do homem é a alma, externamente essa base é a propriedade privada. Isso ocorre porque não somos apenas feitos de espírito, mas também de corpo. Esse corpo precisa expressar-se no mundo em algo que lhe seja próprio: a propriedade privada. No entanto, engana-se quem pensa que, por isso, a Igreja defende o liberalismo econômico e político. Na verdade, a Igreja defende o que Sheen chama de difusão da propriedade, de maneira que os trabalhadores tenham participação nos lucros das empresas a fim de que desfrutem uma verdade propriedade. Ora, Sheen falha aqui ao não perceber que o salário já é a participação nos lucros desejada.

Sheen ensina que o trabalho está relacionado a 3 entidades, estabelecendo com elas uma relação:
  1. Deus. O homem reconduz a natureza a Ele, por meio da razão e da vontade. Por causa dessa relação, a Igreja defende um salário vital, para que a alma do homem esteja livre para atingir o fim que foi criada.
  2. Homens. O trabalho intensifica a solidariedade entre os homens. Por isso a Igreja não acredita na luta de classes.
  3. Natureza. O trabalho coopera com a natureza. Eis por que a Igreja é contra o desemprego, já que ele afasta o homem da natureza e, por conseguinte, da civilização, já que aquela é base desta.
No entanto, tanto comunismo quanto capitalismo concordam que o trabalho não passa de mercadoria, esvaziando-o do componente humano descrito nos três itens acima. Segundo Sheen, a diferença entre capitalismo e comunismo é apenas quem deverá ficar com o os lucros: o capital ou o trabalho. A Igreja rejeita tal dicotomia, afirmando que ambos devem deter os lucros. Para isso, a Igreja deseja modificar o sistema salarial, introduzindo-lhe componentes sociais, e não apenas individuais, da seguinte forma: (1) O trabalhador deve participar nos lucros, (2) O trabalhador deve participar na administração da empresa, por meio de conselhos que reúnam empregadores e empregados e (3) O trabalhador deve participar na propriedade.
E como o Estado deve atuar para a realização de tais metas? O homem é um ser pessoal e social, isto é, ao mesmo tempo dependente e independente da sociedade. O Estado, portanto, deve buscar o equilíbrio, promovendo o bem comum, seja de brancos, pretos, trabalhadores, empregadores etc. É o Estado refletindo o lado social do homem. No entanto, em casos extremos, o bem comum deve ser sacrificado em favor dos pobres e necessitados. É o Estado refletindo o lado pessoal do homem.
Como o Estado e a sociedade devem estar organizados? Segundo Sheen, a democracia, estruturalmente falando, é um mal. Sua tendência é transformar-se na tirania da maioria. É a república, por meio dos representantes que governam pelo povo (e não o governo direto do povo, como na democracia) com sistemas de pesos e contrapesos, que representa um sistema mais equilibrado e justo. A maioria não é fonte de direitos, por isso não pode exercer direitos sobre a minoria. A origem dos direitos é Deus e, só depois, os homens. O que a constituição americana faz é reafirmar essa doutrina, e não propriamente estabelecê-la. A tal reafirmação da origem divina dos direitos por parte da constituição Sheen atribui a essência do que chama de americanismo. Assim, o Estado não deve anular esses direitos, mas apenas reafirmá-los. Eis por que a educação religiosa (católica, protestante e judaica) é tão importante: a religião e os direitos humanos andam de mãos dadas.
Sheen ensina que a Revolução Francesa bem que tentou eliminar a desigualdade, procurando eliminar a desigualdade política por meio da abolição de privilégios hierárquicos. Como eliminar as hierarquias mostrou-se ineficaz na tentativa de eliminar as desigualdades, passsou-se à apologia da eliminação das desigualdades econômicas. Foi a Revolução Comunista. Sheen afirma que todas essas tentativas foram e são necessariamente infrutíferas porque a única igualdade possível é a espiritual, já que (1) todos são iguais substancialmente (todos têm alma e corpo, todos têm o mesmo fim que é a união com Deus, todos foram redimidos por Jesus Cristo etc.) e (2) todos são desiguais acidentalmente (todos têm inteligência, talento, saúde, caráter, virtude, força física etc. desiguais). A sociedade cristã terá, portanto, categorias e hierarquias, cada qual com sua função, a exemplo dos órgãos do corpo humano. Nem todas as desigualdades são más.
Finalmente, Sheen conclui sua obra identificando dois tipos de liberdade:
  1. Liberdade de escolha, que se refere a bens particulares como saúde, poder, sucesso etc.
  2. Liberdade de perfeição, que se refere ao último bem, isto é, adquirir a Verdade para o intelecto, Amor para nossa vontade e Vida para nossa existência.
Assim, a liberdade de escolha deve ser o meio para o fim, qual seja, a liberdade de perfeição. O liberalismo perverte a liberdade de escolha, entronizando-a como fim em si mesma. O comunismo e o nazismo destroem tanto a liberdade de escolha quanto a liberdade de perfeição, transformando a perfeição num ditador e obrigando a todos a adorá-lo e segui-lo.
A Igreja rejeita todas essas ideologias porque elas rejeitam aquilo que Deus uniu: a escolha e a perfeição. Não somos nós, no fim das contas, que devemos trazer a perfeição à Terra, mas, sim, nós é que devemos ascender, com liberdade de escolha, à perfeição. Não é Deus que deve descer até nós; nós é que devemos nos elevar até Ele.

Fonte: http://theintellectuallife.blogspot.com/2005_12_01_archive.html

CARITAS IN VERITATE NO DEBATE FILOSÓFICO-SOCIAL

Entrevista com o filósofo Rodrigo Guerra López
Por Jaime Septién
QUERÉTARO, quarta-feira, 22 de julho de 2009 (ZENIT.org-El Observador).- A encíclica social de Bento XVI, "Caritas in veritate" aborda o âmbito de saberes como a política, a economia ou as teorias sobre a globalização para entrar em cheio no debate filosófico-social contemporâneo, explica um filósofo.
Para aproximar-nos dessas intuições do novo documento pontifício Zenit e El Observador entrevista Rodrigo Guerra López, doutor em Filosofia pela Academia Internacional do Principado de Liechtenstein, membro da Academia Pontifícia para a Vida, e diretor do Centro de Pesquisa Social Avançada (www.cisav.org).
Entre seus livros destacam-se “Voltar à pessoa” (Volver a la persona - Madri 2002); “Católicos e políticos: uma identidade em tensão” (Católicos y políticos: una identidad en tensión - Bogotá 2005) e “Como um grande movimento” (Como un gran movimiento - México 2006). Recentemente publicou em co-autoria “Vida humana e aborto” (Vida humana y aborto - México 2009).
– Como se localiza a encíclica Caritas in Veritate no debate filosófico-social contemporâneo?
– Rodrigo Guerra: A nova encíclica do Papa não pretende competir com as análises que a partir da teoria social se realizam sobre a situação que guarda o desenvolvimento no contexto do mundo globalizado. Contudo, Caritas in Veritate ingressa à discussão desde seu próprio estatuto: a Doutrina Social da Igreja. Isto significa que a sabedoria prática nascida do encontro com Cristo permite emitir um juízo sobre as condições que possibilitam o desenvolvimento e sobre as disfunções que a atual globalização possui.
Ampliando um pouco os conceitos, poderíamos dizer que o Papa Bento XVI oferece uma “teoria crítica da sociedade”, ou seja, uma revisão de alguns dos mais importantes supostos que sustentam a atual configuração do mundo global. Agora, diferentemente de outras “teorias críticas”, Bento XVI não situa o núcleo da questão na capacidade que o ser humano possui para auto-redimir-se e auto-emancipar-se.
Ao contrário, uma dimensão constitutiva do critério de juízo utilizado pelo Papa é uma antropologia precisa na qual toda a consistência do “eu” se reconhece como dom, como presente, e portanto, como abertura relacional para o Fundamento, ou seja, para Deus, que sustenta e que liberta. Desta maneira, Bento XVI insistirá em que “o homem não se desenvolva unicamente com suas próprias forças” (n. 11) mas que requer ser ajudado a partir de um horizonte maior ao que pode ter acesso por si mesmo. Horizonte que dá Cristo, ou seja, o Acontecimento que nos precede.
– Que relação tem a encíclica Cáritas in Veritate com o resto do Magistério de Bento XVI?
– Rodrigo Guerra: Cáritas in Veritate se encontra sustentada precisamente no reconhecimento do cristianismo como “Acontecimento”, e por isso, possui uma ligação estrutural com Deus caritas est, Spe salvi e em geral com a já milenar tradição eclesial que reconhece a absoluta novidade da irrupção e permanência de Cristo na história. Desta forma, a nova encíclica faz contínua referência à importância que possui “ampliar o horizonte da razão” para que sem reducionismos possamos abrir-nos à verdade em geral e eventualmente à Verdade encarnada.
Desta maneira, Caritas in Veritate não é um documento secundário no ensino do Papa, ao contrário, completa o itinerário inaugurado no discurso de Ratisbona e que continuou em numerosas intervenções sobre a necessidade de estabelecer novas relações entre a razão e a fé. Este itinerário está muito longe de ser de ordem meramente teórica, ele possui uma grande novidade e pertinência existencial e social por fundamentar-se no caráter formativo que o cristianismo possui: o cristianismo é um fato que afeta a vida e que promove realmente seu desenvolvimento com dignidade. Por isso, o Papa valentemente assinala, no número quarto da encíclica, que “o anúncio de Cristo é o primeiro e principal fator de desenvolvimento”.
– A encíclica Caritas in Veritate aposta na reorientação da globalização para que esta sirva realmente ao desenvolvimento das pessoas e dos povos: isto é realmente possível?
– Rodrigo Guerra: A história recente demonstrou que não é possível pretender construir a ordem nacional e internacional a partir de premissas puramente instrumentais no âmbito do Estado e do mercado. A globalização, tal e como hoje está definida, devora seus próprios criadores.
Por isso, é racional e razoável pensar que a via para corrigir o rumo da globalização descansa na introdução de uma lógica diferente da baseada nas leis da oferta e da demanda. Este novo raciocínio tem como eixo de sustentação a gratidão, a responsabilidade social, a redistribuição equitativa da riqueza, a capacidade para criar novas formas de empresa.
Hoje, existem experiências importantes em matéria de comércio justo, micro-financiamentos, economia solidária e de comunhão que mostram que este caminho não só é possível, mas necessário. A globalização só modificará seu perfil através de pessoas concretas que sejam capazes de remodelá-la. Para isso é necessário um novo pensamento econômico e uma nova capacidade de incidência local, nacional e global.
– A autonomia da economia não é questionada com o pensamento de Bento XVI?
– Rodrigo Guerra: Justamente, as economias que estão fracassando hoje, resistem a admitir no seio de seu próprio âmbito, orientações de ordem moral. Este é um erro epistemológico importante: o objeto da economia possui a liberdade como uma dimensão constitutiva de sua própria natureza. Por isso, uma economia autenticamente humana e autenticamente autônoma não pode ser senão essencialmente ética. É absurdo que uma teoria do valor em economia prescinda da existência de valores morais!
Os diversos tipos de valor acontecem na experiência e podem ser reconhecidos pela razão prática, que é a razão que particularmente opera na atividade econômica. Por isso, Bento XVI recupera uma potente intuição de João Paulo II: toda decisão de investimento, de produção ou de consumo possui uma iniludível dimensão moral. O fato de subordinar ou cancelar esta dimensão, por um lado, atenta contra a dignidade da pessoa – que é a principal riqueza de uma empresa e de uma nação – e, por outro, contra a própria economia.
– Que importância tem o Estado e a ação política à luz da nova encíclica?
– Rodrigo Guerra: O Papa se encontra nitidamente preocupado com os temas que configuram o Estado como “Estado social”. Também adverte que uma diminuição irresponsável das competências do Estado pode conduzir a um enfraquecimento dos direitos dos trabalhadores. Este tipo de considerações nos mostram que a compreensão católica da política não se identifica unicamente com o Estado liberal nem com a mera presença de certas elites cristãs em espaços de poder.
A ação política tem que recuperar um sentido social que nunca deveria ter perdido. “Sentido social” não só significa “políticas sociais” mais profundas e solidárias, mas levar no coração uma decidida opção preferencial pelos pobres e excluídos. Por isso, a colaboração verdadeira na organização e gestão do bem comum é medida mais em termos de desenvolvimento que de triunfo eleitoral, mais em termos de serviço aos mais fracos que de ativismo.
Quais são as causas profundas do subdesenvolvimento segundo o Papa Bento XVI?
– Rodrigo Guerra: O Papa, no número 19 de Caritas in Veritate, diz que as causas do subdesenvolvimento são fundamentalmente duas: a falta de fraternidade e a falta de pensamento. Por um lado “a sociedade cada vez mais globalizada nos faz mais próximos, mas não mais irmãos”. Enquanto não entendermos que a caridade, o perdão e a reconciliação são método para a ação política e econômica não conseguiremos avançar como pessoas e como sociedade. Desta forma, o Papa constata a ausência de autênticos pensadores capazes de gerar um novo humanismo social e político. Sem pensamento rigoroso, capaz de voltar às coisas de fato, a ação política e econômica se realiza sem sentido, sem direção, como puro ativismo que não transcende os interesses mesquinhos da busca do poder pelo poder.
– O Papa insiste na necessidade de uma nova autoridade mundial. Isto não é algo muito perigoso? Não poderíamos cair em um novo totalitarismo de escala planetária?
– Rodrigo Guerra: A Igreja é muito consciente dos riscos de uma nova ordem política, econômica e jurídica para o mundo globalizado. Contudo, não é possível dar governabilidade à globalização se não se construir bases para uma nova civilização, para uma nova Res publica mundial, que não deve ser um super-Estado totalitário, mas uma nova maneira de construir as relações internacionais a partir de uma “gramática da ação” – como dizia Wojtyla –, ou seja, a partir de um novo “Direito dos Povos” de base iuspersonalista.
– Quem está chamado a colocar em prática o ensinamento da encíclica Caritas in Veritate?
– Rodrigo Guerra: Caritas in Veritate está destinada a todos os católicos e a todos os homens de boa vontade. Contudo, como todo ensinamento corre um risco: o de reduzir seu conteúdo a indicações meramente formais ou abstratas. É fácil eludir a responsabilidade pessoal e institucional e pensar que o ensinamento do Papa é “mera inspiração” ou que está destinado “para outros”, mas não para “nós”.
Por isso, atrevo-me a assinalar algo que não me deixa de surpreender: os bispos latino-americanos no documento de "Aparecida" abordaram praticamente todos os temas nucleares da encíclica de modo providencialmente antecipado. Eles, seguindo o Papa, também reconheceram com grande força que o cristianismo é acontecimento, escola de discipulado e experiência de comunhão.
Em outras palavras, para que a encíclica possa ativar-se antes que um “plano estratégico” o que precisamos é recuperar o essencial do método cristão. Só assim, poderemos mostrar que a fé gera movimento, criatividade e compromisso solidário. Só assim voltaremos a exibir que o “sujeito” da Doutrina Social da Igreja existe e porque existe, atua.

CRISE DO JORNALISMO: SUBSTITUIR VERDADE POR LUCRO

Um comunicador analisa a situação à luz de uma mensagem do Papa
Por Carmen Elena
ROMA, segunda-feira, 27 de abril de 2009 (ZENIT.org).- Nos últimos meses, «na imprensa, a notícia é precisamente a crise da imprensa», considera o professor Diego Contreras, decano da faculdade de comunicação social da Pontifícia Universidade da Santa Cruz em Roma. O docente apresentou sua palestra «O jornalismo online: repensar a indústria da mídia ou repensar a profissão?», durante o congresso «Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade», que se realizou em 23 de abril na Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. Neste evento acadêmico, jornalistas e teóricos da comunicação se reuniram para analisar a mensagem do Papa Bento XVI durante as XLIII Jornada Mundial das Comunicações Sociais, que foi publicada em 23 de janeiro passado e cujo tema central foi o das novas formas de comunicação entre os pertencentes à chamada «geração digital», os nascidos nesta nova era da comunicação.
A crise do jornalismo na era digital
Contreras assegurou que a primeira crise que a internet traz ao jornalismo é a econômica, devido à ausência cada vez mais notória de avisos publicitários nos meios impressos. «Nas últimas décadas, não se buscou um modelo empresarial específico, mas se tratou a informação como qualquer produto de consumo», assegurou. «Também muitas empresas jornalísticas estão cotadas na bolsa e pretendem maximizar os lucros, buscam a qualquer custo a rentabilidade a curto prazo», assinalou o professor. A segunda crise, disse, está «determinada pela influência da internet», que não só modificou a informação jornalística, «mas todos os conteúdos de mídia». Assinalou como os novos meios de comunicação mudaram os hábitos de consumo de informação das novas gerações: «O público entre os 18 e 34 anos se informa através de canais alternativos à imprensa tradicional, como as redes sociais, os blogs, os sites portais ‘agregadores’ de informação.» A imprensa reagiu a este desafio criando edições digitais. Contudo, a maneira de financiá-las é um tema ainda não resolvido, reconheceu o docente. «Por enquanto, a versão tradicional dos jornais continua produzindo uma utilidade dez vezes superior à da visão digital – assinalou o professor Contreras. Contudo, enquanto os ingressos da mídia tradicional decrescem, os dos meios digitais não crescem com a mesma rapidez.»
Substituir verdade por lucro
Outra crise, precedente à aparição da internet, é a da identidade da profissão jornalística e que em muitos casos «substituiu a verdade com os lucros, a equanimidade com os interesses partidistas, a razão com o servilismo». Reconheceu que a revolução digital agrega a esta crise um novo dado: «os cidadãos comuns hoje têm mais poder que nunca para produzir e distribuir informações». Parece, constatou, que as pessoas «já não têm necessidade da imprensa como antes, porque estão disponíveis muitos outros canais de informação». Para enfrentar esta situação, muitos jornais abriram canais de participação ao público, recuperando a expressão de «jornalismo cívico». «Este intento é fruto de boas intenções, mas às vezes parece só uma operação de marketing dirigida a aumentar o número de visitadores do site do jornal», assegurou o docente. Assim, o jornalismo de hoje enfrentou o de ontem com novos pontos de comparação: «o analógico (a edição impressa) contra o digital; o gratuito contra o serviço pago, o profissional contra o cívico». Assinalou como no antigo modelo de jornalismo, «a informação era escassa, custosa, institucional, orientada ao consumo». Também «a distribuição era unidirecional e era pouca a participação do público». Enquanto agora «a informação é abundante, gratuita ou barata, pessoal, participativa, a distribuição vai de muitos a muitos e o público se converteu em um usuário ativo». Por isso, assegurou que é «imprescindível encontrar uma saída econômica sustentável para as empresas que fazem jornalismo. Mas também as redações deverão sofrer uma re-estruturação profunda». Contreras concluiu sua intervenção dizendo que é possível que as empresas editoriais encontrem novas maneiras de sustentar-se e de adaptar-se aos novos desafios, mas esclareceu que «a sociedade não tem necessidade de um determinado tipo de jornal, mas de uma informação profissional e confiável sobre os eventos que merecem ser conhecidos quando ajudem a viver e a melhorar a sociedade na qual vivemos». «Mudarão e estarão mudando costumes, formas, suportes e linguagens, mas a razão de ser do jornalismo continuará sendo a mesma», assinalou.

BENTO XVI DENUNCIA COBIÇA COMO RAIZ DA CRISE ATUAL

Neste tratado sobre "conflito entre vícios e virtudes", Autperto contrapõe à cupiditas (a avidez) o contemptus mundi (o desprezo do mundo), que se torna uma figura importante na espiritualidade dos monges. Este desprezo do mundo não é um desprezo da criação, da beleza e da bondade da criação e do Criador, mas um desprezo da falsa visão do mundo que nos foi apresentada e insinuada precisamente pela avidez. Ela incute em nós que "ter" seria o máximo valor do nosso ser, do nosso viver no mundo aparentando ser importantes. Deste modo falsifica a criação do mundo e destrói o mundo. Autperto observa depois que a avidez de lucro dos ricos e dos poderosos na sociedade do seu tempo existe também no interior das almas dos monges e portanto escreve um tratado intitulado De cupiditate, no qual, com o apóstolo Paulo, denuncia desde o início a avidez como raiz de todos os males. Escreve: "Do solo da terra diversos espinhos agudos surgem de várias raízes; no coração do homem, ao contrário, as picadas de todos os vícios provêm de uma só raiz, a avidez" (De cupiditate 1: CCCM 27b, p. 963). Realce, este, que à luz da actual crise económica mundial, revela toda a sua actualidade. Vemos precisamente que esta crise nasceu desta raiz da avidez. Ambrósio imagina a objecção que os ricos e os poderosos poderiam aduzir dizendo: mas nós não somos monges, para nós certas exigências ascéticas não são válidas. E ele responde: "É verdade o que dizeis, mas também para vós, na maneira da vossa categoria e segundo a medida das vossas forças, é válido o caminho rípido e estreito, porque o Senhor propôs só duas portas e dois caminhos (ou seja, a porta estreita e a larga, o caminho rípido e o cómodo); não indicou uma terceira porta e um terceiro caminho" (L.C., p. 978). Ele vê claramente que os modos de viver são muito diversos. Mas também para o homem neste mundo, inclusive para o rico, é válido o dever de combater contra a avidez, contra a vontade de possuir, sobressair, contra o conceito falso de liberdade como faculdade de dispor de tudo segundo o próprio arbítrio. Também o rico deve encontrar o caminho autêntico da verdade, do amor e assim da via recta. Portanto, Autperto, como prudente pastor de almas, sabe depois dizer, no final da sua pregação penitencial, uma palavra de conforto: "Não falei contra os ávidos, mas contra a avidez, não contra a natureza, mas contra o vício" (L.C., p. 981).
PAPA BENTO XVI AUDIÊNCIA GERAL Praça de São Pedro
Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

UMA NOVA NÍNTESE ENTRE, MERCADO CAPITAL E TRABALHO

Cidade do Vaticano, 31 jan (RV) - Bento XVI recebeu em audiência esta manhã, na Sala Clementina, no Vaticano, os dirigentes da Confederação Italiana Sindical dos Trabalhadores – CISL – (sigla em italiano); uma das maiores organizações sindicais italianas, que celebra os seus 60 anos de fundação.
Em seu discurso aos presentes, o Santo Padre falou de uma "nova síntese" entre mercado, capital e trabalho, que não esqueça a solidariedade e a dignidade de quem trabalha e recorra de modo decisivo ao acordo entre as partes sociais, superando os particularismos. Essa, segundo o pontífice, é a oportunidade que a crise econômica mundial oferece à humanidade de hoje.
Mais de um século de estudos e de magistério social por parte da Igreja oferece os instrumentos para "ler" causas e saídas de uma crise econômica mundial que, se, por um lado, cria certamente alarme, por outro, pode ser aproveitada como trampolim para repensar os atuais mecanismos financeiros. Foi a primeira reflexão que Bento XVI ofereceu aos expoentes da CISL:
"O grande desafio e oportunidade que a preocupante crise econômica do momento convida a saber colher, é de encontrar uma nova síntese entre bem comum e mercado, entre capital e trabalho.
"O Santo Padre baseou a sua reflexão nos ensinamentos da Doutrina social da Igreja, os quais – recordou – desde o fim do Séc. XIX – com a célebre encíclica de Leão XIII, Rerum Novarum (1891), defenderam a "inalienável dignidade dos trabalhadores", e contribuíram para promover a visão cristã do trabalho.
Em tempos recentes, tanto a Centesimus Annus (1991), quanto a precedente Laborem Exercens (1981), de João Paulo II, desenvolveram esse magistério específico – prosseguiu o pontífice.
E a substância, afirmou Bento XVI citando a segunda das duas encíclicas do Papa Wojtyla, é que "a Igreja jamais deixou de considerar os problemas do trabalho dentro de uma questão social" que "condiciona" indivíduos e famílias e que requer que seja afrontada com a arma da solidariedade:
"Para superar a crise econômica e social que estamos vivendo, sabemos que é necessário um esforço livre e responsável por parte de todos; ou seja, é necessário superar os interesses de parte e de setor, de modo que possam afrontar juntos e unidos as dificuldades que atingem cada âmbito da sociedade, especialmente, o mundo do trabalho. Jamais como hoje se percebe uma tal urgência; as dificuldades que atingem o mundo do trabalho impelem a um efetivo e mais decidido concerto entre os múltiplos e diversos componentes da sociedade.
"Ademais, o "chamado à colaboração", antigo quanto a Bíblia – observou o pontífice – adquire um sentido particular nos momentos difíceis:
"Portanto, os votos são os de que da atual crise mundial nasça a vontade comum que dê vida a uma nova cultura da solidariedade e da participação responsável, condições indispensáveis para construir, juntos, o futuro do nosso planeta.
"Recordando que as mais recentes encíclicas sociais reconheceram "o papel e a importância estratégica dos sindicatos", Bento XVI concluiu dirigindo, à referida confederação sindical, a seguinte exortação:
"O mundo precisa de pessoas que se dediquem com interesse à causa do trabalho, no pleno respeito pela dignidade humana e pelo bem comum. A Igreja, que aprecia o papel fundamental dos sindicatos, se faz próxima a vocês, hoje como no passado, e está pronta a ajudá-los, a fim de que possam cumprir, da melhor forma possível, a sua tarefa na sociedade."
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