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O CRISTIANISMO NÃO É UM MORALISMO... A ÉTICA É CONSEQUÊNCIA DO SER

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O cristianismo não é um moralismo, não somos nós que temos de realizar aquilo que Deus espera do mundo, mas em primeiro lugar temos que entrar neste mistério ontológico: Deus entrega-se a si mesmo. O seu ser, o seu amar precede o nosso agir e, no contexto do seu Corpo, no âmbito do estar com Ele, identificados com Ele, enobrecidos com o seu Sangue, também nós podemos agir com Cristo.
A ética é consequência do ser: primeiro, o Senhor confere-nos um novo ser, esta é a grande dádiva; o ser precede o agir e a partir dele segue-se, depois, o agir, como uma realidade orgânica, porque o que somos, podemos sê-lo também na nossa actividade. E deste modo damos graças ao Senhor porque nos tirou do puro moralismo; não podemos obedecer a uma lei que está diante de nós, mas simplesmente temos que agir em conformidade com a nossa nova identidade. Por conseguinte, não é mais uma obediência, algo exterior, mas sim uma realização do dom do novo ser.
"Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei". Não existe amor maior do que este: "Dar a vida pelos próprios amigos". Que significa? Também aqui, não se trata de um moralismo. Poder-se-ia dizer: "Não é um novo mandamento; o mandamento de amar o próximo como a nós mesmos já existe no Antigo Testamento". Alguns afirmam: "Este amor deve ser ainda mais radicalizado; este amar o outro deve imitar Cristo, que se entregou por nós; deve ser um amar heróico, até ao dom de si mesmo". Porém, neste caso o cristianismo seria um moralismo heróico. É verdade que temos de chegar até a esta radicalidade do amor, que Cristo nos manifestou e concedeu, mas também aqui a verdadeira novidade não é aquilo que nós levamos a cabo, a verdadeira novidade é o que Ele realizou: o Senhor entregou-se a si mesmo, o Senhor conferiu-nos a verdadeira novidade de sermos seus membros no seu corpo, de sermos ramos da videira, que é Ele. Por conseguinte, a novidade é a dádiva, o dom grandioso, e é do dom, da novidade do dom que provém inclusive, como eu disse, o novo agir.
S. Tomás de Aquino di-lo de maneira muito específica, quando escreve: "A nova lei é a graça do Espírito Santo" (Summa theologiae, i-iiae, q. 106, a. 1). A nova lei não é outro mandamento, mais difícil do que os demais: a nova lei é um dom, a nova lei é a presença do Espírito Santo que nos foi concedido no Sacramento do Baptismo, na Crisma, e que nos é oferecido cada dia na Santíssima Eucaristia. Aqui, os Padres distinguiram entre "sacramentum" e "exemplum". "Sacramentum" é o dom do novo ser, e este dom torna-se também exemplo para o nosso agir, mas o "sacramentum" vem antes, e nós vivemos a partir do sacramento. Aqui vemos a centralidade do sacramento, que é centralidade da dádiva.
O Senhor diz: "Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi do Pai vo-lo dei a conhecer a vós". Já não sois servos, que obedecem ao mandamento, mas amigos que conhecem, que estão unidos na mesma vontade, no mesmo amor. Portanto, a novidade é que Deus se fez conhecer, que Deus se manifestou, que Deus não é mais o Deus desconhecido, procurado mas não encontrado, ou apenas adivinhado à distância. Deus fez-se ver: vemos Deus no rosto de Cristo, Deus fez-se "conhecido", e deste modo tornou-nos amigos. Pensemos na história da humanidade, em todas as religiões arcaicas, as pessoas sabem que existe um Deus. Este é um conhecimento imerso no coração do homem, que Deus é um só, e os deuses não são "o" Deus. Mas este Deus permanece muito distante, parece que não se deixa conhecer, não se deixa amar, não é amigo, mas está distante. Por este motivo, as religiões ocupam-se pouco deste Deus, a vida concreta ocupa-se dos espíritos, das realidades concretas que encontramos todos os dias, e as quais temos que avaliar diariamente. Deus permanece distante.
Em seguida, vemos o grande movimento da filosofia: pensemos em Platão, Aristóteles, que começam a intuir como este Deus é o agathón, a própria bondade, é o eros que move o mundo, e todavia este permanece um pensamento humano, constitui uma ideia de Deus que se aproxima da verdade, mas é uma ideia nossa e Deus permanece o Deus escondido.
Há pouco tempo, escreveu-me um professor de Regensburg, um docente de física, que tinha lido com grande atraso o meu discurso na Universidade de Regensburg, para me dizer que não podia estar de acordo com a minha lógica, ou só podia parcialmente. Ele disse: "Sem dúvida, convence-me a ideia de que a estrutura racional do mundo exige uma razão criadora, a qual realizou esta racionalidade que não se explica por si mesma". Depois, continuava: "Mas se pode existir um demiurgo assim se exprime um demiurgo parece-me garantido a partir daquilo que o senhor diz, mas não me parece que exista um Deus amor, bom, justo e misericordioso. Posso ver que existe uma razão, que precede a racionalidade do cosmos, mas não o restante". E assim Deus permanece-lhe escondido. Trata-se de uma razão que precede as nossas razões, a nossa racionalidade, a racionalidade do ser, mas não existe um amor eterno, não há a grande misericórdia que nos permite viver.
E eis que, em Cristo, Deus se manifestou na sua verdade total, mostrou que é razão e amor, que a razão eterna é amor e assim cria. Infelizmente, também hoje muitos vivem distantes de Cristo, não conhecem o seu rosto e deste modo a eterna tentação do dualismo, que se esconde também na missiva deste professor, renova-se sempre, ou seja, que talvez não haja unicamente um princípio bom, mas também um princípio perverso, um princípio do mal; que o mundo está dividido, e são duas realidades igualmente fortes: e que o Deus bom é apenas uma parte da realidade. Também na teologia, compreendida a católica, difunde-se actualmente esta tese: Deus não seria omnipotente. Deste modo procura-se uma apologia de Deus, que assim não seria responsável pelo mal que encontramos amplamente no mundo. Mas que pobre apologia! Um Deus não omnipotente! O mal não está nas suas mãos! E como é que poderíamos confiar-nos a este Deus? Como poderíamos ter a certeza do seu amor, se este amor termina onde começa o poder do mal?
Mas Deus já não é desconhecido: no rosto de Cristo Crucificado vemos Deus, e vemos a verdadeira omnipotência, não o mito da omnipotência. Para nós homens, a potência, o poder é sempre idêntico à capacidade de destruir, de cometer o mal. Todavia, o verdadeiro conceito de omnipotência que se manifesta em Cristo é precisamente o contrário: nele, a verdadeira omnipotência consiste em amar até ao ponto em que Deus pode sofrer: aqui aparece a sua verdadeira omnipotência, que pode chegar ao ponto de um amor que sofre por nós. E desde modo vemos que Ele é o Deus verdadeiro, e o Deus verdadeiro que é amor, poder: o poder do amor. E nós podemos confiar-nos ao seu amor todo-poderoso e viver nele, com este amor omnipotente.
Penso que temos de meditar novamente sobre esta realidade, dar graças a Deus porque Ele se manifestou, porque lhe conhecemos o rosto, face à face; não é mais como Moisés, que só podia ver o Senhor de costas. Também esta é uma bonita ideia, da qual São Gregório de Nissa diz: "Ver só as costas quer dizer que temos de caminhar sempre atrás de Cristo". Mas ao mesmo tempo, através de Cristo, Deus mostrou a sua face, o seu rosto. O véu do templo rasgou-se, abriu-se, o mistério de Deus é visível. O primeiro mandamento que exclui imagens de Deus, porque elas só poderiam diminuir a realidade, mudou, renovou-se, adquiriu uma outra forma. Agora, no homem Cristo, podemos ver o rosto de Deus; podemos ver o ícone de Cristo e assim ver quem é Deus.
Penso que quem compreendeu isto, quem se deixou sensibilizar por este mistério, que Deus se revelou, rasgou o véu do templo e mostrou o seu rosto, encontra uma fonte de alegria permanente. Só podemos dizer: "Obrigado! Sim, agora sabemos quem és Tu, quem é Deus e como Lhe devemos responder". E penso que esta alegria de conhecer Deus que se mostrou, que se manifestou até ao íntimo do seu ser, implica inclusive a alegria do comunicar: quem compreendeu isto, vive sensibilizado por esta realidade, deve fazer como fizeram os primeiros discípulos, que vão ter com os seus amigos e irmãos, dizendo: "Encontrámos aquele de quem falam os Profetas. Agora, Ele está presente". A missionariedade não é algo exteriormente acrescentado à fé, mas constitui o dinamismo da própria fé. Quem viu, quem encontrou Jesus, deve ir ter com os próprios amigos e dizer-lhes: "Nós encontrámo-lo, é Jesus, o Crucificado por nós".

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PAPA BENTO XVI
Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010
Visita ao Pontifício Seminário Romano maior, na festa de Nossa Senhora da Confiança

SEXO NA MÍDIA ESTMULA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER, DIZ PESQUISA

Um estudo divulgado nesta sexta-feira afirma que a exposição de crianças e adolescentes a conteúdo sexual na mídia vem reforçando a ideia da mulher como objeto de desejo e alvo de violência doméstica.
O relatório Sexualização dos Jovens, da psicóloga Linda Papadopoulos, encomendado pelo Ministério do Interior britânico, diz que os jovens estão cada vez mais expostos a conteúdo relacionado à sexualidade por meio de revistas, televisão, internet e aparelhos de celular, sem que os pais consigam controlar isso.
Segundo ela, esse conteúdo está "legitimando a ideia de que as mulheres existem para serem usadas e de que os homens existem para usá-las".


Veja ainda outro artigo sobre a Sexualização dos jovens atraves da mídia.

Fonte: bbcbrasil.com

O EVANGELHO É A REVOLUÇÃO DO AMOR

"O Evangelho de Cristo responde positivamente à sede de justiça do homem, mas de modo inesperado e surpreendente. Ele não propõe uma revolução de tipo social e política, mas a do amor, que já realizou com a sua Cruz e a sua Ressurreição. Sobre elas fundam-se as bem-aventuranças, que propõem o novo horizonte de justiça, inaugurado pela Páscoa, graças ao qual podemos tornar-nos justos e construir um mundo melhor."

Bento XVI no Angelus de domingo, 14 de Fevereiro

DEVE-SE RECONHECER-SE À FAMILIA O PRIMADO DA EDUCAÇÃO

Os Padres sinodais revêem-se na preocupação expressa muitas vezes pelo Santo Padre acerca da educação. Em África, como em todo o mundo, há uma crise da educação. Precisamos de um programa orgânico de educação, onde se articulem intimamente a fé e a razão, de modo que os fiéis possam estar convenientemente preparados para enfrentar todas as circunstâncias da vida, evitando pautar-se por critérios dualistas e relativistas nas suas opções quotidianas. De facto, a educação não pode ser reduzida a um mero percurso formal escolástico, mas deve incutir nos jovens um profundo sentido da vida. Deve reconhecer-se à família o primado na educação e ajudá-la consequentemente nesta sua missão. Os Padres sinodais insistem por isso na afirmação da prioridade e na defesa da liberdade de educação, a qual não pode nem deve ser monopólio do Estado.
Onde as Igrejas tiverem escolas que queiram cooperar com o Estado em ordem a assegurar a educação, é necessário que se respeite o direito de a Igreja dirigir essas escolas. Também seria desejável que o Estado manifestasse a sua colaboração com a Igreja na educação, apoiando as escolas desta.

Proposições da II Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos

A FÉ CRISTÃ É ESPERANÇA... E ESPERANÇA QUE POSSUI RACIONALIDADE

"Venerai sempre Cristo Senhor nos vossos corações e estai sempre prontos a responder... a todo aquele que vos perguntar a razão da vossa esperança" (3, 15)

A fé cristã é esperança. Abre o caminho rumo ao futuro. E é uma esperança que possui racionalidade; uma esperança cuja razão podemos e devemos expor. A fé provém da Razão eterna que entrou no nosso mundo e nos mostrou o verdadeiro Deus. Vai além da capacidade própria da nossa razão, assim como o amor vê mais do que a simples inteligência. Mas a fé fala à razão e no confronto dialético pode prevalecer sobre a razão. Não a contradiz, mas caminha a par com ela e, ao mesmo tempo, conduz além dela introduz na Razão — maior de Deus. Como Pastores do nosso tempo, nós temos a tarefa de ser os primeiros a compreender a razão da fé. A tarefa de não deixar que ela seja simplesmente uma tradição, mas de a reconhecer como resposta às nossas perguntas. A fé exige a nossa participação racional, que se aprofunda e se purifica numa partilha de amor. Faz parte dos nossos deveres como Pastores penetrar a fé com o pensamento para sermos capazes de demonstrar a razão da nossa esperança no debate do nosso tempo. Contudo, o pensar — mesmo se tão necessário — sozinho não é suficiente. Assim como falar, sozinho, não é suficiente. Na sua catequese baptismal e eucarística no segundo capítulo da sua Carta, Pedro faz alusão ao Salmo usado na Igreja antiga no contexto da comunhão, isto é, ao versículo que diz: "Saboreai e vede como é bom o Senhor" (Sl 34[33], 9; 1 Pd 2, 3). Só o saborear conduz ao ver. Pensamos nos discípulos de Emaús: só na comunhão convival com Jesus, só na fracção do pão se abrem os seus olhos. Só na comunhão com o Senhor deveras experimentada eles se tornam videntes. Isto é válido para todos nós: além do pensar e do falar, precisamos da experiência da fé; da relação vital com Jesus Cristo. A fé não deve permanecer teoria: deve ser vida. Se no Sacramento encontramos o Senhor; se na oração falamos com Ele; se nas decisões quotidianas aderimos a Cristo — então "vemos" cada vez mais como Ele é bom. Então experimentamos que é muito bom estar com Ele.

Bento XVI na Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo
29 de Junho de 2009

QUEREM ASSSASSINAR DEUS E VIRAR... DEUSES

"Deus está morto? Uma dos movimentos intelectuais mais detestáveis da atualidade é o dos pregadores ateus. Eles já responderam à pergunta que acabo de fazer, sem dar tempo ao tempo ou ao esquecimento. Dizem que sim. Pensadores como Richard Dawkins e jornalistas como Christopher Hitchens se acham no direito de interpelar seus leitores e seu público de palestras para questionar a validade da fé alheia. Há três anos, eles passaram a adotar a postura agressiva ao preconizar que os creacionistas são ridículos, que Deus não existe e a religião é o ópio do povo. É uma opinião a ser respeitada. Mas o modo como esses pensadores atuam no eterno debate sobre a fé soa prepotente. Os ativistas sem-Deus desprezam interlocutores. Ostentam sua superioridade intelectual e acadêmica para intimidar aqueles que são tementes a Deus. No fundo, o que esses professores enfurecidos anseiam é tomar o lugar da divindade e se tornar deuses da Religião da Ciência. Querem assassinar Deus e virar... deuses."
Luís Antônio Giron  (Revista Época)

O ESTATUTO PROVISÓRIO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO MODERNO


Muitas pessoas dogmatizam o conhecimento científico e creem nele com inabalável fé, uma fé cega e mal fundamentada. Fazendo da ciência sua religião, absolutizam o que não tem estatuto irrevogável e de modo contraditório criticam o dogmatismo religioso. Acontece que as verdades reveladas são irrevogáveis, as científicas não. São apenas provisórias. Infelizmente, dentro da Igreja, muitos infectados por uma concepção equívoca do estatuto da ciência, relegam as verdades da fé ao rol das verdades de 'segunda categoria' como ainda não confirmadas pela 'infalibilidade' da ciência. Engano pueril.


O CARÁTER PROVISÓRIO DO CONHECIMENTO
CIENTÍFICO MODERNO
EM KARL POPPER


Nas obras, 'Lógica da pesquisa científica', e ' sociedade aberta e seus inimigos', o filósofo da ciência, Karl Popper demonstra que:

1) Uma teoria científica será sempre conjectural e provisória. Não é possível confirmar a veracidade de uma teoria pela simples constatação de que os resultados de uma previsão efetuada com base naquela teoria se verificaram. Essa teoria deverá gozar apenas do estatuto de uma teoria não (ou ainda não) contrariada pelos fatos.

2) O que a experiência e as observações do mundo real podem e devem tentar fazer é encontrar provas da falsidade daquela teoria. Este processo de confronto da teoria com as observações poderá provar a falsidade da teoria em análise. Nesse caso há que eliminar essa teoria que se provou falsa e procurar uma outra teoria para explicar o fenômeno em análise. (Ver Falseabilidade). Em outras palavras, uma teoria científica pode ser falsificada por uma única observação negativa, mas nenhuma quantidade de observações positivas poderá garantir que a veracidade de uma teoria científica seja eterna e imutável.

3) "Científico" é apenas aquilo que se sujeita ao confronto com os fatos. Ou seja: afirmam que só é científica aquela teoria que possa ser falseável (refutável).

4) Para Popper, o método do falsificacionismo não é princípio de exclusão, mas tão somente de atribuição de graus de confiança ao objeto passível do crivo científico.

5) O estado atual da ciência é sempre provisório. Ao encontrarmos uma teoria ainda não refutada pelos fatos e pelas observações, devemos nos perguntar, será que é mesmo assim ? Ou será que posso demonstrar que ela é falsa ?

6) Por falibilismo, Popper entende que não existe certeza do conhecimento científico, pois todo conhecimento é conjectural. E por abordagem crítica, ele quer demonstrar o que justamente foi denominado de racionalismo Crítico. Todas as teorias científicas estariam abertas ao criticismo, uma vez que o seu produto é falsificável. (Método da falseabilidade ou falsificacionismo)

7) A ciência seria um caso especial de diálogo socrático, onde aprendemos com a eliminação dos erros diante da crítica. A ideia socrática do não-saber toma aqui outro rumo: a cada nova descoberta, surgem novos problemas, reforçando a consciência de que apenas conseguiu-se aproximar da verdade de que unicamente se fez uma tentativa de resolver o problema.

8) Na visão do Popper socrático, a ciência é mais um processo em estado de fluxo constante, do que uma postura estabelecedora de verdades estáveis não sujeitas à revisão. Não há método infalível, nem autoridade, nem fatos inquestionáveis. “A ciência é pensamento cientifico sem método científico” (Boland, 1994:162).

9) Só podemos falar em “estado atual das investigações.”

Fonte: http://advhaereses.blogspot.com/

O JOGO SUJO DOS DEFENSORES DO ABORTO

A Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa aprovou, na semana passada, uma resolução, proposta por Christine Mc Cafferty, de teor alarmante: pede que todos os 47 Estados-Membros “despenalizem o aborto se ainda não o tiverem feito”, e garantam o direito das mulheres a esta prática, removendo quaisquer restrições ainda existentes. A resolução foi aprovada com 50 votos favoráveis, 14 contrários e 4 abstenções. Os quatro representantes italianos votaram contra a proposta.
O documento trata da assim chamada “saúde sexual e reprodutiva”, determinando, apesar do uso de um palavreado “tranquilizador”, o livre acesso - inclusive por menores e sem conhecimento dos pais - a métodos contraceptivos, aborto legal seguro e gratuito, esterilização, fecundação artificial e liberdade de “orientação sexual”.
A aprovação da resolução nestes termos representa um novo “cavalo de Troia” para a introdução do aborto como um direito.
Dessa forma, realiza-se, apesar de algumas vigorosas objeções, o objetivo ideológico dos movimentos feministas, determinados a converter o aborto num novo direito fundamental da mulher. E concretiza-se também o desejo do poderoso lobby da indústria farmacêutica – uma devastadora aliança pela cultura da morte – às vésperas da Jornada Italiana pela Vida, que ocorrerá no dia 7 deste mês.
Ainda mais preocupante é constatar que tal documento representará a base do plano de ação para a próxima Conferência da ONU sobre População e Desenvolvimento. Qual será o próximo valor a ser atingido por um “cavalo de Troia”?
O que está em jogo não é apenas o conceito de fertilidade como um valor humano a ser reconhecido e tutelado - e não tratado como uma doença – mas o próprio significado da pessoa humana, seja homem ou mulher, imagem e semelhança de Deus: uma verdade que nos precede, nos foi dada, não foi criada pelo homem. Com sua presunção prometeica de se considerar único autor de sim mesmo, o homem moderno se arrisca a não mais ser capaz de reconhecer-se a si próprio.

Fonte: Zenit

DISCURSO DO PAPA À PONTIFÍCIA ACADEMIA PARA A VIDA


Tradução de CN Notícias

Queridos Irmãos Bispos e sacerdotes,
Ilustres membros Da Pontifícia Academia Para a Vida,
Gentis Senhoras e Senhores!

Tenho o prazer de acolhê-los e saudá-los cordialmente por ocasião da Assembleia Geral da Pontifícia Academia para a Vida, chamada a refletir sobre as questões atinentes à relação entre a bioética e a lei moral natural, que se tornam cada vez mais relevantes no contexto atual, devido à evolução constante em tal âmbito científico. Dirijo uma saudação especial ao presidente desta Academia, Dom Rino Fisichella, agradecendo-lhe as amáveis palavras que me dirigiu em nome dos presentes. Desejo, também, estender o meu agradecimento pessoal a cada um de vós, pelo precioso e insubstituível compromisso que desempenham em favor da vida, nos mais diferentes contextos.
As problemáticas que giram em torno do tema da bioética permitem verificar que as questões subjacentes colocam em primeiro plano a questão antropológica. Como afirmo em minha última Carta Encíclica Caritas in veritate: "Um campo primário e crucial da luta cultural entre o absolutismo da técnica e a responsabilidade moral do homem é o da bioética, onde se joga radicalmente a própria possibilidade de um desenvolvimento humano integral. Trata-se de um âmbito delicadíssimo e decisivo, onde irrompe, com dramática intensidade, a questão fundamental de saber se o homem se produziu por si mesmo ou depende de Deus. As descobertas científicas neste campo e as possibilidades de intervenção técnica parecem tão avançadas que impõem a escolha entre estas duas concepções: a da razão aberta à transcendência ou a da razão fechada na imanência" (n. 74).
Mediante questões similares, que afetam de modo tão crucial a vida humana na sua perene tensão entre imanência e transcendência, e que têm grande relevância para a cultura das futuras gerações, é necessário dar forma a um projeto pedagógico integral, que permita lidar com estas questões a partir de uma visão positiva, equilibrada e construtiva, sobretudo na relação entre a fé e a razão.
As próprias questões de bioética, muitas vezes, colocam em primeiro plano um chamado à dignidade da pessoa, um princípio fundamental que a fé em Jesus Cristo Crucificado e Ressuscitado sempre defendeu, sobretudo quando não é considerada em relação aos sujeitos mais simples e indefesos: Deus ama cada ser humano de modo único e profundo. Também a bioética, como qualquer outra disciplina, necessita de um direcionamento capaz de garantir uma leitura coerente das questões éticas que, inevitavelmente, surgem diante dos eventuais conflitos de interpretação. Neste espaço é que se abre o chamado à lei moral natural. O reconhecimento da dignidade humana, de fato, enquanto direito inalienável, encontra seu primeiro fundamento naquela lei que não é escrita por mãos humanas, mas escrita por Deus Criador no coração humano, a que todo sistema jurídico é chamado a reconhecer como inviolável e a que toda a pessoa humana é obrigada a respeitar e promover (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1954-1960). Sem esse princípio fundador da dignidade humana, seria difícil encontrar uma fonte para os direitos da pessoa e impossível alcançar um juízo ético diante das conquistas da ciência, que intervêm diretamente na vida humana.
É necessário, portanto, repetir com firmeza que não existe uma compreensão da dignidade humana ligada apenas aos elementos exteriores, como o progresso da ciência, a gradualidade na formação da vida humana ou o sentimento de piedade fácil diante de situações extremas. Quando se invoca o respeito pela dignidade da pessoa, é essencial que ele seja pleno, total e irrestrito, baseado no reconhecimento de que sempre se está diante de uma vida humana. É claro, a vida humana conhece um desenvolvimento próprio e o horizonte de investigações da ciência e da bioética está aberto, mas devemos reiterar que, quando se trata de questões relativas ao ser humano, os cientistas não podem mais pensar ter em suas mãos apenas uma matéria inanimada e manipulável. De fato, desde o primeiro momento, a vida do homem é caracterizada por ser vida humana e, por isso, sempre traz consigo, em toda parte e apesar de tudo, sua dignidade própria (cf. Congregação para a Doutrina fé, Instrução Dignitas personae, sobre algumas questões de bioética, n. 5). Ao contrário, estamos sempre na presença do perigo de um uso instrumental da ciência, com a consequência inevitável de cair facilmente na arbitrariedade, na discriminação e no interesse econômico do mais forte.
Conjugar a bioética e a lei moral natural nos permite verificar melhor o necessário e inevitável chamamento à dignidade que a vida humana possui, desde a concepção até o seu fim natural. Ao invés disso, no contexto moderno, ao mesmo tempo que emerge sempre com mais insistência o justo reconhecimento dos direitos que garantem a dignidade da pessoa, se percebe que nem sempre tais direitos são reconhecidos para a vida humana em seu desenvolvimento natural e nos estágios de maior debilidade. Tal contradição torna claro o compromisso em assumir, nas diferentes esferas da sociedade e da cultura, a defesa de que a vida humana seja sempre reconhecida como direito inalienável e nunca como objeto sujeito à arbitrariedade do mais forte.
A história mostrou o quanto pode ser perigoso e danoso um Estato que legisle sobre questões que afetem o indivíduo e a sociedade, pretendendo ser ele mesmo fonte e princípio da ética. Sem o princípio universal que permite verificar um denominador comum para toda a humanidade, o risco de que daí derive um relativismo em nível legislativo não deve ser subestimado (cf. Catecismo Igreja Católica, n. 1959). A lei moral natural, forte em seu próprio caráter universal, permite evitar tal perigo e , sobretudo, oferece ao legislador a garantia para um autêntico respeito, seja da pessoa, seja de toda a ordem de coisas criadas. Tal lei se apresenta como fonte catalisadora de um consenso entre pessoas de diferentes culturas e religiões, permite ir além das diferenças, porque afirma a existência de uma ordem impressa pelo Criador na natureza e é reconhecida como uma instância de verdadeiro juízo ético racional para se perseguir o bem e evitar o mal. A lei moral natural "pertence ao grande patrimônio da sabedoria humana, que a Revelação, com sua luz, ajudou a purificar e desenvolver ulteriormente" (cf. João Paulo II, Discurso à Plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, 6 de fevereiro de 2004).
Ilustres Membros da Pontifícia Academia para a Vida, no contexto atual o vosso empenho se torna cada vez mais delicado e difícil, mas a crescente sensibilidade no que diz respeito à vida humana encoraja a continuar com sempre maior ímpeto e coragem neste importante serviço à vida e à educação nos valores evangélicos das gerações futuras. Desejo que todos vós continueis o estudo e a pesquisa, para que a obra de promoção e defesa da vida seja sempre mais eficaz e fecunda. Acompanho-vos com a Bênção Apostólica, que, com prazer, estendo a todos quanto dividem convosco esta tarefa cotidiana.
 
13/02/2010
 
Fonte: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=275507

HOMILIA DO SANTO PADRE NA CELEBRAÇÃO DE IMPOSIÇÃO DAS CINZAS

Segue na íntegra a homilia do Santo Padre na missa de imposição das cinzas, com a tradução livre de Raimundo Lima.

"Vós amais as criaturas, Senhor,
e nada desprezais daquilo que criastes;
vós esqueceis os pecados daqueles que se convertem e os perdoa,
porque vós sois o Senhor nosso Deus" (Antífona de Entrada)

Venerados Irmãos no episcopado,
Caros irmãos e irmãs!

Com essa comovente invocação, extraída do Livro da Sabedoria (cfr 11, 23-26), a liturgia introduz a celebração eucarística da Quarta-feira de Cinzas. São palavras que, de certo modo, abrem todo o itinerário quaresmal, colocando como seu fundamento a onipotência do amor de Deus, a sua absoluta senhoria sobre toda criatura, que se traduz na indulgência infinita, animada pela constante e universal vontade de vida. Efetivamente, perdoar alguém equivale a dizer-lhe: não quero que você morra, mas que viva; quero sempre e somente o seu bem.
Essa absoluta certeza ajudou Jesus durante os quarenta dias transcorridos no deserto da Judéia, após o batismo recebido por João no Jordão. Aquele longo tempo de silêncio e de jejum foi para Ele um abandonar-se completamente ao Pai e ao seu desígnio de amor; esse tempo foi ele mesmo um "batismo", isto é uma "imersão" na sua vontade, e nesse sentido uma antecipação da Paixão e da Cruz. Adentrar-se no deserto e permanecer ali longamente, sozinho, significava expor-se voluntariamente aos assaltos do inimigo, o tentador que fez Adão cair e por sua inveja a morte entrou no mundo (cfr Sb 2, 24); significava travar com ele a batalha em campo aberto, desafiá-lo sem outras armas a não ser a confiança sem limite no amor onipotente do Pai. Basta-me o vosso amor, alimento-me da vossa bondade (cfr Jo 4, 34): essa convicção habitava a mente e o coração de Jesus durante essa sua "quaresma". Não foi um ato de orgulho, uma iniciativa titânica, mas uma escolha de humildade, coerente com a Encarnação e o Batismo no Jordão, na mesma linha de obediência ao amor misericordioso do Pai, que "amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único" (Jo 3, 16).
O Senhor Jesus fez tudo isso por nós. O fez para salvar-nos, e ao mesmo tempo para mostrar-nos o caminho para segui-lo. De fato, a salvação é dom, é graça de Deus, mas para ter efeito na minha existência requer o meu assentimento, um acolhimento demonstrado nos fatos, isto é, na vontade de viver como Jesus, de segui-lo. Seguir Jesus no deserto quaresmal é, portanto, condição necessária para participar da sua Páscoa, do seu "êxodo". Adão foi expulso do Paraíso terrestre, símbolo da comunhão com Deus; agora, para retornar a essa comunhão e, portanto, à vida eterna, é preciso atravessar o deserto, a provação da fé. Não sozinhos, mas com Jesus! Ele – como sempre – precedeu-nos e já venceu o combate contra o espírito do mal. Eis o sentido da Quaresma, tempo litúrgico que todo ano nos convida a renovar a escolha de seguir Cristo no caminho da humildade para participar da sua vitória sobre o pecado e sobre a morte.
Nessa perspectiva se compreende também o sinal penitencial das Cinzas, que são colocadas na cabeça daqueles que iniciam com boa vontade o itinerário quaresmal. É essencialmente um gesto de humildade, que significa: reconheço-me por aquilo que sou, uma criatura frágil, feita de terra e destinada à terra, mas também feita à imagem de Deus e destinada a Ele. Pó, sim, mas amado, plasmado por seu amor, animado por seu sopro vital, capaz de reconhecer a sua voz e de responder-lhe; livre e, por isso, capaz também de desobedecer-lhe, cedendo à tentação do orgulho e da autossuficiência. Eis o pecado, doença mortal entrada cedo para poluir a terra abençoada que o ser humano. Criado à imagem do Santo e do Justo, o homem perdeu a sua inocência e agora pode voltar a ser justo somente graças à justiça de Deus, a justiça do amor que – como escreve São Paulo – "opera pela fé em Jesus Cristo" (Rm 3, 22). Dessas palavras do Apóstolo extraí a abordagem para a minha Mensagem, dirigida a todos os fiéis por ocasião da Quaresma: uma reflexão sobre o tema da justiça à luz das Sagradas escrituras e de seu cumprimento em Cristo.
Também nas leituras bíblicas da Quarta-feira de Cinzas está bem presente o tema da justiça. Em primeiro lugar, a página do profeta Joel e o Salmo responsorial – O Miserere – formam um díctico penitencial, que evidencia como na origem de toda injustiça material e social se encontra o que a Bíblia chama "iniqüidade", isto é, o pecado, que consiste fundamentalmente numa desobediência a Deus, significa uma falta de amor. "Pois – confessa o Salmista – reconheço minhas transgressões e diante de mim está sempre meu pecado; pequei contra ti, contra ti somente, pratiquei o que é mau aos teus olhos" (Sl 50/51, 5-6). O primeiro ato de justiça é, portanto, reconhecer a própria iniqüidade, e reconhecer que ela está radicada no "coração", no próprio centro da pessoa humana. Os "jejuns", os "prantos", as "lamentações" (cfr Gl 2, 12) e toda expressão penitencial têm valor aos olhos de Deus somente se são sinal de corações sinceramente arrependidos. Também o Evangelho, extraído do "discurso da montanha", insiste sobre a exigência de praticar a própria "justiça" – esmola, oração, jejum – não diante dos homens, mas somente aos olhos de Deus, que "vê no segredo" (cfr Mt 6, 1-6.16-18). A verdadeira "recompensa" não é a admiração dos outros, mas a amizade com Deus e a graça que dela deriva, uma graça que doa paz e força para fazer o bem, amar também quem não o merece, perdoar quem nos ofendeu.
A segunda leitura, o apelo de Paulo a deixar-nos reconciliar com Deus (cfr 2 Cor 5, 20), contém um dos célebres paradoxos paulinos, que reconduz toda a reflexão sobre a justiça ao mistério de Cristo: "Aquele que não conhecera pecado – isto é, o seu Filho feito homem – Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que, por ele nos tornemos justiça de Deus" (2 Cor 5, 21). No coração de Cristo, isto é no centro da sua Pessoa divino-humana, jogou-se em termos decisivos e definitivos todo o drama da liberdade. Deus levou às extremas conseqüências o seu desígnio de salvação, permanecendo fiel a seu amor também a custa de entregar o Filho unigênito à morte, e à morte de cruz. Como escrevi na Mensagem quaresmal, "aí se abre a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana... graças à ação de Cristo, nós podemos entrar na justiça "maior", que é a justiça do amor" (cfr Rm 13, 8-10).
Caros irmãos e irmãs, também em nossos dias a humanidade precisa esperar num mundo mais justo, acreditar que isso é possível, apesar das desilusões que vêm das experiências cotidianas. Iniciando uma nova Quaresma, um novo caminho de renovação espiritual, a Igreja indica a conversão pessoal e comunitária como único caminho não ilusório para formar sociedades mais justas, onde todos possam ter o necessário para viver segundo a dignidade humana (cfr Mensagem para a Quaresma 2010). Confessemos, portanto, sinceramente os nossos pecados, convertamos-nos a Deus com todo o coração e deixemos-nos reconciliar com Ele. Assim, com a graça de Cristo e a celeste intercessão de Maria Santíssima, poderemos testemunhar com toda humildade a justiça que é dom de Deus, e ajudar a comunidade humana a progredir segundo a caridade na verdade.

MAS DO QUE PÃO O HOMEM PRECISA DE DEUS

Cidade do Vaticano, 18 fev (RV) – Leia a seguir, na íntegra, a mensagem de Bento XVI para a abertura da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010.

Ao Venerado Irmão D. Geraldo Lyrio Rocha
Presidente da CNBB e Arcebispo de Mariana (MG)

Com a quarta-feira de cinzas, volta aquele tempo favorável de salvação, que é a Quaresma, com seu apelo insistente: "Reconciliai-vos com Deus" (2Cor 6,2); brado este, que deve ressoar nos lábios daqueles que anunciam a Palavra de Deus: "Encarregarei os meus ministros de anunciar aos pecadores que estou sempre pronto a recebê-los, que a minha misericórdia é infinita" (Carta para a proclamação de um Ano Sacerdotal, 16/VI/2009). Estes sentimentos divinos foi confiado ao Santo Cura d'Ars, que, no seu tempo, soube transformar o coração e a vida de muitas pessoas, porque conseguiu fazer-lhes sentir o amor misericordioso do Senhor.
Eu desejo o mesmo sucesso às Igrejas e Comunidades Eclesiais no Brasil que, este ano, decidiram unir seus esforços para reconciliar as pessoas com Deus, ajudando-lhes a libertarem-se da escravidão do dinheiro. É que, como lembra a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010 – citando palavras de Jesus -, "Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro". Alegrando-me com tal propósito de conversão, recordo que a escravidão ao dinheiro e a injustiça "tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa convivência com o mal" (Mensagem para a Quaresma 2010, 30/X/2009). Por isso, encorajo-vos a preservar no testemunho do amor de Deus, do Filho de Deus que se fez homem, do amor agraciado com a vida de Deus, do único bem que pode saciar o coração da gente, pois, "mais do que de pão, [o homem] de fato precisa de Deus" (Ibid). Conseguireis assim, fazer frente ao "deserto interior" de que falei no início do meu ministério petrino, convidando a Igreja, no seu conjunto, a "pôr-se a caminho, para conduzir as pessoas fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude. (...) Nós existimos para mostrar Deus aos homens. E só onde se vê Deus, começa verdadeiramente a vida" (Homilia, 24/IV/2005). Se "a boca fala daquilo que o coração está cheio" (Mt 12, 34), podeis conhecer vosso coração a partir das vossas palavras. "Reconciliai-vos com Deus", de modo que as vossas palavras sirvam sobretudo para falar de Deus e a Deus.
Implorando as maiores bênçãos de Deus sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010, aproveito a ocasião para enviar aos meus irmãos e amigos do Brasil cordiais saudações com votos de todo bem em Jesus Cristo, único Salvador de todos!

Vaticano, 8 de fevereiro de 2010
Benedictus XVI
Existe uma página no blog do Paulo Roberto Lopes com ótimos artigos de Luiz Felipe Pondé*.
Para acessá-los clique aqui.

*Luis Felipe Pondé é filósofo e psicanalista, doutorado em Filosofia pela USP/Universidade de Paris e pós-doutorado em Epistemologia pela Universidade de Tel Aviv. Atuou como professor convidado nas universidades de Marburg (Alemanha) e de Sevilha (Espanha). Atualmente é professor do programa de pós-graduação em Ciências da Religião e do Departamento de Teologia da PUC-SP, da Faculdade de Comunicação da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado) e professor convidado da pós-graduação de ensino em ciências da saúde da Universidade Federal de São Paulo e da Casa do Saber. Colunista da Folha de S. Paulo, autor, entre outros títulos, de Crítica e Profecia, filosofia da religião em Dostoievski (ed. 34), O Homem Insuficiente, O Conhecimento na Desgraça, e Do Pensamento não Deserto, ensaios de filosofia, teologia e literatura, os três pela EDUSP.

"ASSIM RENASCI CRISTÃO". ENTREVISTA COM RENÉ GIRARD

René Girard, em entrevista a Grant Kaplan, no jornal dos bispos italianos Avvenire, 04-01-2009, se diz um "cristão permanente". Segundo ele, o desafio da Igreja é "alcançar os jovens". "Isso explica por que João Paulo II era tão importante", afirma. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Muitas vezes, defendeu-se que o senhor se deparou com o cristianismo durante as suas pesquisas, mas a verdade é um pouco diferente.

Sim, é verdade. A história é diferente do momento em que eu já era cristão por parte de mãe, uma mulher muito fiel e bastante “sofisticada” no seu modo de sê-lo, especialmente para o tempo em que viveu. Meu pai, ao contrário, era moderadamente anticlerical. Essa situação era muito típica na classe média francesa. Mia mãe, no início, não me influenciou muito. Dos 12 aos 30 anos, sempre que podia eu evitava a missa dominical. Mas é falso pensar que eu me deparei por acaso com o cristianismo. Na minha infância havia diversos elementos cristãos que eram – que são – muito potentes, e a influência da minha mãe também foi importante. Por isso, as pesquisas realizadas para "Deceit, Desire and the Novel" foram um renascimento do meu cristianismo e se tratou de algo muito comprometedor. As experiências da infância podem ser muito importantes. Quanto mais reflito, melhor entendo que você tem razão ao sugerir que a minha história se desenrolou assim.

A Igreja nos Estados Unidos, e, em um certo sentido, menos na Europa ocidental, parece tristemente dividida entre os que se autodefinem tradicionalistas e os que se chamam de progressistas. Não se ignorando essas distinções superficiais, de que modo o senhor conseguiu não se alinhar com um “grupo” dentro da Igreja?
É uma pergunta complicada. Penso que haja pouca diferença entre a Europa e os Estados Unidos, ou menos do que você insinua.
A questão sobre a divisão entre progressistas e tradicionalistas dominou o debate por muitos anos. Hoje, o vejo como um pouco “dépassé” e não relevante da forma como é usado.
Parece que o grande entusiasmo progressista do Concílio tenha diminuído e se tornado menos importante. Eu acho que a pergunta verdadeira é se alguém permanece cristão ou não. Estou inclinado a não me sentir um cristão do passado, mas um cristão “permanente”. Por um certo período, fui visto como um conservador extremo, porque sentia que o cristianismo progressista daquele período estava imitando, se pode-se dizer assim, os debates que não são, por si mesmos, religiosos... debates da vida política e da ação social, que são interessantes, mas não fundamentais para o cristianismo. No meu modo de ver, o questionamento é se alguém crê ou não na encarnação e na divindade de Cristo. Lentamente, estamos nos voltando a esse ponto.

Visto que o senhor é francês, mas também reside nos Estados Unidos, acha que a Igreja norte-americana está se fechando dentro de seus próprios muros?
Historicamente, isso foi verdade para a Igreja francesa, que se fazia chamar de "Igreja galesa", para enfatizar a própria independência do papado. De um ponto de vista francês, a Igreja norte-americana é muito mais preocupada com a sua relação com o papado e com o seu desejo de ser “ortodoxa”, isto é, de não fazer afirmações estranhas a uma perspectiva cristã. Da perspectiva de qualquer pessoa de fora, a Igreja norte-americana é extremamente generosa nas suas doações. Nisso certamente há algo do processo do bode expiatório, mas isso não me impressiona como um fenômeno particularmente americano. A tendência a criticar o papado era muito difundida na França. Por exemplo, durante a Primeira Guerra Mundial, as pessoas não estavam conscientes do que ocorria com Bento XV (e acho que Bento XVI tomou esse nome justamente por causa disso).
Bento XV era muito popular durante a guerra, apesar de ser impopular na França por ser muito pró-Alemanha, e o mesmo na Alemanha, porque era exageradamente pró-França. Fez esforços muito notáveis para pôr fim aos combates. Interveio e fez o melhor que pôde para promover as negociações. Ninguém apreciou esse esforço, como se fosse um dever fazê-lo. Foi verdadeiramente profético ao entender que a guerra era um desastre de proporções enormes para toda a Europa.

O que o senhor responderia se o Papa lhe perguntasse o que deveria fazer para melhor levar adianta a obra de catequese na Igreja?
A Igreja é consciente disso e continuamente se interroga sobre o que deve fazer para melhorar. Certamente, é necessário alcançar os jovens. Isso explica por que João Paulo II era tão importante. A simpatia misteriosa que os jovens tinham por João Paulo II foi notavelmente destacada no momento em que se refletiu sobre o seu papado. Eventos como as Jornadas Mundiais da Juventude são muito importantes. Obviamente não é fácil ter a mesma simpatia de Wojtyla, mas o grande sucesso da visita do papa Ratzinger aos Estados Unidos e a recente viagem à França foram muito importantes. Em Paris, foram 250 mil as pessoas que o escutaram na missa, e 100 mil destas passaram a noite ali. Um evento impressionante. Por isso, as pessoas que pensam que o cristianismo na França já acabou erram completamente, na minha opinião. Por exemplo, quando o cardeal Lustiger era arcebispo de Paris celebrava a missa às 6h30 da manhã todo domingo, em Notre Dame. Se não se chegasse a tempo, era impossível encontrar um lugar para se sentar na igreja. Entre as pessoas de Paris, a sua popularidade era incrível. Esse fenômeno não foi conhecido como se deveria, porque nisso havia algo de muito paradoxal. Lustiger não era um parisiense doc, mas um judeu, e bispo de Orleans antes de chegar a Paris. A sua popularidade foi algo de verdadeiramente inédita.

O senhor considera o seu trabalho um empenho apologético?
Penso que o aspecto mais influente do meu trabalho seja mostrar que o judaísmo e o cristianismo existem em continuidade com as religiões arcaicas. Fundamentalmente, eu sou um antropólogo e um racionalista. O que defendo é o fato de que as sociedades humanas são muito diferentes daquelas que os especialistas definem como “sociedades animais”, porque as primeiras têm a religião. Na sociedade arcaica, religião e cultura são absolutamente um todo, mesmo que isso não aparece. A religião, por isso, é um modo com o qual os seres humanos aprendem, sem ter consciência, o modo no qual se comportar com a violência no interior do próprio grupo. Nesse caso, o sacrifício chega a revestir o papel das vítimas substitutivas. Esse fenômeno deveria ser explicado em termos puramente antropológicos, como algo científico. Não é necessária uma convicção religiosa para entendê-lo. Essa compreensão da religião arcaica (levada adiante também por aqueles que têm uma consideração desfavorável frente à própria religião) representa uma verdadeira revolução. É muito importante mostrar que essas vítimas são absolutamente indispensáveis à sobrevivência do homem.
De um certo modo, o cristianismo é o fim das religiões arcaicas, porque revela que a vítima é inocente. Quando se compreende o cristianismo de maneira correta na sua proximidade-distância da religião arcaica, descobre-se que estamos frente à mesma estrutura, ou seja, o fenômeno do bode expiatório, isto é, Jesus como vítima. Já o texto bíblico é concebido para destruir o esquema do bode expiatório em vez de usá-lo para realizar sacrifícios. A relação com todas as religiões arcaicas no passado é tão central e racional, ao ponto de que se poderia ir para trás em dezenas de milhares de anos. Esse é um dado importante. A religião da Encarnação deveria ser uma antropologia assim como uma teologia. A Encarnação significa homem e Deus juntos. A teologia é o Deus puro e é construída sobre esquemas que ignoram completamente aquilo que, no cristianismo, chamamos de Encarnação.

Em nível pessoal, o senhor tem alguma sugestão para tornar a fé atraente frente aos não-crentes?
Uma coisa importante seria mostrar que o cristianismo tem algo a dizer a respeito das ciências do homem. Isso é absolutamente indispensável. A antropologia sempre viu a religião como um tipo de história. No século XIX, Auguste Comte sentia que a religião arcaica era a primeira tentativa de se entender os “mistérios do universo”. Em outras palavras, empreendiam o mesmo percurso da ciência. Mas, segundo Comte, tratava-se de uma ciência muito decadente e não de alto nível. Para os positivistas do século XIX, a filosofia ficava no meio do caminho, era um pouco melhor do que a teologia, mas ainda não aceitável como a ciência. Essa visão era muito abstrata e tinha pouco a ver com o fato de que a religião é um fenômeno muito concreto que leva as pessoas a evitar matarem-se totalmente umas às outras.

Qual papel o senhor acredita que as principais teses do seu trabalho intelectual terão nas próximas décadas?
Considero que a questão e o paradoxo do bode expiatório (porque isso existe quando não se vê e está ausente quando se diz que está presente) serão melhor compreendidos e assumirão um papel que nunca apareceu na apologética. A visão do cristianismo não é muito paradoxal. Eu acho que, quando se lê Kierkegaard com atenção, vê-se que ele não estava muito distante de muitas das afirmações que a teoria do bode expiatório pode formular de maneira mais racional. Por isso, essa visão pode ser um instrumento de apologética que ainda não foi descoberto.

A CONDENAÇÃO DO HOMICIDIO É UMA INVENÇÃO CRISTÃ

O jornal francês La Croix, publica uma série de reportagens sobre os dez mandamentos. Comentando o quinto mandamento, "Não matarás", o jornal, no dia 01-08-2008, entrevistou René Girard (1), da Academie Française.

Eis a entrevista.

Que sentido você dá ao mandamento “Não matar”?

As religiões arcaicas fundavam-se sobre o apelo ao homicídio e aos sacrifícios rituais para resolver o problema da violência, restabelecendo a unidade da comunidade contra uma vítima. É o que chamei de o fenômeno do bode expiatório. Quando este homicídio ocorre, a vítima adquire um prestígio considerável, os bodes expiatórios são divinizados por causa de sua virtude reconciliadora. As religiões arcaicas são fundadas sobre a ilusão de que aqueles bodes expiatórios são deuses porque estabelecem certa paz entre os homens. É esta paz que se renova imolando vítimas humanas ou animais deliberadamente escolhidos para este fim. O mandamento da Bíblia rompe categoricamente com esta prática. O cristianismo nos ensina que isto é uma ilusão, uma fraude que usamos conosco. Todas as grandes cenas da Bíblia vão no sentido da abolição ou da diminuição da violência contra o homem, como o não-sacrifício de Isaac no Antigo Testamento, substituído no último momento por um cabrito. Na paixão de Cristo, é exatamente o inverso, o assassínio religioso e, pela primeira vez, categoricamente refutado. Cristo se oferece como vítima para revelar a verdade aos homens. Em vez de sacrificar outros – o comportamento normal dos homens -, Cristo se oferece como vítima para revelar aos homens como ele é, ou seja, totalmente estranho à violência.

O Antigo Testamento e os Evangelhos são os únicos textos fundantes que condenam o homicídio e a vingança?

Penso que sejamos os únicos a condenar o assassínio religioso. A condenação do homicídio na Declaração dos direitos do homem não é uma invenção do humanismo ocidental, mas uma invenção cristã. O humanismo se mostrou ainda mais impotente do que o cristianismo em pô-la em prática, já que nós estamos hoje colocados num universo que a todo instante corre o risco de destruir-se.

A proibição cristã não impediu as cruzadas, as guerras religiosas, as guerras mundiais e os genocídios. Como explica este insucesso?

O cristianismo não tomou em consideração o pecado original. Pecado original quer dizer que o homem está disposto ao pecado, quer dizer que é muito difícil viver sem confrontar-se com o próprio vizinho, sem desejar a mesma coisa que ele possui, sem se tornar seu rival. Descobertas recentes em neurologia mostram que a imitação é primária e é o meio essencial de aprendizagem para o neonato. Só podemos escapar do mimetismo compreendendo as leis: somente a compreensão dos perigos da imitação nos permite conceber uma autêntica identificação com o outro. Logo que imitamos o modelo dos nossos desejos, desejamos a mesma coisa que o outro deseja. Esta rivalidade mimética é a causa principal e fundamental da violência entre os homens. O cristianismo é o único que evidencia este desejo mimético. Se o homem é homicida, é porque tem o homicídio nele mesmo e porque há algo que é o pecado original. O pecado original é Caim e Abel, a rivalidade que gera o homicídio.

O mundo globalizado de hoje está pronto para entender a mensagem cristã de reconciliação e de renúncia à violência?

A verdade se torna hoje mais evidente, também se pouquíssimos indivíduos se convertem. Nossa civilização é mais criadora e potente do que nunca, mas também mais frágil e mais ameaçada, já que não dispõe mais da proteção do religioso arcaico. Em nome do desejo de bem-estar e progresso, os homens produzem os meios para se autodestruir. Nosso mundo está ameaçado e é totalmente impotente para adotar as medidas necessárias para evitar os perigos mais imediatos, como o aquecimento climático, as manipulações genéticas ou a proliferação nuclear.

O terrorismo islâmico é uma nova etapa do crescimento dos extremismos, um retorno ao arcaico?

O crescimento dos extremismos se serve do islamismo. O terrorismo substitui a guerra que volta a ser uma empresa privada, sobre a qual os Estados não têm mais controle. A guerra não é mais contida por regras institucionais que limitavam sua duração e seus efeitos. Quanto mais o homem é capaz de produzir a violência, mais a produz. Estamos hoje ameaçados por um furto da arma atômica por parte de indivíduos que não hesitarão em servir-se dela. A posse dos meios de destruição mais aperfeiçoados é um sinal do retorno ao arcaico. O islã tentou impor regras à violência através de sua forte capacidade de organização, e o mundo islâmico não se identifica com o desencadear de uma violência à qual seremos estranhos. No entanto, penso que o cristianismo tenha uma visão mais profunda da violência. Na Paixão, a crucifixão de Cristo revela a violência. É a revelação do homicídio fundador, o resultado do mecanismo “vitimário” e é Jesus que torna isto visível, “sofrendo esta violência injusta e expondo-a aos olhares de todos, privando-a assim de sua potência fundadora”.

Para renunciar à violência, o homem deve renunciar ao desejo?

O cristianismo diz que o homem deve desejar Deus. Hoje, os indivíduos inteligentes e ambiciosos parecem voltados ao acréscimo da potência e à repetição dos erros do passado. Os textos apocalípticos dos Evangelhos anunciam precisamente que os homens sucumbirão sob sua violência. É o fim do mundo permitido pelos homens. O paradoxo é que a humanidade seja mais cética do que nunca numa época em que sabe ter todos os meios para se destruir. De sua parte, os cristãos interpretam freqüentemente o cristianismo como uma simples filosofia otimista e, sob o pretexto de encorajar, dão somente uma versão adocicada. Seria melhor alarmar as pessoas e despertar as consciências adormecidas, antes do que negar os perigos. Vivemos juntos no melhor e no pior dos mundos. Os progressos da humanidade são reais. Nossas leis são melhores e nos matamos menos uns aos outros. Ao mesmo tempo, não queremos ver nossas responsabilidades nas ameaças e nas possibilidades de destruição que pesam sobre nós. Os textos cristãos, em particular os textos apocalípticos, se adaptam de maneira impressionante à realidade presente, isto é, uma confusão entre desastres causados pela natureza e desastres causados pelos homens, uma confusão entre o natural e o artificial. No ciclone que devastou Nova Orleans, não se podia distinguir a responsabilidade da natureza daquela dos homens.

Não é demasiado tarde para remediar?

Chegamos a um mundo no qual nos encontraremos colocados diante da alternativa cristã, o reino de Deus ou a destruição total, a reconciliação ou nada. Os homens procuram escapatórias para não ver o que se lhes impõe, para não ser pacíficos, para não encontrar o outro. O cristianismo é a única utopia que diz a verdade sobre esta situação. Ou os homens a realizarão, renunciando à violência, ou se autodestruirão. Será a violência absoluta ou a paz.

Nota:
(1) René Girard, nascido em 1923 em Avignon, vive em Stanford nos Estados Unidos, onde ensinou literatura francesa. Foi eleito em 2005 à Academie française. Elaborou uma antropologia da violência e de sua relação com o religioso. Baseando-se tanto na psicanálise como em textos literários, funda sua teoria sobre três instrumentos de análise: o “desejo mimético”, o mecanismo do bode expiatório e a revelação destruidora do mecanismo vitimário. Segundo Girard, a revelação evangélica manifesta

Publicado no site IHU Online em 7 de agosto de 2008





AUDIÊNCIAS DAS QUARTAS-FEIRAS DE CINZAS NO PONTIFICADO DE BENTO XVI

"Homens que começam a combater a Igreja em beneficio da liberdade e da humanidade terminam jogando fora a liberdade e a humanidade só para poderem com isso combater a Igreja."
G. K. Chesterton

MENSAGENS PARA A QUARESMA

Segue abaixo os links de todas as mensagens para a quaresma do Papa Bento XVI durante o seu pontificado.


TEMA: Sobre a Justiça de Deus.
"A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo" (cfr Rom 3, 21–22 )
TEMA: Sobre o valor e o sentido do jejum.  
"Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome" (Mt 4, 1-2)
TEMA: Sobre a esmola.
«Cristo fez-Se pobre por vós» (cf. 2 Cor 8, 9)
TEMA: Sobre Cristo crucificado.
«Hão-de olhar para aquele que trespassaram» (Jo 19, 37)
TEMA: Sobre a misericórdia e o desenvolvimento. 
«Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão por elas» (Mt 9, 36)




O HOMEM CRIATURA ESPECIAL DE DEUS

Fonte: Blog Padre Elílio 

A Revelação bíblica propõe ensinamentos a respeito da origem e da natureza do Homem na medida em que interessam ao mistério da salvação. Por isso, não se pode procurar na Sagrada Escritura uma antropologia acabada e rigidamente sistematizada. Os dados que aí encontramos, contudo, dão as coordenadas fundamentais para que possamos elaborar uma ontologia teológica do Homem. Tais dados, convém notar, não estão em contradição com aquilo que se pode saber sobre o Homem por via natural, embora o ultrapasse.

O Homem, antes de tudo, é um mistério. Deus é o mysterium tremendum ac fascinosum; o Homem, criado à sua imagem e semelhança , é misterioso e também fascinante, na medida em que se assemelha a Deus por sua vida espiritual ou por seu caráter pessoal, isto é, por sua consciência, inteligência e liberdade. Com efeito, já dizia o Concílio Vaticano II: "O homem, na verdade, não se engana quando se reconhece superior aos elementos materiais e não se considera somente uma partícula da natureza ou um elemento anônimo da cidade humana" (Gaudium et spes, 14).

O Homem, com efeito, como já vira muito bem Pascal, ultrapassa infinitamente a si mesmo. Se por sua dimensão corpórea reduz-se a um ínfimo ponto perdido no cosmo, por sua dimensão espiritual é capaz de abarcar o universo inteiro e ir além; é capaz do infinito, no sentido de que é capaz de pensar o infinito, porque se abre à universalidade do ser. Nenhuma categoria finita pode limitar a capacidade humana de pensar. Assim, nenhum ser finito é capaz de impor limites ao dinamismo do espírito humano.

Desse modo, em virtude de sua dimensão espiritual, o Homem é um ser de relações. Está aberto ao infinito. Uma vez que é capaz de se ultrapassar, é capaz de relacionar-se consigo mesmo, com o mundo, com os outros e com Deus. É claro que a relação com Deus, na presente vida, só pode ser uma relação mediada, uma vez que não temos intuição imediata de Deus.

A Sagrada Escritura acentua, por diversos modos, a singularidade do Homem em relação às demais criaturas. Um dos textos mais significativos é, sem dúvida, este, em que Deus aparece solenizando a feitura do Homem:

Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra, sobre os répteis que se arrastam sobre a terra. Deus criou o homem à sua imagem; ele criou-o à imagem de Deus, e criou-o homem e mulher (Gn 1,26ss.).

Temos a impressão de que o autor sagrado se emociona ao escrever sobre verdades essenciais a respeito do Homem: a dignidade nativa, seja pela sua origem em Deus, seja por sua natureza diviniforme; a vocação régia; a complementaridade dos sexos e sua comum dignidade.

O autor do Salmo 8 também se admira ao considerar, por um lado, a pequenez do Homem em comparação ao universo criado, e, por outro, a dignidade de que é portador, uma vez que Deus se interessa particularmente por ele e lhe confiou a missão régia:

Ao ver o céu, que é obra de teus dedos, e a lua e as estrelas que plasmaste, que somos nós? E do homem tu te lembras e com o filho do homem te preocupas [...]. Pouco menor que os anjos o fizeste, de glória e esplendor o coroaste, das tuas obras deste-lhe o governo.

A narrativa sacerdotal da criação apresenta-nos o hexâmeron; aí Deus se admira, a cada dia, depois de cada obra que fazia. No fim de cada dia, Deus aparece contemplando a criação: "Deus viu que isso era bom". Ao final do sexto dia, quando Deus contempla a sua obra coroada pela criação do Homem, o hagiógrafo faz questão de acrescentar um advérbio de intensidade: "Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom" (Gn 1,31, grifo nosso) . O adjetivo bom pode ser entendido como belo também, uma vez que as noções de bom e belo convergem entre si. O olhar de Deus, na verdade, é a causa da bondade/beleza das criaturas, entre as quais o Homem ocupa um lugar especial. A Beleza em si comunica-se na obra da criação e, de modo especial, no Homem, criado à sua imagem e semelhança.

Em suma, toda a Sagrada Escritura, desde o Gênesis ao Apocalipse, é o registro da ação de Deus que quer relacionar-se de modo especial com o Homem. O Vaticano II refere-se ao Homem como "a única criatura na terra que Deus quis por si mesma" (Gaudium et spes, 24). Do Homem, Deus sempre espera uma resposta. E a resposta que Deus espera coincide com a auto-realização humana. Vontade de Deus e realização humana coincidem, de modo que não existe felicidade e beleza humana sem Deus: "A glória de Deus é o homem vivo; a vida do homem é a visão de Deus" (Santo Ireneu, Contra as heresias, livro IV). O Homem, imagem e semelhança de Deus, está orientado para a Beleza infinita, ainda que, por suas próprias forças, não possa atingi-la.

Deus quer que em Cristo e por Cristo, o centro e a plenitude da Revelação, o Homem participe de forma intensa e inacessível às forças puramente naturais, de sua própria vida e felicidade, contemplando face-a-face a Beleza em si. Isso nos leva a dizer, salvaguardando a unicidade do plano de Deus, que, já desde a criação, desde que o Homem é Homem, há nele uma orientação para Deus, para a Beleza infinita, orientação essa que encontra em Cristo o verdadeiro caminho de sua realização. Jesus, enquanto homem, é o caminho que nos conduz à visão imediata de Deus, visão oferecida por Deus mesmo, como graça, àqueles que se incorporam a seu Filho amado.

SÓ UMA ALMA QUE REZA PODE REALIZAR PROGRESSOS NA VIDA ESPIRITUAL

PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

São António de Pádua

Queridos irmãos e irmãs!

Há duas semanas apresentei a figura de São Francisco de Assis. Esta manhã gostaria de falar de outro santo pertencente à primeira geração dos Frades Menores: António de Pádua ou, como é também chamado, de Lisboa, referindo-se à sua cidade natal. Trata-se de um dos santos mais populares de toda a Igreja Católica, venerado não só em Pádua, onde foi construída uma maravilhosa Basílica que conserva os seus despojos mortais, mas em todo o mundo. São queridas aos fiéis as imagens e as imagens que o representam com o lírio, símbolo da sua pureza, ou com o Menino Jesus no colo, em recordação de uma milagrosa aparição mencionada por algumas fontes literárias.

António contribuiu de modo significativo para o desenvolvimento da espiritualidade franciscana, com os seus salientes dotes de inteligência, equilíbrio, zelo apostólico e, principalmente, fervor místico.

Nasceu em Lisboa numa família nobre, por volta de 1195, e foi baptizado com o nome de Fernando. Uniu-se aos cónegos que seguiam a regra monástica de Santo Agostinho, primeiro no mosteiro de São Vicente em Lisboa e, sucessivamente, no da Santa Cruz em Coimbra, famoso centro cultural de Portugal. Dedicou-se com interesse e solicitude ao estudo da Bíblia e dos Padres da Igreja, adquirindo aquela ciência teológica que fez frutificar na actividade do ensino e da pregação. Aconteceu em Coimbra o episódio que contribuiu para uma mudança decisiva na sua vida: ali, em 1220 foram expostas as relíquias dos primeiros cinco missionários franciscanos, que tinham ido a Marrocos, onde encontraram o martírio. A sua vicissitude fez nascer no jovem Fernando o desejo de os imitar e de progredir no caminho da perfeição cristã: então, pediu para deixar os Cónegos agostinianos e para se tornar Frade Menor. O seu pedido foi aceite e, tomando o nome de António, partiu também ele para Marrocos, mas a Providência divina dispôs de outro modo. Após uma doença, foi obrigado a partir para a Itália e, em 1221, participou no famoso "Capítulo das Esteiras" em Assis, onde encontrou também São Francisco. Em seguida, viveu algum tempo no escondimento total num convento de Forli, no norte da Itália, onde o Senhor o chamou para outra missão. Enviado, por circunstâncias totalmente casuais, a pregar por ocasião de uma ordenação sacerdotal, mostrou ser dotado de ciência e eloquência, e os Superiores destinaram-no à pregação. Começou assim na Itália e na França, uma actividade apostólica tão intensa e eficaz que induziu muitas pessoas que se tinham afastado da Igreja a reconsiderar a sua decisão. António foi também um dos primeiros mestres de teologia dos Frades Menores, ou até o primeiro. Iniciou o seu ensino em Bolonha, com a bênção de São Francisco, o qual, reconhecendo as virtudes de António, lhe enviou uma breve carta, que iniciava com estas palavras: "Agrada-me que ensines teologia aos frades". António lançou as bases da teologia franciscana que, cultivada por outras insignes figuras de pensadores, teria conhecido o seu ápice com São Boaventura de Bagnoregio e com o beato Duns Escoto.

Tornando-se Superior dos Frades Menores da Itália setentrional, continuou o ministério da pregação, alternando-o com as funções de governo. Concluído o cargo de Provincial, retirou-se para perto de Pádua, aonde já tinha ido outras vezes. Após um ano, faleceu nas portas da cidade, a 13 de Junho de 1231. Pádua, que o tinha acolhido com afecto e veneração durante a vida, tributou-lhe para sempre honra e devoção. O próprio Papa Gregório IX, que depois de o ter ouvido pregar o tinha definido "Arca do Testamento", canonizou-o só um ano depois da morte, em 1232, também após os milagres que se verificaram por sua intercessão.

No último período de vida, António pôs por escrito dois ciclos de "Sermões", intitulados respectivamente "Sermões dominicais" e "Sermões sobre os Santos", destinados aos pregadores e aos professores dos estudos teológicos da Ordem franciscana. Nestes Sermões ele comentava os textos da Escritura apresentados pela Liturgia, utilizando a interpretação patrístico-medieval dos quatro sentidos, o literal ou histórico, o alegórico ou cristológico, o antropológico ou moral, e o analógico, que orienta para a vida eterna. Hoje redescobre-se que estes sentidos são dimensões do único sentido da Sagrada Escritura e que é justo interpretar a Sagrada Escritura procurando as quatro dimensões da sua palavra. Estes Sermões de Santo António são textos teológico-homiléticos, que reflectem a pregação bíblica, na qual António propõe um verdadeiro itinerário de vida cristã. É tanta a riqueza de ensinamentos espirituais contida nos "Sermões", que o Venerável Papa Pio XII, em 1946, proclamou António Doutor da Igreja, atribuindo-lhe o título de "Doutor evangélico", porque desses escritos sobressai o vigor e a beleza do Evangelho; ainda hoje os podemos ler com grande proveito espiritual.

Nestes Sermões Santo António fala da oração como de uma relação de amor, que estimula o homem a dialogar docilmente com o Senhor, criando uma alegria inefável, que suavemente envolve a alma em oração. António recorda-nos que a oração precisa de uma atmosfera de silêncio que não coincide com o desapego do rumor externo, mas é experiência interior, que tem por finalidade remover as distracções causadas pelas preocupações da alma, criando o silêncio na própria alma. Segundo o ensinamento deste insigne Doutor franciscano, a oração é articulada em quatro atitudes indispensáveis que, no latim de António, são assim definidas: obsecratio, oratio, postulatio, gratiarum actio. Poderíamos traduzi-las do seguinte modo: abrir com confiança o próprio coração a Deus; é este o primeiro passo do rezar, não simplesmente colher uma palavra, mas abrir o coração à presença de Deus; depois, dialogar afectuosamente com Ele, vendo-o presente comigo; e depois muito natural apresentar-lhe as nossas necessidades; por fim, louvá-lo e agradecer-lhe.

Deste ensinamento de Santo António sobre a oração captamos uma das características específicas da teologia franciscana, da qual ele foi o iniciador, isto é, o papel atribuído ao amor divino, que entra na esfera dos afectos, da vontade, do coração, e que é também a fonte da qual brota uma consciência espiritual, que supera qualquer conhecimento. De facto, amando, conhecemos.

Escreve ainda António: "A caridade é a alma da fé, torna-a viva; sem o amor, a fé esmorece" (Sermomes Dominicales et Festivi II, Messaggero, Pádua 1979, p. 37).

Só uma alma que reza pode realizar progressos na vida espiritual: é este o objecto privilegiado da pregação de Santo António. Ele conhece bem os defeitos da natureza humana, a nossa tendência a cair no pecado, e portanto exorta a continuar a combater a inclinação da avidez, do orgulho, da impureza, e a praticar as virtudes da pobreza e da generosidade, da humildade e da obediência, da castidade e da pureza. No início do século XVIII, no contexto do renascimento das cidades e do florescer do comércio, crescia o número de pessoas insensíveis às necessidades dos pobres. Por este motivo, António convidou várias vezes os fiéis a pensar na verdadeira riqueza, a da cruz, que tornando bons e misericordiosos, faz acumular tesouros para o Céu. "Ó ricos assim exorta ele tornai-vos amigos... dos pobres, acolhei-os nas vossas casas: serão depois eles, os pobres, quem vos acolherão nos eternos tabernáculos, onde há a beleza da paz, a confiança da consciência, a opulenta tranquilidade da eterna saciedade" (Ibid., p. 29).

Não é porventura este, queridos amigos, um ensinamento muito importante também hoje, quando a crise financeira e os graves desequilíbrios económicos empobrecem não poucas pessoas, e criam condições de miséria? Na minha Encíclica Caritas in veritate recordo: "A economia tem necessidade da ética para o seu correcto funcionamento não de uma ética qualquer, mas de uma ética amiga da pessoa" (n. 45).

António, na escola de Francisco, coloca sempre Cristo no centro da vida e do pensamento, da acção e da pregação. Esta é outra característica típica da teologia franciscana: o cristocentrismo. Ela contempla benevolamente, e convida a contemplar, os mistérios da humanidade do Senhor, o homem Jesus, de modo particular, o mistério da Natividade, Deus que se fez Menino, se entregou nas nossas mãos: um mistério que suscita sentimentos de amor e de gratidão para com a bondade divina.

Por um lado a Natividade, ponto central do amor de Cristo pela humanidade, mas também a visão do Crucifixo inspira em António pensamentos de reconhecimento para com Deus e de estima pela dignidade da pessoa humana, de modo que todos, crentes e não-crentes, possam encontrar no Crucificado e na sua imagem um significado que enriquece a vida. Escreve Santo António: "Cristo, que é a tua vida, está pendurado diante de ti, para que tu olhes para a cruz como para um espelho. Nela poderás conhecer quanto mortais foram as tuas feridas, que nenhum remédio teria podido curar, a não ser o do sangue do Filho de Deus. Se olhares bem, poderás dar-te conta de como são grandes a tua dignidade humana e o teu valor... Em nenhum outro lugar o homem pode aperceber-se melhor do seu valor, a não ser olhando para o espelho da cruz" (Sermones Dominicales et Festivi III, pp. 213-214).

Meditando estas palavras podemos compreender melhor a importância da imagem do Crucifixo para a nossa cultura, para o nosso humanismo nascido da fé cristã. Precisamente olhando para o Crucifixo vemos, como diz Santo António, como é grande a dignidade humana e o valor do homem. Em nenhum outro ponto se pode compreender quanto o homem vale, precisamente porque Deus nos torna tão importantes, nos vê tão importantes, que somos, para Ele, dignos do seu sofrimento; assim, toda a dignidade humana aparece no espelho do Crucifixo e olhar em sua direcção é sempre fonte do reconhecimento da dignidade humana.

Queridos amigos, possa António de Pádua, tão venerado pelos fiéis, interceder pela Igreja inteira, e sobretudo por aqueles que se dedicam à pregação; oremos ao Senhor para que nos ajude a aprender um pouco desta arte de Santo António. Os pregadores, inspirando-se no seu exemplo, tenham a preocupação de unir doutrina sólida e sã, piedade sincera, incisiva na comunicação. Neste Ano sacerdotal, rezemos para que os sacerdotes e os diáconos desempenhem com solicitude este ministério de anúncio e de actualização da Palavra de Deus aos fiéis, sobretudo através das homilias litúrgicas. Sejam elas uma apresentação eficaz da eterna beleza de Cristo, precisamente como António recomendava: "Se pregas Jesus, Ele comove os corações duros; se o invocas, alivia das tentações amargas; se o pensas, ilumina o teu coração; se o lês, sacia-te a mente" (Sermones Dominicales et Festivi III, p. 59).
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VIDA E CULTURA CRISTÃ

As discussões e as indispensáveis reflexões sobre a sustentabilidade da vida na Terra não podem dispensar a referência à cultura. Ela é, inquestionavelmente, um elemento fundamental de sustentabilidade, projeta o futuro e permite a superação de imediatismos, reducionismos e considerações meramente materialistas da vida. É óbvio que as responsabilidades da comunidade política não podem ser exercidas adequada e frutuosamente sem o substrato da cultura. Na polissemia das culturas que confeccionam o rico mapa da humanidade na sua história, não se podem desconsiderar o patrimônio e a força de referência da Cultura Cristã.

Seu substrato é consistente e tem força de sustentação de projetos e entendimentos necessários para a construção da paz e a conquista da justiça. Essa riqueza, por isso mesmo, não pode ser relativizada ou travestida por práticas religiosas que reduzem a nobreza e largueza do ideal cristão a interesses que, mesquinhamente, estão no âmago do proselitismo, da prosperidade ou da pretensiosa e falsa manipulação miraculosa da ação e da presença de Deus. A cultura cristã tem uma fonte inesgotável na rica dinâmica da fé que o Cristianismo configura.

É significativa, para dar um exemplo, a ajuda clarividente que o Cristianismo oferece quando se trata da distinção entre religião e política e o princípio da liberdade religiosa. É inquestionável o grande relevo, no plano histórico e cultural, desse entendimento. Outros discernimentos geram e alimentam fundamentalismos e totalitarismos perniciosos para a liberdade humana e a indispensável consideração da autonomia das realidades terrestres. A cultura cristã recebe riquezas fantásticas da dinâmica da fé radicada nos Evangelhos, proporcionando uma visão de equilíbrio indispensável para o presente e futuro da história da humanidade. A fé cristã cultiva e conserva, por sentido de fidelidade, o inestimável patrimônio, em entendimento e prática, da transcendência da pessoa humana.

Em cena está sempre a Igreja Católica como sinal e tutela dessa transcendência. Esta tutela se enraíza na referência à pessoa de Jesus Cristo: “De fato, Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois, Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”, narra o evangelista João 3,1-16-17. Configurando o horizonte da Cultura Cristã, sublinha ainda: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Nisto se revela quem é filho de Deus e quem é filho do diabo: todo aquele que não pratica a justiça não é de Deus, como também não é de Deus quem não ama o seu irmão” (3,1.10).

Delineia-se nesse cenário a riqueza incomparável da fé cristã, indicando uma fonte inesgotável e consistente para a cultura, quando chega ao ápice do seu princípio fundamental, que é o de amar primeiro. Deus nos amou primeiro, com o desdobramento insubstituível do amor ao próximo que se traduz no serviço da caridade cristã. Na simplicidade dessas referências se localizam as raízes revolucionárias da cultura cristã que vem permeando a história da humanidade e comprovando sua importância insubstituível. Esta requer cultivo sério e praticante dos que professam a fé cristã, com empenhos e propósitos de alastrá-la como bem que tem força de permear e fermentar as instâncias, funcionamentos, instituições e o modo de viver vigente na cultura contemporânea.

A dinâmica da fé cristã, resumida nas lembranças dos princípios fundamentais que o Evangelista João aponta, guarda perenemente uma fonte de sustento que a humanidade precisa para encontrar respostas e saídas para questões cruciais vividas nesse momento. Basta pensar a necessidade de sentido que se percebe na sociedade em que vivemos.

A preocupação justa com os mecanismos de sustentabilidade da vida em nosso planeta guarda a questão candente e instigante sobre o sentido e o fim da aventura humana, incluindo a sua necessidade de paz e de justiça. Quem, além de Deus, pode oferecer uma resposta plenamente adequada às interrogações humanas mais radicais? Esta resposta, que só Deus pode dar, se revela e se dá no seu Filho, Jesus Cristo, feito homem, o Redentor da humanidade, por sua morte e ressurreição vitoriosa. Ele é a fonte inesgotável e referência insubstituível da caridade que pode transformar completamente o homem, fomentando a prática da justiça e fecundando as inadiáveis transformações sociais e políticas. Quem crê em Cristo tem a tarefa de analisar bem o mapa demográfico, a política e as culturas, empenhando-se na promoção da Cultura Cristã.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

CASTIDADE

Se queres viver a castidade mais considera que é um desafio vivê-la sozinho, não te preocupes, junte-se a nós:

AS VIRTUDES MORAIS NA VIDA INTERIOR

Acabei de ler este ótimo artigo sobre as Virtudes morais na vida interior. É uma importante leitura para quem deseja crescer e amadurecer na fé. Segue abaixo um pequeno trecho do artigo de Garrigou-Lagrange e o link para a leitura de todo o texto.

"Para compreender como deve ser o funcionamento do organismo espiritual, é importante saber distinguir, sob as virtudes teologais, as virtudes morais adquiridas, já descritas pelos moralistas da antigüidade pagã e que podem existir sem o estado de graça, das virtudes morais infusas, ignoradas dos moralistas pagãos e descritas no Evangelho. As primeiras, como seu nome indica, adquirem-se pela repetição dos atos sob a direção da razão natural mais ou menos desenvolvida. As segundas são ditas infusas, porque somente Deus pode produzi-las em nós; não são o resultado da repetição de nossos atos: recebemo-las no batismo, como partes do organismo espiritual e, se tivermos a infelicidade de perdê-las, a absolvição no-las restitui. As virtudes morais adquiridas, conhecidas dos pagãos, possuem um objeto acessível à razão natural; as virtudes morais infusas possuem um objeto essencialmente sobrenatural, proporcionado ao nosso fim sobrenatural, que seria inacessível sem a fé infusa na vida eterna, na gravidade do pecado, no valor redentor da Paixão do Salvador, no penhor da graça e dos sacramentos."

Garrigou-Lagrange, O. P.

NAQUELE TEMPO SE PRATICAVA VIRTUDES, HOJE PRATICA-SE LIBERDADE

Naquele tempo se praticava virtudes

Houve época em que o mundo se pautava pela prática das virtudes. Que o homem fosse católico ou não, o critério de sua vida seria o mesmo: cada qual trabalhava para ser reconhecido pela sociedade como pessoa honesta, honrada, homem de palavra, fiel. Virtudes como a coragem, a castidade, a piedade estava na pauta do dia. Se era católico, praticava essas virtudes voltadas para a vida eterna, virtudes sobrenaturais. Se não era católico, praticava essas mesmas virtudes sem a marca divina, eram as virtudes naturais. Não diferem em si das primeiras, apenas nessa qualidade divina que dá à virtude sobrenatural uma nova força, vinda de Deus, que conduz o homem ao seu fim último, em Deus. Que ele fosse um médico ou um jurista, soldado ou quitandeiro, dono de terras ou colono, todos se gabavam de dar a seus filhos a boa educação, de corrigir seus filhos malcriados, de ensinar aos filhos a prática das virtudes. Qual o pai que não se orgulhava de ver sua filha prendada tomar bom marido, recomeçando assim o ciclo virtuoso da família decente? Não eram santos, por certo. Mas quando pecavam ficavam com a consciência culpada diante de Deus e tinham medo de serem mal-vistos na sociedade.

O drama que estamos vivendo vem do fato de que o mundo atual não se pauta por estes critérios de vida. Homens "iluminados" introduziram um novo eixo no pensamento da humanidade. Este novo eixo levou Gustavo Corção a entender o mundo moderno como "antropo-excêntrico", ou seja, um mundo que trocou o seu eixo[1].

Hoje se pratica a liberdade

O pólo desarticulador do mundo veio da falsificação da liberdade. A prática da virtude passou a ser vista como obstáculo à liberdade. No pensamento greco-católico, a liberdade é uma faculdade do espírito inteligente que o faz mover-se para o bem por um movimento interior da própria pessoa, e não empurrada por alguma outra força. Ora, só existe verdadeira liberdade quando nos inclinamos para o bem. Quando os homens passam a ensinar que a inclinação para o mal também é válida, estabelecem as bases para uma nova civilização: o mundo sem Deus, o mundo sem virtudes, sem piedade.

O resultado é catastrófico. Nada ficou de pé na nova civilização. Não somente a Igreja Católica foi alijada de qualquer influência no pensamento moderno[2], como a simples prática das virtudes naturais perdeu qualquer respaldo. Se perguntarmos como vivem os homens deste nosso século, logo teremos uma lista das novas atitudes:

- o reino do sexo livre, sem qualquer tipo de limite tanto pela natureza quanto pela cultura. Forma-se uma pressão sobre todos para que se acostumem a romper com os limites da própria consciência. Esta pressão vem pelos programas de televisão, pelos filmes, pela presença constante diante dos olhos, de imagens sensuais espalhadas pelas cidades. É um dado positivo (no sentido de afirmativo) que vem somar a uma impressionante propaganda negativa que há décadas faz uma verdadeira lavagem cerebral, convencendo a todos que a castidade seria uma doença.

- o reino do erro livre, onde todos têm razão e ninguém é dono da verdade porque expulsaram a verdade. Expulsaram das suas vidas a autoridade divina, pois todas as religiões passam a se valer; expulsaram a autoridade paterna, pois um pai não pode mais corrigir seu filho, educá-lo na prática das virtudes condenando seus erros. O mundo onde cada qual constrói sua própria verdade é um mundo esquizofrênico. Como a inteligência humana se alimenta da verdade dos objetos que conhece, entra em colapso quando é forçada a criar verdades de dentro para fora, sua própria consciência passando a dar vida às coisas, o que é propriamente “tornar-se como deuses”.[3]

- o reino da desonestidade livre, pois é evidente que não cabe no mundo tantas verdades individuais opondo-se umas às outras. Por isso o colapso da verdade gera o ódio, a guerra, inimizades. Não pensem que algum tipo de governo ou de partido poderá escapar da corrupção. Ela é endêmica, faz parte essencial da vida onde a liberdade é deusa. Lá onde a verdade movia os homens ao amor, temos hoje o erro movendo os homens ao ódio. Na política como dentro das empresas, nas famílias como no mundo jurídico.

- o reino da infidelidade livre, pois a falsa noção de verdade e o falso amor geram uma relação social evolutiva, chacoalhante, em constante movimento. Nada fica de pé, nada tem aparência de duração, de solidez, de eternidade. Neste mundo não há lugar para a família. Por isso podemos dizer que o Divórcio foi a bomba de retardo lançada no mundo todo, que detonou a seu tempo sobre os alicerces da família, base da antiga sociedade.

Tudo isso está invadindo as casas há mais de cinqüenta anos, sem que os católicos reajam. O liberalismo já tinha minado as bases da família. Poderíamos dizer que o liberalismo fez o trabalho de sapa e a liberdade enlouquecida fez o trabalho de restauração da casa destruída, com novas bases. O pior de tudo não é o mundo ser assim; o pior é ver os católicos vivendo no meio disto sem enxergar; cegos, surdos, sem forças, marionetes burrificadas por cinqüenta anos de estupidez televisiva.

Na formação deste impressionante “Reino” do mal, algumas armas foram usadas de modo mais constante:

- a imagem, essa rainha da falsidade que escraviza a nossa imaginação, marca, fere, choca, tirando dela toda reação possível.
- o som, que trouxe ao mundo vários tipos de música que simplesmente destrói na alma qualquer capacidade de raciocínio, de concentração.

- a ocupação, escravizando o homem numa avalanche de preocupações, de trabalhos, de excitações que o obriga a estar 24 horas por dia "ligado" na coisa material. Ao mesmo tempo, através de décadas de mentiras, arrancaram a mulher do seu trabalho materno, do seu lar, onde sua presença era a maior garantia da boa educação dos filhos.

- a diversão, que vem preencher o resto de tempo que os pobre-coitados ainda poderiam dispor: agora é hora de malhar, de correr, de praticar esportes cada dia mais exigentes. E tem o show alucinante, a festa que termina pela manhã, a praia, a viagem, o carnaval.

Pobre gente. Já não conseguem entender as coisas mais banais. Já não percebem que os frutos dessa nova civilização já estão estabelecidos como práticas consagradas:

- o aborto que mata a criança inocente, contraponto dos famigerados "estatutos" da criança que protege o marginal de baixa idade.

- a eutanásia, que é o aborto dos velhos, tão indesejados pelo "custo" quanto os filhos. Temos como exemplo gritante desta prática o assassinato de Terri Schiavo no início de 2005, executada pela fome e pela sede com carimbos dos juizes e da polícia.

- o casamento homossexual, que choca a natureza, contraponto das vantagens que a lei outorga aos concubinatos. Chegamos ao ponto mais baixo na destruição da sociedade.

- vários detalhes da chamada bio-(sem)ética, onde homens levam o delírio até experimentos com genética humana, verdadeiros alucinados brincando de Deus. Seria o caso de perguntarmos: porque querem matar as crianças inocentes e, ao mesmo tempo, gerar artificialmente seres humanos? Não podemos deixar de incluir aqui a aberração dos embriões congelados que ninguém quer, seres humanos que sofrem sem piedade e que serão destruídos cruelmente.

Em todos esses exemplos a família aparece destruída. Já não é mais a base da sociedade. Os homens que construíram isto que está aí detestam a família, odeiam qualquer cheiro de tradição familiar, de fidelidade conjugal, de casa cheia de crianças.

Ora, se esses são os critérios e as práticas da nova civilização anti-cristã, então somos obrigados a constatar: o mundo está pronto para o Anti-Cristo!


[1] Corção, Gustavo, Dois Amores, Duas Cidades, Agir, 1967, Tomo II, parte 3 – A civilização do Homem-Exterior.
[2] Diga-se de passagem que o Concílio Vaticano II amordaçou a Igreja, retirando o último obstáculo para conter a avalanche.
[3] Foi a primeira mentira proferida na face da terra, do demônio a Eva. “Sereis como deuses” se desobedecerem a Deus. 

Dom Lourenço Fleichman OSB
Fonte:http://www.capela.org.br/Artigos/anticristo.htm
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